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História de: Suellen
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2013

Sinopse

Suellen cresceu numa pequena casa de 'duas peças' em uma vila periférica. Seu pai tinha duas famílias e sua mãe nunca trabalhou, sendo sempre sustentada pelos homens com quem se relacionou. Um de seus padrastos era um traficante que, antes de morrer de overdose, trouxe um comparsa para morar em sua casa que passou a abusar da garota no local. Suellen começou a ir para as ruas pedir dinheiro e aos treze anos de idade, quando ‘começou a criar corpo’, passou a atender taxistas, sapateiros e outros homens da região em troca de algumas moedas e da possibilidade de levar o sustento para a casa que dividia com a mãe e seus irmãos. Foi mãe aos dezessete anos e não se prostitui há cerca de dez meses. Tentou o suicídio, sobreviveu e foi acolhida por uma psicóloga que a apresentou ao projeto Vira Vida, onde fez cursos de informática, de dança e de auxiliar administrativo.

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História completa

Da minha infância eu lembro da minha casa: eram dois cômodos onde eu morava com a minha mãe e meus quatro irmãos. A casa era de madeira compensada e chovia muito dentro dela. Na casa não tinha banheiro. O banheiro que a gente usava era super longe, perto da casa da minha tia, num beco; tinha que passar por todo o beco para ir ao banheiro. É disso que eu lembro. O meu pai tinha outra mulher. Com essa mulher do meu pai eu tenho uma irmã que tem quase a minha idade. 

 

Sempre fomos muito pobres e a minha mãe nunca trabalhou, ela sempre dependeu de homem. O meu pai de vez em quando aparecia. Como ele tinha duas famílias, ele ficava quinze dias com a gente e, nos outros quinze dias, com a outra família. Nesses dias que ele ficava com a gente era tudo de bom: ele botava comida dentro de casa. Mas quando ele sumia nós passávamos fome. Eu tinha que ir para a rua pedir dinheiro e era tudo muito difícil. Às vezes, em época de Natal, Ano-novo, Páscoa, eu botava uma plaquinha “Colabore com o meu Natal” e erguia nos semáforos quando os carros paravam. Eu ganhava bastante. Em um posto de gasolina tinha uma freguesa que se chamava Ana e ela sempre me dava alguma coisa para comer. Em época de Páscoa, ela me dava ovo. 

 

Na escola eu gostava de desenhar o que eu nunca tive: uma casa com banheiro, comida na mesa, com pai e mãe, cheia de felicidade e amor. Depois as coisas mudaram. Minha mãe se juntou com um traficante que tinha apelido de ‘Lixo’. Ele veio morar conosco e trouxe mais um amigo dele para morar nos nossos dois cômodos. A minha mãe dormia no quarto e o outro cômodo era a cozinha, onde dormíamos no chão, num colchão de casal. Éramos eu, meus quatro irmãos e mais esse amigo do meu padrasto, chamado Jair. Eu já estava criando corpo na época e, dormindo lá, ele começou a me alisar, a passar a mão e começou depois a querer coisas a mais. 

 

Com a história desse meu padrasto traficante morando com a gente, o movimento na minha casa também aumentou. Toda hora tinha gente lá para comprar pedra de crack. O meu padrasto morreu de overdose dentro de casa, no colo da minha mãe.

 

Com doze anos comecei a fazer favores em troca de dinheiro. Eu deixava os caras me alisarem, me tocarem, me beijarem. Sentava no colo deles, fazia massagem. No ponto de táxi os motoristas me davam uns trocadinhos. Com treze anos passei a fazer programas nos carros, nos táxis, nas ruas e nas casas dos clientes. Não tinha lugar certo, fazia onde me levavam. Cheguei ao fundo do poço. Até hoje sinto muito nojo do meu corpo, mas era por necessidade mesmo que eu fazia aquelas coisas. Se eu vendesse o corpo não morria de fome e ainda ajudava em casa. Para juntar dinheiro para comprar um botijão de gás eu tinha que ter vários clientes.

