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História de: José Roberto Pacheco de Barros Fagundes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

José Roberto inicia seu depoimento contando sua infância na Urca, Rio de Janeiro, onde construiu laços de amizade que perduraram por toda juventude. Sempre manteve uma relação afetiva com esportes: acompanhou junto com seu pai várias partidas de futebol, além de jogar basquete pelo Flamengo na adolescência. José Roberto também conta que ingressou na Companhia Vale do Rio Doce ajudando no planejamento econômico de Carajás. Em seguida, trabalhou na área de Recursos Humanos, desenvolvendo projetos como a Olivale (Olimpíadas da Vale) e a Feira do Livro.

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História completa

P/1 – Boa tarde, eu gostaria de começar o nosso depoimento pedindo que você nos forneça o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é José Roberto Pacheco de Barros Fagundes, eu nasci em Santos, estado de São Paulo, num Sábado de Aleluia, 04 de abril de 1942. Que mais você perguntou?

 

P/1 – É isso aí. 

 

P/2 – O nome dos seus pais?

 

R – Névio de Barros Fagundes, de Jaú, já falecido, e Zilá Arruda Pacheco de Barros Fagundes, de São Paulo mesmo, capital. Está viva ainda, morando em Botafogo, está em forma ainda.

 

P/2 – O senhor conhece um pouco a história da sua família, um pouco a origem, a descendência materna e paterna?

 

R – Conheço, conheço bastante, conheço bastante. A do meu pai é tudo de Jaú, interior de São Paulo, café. O vovô Jonas, que eu conheci pouquíssimo, quando ele morreu eu tinha 2 ou 3 anos, ele tinha uma fazenda de café em Jaú, depois ele vendeu e comprou uma outra em Potirendaba. Potirendaba, a única coisa importante que aconteceu é que a Hortência do basquete nasceu lá, o resto… Potirendaba morreu no tempo. E papai era daquela família rica do café, inclusive ele passou a juventude dele nos Estados Unidos passeando. E, depois teve aquele crack da bolsa… 

 

P/2 – Foi em 1929.

 

R – 1929. Foi toda a família para o vinagre. O vovô Jonas ainda teve uma certa garra e comprou essa fazenda em Potirendaba e ainda deixou a família mais ou menos nos conformes. Mas muitos suicídios tiveram e papai se lembra de vários tios, como ele chamava, amigos do pai dele, que se suicidaram na época. Foi uma coisa horrorosa, o café. Então, o papai veio dos Estados Unidos para enfrentar a dura realidade. Daí, ele foi ser corretor de café em Santos. Ficou até… Casou-se com 30 anos, a minha mãe é dez anos mais nova do que ele, a minha mãe era professora de normal, acho que nem se naquela época já tinha normal, mas era professora. Namorou papai, casaram-se. Daí, papai ficou ainda em Santos até eu ter… Eu nasci uns três anos depois de casar, porque mamãe tinha um sopro. Mamãe sempre dizia que tinha um sopro, que não podia fazer esforço, não podia subir escada, não podia descer escada, não podia ir para lugares altos. Tanto que veio logo para São Paulo. O médico teria dito para ela que ela não passaria de 15 anos. Uma mãe de 16, se você fizer as contas aí, está inteiríssima.

 

P/1 – Só muito, não é?

 

R – Mamãe é uma grande figura! Lúcida! Lúcida! Totalmente lúcida. Inclusive agora ela me falou: “Ah, meu filho vou lhe fazer um suéter, já que está sem roupa de inverno, mas não pode ser preto.” Então, eu perguntei: “Por que não pode ser preto?” “Porque você sabe eu não estou conseguindo enxergar mais quando a lã é preta.” “Mas mamãe você sempre usou óculos!” “Não, nunca usei, eu uso óculos planos, porque não fica bem uma mulher de 85 anos não precisar de óculos!” Então, ela compra um óculos e lê de perto. Ela enxerga de perto e sem óculos, cara! Qualquer pessoa decente com 45 _____________. E ela está com 85, vai fazer 85 no final de ano e não usa óculos. Mas a vista agora está começando… (risos). Coisa horrível! E eu com 4 anos… Papai era amigo do Walther Moreira Salles, porque o pai do Walther Moreira Salles era amigo do meu avô. Então, o Walther chamou o papai para vir para o Rio para trabalhar com ele. E o papai veio e trabalhou até os 70 anos de idade com o Walther Moreira Salles, depois se aposentou. E nós fomos direto para a Urca. Urca sempre foi um local da família, de uma irmã de meu pai. A irmã de meu pai, tia (Ioli?) casou-se com um (Castrupi?) e a família da Urca, grande (Castrupi?), tudo morava na Urca, em cinco, seis casas. Inclusive, essa que eu morei esse tempo. Então, nós ficamos nessa casa e depois papai alugou um apartamento na Urca mesmo e eu passei dos 4 aos 14 lá. Uma grande fase! Tinha o Forte de São João que era uma maravilha para você brincar. Tinha tudo lá, a praia era boa ainda, não tinha água de cor de Coca-Cola. E com 14 papai comprou um apartamento em Ipanema, esquina de Visconde de Pirajá com Jardim de Alá. Sabe onde hoje o Garden? Tem o Garden embaixo? Um barzinho bom, tem chope na mesa! E eu fiquei lá trinta anos, depois papai já estava velho para ficar lá… Bom, nesse meio tempo eu casei um monte de vezes e tal. Depois papai morreu e mamãe comprou um apartamento pequeno e pronto. Esse é o perfil do papai e da mamãe.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho? Vamos voltar em relação aos seus avós, quais são suas memórias um pouco dos avós que você conheceu?

 

R – Pouquíssimas, porque mamãe era filha temporona. Quando mamãe nasceu ela tinha dois irmãos com mais de 35 anos e tinha a minha madrinha, a Doca, grande amor da minha vida, já morreu, e a Doca tinha uns 20 e foi quem tratou… Porque logo depois o meu avô Antônio morreu de tifo e quando mamãe tinha 8 anos a mãe morreu, deu um derrame e morreu.

 

P/1 – Qual era a profissão desse avô, você sabe?

 

R – Ele tinha um armarinho, vendia não sei o que. Eu sei disso porque os dois irmãos da mamãe roubavam ele desbragadamente, bebiam desbragadamente, os dois alcoólatras, minha mãe tem um pavor de alcoolismo por causa disso, os dois eram alcoólatras.

 

P/2 – Era em São Paulo?

R – São Paulo, capital. Mas a família da… É São Carlos, São Carlos do Pinhal. Foram para lá. E o… Quer dizer, vovó Zulmira nem falo. Vovó Zulmira, acho que é a primeira vez que falo assim, e o vovô Antônio são os pais da minha mãe. Morreram cedíssimo, mamãe tinha 8 anos, sei lá. Vovô Jonas eu conheci bem, apesar de ele ter morrido quando eu tinha uns 4 anos, eu me lembro bem dele. Até porque ele tem muita foto, que a gente ia para a fazenda lá em Potirendaba, eu tenho várias fotos dele, uma figura. Ele era diabético, chato, esse negócio de tomar insulina. Ele dizia que eu ia ficar: “Você ficará um dia, tem que aprender a tomar injeção.” Papai também ficou diabético aos 40 anos. Eu estou enganando, já estou com quase 60 e ainda não fiquei. E não tenho nem propensão, por enquanto, estou dando sorte. E a vovó Marfisa, só pelo nome Marfisa, ela viveu até os meus 14 anos. E a lembrança que eu tenho dela, rapaz. Eu quando passava as férias em Santos, que eu ia... Eu me mudei com 4 anos para cá, para o Rio. Mas mamãe todas as férias ia para Santos visitar a Doca, irmã dela. E eu ficava lá e algumas vezes me levava para a casa da vovó Marfisa, que também morava em Santos e a vovó Marfisa adorava me dar banho. Eu tinha pavor, porque sabe antigamente aquelas buchas, cara! Depois do banho da vovó Marfisa parecia que eu tinha ido a praia, porque eu estava todo… Sempre foi uma exagerada. Aliás, a família do meu pai é tudo exagerada, papai quando tomava banho lavava o olho! Saía do banho com olho todo vermelho: “Papai, o que é que houve, se aplicou em alguma coisa?” “Eu lavo o olho por dentro!” Coisa bárbara! Papai demorava uma hora no banho (risos). O mise en scène que o papai tinha para sair de casa para trabalhar era inesquecível. Ele acordava às 5:30 da manhã, uma hora de banho, depois se vestia todo cheio de detalhes, esticava a roupa toda, botava o terno e quando ele saía era quase 8 horas da manhã.

P/1 – E como ele se vestia? Sapato, bota, como é que era?

R – Sapato, meia… Ternos, sempre ternos. Dava aquele nó de gravata, swing. Não sabe, não sabe… Swing, eu não sei dar, não, mas o nó da gravata normal, você passava para a direita, passava para a esquerda, ficava um triangulão grandão, era um nó gordo. Vocês conhecem o Godoy? Godoy dá o nó swing na gravata, uma coisa horrorosa! Ocupa o pescoço todo. Desculpa, Godoy! (risos). Mas é horrível!

P/1 – Mas isso quando ele trabalhava ainda com o Moreira Salles? Ele era assim?

R – É, a minha lembrança de papai não foi nem da época do… Eu me lembro de papai quando trabalhou como corretor de café, porque ele contava. E era provador também, era uma mesa redonda… Eu não vi ele fazendo, não, mas uma vez numa dessas visitas que a gente fazia a Santos ele me mostrou lá uma mesa redonda com várias xicrinhas de café, umas vinte assim. Aí você ia provando e cuspindo e dava tipo Santos, tipo A, tipo B, tipo exportação. Então, os caras tinham que saber isso. Eu estava liquidado, porque eu tenho pavor de café. Se tivesse que fazer isso… Mas a lembrança que tenho de papai sempre é trabalhando com Walther Moreira Salles e não sei se está na hora de falar da aposentadoria dele. Não sei se posso falar já?

P/1 – Pode!

R – O papai recebeu uma grandessíssima sacaneada do Walther Moreira Salles totalmente desnecessária. É aquela história do escorpião, né? Escorpião só sabe morder, banqueiro só sabe fazer isso mesmo. O papai era um homem de altíssima confiança do Walther Moreira Salles. Ele ficava lá no escritório ao lado do Walther e o Walter tinha dois dealers da ________, três até, o Western que era em Goiás, (Sotreq?) aqui no Rio de Janeiro e em Minas eu não me lembro o nome: “Ah, estou com problema lá na Sotreq. Quero que você fique diretor na Sotreq por três meses.” Papai ia lá e ficava três meses, resolvia o problema, voltava. Era assim, era o homem de confiança, era o cão de guarda do doutor Walther. Para você ter uma ideia, só aos Estados Unidos buscar a Elisinha Moreira Salles que tinha saído de casa, porque tinha descoberto estrepolias do Walther Moreira Salles ele foi duas vezes: “Élvio, Elisinha ouviu umas bobagens aí de umas amigas, pegou a mala, foi para Nova York, vai lá buscar pelo amor de Deus!” Papai fez isso duas vezes. Um dia papai estava com os seus 70 anos sentado lá na mesa trabalhando, o Walther Moreira Salles estava em Portugal, aí chegou um rapaz (Demostinho Madureira de Pinho?), um assessor do Walter, uns vinte e poucos anos, chegou lá, se sentou: “Élvio, estamos precisando daqui dessa sua sala.” Aí o papai: “Beleza, pode usar! Para onde é que eu vou?” “Não, não, nós estamos aposentando você.” Isso um ano depois do papai assinar todos os documentos que eles pediram para abrir mão de qualquer… Porque o papai era “inalpitante”, inclusive, não tinha nem carteira, uma confusão danada! Ele achava o orgulho da vida dele: “Eu não tenho carteira, com o Walther é tudo no fio do bigode.” Fio no bigode foi… Ele hoje… Bom, o papai acontecia isso com 75 anos de idade e ele chegou em casa e: “Zilá fizeram uma sacanagem comigo – sacanagem não porque nem palavrão ele dizia, era todo formal – mas quando Walter voltar de viagem eles vão ver só o que vai acontecer, porque o Walter!” Mas mamãe que sempre foi inteligente disse assim: “Ó Élvio, você acha que eles iam fazer isso sem o doutor Walther saber? O doutor Walther é o dono de tudo – já era Unibanco – ele é o dono de tudo!” “Não, mas Walter ia fazer isso comigo, Zilá? Trabalhei com ele! Trabalhei com ele 50 anos, não ia fazer isso comigo, nem há necessidade de fazer isso comigo.” O raciocínio que ele tinha até era bom: Por que razão fazer isso com ele sem precisar? Mas fez! E o papai viveu até os 80, viveu dez anos… Pelo menos desses dez anos, uns seis esperando o Walther voltar de Portugal para ele poder explicar. E nada, Walter não voltou nem a ligação. Nunca procurou. Então, foi aquele negócio. Papai passou a viver com uma pensão do INPS [Instituto Nacional de Previdência Social], que eu não sei porque razão ele tinha, que hoje deve ser 500 pratas, 600 pratas. Não podia mais sustentar o apartamento que ele tinha lá em Ipanema, que era um apartamento bom. Além daquilo não tinha mais nada, um carro, um fusca e o apartamento. Então, teve que vender o apartamento, pegou o dinheiro e saiu gastando aos pouquinhos até morrer, né. Hoje mamãe vive as minhas custas. A pensão da mamãe é 70% daquilo, não dá 300, não dá 200 e eu dou mesada para mamãe, pago plano de saúde da mamãe. Dou dinheiro para médico por fora da mesada. Quer dizer, eu só dei uma vingancinha com o Walther. Eu me lembro que uma vez eu estava voltando de carro, no Aterro, porque o Aterro era um trânsito horroroso, parado no Aterro, e estava comigo o Oscar Peixoto (que eu não sei nem se foi entrevistado aqui, porque se não foi é uma perda, porque é uma figura maravilhosa e foi o meu primeiro chefe na Vale), e o Oscar sabia da história, o Oscar todo todo temperamental, todo nervoso. Aí, nós estamos parando o carro e, de repente, o Oscar está aqui, eu aqui de copiloto, e parou um carrão grandão. Daí o Oscar: “Olha quem está aqui, é o filho da puta do Walther.” Daí, eu olhei e o Walther estava me olhando, não é? Daí, enquanto estava me olhando, baixou o vidrinho dele e eu baixei o meu também, ele: “Como vai José Roberto, vai bem?” Eu digo: “Como vai, doutor Walther, vai bem?” “E o nosso Neve como vai?” “Ele mal, doutor Walther, o senhor sabe!” “Ah, sim, sim.” Continuou ______________. E o Oscar lá no coisa assim: “Vai mal, sim, vai muito mal!”, querendo que o cara soubesse a… Mas ele sabia, não é? Vai ver se ele não sabia, trabalhou 50 anos com um cara, de repente botou ______ o cara não está lá. Ele não vai nem perguntar? Sabia, foi a minha vingança. Papai foi isso, sempre um pouco vítima da ingenuidade dele e credulidade… Credulidade, ingenuidade, né? Ele fez uma comigo também, boa. Aí já é a minha parte profissional com ele. A intenção dele pode ter sido a melhor possível, mas pô. Eu não sei se está na hora de contar porque vai na parte profissional, né?

