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História

Escrevendo a própria história

História de: Elaine Viana Francelino da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/10/2017

Sinopse

Elaine nasceu em 1981 na cidade de Araruna, Paraíba. Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, nos conta sobre as memórias de sua querida cidade natal, as brincadeiras de infância em um terreno atrás de sua casa, os pais muito altruístas e bem quistos pelas pessoas da cidade, as festas da juventude e o dia que decidiu sair de lá para tentar a vida em São Paulo. Ainda atordoada pela escolha, Elaine conta que chegando em São Paulo conheceu seu marido nos primeiros meses e que ali sua vida se transformou, encontrando o amor de sua vida, com quem decidiu construir uma família e uma bela história.

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História completa

P/1 – Elaine, você fala pra mim o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – É Elaine Viana Francelino da Costa. Nasci na cidade de Araruna, Paraíba, no dia 25 de fevereiro de 1981.

 

P/1 – E o seu pai, qual é o nome dele?

 

R – Paulo Francelino Mendonça

 

P/1 – Ele nasceu em Araruna também?

 

R – Nasceu em Araruna, Paraíba. Hoje ele tem 59 anos, vai fazer 60 em setembro e é o meu herói (risos).

 

P/1 – Você sabe a história da família dele?

 

R – Sei.

 

P/1 – Eles vieram de onde, o que eles faziam?

 

R – O meu pai, se não me engano, ele tem onze irmãos, todos nasceram na cidade de Araruna e quando cresceram foram morar em Brasília. E só o meu pai ficou em Araruna, foi a mãe, o meu avô, foram todos pra Brasília. E o meu pai construiu a nossa família em Araruna mesmo.

 

P/1 – E por que a sua família foi pra Brasília, você sabe?

 

R – Porque na época Brasília estava sendo construída, tinha muito emprego e meu avô foi pra trabalhar. E minha avó ficou na cidade de Araruna com os filhos pequenos e um tempo depois ele pediu pra minha avó viajar e levar todos os filhos pra lá. Só que o meu pai, como era adolescente já, ele não quis e ficou na cidade pra construir a família lá mesmo.

 

P/1 – Interessante. Eles foram trabalhar e eles estão até hoje lá?

 

R – Ficaram até hoje. Meu avô, minha avó. Um dia desses minha tia Irene voltou, fazia mais de vinte anos que ela tinha ido à cidade dela. E as outras é muito difícil, acho que umas nunca voltaram, só a tia Irene mesmo e um tio que mora em Curitiba, chama tio Nelson. Ele foi há muitos anos, eu acho que eu tinha oito anos, foi a última vez que eu o vi também.

 

P/1 – E você sabe onde eles moram lá em Brasília hoje? Como é que está?

 

R – Estão super bem, cada um mora na sua casa. Tenho muitos primos, muitos mesmo, acho que mais de dezesseis primos, são todos sobrinhos do meu pai e quando a gente se junta é aquela brincadeira de primos. A mesa fica repleta, é primo sentado no chão, no sofá, nas cadeiras porque é muita gente, muita gente.

 

P/1 – Então o seu pai ficou sozinho?

 

R – Ficou. Em Araruna, na época ele era solteiro e depois ele conheceu a minha mãe. Eles moravam na mesma rua, já se conheciam desde criança, na adolescência também. E aí houve aquela atração, o anjinho flechou o coração deles e aí começou a história da nossa família. Ele abriu uma borracharia que tem até hoje. Cavou um poço de 23 metros de profundidade, ele e um amigo, o amigo desistiu quando chegou na base das pedras e meu pai não desistiu, ele continuou. Nessa época eu tinha uns dois anos de idade e o meu irmão Flávio três. E meu pai continuou, ele cavou, quebrou todas as pedras até a água aparecer. E até hoje eles moram nessa casa e tem esse poço, ele nunca secou, já teve secas horríveis lá na minha cidade. E ele nos anos 80, acho que 85, 86 ele ajudou muita gente na situação da seca com água. O pessoal ia com baldes, barris, garrafas e ele dava água pra todo mundo. Eu falo pros meus pais que esse poço é sagrado, que a gente nunca tem que vender aquela casa, tem que deixar ela pra sempre porque ela não é só o nosso porto seguro, mas o porto seguro de muita gente quando tem seca. Hoje está mais tranquilo porque já tem água encanada, água nas torneiras, nos chuveiros, mas nos anos 80 até início de 90 tinha muita seca lá e não tinha água encanada, as pessoas sofriam muito. Então meu pai foi um dos homens que ajudou muito as pessoas.

 

P/1 – Ele não é só o seu herói.

 

R – Ele é o herói de muita gente, muita gente. Ele não ajudou só na questão de água, ele ajuda até hoje na questão de alimentos também. Tem gente que pede roupa, calçados. Passa na borracharia dele: “Olha, estou precisando de um chinelo”. Ele pede para um irmão meu, um sobrinho ir na mercearia, que lá fala mercearia, comprar um chinelo e ele dá. Ele ajuda como pode, eu aprendi assim com ele. Eu tenho uma alma generosa por causa do meu pai, eu aprendi com ele.

 

P/1 – Agora que você falou do seu pai, eu queria perguntar a mesma coisa da sua mãe. Ela nasceu onde, qual o nome dela?

 

R – Ela nasceu no Rio Grande do Norte, eu não me recordo o nome da cidade agora. Mas o nome dela é Maria de Fátima Viana. Ela tem 57 anos, é uma guerreira, cuidou de seis filhos. Eu sempre pergunto, todos os dias: “Mãe, como você conseguiu cuidar de seis filhos? Porque eu tenho um e acho tão difícil!”. Ela fala assim: “Filha, com amor e carinho, quando você dá amor pra um, tem como dar pra todos. O amor de um filho e de outro é somatório, não é divisório. Pode nascer dez, você vai somar, vai multiplicar o amor, você não vai dividir”. Então eu aprendo isso com ela, ela é uma guerreira. Sempre trabalhou fora, cuidou dos seis filhos e graças a Deus todos estão bem. Tem netos maravilhosos, nem sei te dizer quantos, eu acho que meu irmão mais velho tem três, a minha irmã Gerlaine tem três também, já são seis. Com o meu, sete. Da minha irmã Edilaine, oito. Tem oito netos. E é uma guerreira. Ela cuida de três netos hoje também.

 

P/1 – Você contou como eles se conheceram já. E quem foi o primeiro filho a nascer?

 

R – Flávio.

 

P/1 – Flávio é seu irmão mais velho.

 

R – Isso.

 

P/1 – E nessa época eles moravam já nessa casa em que você cresceu?

 

R – Moravam.

 

P/1 – Quem que construiu essa casa?

 

R – Meu pai já comprou construída. Era uma casa, nessa rua era uma casa de fazenda e depois que eles venderam eles dividiram, então ficou acho que umas cinco casas na mesma calçada porque era uma casa só. E aí meu pai comprou essa parte.

 

P/1 – E qual é a rua?

 

R – Rua Coronel Targino Pereira, número 222 (risos).

 

P/1 – Agora como é essa casa, você descreve pra mim?

 

R – É uma casa simples, muito simples, acolhedora, que toda vez que eu chego lá eu me sinto no céu como se ela fosse um castelo, como se ela fosse o meu céu mesmo, o meu porto seguro. Ela me transmite segurança. E você olha pra casa e você fala: “Nossa, mas é uma casa muito simplesinha”. É humilde, sabe? Mas ela é rica. Rica em amor, em sentimentos. Ela transmite isso pra mim.

 

P/1 – Agora ela é o quê? Ela tem quantos quartos, tem um quintal?

 

R – Ela tem três quartos. Uma sala enorme, enorme mesmo, uma cozinha e um quintal. Mas quando eu era criança ela era diferente.

 

P/1 – Como que era?

 

R – Ela era baixinha, de telha de barro, tinha uma porta, uma janela de entrada. Ao lado ficava a borracharia do meu pai. O meu quarto era o primeiro, passando da sala o meu quarto já era o próximo. Depois do meu era o quarto da minha mãe, aí tinha o corredor que dava pros quartos dos meus irmãos e a cozinha. E o quintal era muito grande. E não tinha muro nessa época, era de arame farpado. Porque tem uma chácara no fundo do nosso quintal, então a gente arrebentava aquilo ali, aquele arame farpado, e corria pra chácara, pra brincar debaixo dos pés de manga, de caju, de jaca. Brincar com os bichos que tinha ali, eu e meus irmãos e mais a molecada da rua. Então assim, pra mim essa casa tem um significado muito, muito, muito grande. Muito grande que eu não trocaria ela por uma mansão porque é lá que estão os sentimentos, os meus sentimentos de infância e de criança estão lá naquele lugar.

 

P/1 – E nesse quintal vocês tentavam plantar alguma coisa?

