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Escrevendo a História

História de: Roland Marinho Sierra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Roland nasceu no Rio de Janeiro, mas com cinco anos de idade foi morar em São Paulo com a família. Lembra vividamente do centro da cidade, onde morava, das brincadeiras na rua, do bairro de Santa Cecília, das diversas casas e pensões em que morou. Sempre gostou de estudar, e acabou passando na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, formando-se como advogado, profissão, porém, que nunca exerceu. Após a sua formatura, a Folha de São Paulo acabou lançando um concurso de estágio, no qual Roland passou. A partir daí, entra para o jornalismo e nunca mais sai. Passa pelos cargos desde redator até editor chefe do jornal. Trabalhalou um longo período como editor na seção de Política, cargo que lhe rendeu diversas histórias para contar, e que acabam traçando todo o cenário do Brasil da época. 

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História completa

R – Meu nome é Roland Marinho Sierra, um nome de origem francesa, mas é bobagem, eu sou neto de espanhol e pronto. Nasci no Rio de Janeiro, fiz faculdade de Direito em São Paulo, fiz todo o curso normal, me formei na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e assim que eu me formei...

 

P/1 – Qual é a data de nascimento?

 

R – 12 de janeiro de 1933, portanto eu vou fazer agora oitenta anos.

 

P/1 – Seus pais são de onde?

 

R – Meu pai era mineiro e minha mãe era carioca, a família dela era toda do Rio de Janeiro.

 

P/1 – Como é que eles se conheceram, você sabe?

 

R – O Rio de Janeiro era uma cidade pequena, mas muito cosmopolita naquele tempo, era a tal da República, né? Todo mundo se conhecia, uma cidade grande. O Rio de Janeiro naquela ocasião, 1930, era uma cidade do tamanho de São Paulo, e uma metrópole maior, que era a capital da República. E se conheceram nos passeios, em praia, uma coisa assim. Eles trocaram lá seus horários, era tudo muito rápido naquela época, os casamentos naquela época eram rápidos, os pais da noiva e do noivo queriam que fosse tudo rápido, não tem história de criar problema para nós. Então não tem um detalhe, um momento, não, não tem. É um pouco de cada...

 

P/1 – E os seus avós faziam o quê?

 

R – Meus avós? 

 

P/1 – Conta um pouquinho, de pai e de mãe.

 

R – Só conheci o avô materno, e ele morreu há bastante tempo já. Não conheci nem a avó materna, nem a segunda avó.

 

P/1 – Mas eles eram brasileiros?

 

R – Eram.

 

P/1 – Todos brasileiros?

 

R – A avó materna minha, a paterna... Ela era italiana. Por isso que meu nome italiano não entrou, porque seria o segundo prenome, deveria ser Roland Camarano Sierra, que o avô era Sierra, era um espanhol meio anarquista. Depois ele sumiu, nem meus irmãos conheceram meu avô. Ele veio como perseguido político, anarquista, e se perdeu no mundo, largou a mulher no Rio de Janeiro, se perdeu no mundo. Esse só sabemos que existiu, chamava Camarano, que consta da certidão de nascimento nossa. Mas ele teve presente, mas depois nunca mais tivemos informação, meu pai também perdeu contato com ele e só manteve contato com a mãe, que viveu mais alguns anos, mas também morreu. Então, do meu avô que seria o meu título de glória, eu sou neto de um anarquista, é interessante falar isso, né? Porque às vezes todos nós temos um pouco de anarquistas, né? Quem não gosta de governo é um anarquista. Mas nunca tivemos curiosidade de puxar a ficha, não.

 

P/1 – E você tem mais irmãos?

 

R – Tinha. Um irmão menor, que se suicidou, e um irmão mais velho que foi assassinado.

 

P/1 – Todos moravam no Rio quando pequenos?

 

R – Não, nós já morávamos em São Paulo. Porque assim que nós começamos a crescer. Meu pai, tangido pelas circunstâncias, porque ele não tinha um diploma especial, veio para São Paulo porque alguns outros parentes dele e da minha mãe estavam aqui, advogados, engenheiros, tal. Então, eles vieram para São Paulo, e aqui nós ficamos, eu cheguei com cinco anos de idade. Eu me lembro que nós fomos morar no tempo que tinha bonde ainda andando, 1938, 1939. Começamos morando ali perto da Praça Marechal Deodoro.

 

P/1 – Você veio para cá você tinha quatro, cinco anos?

 

R – Cinco anos. Fui morar ali em Santa Cecília. São Paulo, naquele tempo, era uma cidade pequena. Você falava Santa Cecília, tava falando de quase tudo, conhecia Zona Leste, Zona Oeste.

 

P/1 – Como era Santa Cecília naquela época, você lembra do bairro?

 

R – Era um bairro classe média, média mesmo. Sem nenhum problema desses que encontramos hoje. Quando nós viemos para São Paulo e fomos logo estudar no colégio ali perto, o curso primário. São Paulo ainda tinha bonde, o bonde aberto, não havia nenhum dos defeitos de hoje. Não havia arrastão, não havia trânsito, não havia violência, não havia ignorância, não havia nada de ruim.

 

P/1 – E o bairro como é que era?

 

R – Prédios de apartamento eram poucos em São Paulo, e Santa Cecília, naquela ocasião, era um bairro um pouco longe do centro. Depois, com esse crescimento de São Paulo, Santa Cecília foi chegando perto do centro, ou o centro foi chegando perto de Santa Cecília. Hoje em dia você fala Praça Marechal Deodoro é o centro, naquele tempo era um bairro chamado Santa Cecília. E para cima tinha Higienópolis, ainda não era dominada pela judeuzada. Então, São Paulo, quando falava em Zona Leste era só a Mooca, no fim lá da Mooca, a Zona Leste era lá para onde ia o trem, porque tinha o tendal, era saída pro interior, tudo isso. Santa Cecília era um bairro agradável. E me traz à memória, eu morei na Rua Brigadeiro Galvão, e a minha memória sempre foi boa, sempre foi boa. E a minha memória diz o seguinte, ‘quando você morou aqui em Santa Cecília, morou lá uns dois, três anos, você passou por algumas experiências interessantes’ que sedimentaram um pouco o meu interesse em saber mais. Eu tinha um irmão mais velho, esse que eu disse para você que foi assassinado no Litoral Norte. Ele foi morar no Litoral Norte, arranjou uma complicação e foi morto a tiros. O segundo morreu bem depois, problema de mulher, família, dinheiro. Então, quando nós viemos para Santa Cecília, duas ou três coisas, detalhes, que me marcaram. O primeiro, quando o meu irmão mais velho quebrou o vidrinho de chamar o bombeiro na Rua Brigadeiro Galvão. Antigamente havia isso, hoje não existe mais. Você quebra um vidro, como há no metrô, puxa um gatilho, e algum quartel de bombeiros dispara e eles controlam por telefone. E ele fez isso como arte, meu irmão mais velho. Eu fiquei preocupadíssimo. Ele tomou uma surra quando meu pai chegou, veio o carro de bombeiros, Amância era daquele de lascar, né? Tomou uma surra. Ele era arteiro, tão arteiro que acabou arranjando confusão e morrendo. E o outro detalhe é que esse meu irmão mais velho, sempre o mais velho é o mais danadão. Ele costumava dar medo no meu irmão mais novo, que era bem pequenininho, então o que ele fez algumas vezes? Eu ouvia porque nós morávamos no mesmo quarto. E ele para dar medo no meu irmão menor, que tinha três anos, duas ou três vezes ele fez uma brincadeira que minha mãe depois também pegou ele e deu uma sapecada. Ele amarrava um lápis, e punha o lápis para fora da veneziana, da janela que dava para rua. Era um sobradinho pequeno, não tinha jardim. Ele amarrava um lápis e ficava puxando o lápis, fazendo reco-reco. E o meu irmão menor chorava, aquilo era coisa de fantasma e coisa. E aí eu comecei a perceber que meu irmão ia longe. Ele fez outras coisas. São coisas pequenas. Eu me lembro que eu sentia vontade de ir para escola, que era o Colégio Piratininga, a dois ou três quarteirões, que não existe mais, agora lá é Faculdade Oswaldo Cruz. Era um colégio agradável, me lembro do nome da professora, Dona Cristina, e me lembro, para apresentar uma coisa mais interessante que me marcou. A escola resolveu fazer em um certo mês de julho uma encenação da Branca de Neve e os Sete Anões. E eu e meus irmãos éramos um pouco sapequinhas, então, chamávamos muito a atenção. Então, nós três não fomos ser a Branca de Neve, mas a professora falou: “Você, menorzinho, vai ser o Dunga”, falou para mim, “Você vai ser o Atchim”, e meu irmão mais velho que vai ser o Zangado, ele era muito ativo, muito atrevido. E foi num teatrinho por ali, perto da Rua das Palmeiras. Mas aquilo era como se fosse Hollywood, depois que eu tive a noção do tamanho da coisa, era pequenininho, era como se fosse um aniversário de criança com um bolo na frente. Mas a gente achou aquilo... E minha mãe foi, ajudou a fazer as fantasias, ela levava fé na gente. Minha mãe tá no céu, heroína, viu? Aguentar o meu pai, meus irmãos e eu. Ela fez num carnaval, a única foto que eu tenho desse tempo que eu vim para São Paulo. Ela queria porque queria, era muito caprichosa, gostava de costura e de fazer bolo. Ela queria que no carnaval, mesmo que a gente estivesse duro, tivesse uma fantasia que ela fez em casa. Meu irmão mais velho era cowboy, tipo Tom Mix, eu era um pierrot, tenho a foto de pierrot, e o meu irmão menor era o arlequim. Ela imaginou uma história, arlequim, só faltou a colombina, porque não tinha nenhuma irmã. Mas o resto era ir para escola, voltar para escola para minha mãe. Mas não durou muito tempo não, uns dois anos. Aí começamos a mudar de bairro em São Paulo. Meu pai sempre teve dificuldade para sustentar casa, então a gente mudou. De Santa Cecília, fomos subindo para a Avenida Angélica. Moramos em pensão umas três ou quatro vezes, por necessidade do meu pai que tinha dificuldade em arranjar emprego.

 

P/1 – O que o seu pai fazia?

 

R – Ele era contador não habilitado. Ele sabia contabilidade porque no Rio ele trabalhou no Banco Português do Brasil, que não existe mais. Um avô dele era diretor do Banco Português e ele aprendeu com muita rapidez, meu pai era aplicado, ele aprendeu a contabilidade prática, que depois o ajudou a arranjar outros empregos, saía de um e ia pro outro. Então, ele tinha essa... E como tinha dificuldade para fazer renda, renda própria, nós moramos em pensão três ou quatro vezes, isso eu me lembro, lembro até do local, uma na Praça Marechal, ali naquela região. Uma na Rua das Palmeiras, até que num certo momento da vida, eu e meus irmãos já crescidos fizemos uma opção. Nós queríamos fazer Direito porque tinha um tio aqui importante, que era diretor da OAB, e a gente achava que o tio ia ser útil para nós. Vim a descobrir depois que não foi útil nada, ele tava pouco se lixando para os sobrinhos, queria que a gente morresse. Então, fomos os três fazer a faculdade de Direito. E, daí fomos crescendo, já adolescentes...

 

P/1 – Mas como era na sua casa? Quem exercia a autoridade? Seu pai ou sua mãe?

 

R – O comportamento você diz?

 

P/1 – É, autoridade, quem que dava as ordens...

 

R – No que tange a pai era pai, no que tange à autoridade é pai. Tanto que me lembro nesses primeiros anos, dois, três anos, a gente não podia falar na mesa, não falava. Era proibido falar na mesa. E olhar podia olhar. E a mãe servia a gente, a mãe era mais amável. Ela tinha mais afeto, porque eram três crianças. O meu pai era duro na queda. Ele vinha de uma formação um pouco patriarcal, um pouco. Chegou em São Paulo, não conseguiu uma vida para ser rico, então ele resolveu ser só o patriarca. “Não fala, não fala com a boca cheia” “Não fala essa palavra que você falou”. Esse tipo de comportamento, duro. Depois, com os anos passando e nós avançando na vida, houve um progresso da nossa parte, e meu pai parou no tempo. Ele continuou com dificuldade de dinheiro. Aí, ele ficou mais manso, porque aí nós já comandávamos a nossa vida. Quando fizemos o Colégio Rio Branco foi um grande favor que minha mãe fez para nós. Ela foi trabalhar numa loja chamava Loja Ceilão, que não existe mais, produtos orientais, brinquedos. E ela fabricava bonecas holandesas, que eu e meu irmão mais velho levávamos de ônibus para Loja Ceilão que ficava na Rua José Bonifácio, que também não existe mais. Então ela trabalhava, ela queria fazer, por exemplo, uma fantasia. Ela foi descobrir onde tinha o tecido, máquina, ela não nos deixava sem abrigo. E aí, nós fomos evoluindo. Aí, fomos morar em apartamento, eu entrei para faculdade primeiro, meu irmão mais novo em segundo, e o mais velho em terceiro lugar. E cada um foi encontrando seu caminho. Assim que eu me formei na faculdade, eu me formei bem na faculdade, a Folha fez um concurso.