 

Eu pensei que estava grávida, tentei me matar e fui parar numa clínica. Na clínica comecei a fazer tratamento psicológico e a psicóloga disse que o melhor era eu ir para um abrigo. Fui mandada para o Conselho Tutelar, que não me recolheu no abrigo, mas me ajudou e conseguiu me colocar em um colégio interno, um colégio particular. Eu fiz a prova e passei. Chegando lá, eu era a única negra no meio de um monte de branquelos. Eu fiz a sétima, a oitava e depois eu resolvi voltar para casa: eu não achava justo com meus irmãos eu estar lá no bem-bom e eles passando por aquela situação. Eu tenho minha irmã mais nova que se chama Maria. Na época, eu tinha catorze e ela deveria ter uns dez ou onze anos. O meu maior medo era que ela passasse por toda a situação que eu passei e que ela fosse para a rua ser abusada, então voltei para casa.

 

Com dezesseis anos comecei a trabalhar de estagiária numa creche e a estudar de noite. Eu trabalhava com sexo só quando eu tinha muita necessidade. Se eu conseguisse cuidar de uma criança, fazer uma panfletagem, limpar um vidro de alguma janela, limpar uma casa, algo assim, eu não precisava fazer. Algumas vezes eu não conseguia emprego nenhum, a necessidade batia e eu voltava. 

 

Eu sempre me senti muito mal tendo que vender o meu corpo. Às vezes não é só o abuso, os homens te batem. Às vezes me largavam em uns lugares distantes que depois eu não sabia voltar. Às vezes eles nem pagam. Quando eu achei que estava grávida eu só tive vontade de morrer. Eu cheguei a cortar os meus pulsos para tentar aliviar essa angústia. Eu ficava pensando: “O que eu vou falar para a minha mãe? Como eu vou dizer para eles?”

 

A minha psicóloga ficou sabendo do projeto ViraVida e me indicou. Nessa época eu trabalhava com carteira assinada como auxiliar de serviços gerais. Em dezembro do ano passado eu tive uma crise e fui internada de novo, com depressão. Nesse período eu fiquei encostada pelo INSS. Quando os médicos me liberaram voltei a trabalhar e comecei a participar do projeto ViraVida. No começo era só pra não ficar em casa sem fazer nada, só que agora eu vi que através do projeto eu posso dar uma grande virada na minha vida, porque eu faço curso de Auxiliar Administrativa e o meu trabalho é de limpeza. Eu não iria subir nunca, ia ser sempre auxiliar de serviços gerais. Eu decidi que eu vou largar o meu emprego e ficar no projeto.

 

Quando entrei para o Projeto ViraVida achei as primeiras semanas uma chatice. Não estava empolgada, mas depois comecei a fazer cursos de Informática, de Dança e o de Auxiliar Administrativo e vi que ali estava a oportunidade de um novo começo. Converso muito com a coordenadora e quando estou precisando de colo, de atenção e de carinho, ela me dá. 

 

Antes eu achava que as coisas ruins só aconteciam comigo, mas no projeto descobri que muita gente passa pelas mesmas coisas. Hoje eu tenho dificuldade de ter relacionamentos longos pelo fato dos abusos. Eu acho que toda pessoa, que todo homem me vê como um objeto; que eles só estão comigo porque querem transar e me tocar. Às vezes, se alguma pessoa me toca, tenho lembranças do passado, também.

 

Aquela foi uma fase ruim, mas estou superando. Hoje, tenho minha casa e faz dez meses que estou limpa, não faço mais programa. Aqui aprendi que a Suellen é forte, inteligente, batalhadora. Tenho sonhos que não tinha antes: concluir o Ensino Médio, fazer o curso de Auxiliar Administrativo e, futuramente, fazer Psicologia. Há dez meses não achava importante estudar, hoje vejo que meu futuro depende do meu empenho.

 

Eu gosto de escrever o que eu estou sentindo. Eu escrevo coisas que aconteceram comigo, me pergunto o porquê. Escrever me dá um alívio. Eu fico com aquela angústia no peito, escrevo e me liberto. As pessoas dizem que é um dom, mas é uma questão de necessidade, mesmo. Eu tenho essa necessidade de escrever, escrever e escrever. No dia em que eu li um texto na aula as professoras começaram a chorar e eu fiquei preocupada com elas porque estavam chorando. Eu falei: “Professoras, isso tudo que eu contei é coisa do passado, eu já superei. Não precisa ficar triste, já passou.”

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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