 

R – No quintal da minha casa tinha um pé de laranja. E quando eu lembro desse pé de laranja eu fico muito emocionada. Porque um dia eu estava brincando com meu irmão Flávio debaixo e a minha mãe estava estendendo um lençol em cima de uma fossa, que antigamente faziam buracos para os dejetos caírem, né? E a minha mãe acabou caindo dentro desse buraco. Na época eu tinha cinco anos e meu irmão seis, mas eu me lembro como se fosse hoje porque foi muito traumático. Eu vendo a minha mãe lá dentro, a sorte dela foi que a laje a segurou, ela não chegou a encostar na sujeira. E ela ficava gritando: “Elaine, chama alguém! Chama alguém!”, mas eu não queria sair, eu queria pular pra ficar com ela. E ela: “Sai filha, chama alguém! Chama alguém!”. Meu irmão Flávio saiu puxando a minha mão e a gente saiu correndo pelo corredor da casa até chegar lá na rua e a gente ficou gritando, gritando, daí veio o meu tio Zé, Zé Viana, muito conhecido lá de Araruna, que eu amo muito, faz parte da minha infância, e veio o Chichico, que eu considero ele o irmão do meu pai, que todos os irmãos foram embora, mas ficou um amigo que eu considero que é irmão. Eles correram pra dentro de casa, foram até o quintal, ficaram olhando como que eles iam pegar a minha mãe. Ela estava grávida de oito meses da minha irmã Gerlaine. E as pedras estavam caindo sobre a barriga dela. Eles seguraram na ponta dos dois dedos dela, os dedos médios, o Chichico de um lado, meu tio Zé do outro. Eles levantaram ela pela ponta dos dedos. Quando eles seguraram na mão a laje desceu dentro da sujeira. Então foi questão de segundos mesmo ela não ter morrido, não ter acontecido nada. Então imediatamente já levou ela pro hospital, ela ficou internada. Falaram que ela ia perder o bebê, tinha que fazer uma cesariana porque o bebê já estava morto. Ela fugiu do hospital porque ela falou que a bebê não estava morta. Antes do médico entrar pra cesariana ela fugiu, foi pra casa da mãe dela, pra casa da minha avó, e quando completou os nove meses ela teve a Gerlaine, normal, linda, gordinha. Está aí, mãe de três filhos. Então assim, esse pé de laranja pra mim tem um significado muito grande porque quando eu fecho meus olhos e olho pra ele, eu lembro dessa parte da minha infância que foi muito traumática. Mas deu tudo certo, graças a Deus! Minha mãe está aí pra contar a história, nós também, graças a Deus!

 

P/1 – E agora, além da chácara vocês brincavam de quê nessa época?

 

R – Além da chácara nós brincávamos na rua. Brincava de amarelinha, de pular corda, de futebol. Brincava de cantar música da Xuxa, de Paquitas, Angélica; naquela época tinha a Angélica, tinha a Mara Maravilha. Então a gente pegava as músicas delas e cantava à noite. Juntava um monte de criança, era muita criança na rua. E lá tinha uma calçada que era mais alta, tinha um degrau mais alto, então o cantor subia, ficava lá cantando e o público ficava embaixo. Então era assim, era muita gente. Que pena que não tem como colocar todo mundo, falar de todo mundo, porque era muita gente mesmo (risos).

 

P/1 – E você se lembra de alguma história específica que te marcou nessa infância?

 

R – Na minha infância?

 

P/1 – Em relação à brincadeira, aos amigos?

 

R – Ah sim, lembro sim. Tinha uma noite a gente saiu pra pular corda na frente da casa de uma amiga chamada Hosana. A mãe dela não queria deixar ela brincar, mas mesmo assim ela foi. Nós tínhamos doze, treze anos, por aí. E aí brincando de pular corda ela caiu e quebrou a mão, quebrou aqui o pulso. Na hora a gente ficou com medo, parou a brincadeira, ela foi levada pro hospital. A mãe dela não deixou ela mais brincar com a gente. Então quando a gente saía à noite, faltava a Hosana, né? E a gente ia pedir pra dona Francisca, hoje já falecida, ela que costurava as minhas roupas quando criança. Eu sinto muita falta dela também porque quando eu vou lá, que passo na frente da casa dela, eu me recordo dela e da Hosana também, que não mora mais em Araruna, mas eu me lembro desse episódio dela ter caído pulando corda, quebrado a mão. E foi isso, esse episódio marcou.

 

P/1 – Como é a cidade de Araruna?

 

R – A cidade fica numa altitude de uns 700 metros do nível do mar. Então de dia ela tem um ar mais quente, o sol é mais quentinho, mas a noite é fria, super fria. E é muito gostosa. À noite você olha pro céu e consegue ver as estrelas, consegue ver estrela cadente, que é muito difícil a gente ver com tanta poluição hoje, mas lá consegue ver. É uma cidade de pessoas caridosas, bondosas, acolhedoras. O que me marca é que toda vez que chega alguém diferente na minha cidade, mesmo sem as pessoas conhecerem, já convidam pra tomar café, o café das três horas, isso tem na casa de todo mundo. Pra comer uma tapioca, tomar um cafezinho, pode ser quem for, desconhecido, eles não têm regras tipo: “Ah, não te conheço, você não vai entrar na minha casa”. Entra, toma café da tarde, às vezes fica pra janta. E assim, desde que eu me conheço por gente eu convivi com pessoas assim, os vizinhos eram assim, meus amigos, meus pais são assim até hoje. Eu lembro que uma vez passou um homem pedindo comida já era umas 18 horas, meu pai estava fechando a borracharia. Meu pai falou: “Entra aqui que eu vou te dar comida. Quer tomar um banho?”, aí ele disse: “Não, só quero a comida mesmo”. Meu pai deu a comida pra ele e falou: “Você quer dormir aqui? Eu coloco você pra dormir na minha borracharia”. Aí ele falou: “Eu quero”. Meu pai deixou ele dormindo na borracharia e deixou um pouquinho aberta pra ele ir embora no outro dia, né? A gente ri até hoje porque ele pegou algumas coisas do meu pai e levou com ele, as ferramentas da borracharia. Ele pegou pouca coisa, chave de fenda, essas coisas. A minha mãe brincando com meu pai: “Tá vendo, a gente não deve confiar em todo mundo”. Aí meu pai fala: “Não, mas talvez ele estava precisando, então não vamos julgar”.

 

P/1 – Mas além disso, o que tem na cidade? Tem uma igreja, como é que funciona?

 

R – Tem a Igreja Matriz de Araruna, ela é grande, amarela, é linda. E tem a igrejinha de Santo Antônio também. Eu acho, todo mundo da região acha que é a única igreja mais bonita que tem é a da minha cidade, todo casamento que tem na região eles fazem na igreja de Araruna, é muito bonita mesmo. E tem a pracinha também. Não tem muitas atrações na cidade. Tem assim, quando tem as festas juninas, aí tem as barraquinhas, tem a dança que as pessoas fazem, que é a quadrilha, né? E finais de semana às vezes tem uma baladinha aqui, outra ali. Quando não os jovens vão pra outras cidades. Mas assim, hoje como adulta eu vou lá pra descansar, eu não procuro mais baladinha, essas coisas porque às vezes nem tem mais, ficou meio difícil deles encontrarem (risos). Mas falando sobre o aspecto de Araruna, ela é tudo de bom, sabe? Quando você está chegando na Serra de Araruna você vai vendo os S da estrada, ela te recebe com um monte de ipês lilás, amarelos. E quando a pessoa vê que é um carro diferente, tal, já fica todo mundo: “Nossa, quem é que está chegando?”, o pessoal fica feliz com a visita das pessoas. Eu amo, amo todo mundo, amo aquela cidade. Eu posso viajar pra qualquer lugar do mundo, qualquer lugar do mundo, Estados Unidos, Londres, Canadá, mas nenhuma vai substituir aquilo que eu tenho, o sentimento que eu tenho por ela.

 

P/1 – Você começou a estudar lá também.

 

R – É, eu fiz o ensino infantil, fundamental, médio.

 

P/1 – E qual foi a primeira escola que você frequentou, você se lembra?

 

R – A primeira escola se chama Branca de Neve.

 

P/1 – Branca de Neve lá em Araruna.

 

R – É, em Araruna.

 

P/1 – Você tem alguma lembrança de lá?

 

R – Eu tenho (risos).

 

P/1 – O que você se lembra?

 

R – Eu lembro que meu irmão começou a estudar comigo. A minha mãe deixou a gente na escola e nós ficamos chorando, claro, não conhecia. E a professora se distraiu um pouquinho e a gente fugiu. De mãos dadas, saímos pela rua e sentamos numa calçada. E uma amiga da minha mãe nos viu, foi lá em casa e falou: “Olha, seus filhos estão sentados na calçada na frente da escola, eu acho que os professores não viram”. E minha mãe foi desesperada. Ela chegou lá: “O quê que vocês estão fazendo aqui se eu deixei vocês dentro da escola?” “Ah mamãe, leva pra casa, leva pra casa” “Não, de jeito nenhum, vocês vão pra escola”. Aí pegou as nossas duas mãos, levou pra escola. E desde então a gente nunca mais parou de estudar. Mas eu me recordo muito bem, eu lembro até do cheiro do sabonete da escola.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Lembro que depois, antes do lanche ia lavar as mãozinhas com aquele sabonete, eu queria encontrar aquele cheiro. Sempre quando eu vou em algum lugar eu sinto o cheiro de todos os sabonetes pra ver se eu encontro ele, mas é impossível, impossível.

 

P/1 – E como é que era essa escola? Você lembra de algum professor?