 

P/1 – Deixa só eu voltar um pouquinho para sua infância. Vocês tiveram formação religiosa?

 

R – Tivemos, eu e o meu irmão mais velho. O mais novo não porque era muito novinho para entrar sequer no primário. Eu e meu irmão mais velho fizemos o curso primário no Liceu Coração de Jesus, que era o Salesianos, que me dá uma recordação muito boa. Apesar de todo aquele rigorismo de colégio de padre, salesianos, me deu muita satisfação porque era um corpo docente bom, era ali, ainda é lá até hoje, perto da Alameda Nothmann, ali hoje é Cracolândia. Nos velhos tempos era um bairro de classe média, média mesmo. E nós nos demos bem lá. Fomos evoluindo, fomos evoluindo, e assim que eu me formei na...

 

P/1 – Mas tinha formação assim, vocês rezavam, rezavam em casa ou só no colégio?

 

R – Fazia aquilo que o diretor, que eu lembro quem era, o Padre Avelino Canazza, que já está morto faz um século. As normas do colégio eram rígidas, tinha que rezar de manhã, tinha que ir na missa domingo, tinha que confessar. Era um padrão tipo São Luiz, qualquer colégio de padre, só que era de classe média, que era ali nos Campos Elíseos. Então nunca houve uma influência direta, nem quando a gente estudava História Sagrada, que tínhamos um livro de História Sagrada, havia uma imposição de se declarar católico apostólico, não. Mas meu pai fazia com que a gente fosse domingo na missa lá no colégio Sagrado Coração de Jesus e que fizesse, se possível, confissão, comer aquele pão lá, como é que chama?

 

P/1 – A Hóstia.

 

R – Hóstia. Mas aí, sem muito pique. Nós três percebemos que não era nossa embocadura, nem ser muito católico apostólico, e nem também estar aprendendo religião. Era a escola, risonha e franca.

 

P/1 – E a adolescência, você passou onde? Em Santa Cecília.

 

R – Em São Paulo mesmo. Entre algumas pensões e alguns apartamentos. O primeiro apartamento que meu pai...

 

P/1 – Como você mudou muito ao longo da vida, qual é o lugar, a casa ou a pensão, que te marcou mais?

 

R – É uma pensão. Ali na praça Marechal Deodoro, não tinha nem prédio em volta. Era a pensão de uma mulher chamada dona Nina, mulher muito boa. Ela tomava conta. Foi onde a minha mãe aprendeu a fazer bonecos, ela pegou um quartinho lá no fundo da pensão porque ela se deu bem com a dona, então, ela ocupou um quarto onde ela fazia, e a gente ajudava, as bonecas holandesas. Ela comprava o papel, comprava a cartolina, comprava aquele negócio, brocal, fazia uma tipografia que tinha ali na Barra Funda, fazia o estampo. Então, uma vez por semana lá ia eu no ônibus para Rua José Bonifácio. Minha mãe dava trezentos réis, pagava o ônibus, levava lá e eu sempre pagava à vista. Mas era sempre coisa pequena, era só para ter uma verbazinha para comprar uma roupa para nós, ou reforçar uma refeição. Era uma vida de classe média baixa, com toda certeza. Mas me deixa saudades, eu acho natural isso. Mesma coisa que uma leoa criar seus leõezinhos, a mãe que padece, mas quer o meu bem. A gente gostava dela. O meu pai era meio malandrão, ele não chegou a se enturmar com a gente.

 

P/1 – E vocês faziam as refeições na pensão? Almoço, jantar?

 

R – Sim, tudo lá direitinho. Não era uma coisa agradável, porque eu e meus irmãos, especialmente meu irmão menor, a gente gostava de rua. A tal ponto que houve um momento, isso são detalhes, em que eu aluguei uma bicicleta, eu tinha acho que uns nove anos, meu irmão mais novo seis anos. Ali na Barra Funda tinha uma loja de bicicleta para alugar por hora, e eu aluguei uma bicicleta, acho que nem minha mãe, nem meu pai vieram a saber nunca. Eu pus o meu irmão, esse que depois veio a se matar, pus meu irmão sentado como se fosse um acompanhante. E eu guiando uma bicicleta na Avenida São João até o Largo do Paissandu. Veja você que coisa, saí da Praça Marechal de bicicleta, uma bicicleta vagabunda, e fui andando pela Avenida São João, naquele tempo tinha bonde dos dois lados, ônibus, o trânsito não era infernal, mas era um trânsito na Avenida São João. Me lembro que fomos até o Largo do Paissandu. Depois eu voltei, levando a bicicleta na mão porque eu cansei porque eu percebi que o meu irmão estava cansado e aquilo ia sair besteira. Então, voltamos a pé. Isso ficou marcado como detalhes que me fizeram ficar mais próximo do meu irmão menor porque ele era mais frágil, lógico, o outro era mais malandro. Tão malandro que acabou morto. Eu procurava poupar o meu irmão. Depois a vida vai passando, vai nos empurrando...

 

P/1 – Você ia em bailinhos na juventude?

 

R – Tinha quando a gente estudou no Colégio Rio Branco. Porque do Liceu Coração de Jesus nós fomos estudar no Colégio Rio Branco, nós três. A minha mãe fazendo sacrifício, mas deu para estudar no Rio Branco, às vezes atrasava um pouco a mensalidade, o diretor chamava a gente, eu falava pro meu pai: “O cara tá chamando a gente” “Não, fala que amanhã”. Então, lá no Colégio Rio Branco nós aprendemos a nadar, eu e meus irmãos, porque no Colégio Rio Branco, não sei se você já foi lá, é ali na Vila Nova, onde tem agora o Sesc Consolação, ele tinha piscina semi-olímpica. E o técnico japonês que já morreu, bom, tudo o que eu falo para vocês, o único que não morreu sou eu. O técnico de natação já está morto, morreu há dez, quinze anos. Era um técnico muito bom, que ele percebeu que alguns alunos do Colégio Rio Branco tinham gosto em nadar, aprender e exercitar, e ele era técnico do Esporte Clube Pinheiros, que já era lá na Zona Sul. E ele falou para nós três irmos treinar no Pinheiros. Aqui para nós caiu como uma dádiva do céu, sair de uma piscininha pequena de vinte e cinco metros. Você já viu a piscina do Pinheiros, provavelmente. É piscina olímpica. Então, aquilo foi a glória para nós, sair de pensão, sair de levar bonequinho holandês em ônibus, que é um mundo pequeno, e de repente você está nadando com alguns campeões paulistas como nadamos. Aquilo me deu uma força, e aí fomos nos desenvolvendo. O meu irmão menor não gostou muito de natação, mas nadava, porque era obrigado a nadar três vezes por semana. Você não pagava, você era chamado sócio militante, ele tem obrigação com o clube, se você tem que nadar, jogar futebol ou voleibol, você tem que ir tantos dias da semana, tem que se apresentar em competição, e tem que nadar, ou tem que jogar futebol. E aquilo nos abriu mais o espectro, nós começamos a ter relacionamentos melhores, socialmente melhores. Porque o pessoal do Pinheiros é um pessoal de situação mais alta, o próprio bairro mais alto. Mas aí, nós fomos crescendo e depois como precisávamos fazer o vestibular para faculdade de Direito, nós começamos a abandonar o Pinheiros a tal ponto que após um, dois anos, o Pinheiros falou: “Vocês agora estão cortados do nosso quadro de esportes, vocês não tem vínculo, vocês são militantes”. Mas aí nós achávamos que ser militante ou não, o importante é que entrássemos na faculdade, fizéssemos uma faculdade, para dar uma satisfação pro meu pai, minha mãe. E nós temos um caminho aberto, não ficar dependendo de terceiro tio, nada disso. Então, a coisa foi encaminhando assim, abandonamos o Pinheiros, mas aí já tínhamos feito essa passagem da infância para a juventude ou adolescência.

 

P/1 – Você tinha namorada, paquera? Como era?

 

R – Com certeza.

 

P/1 – Qual foi a primeira namorada?

 

R – A idade que eu me refiro a você, você tem namorada, uma a cada esquina, até a moça ali tem namorado, vai no baile, vai no cinema. Primeiro foi uma moça que estudava no Caetano de Campos, eu conheci. Eu estudava na Biblioteca Municipal, eu já tava na faculdade. E ela era muito bonita, e eu, acho que essa fotografia que está aqui não diz nada, mas eu tenho fotografias melhores de quando eu tava na faculdade, de quando tava fazendo serviço militar. Então, sabe, aqueles amores rápidos e fogosos. Mas nada de ultrapassar o paralelo trinta e oito. É afeto, vai em baile, beija um pouco. Os três, cada um tinha suas... E meu irmão, inclusive, conheceu no Rio Branco quem viria a ser a esposa dele. Ela do Rio de Janeiro, se engraçou muito com ele. Então foi uma adolescência normal, sem nenhum trauma, nada de importante, nunca fomos presos, nada, nada, nada. A  minha primeira foi uma que olhava, olhava, olhava. Você já entrou na biblioteca de uma escola alguma vez já? Aquelas mesas, são 15, 20, 30 mesas, esparramadas. Tem até a chapinha, número 22, 26, 28... E sei lá, um dia ela saiu do colégio. Era muito bonita, a moça era MUITO bonita. Ela sentou numa linha em que eu tava e olhou, e aí, as coisas vêm naturalmente. Eu era um rapaz aproveitável, tinha feito natação, tinha uma certa pose, sabia me pentear, usava a roupa direitinho. Mas também, não durou mais do que seis meses, um ano. Até que eu descobri que ela morava na Aclimação, aí comecei a pegar ônibus elétrico, naquele tempo havia ônibus elétrico que passava, passa ainda, na Rua São Luiz, é Aclimação, General Polidoro. Mas por que não vou descobrir onde é que ela tá? Eu sabia onde ela morava, eu sabia o telefone dela, os telefonemas nossos eram de horas, como é de qualquer casal. Telefonema, se você não cortar, aquilo vai... Mas aí eu comecei a ter compromisso, me formei, e percebi que eu não podia ser mais um adolescente, já tinha passado da hora. O meu irmão menor talvez pudesse fazer isso, eu falei, não é possível. Então me formei, e quando eu formei a Folha fez um concurso público, eu fui concursado, jornalista concursado, nunca foi porque o pai era o seu Frias, seu Júlio Mesquita, nada, não pedi favor a ninguém. E a Folha pôs um anúncio lá, logo depois que eu me formei.

 

P/1 – Os três irmãos fizeram Largo São Francisco?