P/1 – Pode contar. 

R – Eu trabalhei no banco Moreira Salles esses quatro anos, depois eu jogava boliche com o Armando Pittigliani, que trabalhava na Philips de discos, CBD, Companhia Brasileira de Discos, a Philips, e eu ia jogar boliche lá com ele e tal. Um dia ele chegou e: “Vem cá, quanto é que você ganha nesse banco?” Eu disse: “Ah, 400 pratas.” Disse: “Quer ganhar oitocentos?” Aliás: “Quer ganhar quinhentos?” Eu digo: “Quero.” “Então, vai ser meu assessor lá na Philips.” Digo: “Beleza.” Daí, cheguei para o meu pai e falei e meu pai quase que: “Vai sair do banco? Uma carreira promissora.” Eu digo: “Papai, não faz o meu perfil trabalhar em banco, não. E, de repente, aí eu vou gostar.” E eu não gostei, não; adorei, né?  Trabalhar na Philips, pô. Trabalhava dez vezes mais inclusive, porque no banco Moreira Salles era meio expediente, porque eu ainda estava terminando Economia de tarde. Então, trabalhava no banco de manhã, de tarde fazia Economia. Para mim, estava ótimo. Mas aí, quando eu terminei, eu entrei para a Philips. Na Philips era uma beleza, trabalhava no estúdio, só convivia com gente interessante. Você tinha dez dias de Philips que você participava de decisões importantes. Tinha uma reunião do elenco com o diretor, que na época era o Fernando Lobo. Sabe, o pai do Edu Lobo? E ele abria mesmo: “O que é que nós podemos fazer, o que é que nós podemos gravar? Da ideia.” E você dava. Você participava de coisas que podiam render para a empresa uma fortuna e qualquer cretino como eu participava! Pendor musical zero, nunca soube distinguir uma nota. Mas, aí aquele negócio dava palpite, entendeu? Não me lembro de nenhum outro lugar que eu pudesse dar palpite sobre o destino, tipo: “Quem que vocês acham que a gente deve contratar? Será que o Chico é bom? É bom _________?” O Edu, aquele pessoal todo que estava aparecendo, né? Apareceu o Milton Nascimento nessa época: “A gente chama o Milton Nascimento?” “Chama.” Peruei. Quer dizer, isso foi uma coisa maravilhosa. E nessa época, o Armando Pittigliani estava morando lá em casa, porque ele tinha feito uma obra na cozinha dele, aí chegou para o papai e: “Ah, deixa eu ficar aí, tio Neve. Vou ficar uma semana.” Ficou lá uns dois anos. Papai, de vez em quando, para sacanear, falava assim: “Como é Armando, a sua cozinha é grande.” (risos). Ele já tinha até alugado o apartamento, ele adorou, né? Ele era o tipo do cara, que já tinha separado umas duas, três vezes, não gostava de família, tinha pavor de família. Um dia foi lá, a minha família cativou ele, ficou lá dois anos. Inclusive, eu ia para o trabalho, ele ficava conversando com mamãe até… Porque ele chegava mais tarde. E a gente chegava sempre depois de meia noite, uma hora, duas, porque vários cantores só gravavam de noite. Elis Regina só gravava de noite, a voz dela só ficava boa de noite. Então, você gravava e tudo.

P/1 – Como é que era uma gravação da Elis Regina?

R – Ah, era ótimo porque, primeiro você gravava piano, baixo e bateria, depois, botava a orquestra quando tinha. Daí, ela vinha botar a voz. Só que ela aparecia lá sempre meia noite, uma hora. E fazia grandes caretas e apertava o diafragma, ela era engraçadíssima. Eu me lembro aquele Travessia: “Meu caminho é de pedra” O “pedra” dela gravou umas vinte vezes: “Não está boa essa ‘pedra’.” Tem uma hora: “Meu caminho é de pedra...” e saiu e achou que estava boa. Eu não entendia porra, nenhuma. Me chamava de “basquete”.

P/1 – É que ela era baixinha, não é?

R – Eu joguei basquete. Joguei bem. E a Elis gravava muito em São Paulo, porque o estúdio lá de São Paulo já estava mais moderno que o do Rio. Foi antes de ter esse da Barra. Então, eu levei muito ela, fui carregador de mala dela. Uma vergonha desgraçada, porque eu nunca vi uma mulher dizer tanto palavrão na minha vida, numa época que não se dizia, né? Meia meia, meia sete, sei lá. _______. Um dia meu pai foi… Me visitar, saber o que é que significava tanto aquele negócio que me tirava de casa às nove horas da manhã e voltava às duas. Subiu lá, porque era um andarzinho de escada, era na Avenida Rio Branco, em frente ao edifício Avenida Central, onde era o Cine Art Trianon, no mesmo prédio de entrada, antigo. Acho que nem… Acho, não, nem existe mais esse prédio, foi abaixo. Hoje tem uma escada rolante para baixo, escada rolante para cima, um prédio enorme. E o estúdio era lá. E papai subiu, já na escada, ele dá de cara com o pessoal do The Brazilian Beatles puxando a maior maconha: “Olha aquilo. Em que antro que o meu filho está metido!” Mas, pela primeira vez na vida, ele foi esperto, calculista, que ele nunca foi. Visitou, achou tudo muito bom e saiu, né? Uns dez dias depois, ele: “Tenho um amigo, doutor Esteves, que me deve muitos favores e me chamou para ser o homem daqui da empresa dele, aqui da… Fazer um dealer da Caterpillar, vai ser a Catermaq. E me chamou para trabalhar com ele, eu não posso, você sabe eu estou com o Walther. Mas eu indiquei o seu nome e ele aceitou.” Quer dizer, muita burrice minha, né? Tu achas que papai com 30 anos de estrada nessa área vai indicar eu que trabalhava com música?: “Ah, vai ganhar oitocentos!” Eu digo: “Porra, de quinhentos para oitocentos é o dobro, né, pô!” Aí, caí na asneira de… Fiquei lá um mês e nada a fazer, nada. Eu procurava um troço para fazer, digo: “Sei lá o que eu sei fazer desse troço aí, vender máquina, vender peça de trator.” Daí, depois de um mês, eu não aguentei, cheguei para o doutor Esteves e falei: “Doutor Esteves, de que se trata, o que é que eu vou fazer aqui?” Daí, ele: “Olha, por enquanto nada, estamos arrumando uma coisa para você, porque seu pai disse que você estava desempregado, precisava de alguma coisa e tal.” (risos). A primeira vez que o velho foi inteligente, rapaz, ele fez essa comigo. Usou a inteligência só uma vez na vida, contra mim! Ele queria me tirar daquele antro de perdição e fez uma sacanagem dessa comigo! Daí eu saí de lá, ainda tive que usar o prestígio dele que eu fui trabalhar com um camarada três anos ainda, que o papai me arranjou, aí ele arranjou mesmo, o cara precisava mesmo de mim. E depois eu entrei para a Vale em 1972, primeiro de abril. Entrei para uma subsidiária da Vale, Rio Doce Engenharia e Planejamento. A Vale do Rio Doce estava fazendo um estudo de viabilidade de Carajás. O Vale já começou e nem falou do basquete, pô! 

P/1 – Então, tá. Então, peraí. Vamos recuperar um pouquinho, então…  

R – Sacanagem não falar do basquete! A única coisa de esporte que eu fiz na vida… 

P/2 – E também da sua infância na Urca, dos 4 aos 14 anos.

R – Ah! Aquilo lá foi uma maravilha, você jogava todas aquelas ruas lá… Você conhece a Urca? Todas aquelas ruas lá tinha um time de futebol. Tinha o time da Otávio Correia e a Otávio Correia era dividido em três etapas: antes da pracinha, entre as pracinhas e depois das pracinhas. Tinha vários times e você sabia quem tinha carro. Então, você sabia: “Vamos jogar a pelada aqui, porque o dono do carro só chega às seis.” Era assim. E tinha o Forte de São João que era uma maravilha, tinha vários campos de futebol, tinha duas praias excelentes, tinha pista de atletismo, tinha pista de obstáculos…  Uma maravilha! Além de ter o Forte de São João, tinha a Escola de Educação Física do Exército. Todo esse pessoal que faz sucesso aí no esporte foi formado lá. Coutinho, inclusive. Cláudio Coutinho.

P/1 – A pista recebeu o nome dele depois em homenagem. Aquela pista Cláudio Coutinho.

R – Recebeu é. O nome era até outro, de um passarinho, Colibri... Bem-te-vi! Mas acho que ficou Cláudio Coutinho depois. A pista é uma belezinha! Você conhece, né? Você é de São Paulo?

P/1 – Sou do Rio.

R – E você?

P/2 – De São Paulo.

R – Não faz mal, não.

P/1 e P/2 – (risos).

R – Você é o que?

[Voz ao fundo – Sou carioca.]

R – Ah, então. Vamos tratar ele bem assim mesmo. Ninguém é perfeito! É da “capitar” ou do interior? “capitar”? Onde o trem faz “piuir”; o galinha “cocorocor” e o gato “miar?” É gostoso… Minha mãe… E lá você tinha uma infância totalmente solta, totalmente solta mesmo; de manhã, de tarde e de noite, mesmo!

P/1 – Mas como era o perfil dos moradores nessa época?

R – Ah! Cidade do interior. Cidade do interior. Todo mundo sabia: “Cadê o fulano?” “Ah! Fulano de tal saiu, hoje às sete horas pegou um ônibus ali e tal… ” Tipo: “Tá mal de vida, tá desempregado...” Aquelas coisas ruins de cidade do interior. Mas eu dos 4 aos 14 pouco me lixando, queria mais era liberdade e lá eu tinha, né? Total, total! Jogava até futebol! Não tem ninguém que jogou futebol pior na minha vida. Nunca vi ninguém igual! Eu jogava, porque todo mundo tinha que jogar, porque cada quarteirão tinha um time e você tinha que pertencer a seu time. Tanto que depois quando fui para Ipanema, não perdi contato com a Urca nem um dia, nem um dia e olha que no meu tempo, com 14 anos, eram duas conduções para você ir a Urca. E eu ia todo sábado de manhã, eu ia para o Andrews, que eu estudei no Andrews a vida inteira. Eu já saía do Andrews, ao invés de pegar uma lotação para Ipanema eu já pegava para Urca. Ficava na casa de minha tia, essa casa que eu morei, essa tia ainda era viva, e voltava para casa domingo de noite. Nunca me desliguei da Urca, não. Comecei a me desligar um pouco mais, desligar não, não ir todo dia quando eu tinha 17, 18, 19 anos aí tem festinha, não sei o que… Daí eu usava o carro do meu pai, daí eu jogava basquete também no Flamengo que era perto de casa. Então, já dificultava de você ir a Urca todo dia, senão eu ia todo dia e eram duas conduções. Não tinha uma só, não. Você tinha que parar na Pasteur, na virada lá do Pinel e pegar outra condução para a Uca. E a saída da Urca tinha que ser até às onze, porque senão o ônibus acabava também. Você tinha que ir a pé. Mas eu ia assim mesmo. Depois eu comecei a jogar basquete, os treinos eram as segundas, quartas e sextas. Eram três dias que eu não ia. Aí festinhas, essas coisas… Tendo carro. Mas daí depois 18, 19 e 20 eu pegava o carro do meu pai e ia para a Urca, todo dia. Urca é uma cachaça!

P/1 – Por que?

R – Ah! Você conhece todo mundo e como diz esse amigo meu que morou 26 anos nos Estados Unidos e voltou: “É a bolha. Aquela bolha de segurança que você vive.” Ele entra, passa no Iate e diz: “Estou na bolha!” Já pode relaxar porque está na bolha. Lá pode até ter assalto, mas é a bolha. A garantia, a segurança você para o carro, roubam. Mas é muito menos. Mas é a bolha, Urca é a bolha.

P/1 – Mas na sua adolescência como era esse contato ali com o pessoal do Exército? Era bom?

R – Era muito bom, muito bom. Porque lá era tudo muito organizado. A única coisa chata era que seis horas da tarde eles baixavam a bandeira e você tinha que ficar lá… Podia estar jogando o que tivesse, parava porque tinha que a bandeira abaixar. Mas era bom porque o Forte dava uma permissão para os moradores da Urca e você ia lá, era gostoso. Minha infância foi lá, a juventude já foi mais na praia, porque daí eu morava em Ipanema já não podia ir nem mais no Forte. Porque já não morava mais lá. Até poderia, mas não me interessava mais a praia já era mais o futebol de praia, as biritinhas eu gostava. 

P/1 – Em que praia? Em que altura de Ipanema você ia?

R – Não, Urca!

P/1 – Ah! Você ia a praia na Urca?

R – Depois eu comecei a ir no Leme. Porque o pessoal da Urca ia no Leme, em frente a Fiorentina que agora foi reinaugurada. Nós ficávamos na praia do… Quer dizer, eu frequentava o Leme porque era a praia perto do pessoal da Urca. Você vê que sempre tinha uma razão de ser. Porque a praia da Urca ficou infrequentável depois, né? Ficou suja, hoje você olha ali e parece que é Coca-Cola. Coisa horrorosa. Areia suja também. E a praia do Leme era bonita também e a gente ficava lá, o pessoal da Urca todo. Depois comecei a frequentar a Montenegro, hoje, aliás, uns vinte anos que eu frequento quase em frente ao Cesar Park, tenho uma rede de vôlei. A gente joga vôlei lá.

P/1 – E o basquete?

R – Basquete eu joguei três anos no Flamengo… 

P/1 – Você gostava, adorava, era um jogo que você brincava na rua? Como é que começou esse interesse pelo… 

R – Comecei porque era grande. Lá na Urca morava o Godinho que era o jogador do Flamengo, jogou até pela Seleção Brasileira. E o Godinho me viu quando eu tinha uns 16 anos e perguntou: “Qual é a sua altura?” “Tenho 1,91m.” “Então, vai lá no Flamengo.” Daí eu fui. Ele me viu na Urca, mas eu já morava em Ipanema. Quer dizer, às vezes dava para você ir a pé. Antes que o Dom Élder tivesse construído aquela, São Sebastião, aquela favela lá, a gente passava pelo meio da favela, dez minutos a pé você estava no Flamengo. Depois já teve que contornar, mas ainda dava para ir a pé. Mas foi uma boa época. Flamengo foi uma boa época, Flamengo foi gostoso, fiquei lá três anos.