 

R – Do ensino infantil eu não lembro, não lembro. Mas eu lembro de uma professora que se chama Regina Brandão, ela deu aula na terceira ou foi quarta série. E eu lembro muito dela porque a casa que ela morava, ela tinha que passar na frente da minha pra ir pra casa dela. Então eu estudava à tarde, mas ela dava aula de manhã, eu acho, e ela voltava pro almoço. Então eu via ela passando, então ficou marcado. Eu via ela na escola e via ela na rua, então pra mim ficou muito marcado, eu nunca vou esquecer, Regina Brandão é o nome dela. Ela foi muito importante pra mim, foi uma professora maravilhosa. Ela me inspirou. Eu acho que hoje eu sou professora de educação infantil porque eu tive bons professores, muito carinhosos, muito amorosos e isso me fez crescer como professora talvez.

 

P/1 – E depois da Branca de Neve você foi pra onde?

 

R – Depois da Branca de Neve eu fui para a Escola Municipal João Moreira, que fica do lado da prefeitura. E é bem legal a recordação dessa escola porque a casa da minha avó fica perto. E ela na época trabalhava na prefeitura. Então quando eu estava chegando pra escola eu via a minha avó na prefeitura. E quando saía também eu via a minha avó. Eu ficava muito tranquila nessa escola porque eu sempre estava vendo a minha avó. E quando eu não estava na escola eu estava na prefeitura com ela. Ela trabalhando eu ficava sentadinha vendo ela trabalhando, depois a gente ia pra casa. Eu ficava muito com a minha avó, muito, muito. Ela fazia uma sopinha maravilhosa pra mim que até hoje eu sinto o gosto, eu sinto o cheiro, aquelas coisas de infância. Ela sempre foi muito carinhosa comigo, sempre me ensinou muitas coisas boas. Ela me chama de cravo branco até hoje por ser branquinha, eu era mais branquinha quando eu era pequena. E a minha avó é a minha segunda mãe, ela é tudo pra mim. E o meu avô, Francisco Viana também, ele todo sábado trazia docinhos da feira pra mim. Ele me chama de Nana. Todo sábado ele: “Nana, olha, vovô trouxe docinhos pra você”. Então eu tive uma infância maravilhosa ao lado deles, da minha avó Maria, do meu avô Francisco, foi muito boa a minha infância, muito boa mesmo, ao lado deles.

 

P/1 – E nessa época você já tinha quantos irmãos?

 

R – Quando eu estudava no João Moreira eu tinha meu irmão Flávio e eu acho que a Gerlaine, ela era pequenininha, era bebê.

 

P/1 – E como era você e o Flávio? Vocês estavam sempre juntos?

 

R – Nossa, grudados! Dois irmãos que, nossa, ele é meu amigo, sabe? A gente ia brincar na rua junto, ia tomar lanche ia junto, ia dormir ia junto. Pra escola também, andávamos juntos sempre, até quando éramos adolescentes. Quando tinha as baladinhas íamos juntos também. Só nos separamos depois que eu vim pra São Paulo mesmo. Mas assim, a minha infância e a minha adolescência foi com meu irmão. Ele é maravilhoso, meu irmão.

 

P/1 – Como é o temperamento dele?

 

R – Ele é muito calmo, ele é calmo demais. Mas assim, ele não escuta muito os nossos conselhos.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. A gente tenta dar conselho pra ele, mostrar o caminho certo, mas ele não escuta muito, não. É o jeito dele. Ele escutava mais quando era adolescente, depois que ficou adulto ele não dá muito ouvidos aos nossos conselhos (risos).

 

P/1 – Agora o seu pai e a sua mãe, como eles eram em casa? Como era a divisão?

 

R – Ah, meu pai como sempre trabalhou do lado de casa, na borracharia, quando minha mãe saía pra trabalhar ele era um pé na borracharia, um pé dentro de casa. E como eu era a filha mais velha eu tomava conta de tudo, de todos os meus irmãos, né? Tomava conta deles, tentava ajudar minha mãe com a casa, com algum alimento. E meu pai é assim, era essa divisão. Quando a minha mãe chegava ele ficava sossegado na borracharia, ia fazer o serviço dele, tranquilo, mas eles sempre trabalharam em conjunto, sabe? Nunca um deixou o outro sozinho em nenhum momento com tantos filhos, eles sempre souberam dividir as obrigações.

 

P/1 – A sua mãe trabalhava fora também.

 

R – É. Ela trabalha até hoje, ela trabalha fora.

 

P/1 – Ela trabalha onde?

 

R – Ela trabalha na escola, ela é merendeira da escola. Quando eu era pequena ela trabalhava numa cabine telefônica, que naquela época não tinha orelhão na cidade, então só tinha uma cabine e ela trabalhava nessa cabine, de vez em quando eu ia com ela, tal, era bem legal. Mas ela trabalhou uns dois anos, eu acho, e depois ela foi transferida pra escola. Ela começou a trabalhar na escola e até hoje está lá como merendeira. Ela é muito querida pelos alunos, pelas colegas de trabalho. Pra você ter uma ideia, quando eu estou lá que a gente vai pra feira, que eu vou pra feira com ela no sábado, quase que a gente não chega na feira, porque todo mundo para pra conversar. Eu: “Mãe, vamos, mãe, tá ficando tarde”. Ela: “Ai, pera só um pouquinho”, mas na frente tem mais alguém. Ela é muito querida: “Ai, Fátima, vem aqui, eu quero falar com você”. E eu: “Eu não vou mais na feira com a minha mãe”. Porque é assim, demora, a gente sai de casa e é perto, é pertinho, a gente vai a pé, só que demora uma hora pra chegar lá porque ela vai parando, as pessoas vão parando ela, ela vai conversando, ela é muito querida por todo mundo. Todo mundo conhece meu pai lá, conhece minha mãe, eles são muito queridos.

 

P/1 – E nessa época vocês ouviam muito rádio, assistiam muita TV?

 

R – Sim. Muito rádio e TV também.

 

P/1 – O que você assistia mais de TV?

 

R – A minha infância era Xuxa, ThunderCats, Jaspion, eram esses desenhos assim. Mas eu brincava mais na rua mesmo. Assistia ao programa da Xuxa de manhã, à tarde ia pra escola, à noite ia pra rua, ficava brincando com meus irmãos, com meus amiguinhos. Naquela época não existia essa violência que tem hoje, as crianças podiam brincar na rua tranquilas. E todas as noites a gente brincava, nem que fosse uma horinha, duas horinhas, nossos pais deixavam, ficavam olhando também, não tinha perigo nenhum. E a gente brincava de tudo: de bola, de amarelinha, pular corda, de programa, de inventar que era a Xuxa, que era a Angélica.

 

P/1 – Depois desse colégio que você estava, você foi fazer o fundamental?

 

R – Isso, aí eu fiz no Targino Pereira, fica de frente com a Igreja Matriz de Araruna, na frente da pracinha. E eu me recordo também muito dessa escola porque ao lado da minha sala tinha um jardim. E quando chovia eu achava lindo aquela água caindo em cima das plantas, molhando as flores. Então parava de prestar atenção na aula e ficava olhando praquelas plantinhas lindas, aquela chuva, sabe aquele cheiro de terra molhada. Eu me recordo até hoje daquela escola. Da professora também, eu acho que o nome dela, se não me engano, é Lucélia. Ela foi bem importante pra gente, pra mim e pro meu irmão também.

 

P/1 – Você tinha quantos anos quando você entrou nela?

 

R – Quantos anos? Eu acho que eu tinha uns dez anos.

 

P/1 – E você ficou até uns catorze?

 

R – Não, lá eu fiquei até uns dez meses mesmo e depois eu fui para o Benjamin Maranhão, que foi quando eu comecei a fazer quinta série, o ensino fundamental dois, que até então foi o ensino fundamental 1, no João Moreira e no Targino Pereira, fundamental 1. O fundamental 2 foi no Benjamin Maranhão, que já ficava na saída de Araruna pra Cacimba de Dentro que é uma cidade próxima da gente, mas é pertinho, dá pra ir a pé, bem pertinho.

 

P/1 – E nessa época você já tinha algum plano pro futuro?

 

R – Não.

 

P/1 – Você já queria ser alguma coisa?

 

R – Não. Até o sexto ano eu não tinha em mente isso, o que eu queria. Mas aí um monte de adolescente foi convidado pra participar de um programa na rádio e aí eu gostei daquilo ali, achei lindo, eu falei: “Nossa, que legal!”, eu me interessei. E um amigo nosso que era locutor da rádio perguntou se eu queria participar do programa dele já que eu gostei bastante. Falando sobre os comerciais dos mercadinhos, das lojas. Eu falei: “Eu quero!”, aí eu fui. Nossa, pra mim era maravilhoso, todas as tardes a gente ia pra rádio e ele fazia o programa dele normal, quando chegava no intervalo eu falava os comerciais das padarias, dos mercadinhos.

 

P/1 – E como era isso?

 

R – Eu fiquei eu acho que dois anos e meio fazendo isso.

 

P/1 – Ah, é? Você se lembra de alguma chamada?