 

R – Não, eu e o meu irmão menor, Largo São Francisco. E o meu irmão mais velho, que era sempre o mais danadinho, ele fez a PUC. Porque quando nós fizemos o vestibular, aí vem um outro detalhe que eu me lembro, e como ele já tá morto, só eu me lembro. Eu fiz cursinho, meu pai pagava o cursinho, deu para pagar. O Cursinho era muito bom, ali na Rua São Bento. E o meu irmão mais velho não era muito aplicado no estudo. Eu era aplicado, eu tinha lido muito, muito. Eu lia muito. Meu irmão menor sabia francês, eu sabia inglês, e o vestibular da São Francisco, naquela ocasião, exigia latim, português, matérias básicas, e uma língua, francês ou inglês. Eu tinha certa familiaridade com inglês, e meu irmão menor com francês. Então fomos eu e meu irmão mais velho, no dia em que a faculdade falou: “Esse grupo tem que estar aqui sábado ou domingo de dez da manhã”. Mas meu irmão mais velho, o inglês dele não ajudava nada, nada, nada. Ele não ia passar. Então, eu combinei com ele um negócio que quase caímos do cavalo. Eu falei: “Você, Ronaldo” ele se chamava Ronaldo, “nós vamos sentar enviesados”. Porque naquele tempo o vestibular não permitia que sentasse um atrás do outro, era sempre enviesado para evitar a cola. “Você vai sentar-se enviesado para cá, e eu para cá”. E depois que o ponto foi sorteado, eram obras do Shakespeare que tinha que traduzir. Eu tinha combinado com ele o seguinte, “você fica atento, eu vou fazer rápido, eu tô com meu inglês bom. A hora que eu terminar, você não olha para mim, você vai ver que a folha tá atrás de você e você me dá a sua”. Tem que trocar as provas porque eu já tinha feito a tradução certa e ele não sabia sair da primeira linha. Mas fomos pegos pelo bedéu (risos), e o professor que tava de plantão lá era um velho qualquer que tava lá para ninguém fazer cola escancarada. Quando eu fui levar a prova, e meu irmão foi em seguida, ele pegou a prova do meu irmão e falou para mim: “Você, você eu vi que você fez a sua prova, você trocou com esse aqui. Então, a dele foi anulada, ele não vai ter nota. Você vai ter porque eu vi você escrevendo, você traduziu tudo certinho aí”. Então foi uma experiência que mostrou para mim que o meu irmão mais velho, embora mais velho, ele não estava ainda preparado para luta, sabe? Era aquele pequeno malandro, o que custou a vida dele mais tarde. Aquele cara que acha que é tudo fácil. Daí, o professor falou: “Você, a prova é sua, não adianta você trocar o tíquete que identifica a prova. A outra eu vou rasgar”. Aí, o meu pai falou: “Pô, vai para PUC, eu arranjo algum emprego, eu arranjo uma renda pequena, você Ronaldo, vai na PUC, a PUC é particular. Você estuda um pouco com seu irmão inglês, francês aí”. E ele fez isso, entrou na PUC, não sei se colou de alguém, aí eu não estava lá com ele, aí não podia colar. Mas mais tarde, essa transição na nossa formação, e cada um entrar na vida. Assim que eu entrei na faculdade, como eu tinha pego o serviço. Alguém descobriu que eu sabia falar, e sabia escrever, e um cursinho de Direito, havia vários cursinhos e um deles era ali atrás da faculdade. E o centro mandou me chamar: “Tem como você dar aula de Português para o vestibular de Direito?” “Tenho, mas não de manhã porque de manhã estudo na faculdade” “Não, nós queremos que você dê aula de Português à noite, das oito às dez. Aula de Português para o vestibular em Direito da São Francisco”. O da PUC era diferente. Então por dois anos dei aula de Português, aí, eu já me aproximei muito do contato com a língua, eu comecei a ler desbravadamente, li tudo. Eu acho que eu li até hoje uns três ou quatro mil livros, e não me arrependo não. Alguns eu estou fazendo uma releitura. Minha mulher tem dito para mim que eu sou meio fanático, eu falei sou, então fazendo releitura. Se você perguntar: “Você leu Machado de Assis?”. Não só li, como reli três obras dele. Eu sei quais são as três. Você leu um europeu? Claro. O autor que mais me impressionou porque eu vim a descobrir, na releitura, o valor de Dostoievski, ele não era um cara qualquer, ele não era um atrevido, um aventureiro. Dostoievski, a meu ver, foi um dos escritores mais importantes que a literatura universal pôs na face da Terra, né? Especialmente Crime e Castigo, e que na releitura, eu vim a relembrar que o Dostoievski tinha as ideias dele, e tinha uma teoria que ele tentou passar pelo livro. É o seguinte, eu vou detalhar um pouco. O herói de Dostoiévski de Crime e Castigo chamava-se Raskolnikov, é o personagem que vai acabar morrendo porque ele fez besteira, né? Matou a dona da pensão. E no meio dessa história, do Raskolnikov não ter dinheiro para pagar a pensão, ele pensou o seguinte, ele falou: “Eu não vou pagar a dona da pensão porque não tenho dinheiro, e eu vou ter que roubar ou fazer alguma coisa para sobreviver aqui”, não era Moscou, era São Petersburgo, e ele pensou e falou: “Mas o Napoleão, o Napoleão foi um general importantíssimo na história do mundo, chegou a imperador da França. E o Napoleão mandou para a morte alguns milhares de jovens russos que também acabaram matando franceses e alemães em guerra. Se Napoleão está na história, entrou para história porque matou, fez guerra, se eu matar a dona da pensão...”, ele tava pensando em matar a dona da pensão, como veio a matar, pegou um machado e matou a mulher. Mas falou: “O Napoleão entrou para história, e eu vou entrar pro xilindró. Se a polícia me pegar vai dizer ‘você matou a velha?’, eu vou dizer ‘matei, o machado tá aqui’”. Então, eu aprendi que uma releitura é um exercício muito importante. Machado de Assis é fácil de fazer releitura porque o livro de Machado de Assis tem um português muito cristalino. Mas Dostoievski escreveu em russo e tradução é sempre tradução de terceira mão. Foi na releitura que eu percebi onde ele queria chegar. Falou, “os grandes canalhas entram para a História, os jovens como eu vão ser presos aqui na esquina”, não tinha dinheiro para pagar a pensão. Então eu aprendi a fazer, eu não vou dizer a você que eu já tenha lido cinco mil livros, não li. Mas se eu li mil livros, eu acho que deu. E eu to fazendo a fase de minha releitura. A última releitura que eu fiz, isso não me arrependo, Cem Anos de Solidão.

 

R – É por isso que às vezes eu converso com o pai da Olívia, a minha memória é boa, a minha memória é boa. E, às vezes, a gente toma uma cervejinha lá, tem uns barzinhos lá onde eles vão, e eu vou também. Ele percebeu que eu falava com a outra pessoa relembrando, ele queria relembrar. A história foi essa, quem matou Getúlio Vargas? Bom, quem matou Getúlio Vargas foi ele mesmo, suicídio, tiro no peito. E ele perguntou para mim como era o nome daqueles quadrilheiros que queriam matar o Carlos Lacerda e acabaram levando o Getúlio ao suicídio. Eu falei: “Os quadrilheiros eram três, o chefe chamava-se Gregório, era um negro de dois metros de altura, com revólver, era o segurança do Getúlio Vargas. Ele perdeu as estribeiras e um dia o Lacerda tava andando na rua no Rio de Janeiro, e ele resolveu matar o Lacerda”. Ele falou: “Como era o sobrenome dele?”, eu falei “Fortunato”. Até brincando eu falei: “Se você quiser gravar, o cara que fez o atentado era o Gregório, se você não se lembrar bem o sobrenome, tem o de Gregório Barrios que foi um cantor de bolero mais importante que o Brasil já teve, era um colombiano”. Gregório Barrios você já deve ter ouvido dos tempos… era o melhor daquele bolerão de 1940, 1950 anos. Então, o Gregório era um negro grande, forte, de chapéu, musculoso e não tinha nada com Gregório Barrios. Então decora: Houve um papa chamado Gregório III, como houve Gregório II, tem uns duzentos papas, e o Gregório que era o cara que matou o oficial do exército na FAB, ele atirou mal, ele atirou com um revólver trinta e dois. Ele falou: “Você tem certeza?” “Claro que tenho”. Depois ele foi jogado pelos companheiros como um canalha. Por que? Porque em vez de usar um revólver trinta e oito para dar o tiro de uma calçada para outra calçada, ele não ia matar nenhuma pessoa, não ia. Ele tinha que ter um revólver trinta e oito ou uma pistola. Então ele errou até como mau atirador. Quando Getúlio disse: “Vocês me deram um tiro pelas costas, vocês me fizeram isso aí”. E ele falou: “Você tem certeza?” “Tenho”. Vai na biblioteca, vê o arquivo lá, Carlos Lacerda. Gregório você vai encontrar o Papa, vai encontrar o Gregório que era o atirador, você vai encontrar a história toda. E ele começou a me perguntar coisas, ele acha que a minha memória é tão boa, que se ele perguntar qual é a quadratura do circo eu sou capaz de pegar o papel e fazer. Não tentaria, não tentaria porque sei que a quadratura do circo é mais complicada (risos).

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho lá atrás. Aí, na Faculdade de Direito, até então você já tinha trabalhado ou não? Foi nesse primeiro concurso que teve?

 

R – Eu já tinha dado aula de Português no cursinho, durante três anos eu dava aula. Com isso, eu poupava o meu pai de ter que me dar dinheiro para comprar cigarro, o que eu ganhava eu vivia e dava aula particular. Porque de tanto dar aula no cursinho, e era tanta gente querendo fazer vestibular de Direito, não sei porquê, que alguns pediam para dar aula particular. Por quê? Porque eram maus alunos. Isso eu aprendi, a minha experiência. Ou seja, o cara não tem paciência para ficar num grupo de dez, quinze, talvez vinte pessoas para acompanhar o raciocínio, uma análise lógica. Então várias vezes eu saía da minha casa, ia no Pacaembu, era filho de um fazendeiro, ele me pagou bem, pagava bem, mas queria aula particular, eu e ele. Por quê? Porque com mais gente em volta ele ficava sem graça de perguntar qual era o sujeito, o verbo, o predicado, essas coisas todas. Então, além de eu dar aula no cursinho, eu dei aula particular para muita gente. Até moças. Às vezes, eu percebia que algumas moças queriam um caso, não era fazer o vestibular. Mas mesmo assim, como pagavam... Uma delas tinha um tio rico que morava na Avenida Brasil, mansão lá. “Vamos, vamos tocar esse negócio aí, vamos lá”. Depois eu percebi que ela não ia passar nunca, mas também ela queria que eu estivesse lá sentado no chão com ela, abraçando ela. Quando a tia, ou o tio se recolhia, ela partia para o outro lado, eu não vou negar fogo, não. E aí, a Folha fez um concurso, que já tinha feito uns dois ou três anos antes, e eu consegui passar com certa facilidade por causa daquele meu entranhamento com a língua, com o Português. Eu sempre fui bom, eu gostava. E lia jornal, eu gostava de ler jornal. Naquele tempo eu lia o Estadão, mal sabia eu que o Estadão era muito pior que a Folha, que a família Mesquita é muito mais salafrária que a gente imagina. Mas naquele tempo o Estadão era o paradigma. Mas ajudava, ajudou. E aí, eu...

 

P/1 – Era concurso para quê? Para jornalista? Para repórter?

 