P/2 – Você já era flamenguista?

R – Sempre fui. Quando eu vim para o Rio, a família toda (Castrup?) lá da Urca era quase tudo flamengo. Eu já adotei e não pensei mais.

P/1 – Você ia a jogos?

R – Todos. Todos, sem falta… Campos, Friburgo, esses estádios pequenininhos aí, Olaria, Bonsucesso, São Cristóvão, Portuguesa fui a todos. Eu sou fanático por esporte! Fanático por esporte, qualquer um. Qualquer um eu acompanho muito, gosto, entendo, leio.

P/1 – Algum jogo do Flamengo que tenha te marcado mais?

R – Lá no Maracanã?

P/1 – É.

R – Tem dois: Tem o gol de cabeça do Rondinelli e tem o pênalti que o Zico perdeu contra o Mazarópi, contra o Vasco. Os dois gols contra o Vasco. Foi a alegria e a tristeza. Foi a primeira vez que eu fui, que foi no jogo de inauguração do Maracanã. Foi paulistas x cariocas, eu ainda torcia para os paulistas, recém chegado (risos). Eu e papai fomos lá torcer pelos paulistas. Os paulistas ganharam, Didi fez até o primeiro gol e depois os paulistas viraram e ganharam. E me lembro muito da decisão do segundo tricampeonato do Flamengo… O Flamengo foi tricampeão em 1953, 1954 e 1955, mas a final foi em 1956, foi 4 de abril de 1956, uma quarta-feira de noite e naquela época você não podia ir no Maracanã de noite com menos de 14 anos e foi no dia do meu aniversário, 4 de abril de 1956. Aí papai me levou, me lembro que eu fui com a (Copel?) fotostática. Você tinha que ver ao contrário, você punha na luz assim e via por trás, pelo outro lado, uma confusão. Levei aquilo para mostrar, que frustração!, o cara não pediu. Daí foi 4 a 1, um jogo maravilhoso. Esse jogo também é inesquecível. E o resto fui tanto, fui tanto… Fui tudo, tudo.

P/2 – Da inauguração do Maracanã o que você lembra? Teve festejos?

R – Ah! Não lembro, não lembro. Tinha 8 anos, 7, mas não me lembro porque ou eu cheguei em cima da hora ou papai ficou conversando com alguém e demorou para tomar o lugar na arquibancada. Quando eu cheguei na arquibancada já tinha lá os times entrando em campo. Sei que o time do Rio era calção branco com camisa azul e do São Paulo era calção branco e camisa preta e branca, com gola vermelha, me lembro. Didi fez 1 a 0, os Paulista viraram o jogo.

P/1 – E o que teu pai ria, se emocionava ou ele era uma pessoa mais...?

R – Não, não demonstrava não. Não demonstrava, mas sofria. Sofria… Sofria… Sofria de maneira diferente, porque depois eu comecei a adotar o Rio e ele não adotou, não. Ele até morrer: “Sou torcedor do São Paulo.” De São Paulo e do São Paulo, então, a gente cansou de ver jogos com torcida diferente. No milésimo gol do Pelé, por exemplo. Se bem que ali eu estava torcendo para o Santos também, por causa do milésimo gol. Nós estávamos atrás daquele gol, eu, papai… 

P/1 – Ah, conta um pouco, por favor!

R – Papai era muito amigo do Athiê, Athiê Jorge Coury que foi presidente do Santos, anos, anos e anos. Papai era amigão dele mesmo. Foram colegas de infância juntos lá em Santos e quando fez o milésimo gol nos fomos ao vestiário, papai levou a gente lá. Uma das boas lembranças que eu tenho do papai. Ele conseguiu, foi lá no vestiário falar com Pelé. Nós fomos lá.

P/1 – Como era o espírito do estádio nesse dia?

R – Ninguém torcia contra, todo mundo queria ver, porque o Pelé já estava para fazer esse milésimo gol há três partidas. E se ele guardou para fazer no Maracanã ele é o maior artista do mundo, porque no jogo contra o Bahia, lá na Bahia ele botou duas na trave. Deu duas cacetadas: uma bateu na trave, no chão e saiu, outra bateu na trave, voltou para a intermediária… Quer dizer, ele queria era fazer o milésimo gol para relaxar. Porque desde que ele estava com 960 só se falava no milésimo gol dele. Ficou um ano, mais um, mais um (risos). Então, bateram o pênalti e ele enlouqueceu, mas ele já tinha tudo preparado, o Pelé. Todo o discursinho dele, as crianças pobres, aquela coisa toda, o lado do gol. Oldemário dizia que quando ele viajava com o Santos para o mundo todo aí, o Oldemário era repórter, mas também fotografava porque não ia levar duas pessoas e ficava ele sozinho. Então, ele dizia: “Oldemário, fica aí, ó, que o meu gol vai ser de lá para cá.”, contra esses times da África, da Ásia. Ficava lá, ele pegava na posição certa e “tum”. E Oldemário pegava a bola entrando direitinho: “Você é uma bosta de fotógrafo, não entende nada de _________, então vou te facilitar: só vou fazer gol daqui para ali, depois é que eu vou fazer daqui para lá.”(risos). Fazia seis, cinco, fazia a história do Oldemário. Mas o Maracanã é legal. Você sabe que eu ainda não fui depois que botaram aquelas cadeiras? 

P/1 – Reformaram?

R – Deve ter uns três anos já? Enchia o saco. É tão chato você ir, estacionar, roubam o teu carro. Nunca roubaram o meu carro, mas abrem o carro, pu… 

P/1 – Você vai em que lugar do estádio? Você vai em cadeira, em arquibancada?

R – Cadeira, cadeira especial, lá em cima. Mas, parar o carro lá é que é uma coisa. Não vou mais, há três anos que eu não vou. Agora, tem o tal do pay per view vejo tudo.

P/1 – Vocês tinham cadeira no Maracanã?

R – Não, mas amigos meus tinham e eu sempre levava eles de carona e usava cadeira. Valdir, vários outros. E quando não tinha, a gente comprava, para jogo. Valia a pena. Era um viciado em futebol. Sou, só que não vou mais. Basquete eu também sou viciado, porque eu joguei, né? Basquete eu sou viciado também: leio, acompanho.

P/2 – Ganhou campeonato?

R – Todos os jogos, todos os anos. Flamengo foi decacampeão e eu fui desse deca fui hexa, hepta, octa, ene e deca. Os cinco anos que eu joguei no Flamengo fui campeão. Eu, Flamengo foi campeão, né? E já tinha sido cinco anos antes. Depois o Flamengo desfez o time e eu fui para a AABB, Associação Atlética Banco do Brasil, lá na Lagoa, ao lado do Flamengo. Em me lembro que na época o pessoal todo foi para arranjar emprego no Banco do Brasil. Do Flamengo fui eu, Paulinho e Mascarenhas.

P/1 – Que é uma associação, um clube ligado ao Banco do Brasil.

R – Associação Atlética Banco do Brasil, AABB. Foi o Lupércio do Fluminense. Armamos um time bonzinho! Fomos o terceiro colocado até, no campeonato. Perdemos só para o Vasco e Flamengo. Mas era um time muito bonzinho. Joguei lá mais uns dois, três anos. Daí veio a Olimpíada de Tóquio, 1964. Para a Olimpíada de Tóquio eu estava treinando: “Eu estou nessa.” Estava treinando, treinando: “Eu estou nessa.” Treinando, treinando para cacete: “Tô nessa, tô nessa, estou nessa.”Eu me lembro que já tinha ido até o alfaiate para experimentar o terno para Tóquio: “Tóquio. Estou chegando!” Eu morava em Ipanema e o treino era lá na Urca, na Escola de educação Física do Exército. A gente treinava lá. Você vê como é que o negócio era? A gente treinava segunda, quarta e sexta, porque terça e quinta tinha treino do vôlei, quer dizer, uma coisa incrível. Hoje em dia treina todo dia, dez horas por dia. Antigamente, era segunda, quarta e sexta, depois do jantar. Então, eu me lembro que eu pegava o carro e ia para o Forte de São João e me lembro que quando eu tirava o pé do acelerador e botava no freio me dava uma repuxadinha aqui. Eu pensava: “Estou com princípio de distensão. Vou ficar na minha.” E eu estava lá disputando vaga entre os doze, jamais seria titular. Estava na rabeira para ir em décimo segundo. Então, não podia segurar, forçando lá e estou sentindo, mas só quando eu tirava o pé. Gozado, no treino não sentia nada, quando tirava o pé e tal. Daí sexta-feira de tarde saíram os doze. Pá… E eu estava! Daí eu aproveitei e cheguei no médico e: “Doutor Madeira, eu estou com uma dorzinha aqui, mas não impede de jogar, não, só quando tiro o pé do freio para...” “Ah, isso é clássico. Faça o exame de sangue, não sei que tal.” Apendicite. Fui internado sábado, operado domingo e o pessoal ainda foi segunda-feira se despedir de mim e foram todos para Tóquio. Sacanagem, né? E eu com maior cortão aqui. Eu sei que fiquei tão puto que parei. Não voltei mais a jogar basquete. Um mês depois o pessoal já tinha voltado, medalha de bronze. É mole? O pessoal já tinha voltado e eu não quis nem mais saber, nunca mais joguei. Parei de jogar com 22 anos. Foi em 1964, parei. Aí comecei a brincar de jogar vôlei na praia, só isso. De esporte parei ali. Futebol que eu gostava mesmo era um estrupício. Parei. Mas chato, né? Essa foi dura. Essa foi dura, né? Ainda mais com uma medalha! Não ia ser por minha causa que não iam ganhar, né? Era muita sacanagem, era o último reserva, pô! E antigamente (risos).

P/1 – Isso é difícil, para um atleta uma situação dessas é terrível.

R – E antigamente o basquete era jogado com cinco, seis, sete, só. Nenhum time jogava com os doze. Um time bom tinha oito jogadores para jogarem cinco. Quer dizer, o resto mesmo, como se dizia, era mortalha, só ia lá para torcer, torcer de uniforme.

P/1 – E em relação aos títulos ganhos no Flamengo? Algum que tenha te marcado mais?

R – Teve um que nós fomos presos depois. Esse marcou bastante. Acho que foi o ene ou o octa, sei lá. Nós ganhamos, depois fomos para a Fiorentina beber. Bebemos, e depois, só eu estava de carro, o carro do papai… 

P/1 – Isso em que ano? Mais ou menos?

R – 1960, 18 anos, 19, 1961 ... É 1961, 1962. Nós fomos para beber e tudo grande, eu era dos menores. Aliás, na época, era dos maiores, mas tinha gente do meu tamanho e maior até. Daí éramos nove. Só o Pisca aqui é que tinha carro. Então, fomos todos no meu carro: cinco dentro, dois deitados em cima do carro, um era o Otto e o outro era o (Micao?). Quer dizer, os dois maiores do que eu, então ficava pé sobrando, passando na Avenida Atlântica. E eu lá: “Levanta a cabeça!”, porque eu não enxergava com cabeça olhando para mim assim. Daí passou uma polícia e prendeu nós todos, levou lá para a Nascimento e Silva, Ipanema. Na época tinha um distrito, nem sei se ainda tem. Daí foi lá, daí o camarada telefonou para o Canela, que era o nosso técnico, e o Canela foi lá tirar a gente. Cara, foi horrível! E chamou papai também, né, cara, não deixou barato. A gente tomou um bronca horrorosa, esse foi o… (risos). Não foi o jogo inesquecível, mas foi o pós jogo inesquecível… Teve um que eu gostei muito, porque eu fiz a cesta, foi um brasileiro que teve em São Paulo. São Paulo armou um brasileiro lá para ganhar, né? Porque… (risos). Não, era melhor que nós mesmo, São Paulo era… E tinha convocação para o Sul-Americano. Então, o São Paulo queria convocar pelo menos uns dez dos doze. E como é que ele podia fazer isso? Não convocar os titulares, que eram os medalhões, Amaury, Wlamir, Edson, Rosa Branca, Valdemar, os papas, botar o segundo time, porque o segundo time ganhava do Rio também e, daí, não colocava ninguém do Rio, São Paulo colocava os doze. Entendeu a filosofia? Mas nós ganhamos deles lá e cesta minha, cesta minha no finalzinho. Nós estávamos perdendo por um ponto. Normalmente, quem arremessa quando está perdendo por um ponto é o cara lá de longe, o cara que tem um (pombo?) bom. Mas os caras marcaram muito de longe, deram para mim, eu digo: “Ah, seja o que Deus quiser!” Virei, arremessei, caiu, acabou o jogo. Então, nós fomos convocados, uns três ou quatro nossos. Senão, não seria ninguém.

P/2 – Você chegou a disputar o Sul-Americano?

R – Disputei e ganhei, lá em Montevidéu. Ganhamos. Mas foi um só que eu disputei, porque eu parei cedo, parei com 22.

P/1 – Qual era a sua posição?

R – Pivô, para você ver que barbaridade! Um metro e nov… 

P/1 – Por que?

R – Hoje, eu seria guarda baixo. Na época, eu era pivô baixo, mas era pivô. Os pivôs naquela época tinham entre um e noventa e dois metros. O resto era um metro e oitenta.

P/2 - ___________ é o Algodão, não é, o grande jogador da época?

R – Eu peguei até, morreu até o ano passado, eu peguei o final do Algodão, o Algodão já tinha uns 41, 42.  Ainda joguei com ele, tenho esse orgulho. Ah, uma figura ímpar, figura sem mácula.