 

R – Ai... era o Mercadinho Pereira. Tinha a promoção do dia do arroz, o feijão, então eu falava: “Vão no Mercadinho Pereira, hoje tem uma promoção muito legal”. Aí falava o preço dos produtos. Tinha o Mercadinho Catolé também que fazia comercial com a gente. Ai, tinha muita gente que fazia comercial lá, não vou me recordar de todo mundo, mas o que eu me lembro mais é o Mercadinho Pereira e o Catolé, que eu lembro bastante. Eles faziam todos os dias.

 

P/1 – E você ficou por dois anos e meio fazendo isso?

 

R – Eu acho que dois anos e meio. Era muito legal. A minha adolescência foi na rádio, eu entrava nas festas de graça, era muito bom, eu era conhecida por todo mundo. Todo domingo tinha um almoço na casa de alguém pra ir. Era muito legal. E aí eu pensei: “Eu vou fazer Jornalismo para eu continuar na rádio”, só que os planos mudaram quando eu cheguei em São Paulo, né?

 

P/1 – Tá. Antes de chegar nessa parte eu queria te perguntar como é que foi essa adolescência. Você começou a se interessar por alguém, teve algum namoradinho, como era isso aí?

 

R – Ah, sempre tem uma pessoa que a gente sente mais afeição, né? Mas era mesmo afeição, não era nada além disso, namorico de adolescência mesmo. Eu lembro, mas eu não queria comentar (risos).

 

P/1 – Não tem problema, não tem problema (risos). E pra se divertir nessa época alguma coisa mudou em relação à infância, não mudou? O que vocês começaram a fazer?

 

R – Ah, pra se divertir eu pedia autorização pro meu pai pra gente ir pra pracinha, às vezes tinha shows ao ar livre. E também tinha um clube que chamava-se 14 de Julho que às vezes tinha showzinhos lá. E a gente ia, era muito simples a nossa diversão lá. Era só nos sábados à noite, às vezes no domingo tinha matinê que também era um clube que tinha músicas pra gente dançar às três horas da tarde, que os pais adoravam esse horário, eles preferiam que fôssemos no domingo do que no sábado à noite. Então era assim, as festinhas de carnavais também eram nesse clube, às três horas também. Era só jovens da nossa idade e conhecidos também da mesma rua. E só isso, que eu me lembre da minha diversão lá era só sábado e domingo só.

 

P/1 – E o que tocava, quem que ia?

 

R – Ah, tocava forró e Cidade Negra. Cidade Negra tem até uma música que me recorda muito a minha adolescência, que agora eu não vou lembrar do nome.

 

P/1 – Tá, não tem problema.

 

R – Mas quando eu escuto, passa muito na Nova Brasil, eu lembro de tudo, sabe assim? Ela é o tema da minha adolescência, é muito linda. Cidade Negra.

 

P/1 – E vocês iam pra igreja, tinha costume também?

 

R – Sim. Minha mãe sempre teve essa preocupação de mantermos na igreja, na religião católica. Então fomos batizados, fizemos primeira comunhão. Eu fiz crisma, falo pra mim só falta o matrimônio nessa igreja, porque tudo, tudo foi nessa igreja.

 

P/1 – Na Matriz.

 

R – Na Matriz de Araruna. Então batizado, comunhão e crisma foi lá. Hoje eu falo pro meu marido: “Eu quero voltar pra me casar porque só está faltando isso, na igreja da minha cidade”. Ela sempre teve essa preocupação com todos, de mostrar o caminho da religião, de alguma religião. E ela conseguiu, pelo menos comigo ela conseguiu (risos).

 

P/1 – E você está na adolescência. Com quantos anos você foi pra São Paulo, por que isso aconteceu? Como é que foi?

 

R – Então, quando eu completei dezessete, dezoito anos eu vi que a minha cidade não oferecia oportunidades, era muito difícil, não tinha, só tinha mesmo o ensino normal da escola, mas não tinha cursos de graduação, técnico, não tinha. Então eu senti essa necessidade de estudar, de trabalhar, de poder ajudar meus pais também.

 

P/1 – Agora, antes de você continuar, todo mundo na cidade era assim ou quem te incentivou?

 

R – Não, todos os jovens. Hoje eu não sei como que é, tem quinze anos que eu saí, mas na minha época todos os jovens que faziam dezoito, dezenove anos tinham que ir embora porque não tinha emprego pra gente, não tinha universidade, curso técnico. Então pra gente crescer tinha que sair mesmo, viajar, deixar as pessoas que a gente mais ama pra buscar uma vida melhor.

 

P/1 – E você era muito jovem nessa época, né?

 

R – É, dezenove anos, eu acho que dezenove anos é muito jovem mesmo. Eu acho que quando meu filho tiver dezenove anos eu não vou deixar ele sair de casa pra estudar, não vou, porque sente muita falta dos pais, é um sofrimento que não tem fim, sabe? E você se sente muito só porque quem te abraçava e te beijava naqueles momentos de tristeza eram os pais e aí eu não tinha mais eles, só por telefone mesmo.

 

P/1 – Como é que foi a viagem?

 

R – Nossa, a viagem foi bem difícil porque quando eu decidi eles não queriam deixar. Mas eu falei: “Não, mas é meu futuro, eu tenho que ir”, mas o coração bem apertado. E chegou o dia da viagem, eu... Nossa, eu nunca vou esquecer essa imagem porque quando eu entrei no ônibus, que sentei na poltrona, olhei pela janela e estava lá minha mãe e meu pai na porta de casa e meus irmãos se acabando de chorar. E aquilo cortou meu coração, eu não parava de chorar, era inconsolável o choro. Inconsolável. E cada vez mais o ônibus ia se afastando deles. E eu pensei comigo: “Meu Deus, será que é a coisa certa que eu estou fazendo? Será que é isso mesmo que eu quero pra mim, ficar longe deles?”, claro que não era a coisa certa pra mim, ficar longe dos meus pais não era certo. Só que na minha cabeça se eu ficasse ali eu não ia conseguir ajudar eles e nem me ajudar também, por isso que eu fui motivada por mim mesma a sair da minha cidade. Porque eu via que não tinha mesmo o que eu queria lá pra mim, não tinha, por isso que eu saí.

 

P/1 – E você foi de ônibus dali.

 

R – Fui. De ônibus de Araruna até São Paulo, rodoviária do Tietê. São 52 horas de viagem, três dias e, assim, é muito, é sufocante a viagem. Muito cansativa. No último dia você está só o pó. Mas a chegada, quando fala assim: “Chegou em São Paulo”, aí vem um alívio. Aí foi muito diferente pra mim, foi muito diferente. Até então nas estradas não dá pra você ver nada, né? Também você está super cansado, não dá pra ficar olhando o tempo todo pela janela. Mas quando chegou em São Paulo eu olhei pela janela e aí eu vi a rodovia do Tietê, estava repleta de carros. Carros buzinando. Aí eu olhei pros prédios, falei: “Meu Deus do céu, como é diferente da Paraíba, é muito diferente”. E aí o ônibus estacionou dentro da rodoviária do Tietê. Quando eu desci aí foi que o choque foi maior. Muita gente, muita gente. Era o mês de dezembro e tinha muita gente, muita bagagem, gente pra lá, gente pra cá, eu fiquei confusa, eu falei: “Meu Deus do céu, onde eu estou? Meu Deus, será que é isso que eu quero mesmo?”, mas aí eu estava feliz. Triste por ter deixado a minha família, mas feliz por eu começar uma vida nova, uma vida de possibilidades.

 

P/1 – Você fez toda essa viagem sozinha?

 

R – Fiz.

 

P/1 – Você ia chegar lá e ia ter alguém pra te buscar?

 

R – Tinha. Tinha uma tia, ela foi me buscar na rodoviária e aí fomos pra casa. Chegamos em casa. Engraçado que depois de doze dias que eu estava na casa dela o marido veio a falecer. E isso motivou mais o meu ficar, né? Porque até então eu estava dando um tiro no escuro, não sabia se realmente eu ia ficar. E aí ele faleceu infelizmente, era uma pessoa maravilhosa, maravilhosa, está até hoje nos nossos corações. A minha tia pediu para eu ficar mesmo depois disso, ela falou: “Agora fica comigo mesmo porque eu vou precisar de uma pessoa pra me apoiar, pra me consolar, me ajudar a cuidar do meu filho também”. E aí a gente, foi onde eu me matriculei em curso técnico. Em janeiro eu já comecei a procurar curso técnico, em fevereiro já iniciei meus estudos, em março mais ou menos eu comecei a trabalhar no escritório, então tudo foi caminhando, no sentido que eu tinha sonhado, tinha imaginado pra mim.

 

P/1 – Qual era o nome da sua tia, do seu tio e eles moravam onde?

 

R – A minha tia é Maria José Viana, ela é irmã da minha mãe. E o meu tio é Esmeraldo. O meu priminho é o Felipe. E eles moravam na Rua Ministro Apolônio Salles, no Jardim Sapopemba.

 

P/1 – E ele morreu de quê?

 

R – Enfarte. Ele já tinha Chagas, ele usava marca-passo. E os médicos haviam falado que ele não ia ter muitos anos de vida, ele já tinha preparado a família também, então todo mundo estava meio que com medo de acontecer.

 

P/1 – E ele pegou Chagas onde?