R – Para fazer parte dos quadros da redação da Folha. Eles tinham lá um instituto Pater Noster que fazia uma prova psicológica e tinha uma prova escrita, que eles fizeram em um domingo, com várias questões. Punha as pessoas no auditório e falava, vocês vão dizer, por exemplo, eles procuravam que a pessoa fosse confrontada com uma situação anormal. Uma pergunta que eu acho que foi o psicólogo que bolou: “Se você estiver no meio de uma floresta, de uma mata, e encontrar um índio, o que você faz?”. Aí não entra nada de português, é ter reflexo rápido e saber o que fazer. O psicólogo bolou aí, e eu me lembro que eu escrevi: Se ele estivesse armado eu procuraria desarmá-lo, eu procuraria me aproximar dele, eu procuraria tratar ele com jeito, mesmo que não falasse a língua. Teria que tratá-lo como um igual, como um ser humano como eu. Eu não vou matá-lo, eu tenho que convencer esse camarada que eu sou bom para ele e que ele é bom para mim. Então, é esse tipo de coisa. E havia uma outra questão também. “Se tivesse uma caixinha de fósforo com um palito só…”, negócio que psicólogo inventa. “... se você tem uma caixa de fósforo e só tem um palito útil, e você faria o quê com esse palito?”. Aí também não era pegadinha, era confrontar o seu reflexo com uma realidade dura. Se eu gastar esse único fósforo, depois não tem mais fogo, eu vou ficar perdido no meio da mata. Essas coisinhas formavam o programa de acesso. E deu certo, eu passei, eu e o _____0:44:44____, e passamos em vinte pessoas. Vinte pessoas foram chamadas. Por isso que eu cheguei a trabalhar um pouco em advocacia trabalhista. Eu fui trabalhar em um escritório de advocacia ao me formar, e quando eu tive que fazer uma audiência que me desagradou muito porque o escritório era de patrão, ali na cidade. O sujeito era um advogado muito bom, senhor Alberto Salles Cunha, mas ele não queria ter advogado para empregado, porque empregado não passa tudo, ele tinha uma relação de empresas em que ele ministrava curso, tal e fazia advocacia. E num certo momento, ele falou para mim, havia uma audiência de uma moça que estava sendo acusada pelo chefe dela, na fábrica de chocolates Pan, que existe até hoje, uma fábrica pequena que fica lá em São Caetano. Não era Lacta, era Pan, fazia aquele cigarrinho. E a moça foi despedida porque teria roubado alguma coisa, uma roupa, fez uma coisa errada, não me lembro. E ele falou para mim: “Olha, virá daqui a pouco aqui no nosso escritório o representante da empresa, um diretor qualquer da empresa, e você vai estar com ele. Você vai ter que chamar a testemunha que ele vai trazer e vai orientar a testemunha. Eu disse: “O que é?” “Uma pessoa vai dizer que viu ela roubando”. Aí, a coisa não deu, não. Eu fiz isso, mas olha, senti um nojo, um nojo tão grande, que se eu pudesse teria vomitado na frente do juiz. E eu pensava, mas a moça não roubou nada, não roubou nada, tá na cara que eles querem se livrar de uma. Aí, eu desisti, falei pro doutor: “Doutor, não vou mais ficar aqui” “Por quê?” “Porque eu não vou ficar induzindo testemunha, eu sou advogado ou um pilantra? A moça vai ser despedida, pô, por quê? Porque o senhor me convence a fazer isso. Eu que comecei, eu me ofereci. Porque é uma canalhice, tá na cara que a moça não roubou nada”. Ele falou: “Então, vai”.  E eu fui. Melhor. Porque aí eu fui para dentro da Folha e na Folha eu tive um desenvolvimento muito bom, a ponto de chegar a editor de Política. Foi quando eu conheci o Geraldo, uns atuais do PT e outros que não são do PT. Conheci político à vontade. E aquele episódio me custou muito. Eu falei: “Mas é assim que a gente faz com a pessoa? Que diacho?”. A minha reação foi normal.

 

P/1 – E logo que você entrou na Folha, você entrou para fazer o quê?

 

R – Eles me chamaram e disseram: “Durante seis meses você vai ser copydesk”, já tava naquela fase de falar mais inglês. Copydesk é o redator, uma espécie de revisor de luxo. Só. “Você vai ser copydesk das sete da manhã ao meio-dia”. Eu falei: “Pô, mas eu faço um exame tão brilhante, tão bonito, sou aprovado no meio de dois mil, e tem que entrar sete horas da manhã?” (risos). Ainda bem que eu morava ali na Santa Cecília, na Rua das Palmeiras, e era pertinho da Folha. Mas não me agradou. Eu tinha que ficar lá até meio-dia, ninguém sabia inglês, então, tive que dar um radiofoto para traduzir. Eu era explorado, mas recebia em dinheiro. A Folha sempre pagou em dinheiro. E num certo momento, um sujeito que era o editor de Política, era um judeu que ficou meu amigo. Eu tomei o lugar dele, mas ficou meu amigo, _____0:48:56____, ele já morreu. Ele era o editor, mas não tinha nenhum pique para ser editor de Política, não tinha nenhuma empatia com política, ele não gostava. E eu gostava, eu falava: “não vou ficar sentado aqui traduzindo telefoto de navio que afundou, não tenho nada com isso aqui”. Pensei que fosse ser o intelectual, Chateaubriand, sei lá, mas para fazer tradução de texto não vou... Ele falou: “Não, o Iagri vai embora. Você não quer ser editor?”. Eu falei: “Opaaa, quero” “Você vai ganhar em dobro, você pára de vir de manhã, nós queremos o seu tempo integral, você vai por paletó e gravata, você vai por roupa de gente. Você vai fazer a Câmara Municipal de São Paulo para a Folha de São Paulo. Assim como tem uma que faz a Assembleia, tem um que faz o Palácio, você vai fazer a Câmara Municipal. Topa?” “Topo. Nessas condições topo. Vocês vão dobrar o meu salário, eu vou por uma roupinha melhor, e não preciso trabalhar sábado e domingo, é para mim mesmo”. E deu certo. Depois que aconteceu isso, depois de um ano ou dois, eu comecei a me dedicar à Política. Aí, eu falei: “A Câmara Municipal não me interessa, Câmara Municipal é coisa para principiante”. Aí, eu já estava com a cabeça cheia de ideia “é coisa para principiante, eu não sou principiante, eu sou um profissional do ramo, eu quero ser editor”. E fui editor. E fiquei trinta anos lá.

 

P/1 – Trinta anos na Folha?

 

R – Houve um intervalo de uns dois ou três anos que o seu Frias comprou a Folha, e ele arrendou o Última Hora, do Samuel Wainer, que era um jornal popular e novo na praça. E ele foi me pedindo na Folha que eu e mais dois caras da Folha fossemos tocar o Última Hora para ver se salvava o Última Hora da insolvência. O Último Hora não tinha mais conserto, o Samuel Wainer não sabia tocar o barco, era uma quadrilha de repórter, que eu percebi que era tudo bandido lá. Durante dois anos eu fiquei na Última Hora, fui embora, a Folha me recebeu de volta e fiquei até aposentar. Tive um relacionamento bom.

 

P/1 – Você praticamente trabalhou a vida inteira no mesmo trabalho?

 

R – Praticamente no mesmo trabalho. Às vezes, eu fazia um trabalho paralelo para engordar a minha renda. Eu fui assessor de imprensa de um secretário da Justiça, aproveitando a minha pequena experiência de Justiça, mas aí a Folha não me tocava. “Se você fizer o que nós queremos aqui, o que vai fazer fora não implica em nada contra você. Só não pode trazer interesse de fora para dentro, se você quer ser assessor do Secretário de Justiça vai ser, mas não venha meter notícia do secretário aqui. Aqui você vai trabalhar para a Folha”. E deu certo, aposentei, e estou aqui aposentado”.

 

P/1 – Você saiu em que ano da Folha?

 

R – Em 1987. E saí com a promessa do Quércia. Aí eu tinha um certo nome na praça, um certo nome como profissional. Eu conhecia a coisa, e gostava. Aí o Quércia se elegeu governador, e como eu fiz a campanha eleitoral pela Folha e o Quércia era um personagem da campanha eleitoral, ele se aproximou de mim e ficamos mais ou menos bem relacionados. E quando ele se elegeu ele falou para mim e para um cidadão: “Eu queria que vocês viessem trabalhar na nossa assessoria de imprensa no palácio. Vocês são profissionais do ramo”. Mas aí, eu sabia que se eu fizesse isso a Folha falaria: “Ou você fica na Folha, ou você sai da Folha, nós não queremos pé em duas canoas”. Então eu saí da Folha. Eu já tinha tempo de aposentadoria. Falei: “Vou ficar aqui aturando Cláudio Abramo?”. Cláudio Abramo você ouviu falar? Era um chato de galocha. Então fiquei lá no Palácio do Governo cinco anos, no governo do Quércia e mais um ano do Luiz Antonio Fleury. Aí eu parei, eu falei: “Agora chega, já dei a minha cota aí”. Mas foi uma experiência ruim, eu vim a perceber que o Quércia não era aquilo que eu pensava. Ele não me inspirava confiança. O Lula me inspirava confiança.

 

P/1 – Nesse período que você ficou na Folha, esses trinta anos, vamos voltar. Quais foram os períodos mais marcantes, os fatos mais marcantes que você presenciou?

 

R – Um foi a renúncia do Jânio, né? Eu já era editor, eu já tinha responsabilidade de editar o jornal do dia seguinte.

 

P/1 – Como foi?

 

R – A renúncia foi em 1961, agosto de 1961. Uma loucura do Jânio. Mas deu uma trabalheira, e foi ali que eu senti que eu tinha que apertar o passo, eu não podia falhar em um momento que, para o jornal, a renúncia de um Presidente da República era o fato do século. Então eu e meu irmão menor, que eu tinha levado para Folha, aquele que depois se matou. Eu levei ele para Folha, que eu era editor, ele falou: “Eu to aqui no desvio, eu to morando com você e com a mamãe mas eu não posso te ajudar”, eu falei: “Então, vem trabalhar na Folha como copydesk, como redator. Eu sou o editor e você vai lá e trabalha”. Então, ele foi levado para Porto Alegre para acompanhar o Leonel Brizola que resolveu fazer a Rede da Legalidade. O Leonel Brizola, que era cunhado do João Goulart, que era governador do Rio Grande do Sul, ele era duro na queda, né? E ele viu que a turma tava querendo tirar o João Goulart da presidência. Então, ele instalou lá em Porto Alegre, por sorte do João Goulart e do Brizola, o Comandante do Terceiro Exército que é sediado em Porto Alegre, que é o exército mais forte do Brasil, sempre foi, por causa de fronteira. É o exército mais preparado, mais armado, sempre foi o que toma conta do sul do Brasil por causa das fronteiras do Brasil com a Argentina, Brasil Uruguai, Brasil Paraguai. E esse comandante, dos quatro comandantes, o Exército sempre teve quatro, o primeiro no Rio, que era tudo carioca. Segundo, São Paulo. Terceiro, Porto Alegre. Quarto, Recife, Nordeste. E dos quatro comandantes, quatro generais de quatro estrelas, o único que ficou ao lado do João Goulart foi o de Porto Alegre. Ele falou: “Eu vou me aliar ao Brizola e nós vamos abortar esse golpe. O presidente João Goulart tem que descer no Brasil”. Porque João Goulart estava fora, tava na China. Ele falou: “Nós damos garantia de que o avião vai pousar em Porto Alegre e o senhor João Goulart vai ser Presidente da República”. Os outros três ficaram “pê” da vida. Mas o Terceiro Exército tava numa posição chave. E nessa ocasião, então, meu irmão foi fazer a Rede da Legalidade que o Brizola inventou. O Brizola era manhoso, ele sabia lidar com as pessoas. Ele falou: “Eu não vou deixar o João Goulart a ver navios, senão eles também me comem, me comem depois, eu como governador”. E esse episódio da renúncia do Jânio desencadeou o episódio da tentativa de tirar o João Goulart da presidência. Aí, foi bom, foi uma experiência muito boa.

 

P/1 – Você que cobriu? Você que fez a edição?

 

R – O meu irmão foi mandado para lá com o fotógrafo, nós tínhamos uma sucursal boa lá, em Porto Alegre, e compramos um serviço, não sei se da agência JB, ou agência Estado. Compramos também o serviço de informação de um outro jornal, nós fechamos o cerco para ter certeza. E recebíamos, dia a dia, o material que o outro jornal também recebia. E o meu irmão mandava colaboração. Então, foi uma experiência boa porque foi no período em que eu fui editor da Folha, foi o episódio mais importante. Porque quando o Getúlio se matou eu não tava na Folha, eu tava na faculdade ainda. Eu sei porque Getúlio se matou, tal. Mas eu não vivi. Como jornalista eu vivi a renúncia do Jânio, que significava quase um golpe contra o João Goulart, e contra o Brizola.

 

P/1 – E tinha alguma diretriz da direção do jornal pro tipo de cobertura?

 

R – Não. Em 1964, eu ainda era Editor de Política da Folha em 1964. A Folha, a Folha e os outros jornais, tomaram partido a favor do Golpe, contra o João Goulart. A vítima teria que ser o João Goulart. Então, a gente tinha que dar um tom ao noticiário que não deixasse o João Goulart em uma posição muito forte. Ele não defendeu o João Goulart, mas também não colaborar para ele ser deposto. O Estadão fez isso com mais força, o Estadão não queria o João Goulart. A Folha aceitava o João Goulart, mas não ia lutar pelo João Goulart, preferia que ele fosse embora. Porque vinham os militares, como vieram. Em três semanas. O João Goulart ainda teve que se virar do avesso, inventaram o Parlamentarismo. Foi outra campanha que eu peguei como editor. O parlamentarismo foi a única maneira dos militares dizerem, “O João Goulart não é comunista. O João Goulart não é um monstro”. Ou seja, eles forçaram o congresso a aprovar o parlamentarismo, onde quem manda é o primeiro ministro, e nunca o Presidente da República. Foi a maneira que os militares encontraram para deixar o João Goulart sempre fora, até que chegou o momento que ele errou tanto. Errou quando começou essa guerra contra sindicalistas, comunistas e tal, que aí o exército pisou, bateu forte e falou: “Não, com esse daí não dá”. E aí, veio o 31 de março, foi um momento forte. Mas foi a renúncia do Jânio, a tentativa de golpe do João Goulart e Brizola, e o Golpe de 1964. Depois veio a Campanha de Diretas Já, eu participei. Nessa época, a Folha mergulhou bem, fez a campanha das Diretas Já, aí, ficou até amiga do Brizola, né? Brizola, Tancredo Neves, tudo. São os lances...