P/1 – Na quadra era… 

R – Dentro, fora… Puríssimo, ele morava em Bangu, Aliados. Em me lembro que ele já tinha parado de jogar basquete, mas era um cara respeitado por todos, adversários, inimigo… Todo mundo respeitava o Algodão. E ele morava lá no Aliados e uma vez fomos jogar contra o time do Bangu. E o nosso time só queria saber de quanto ia ganhar do time do Bangu. Era coisa para 70 a 30 que era o placar na época de grande surra, né? E gostava desse time jovem, porque todo mundo jogava. Entrava a mortalha toda e tal, porque o do Flamengo era tão bom que eu nunca fui o titular do Flamengo e sempre fui convocado para a seleção brasileira. Nunca fui titular do Flamengo, você vê como o time do Flamengo era bom. Eu era o reserva e convocado. E não era porque tinha estrangeiro, não, era tudo brasileiro. Agora não, você vê um monte de cara que vai para a seleção brasileira é reserva no time, porque tem estrangeiro jogando. Mas lá não, era mesmo tudo brasileiro bom e tinha um negão lá que jogava no nosso time, o Moacir Pinduca, era um dos últimos reservas. Estava no final do jogo e o Canela foi botando os caras assim para tomar banho e botou o Pinduca. Pinduca foi o último reserva. Quando Pinduca entrou, ouve-se aquela voz, que sai da social do Bangu: “Chiclete de asfalto!” Pinduca olhou pro cara, balançou os “instrumentos” dele e: “Aqui, oh, chiclete de...” Acabou o jogo, o rapaz desceu, nós ficamos dentro do vestiário, os caras querendo quebrar a porta, para entrar na porcaria do vestiário. E todo mundo: “Hua!” Daqui a pouco o Pinduca saiu, e nós estávamos dando tanto no Pinduca lá dentro. Eu digo: “Vamos embora, nós vamos matar você de porrada, crioulo burro!” E pá, porrada no Pinduca. E o Pinduca: “Vocês não podem me abandonar!” Daí: “Vamos deixar você lá sozinho” E a gente perguntava: “Se o Pinduca sair, tudo bem?” “Tudo bem!” (risos). E o Pinduca colado na parede, que nem chiclete. Aí, colou. Daí, salvação: O Canela telefonou para o Algodão, que morava ali perto, o Algodão foi lá, o Pinduca saiu com ele, ninguém ousou encostar no Pinduca. O Algodão carregou, salvou o Pinduca. Para você ver quem era o Algodão! (risos). E eu joguei com o Algodão, dei essa sorte. Eu me lembro que o primeiro treino que o Algodão foi dar de juvenil, o juvenil treinava antes da gente, né? A gente, antes de chegar, ainda via um pouquinho o treino do juvenil. E era um  treino do juvenil, tipo experiência. Apareceu lá Montenegro, que depois jogou na Seleção Brasileira, aliás foi o maior jogador do Brasil abaixo do um metro e oitenta. O Montenegro foi o maior jogador do Brasil. Teve um época que fizeram na Espanha, primeira e única vez que fizeram um Campeonato Mundial até um metro e oitenta. Montenegro fez 45 pontos nos Estados Unidos, jogando de pivô, porque ele era um camarada de 1,80m, ele enterrava parado com as duas mãos. Eu nunca vi impulsão igual, parecia que ele tinha molas nos pés. Louco para cacete o Montenegro. Tinha uma história! Primeiro treino, nós estávamos lá vendo: “Pô, aquele garoto leva jeito.” Daí, o Algodão meio nervoso, porque era a primeira experiência dele como técnico. Ele sabia tudo de tudo, mas ficou nervoso. Aí ele: “Você vai lá, dá as duas passadas e faz a bandeira.” Daí, ele chegou para o Montenegro e: “Você vai lá, dá duas passadas e faz a bandeira.” O Montenegro deu duas as duas bolas e fez: “Pizu”. (risos). Daí o Algodão olhou para a gente e falou assim: “Ah, profissão difícil, muito difícil!” Ele queria matar o guri, né? (risos). E o guri: “Pizu”, balançando a bola aqui. E o Algodão fala: “Já vi que essa profissão vai ser muito difícil.” (risos). Acabou que o Montenegro virou um monstro, um craque, mas era doido para cacete! Montenegro fez um estágio na Vale, trabalhou na Vale uma época, ele só ia de moto e, quando chovia, ele botava agasalho da Seleção Brasileira, chegava lá de agasalho, tirava o agasalho, estava com o terno embaixo. Mas ele era original demais para Vale do Rio Doce. Aí, não ficou. Fez um estágio, acabou estágio, agradeceram e ele não ficou. Eu não sei como é que eu fiquei! Porque eu sou meio original para a Vale, um pouco original demais.

P/1 – Por que?

R – Você acha que alguém vai trabalhar assim? Ninguém. Eu vou, sem meia… Eu me lembro que teve uma época que eu tinha duas camisas: uma azul e uma vermelha (risos). Eu viajava, uma vez o Lara e o Maneco estavam me esperando em Vitória, quando eu saí do avião eu me lembro que o Maneco fez assim e o (Lara?): “E o que é que foi?” “Nós apostamos se você estava com a azul ou a vermelha e ganhou ele.” (risos). Camisa de malha! Que era com que eu trabalhava.

P/1 – Por que, como era o perfil dos seus outros colegas?

R – Ah, tudo enquadrado! Ah! Eu me lembro que era terno, aí eu tinha que usar, não tinha escapatória, terno é terno. Embora eu tivesse um terno cereja, para poder criar um certo clima (risos). Bordô, cereja, aquelas coisas. Para criar um clima, né? Mas tinha, usava. Depois eles: “Ah, acabou o terno.” Primeiro dia de trabalho meu foi muito engraçado. Sentei na minha mesa, primeiro de abril de 1972, sentei lá e veio uma moça: “Assina aqui.” Eu olhei, era um abaixo assinado para as mulheres poderem vir trabalhar de calça comprida. Essa é grande! E, pô, primeiro dia de trabalho eu já vou pedir coisa, disse: “Não quero, não, não assino.” “Ah, assina!” Eu assinei e um mês depois os homens fizeram também um abaixo assinado para… Um mês depois não, mentira, anos depois. Eu já estava trabalhando no prédio redondo, para tirar o terno. Aí foi a época do exagero, quando acabou o terno, teve nego que trabalhou com a manga… Mas eu não exagerei ,não, eu só era mal vestido, eu não era roupa diferente, não, era só ruim (risos).

P/1 – Mas já se usava muito jeans para trabalhar nessa época ou era calça social?

R – De maneira nenhuma, de maneira nenhuma. Mas eu usava. Eu usava tênis, camisa de malha. Essa camisa ninguém usa na Vale. É camisa tipo essa, essa não, essa também não.

P/1 – Camisa social?

R – É, como a minha, não usa, não usa. Eu só uso, tenho umas dez dessa aqui: branca, azul marinho, preta, azul claro, azul escuro, é que eu uso, com jeans.

 

P/2 – Cabelo cortado… Tinha essa coisa dentro da Vale?

R – Puta merda! Lembrou uma boa! Eu, em 1990, usava rabo de cavalo, grande e o presidente na Vale era o Schettino. Schettino já deu depoimento aqui. Ele começou como estagiário, se aposentou da Vale, foi presidente da Vale umas duas vezes. Aquele mineirão, né? E eu não usava rabo de cavalo na Vale, ia com o cabelo solto. Não usava, porque daí pegava mal, né? Cabelo grande, tudo bem, eu botava aqui para trás e o problema era meu. Mas teve um dia que eu cheguei cedo demais na Vale, cheguei oito e meia, digo: “Ah, eu não vou desmanchar o rabo de cavalo, não. Eu vou ficar com o rabo de cavalo, porque vou para a minha sala, ninguém me vê. Entrei no elevador, o elevador tinha um espelho, encostei lá e fiquei. Não é que o desgraçado do elevador, ao invés de subir, desce para o subsolo. Quem entra? O Schettino. O Schettino me olha assim: “Ah, gostei de ver, cabelinho cortado!” E segurou no meu queixo assim (risos). E estava todo esticadinho, não é?: “Cabelinho cortado?” (risos). Eu digo: “Hum, hum.” “Beleza, tinha que estar de porre, aquilo é um absurdo, daquele tamanho.” Eu já pensando em que hora do almoço eu ia sair para cortar o cabelo, porque daí eu não tinha saída, não é? Daí, parou no meu andar, o Schettino: “Salta.” Eu digo: “Não, vou saltar com o senhor. Subir com o senhor é uma alegria para mim.” Ele: “Salta, porra!” Quando passou com o cabelo, ele falou assim: “Oh Pisca, tu é viado? Tu dá o cu? Então, vá cortar esse cabelo agora!” (risos). Eu já desci naquele elevador, cortei, nunca mais eu usei rabo de cavalo. “Tu é viado? Dá cu? Então, vá cortar esse cabelo!” Porra, ficou louco, enlouquecido, cara, ensandecido (risos). Nunca pensei que fosse fazer tão mal a ele (risos). O cabelo grande ele aceitava, mas rabo de cavalo era cruel demais. Daí, eu cortei, cortei.

P/1 – E esse apelido “Pisca”?

R – Eu, com quatro anos de idade, mudei para a Urca. Daí, o primeiro dia, logo fui para a praia e eu: Pisca-pisca, apelido Pisca-pisca… Depois, ficou só um pisca, mas era Pisca-pisca o apelido. Piscava desbragadamente, não sabia porquê, né? Daí, quando tinha os meus 30 anos de idade descobri. A Vale do Rio Doce tinha um aparelho, alugou um aparelho para todo mundo descobrir o seu grau de visão. Então, o cara botava a cara lá e a mulher fazia as perguntas e você respondia. Na minha fila, botei a cara lá, fez uma pergunta, veio outro slide. Num daqueles slide, ela falou: “O que é que você está vendo agora?” Eu digo: “O número um, dois e três.” “No mesmo plano?”  Eu digo: “Não. O um está aqui, o dois está lá, mas muito no fundo, o três no meio.” “Nossa, você tem uma fotofobia muito forte. Você não costuma piscar, não?” Foi uma gargalhada na sala, porque todo mundo me reconheceu. Fotofobia das brabas: “Daí, o que é que eu faço, então?” “Usa óculos escuros. Mas não vai passar na hora, não. Demora.” Daí, a partir disso eu uso óculos escuros permanentemente.

P/1 – No sol fica… 

R – Não, eu uso aquele degradê, sabe. Então, eu uso de manhã, de tarde e a noite. Até hoje eu não pus, mas está lá. Mas eu, se não usar uns dez, cinco dias, não volto a piscar, não. Tem que ficar mais tempo, acho. Porque a fotofobia foi curada, ela demora para aparecer. Como demorou para sumir, mas sumiu. Mas o apelido ficou.

P/1 – E era um apelido usado no esporte, no trabalho?

R – Sempre. Esporte, sempre. Porque saiu da Urca, tudo meu saiu da Urca. Meu apelido na Urca era Pisca. Colégio, metade da minha turma da Urca era do Andrews. Qualquer pessoa que me chama de Zé Roberto, descobriu o Pisca é muito mais curto, muito mais rápido, vai o Pisca, não tem escapatória, não escapou de nada. Basquete foi o Godinho lá da Urca que me levou, Cpor [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva]., tudo. Cpor era aluno 20, 31, aí não tinha graça. Aliás, eu consigo tirar coisas boas te todos os lugares que eu fui, menos do Cpor. Não consegui tirar nada. Tem umas histórias mais ou menos engraçadas, mas que eu não conto, porque se não vão achar que eu gostei (risos). Cpor é uma coisa horrorosa.

P /1 – Por que é que é tão ruim assim? Foi tão ruim assim para você?

R – Falta de imaginação dos caras. Você tem que estar sentado assim conversando, passa um tenente, você tem que se levantar e… Vai se foder, pô! Por que? Se eu ainda tiver olhando para ele, tudo bem, vou cumprimentar, mas eu estou aqui conversando. E se não notar, tá ferrado! E, estudar topografia. A única coisa boa que tinha é que eu fiz cavalaria, andei a cavalo, gostava de andar a cavalo. Mas mesmo assim, depois tinha que lavar o “amigo”. Lavar o “amigo” não é mole, não (risos). Lavar o “amigo”, lavar a “bolsa” do “amigo” (risos). Sabe qual é a “bolsa” do “amigo”? Você pegava uma meia velha, uma meia velha dura, que se você batesse, você quebrava ela em cacos, vestia aquela meia e lavava a “bolsa” do “amigo”. É mole? Não é mole, não. Fiz muito isso: lavar a “bolsa” do “amigo”.

P/1 – Agora está entendido o porquê você não gostou de lá.

R – E sem contar as noites que eu perdi de serviço: Natal, Ano, Réveillon, outro Ano, jogo no Maracanã. Eu cansei de fugir. Teve uma famoso jogo do Santos com o Botafogo no Maracanã, 3 a 0, primeiro gol do Pelé, eu fui. Fui de bermuda, camisa do Cpor. Pulei o muro, assisti o jogo e voltei. Uma das poucas coisas engraçadinhas que tem lá. Eu era o maior e ficava lá na frente, na hora da… Você se formava às seis horas da manhã, todos: cavalaria, artilharia, saúde.

P/1 – Onde que era, Pisca?

R – São Cristóvão, na frente da Quinta da Boa Vista. Hoje, não é mais Cpor, que foi para outro lugar, mas tem uma coisa de exército ali, porque aquilo é uma coisa enorme. Na entrada principal da Quinta da Boa Vista à esquerda. Porque tem à direita, Dragões da Independência, e lá é a esquerda, uma coisa enorme. A gente andava a cavalo, lá por dentro da Quinta, uma coisa horrorosa. Batalha! (som imitando trotar de cavalo) (risos). Daí vem os caras e contra. Daí cruza e só faz assim: “Plá!” Quem caiu perde. Pô, vê se tem cabimento uma porra dessas. E o tenente fica lá contando. “Caiu, demorou para cair.” A gente queria cair logo, né, para acabar com aquela porcaria. O cara nem batia na gente, a gente caia. E eu estava lá, todo mundo formado para ler a ordem do dia. Para saber tudo que aconteceu na véspera, o que vai acontecer naquele dia, que não me interessa a  mí-ni-ma. E durava meia hora, seis horas da manhã. Daí, eu notei que eu por ser o primeiro da direita, que se eu fosse para cá todo mundo ia. Achei do cacete! Ficava lá em pé. Aí eu: (som imitando trotar de cavalo). Só que o capitão viu também: detido uma semana, fiquei uma semana lá dentro, fazendo o que eu não devia na formatura. Pô, eu tenho culpa, se os outros não têm responsabilidade, vou para lá, vou para cá (risos). Cpor acabou, não quero mais falar sobre isso.

P/1 – Agora, olha só, por exemplo, o país final de década de 1960, 1970, tinha uma questão política efervescente.

R – 1964, eu lembro bem.

P/1 – Você lembra, por favor.