 

R – Em Minas Gerais. Ele trabalhava na roça, em Minas.

 

P/1 – E depois que você chegou você já estava se alinhando, você foi fazer técnico em quê?

 

R – Eu fiz em Administração Aplicada na ETEC Rocha Mendes, na Vila Prudente. E aí a minha tia colocou o carro à venda. Eu vou entrar na história aí que quando eu iniciei o meu curso eu sabia dirigir mais ou menos, mas não tinha carta pra dirigir em São Paulo. Ela falou: “Como você não dirige e eu também, esse carro vai estragar na garagem, a gente vai pôr ele à venda”. Eu falei: “Tá bom”. A gente fez uma plaquinha, colocou no portão de casa. E aí o meu sogro passou no portão e chamou o meu marido, que na época a gente nunca tinha se visto, para ir olhar o carro. E aí eles bateram lá, apertaram a campainha, a minha tia foi atendê-los, ele falou: “Ah, a gente veio olhar o carro que está à venda”. Ela falou: “Ah, tudo bem, eu vou chamar a minha sobrinha para ela ligar e mostrar pra vocês”. Aí a minha tia me chamou. Foi quando eu vi o meu marido pela primeira vez e ele me viu. Então foi amor à primeira vista ali, foi bem no início do ano mesmo. Eu tinha chegado em dezembro de 99 e eu conheci o meu marido no final de janeiro pra fevereiro de 2000. Então foi amor à primeira vista ali. Desde então a gente ficou procurando conversar um com o outro, marcar encontros, ligar, foi um amor imbatível, sabe? Aqueles que você vê a pessoa e fala assim: “Nossa, é esse aqui que Deus enviou pra mim”. E realmente foi, realmente foi. Porque a minha vida se transformou completamente depois que eu conheci o meu marido. Eu era uma pessoa antes e depois dele eu me transformei em outra pessoa, melhor do que antes, sabe? A minha vida depois dele ficou melhor, sabe? É um amor assim que...

 

P/1 – Como é que você explica isso?

 

R – Assim, o pessoal fala que não existe amor à primeira vista, né? Eu falo que existe sim. Porque eu vim da Paraíba, de tão longe, 2.700 quilômetros. E aí eu estou na casa da minha tia, de boa, e de repente chega ele e o pai dele pra olhar o carro e a gente olha um pro outro e nossos espíritos já se atraem. E dali começa um grande amor, sabe, uma história de amor muito, muito linda mesmo, muito linda. Até eu falo que eu tomei a iniciativa, mas ele já pensava em mim antes, tá? (risos) Ele vai ficar orgulhoso por isso. Eu conversei com uma amiga minha e falei: “Nossa, o Paulo é muito legal, adorei conhecer ele”. A minha amiga falou: “Nossa Elaine, ele falou a mesma coisa de você. Eu acho que eu vou marcar um encontro pra vocês”. Eu falei: “Como?”. Ela falou: “Você está precisando de currículo?”. Eu falei: “Eu tô”. Ela falou: “Eu vou pedir pra ele fazer, tá?” “Beleza”. A gente pegou o telefone, ligou pra ele. Na hora, na hora ele falou: “Já te pego aí”. E aí eu fui pra casa dele, já conhecia o pai dele, a mãe, eles muito legais. Ele fez o meu currículo, perguntou de onde eu era, como era o nome da minha mãe, do meu pai. Eu também perguntei da mãe dele e do pai dele. E parecia que a gente já se conhecia há muito tempo. Por isso que eu falo que eu acredito em vidas passadas, porque eu acho que a gente se reencontrou porque não é possível uma coisa dessas, de eu ser de tão longe e vir encontrá-lo aqui em São Paulo, eu acho que é reencarnação mesmo, acho que nós éramos alguma coisa, algum parente próximo que faleceu muitos anos atrás, mas nos reencontramos porque foi inexplicável mesmo. Desde aquele momento nunca mais a gente conseguiu ficar longe um do outro. Nunca mais.

 

P/1 – E você continuou estudando.

 

R – Continuei. Ele me deu muita força. Eu terminei o curso, saí do escritório, fui trabalhar de caixa em um açougue, trabalhei nesse açougue por três anos. E ele falou: “Ah, eu não quero que você continue trabalhando como caixa, vamos fazer uma faculdade, eu vou te ajudar”. E aí foi quando eu decidir fazer Letras porque na época Jornalismo estava muito caro e era a faculdade que eu queria fazer. Eu falei: “Ah, eu faço Letras e depois eu faço Jornalismo”. Só que aí os caminhos mudaram. Terminei Letras, foi muito bom, até hoje sinto saudades, uma faculdade maravilhosa. E quando eu terminei eu já estava trabalhando como professora na escola. E aí e o Jornalismo? Eu falei: “Já não quero mais fazer, quero ser professora mesmo, quero trabalhar na escola”. Aí eu fui ser professora de educação infantil, da primeira série até o quinto ano, com aulas de inglês. E aí eu gostei tanto da educação infantil que eu pedi pra diretora que eu queria trabalhar com os menorzinhos do mini e maternal. Ela falou: “Ah, pra isso você tem que entender mais um pouquinho como é a infância, a criança”, por isso que eu fiz a Psicopedagogia. E o meu marido me apoiando em tudo, me ajudando: “Olha, faz isso, estuda mesmo”. Ele sempre me apoiou em tudo, em todas as decisões que eu tomei ele sempre estava ali me apoiando e me ajudando.

 

P/1 – Agora vou voltar só um pouco. Na Letras como é que foi? Onde foi, como é que...

 

R – Foi na Universidade do Grande ABC, fica em Santo André na Avenida Goiás. Eu estudava à tarde e eu pegava um ônibus pra ir, mas era ônibus fretado, com mais oito amigas. A gente ia de ônibus fretado pra faculdade. E foi um momento da minha vida muito bom, sabe? Muito bom. Eu sempre gostei de estudar e gostava muito de ler, mas nunca tinha pensado em fazer Letras. Eu entrei de sopetão na Graduação de Letras, mas foi uma graduação que me conquistou nos primeiros dias de aula. Eu falei: “É essa mesmo que eu quero, é isso mesmo que eu quero pra mim”. As literaturas, as línguas, as gramáticas. Eu falei: “É isso que eu quero pra mim”. Aí fiz e terminou muito rápido. Foram três anos, mas pra mim passou muito rápido.

 

P/1 – Você se interessa mais por gramática ou literatura?

 

R – Literatura. Linguística também. Linguística eu ainda penso em estudar. Só fazer um mestrado em Linguística, porque eu me interesso bastante. Essa variação de língua que o Brasil tem, né? Foi onde eu conheci. Por que eu falo com sotaque? Por que eu falo palavras diferentes do vocabulário de São Paulo? É por causa da colonização que foi diferente. Na Paraíba foi uma colonização, em São Paulo já foi outra. Então a gente misturou tudo, indígenas, portugueses, espanhóis, então, é uma mistura, o Brasil, é isso que eu quero estudar, quero fazer mestrado em Linguística para eu entender mais essa mistura que é muito bonita. A gente estudou sotaque do Sul, do Sudeste, do Nordeste, do Centro-Oeste. E eu via as diferenças, né? Porque o pessoal falava: “Nossa, mas o pessoal tem muito preconceito com o pessoal do Nordeste”. Nossa, mas não tem nada a ver, é diferente por causa da colonização mesmo, da história do Brasil, né? Veio muita gente de países diferentes e a nossa língua foi construída, as palavras foram construídas através deles, né?

 

P/1 – E você tem algum livro preferido, favorito, dessa graduação, de literatura pra vida?

 

R – Tenho. Eu gosto muito de Casimiro de Abreu. De todas as obras do Casimiro de Abreu. É difícil eu falar um pra você, é muito difícil. Gosto do Fernando Pessoa, do Machado de Assis. Clarice Lispector, amo demais. Amo, amo Clarice Lispector. E eu também escrevi um livro.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É o meu preferido agora (risos). É um livrinho, pequenininho, que conta um pouquinho, se chama “Doce infância de Catarina”. Que na verdade é um pouco da minha lembrança de infância, é um pouquinho da lembrança da minha infância. Mas é bem pequenininho, é simplesinho.

 

P/1 – E como é que é? Conta pra gente.

 

R – O livro?

 

P/1 – É, em algumas palavras pra resumir, não dá pra falar tudo.

 

R – É um livro que conta a história de uma menininha que vivia na cidade do interior que amava a cidade, os pais, os amigos, tinha um bichinho de estimação, um porquinho. E o pai dela foi viajar, ela não sabia pra onde e um dia – estou resumindo bem – um dia ela saiu em busca desse pai. E ela foi embora andando com a sacolinha até achar o pai dela. Aí no final ela achou o pai dela, voltaram pra casa. Mas no decorrer do livro conta o que ela passou durante essa andança que ela fez pelas cidades, as pessoas que ela conheceu, o que ela sofreu. Mas ela consegue trazer o pai dela de volta. É bem legal.

 

P/1 – E por que você ficou com essa imagem na cabeça? De um pai indo embora. Porque o seu pai nunca foi embora, né?