 

P/1 – Como foi a cobertura das Diretas? Foi a Folha que começou?

 

R – Foi. Mas o movimento já tinha base. Aí, a Folha percebeu, o seu Frias percebeu que o apelo por eleição direta tinha um cunho popular muito forte. Não era como torcer para um jogo do Corinthians e Palmeiras. A sociedade tinha uma boa parte que não queria mais os militares, depois de quatro presidentes militares, tortura, prisão, aquelas coisas todas que nós sabemos. A classe média começou a dizer “assim não dá, esses camaradas vão começar a prender o meu filho na USP, vão fazer isso, fazer isso”. Então, aí a Folha topou. Alguém falou para Folha, “Por que vocês não lideram uma campanha de realização de um comício das Diretas Já? Ou dois comícios, três comícios? A gente pode sacudir o Rio de Janeiro, sacudir São Paulo, sacudir Belo Horizonte. Só não dá para sacudir Brasília porque não dá para sacudir, é tudo acomodado”. Então, a Folha entrou e nós nos demos bem. A mesma coisa que alguns jornalistas que eram de direita, essa mão da direita, eles fizeram tudo contra a Campanhas Diretas Já, simplesmente tentou ignorar. A Folha aceitou. E quando o primeiro comício foi aqui em São Paulo, na escadaria da Catedral da Sé. Quando o comício de lá, da Praça da Sé, pegou 300 mil pessoas, segundo a Folha, porque tinha 300 mil. Aquilo encheu, encheu, encheu. E quanto mais enchia, mais tinha adesão. É como explosão de bomba, uma explode, a outra explode junto, uma é combustível da outra. A causa da Diretas Já pegou no veio popular, então a Folha embarcou. E o Estadão, meio sem graça, também embarcou, mas ele não tava muito a fim, não. Porque tinha medo que da Campanha Diretas Já surgisse aí um Jânio Quadros, não um Tancredo, um Jânio Quadros, um sujeito que fosse perigoso para eles, um comunista. Eles acabaram aceitando quando o Tancredo foi eleito indireto. Então, a Folha tomou partido, foi um momento bom da Folha. Quem participou da Campanha Diretas Já ficou do lado certo, ficou do lado do bem contra o mal. Hoje a gente sabe que tudo...

 

P/1 – E como eram as coberturas? Os jornalistas iam e você fazia a matéria?

 

R – Toda a redação, especialmente o pessoal de Política. Quando houve o comício da Diretas, só a equipe de Política não dava conta do recado, então, o que fizeram? Fizeram uma pauta separada só para o comício das Diretas e colocaram as pessoas de Política, eu e mais seis ou sete, e deslocaram alguns repórteres de outros editoriais, Economia, Geral, menos Futebol, para dar força. Ou seja, era uma pauta longa, todo  mundo tinha que estar lá na Praça da Sé, digamos, nove da manhã e não podia sair antes de acabar. Depois revezava, então, o jornal se deu bem ali. Depois a Folha tomou outros rumos. Quando o Frias morreu, o Frias morreu tem quatro anos, né? E o filho do Frias, o Otavinho, ele virou o fio. Hoje em dia ele põe pessoal todo da direita, eu vou falando essas coisas em confiança para você, pessoal da direita, cronistas que não gostam do PT, não gostam do Lula, não gostam do Socialismo, do Comunismo.  São pessoas que se você falasse da foice e o martelo, são capazes de ter a mesma reação que eu tive quando eu tive que fazer a moça mentir lá que roubou, você sentia que tinha gente contra. Agora, tem gente contra ainda, fazer o quê. Contra o PT, contra a Dilma, contra aquilo que vocês estão vendo, é preciso derrotar a Dilma, é preciso eleger o Serra, é preciso um cara, um general da vida qualquer, esse é o destino, né? Espero que eles não tenham sucesso. Agora, eu vou dar uma informação, uma reação minha, eu digo a você que a minha cota está sendo esgotada. A Dilma, ela cometeu alguns erros, mas não erros graves. Ela agora, uma semana atrás, isso estava nos jornais dos últimos dias. Ela fez o Ministério da Fazenda forçar, foi até manchete da Folha, com má vontade a Folha fez manchete. Forçar os bancos privados a baixar as taxas de juros. Tá na manchete da Folha de hoje. O Bradesco ontem anunciou que está reduzindo a taxa de cheque, cartão de crédito, compra de automóveis. Está reduzindo. Por quê? Porque a Dilma falou pro Ministério da Fazenda: “Se vocês forçarem o Banco do Brasil, que é federal, e a Caixa Econômia, a reduzirem juros nos financiamentos, a gente vai dar uma lição para esses caras do Bradesco e do Itaú. E não deu outra, a manchete de hoje da Folha diz: Itaú, Bradesco, Santander e o HSBC começaram a baixar as taxas”, ela ganhou a para. Isso, quando eu vi hoje, eu recebo a Folha. Eu falei para minha mulher: “Olha que manchete boa! Mesmo a Folha não sendo amiga da Dilma, ela não podia ocultar os fatos”. A Dilma quebra esses bancos se eles não rebaixarem as taxas. Ou seja, eu quero um cartão de crédito? Quero. Mas não quero pagar 200% ao ano, isso não existe. Se ele me cobrar 20% ao ano tá bom, mas o banco cobra 200%, o automóvel cobra caríssimo. Então os bancos grandes decidiram o seguinte, está nos jornais de hoje, se nós não baixarmos as nossas tarifas de juros, nós vamos começar a perder rapidamente cliente para os dois bancos federais, Caixa e Banco do Brasil. Claro. Uma pessoa vai comprar um carro, eu prefiro ir ao Banco do Brasil porque ele vai me cobrar uma taxa de 2%, e o Itaú vai me cobrar 10, então vou comprar lá.

 

P/1 – Na época que o senhor estava, no começo, esse direcionamento da Folha não tinha, por exemplo, você tinha liberdade para colocar a manchete que você queria? 

 

R – Tinha. Tinha, mas não um editor. Um editor puro e simples como eu, como a Economia, ele tem uma autonomia relativa, você tem um diretor de redação, que durante muitos anos foi o Cláudio Abramo, agora é o Otávio, que é o filho do velho Frias que morreu. Tem o Diretor de Redação que tem que ser um bom jornalista, e tem que ter autoridade. Ele deve se entender com cada setor, Política, Esporte, Economia, Geral, e dizer: “A linha do jornal é a seguinte, nós somos a favor da lei de mercado, nós queremos defender bancos, indústria, comércio e serviço, esse é o compromisso da Folha, ou do Estadão”. Então, se você não fizer isso, você cai do cavalo. Se eu sou o editor de Política, e na hora de fechar o jornal, eu elogio a Dilma por qualquer razão, eu vou criar um problema para mim.

 

P/1 – Mas na época do Frias, qual era a direção? Do Frias pai?

 

R – Ele permitia uma certa margem de decisão do Diretor de Redação, que seria o Cláudio Abramo, e depois o filho dele. Ele nunca interferiu direto, mas a gente sabia o que ele pensava.

 

P/1 – O que ele pensava?

 

R – Porque o Editorial quem faz é ele, ou algum assalariado dele. Algum assalariado que pensa como o dono do jornal, e sabe escrever bem. O cara põe o papel na máquina sem o patrão, quer que a gente ataque a presidente da República.

 

P/1 – Mas qual era a direção do Frias pai?

 

R – Ele era amigo do poder, é a expressão que eu conheço, amigo do poder. Aliás, dono de jornal grande, ou de televisão, não pode nunca ser inimigo do poder, se for inimigo do poder não tem desculpa, cai junto com o Partido Comunista na primeira esquina, então, você tem que ter o compromisso. Se você é um funcionário de redação de confiança, você perde a confiança do dono do jornal se você for contra a linha que está no editorial, vai dizer: “Mas você está escrevendo aqui que o Bradesco tem que reduzir a taxa, mas não é a nossa crítica”. Ele dizia: “Você tem que conhecer, o entender do jornal é fortalecer a Lei de Mercado, o Capitalismo hoje em dia chama-se Lei de Mercado. Ou seja, manda quem pode mais. O Bradesco pode mais? Pode. O Banco de Piracicaba não manda nada? Então, é Lei de Mercado, você tem que dar tudo para a iniciativa privada. Isso o pessoal do PT sabe bem. Bom, eu falei muito já, não?

 

P/1 – E quando o senhor casou?

 

R – Em 1965.

 

P/1 – Como que você conheceu a sua esposa?

 

R – Em 1963. Ela era do interior, mas ela veio a São Paulo fazer a faculdade de Pedagogia, Educação, na USP. Então, ela fez o vestibular na USP e morou com a irmã dela nas Perdizes, aqui nessa região. E depois ela estudou uma longa temporada na USP, quando a USP tinha uma Faculdade de Educação muito boa, muito bem situada. E aí nós nos conhecemos porque ela conhecia alguns jornalistas que trabalhavam na USP, que era lá no Caxingui, que era o bairro dos jornalistas. E aí em uma festa de São João a gente se conheceu. Na Folha trabalhavam eu e mais uns setenta, oitenta, e trabalhavam três ou quatro jornalistas que eram meus conhecidos, que tinham casa no Caxingui ou tinham parentes que estavam estudando na USP, que era bem conceituada. É sempre assim, em uma festa de São João, não pode ser de outra forma, não é por meios ilegais. Mas depois chega, então nos conhecemos e começamos a nos entender, fomos ao cinema algumas vezes, é o programa, não tem saída. Fomos, nos gostamos e nos demos bem. Eu sabia que ela estava se formando, ela era professora primária feita no interior, e veio para São Paulo para ser pedagoga. É uma palavra meio chata, mas é pedagoga, aquela que é técnica em pegar Pedagogia, entender Educação. E eu percebi que ela levava o curso a sério, e eu, na minha vida levava as coisas a sério e casamos. Depois de um ano e meio. Ela é de Lins.

 

P/1 – Vocês casaram onde? Aqui ou no interior?

 

R – Casamos aqui. Eu falei: “Casar no interior, não”. Ai, família de caipira, isso vai acabar em festa de São João, vamos casar aqui. Os pais dela vieram, eu conversei com ela: “Você tem muitas das suas alunas e colegas da USP que estão aqui, que estão casando, namorando, estudando, trabalhando, vamos ficar aqui”. E  ficamos. Agora eu penso...

 

P/1 – Vocês tiveram filhos?

 

R – Tivemos uma filha só. Que já me deu o que podia dar de trabalho.

 

P/1 – Ela nasceu em que ano?

 

R – Em 1969. Ela me deu todo trabalho possível e imaginário. Se eu não tivesse sido auxiliar do governador quando o Quércia foi governador, a minha filha ia ter problemas sérios pelo resto da vida. Eu sei o que ela aprontou. Pelo resto da vida, ela e o namorado dela.

 

P/1 – O que eles fizeram?