R – Eu me lembro que eu estava com o Ronald mais o Leonir. O Leonir era presidente do Guaíba, time lá do… Presidente e técnico, do Guaíba, lá da praia da Urca, time da praia da Urca. Ronald, esse amigo meu que foi em todos os jogos comigo, que já morreu e morreu de câncer, mas era dez anos mais velho que eu; o Horácio, que é um cara que foi da Vale uns trinta anos e se aposentou. Nós estamos sentados no paredão, quando nós soubemos do Golpe, né? Foi 30 de março? Aliás, foi primeiro de abril. Eles falam 30 de março para não virar galhofa, mas foi primeiro de abril, de tarde. Quer dizer, cê quer saber de uma coisa? A minha preocupação primeira: “Fodeu o Campeonato Brasileiro!” Eu estava convocado para disputar um Brasileiro em 1964, antes da Olimpíada (risos): “E, não vai ter Campeonato!” A minha preocupação. Depois, é que eu fui… Mas eu trabalhei nessa Catermaq, nesse um mês que eu trabalhei, foi exatamente no mês que teve aquelas arruaças na rua, você jogava bolinha para policial a cavalo cair. Foi uma parada. Mas eu nunca fui ativista, não. Embora sempre tivesse sido contra, sou contra a Revolução, os efeitos da Revolução, a demora. Não admito nem quando dizem que fizeram o negócio só para botar ordem para depois entregar. Para mim, não justifica porra nenhuma. Até posso, até acreditar que era inicial deles, mas sou contra totalmente. Mas não tomei nenhuma atitude como vários amigos meus tomaram, vários amigos meus participaram de passeatas. Eu não participei, não, não posso dizer nada de interessante dessa época.

P/1 – Alguma coisa alí na Urca em especial…  

(Fim da fita) 

R – Era UERJ [Universidade do Estado do Rio de Janeiro] ou UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]?

P/1 – UFRJ.

R – Era UFRJ, né?  Teve ocupação. Esse amigo meu que eu moro na casa dele hoje, ele estava ocupando lá e foi desocupado, foi devidamente desocupado (risos). Ele apanhou, ele estava naquela passeata, ele era muito mais… Mas eu não, era contra, mas não fiz nenhum movimento meu, não. Não ajudei, também não ajudei nada, fiquei na minha.

P/1 – E em termos de estudo, nessa época você estava na… 

R – Nessa época eu fazia Economia, eu estava terminando Economia. Terminei Economia em 1964. Não! 1964 com 22, terminei Economia em 1964, no fim do ano. Mas a minha era a Cândido Mendes. A Cândido Mendes não teve grandes… 

P/1 – Na cidade?

R – É . Cândido Mendes não existia em Ipanema. Cândido Mendes só tinha na cidade. Forte Apache. 

P/2 – Você fez Economia por quê? Por que é que você foi fazer Economia?

R – Eu fui fazer Economia, porque um colega meu morava no meu prédio, no quinto andar, e terminou o científico, eu ia fazer Engenharia, né, e falou assim: “Vamos fazer prova comigo de Economia? Para você é bom, que você treina.” Eu falei: “Porra, treino? Eu não tenho grana, tem que se inscrever.” Ele falou: “Eu pago a sua!” Daí, pagou a minha, eu fiz e passei. Daí, fiz Engenharia e não passei. Daí, eu digo: “Vou fazer um ano de cursinho, vestibular.”, que eu tinha feito imediato, né. Mas aí, eu comecei a cursar Economia, gostei e, aí, nem fiz mais vestibular de Engenharia. E assim o mundo perdeu um engenheiro (risos).

P/1 – Você gostava? Quer dizer, Engenharia era uma meta, era uma coisa que você desejava estudar?

R – Não, mas eu gostava muito de Matemática, gosto muito de Matemática, gosto muito. Então, eu achava que quem gostava de Matemática, tinha que fazer Engenharia. Quem gostava de Biologia, Física e Química tinha que fazer Medicina. E quem não queria fazer nada, fazia Direito, que estava certinho, encaixava direitinho. Daí já tinha que fazer Clássico, no meu tempo era assim. Científico era para Economia, Administração, Direito. Direito, não. Direito, Línguas, tudo era Clássico, tinha que fazer Clássico, nunca foi minha vocação, não. Eu fiz Economia, nunca exerci. Daí, quando entrei para a Vale, o Oscar Peixoto, esse cara que eu já citei ele aqui, ele falou assim: “Olha, você com esse diploma de Economia, não vai adiantar nada, não. Faz aí alguma coisa de Administração.” Eu falei, pô, estudar de novo, já tinha uns dez anos, foi em 1972. Daí, eu fui para a Bennett. Na Bennett era gostoso. De noite, lá na Bennett era até bom. Eu fiz em três anos a conclusão de Administração, eu já tinha os créditos, né? Não pude ser mais rápido, porque Administração tinha um, dois, três, quatro, cinco, seis. Quer dizer, não adiantava você já ter vários outros créditos. Teve semestre que eu ia a faculdade duas vezes na semana só, só para fazer aquela matéria. Mas tive… Me formei em 1975.

P/1 – Mas isso era, quer dizer era…  

P/1 – Então, vamos tomar um cafézinho?

[Pausa]

[Voz ao fundo - Ok, gravando.]

R – O Marcos Daniel, que trabalhava na Vale do Rio Doce, ele tinha sido indicado pela diretoria da Vale para fazer uma empresa, subsidiária da Vale, para que se unisse com a United States Steel e fizesse uma empresa para fazer um estudo de viabilidade do Projeto Carajás. Quer dizer, a Vale e a United States Steel se uniram fazendo a (Valuek?), mas se uniram através de suas subsidiárias. A Vale, eu não sei se não podia na época, você, uma empresa estatal, ter um projeto meeiro com uma multinacional. Eu sei que a Vale se uniu a United States Steel, através da Rio Doce Engenharia e Planejamento, uma empresa criada para aquilo. E eu fui trabalhar naquilo. De início, para ser estagiário, não era nem estagiário, eu ia ajudar nos projetos econômicos. Porque aquele estudo de viabilidade de Carajás era uma coisa magnífica, aquilo que eu estava te falando de você conseguir logo no início ser importante para o negócio, ter decisões e tal. Então, poxa, a (Valuek?) estudou de que maneira que ia ser a prospecção. Bom, eu não vou falar sobre isso, porque o Breno já falou, o Eliezer Batista já falou, então não adianta falar. Mas eu estava trabalhando lá e acabei fazendo a parte administrativa da ________, tipo chefe de pessoal. Comprava coisas, fazia coisas, tive até uma vingança contra vendedor, que eu conto até hoje, é uma grande alegria, me vinguei de vendedor mal educado. Eu me lembro que era um tumulto desgraçado, a gente tinha alugado dois andares na Avenida General Justo. Dois andares enormes. E o camarada: “Precisamos de 18 aparelhos de ar-refrigerado, enormes. Como é que vai comprar? Não pode. Por que a Vale não pode? A Rio Doce ainda não tem nota-fiscal.” Uma confusão danada: “Pisca, vai lá comprar.” Nisso tinha um mês de trabalho. Eu levei um cheque, cara, de alguém lá, de um diretor, não sei se foi o doutor Arildo, doutor Costa Braga, para comprar 18 aparelhos de ar-refrigerado. Fui na Tele-Rio, ali da Cinelândia, sempre bem vestido como eu costumo ser, né. Saiu aquela fila de vendedores, que quando vê um maltrapilho entrar diz: “Ih, cacete, na minha vez.” Daí o cara lá de longe mesmo fingindo: “Se ele não perguntar nada para mim, eu não perco a vez na fila.” Daí eu olhei e falei assim, olhei para ele: “Onde é que tem ar refrigerado, meu amigo?” Eu fui lá, olhei: “E qual é o BTU [British Thermal Unit]?”, comecei a fazer perguntas e ele de longe mesmo para não perder a vez na fila, né. Eu digo: “Não dá para você falar aqui, não?” Daí, ele veio. Daí, só faltou me dizer: “Tu está me atrapalhando, hein.” Eu digo: “Tudo bem.” Pedi todas as especificações, tudo, ele escreveu tudo sobre aquele aparelho. Fui na rua e fiz assim: pisei e voltei, chamei o seguinte e mandei embrulhar 18. E fiquei olhando para o cara. Eu disse: “Embrulha 18 aí, onde é que eu pago?” Tirei o cheque, ah, que vingança boa! O cara ficou doido, o vendedor. Pô, o cara mal-educado. Peguei todas as especificações que ele me deu, saí, voltei: “Manda embrulhar 18 aí!” para segunda-feira (risos).

P/1 – A comissão é dele, né?

R – É, é. Daí, fiz a parte de pessoal, as admissões, a folha-de-pagamento. A folha de pagamento era engraçadíssima. Eu fazia a folha de pagamento sábado e domingo lá em casa, porque não dava tempo de fazer lá, era tudo na máquina, escrevia os nomes todos, não tinha computador, essas coisas, era tudo na munheca. Tira não sei o que, gente que tinha pensão alimentícia era uma barbaridade, porque é um percentual em cima do salário líquido. O que é que entra primeiro, o imposto de renda, ou o líquido depois do imposto de renda, depois abate? Ih, aquela coisa horrorosa! Eu fiquei ali uns dois anos… 

P/2 – Era uma equipe grande, nesse período que você entrou? Quantas pessoas tinham ali, mais ou menos?

R – Tinha muita gente, mas muita gente da Vale cedida ao Projeto. Quer dizer, da (Redec?) mesmo uns oito ou nove. A folha de pagamento que eu digo que eu fazia era de oito ou nove, mas não era mole, não. Era uma coisa, uma contaiada danada. Eu fiquei lá uns dois anos, daí eu queria mesmo era entrar para a Vale, né. Daí o (Waldir?) Pereira, um amigo meu lá da Urca, que já foi até diretor da Vale, é aposentado, a Verinha, a mulher dele já deu até entrevista.

P/2 – Ele deu também, o (Juruena?), né?

R – É, o (Waldir?) Pereira, o cara mais mal humorado do Brasil. Como é que foi a entrevista dele? Reclamou de tudo?

P/2 – Parece que foi boa, eu não estava, mas foi boa. 

R – Não posso acreditar, porque ele é de um mau humor terrível! Um cara que não é a (arma certa?). Eu me lembro que uma vez eu estava indo de carona com ele para a cidade, da Urca e ele metido a falar certo e tal, aí no meio do Aterro ele: “Não, porque nisso aí eu não dou minha rúbrica!” “(Waldir?), não é rúbrica, é rubrica.” “Rúbrica, rubrica tanto faz!” Eu: “Tanto faz é o caralho!” (risos). Ele freiou o carro e me mandou saltar no Aterro! Daí eu saltei no Aterro, o que é que eu faço? Atravessei a pista, peguei um ônibus, quando cheguei lá já estava na porta para pedir desculpa: “É realmente… E tal… Mas você não pode fazer isso comigo, eu sou o seu padrinho aqui na Vale! Você não pode fazer isso comigo, não pode me corrigir!” (risos) “(Waldir?), mas só nós dois no carro, pô!” Tanto faz, rúbrica ou rubrica tem que ouvir essa, né? Ficou puto! Daí o (Waldir?) sabia, aliás foi a grande sorte minha na Vale, eu não sei como é que seria se eu entrasse na Vale por outra razão. Mas a razão que eu entrei na Vale… Tinha um curso de supervisores, a Vale do Rio Doce estava fazendo um curso para supervisores de uma semana, de segunda a sexta.

P/1 – Em que época isso só para a gente se situar?

R – Eu tenho exata, 1973, curso para supervisores. A Vale do Rio Doce tinha 1200 supervisores. O supervisor é o mais importante da Vale, porque ele é o chefe direto do peão. Cada supervisor tem 200, 300, 30, 20 subordinados. É o cara que tem mais subordinado direto. O cara que vive em função de do que o supervisor manda ele fazer. É o que manda fazer, é o que manda na Vale. Se você conhecer um supervisor na Vale você está feito na Vale. Você telefona: “O fulano, consegue isso aqui para mim.” Pá. Consegue. Então, o (Waldir?) descobriu que a pessoa que ia coordenar esse curso, que era em Domingos Martins, em Vitória, lá no Espírito Santo. Chamamos lá Petrópolis capixaba. Uns 60 quilômetros de Vitória subindo já para Belo Horizonte, uma cidade alta, Campinho. O nome é Domingos Martins, mas chamam de Campinho. Tinha um hotel lá e eu ia ficar 18 meses recebendo 25 supervisores por semana e o cara que ia fazer essa coordenação tinha acabado de se separar, estava com a cabeça ruim, não queria ir. Daí sobrou uma vaga e ninguém queria ir, e eu que também tinha acabado de me separar disse: “É o ideal para poder descansar!” (risos). Daí eu fui, o (Waldir?) conseguiu: “O Pisca, que já trabalha aqui na (Redec?), já conhece toda a Vale.” Não conhecia porra nenhuma: “Já conhece a Vale toda e para ele vai ser bom.” Daí eu fui. Me lembro que você tinha que receber as pessoas, que começavam a chegar a partir de domingo. O pessoal de Itabira já vinha domingo, uns vinham de carro e tal. Daí de segunda de manhã até sexta de tarde tinham aula de contabilidade, de finanças, treinamento de orientação geral, área jurídica, área de recursos humanos e cada um empregado da Vale ia dar essa aula.

P/2 – Empregados da Vale é que davam aula?

R – Eram os gerentes, os caras que conheciam mais para os supervisores. Era do cacete! Um treinamento espetacular e cada matéria tinha uns cinco professores, para o cara não ir toda semana, né? Então, era eu que fazia também o: “Essa semana vou chamar o fulano, vou chamar o beltrano.” Então, tinha também uma certa ciência, não chamar dois caras muito caladões seguidos. Eu mudei muito foi essa aula depois do almoço, não dá, não, curso depois do almoço nego dorme. Então, dava dica ou dava custos quando ia o Hélio lá que dava uma aula animadíssima. Avaliação de desempenho e tal. E eu me lembro que você tinha que receber as pessoas, daí íamos para o salão, me lembro que a primeira aula era “Treinamento e Orientação Geral”, era falar sobre a Vale do Rio Doce e as ___ iam lá para falar e eu tinha que dar o bom dia oficial para eles; que estamos recebendo vocês aqui, o treinamento vai constar disso, disso e disso e passava depois a palavra para o primeiro professor que ia até depois na hora do almoço. E eu na hora do almoço tinha que divertir os caras, arrumar um joguinho de vôlei, sinuca, ping pong. De noite, né. Para se sentirem em casa, era a minha função lá. Fiquei 18 meses nisso. Me lembro que o Mariano, que era o superintendente na época, lá do Rio, Mariano é de Vitória, falou assim: “Você o que prefere (porque eu não era empregado da Vale), você prefere receber diária ou passagem?” Falei: “Na verdade eu quero passagem.” Ele: “Burro, porque você vai se acostumar lá, vai acabar ficando e não vai ter passagem.” Verdade o que ele falou só que eu fiquei 18 meses lá e nunca deixei de descer um fim de semana para o Rio. Nunca! Às vezes vinha sábado para voltar domingo, mas vinha. Vinha todo fim de semana, mas gostava muito de Vitória, mas não deixava de gostar do Rio e vinha para cá direto. ________ veio me pegar no aeroporto.

P/1 – Nessa época você era casado? Tinha filhos?

R – Não, já era separado. Em me casei em 1969 e me separei em 1972 e tive uma filha que nasceu em 1970. No meio desses 18 meses eu já me admiti na Vale. Me admitiram em junho de 1974.