 

R – É. Ele fez assim, como os meus avós moravam em Brasília, moravam porque eles já são falecidos. E a cada dois anos ele viajava pra ver os pais. Então eu sentia muita falta do meu pai quando ele viajava, eu achava que ele nunca mais ia voltar. Na minha cabecinha ele pegava aquele ônibus pra sempre. E eu ficava chorando desesperada chamando pelo meu pai, pelo meu pai, então isso ficou na minha memória. E por isso eu escrevi esse livro, mais ou menos com aquilo que eu vivi, com a viagem dele indo pra Brasília.

 

P/1 – Então não é que ele foi, mas você tinha esse sentimento de que ele nunca ia voltar.

 

R – É. Criança tem esse sentimento. Quando ele começa a entender que o pai dele sai pra ir trabalhar ou a mãe ele pensa que eles nunca mais vão voltar. Ele pensa. Até um dia desses meu filho estava assim. Ele chorava muito quando eu saía, chorava muito. Na escolinha também, quando eu deixei ele na escolinha a primeira vez ele chorou muito porque a criança pensa que a gente está abandonando ela, pensa que a gente vai deixar ela lá. E era isso que eu sentia quando meu pai viajava.

 

P/1 – Agora a história do porquinho é verdadeira?

 

R – É verdadeira. A história do porquinho é bem verdadeira.

 

P/1 – Como é que foi isso?

 

R – Então, porque a minha irmã Solange ganhou um porquinho filhotinho dos padrinhos dela. E aí ele cresceu e ficou adoentado. E meu pai falou que não queria mais, que não tinha como cuidar dele. Eu falei: “Não pai, pode deixar ele aí que eu cuido dele”. E eu cuidei, dei um nome pra ele, dava banho com xampu, dava comida pra ele. Ele ficava dentro de casa, ele dormia no pé da minha cama. Ele tomava banho e eu secava ele com a toalha. O nome dele era Frederico. E ele cresceu, ficou aquele porcão grandão.

 

P/1 – Ele ficou enorme?

 

R – Ficou. Ficou grandão assim com os pelos brancos (risos). E todo mundo estranhava: “Nossa! Uma menina com um porco de estimação, o que é isso?”. Mas eu amava ele, sabe? Ele me via, ele corria atrás de mim.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Ah, ele era muito carinhoso. Foi o único bicho de estimação que eu tive, foi o meu porquinho.

 

P/1 – Você passeava com ele?

 

R – Passeava (risos). Pelo menos na calçada de casa, de uma ponta a outra eu passeava com ele. No campo que era de frente da minha casa também passeava, dava umas voltinhas com ele, segurando na cordinha. E o pessoal achava muito estranho, muito. “É, Paulo, leva o porco pra abater”. E meu pai: “Não, pelo amor de Deus, ele faz parte da família! Deixa ele aí”. Ele viveu até não querer mais (risos).

 

P/1 – Ele morreu de velhice mesmo.

 

R – É.

 

P/1 – Quantos anos ele tinha?

 

R – Vixi, tinha uns dez.

 

P/1 – Dez anos. Então você cresceu com ele.

 

R – Foi. Eu era pequenininha. Porque minha irmã era bebezinha quando ela ganhou, eu acho até que foi de batismo, presente de batismo. Eu falei assim: “Ela é bebê, como ela vai cuidar dele? Deixa que eu cuido.” Mas aí eu só fui perceber que ele ficou doente quando ele estava grandinho, mais ou menos assim, que meu pai queria dar pra alguém. Eu falei: “Não, pode deixar que eu cuido dele”, ele já tinha uns dois anos nessa época, quando eu percebi o porco, né? Ele tinha uns dois aninhos. E aí eu cuidei dele até...

 

P/1 – Até ele morrer.

 

R – É.

 

P/1 – E ele não... não sei se ele dormia, se ele roncava?

 

R – Ah, ele dormia do lado da minha cama e não roncava muito, não. Era educadinho. (risos)

 

P/1 – E vocês enterraram ele? O que vocês fizeram?

 

R – Sim. Lá na chácara. Na chácara que eu falei que eu brincava debaixo dos pés de caju, de manga. Foi embaixo de um pé de jaca.

 

P/1 – E deve estar até hoje lá.

 

R – Ah, tá sim. (risos)

 

P/1 – Agora vamos voltar pra São Paulo. Você namorou o Paulo por quanto tempo?

 

R – Três anos. De namoro e noivado foram três anos.

 

P/1 – De 2000 mesmo que vocês namoraram.

 

R – Isso. De 2000 até 2003. Em outubro de 2003 nos casamos.

 

P/1 – E ele fazia o quê nessa época?

 

R – Estudava. Fazia Administração de Empresas.

 

P/1 – Ele queria trabalhar em empresa.

 

R – Em empresa mesmo.

 

P/1 – E a família dele, como é a família dele?

 

R – Nossa! Eu ganhei um pai e uma mãe.

 

P/1 – É? (risos).

 

R – É. Desde o início eles apoiaram muito o nosso namoro. Eles sempre nos ajudaram em tudo o que você imaginar. Tudo, tudo, tudo. Eu sou muito agradecida à minha sogra e ao meu sogro porque eles foram a minha mãe e o meu pai aqui em São Paulo. A minha mãe e o meu pai. Tenho todo o carinho por eles e o meu agradecimento total, total.

 

P/1 – E a família dele é de que origem, você conhece?

 

R – Eles são paranaenses.

 

P/1 – Paranaenses.

 

R – É, de Maringá. Eu já conheci também todo mundo. Família maravilhosa, maravilhosa mesmo. Acolhedora. São demais (risos).

 

P/1 – E em 2003 vocês se casaram, né?

 

R – Isso, em outubro de 2003.

 

P/1 – Como é que foi o dia do casamento?

 

R – Foi muito choro (risos). O meu pai veio pro casamento. Então quando eu já estava pronta pra sair, que eu cheguei lá no cartório eu já comecei a chorar também quando eu vi o meu pai lá. Já estragou toda a maquiagem, que eu estava muito, muito emocionada. Meu marido também chorou muito. Eu falo: “Nossa”. Todo mundo chorou. Os pais dele, o meu, que a minha mãe não pôde vir. Foi muito emocionante o meu casamento, muito mesmo. Emocionante e alegre, né? E um pouquinho triste porque minha mãe e meus irmãos não vieram. Então eu chorei mais por causa disso.

 

P/1 – E teve festa depois?

 

R – Teve. Teve um churrasquinho, né? Que na época a gente não tinha nem condições de fazer um festão. Nós casamos quando eu tinha 22 anos e ele 23. Então foi uma coisa muito rápida, não tinha condições de fazer festa, foi só um almoço mesmo pra família, um bolo. Mas foi a melhor festa das nossas vidas (risos).

 

P/1 – E isso foi em Sapopemba?

 

R – Foi. Foi no Jardim Tietê, pertinho. É, Sapopemba, Jardim Tietê é tudo colado ali, tudo juntinho.

 

P/1 – E vocês se casaram e foram morar onde?

 

R – Nós fomos morar no quintal da minha sogra. A gente foi morar num quarto e cozinha porque durante o nosso namoro e noivado o meu marido construiu, nós construímos lá no quintal da minha sogra. E aí lá nós moramos por três anos também, até comprar nosso primeiro apartamento.

 

P/1 – Que foi onde?

 

R – Foi no Jardim Independência. Foi o primeiro apartamento. E assim, nós escolhemos esse apartamento já tinha mais de quarenta anos de construído. Já tínhamos olhado outros também, novos, mas o que chamou a nossa atenção foi uma árvore que ficava na frente da janela do nosso quarto e a folha dela entrava pro quarto, a folhagem dela. Era no terceiro andar então pegava a copa da árvore. Eu falei: “Não quero olhar mais nenhum, eu quero esse aqui”, por causa da árvore mesmo a gente pegou, a gente comprou esse apartamento. Então foi lá que construímos de novo a nossa vida e trabalhamos pra pagar muito, muito duro mesmo. E durante o pagamento, o financiamento, a gente também fez intercâmbio.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. A gente fez intercâmbio em Chicago. A nossa morada lá foi maravilhosa, foi onde nasceu o nosso filho também, o Paulinho nasceu lá no Jacarandá, 32. Até hoje ele fala que mora no Jacarandá 32.

 

P/1 – Vocês se mudaram?

 

R – Aham. A gente mudou pro outro lado da rua (risos). Para um apartamento maior porque o nosso era de escada. Quando éramos só nós dois, tranquilo, dava pra subir com as compras, mas quando o Paulinho nasceu ficou mais complicado porque tinha que carregar ele no colo e mais as compras. Aí eu fiquei muito cansada e ele não estava andando ainda. Eu falei: “Não, a gente vai ter que mudar pelo menos para um apartamento que tenha elevador para ajudar mais um pouquinho”. Aí foi o que nós fizemos. A gente foi morar do outro lado da rua em um apartamento que tem elevador.

 

P/1 – Agora como é que foi esse intercâmbio pra Chicago? Vocês foram quanto tempo?