 

R – Se meteram com drogas. E naquele tempo droga era um negócio danado, terrível. E a sorte é que eu tava no palácio. Quando eu soube que ela tinha sido presa aqui na PUC, são coisas pessoais que eu estou contando. Eu cheguei em casa tarde da rua, a minha mulher falou: “Olha, a Renata está na Secretaria de Segurança presa por tráfico de drogas”. Não tive alternativa, pus a roupa de novo e lá fui para Secretaria da Segurança que era ali na Brigadeiro Tobias, agora não é mais. Para ver se tirava a minha filha da enrascada. Não consegui tirá-la porque o delegado de plantão, que era do Denarc, ele falou: “Dizem que o senhor trabalha no Palácio, com o governador”. Eu falei: “Dizem não, eu trabalho no Palácio com o governador Orestes Quércia”. Ele falou: “Então, sua filha está aqui, foi flagrante. E o noivo dela, o namorado dela também”. Falou: “Ela eu vou soltar, ele não”. Eu falei: “Melhor que solte ela e ele que é adulto, que fique lá”. Eu fiquei com pena dele, e o delegado ainda disse para mim: “Você trabalha no Palácio?” “Trabalho, faz um ano, dois” “Sua filha deu uma cabeçada, ela foi envolvida pelo namorado, e a reitoria da PUC pediu uma providência da polícia, que prendessem. O rapaz vai ser preso até você arranjar um advogado”. Eu consegui tirar ela daquela situação. E mais, de madrugada eu liguei para não menos que Márcio Thomaz Bastos, que era o maior advogado criminal de São Paulo, que tinha sido colega meu na faculdade. Liguei de madrugada e falei: “Márcio, tenho um problema”. Ele falou: “O que é?” “A minha filha deu uma cabeçada, segundo diz o delegado, se meteu com tráfico de drogas na PUC. Ele tá preso e o delegado diz para eu aparecer lá amanhã cedo para soltá-lo”. Aí ele falou: “Eu pego esse caso”.  Ele já era advogado famoso, muito famoso. “Eu pego, agora você se prepara aí que amanhã cedo você passa aqui no escritório, você tem que me dar, no mínimo, uns cinco, dez mil reais, que eu vou ter que dar pro escrivão, o escrivão que fez o flagrante ontem. Nós temos que preparar o relatório do escrivão, senão depois eu não tiro”. Conclusão, consegui fazer com que minha filha saísse na noite seguinte, consegui, o Márcio Thomaz Bastos é um super advogado, não precisa mais nada para dizer, Márcio Thomaz Bastos é o suprassumo. Ele falou: “Eu não vou cobrar de você porque nós estudamos juntos. Agora, você vai ter que gastar um pouco e vai ter que falar para sua filha não chegar mais perto desse cara, senão ele vai reincidir e não tem como eu tirar”. E vou dar um último detalhe, aí é pessoal. 

 

TROCA DE FITA

 

P/1 – Aí o: “Roland Marinho Sierra” “Sim, senhor” “Roland, você não lembra de mim?”. Era um colega da faculdade. “Eu sou o doutor Barreto”. Eu vi que tava escrito Meritíssimo Juiz não sei o quê Barreto. “Como você está? Você trabalha na Folha?” “Trabalho, tal”. E a promotora ficou sem graça quando ele começou a conversar comigo sem pedir licença para ninguém. E ele falou: “Que bons tempos aqueles” “Que bons tempos, melhores que o de hoje”, eu falei. “Que o de hoje, o rapaz tá aí chorando e eu não tenho que fazer nada”. Ele falou: “Não, não. Vamos fazer uma coisa. Você vai ditar o seu depoimento. Escrivão, anote o que o Doutor Roland vai falar”. Aí, a promotora ficou tão sem graça, quando ela viu que o juiz me tratou com muita consideração, colega de turma. E quando ele falou: “Você vai ditar o seu depoimento, a senhora promotora não precisa interferir”. Aí, consegui fazer com que o cara fosse condenado a pena mínima. O advogado falou: “Roland, você tem uma estrela, viu? Você me encontrou, você encontrou o juiz que tava com o caso. O juiz lembrou de você, a promotora se escafedeu da sala, tudo confluiu para você ter um final razoável pro rapaz. Daqui a dois meses...”. Daqui a dois meses, realmente depois de dois meses foi expedido o alvará de soltura. Então, esse foi um problema muito...

 

P/1 – Mas aí ele não encontrou mais a sua filha?

 

R – Não, depois de algumas semanas minha filha entendeu que não era mais para fazer isso, ela criou um juízo.

 

P/1 – Mas ela era viciada em drogas?

 

R – Não, não. Fumava. Mas o rapaz era, e o rapaz era aquilo que chamam de cavalo ou mula. Ou seja, ele que encontra um fornecedor de droga e leva para um centro, geralmente rapaziada e moças de faculdade. Então, ele estaria frito se o juiz não tivesse me reconhecido. Foi um pouco de sorte dele e dela. Depois de um tempo eles se separaram, mas isso é um detalhe particular, tá? Não tem nada a ver com meu final de vida, foi uma coisa terrível. Bom, tá bom assim?

 

P/1 – Tem algum outro fato da Folha? Você viu tantos fatos marcantes, alguma cobertura de algum outro?

 

R – A cobertura é normal, a rotina de política, que exige uma dedicação grande. Você não improvisa um repórter de política, se você improvisar a coisa não vai dar certo.

 

P/1 – Você participou, cobriu, a formação do PT? Que era um fato novo na política.

 

R – Com certeza, sim. 

 

P/1 – Como é que foi?

 

R – Eu já tinha simpatia pelo Lula. Eu já conhecia o Lula, quando ele foi com o Sócrates na minha casa. Então, eu sabia que o processo estava embaixo. Antes do partido ser formado eu já conhecia o Lula, e já conhecia as cabeças principais, José Dirceu, Djalma Bom, conheci um grupo grande. O Suplicy. Foi uma aproximação natural. Mas eu fui a pelo menos uma convenção do PT que foi na Assembleia, que eu fui, até aproveitei e pus o Lula em contato com a minha filha. Mas aí, tinham outros repórteres que eu falei para chefia da reportagem: “É melhor eu só acompanhar a convenção, até orientar dois ou três repórteres”. Precisa de dois ou três repórteres para convenção do PT, ou também dos tucanos, um só não faz. “Eu prefiro não participar, eu vou lá, se for preciso eu ponho o Lula em contato com nossos repórteres, ou com o Zé Dirceu, e até posso editar à noite, mas eu não quero participar diretamente. Não me sinto bem. Eu vou cometer uma imprudência, eu sou capaz de, no meio do caminho, orientar mal um repórter da Folha, e ele falar, “mas quem me deu essa orientação foi o Roland”. Então, eu prefiro que os repórteres trabalhem. Se tiverem dificuldade me procurem, eu estou na Assembleia, tá todo mundo lá, fotógrafo, repórter. Agitação”. Então, eu também não sou eterno, ainda tenho algum tempo de vida para somar mais alguma coisa e vim aqui dizer: “Sabe, eu tenho mais alguma coisa para contar para você. Eu fui eleito presidente da República”. É isso aí.

 

P/1 – Como é que foi o encontro do Lula com o Sócrates?

 

R – Foi regado a pinga, cerveja e cigarro.

 

P/1 – Foi você que armou, como é que foi?

 

R – Sim, um diretor do Corinthians, que eu conhecia de vista, perguntou para um rapaz da Folha, se o repórter de Política da Folha, eu, conhecia o Lula. E eu disse para esse repórter que cobriu o Corinthians: “Marcos, se um repórter de Política da Folha, eu, não conhecer o Lula, eu não sou repórter de Política, eu sou ninguém. Ou sabe ou não sabe, não vou improvisar. Claro que eu sei, eu tenho relações com o Lula, tenho que ter. Aliás, eu gosto dele, eu acho ele um político bem intencionado. Vai ter que aprender um pouco mais de português, com certeza, mas nós vamos superar isso aí”. Aí, esse cara do Corinthians falou: “Olha, só que o Sócrates não quer aparecer em público com nenhum jornalista. Ele quer conversar com o Lula para saber o que o Lula tem na cabeça, o que ele pensa sobre isso, isso, isso, para ver se ele se enquadra na teoria do Lula”. Eu falei: “Então, pode vir aqui. Eu vou fazer na minha casa, porque se alguém do Sócrates, ou do Lula, se estão conversando em um restaurante, daqui a cinco minutos a Globo tá aí, a Folha, o Estadão. É um fato político. Aí, eles vão ter que se esconder no banheiro, eles não querem”. Ele até falou: “O Lula até que gostaria de estar em um restaurante e que todo mundo visse ele conversando com o Sócrates”. Porque o cara mais importante na época não era o Lula, era o Sócrates. Então, não pode. Eu falei: “Eu faço na minha casa”. Não falei para ninguém, nem na Folha. Se a Folha soubesse ia me pegar pelo pé: “Pô, você faz um encontro de dois personagens públicos na sua casa e não fala para Folha! Que repórter você é?”. Eu sou um repórter comprometido com o Lula, não com o Sócrates, não tenho nada com o Corinthians. O encontro foi longo, foi até às duas da manhã. Porque um assunto vai puxando o outro. O Sócrates tinha muito interesse em saber o que o Lula sabe de reforma agrária, direitos autorais, censura à imprensa, coisas que um político tem que dominar. Se não dominar, não vai ser nunca um político. Então ele queria ter certeza. E ele tinha disse mais tarde para esse diretor do Corinthians que ele ficou bem impressionado com o Lula, gostou da conversa. Também, depois de seis cervejas e três pingas, se não gostar, vai no bar da esquina. Ficamos até duas da manhã. E tinha um sobrinho meu que era puritano. O Sócrates naquele tempo era como se fosse a Dilma hoje, ou o Lula, ele era importante. E eu tinha um sobrinho que era corinthiano, corinthiano fanático, e ele soube, não sei como, que o Lula ia estar com o Sócrates lá na nossa casa. Eu sei que alguém de casa falou. E ele foi com a camisa da Fiorentina. Porque esse meu sobrinho, era rapaz, ele era corinthiano e naquele tempo o Sócrates era da Fiorentina da Itália, era o craque do futebol italiano. Ele foi até com a camisa da Fiorentina, eu falei: “Poxa, mas é chato, hein?”. E quis fazer foto com o Sócrates, não quis fazer com o Lula. A minha filha fez foto com o Lula. O Lula abraçou a minha filha: (imitando voz do Lula) “Ah, você é filha do Roland! Você é gente boa” e tal. O outro só queria fazer foto com o Sócrates, por causa da camisa da Fiorentina. Eu falei: “Vão vocês embora, eles querem conversar a sós. É um assunto particular dos dois, eu me comprometi a não dar publicidade. E vai ser assim”. Já tomaram toda a cerveja, não vou nem encontrar mais o bar aberto, tomaram todas as minhas pingas e cervejas. Mas foi assim. A história é rica de detalhes. Como eu disse a você no começo da nossa conversa, eu sei de detalhes que ficam na noite do passado. Que eu morei numa casinha na Santa Cecília, que meu irmão mais velho fazia brincadeira com meu irmão, que ele quebrou o vidro do bombeiro e meu pai deu uma surra nele. Mas isso vai ficando perdido na noite do passado. O que eu tenho para passar para frente é tudo desde o momento que eu passei a ser jornalista e gostei. Sofri algumas decepções, mas gostei. E fiz amizades. Nunca, sem nenhum interesse. Fui amigo do Jânio, o Jânio me mandou mil vezes cartas, cartões...

 

P/1 – É mesmo? O que ele te escrevia?