P/2 – Como o que? Qual era… 

R – Para trabalhar na área de treinamento, porque estava nesse negócio de treinamento. Por isso que eu trabalhei na área de treinamento: eles queriam um administrador e não um economista. Foi aí que houve essa história. Mas o que eu consegui nesses 18 meses não está no gibi. Conhecer 1200 supervisores! E conhecer bem e no lazer, que é o troço mais importante! Não é no trabalho, não, é no lazer, jogando biriba com eles de noite: “Você sabe jogar truco? Ah! Você é de São Paulo, né?” Eu me lembro que a primeira semana cheguei lá de noite, o que é que eu vou fazer com esses caras, meu Deus do Céu! Tinham umas pessoas mais velhas, uns supervisores mais velhos.

P/1 – Só homens ou tinham moças?

R – Quando era operacional e área administrativa tinham pouquíssimas moças, o resto era tudo homem. Eram dez turmas de operacional para uma de administrativa. Nas dez operacionais não tinha mulher nenhuma e nas administrativas tinham duas ou três a cada 25. Mas no início eu pensava o que é que eu vou fazer para dar alegria para esses caras de noite. Eles é que me deram, começaram a jogar truco e eu não entendia porra nenhuma, olhando aquele jogo. Daí aprendi a jogar e já jogava com eles também. Então, conhecia bem os caras e quando voltei para o Rio: “Está acontecendo um negócio chato assim, estamos tendo que implantar um projeto não sei onde...” “Deixa que eu falo com beltrano, falo com sicrano.” Acabei ficando ponta de lança de implantação de projeto de recursos humanos. Às vezes, não era nem da área de treinamento, mas tinha alguma coisa a ver com alguém da área: “Leva o Pisca, que o Pisca conhece todo mundo bem.” Entrei para a Vale já conhecendo todo mundo. Isso aí não tem preço. Acho que não se pode fazer esse tipo com as pessoas que são admitidas, mas se pudesse. Eu tive uma virtude que eu gosto dessas coisas, eu gosto de gente. Eu gosto de conversar, gosto de ouvir as pessoas, gosto de gente. Muito mais do que trabalhar, gosto de gente. Então, para mim foi sopa no mel. Se é que isso é bom, mas deu certo. Acabou!

P/2 – Você sentiu diferença entre essas turmas, quer dizer, quem era de ferrovia _________?

R – Demais! O mineiro, o capixaba… Demais! Demais! E sabia, porque eu justamente gosto disso, eu sabia divertir o mineiro, como divertir o capixaba. Porque 98% era um e outro. Não existia Carajás ainda. Então, não vinha ninguém lá do Norte, só capixaba e mineiro. Sabia! Sabia direitinho! O mineiro mais sério. Um frio desgraçado e o cara lá de camisa de manga curta! Acordava às 5:30 da manhã e ficavam andando lá na praça. Eu olhava pela janela: “Puta, já acordaram, meu Deus!” Aí eu tinha que acordar também, fazer uma gala com eles lá embaixo. E o capixaba, todos bebiam muito, tanto o mineiro como o capixaba bebem para cacete, mas eu também bebia, era bom a beça! Mas o mineiro gostava mais de ficar jogando o carteado, o capixaba gostava mais de ping-pong, de passear pela cidade. E nós modificamos a vida da cidade. Porque lá em Campinho não tinha um cinema e toda quarta-feira eu mandava trazer do Rio um filme para passar lá e a cidade ia assistir o filme. Entupia, ficavam umas 200 pessoas lá vendo o filme e eu não me dei conta que aquilo estava sendo importante para a cidade. Não sei porquê. Então, teve um dia que tinha um jogo do Vasco contra a Desportiva Ferroviária lá em Vitória. Aí eu falei assim: “Ah, essa semana não vai ter filme, não, vou levar o pessoal.” Na segunda-feira já perguntei: “Quem quer ver filme ou…”  “Ah, futebol! Futebol! Futebol!” Conclusão: fomos ver o futebol, quando voltamos… O prefeito assim me esperando: “O senhor não passou o filme hoje, a cidade inteira reclamando.” (risos). Pedi muitas desculpas, mandei vir um filme, passou na quinta rapidinho. Daí não adia, tinha futebol? Mas o filme estava lá para a cidade. Aí não tinha mais escapatória, a cidade já se acostumou (risos). Filmes bons que a gente trazia. Bons filmes.

P/1 – Quais? Você lembra de algum?

R – Ah! Me lembro, uns bang-bang bons, teve um do Papa, um filme longo, terminou quase a uma hora da manhã, tinha três rolos, sei lá, dava quase três horas de filme. Uma coisa horrorosa! O pessoal reclamou também, mas não me lembro mais. Eu me lembro desse que, quem fazia o papel do Papa... Você viu aquele filme Um bonde chamado desejo? Era um cara com nome italiano, era esse que fazia o Papa. Não estou lembrando do nome dele. Tinha muito daqueles filmes O Dólar Furado, tinha filme do A Pantera Cor-de-Rosa. Tinha que ser um filme alegre ou de violência contida, porque filme muito sério também o pessoal ia dormir. Mas a cidade participava diretamente. Sabia, mas eu não… Quando acabou o negócio foi duro para a cidade, foram 18 meses. Quando tinha um feriado nacional no meio da semana, não tinha. Por isso que demorou 18 meses, porque… (risos). É, não tinha curso quando tinha feriado nacional. Daí eu ficava no Rio fazendo as avaliações, porque no final tinha avaliações. Avaliação minha, tomava um cuidado danado.

P/1 – Essas pessoas (no prato?) mesmo que viessem eram supervisores de áreas diferentes, como era o trato com eles?

R – Era maravilha também, porque eles também precisavam conhecer pessoas de áreas diferentes, tipo: “Pô, você é o camarada que eu sempre faço um BG [?] pedindo material?” Um cara de Itabira falando com um cara de Vitória. Isso é fundamental! Viajar e conhecer, isso é fundamental! Eu vou falar a coisa principal que eu fiz na Vale mais tarde que foi o Olivale. Fundamental você viajar, conhecer gente fora do trabalho. Você acaba descobrindo que o camarada que: “Ah! Você é que autoriza o pagamento de não sei o que assim, assim, assim. Quando eu precisar disso eu falo direto com você.” Já sabe quem é. Fundamental! A Vale é esse sucesso que é e sempre foi, porque as pessoas se conhecem. Nunca eu trabalhei na Vale com nenhum chefe que restringisse viagem. Nunca!: “Vai!” Você não precisa explicar muito não: “Olha, eu preciso… ” “Vai!” Todos os chefes meus, quer dizer, e todas as pessoas que precisavam se explicar para mim também para viajar: “Vai!” Viajar é a coisa mais importante que tem para você conhecer gente. Viajar pela Vale mesmo, para conhecer as pessoas, para resolver as coisas pelo método informal, mais rápido. Maravilha! Quando entrei para a Vale conhecia todo mundo! O camarada queria implantar um procedimento lá que ninguém queria fazer ele me chamou: “Pô, Pisca tem um cara lá que está fazendo o maior jogo duro.” “Quem é?” “Fulano de tal.” Então, eu ia lá nos meus alfarrábios, é da turma tal. Pá, ligava para ele: “Se é você que está pedindo… Vai.” Ia!

P/2 – Houve casos assim de pepinos que você tenha resolvido?

R – Esse aí foi um pepino. O camarada tinha que implantar um procedimento de informática que dava um trabalho lá e o camarada não queria, não queria. Daí eu pedi, o cara: “Por você eu faço.” E fez e várias outras facilidades, por exemplo: avaliação de desempenho. Avaliação de desempenho você tinha que fazer, porque agora não, agora avaliação de desempenho é grana.___________. Mas antigamente era só… Então, o camarada do treinamento ia visitar as áreas para falar sobre avaliação de desempenho. Então, tinha que juntar todos os supervisores. Quando juntava vinte, apareciam três. Daí não adiantava o cara falar para três, porque 17 não iam ouvir. Então, passou a eu. Os caras me ensinaram como é que fazia avaliação para eu ir. Porque eu ia lá com os vinte e vinham os vinte. Me conheciam!: “Ah, o Pisca vem aí!”

P/1 – E o que você observava numa avaliação de desempenho?

R – Não! Você tinha que explicar como que o supervisor ia avaliar os seus subordinados.

P/1 – Ah, entendi. Pensei que você também fizesse essa avaliação de desempenho.

R – Não, não. Então, você tem: “Nessa página aqui você faz isso, você quando perguntar isso deve avaliar da seguinte maneira.” Explicando. E o cara não ia. Agora, comigo lá o cara ia. E os caras gostavam de mim, eles iam. Isso aí, tipo embaixador da área de Recursos Humanos eu sempre fui. Sempre fui e sempre deu certo por causa disso. Iria assim de qualquer jeito, porque eu gosto de conhecer as pessoas. Mas de bandeja na minha mão, 1200 supervisores em 18 meses. Pô! Tinha que aproveitar.

P/2 – Nesse trabalho você entrou em contato com aquilo que chamam na empresa de Cultura Vale ________ .

[Vozes superpostas]

R – Totalmente, totalmente! Você quer ver uma coisa? A Vale do Rio Doce é o sucesso que é, vou te dar um exemplo rápido, eu quando coordenei… A Vale do Rio Doce já fez seis olimpíadas Olivale. Na primeira eu participei, na segunda eu ajudei a fazer e nas quatro últimas eu fui o coordenador geral do negócio. Eu, nas quatro últimas que fui o coordenador geral, eu dava ordens em vários colegas meus hierarquicamente superiores. Não mexiam uma palha sem me falar, gerente geral. Nisso que a Vale é bacana, entendeu? O cara não tinha essa de: “Sou gerente geral!” Não!: “Quem é o coordenador geral? É o Pisca? Pisca, vou fazer isso assim, assim. Faz isso?” “Faz, não faz e tal.” Na primeira vez, tudo bem, eu que sabia, a Olivale estava toda aqui no papel. Eu que manjei, que organizei, mas na terceira, na quarta, na quinta eles já sabiam também, mas nem por isso me atropelavam, entendeu? Tem um exemplo, o (Edécio?). O (Edécio?) era gerente lá de Recursos Humanos, lá de Itabira: “Pisca, vou fazer isso assim, tá?” Como se fosse um subordinado meu. Quer dizer, só uma empresa assim, legal como a Vale, consegue ter um ambiente desses. Quer dizer, não sou eu, não. Não é virtude minha, não. É que eu estava fazendo o negócio. O Maneco, que era o superintendente da Olivale, superintendente de comunicação empresarial da área dele que se fazia Olivale, ele falou: “Vou te botar como gerente-geral.” Ninguém reclamou nada. Gerente-geral, como coordenador-geral, ninguém reclamou nada. ___________ fazia e desfazia. Olivale. Se estiver na hora de falar de Olivale. Olivale é um capítulo.

P/1 – Vamos falar um pouquinho, claro, conta um pouquinho.

R – Eu me lembro que antigamente, quando eu digo antigamente é antes de mim mesmo, o único movimento esportivo que a Vale do Rio Doce tinha é que, uma vez por ano, as famílias de Itabira entravam no trem, desciam para Vitória e disputavam os joguinhos de futebol lá. Se hospedavam nas casas dos capixabas, porque tinham muito poucos hotéis lá em Vitória. E vice-versa, o pessoal de Vitória ia para lá no outro ano. Era isso. Eu nunca cheguei a participar, aliás, até porque eu era do Rio. Isso acontecia. Em 1970 e qualquer coisa teve uma primeira, na época em que o presidente era até o Fernando Reis. Ele quis fazer. Quatro times: um de Belo Horizonte, um de Itabira, um de Vitória e um do Rio. Daí, eu fui até jogador de basquete pelo Rio. E o Maneco jogava basquete para o Vitória. Nós jogamos lá e achando bom aquele negócio: “Daqui a dois anos nós vamos fazer outro.”

P/2 – E o Olivale já tinha esse nome?

R – Não, não tinha. Mas o Maneco é tão fodão que ele quando fez a primeira Olivale, deu Olivale II para prestigiar a primeira, não ficarem com aquela dor de corno: “Pô, nós fizemos um evento aqui tão bonitinho agora vem você Olivale I.” Maneco chamou de Olivale II. Eu quando falo até me emociono! Maneco… Sabia tudo (choro). Aí quando ele fez esse Olivale II, ele chegou para mim e disse: “Oh Pisca, é que você acha que o pessoal gosta de praticar esporte?” Daí eu fui falando, falando, falando: “Você tem certeza?” “Não, mas é um sentimento meu.” “Então, tudo bem, tem um mês para descobrir isso. Pé na estrada!” Cara, eu fui para descobrir isso e também para descobrir que times eu poderia levar. Porque eu estou achando, por exemplo, o time de Itabira. O time de Itabira, eu pego o pessoal de Nova Era, que é alí pertinho, boto junto com o de Itabira e faço um time. Saí com essas ideias na cabeça. Fiquei um mês circulando pela estrada de ferro Vitória-Minas, um mês. Descobri que uma cidade odiava a outra. Jamais Nova Era poderia fazer um Olivale junto com Itabira, junto, eu digo, o mesmo time. Entendeu? Governador Valadares jamais poderia fazer com Fabriciano __________. E vários esportes. Esportes eu não errei, não, até que eu acertei tudo. Aqueles esportes todos da Olivale até que eu acertei, não tive surpresa. Mas tive surpresa nisso, quando eu voltei perguntei: “Maneco, quantos times você acha que vai conseguir?” Ele: “Não sei, você é que vai ter que me dizer.” “Nós saímos com certeza que era Itabira, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro e Sistema Norte. Valadares vai querer vir sozinho, Nova Era vai querer vir sozinho, isso vai ser um problemão.” “Problemão para você que vai ter que montar a tabela que para mim já está feito, é esse o time.” Aí voltei para avisar os caras lá, né. Cheguei para os caras de Valadares: “Que bom! Maravilha!” Levou a gente para o clube, para a Associação e tal. E quando eu falei para o (Clenespedito?): “Você vai para a Olivale, a cidade vai ser uma equipe.” Agora você acredita que falei: “Você tem futebol de salão, futebol de campo pode ser que você tenha que todo mundo gosta, mas você tem basquete?” Ele: “Claro, doutor!” (risos): “Você tem vôlei?” “Claro, doutor!” “E natação, (Clenespedito?)?” “Claro!” “Onde, (Clenespedito?)?” “Não, tem a Cenibra que é alí do lado que é pertinho.” “Mas isso é Valadares.” “Tem piscina, você não se preocupe, entraremos em todos os esportes.” “(Clenespedito?), não tem uma mulher trabalhando aqui, quer dizer, vôlei feminino e natação feminino você não vão participar.” “Se de tudo for impossível, não, mas se for necessário para a gente participar a gente leva.” (risos). Pô, a alegria que ele ficou de participar sem ser a reboque de Itabira. Quer dizer, arranjei um time para o (Clenespedito?) 