 

R – Foi um mês. Ficamos quinze dias em Chicago e os outros quinze dias ficamos viajando por Boston, Nova York, Orlando. E pra mim foi bem legal porque eu não imaginava que isso fosse acontecer na minha vida, né? Eu nem imaginava. Quando eu saí de Araruna eu estava com muito medo, com inquietações: “Meu Deus do céu, o que é que eu estou fazendo?”, pensamentos que eu não sabia pra onde ir, o que ia fazer. E de repente a minha vida foi tomando um rumo muito bonito, muito brilhante depois que eu conheci o meu marido. E aí foi dando tudo certo. Ele terminou a faculdade dele, eu terminei a minha, a gente foi fazer intercâmbio. E lá eu ficava imaginando, até chorei quando cheguei lá, falei: “Meu Deus, eu não imaginava que isso ia acontecer comigo”. Não imaginava mesmo, foi muito emocionante, muito mesmo.

 

P/1 – E vocês gostaram dos Estados Unidos?

 

R – Muito, demais. Uma cultura muito boa, maravilhosa. Tem muito o que oferecer, tem muito que nos faça aprender com alguma coisa com a cultura deles. É muito bom.

 

P/1 – E foi em que ano essa viagem?

 

R – Foi em 2010.

 

P/1 – E o seu marido estava trabalhando onde nessa época?

 

R – Em 2010 ele estava na Diageo do Brasil, aquela que faz a Johnny Walker.

 

P/1 – E você já estava trabalhando em escola?

 

R – Já. Já estava trabalhando na escola.

 

P/1 – Como é que era esse trabalho com as crianças?

 

R – Nossa, é meu paraíso!

 

P/1 – É?

 

R – Meu paraíso. Eu amo criança, eu amo ensinar, educar. Eu gosto de cuidar também. Então quando eu estou com as crianças eu estou em casa, estou no paraíso mesmo. Para mim ser professora não é ter só uma profissão, mas é ensinar a caminhar na vida, ajudar as crianças a pensar, aprender, a escolher o caminho certo, a respeitar a cultura dos outros, os pensamentos dos outros, a opinião dos outros. É isso. Professor não é só professor, professor é psicólogo, professor é médico, professor é engenheiro.

 

P/1 – É engenheiro? (risos).

 

R – É por isso que todas as profissões começam pelo professor, né? Elas existem por causa do professor que está ali na sala de aula. O professor é mãe, o professor é pai, é amigo. Então é isso, eu não vejo só como uma profissão, eu acho que pra ser professor você tem que amar primeiramente a si próprio, amar a vida e amar todo mundo, todas as pessoas, independente de cor, de raça, de situação financeira. Professor eu acho que é o pai ou a mãe de todas as outras profissões.

 

P/1 – Agora você teve algum aluno que te marcou em específico? Algum caso, uma situação difícil?

 

R – Tem. Tem uma situação bem difícil. Nem sei se posso falar o nome dele.

 

P/1 – Acho que é melhor não, mas fique à vontade.

 

R – Posso dar um nome fictício também, né? Vou dar de Joaquim. Não, Joaquim não que é o nome do meu sogro. Você vai cortar depois, né?

 

P/1 – A gente pode ver.

 

R – Tá. Então, nós estávamos no parquinho, eu e a auxiliar. E ele foi brincar no castelinho de plástico. E o chão é todo forrado com EVA, até hoje a gente não sabe como ele se machucou. Ele caiu, bateu a cabeça e cortou bem em cima, fez um corte. Então quando a gente olhou pra ele, ele estava todo lavado de sangue. Quando eu vi aquilo eu falei: “Meu Deus do céu, o que é isso?”. Nós pegamos, enrolamos uma toalha, levamos pra coordenação e encaminhamos pro hospital e eu fui junto com ele, acalmando. Apesar que ele me acalmava mais do que eu acalmava ele, sabe? Ele: “Professora, tá tudo bem, eu estou bem, não se preocupe”. Eu: “Você está bem?”, passava a mão na cabecinha, dava beijinho. “Não, está tudo bem, está tudo bem”. Aí chegou lá, rapidamente os médicos já foram ver. Era um cortezinho, não tinha nada demais, mas é que criança tem a pele fininha, né, tudo sangra. Mas aquilo mexeu muito comigo, mexeu muito comigo. Eu fiquei preocupada, eu falei: “Meu Deus, foi falta de atenção? Eu não dei a atenção devida praquela criança?”, você se culpa um pouquinho, então isso marcou a minha vida, marcou a profissão também. E a partir daí eu fiquei mais atenta, falei: “Meu Deus do céu, vou ficar de olho em todo mundo assim”. Você tem que ter mil braços, mil pernas e olhos atrás da cabeça, na frente, dos lados. Mas marcou mesmo.

 

P/1 – E outro aluno bom, ou um aluno que deu muito problema?

 

R – Não. Todos eles foram maravilhosos. Todos, todos. Desde o infantil até o fundamental um, todos eles, eu sempre tive sorte com eles. Todos bonzinhos, respeitavam as aulas, não gritavam. Porque tem aluno que faz bagunça mesmo, eu não tive aluno bagunceiro.

 

P/1 – Até hoje.

 

R – Até hoje. Ai que bom, eles vão adorar ouvir isso (risos).

 

P/1 – Agora, depois de fazer a graduação você continuou estudando.

 

R – Continuei.

 

P/1 – Você disse que seu marido incentivou.

 

R – Ele incentivou.

 

P/1 – Você foi fazer o quê depois?

 

R – Psicopedagogia. Mais para eu entender a mente das crianças, porque Letras você faz mais pra trabalhar com adolescente, é ensino fundamental 2 e médio. E eu não tinha Pedagogia na época. Então a Psicopedagogia me trouxe mais conhecimento sobre as crianças, por isso que eu fiz. E me ajudou bastante na aprendizagem delas.

 

P/1 – E agora você está fazendo Pedagogia, é isso?

 

R – É. Faço Pedagogia.

 

P/1 – E como é que está sendo? Começou em que ano?

 

R – Eu comecei agora em fevereiro. E está sendo tranquilo mesmo. É uma graduação que você faz em curto prazo porque eu já tenho uma licenciatura, então é só um ano mesmo. Eu vou pegar as matérias mais importantes pra estudar porque como eu já tenho a licenciatura, se chama Curso pra Licenciados na verdade. Então em um ano, se Deus quiser, tá aí a Pedagogia também pra história.

 

P/1 – E o seu filho nasceu em que ano?

 

R – Ele nasceu em 31 de julho de 2012.

 

P/1 – E vocês decidiram que iam ter um filho, planejaram?

 

R – Olha, desde os meus 22 anos eu sempre desejei ter um filho. Sempre, sempre, sempre. O que me segurou mesmo foi o meu marido, que ele falava assim: “Não, primeiro a gente vai estudar e depois a gente tem um filho”. E realmente foi o que nós fizemos, primeiro nós estudamos. Mas aquela vontade de ser mãe não ia embora. Todo ano eu falava: “Ai meu Deus, eu quero tanto engravidar”. E os anos foram passando, foram passando, até que quando nos formamos, compramos nosso apartamento, aí falamos: “Agora é hora, vamos ter um filho”. E assim, eu estava super tranquila, tal e o Paulinho veio de surpresa mesmo, sabe? Ele veio de surpresa. Um dia eu estava na escola e a moça que pega as crianças falou assim: “Você está grávida”. Eu falei: “Eu não” “Você está grávida sim”. Eu falei: “Como? Como você sabe?”. Ela falou: “Não posso te explicar como, mas você está”. Eu fiquei curiosa: “Será?”, aí passei na farmácia, comprei o teste, tal, esperei meu marido chegar em casa. Aí ele pegou a guitarra, foi tocar, que ele gosta muito de guitarra. Aí ele estava tocando lá, eu fiz o teste, mostrei pra ele. Ele: “O que é isso? O que significa isso?” “Eu estou grávida”. Então foi aquela festa. Meu Deus do céu, acho que foi o dia mais feliz das nossas vidas foi aquele dia. Do dia que falou, daquele teste que deu positivo. Foi o dia mais feliz porque o Paulinho foi muito desejado, muito. Por todo mundo, por toda a família, foi muito desejado. Então foi uma gravidez super tranquila, muito cuidada. E o nascimento dele também foi muito bom. Claro que a gente tem medo de todas as coisas que podem acontecer, mas a felicidade cobriu todo o nervosismo, todo o medo. Então assim, o Paulinho veio mesmo pra transformar a minha vida e a vida do pai dele, que já tinha sido transformada com o amor que eu tenho pelo meu marido e ele por mim, que ele também fala que a vida dele começou depois de mim. Eu também falo que a minha vida só começou depois dele. E agora a nossa vida melhorou muito mais com a chegada do nosso filho. Ele é muito importante pra gente, muito, muito mesmo. Ele é a alegria da casa, é a felicidade, ele é a nossa riqueza. Nada nesse mundo tem comparação ao amor e à importância que ele tem pra gente, nada, nada.

 

P/1 – E ele está com quantos anos hoje?

 

R – Hoje ele tem três anos e seis meses. Três anos e seis meses de uma criança linda, maravilhosa, amorosa demais, demais. Gosta de todo mundo, gosta de brincar, adora aprender, adora ler também. Todas as noites: “Mamãe, pega um livro, lê pra mim”. Ele pede para eu ler pra ele. E aí depois a leitura, ele conta pra mim o que ele aprendeu. É muito bom, muito bom estar com eles.