 

R – O Jânio me achava o... Até que um dia ele me expulsou da casa dele.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Quando ele foi candidato à prefeito, a segunda vez, em 1985, e se elegeu. Ele derrotou o Fernando Henrique Cardoso, que cometeu a asneira de sentar na cadeira de prefeito e o jornal fez uma foto. E ele ficou sem, porque ele perdeu a eleição. Mas sentou na cadeira de prefeito, e que o Jânio até no dia da posse foi lá com spray e falou, “aqui passou um verme, vou borrifar isso aqui”. Tá lembrada disso? Pô, claro. Eu fui janista antes de ser petista ou lulista. Por quê? Porque eu não gostava do Ademar, era uma questão histórica. Eu não gostava do Ademar, não gostava do comportamento do Ademar, tudo isso. E eu acompanhei parte da trajetória do Jânio, mesmo antes dele ser eleito presidente. Fiz campanha para ele na faculdade. E eu achava que o Jânio ia melhorar as coisas aqui, ia acabar com Ademarismo, corrupção, bandalheira e tal. Não acabou nada, não acabou nada. Mas tentou, né? Então, o Jânio, no fim da vida achou que eu era fã clube dele, mas eu já tava descobrindo as maracutaias do Jânio, eu sabia de onde ele tomava dinheiro. Eu sabia de quem ele tomava dinheiro. Ele era candidato sempre para tomar dinheiro, não é à toa que ele tinha conta na Suíça. Ele foi presidente uma vez, governador uma vez, não teria dinheiro para comprar nada. Ou seja, ele levava dinheiro de empresários, da turma dele. E quando chegou na segunda eleição de prefeito, 1985, que o Fernando Henrique cometeu aquela besteira, de sentar na cadeira, eu fui levar um repórter à casa do Jânio, que era lá em Santo Amaro. O cara pediu. Eu conheço o Jânio. O Jânio falou: “Roland, vem aqui, você e seu amigo serão recebidos”. E na conversa com o Jânio, eu me meti a besta, em vez de ficar quieto, eu falei no final da entrevista que esse amigo mal estava entrevistando o Jânio, uma entrevista normal, de candidato a prefeito. E eu caí na besteira de dizer:  “Doutor Jânio, presidente, o senhor sabe que seus adversários vão começar a colocar na rua rapidamente a história da sua casinha na Vila Maria”. Durante alguns anos, o pessoal que era contra o Jânio espalhava que o Jânio, a pretexto de justificar que ele tinha algum dinheiro, ele vendeu uma casa na Vila Maria. Ele nunca vendeu, nunca teve casa na Vila Maria. Mas eu caí na asneira de informar ao doutor Jânio, vão falar já já no programa de televisão, ou no jornal, que o senhor está aproveitando o dinheiro do sobradinho da Vila Maria, que o senhor está juntando dinheiro com o sobradinho da Vila Maria. Aí, ele brigou comigo. “Não, não estão dizendo”. Aquele jeitão dele: “Não estão dizendo, Roland! Você é que está dizendo”. E o outro repórter ouvindo. “Não doutor. Vão falar, já tão falando. Tão falando. Guerra é guerra, o senhor está numa guerra” “Não, você é que quer que eu seja jogado na lata do lixo inventando essa história da casinha da Vila Maria”. Eu falei: “Não. Se o senhor quer, que seja. O senhor tem a casinha?”. Aí, eu comecei: “O senhor tinha a casinha?” “Que insinuação é essa? Eu nunca tive casinha, você fica inventando essas besteiras aí” “Eu não to inventando, vão falar”. Ele falou: “Então, ponha-se daqui para fora”, e abriu a porta, me pôs na porta do elevador. O outro repórter ficou... Ele já tinha feito a entrevista, ele ficou: “Esse era teu amigo? O cara te põe para fora do apartamento? Que amigo, hein?” “Que amigo nada, ele tem uma casinha na Vila Maria e não explica o dinheiro que tem na Europa, na Suíça. Uma casinha na Vila Maria...”. Depois a gente soube que ele tinha dinheiro na Suíça por que? Eu vou relembrar para você. Quando a filha do Jânio, Tutu...Chamava Tutu.

 

P/1 – Tutu Quadros.

 

R – Era louca, era louca. Ela inclusive tinha um furor uterino lá, dava para todo mundo... O Jânio só faltou matar os deputados que iam comer lá a Tutu. 

 

P/1 – Furor uterino é ótimo (risos).

 

R – E a Tutu, cansada de saber que o pai tinha dinheiro na Suíça, ou em Cayman, um desses paraísos fiscais, resolveu conversar com a dona Eloá, que ela queria subir na vida também, ela queria dinheiro. A doença do pai, ela queria dinheiro. E ela perguntou para dona Eloá, e a dona Eloá disse para ela: “Sim, seu pai tem uma conta”, e deu o número da conta. Só que quem contou a história não repetiu, era H2 não sei o quê, 32/0. Essa conta é do seu pai, é nossa, o dinheiro é nosso. E é dinheiro grande. Não é para comprar, dinheirinho de um sobradinho na Vila Maria, não, isso é para ficar milionário”. Ela falou: “Ah, então, essa é a conta”. Tempos depois, o Jânio ficou bravo com ela, o Jânio não se elegeu mais, morreu. E ela foi lá pegar o dinheiro. Contam que conseguiu um advogado que levantou dinheiro que seria dela porque a mãe tinha morrido de câncer, o Jânio morreu com um AVC, os dois, e ela não tinha filhos. Ia ter um filho com um americano, mas depois que o Jânio morreu. O John-John Jânio. E ela foi lá e parece que conseguiu uma parte do dinheiro. Então, a história que o Jânio falava: “Você tá inventando”. Eu falei: “Ah, doutor, vai se lascar, eu tô inventando o quê. Aliás, o que o senhor fez com a casa” “Eu nunca tive casa” “Nunca teve casa…” É. Então, essas coisinhas vão somando. No dia que eu morrer dá para eu sentar e contar para quem... Velório tem sempre as piadas, e contar as piadas. O Jânio tinha uma casinha, mas que valia uns dez milhões de dólares. Tá louco, hein? Na Vila Maria, hein? Não é nem a Vila Pompeia. Bom, o que eu podia oferecer para vocês é isso aí, um pouco de folclore e um pouco de informação sobre quem participou em algum momento do jornalismo político.

 

P/1 – Que outras figuras você conheceu na Redação da Folha? Como era a relação com o Cláudio Abramo?

 

R – Você conheceu o Cláudio? O Cláudio era, com duas expressões eu mato essa charada, também não preciso tomar seu tempo. Era um bom jornalista, um grande jornalista. Eu aprendi boas coisas com o Cláudio. Mas era um mau caráter total. Mau caráter. F-D-P. Ele me fez engolir... Ele trabalhava para o grupo, era grupelho, e eu não tinha esse viés de grupo, não tinha, nunca quis ter. E ele queria, ele tinha duas filhas, que ainda estão vivas e escrevem na Folha umas bobagens. Uma é astróloga.

 

P/1 – Barbara Abramo.

 

R – Tenho a impressão que o Cláudio, lá nas alturas, deve estar “pê” da vida. Ter uma filha... “Eu sou um comunista e ter uma filha que faz astrologia? Que exemplo que eu dei para ela, meu Deus!”. Não tem sentido. E a outra escreve sobre cinema, sem entender nada sobre cinema. Então, essas duas moças, Bia e Bárbara.

 

P/1 – Não é a Bia, a Bia é prima, filha do Perseu.

 

R – Bom. Sim, mas o Cláudio tinha duas filhas...

 

P/1 – A Berê e a Bárbara.

 

R – Berê, Berenice.

 

P/1 – São as filhas da Radha também, Abramo.

 

R – É. Segundo casamento. E o Cláudio queria que eu aceitasse, na minha editoria, dois camaradas, que eu conhecia, eram duas bestas, bestas quadradas. Só que eram namorados das filhas dele. Um chamava Rodolpho Gamberini, se você conhecer não comente. O outro era Pedro Del Picchia. E um dia, o primeiro, que era diagramador. Você sabe o que é diagramador, né? Ele não é propriamente jornalista, é arte gráfica. É um desenhista. E o Cláudio falou: “Roland, dê uma chance pro Rodolpho Gamberini, ele tá querendo fazer reportagem”. Eu falei: “Cláudio, na Política?” “É, faz um teste”. Eu fiz um teste, e caiu na mão do Rodolpho Gamberini uma “pautazinha”, que era para conversar ou saber onde estava o doutor Ulysses Guimarães, que era um personagem importante na política de São Paulo. E esse Rodolpho Gamberini pôs um paletó e uma gravata e foi para rua, pegou o carro. E volta à tarde, eu já tava sentado na minha carteira. Eu sabia que de lá não ia sair nada, eu sabia que o Rodolpho Gamberini era uma besta quadrada. Em todo caso, o Cláudio quer. Aí, o Rodolpho Gamberini pergunta para mim: “Roland, o deputado Ulysses Guimarães, qual é o partido dele hein?”. Naquele tempo só havia dois partidos, não havia trinta, só dois. Ou se era governo, ou se era oposição. E o doutor Ulysses Guimarães era presidente nacional do MDB, aliás um grande deputado e um grande presidente. Um homem de grande valor. Eu recebi aquilo como negócio de ensinar para moça da noite o trabalho, o que ela roubava. Falei: “Bom, é MDB. Você sabe, tem dois partidos só”. Difícil confundir em que estado ele é. “Estado é São Paulo, tá todo dia aqui no jornal”. Aí, eu fui ao Cláudio e falei: “Não dá, eu não posso trabalhar na Política, que é um prato muito sério, muito forte, com o Gamberini. Ele não sabe quem é Ulysses Guimarães, nem que estado representa, nem quem é”. “Ele falou?” “Falou. Ele perguntou para mim. Eu disse para ele que é São Paulo e MDB, mas eu não posso trabalhar com um cara em quem eu não confie. Eu vou ter que ler tudo o que esse camarada escrever toda noite, vou dormir com a cabeça quente”. O outro era Pedro Del Picchia, que também era cupincha do Cláudio, também era desenhista. Ele já era casado com uma moça muito boa, a Virgínia, mas a Virgínia era boa jornalista. E esse Pedro Del Picchia era tão ruim, mas tão ruim, que um dia eu falei, numa dessas mesas de cerveja, vai, que você faz fofoca. Eu falei para alguns jornalistas que estavam comigo. O Pedro Del Picchia tinha acompanhado o Papa quando veio ao Brasil, 1980. E não conseguiu escrever nada. NADA. E eu falei numa mesa, alguém ouviu e falou, “Vou fazer uma futrica contra o Roland”. O Pedro del Picchia é uma azêmola, porque não sabia nem o alfabeto de pai, mãe e tudo. Mais ou menos como o Gamberini, nenhuma condição de ser jornalista, ainda mais na parte de Política. E o cara: “O que é uma azêmola?” “Azêmola é um quadrúpede produto de um cruzamento de zebra com jumento, que dá azêmola, é isso” “Você acha?” “Eu acho não, eu tenho certeza, ele é cruzamento de jumento com zebra, ou zebra com jumento, isso não tem futuro”. Um dia, no mesmo bar da Folha, um cara que queria fazer intriga falou: “Roland”, daí o Pedro Del Picchia veio sentar na mesa, tomar uma cerveja. Ele falou: “Roland, como é que você falou outro dia mesmo aqui, que o Pedro Del Picchia é o quê?”. Eu falei: “Eu falei?” “Falou. Cruzamento com jumento com zebra”. Eu falei: “Isso é força de expressão, isso acontece” (risos). Aí, eu fui falar com o Cláudio. O Cláudio também, na época do Papa, o Cláudio já não mandava mais. O filho do Frias assumiu as rédeas da redação da Folha. Isso há uns vinte anos. Ele assumiu e pôs o Cláudio à escanteio, o Cláudio tinha criado muito caso. Mas então, quando esses dois vieram trabalhar, o primeiro eu falei: “Cláudio, o Rodolpho não tem condição de fazer nem uma linha de Política, o cara não sabe quem é Ulysses Guimarães, pô, nem qual o estado do Ulysses Guimarães”. Não falei do Pedro Del Picchia, que era cruzamento de jumento para não azedar mais (risos) porque ele era peixinho do Cláudio. E o Cláudio depois disso, ele começou a me alfinetar. Despediu o meu irmão, mandava um amigo dele sentar na cadeira do outro. Até que um dia eu falei: “Pô, essa cadeira tem dono, chama-se Mário. É um repórter da nossa editoria. O que você tá fazendo aqui?”. “O Cláudio falou para ele vir aqui sentar e fazer uma matéria”. Eu falei: “Você não vai fazer matéria, não vem com esse negócio, não. Vai para o Cláudio Abramo e peça para ele te dar uma mesa, aqui trabalha uma equipe”. Então, o Cláudio no fim da vida ficou chateado porque andou me prejudicando, me perturbando, e ele começou a se referir para mim com algum respeito. Mas aí já era tarde, o mal que ele tinha que fazer já fez. Agora, eu aprendi algumas coisas com ele. É por isso que eu digo, ele é, assim como Chateaubriand, puro perfil, eu tenho. O Chateaubriand é o médico e o monstro no mesmo corpo. O Chateaubriand era um super gênio em empreendimento jornalístico e era uma canalha no comportamento político, social e tudo. Canalha. Agora, é um canalha o médico e o monstro. Se ele tá de monstro, ele vai te esfacelar, se ele tá de médico, ele vai curar o câncer, né? Esse é mais ou menos o Cláudio Abramo. Eu aprendi com o Cláudio, eu aprendi, mas apanhei muito na mão dele. Não tenho saudades. Se um dia eu encontrar a filha dele, ou o filho dele que é do primeiro casamento, que é cara bom, e se perguntar: “Você acha que meu pai era um canalha?”. “Sim senhor. Mau caráter. Se quiser eu dou alguns exemplos, três, quatro, cinco. Ele veio querer interferir em uma editoria que ele ia explodir, e eu ia explodir junto com ele”. Como é que ele manda o Rodolpho Gamberini, que se você der um copo e uma folha papel e um lápis, e pedir para ele descrever o copo, ele não vai saber escrever o nome tendo esses três ingredientes. Dê um copo, uma folha de papel e um lápis, e diga: “Rodolpho, escreva O”. Ele vai ficar olhando o papel e não vai saber o que fazer. Isso aí, por aí você calcula qual é o tipo do cara. Essas coisas a gente vai acumulando, eu já apanhei muito. Algumas coisas ficam marcadas. Isso eu falei: “Cláudio, o Rodolpho, não tem condições de trabalhar em Política”. Eu falei para ele: “Cláudio, você sabe mais do que eu, o jornalismo tem duas áreas super sensíveis, não tem mais, Economia e Política. Não tem mais. Não tem futebol, não tem vida social, não tem nada, nada, nada. Não tem fotografia. Vida política. Como é que eu vou dar chance pro camarada que não sabe, se não sabe escrever um “ó” com um copo e uma caneta. Você vai deixar um editor eternamente preocupado, o editor vai chegar em casa não sabendo o que ele vai encontrar no dia seguinte. Ou seja, o editor vai ter que passar até às duas da manhã lendo tudo o que cada um escreve”. Então, o Cláudio tinha um bom lado jornalístico, mas ele tinha as manias dele que... Até que uma ocasião (risos). É um outro detalhe, que agora eu vou saindo porque vocês têm mais coisas para fazer.