[Pausa]

R – … Fazia tabela para escolher a cor do uniforme, fazia as prés, Pré-Olivale. No Rio teve, mas no Sistema Norte teve uma enorme, com várias áreas lá se juntando.

P/2 – _________ já tinha, era tudo estruturado nessa época?

R – Muito pouco, muito pouco. Tanto que a primeira Olivale chamou-se Sistema Norte. Não dava para fazer uma equipe de São Luiz e outra de Carajás. Era pouca gente demais. Na segunda Olivale, terceira e quarta, já era São Luiz e Carajás. Daí, já tinha entrado também Serrinha, potássio, né. Mina de ouro lá de Serrinha e Aracaju, mais equipes. Daí ficou mais um dia de olimpíadas. Porque tem esporte que não tem como, feminino alguns lá não tinham. Então, o (Clenespedito?) queria estar em todas: “Deixa comigo!” Primeira Olivale o nível técnico foi abaixo de sofrível. Eu e Maneco fomos jogadores de basquete. Maneco jogava no Fluminense e eu no Flamengo, e a gente se beliscando: “Temos que ir na final, temos que ir na final!” Daí o Maneco: “Temos que ver a final de basquete, Tubarão contra Vitória, comeu o pau solto lá. O pessoal não sei o que e tal. Vamos?” “Vamos.” Daí pegamos o carro, fomos para o ginásio que era do outro lado de Vitória, no ginásio da Esportiva. Chegamos lá, olhamos para o placar: oito a cinco e eu: “Beleza, chegamos bem no início.” Sentamos, dois minutos depois: “Piii, piii, piii” acabou oito a cinco (risos). Acabou acho que dez a cinco o jogo, deve ter sido uma catástrofe! Placar de jogo de futebol. Eu me lembro que o Guilherme Punhal pegou a bola, ganhando de dez a cinco, ficou quicando para ninguém tomar dele; daí os caras foram nele e ele recuando, foi recuando, daí ele ficou num lugar que ninguém ia pegar dele: “Ah, aqui é um bom lugar!” Estava a um metro e meio fora de campo quicando a bola, aí o juiz foi lá e tirou a bola dele (risos): “Esse lugar aqui está ótimo, ninguém vem aqui!” Fora de campo… Coisa horrorosa! Daí o Maneco disse: “Na próxima, ou tira o basquete para a próxima Olivale, ou a gente tem que dar um jeito de melhorar o nível, porque foi uma catástrofe.” E natação, cara, começou a natação! Gente boa lá do Sistema Norte, garotada boa para cacete! E Nova Era tinha um representante: (Clenespedito?) (risos). (Clenespedito?) já tinha perdido no futebol de oito a um e ele era o goleiro. Então, (Clenespedito?) está na beira da piscina: “Posso fica em pé?” “Não, né.” (Clenespedito?) estava na beira da piscina, sapato de amarrar, sem meia, couro preto, calção de goleiro, manja aquele acolchoado aqui, com um Hollywood aqui: “Representantes de Nova Era.” Ele: “Eu.” Eu falei: “(Clenespedito?), é nado de costas, nado de costas.” (risos): “(Clenespedito?), é de dentro da piscina. Você tem que entrar dentro da piscina, para a largada de dentro da piscina.” “Mas, por aqui?” “Não. Então, vai lá.” Daí, ele foi lá do outro lado, desceu, ele veio andando dentro da piscina assim, a piscina era rasinha. A medida que ele ia andando, ia inchando aquele algodão todo do calção dele, parecia uma baiana andando dentro da piscina. Daí, olhou como é que os caras estavam fazendo, segurou lá e nadou. Foi e voltou. Ah, quando ele bateu na ida, ele não fez a volta. Ele parou e procurou o ferro para de novo fazer a volta. Nessas alturas, uma gargalhada geral comendo solta. Logicamente, tirou em último. Se levantou e quase que vomitou de tanto sacrifício que ele fez. A piscina era de quinze metros, então ele fez trinta. Morto, não conseguia mais… (sons imitando cansaço). Aquele calção dele pingado e, de repente, ele disse assim: “Ih, o vôlei! Onde é a quadra, onde é a quadra?” Já saiu assim (risos): “Ih, o vôlei, onde é o vôlei, onde é o vôlei?” Era do time de vôlei também. Conclusão: tirou em último, né. Em todos esportes tirou em último. Mas, para a cidade de Nova Era, para ele, paras pessoas que vieram, para pessoas que ficaram, eu acredito que tenha sido um ganho de qualidade e de trabalho de animação, porque no ano seguinte eles foram lá e ganharam uma partida de futebol de salão, porque eles já eram alguém, não eram um anexo de Itabira. Nova Era existia. 

P/1 – Envolviam quantas pessoas nisso?                                                                                               

R – Eu sei direitinho, porque agora eu estou fazendo o orçamento para as olimpíadas dos 60 anos da Vale. A Vale já não faz Olimpíadas já há uns seis anos. Mas, agora ela vai fazer dos 60 anos. Eu estava fazendo até o orçamento. Envolve agora com 13 mil pessoas, umas oito, nove mil pessoas, entre pré e definitivo, porque nós levamos de oito a dez equipes com 80 pessoas. Desses oitenta, dez são cartolas e 70 jogam tudo, nadam, o que for. E os esportes são: vôlei masculino e feminino, basquete, futebol de salão, futebol de campo, tênis de mesa, peteca mineira, que é um sucesso absoluto, natação… 

P/2 – Truco? 

R – Tem os jogos de salão, tem. Pô, truco se inscrevem 500 duplas, trincas, trucão, truco, barão, várias. Eu já joguei uma olimpíada de truco.

P/1 – A peteca mineira, você sabe quando foi introduzido esse jogo?

R – Ah, é da cultura mineira e da Vale. Todo mundo que se preza joga peteca mineira, Carajás, São Luís, Itabira, Belo Horizonte. Todo mundo joga, se não tivesse peteca mineira, pô! Obrigatório e oh: entupido, entupido, entupido. E eles gostam de jogar ao ar livre, não gostam de jogar em ginásio, não. Então, a gente tem que montar uma arquibancadazinha em volta, porque junta gente para ver. É sempre ganho por Itabira. Itabira tem um timaço de peteca mineira. Tem as tradições: o time do Rio é o melhor de Salão; o time de futebol é Vitória e Itabira; natação, sempre ganhou o Norte, são os empregados mais novos; vôlei feminino, acho que é o Norte também, não, Vitória ganhou uma vez, Itabira também ganhou; e a nossa Grécia é Itabira. Nós fizemos a primeira Olivale em Vitória, que foi a segunda, e depois fomos para a Itabira e nunca mais saímos de lá. Ah! É uma maravilha! O tamanho da cidade é o ideal para receber, duas mil, três mil pessoas, entre convidados e atletas. O primeiro ano foi duro. No primeiro ano tivemos que ir até a igreja, a igreja tirou os bancos todos, fizemos um quadradinho, botamos beliche.

P/1 – Pois é, mas nessa primeira quantas pessoas, você tem noção aproximadamente, que estavam envolvidas na Olivale?

R – Ah! Umas oito, dez mil.

P/1 – Na primeira?

R – É, porque tem as prés. Tem as pré. Em São Luiz tem uma pré, em Porto Trombetas tem uma pré, em (Anaubrás?), em Barcarena tem uma pré, em Carajás tem uma pré. Esses quatro se reúnem e fazem uma pré que vão sair duas equipes. É uma mistura de São Luiz com (Albarás?) e Porto Trombetas com Carajás, que são as duas equipes do Norte. Quer dizer, só aí para descerem 160 pessoas, já mexeu com umas duas mil, três mil. Várias cidades até Valadares vão por Valadares. Várias cidades depois de Valadares vão por Vitória, na estrada de ferro aqui do Sul: Belo Horizonte, Itabira, Itabira tem dois, três meses antes já começa, pessoal da mecanizada contra o pessoal da manutenção elétrica, cada um tem um time, usam até siglas que eu acho horroroso: Geosp contra Geost, mas tudo bem.

P/2 – Cada um faz o seu uniforme, ou não ________.

R – Nessa parte a Vale patrocina, mas cada um patrocina o seu, mas quando chega na final é tudo nosso, porque tem que ser igual, não pode ser, senão… Nós é que escolhemos, tem a reunião, escolhe as cores, cada time leva um representante para gente escolher a cor da camisa, mas está tudo… Por exemplo, Carajás é sempre verde, Vitória é sempre vermelha, Tubarão é laranja, Rio era azul escuro, Belo Horizonte era branco, Itabira marrom, eles ficaram putos. Marrom é duro, né: “Mas é a cor da terra!” Eu querendo convencer eles, porque não tem muita cor, não. Ouro, amarelo… Não me lembro mais agora. Mas tinha camiseta para vôlei, camiseta para basquete, camisa de manga comprida para o vôlei. É, assim (risos).

P/1 – Você costumava ir assistir essas Olivales? Você estava sempre… 

R – Eu era o coordenador-geral, eu estava em todas, estava em todas. Eu botava aquele crachazão de coordenador-geral, chegava no ginásio oito horas da manhã, saía a uma da madrugada, sem almoçar. E o ginásio cheio, de oito da manhã até a uma da madrugada, durante três dias. E o jogo comendo, tudo de vôlei, de basquete, de salão era ali, naquele ginásio. Bom para cacete!

P/2 – Não tinha alguma coisa mirim, para os filhos de funcionários? Alguma coisa assim, não?

R – Tinha, tinha peça de teatro lá fora, para o cara poder ir ver o jogo e deixar o filho. Tinha show de Milionário e José Rico, porque não conseguiram achar nada pior, então botaram Milionário e José Rico. Tinha, porque senão a cidade fecha, é feriado. Olha, Vitória e Tubarão vem de trem. Então, tem banda de música na estrada de ferro esperando as duas delegações chegar. E como é trem, daí vem gente também para ver. Então, sai do trem umas 500, 600 pessoas, e banda lá, foguetório e tal, e daí levam eles para o hotel. O resto vem de ônibus de Belo Horizonte, porque vem de avião. A grande despesa da Olivale é com passagens aéreas. E a gente tem os horários que os ônibus chegam, não podem chegar dois times juntos, não. Então, tem uma praça lá que o pessoal já recebe com banda, fogueteiro. Daí, começa com desfile, tem um tremendo de um desfilão lá bonito com todas as equipes desfilando, aí tem juramento a bandeira. Aquelas coisas todas de Olivale mesmo, tem a tocha. Os caras fizeram uma tocha em Itabira que é uma maravilha. Subia aquela escada com aquele tochão, também a gente não pode fazer tudo, tem a infra toda. E a medida que os homens estão entrando, está lá: A Associação dos Comerciantes de Itabira saúda Rio de Janeiro, saúda Vitória, saúda aquilo… Deles, não é nosso, não. E é feriado, nós sempre fazemos para calhar com um feriado de outubro, acho que é dez de outubro, que é o feriado da cidade. Então, já que aquela semana já está meio comida, a gente bota lá… Porque dura cinco dias: é um dia para a chegada, porque você não vai trabalhar no dia que você viaja, os três dias da olimpíada e o quarto dia, que é o dia da olimpíada, e o retorno. E a festa final, a festa final é uma maravilha.

P/1 – Como é que é uma festa final?

R – Varia, varia. Várias vezes foi o mesmo… Teve uma que foi maravilhosa. Tinha um galpão velho, que era o galpão que consertava a locomotiva. Então, você vê o pé direito do negócio, né. Poderia ser um prédio de cinco andares, sem nada, vazado. Os caras limparam aquilo, puseram mesa, um show. Nós já levamos lá: Lulu Santos, levamos para a festa final, levamos aqueles mineiros que eles gostam, Lô Borges, Guilherme Arantes… E também já fizemos festa maior, mas não gostei muito, não, vários locais. Porque daí você não vê todo mundo, entendeu? Eu gosto quando você está lá com todo mundo, todo mundo vê todo mundo… E com dança, um festão. Daí, já passa os slides com os momentos mais importantes da olimpíada. Slide, não, uma fitinha mesmo de dez, doze minutos e vai repetindo ela, até o cara se ver lá e tudo. É do cacete! Aquilo é um ganho, porque você joga a primeira e foi eliminado, passa lá quatro dias vendo os outros, conversando, tomando o seu gole, como os mineiros gostam de falar, “tomar gole.” E fica lá, conhece todo mundo, e a direção da empresa prestigia, o presidente vai lá no dia da abertura e no dia do encerramento, quando não aparece lá de vez em quando. O Wilson Bruno apareceu lá dois dias: “Ah, eu quero ver o time de Belo Horizonte jogar vôlei.” A diretoria vai toda, aos montes, para ver, para torcer. E é levada a sério, eu vou a São Paulo contratar juiz, tem que ser neutro. Vou a São Paulo contratar juiz? A parte técnica toda fica por conta do Sesi, o Sesi faz de graça para a gente toda a parte técnica. E os juízes são de São Paulo, juiz de vôlei, basquete, futebol. Natação, não, o próprio pessoal do Sesi faz. Mas tem máquina de videotape lá para, caso chegue pertinho, tirar dúvidas. Tem os técnicos de natação que dizem o que pode ser feito. As regras existem, tudo bonitinho. É sério! É juiz de tudo que é… Esse aí foi um evento que eu tenho o maior orgulho de ter feito. Esse aí, nos meus 29 anos de Vale, não fiz nada que tenha me dado tanta alegria e tanto trabalho como esse.

P/2 – Que outros eventos você fez, Pisca?

R – Ah, eu fiz também a Feira do Livro, foi um espetáculo. Nós levamos _____, quando eu trabalhava na área de Comunicação Interna, eu trabalhei também em Comunicação Interna. Aliás, o Maneco é que inaugurou na Vale a área de Comunicação Interna e eu estava lá com ele. Maneco tinha a área de Comunicação Interna, Comunicação Externa e Imprensa e Publicidade. E a Comunicação Interna, depois que o Maneco saiu, saiu da área de Comunicação e foi para Recursos Humanos. Por acaso, onde eu estou, quando sai de lá… 

P/1 – É onde você está agora?

R – É, mas não estou na área de Comunicação Interna, não. E nós fizemos esse projeto aí de Feira do Livro. Era levar a possibilidade de o empregado comprar livro. A Vale do Rio Doce tem influência em diversas cidades, a maioria não tem uma livraria. Então, nós entramos em contato com o Snel, Sindicato Nacional das Editoras de Livros, e botamos aquele monte de livros lá, e eu levei um bando de escritores para poder autografar os livros.