 

P/1 – E como é que ele é? Ele é calmo? Ele é brincalhão, ele corre muito?

 

R – Ele é brincalhão. Corre muito. Muito, muito, muito. Ele dá voltas no apartamento. Principalmente quando é hora de escovar os dentes: “Paulinho, vem escovar os dentes”. Ele começa a correr dentro de casa: “Não, não, não”. E fica dando voltas dentro do apartamento.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Nossa, ele não para. É o dia inteiro. Quando ele chega da escola eu penso: “Ah, Paulinho vai chegar cansado”. Que nada. Ele vai brincar, pega os brinquedos, coloca tudo no chão, brinca, me chama pra brincar junto. Assim, quando ele está em casa eu não consigo fazer nada mesmo, não consigo estudar, não consigo arrumar o apartamento. Porque é só com ele mesmo. Ele quer toda atenção do mundo, não posso fazer nada. “Mamãe, vem aqui mamãe, vem brincar comigo”. E aí eu tenho dó de falar: “Não, filho, mamãe não pode agora”. Eu tenho dó mesmo. Eu não consigo falar não pra ele, aí eu vou brincar. As coisas ficam pra fazer depois (risos).

 

P/1 – E como é ser mãe e ser professora ao mesmo tempo, de criança?

 

R – Olha, quando eu estudava Letras, Psicopedagogia eu falava: “Nossa, quando eu for mãe eu já vou saber de tudo, já vou educar meu filho, vou saber de todas as coisas”. Não é assim. Não é de jeito nenhum. Essa teoria não se aplica às professoras mães, não se aplica de jeito nenhum, é diferente demais. Claro que com seus alunos você tem um carinho enorme, enorme, tem um amor porque você está na sala porque ama, né? Mas quando você vira mãe a educação é diferente, é aquela criança que você quer estar sempre perto, sempre junto. É aquela criança que você quer educar para sempre. E você sabe que seus alunos não vai ser para sempre, né? Todo ano eles têm, está na segunda série, ano que vem já está na terceira, depois na quarta e aí eles vão esquecendo a gente. E o filho não, o filho é pra vida inteira. Essa é a diferença de mãe e professora, né?

 

P/1 – E agora vocês estão pensando em ter outro filho?

 

R – É, a gente pensa ter outro filho porque a nossa experiência com o Paulinho foi muito boa, está sendo muito boa, então a gente pensa dar uma irmãzinha, um irmãozinho pra ele, um pouquinho mais pra frente, quando ele tiver quatro, cinco anos a gente pensa dar um irmãozinho, sim.

 

P/1 – E agora fala pra mim, hoje o que fez você vir contar sua história?

 

R – Então, o que me motivou é que o meu marido estava indo pro trabalho escutando a rádio CBN e aí ele ouviu falando sobre Conte Sua História na CBN. E ele me ligou e falou: “Elaine, por que você não escreve sua história pra CBN?”. Eu falei: “Legal, né?” Ele: “É, tal”. Eu escrevi e mandei. E aí quando foi no sábado seguinte a minha história foi lida. Eu perdi porque eu não olhei o e-mail antes, aí eu entrei em contato e falaram: “Não, não, você pode ouvir a sua história, está no blog”. Entrei lá no blog, olhei a minha história, escutei. E mais embaixo estava: “Conte Sua História Museu da Pessoa”. Eu falei: “Legal, interessante também”. Aí eu mandei um e-mail e logo entraram em contato comigo e agendou. Aí hoje eu estou aqui contando a minha história, estou adorando. Achei que ia ser muito difícil. É difícil, falar de si é difícil, não é fácil, mas assim, tá fluindo. (risos)

 

P/1 – Que bom! Mas qual história você mandou pra CBN, a sua história inteira da vida ou foi uma parte?

 

R – Não, foi assim. Porque como estava perto do aniversário de São Paulo eu quis homenagear a cidade. Então eu contei um pouquinho de como foi a minha chegada em São Paulo e o que São Paulo me deu de presente, o que eu vivi em São Paulo, é bem pouquinho mesmo. E depois eu conto que hoje mãe, professora, esposa, eu fecho meus olhos e aí eu sinto as mãos de São Paulo passar no meu rosto e falar: “Filha, você venceu. Venceu todos aqueles medos que você tinha, todas as inseguranças, todos os problemas”, que também não foram só coisas boas, aconteceram coisas ruins também e eu superei junto com as pessoas que me amam aqui em São Paulo. E eu sinto que é realmente, quando eu fecho os meus olhos eu sinto essa calma e o que São Paulo me deu de presente, né, que foi o meu esposo, o meu filho, a minha sogra, o meu sogro. E essa vida que eu estou tendo agora. E o melhor presente ainda é quando eu volto pra Paraíba e levo eles, aí lá eu me completo porque minha mãe, meu pai, meus irmãos, meu marido e meu filho. Então eu fico completa. Mas em homenagem a São Paulo mesmo, que eu amo essa cidade, amo mesmo, foi a cidade que eu escolhi pra morar, pra viver. São Paulo conquistou mesmo o meu coração. Aí eu lembro, né, quando eu cheguei aqui toda confusa vendo aqueles carros, aquelas buzinas, aquelas pessoas e tudo confuso, eu não sabia como ia ser a minha vida, o meu destino e deu tudo tão certo. Porque as pessoas que eu encontrei no meu caminho foram todas boas, todas. Todas, todas. Eu agradeço a todas elas.

 

P/1 – E você tem algum sonho hoje que você queira realizar?

 

R – Ah, eu tenho! Eu tenho muitos sonhos ainda. Eu sonho escrever um livro grande, sonho de meu filho poder estudar fora. Sonho de trazer meus pais pra cá, ou eu voltar pra lá. Então são muitos sonhos que eu acho que Deus vai me conduzir, vai me conduzir e o que for melhor pra mim e pra minha família eu acho que Deus vai saber, ele vai falar pra mim qual é o caminho certo.

 

P/1 – Como é que foi contar um pouco da sua história?

 

R – Nossa, não foi fácil, não! (risos) Não foi fácil porque você começa a lembrar de tudo o que aconteceu na sua vida de coisas boas, coisas ruins, da sua infância, o que marcou a infância, adolescência. E a vida adulta também. E tudo envolve a emoção, né? Tudo é muito cheio de sentimento, é tudo cheio de amor, de sentimento, de lembranças. As lembranças vêm à tona como se fosse um filme passando na sua cabeça. Eu acho que uma vida inteira não dá pra contar, não dá pra contar, então estou adorando poder contar um resuminho da minha história, de deixar um pouquinho meus pais orgulhosos, de saber que eu falo que eu amo a minha cidade. Eu saí de lá não foi contra a minha cidade, foi por amor à cidade, aos meus pais e amor por mim, mais por mim também, né? Mas eu continuo amando.  Eu vi agora cresceu, agora tem faculdade, tem curso técnico. Os adolescentes não precisam necessariamente sair de lá pra buscar estudos fora, então mudou muita coisa de lá pra cá. E aí eu fico feliz por isso, que as crianças que estão se formando agora não vão precisar deixar o pai, a mãe e os irmãos pra estudar fora, fazer um curso, arrumar um emprego, necessariamente não. Se for mais longe, o mais longe será João Pessoa, será Natal que é perto, Campina Grande também que são cidades maiores. Mas sair de Araruna pra morar em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, eu acho que hoje é mais difícil eles fazerem isso.

 

P/1 – Tem alguma coisa que você queria que eu perguntasse e eu não perguntei, você acha?

 

R – Não. Eu acho que você conseguiu perguntar tudo. Porque agora eu não consigo lembrar mesmo de alguma coisa, tal. Só do, eu falei do tio Zé e eu não coloquei ele na foto, né? E eu fiquei pensando: “Meu Deus, ele fez parte da minha infância e eu não coloquei ele na foto”. Mas só isso mesmo.

 

P/1 – E o que você acha desse espaço das pessoas poderem contar sua história?

 

R – Eu acho o máximo. Eu acho o máximo porque todas as pessoas têm uma história pra contar. Todas. Você olha no olho de alguém e você imagina: “Nossa, essa tem uma história pra contar. Aquele também tem”. Todo mundo tem. Na rua, dentro do metrô, dentro do ônibus, dentro do trabalho, todas elas têm uma história pra contar. Eu acho isso o máximo, que as pessoas devem mesmo contar suas histórias e que fiquem gravadas pros seus netos assistirem, bisnetos e ver a origem deles. O que eu sinto falta hoje, como adulta, é saber da origem dos meus bisavós maternos, paternos, a gente não tem. E as crianças de hoje podem ter futuramente isso: “Mas eu quero saber quem foi a minha avó, o meu bisavô, minha bisavó”, hoje eles têm essa possibilidade. Então eu acho muito importante. Não pra ficar guardado, mas pra ser publicado mesmo e que futuramente a família, a nova geração procure esses vídeos e conheça seus avós, seus bisavós, que eu acho que é uma coisa que fica pra sempre, né? Se cuidar direitinho fica pra sempre.

 

P/1 – Está certo, Elaine. Muito obrigada pelo seu tempo, foi ótimo.

 

R – Eu que agradeço, muito obrigada mesmo.

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Obrigada.

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