 

P/1 – Não, pode...

 

R – Ele me chamou na mesa dele, ele era um pouco autoritário, ele usava bengala, e gostava de bater com a bengala nas mesas. Era esse tipo. Ele fazia o tipo. Um dia ele me chamou na mesa e eu falei: “Lá vou eu pegar um abacaxi, não sei o que ele quer”. Ele falou: “Você fala alemão?” “Não, Cláudio, alemão, não. Eu conheço duas ou três palavras em alemão, mas essas que você fala na rua, Danke, obrigado; Bier, cerveja. Não mais do que isso” “E inglês?” “Inglês eu sei, o que eu me lembro dá para quebrar o galho” “Você quer fazer uma viagem para Alemanha? Eu to com uma passagem para Alemanha, da Lufthansa. A passagem veio pro Diretor de Redação, que sou eu, e o Diretor de Redação sempre escolhe algum companheiro para dar, é de brinde, para você fazer uma viagem para Orlando, ou para Alemanha, ou para França”. Eu falei: “Tá bom, eu aceito” “Então, você topa?” “Topo”. “Então, providencia o... Vai no consulado da Alemanha, você vai ter que tomar a vacina e tomar um remédio, um negócio lá que é obrigatório. Faça isso que eles vão inaugurar um vôo Munich - São Paulo, Munich - Rio, daqui um mês. E essas coisas aqui nessa burocracia se perde, se você não providenciar a vacina e o salvo-conduto, a carteira aí, você não terá chance”. Eu fiz as duas coisas. E aí, eu falei: “Alemão eu não sei, não vou me meter a besta. Inglês dava, eu leio um jornal, dá para ir em inglês, alemão não” “Aí, você me faz um favor...” Aí, ele pedia favor. Eu falei: “Qual é o roteiro?” “O roteiro que tá aqui no papel da Lufthansa é Munich, depois vai para Frankfurt, depois isso, Berlim, e vai terminar novamente em Frankfurt. Quando você passar em Hamburgo, tá no roteiro”. Era uma cidade a cada dois dias, era um pinga-pinga. “Vão passar em Hamburgo, você procure o “Die Tageszeitung” é um jornal, dizem que é o melhor da Alemanha”. Eu falei: “Eu vou ver, se der eu vejo lá”. Depois eu percebi que não daria porque um dia e meio em Frankfurt, um dia e meio em Berlim, você não faz nada, você não vai conhecer nada. Mal você toma um ônibus ou você não faz nada. Na volta, ele não me cobrou mais, também esqueceu. Mas também nunca mais eu falei que o Gamberini era um atraso de vida, eu já vi que era uma azêmola, cruzamento de jumento com zebra (risos). O Cláudio era um ser preparado para o jornalismo, mas o caráter dele era muito ruim,  muito ruim. Ele deixou espalhado muitos inimigos.

 

P/1 – E a relação com as outras editorias, como é que era?

 

R – Normal. A gente cruzava um pouco com a editoria de Economia porque é uma proximidade entre o jornalismo econômico e o político, até porque o Congresso em Brasília é uma casa política e é uma casa econômica, é o Congresso que dá as normas da moeda, do câmbio, tudo mais. Há uma proximidade, mas é pequena, nunca tivemos que conversar uns com os outros. Só conversamos quando era preciso distribuir o espaço às seis da tarde. Em todo jornal grande, agora já não sei se é às seis da tarde, seis e meia, a publicidade que tem força dentro de qualquer jornal, senão o jornal não ganha dinheiro, a publicidade manda o espelho para Redação. O espelho é uma página, como se fosse a página de verdade, mas reduzida, como se fosse um microfilme. E ali, se você já sabe o que vai chegar, o bom editor tem que saber o que vai chegar, ele não pode ser pego desprevenido às oito horas da noite, você recebe uma agenda. Aí, às vezes, você tem discussões por causa de espaço, mas não por causa de uma notícia de Economia que não devia estar em Economia, devia estar em Política, é uma relação muito pequena, tínhamos relações normais lá. E há poucos dias morreu um amigo meu, muito amigo meu, que foi do tempo do Cláudio, o Cláudio mesmo que levou para Folha. Esse era bom. Chamava-se Marco Antônio Escobar. Era um sujeito de seus cinquenta anos, bebia, bebia, bebia. Mas era inteligente, inteligente, inteligente. Talvez mais que o Cláudio Abramo. Sabia três línguas, sabia o português correto, sabia Internacional, ele sempre trabalhou na área de Internacional. Conhecia. E escreveu, quando morreu o Franco, isso há vinte e cinco anos, vinte e oito, ele escreveu uma biografia do Franco, que era o ditador da Espanha que depois acabou deposto e morreu. E o Cláudio pediu para ele fazer, e o editor de Política mais tarde, quando morreu o Franco, disse para algumas pessoas: “Eu não vi, até hoje, uma biografia na área de Internacional tão perfeita como essa que o Marco fez, do Franco. Perfeita, de primeiro ao quinto, sem nenhuma contestação. O homem sabe escrever, o homem sabe o que é para escrever. Ele não vai pegar arquivo para saber se o sujeito tinha cabelo loiro ou não, ele conhecia a história da Espanha, ele conhecia a história dos Estados Unidos. Era um sujeito preparado. E o editor falou: “Roland, o Marco Antônio, com todas as bebedeiras dele, ele tem uma cultura impressionante. Vê se ele para de beber, ele pode acabar até dono desse jornal aqui porque ele é melhor que o Cláudio, é melhor que o Frias”. É isso aí, já fiz minhas fofocas... 

 

P/1 – Hoje, como é o seu cotidiano de trabalho?

 

R – Eu trabalho pouco por causa da idade. Eu estou com setenta e nove anos, com problema de saúde, eu já não trabalho. Eu faço algum trabalho para o nosso sindicato, Sindicato dos Jornalistas, ainda ontem estive lá. O sindicato tem uma comissão de ética, e alguns anos atrás, a diretoria eleita do sindicato me chamou e falou: “Olha, o aguardamos. Roland, você quer participar da comissão de ética?”. Eu falei: “Se for preciso, mas a minha mobilidade é pequena hoje em dia, eu já tô mais para lá do que para cá, eu to esperando o gongo bater, mas não vou ficar muito tempo vivo”. Ele falou: “Então vem porque você tem um know-how que nos interessa. Não só porque você foi repórter ou jornalista, porque você lidou com os vários tipos de jornalistas. E nós temos algumas vezes aqui problema de ética jornalística, que é um assunto super delicado. Ética jornalística. Nós confiamos em você, você topa?” “Topo”. Então, uma vez por mês, ontem eu estive lá, uma vez por mês eu recebo em casa, ou vou pegar no sindicato, algum processo de jornalista contra jornalista, ou censor contra jornalista, para fazer o julgamento no colegiado. Aí, isso eu faço direitinho porque eu me sinto bem no sindicato. Em casa eu leio, leio dois jornais, vejo telejornal da Globo, eu vejo. Eu acho que quem não vê um telejornal da Globo não tá acompanhando nada na vida. Desconta o que a Globo faz com telejornalismo, metade é bobagem, Hulk, nada de novela. Mas o telejornalismo da Globo, especialmente do Globo News, está num nível bom. Eu, para não ter que ficar acordado até nove e meia da noite para ver o Jornal Nacional, no fim da tarde eu ligo na Globo News e já sei o que tá chegando de Brasília, Rio ou São Paulo. Morreu fulano, a Dilma assinou um ato assim, tal. Então, isso eu acompanho, o fato jornalístico é importante.

 

R – O pai da Olívia ainda tá aí? Ele falou que ia me levar para casa.

 

P/1 – Vamos perguntar, senão eu dou um jeito. O que você achou de dar esse depoimento pro Museu da Pessoa?

 

R – É um momento de acrescentar alguma coisa para onde chegar. Eu não conheço o mecanismo de vocês, estou conhecendo agora. Eu não conheço onde isso chega, e com que intensidade. Se alguém recebe alguma dessas minhas informações, e me dá crédito eu acho importante, porque eu não chutei nada. Tirando problemas pequenos, do meu irmão que antes chutava o outro, e que eu andei de bicicleta, isso não tem a menor importância. A experiência que eu tenho  com Jornalismo pode ser útil a alguém, quem sabe até para algum jornalista, ou algum publicitário, que diz: “Pô, ainda existe vida inteligente neste planeta. O homem aí não fala inglês mas quebra o galho”. Eu acho que isso é importante, é você fornecer instrumentos, fornecer armas para que o raciocínio seja... Como eu aprendi muito análise lógica, eu era especializado em Lógica, por isso que meu exame na faculdade foi bom. Análise Lógica, três exercícios são importantes para pessoa ter reflexo. Análise Lógica da Língua Portuguesa, ou de qualquer Língua. Menos japonês, que acho que japonês não tem língua. Análise lógica, jogo de xadrez e Matemática. Quem conhece essas três coisas, esse sabe o que quer da vida, sabe o que te espera na frente. Você raciocina, você tem reflexo, você não fica à reboque de nada. Por quê? Você força seus neurônios a fazer raciocínio e a gravar as coisas. Metade do que eu disse aqui, tirando pequenas bobagens, são coisas que aconteceram e que podem acontecer mais adiante para alguém. Quer dizer, dar crédito para ajudar a pessoa. E eu me desrecalcar um pouco, né? Quando eu digo que o Gamberini é aquilo, o Del Picchio é aquilo, que o Cláudio é mau caráter, eu to me desopilando. E é bom. Eu sei que a gente não deve nunca parar de pensar. Se eu consigo ver televisão? Não. Eu vejo dois ou três telejornais que eu sei que à noite vão aparecer no nacional, mas eu não tenho paciência, então, eu vejo das seis, das sete e só. Novela eu passo batido, não existe isso. Jogo de futebol, uma vez ou outra, acho que nem outra, nem uma vez. E leio, estou lendo de novo, aquilo que eu falei para vocês. Eu to fazendo um exercício de releitura para descobrir algumas coisas que eu não descobri antes. Por exemplo, há uma releitura que eu tenho que fazer, são duas releituras. Uma vai ser pesada, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Segunda, o Dom Quixote de La Mancha. O Dom Quixote eu parei duas vezes no meio, e o outro também. Conclusão, eu não posso ir embora sem que eu tenha lido o Dom Quixote. É como falar em espanhol: El ingenioso hidalgo Dom Quixote de La Mancha. O sonhador e seus moinhos de vento. Eu quero chegar no fim. Talvez até eu posso começar as primeiras sessenta, oitenta páginas, que ele vai tomar vinho lá na taverna e depois faz, cheio de besteira, né? E namora a Dulcinéia de Toboso. E depois pegar de um certo ponto para frente. Que ele se deu mal eu sei, morreu, tal. Mas também podia não ter morrido. Essa é uma leitura que eu quero fazer. Não vou fazer uma outra leitura porque daí não tenho mais tempo, Tolstói, Guerra e Paz. 

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