P/1 – Lá aonde?

R – Diz um lugar. Lá estivemos. Toda estrada de ferro Vitória-Minas, toda estrada de ferro Carajás, Valadares, Nova Era, lá em Santa Bárbara, Imperatriz, Açailândia, Carajás. Carajás não tinha uma livraria na época. Em Carajás, os editores venderam mais livros do que em um ano no Rio de Janeiro. No primeiro ano, nós tivemos que catar a dedo quais os sindicalizados do Snel queriam ir. No ano seguinte era varrendo: “Não dá, não dá, não dá.” Porque todo mundo queria, todo mundo vendeu nos cinco dias de Carajás. Eu fiquei 40 dias com esses caras, aturando, Rubem Braga que é um chato de galocha, já é falecido, mas era um chato. Também tinha o Zé Louzeiro, uma figura maravilhosa, Thiago de Mello um poeta amazonense maravilhoso, aliás acreano, Marina Colasanti e o marido o Affonso… 

P/1 – Affonso Romano de Sant'Anna.

R – Levamos o Fernando Pamplona que era do Carnaval. Fernando Pamplona que fazia a apresentação, porque tinha debate e ele fazia a apresentação do debate. Mas foi um sucesso absoluto! O que se vendeu de livro!

P/1 – Todos os estilos?

R – Todos os estilos, tudo. Até livro de colégio, o que botava lá… O pessoal saía carregado, que era só assinar e ser descontado no final do mês, podia pagar em três vezes. A editora levava o dinheiro. Sucesso absoluto e vai voltar agora essa Feira do Livro.

P/2 – Parou desde quando?

R – Desde que privatizou nunca mais foi feito nada. Em 1997, parou tudo Olivale, Feira do Livro, mas agora está querendo pensar em voltar. Olivale hoje está tendo uma reunião, eu até apresentei o orçamento, mas nem fiquei que vinha hoje aqui. Mas está tendo uma reunião já para carimbar o orçamento. Não é barato, não, o Olivale é caro por causa das passagens aéreas. Passagem aérea é 75, 80% do custo de toda Olivale, porque as pressas cada um se vira, não quero nem saber, cada um faz o seu. Agora, a final nós já temos tudo lá: já temos o ginásio, temos a piscina, temos as quadras, temos o campo de futebol, temos até dois ginásios, tudo nosso mesmo lá em Itabira.

P/1 – Como são as suas atividades? Como é um dia seu na Vale hoje?

R – Bom, a minha profissão mesmo, o que eu faço na Vale, eu é que sou a interface dela com o sindicato, sou o marisco, mesmo. O sindicato reclama para mim, eu passo para a Vale e faço acordo coletivo também, que, aliás, termina amanhã. Eu vou a Brasília amanhã levar o acordo para ser registrado lá no Ministério do Trabalho.

P/1 – Você pode contar um pouquinho como se faz, como é um pouco das negociações, como é que flui um acordo coletivo numa empresa desse porte?

R – Diz a lei que todo empregado tem direito a ser representado junto ao seu empregador através do seu sindicato. E a Vale do Rio Doce com 13 mil empregados tem uma gama muito grande de sindicatos que são representados. Mas, normalmente, nós discutimos o acordo coletivo com 19 sindicatos. Temos os nove sindicatos maiores, que são as duas ferrovias: a do Sul e a do Norte, são os ferroviários do Sul e do Norte. Temos os (metabasic?) que são os sindicatos de metais básicos do Sul, das minas, a Vale tem oito ou nove minas, tem oito (metabasics?), (niusi?) de minas de não ferrosos. E tem também os sindicatos classistas que são os administradores, os economistas, os engenheiros, as secretárias, os técnicos de nível médio, então, dá 19. Mas, às vezes, temos 22, 23, eles se reúnem antes. Eles agora estão rachados em dois grupos e apresentam uma pauta de reivindicação e mandam a pauta para nós. Nós pegamos aquela pauta, estudamos com a Companhia inteira, com representante de cada área e chamamos eles para conversar, chegar junto. Esse ano nós começamos a tratar desse assunto em maio e termina amanhã, para você ver que foi duro. Mas de reunião mesmo foram sete dias de reunião, daquelas de começar às nove da manhã e acabar às duas da madrugada. Mas foi ótimo! O sindicato saiu feliz… Feliz eles não podem, porque são proibidos de saírem felizes. Tem uma lei que proíbe sindicalista de ser feliz (risos). Senão ele vai dizer que é pelego, não pode ser feliz, mas eles disseram: “Não, mas essa proposta é defensável.” Pela primeira vez eles defenderam uma proposta da Vale nas assembléias.

P/1 – E as maiores reivindicações geralmente são de nível salarial?

R – Econômico, é o que dá mais pau. Mas a Vale também tem muita com jornada de trabalho, com segurança no trabalho, com qualidade, benefícios, assistência médica convencionada, agora ele tem uma bolsa de benefícios invejável. Boa. Ninguém tem mais que a Vale. Pode ter igual, algumas coisas melhores, outras piores. Mas o leque de benefícios da Vale é muito bom. Tem jornada de trabalho de seis horas, de oito horas com hora extra, toda essa discussão. Isso daí dá pano para manga, sem contar a parte de dinheiro que também… A Vale fez um bom acordo esse ano. Os sindicalistas defenderam, defenderam, não que eles não podem dizer isso, mas não atacaram: “Não é boa, mas não vamos conseguir melhor. Acho bom aprovar logo isso mesmo. Não é bom, mas também não vai melhorar.” Então, fechou. Fechou e eles vieram assinar segunda, eu ontem ainda peguei a assinatura de um cara lá em Belo Horizonte, fui lá e voltei e amanhã vou carimbar o acordo. Seis por cento de aumento e uns bônus de um mil reais para todo mundo.

P/2 – Já teve alguma greve na Vale ou paralisação?

R – Teve, a Vale nunca paralisou, mas a Vale teve vários movimentos. Teve um em Carajás, teve um em Itabira, teve um no Rio de Janeiro, onde abraçaram o prédio. Mas nunca parou, não. Movimentos, nunca parou. Essa é a grande vantagem da Vale, porque você dá uma olhada… Agora vou entrar numa área que não é minha. O mesmo minério que a Vale do Rio Doce tem, a Austrália tem. Vai no mapa e olha, a Austrália lá para a Coréia e o Japão, é só subir, nós temos que dar a volta. Quer dizer, por mais barato que seja o nosso minério, só o frete! Então, o Japão e Coréia tem as aciarias deles e sabem que no dia 23 de outubro tem que chegar não sei quantas toneladas de minério de ferro no porto lá de (Sorocau?). Senão chegar, fodeu! Vai pagar multa, vai atrasar, não sei o que e quando eles compravam minério da Austrália não chegava, porque estava em greve, atrapalhou, não sei o que... Nós não, nunca atrasamos uma entrega, nunca pagamos (deborrage?). Nunca! Entregamos sempre. Vai ser organizado no cacete! Então, eles compram minério da gente em vez de comprar o australiano que é o mesmo lá embaixo, pertinho, mais barato. Mas também eles sabem: marcou o dia, está lá. Chega mesmo.

P/1 – E em relação a privatização da empresa, de que forma isso agiu no setor de recursos humanos de vocês?

R – Doloroso, doloroso. Demitiu-se muito, muita gente saiu sem querer sair, foi doloroso e é a área de recursos humanos é que faz. Foi péssimo… Foi péssimo. E eu, mais perto de quem fazia a contagem era eu. Eu todo dia recebia 50, 60, 70 matrículas, entrava no sistema, aparecia o nome: “Ih, o Fulano, ih, o Beltrano, ih, o Sicrano.” Chato para cacete! Muito chato. Muito chato. Foi em 1996 ou 1997, foi muito chato. Aí eu ligava: “Você queria?” Às vezes, o cara queria: “Não, eu pedi e tal.” Porque era um bom incentivo também. A seco não foi embora ninguém, não, teve um bom incentivo para ir. Eu até pensei em ir, na época, eu estava com trinta. Está numa boa hora, posso me aposentar com proporcional… Aí depois: “Ah, não quero, não.

[Pausa]

P/2 – Nessa sua trajetória aqui na Vale qual é o momento que mais te emociona tanto positivo como negativo? Um momento que te vem a mente assim?

R – Não tenho grandes momentos, não. Todos para mim… Não é que todos foram grandes, mas eu não tive nenhuma tristeza na Vale, tipo: “A Vale me sacaneou.” Nunca tive. Também não espero a mãe, entendeu? Eu espero aquela troca, mas você acaba gostando mais do que deve dessas coisas. Eu já posso sair, eu já tenho tempo para sair, falta coragem para sair. É duro. É duro, não sei quando é que vai ser.

P/2 – Você está pela Valia?

R – Sou, sou fundador da Valia, em 1974. Sou fundador da Valia e estou no novo plano, o Plano de Contribuição Definida agora.

P/1 – Mas falta coragem do ponto de vista financeiro ou de vida de aposentadoria?

R – Também porque a Vale é comum agora essa remuneração meio diferenciada, então você ganha salário, mas dentro do salário também estão as participações de resultados, que são uma média de três, quatro salários/ano. E era uma coisa que antigamente você vivia do seu salário e quando aparecia essas remunerações diferenciadas, você usava elas como investimento. Agora não. Isso tudo faz o salário ser _____ do custeio, se você se segurar um pouquinho, você consegue sobrar alguma coisa de investimento. Então, eu me aposentando vou ganhar a mesma coisa que na ativa, menos uns quatro salários por ano ou cinco de férias, de gratificação individual, e participação de resultados. Então, eu vou ganhar menos e eu prefiro ter uma baixa de custo para poder continuar como eu estou; e o meu filho estava no sétimo ano de Direito, faltava mais um ano e meio e, eu digo, quando ele parar menos uma faculdade, 700 pratas já alivia, eu paro de dar pensão para a mãe dele. Porque ele faz 21 anos e termina a faculdade. Então, essa era a minha meta. Pois não é que agora ele saiu do Direito e foi fazer Jornalismo, mais quatro anos. Então, eu já não sei mais qual vai ser, porque eu se me aposentar hoje vai faltar dinheiro no fim do mês. Porque não vou receber mais PR [?], não vou mais receber… Só o salário e eu já vivo do salário mais isso. A Vale me ensinou a viver com esses e isso eu perco.

P/1 – Como é um dia seu hoje?

R – Eu estou desde maio full time nisso aí, mas eu faço todos os pagamentos da área de Recursos Humanos do Rio de Janeiro, a Gear, Gerência-Geral de Recursos Humanos. Está nessa área a minha área que relaciona o trabalho, benefícios, medicina do trabalho, comunicação interna, treinamento, treinamento institucional, órgão de pessoal. Então, nosso orçamento é de 14 milhões ao ano e eu que faço esses pagamentos todos. Gozado que cada um fazia o seu, mas há dois anos atrás o Edu chegou para mim: “Isso aqui está uma zona, eu quero centralizar isso numa pessoa só.” Eu disse: “Excelente ideia, eu tenho até o nome certo para isso!” Ele: “Eu também tenho: é você.” Puta, eu não tenho jeito para essas coisas, não. Até porque eu sofro muito quando atrasa um pagamento, e a Vale tem uma burocracia que é meio… Está difícil. Eu pego o telefone: “Aqui é do Hotel Village, não sei o que, estou a 40 dias esperando a nota, não chega.” Daí, eu vou ver, está emperrando. Isso não me faz bem. Eu sofro! Porque no início deu certo, funcionou tudo, mas agora o sistema está meio… Vai dar certo de novo, mas por enquanto está sofrendo com isso. Mas isso é um dia a dia! Eu estou com dois estagiários fazendo esse meu trabalho, porque não estou podendo me dedicar a isso, mesmo assim fico supervisionando. Sempre chego antes da hora, chego oito, oito e pouco no trabalho. É a hora que eu pego o que foi pago ontem e tal, fazer contrato. Tudo tem que fazer contrato, eu não gosto de burocracia e tinha que estourar essa bomba logo na minha mão. Não é o meu perfil. Agora, ano que vem tem o Olivale que é seis meses de trabalho mais uma negociação dois oito… 

P/1 – Que você gosta!

R – Da negociação eu também gosto, Olivale eu amo de paixão e vou meter… Ah! O balé! Eu não te falei do balé. A Vale do Rio Doce com essa lei de incentivo do Rouanet, nós levamos o balé do Teatro Municipal, fazendo 14 apresentações pela Vale. E o sortudo aqui é que levou o pessoal todo: duas apresentações em Itabira, duas em Carajás, duas em Belém, duas em São Luiz, uma em Serrinha – oito mil pessoas – foi na Vaquejada, uma em Aracaju, uma em Belo Horizonte e uma no Rio. Janeiro, fevereiro e março e eu circulando com o pessoal por aí.

P/1 – E a receptividade foi bárbara.

R – Oh! Foi uma paixão mútua. A Vale do Rio Doce se apaixonou pelo balé e o balé se apaixonou pela Vale. Eu me lembro que nas primeiras vezes que a gente chegava lá, vamos visitar as áreas operacionais, dois ou três do balé iam lá. No final, dois ônibus. Todo mundo querendo conhecer, se apaixonaram pela Vale. Começou em Itabira, sedimentou em Carajás e daí água de morro abaixo. Ainda ontem mesmo, eu fui tomar um chopinho com umas três ou quatro moças do balé lá. Ficaram amigas! Eu vou a todas agora! O vice presidente do balé acompanhou e ganharam uma grana.

P/1 – Bom, uma última pergunta, o que achou de ter dado esse depoimento, ter prestado o depoimento para o projeto Vale Memória, Pisca?

R – Achei para mim uma honra. Ainda mais porque eu vi bem os que falaram antes de mim, tudo gente que tem muito o que contar ___ do que eu. Eu tenho mais que contar, por exemplo, Vale do Rio Doce eu posso falar pouco, né. Porque o que eu vou falar depois que o Eliezer Batista falou. Porque a Vale do Rio Doce sempre teve os presidentes todos da casa, então o que eles falarem é a vida da Vale, o Eliezer, o Schettino. Falaram o que tem que falar e não sobra mais nada. Mas eu falei de gente, minha especialidade é gente, eu gosto de gente. Falei do (Clenespedito?) (risos).

P/1 – Gostaria de falar mais alguma coisa?

R – Não, não, não quero sair do sério. Estou começando a ficar meio emocionado. Não quero. Mas foi bom e agradeço a oportunidade, quem me indicou, eu não sei nem quem foi. Tem bastante tempo, não é? Quer dizer então que eu tinha que falar.

P/1 – Então, tá bom, muito obrigada, Pisca.

P/2 – Muito obrigado.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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