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História

Escolarização além da sala de aula

História de: Deise Cristina dos Santos Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Em um curto depoimento, Deise dos Santos Lopes, carioca de nascença, conta sobre sua visão holística do processo de escolarização, baseado na sua trajetória na rede de educação pública no Rio de Janeiro, do seu primeiro trabalho alfabetizando crianças na comunidade do Caju, na cidade do Rio de Janeiro, seu posterior trabalho no Centro Integrado de Educação Pública Darcy Ribeiro e, enfim, sua atuação no projeto Casarão dos Prazeres, no Morro dos Prazeres.

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História completa

P/1 – Pois sim, Deise, qual o seu nome completo?

 

R – Deise Cristina dos Santos Lopes.

 

P/1 – Local e data de nascimento?

 

R – Rio de Janeiro, 31 de agosto de 1961.

 

P/1 – Deise, você poderia falar um pouco da sua experiência profissional até chegar aqui no Casarão?

 

R – Eu sou professora primária formada. Curso Normal no Instituto de Educação. Entrei no município concursada no concurso de 1985. Fui trabalhar na comunidade do Caju. E a experiência que a gente tem é muito rica porque a gente se forma e não vê, por mais que eu tenha vindo também... Que eu tenha vindo, não, que eu sou de uma classe... Meu pai foi operário e tudo, com muitas dificuldades econômicas, mas a gente não imagina o quanto que algumas pessoas ainda estão muito aquém de todas as condições satisfatórias de vida. Então eu tinha 19 anos, fui trabalhar nessa comunidade do Caju, fui lecionar alfabetizando crianças da comunidade. Foi uma experiência muito rica e que me fez pensar muito sobre o meu papel enquanto professora, enquanto educadora. Bom, depois desse trabalho, dessa escola, eu fui trabalhar em um Ciep [Centro Integrados de Educação Pública], uma escola de horário integral, em um ano em que havia toda uma proposta para as comunidades também menos favorecidas, no projeto dos Cieps, do então Governador Brizola, no qual também me identifiquei porque além da gente trabalhar com o que a gente chama núcleo comum, que são as matérias mesmo: português, matemática, estudos sociais e ciências, a gente iria trabalhar também com as diferentes linguagens: a linguagem da música, da arte plástica, da expressão corporal. Enfim, todo um currículo mais amplo do que aquilo que a gente trabalha normalmente em sala de aula. E aí também fui me identificando com esse trabalho porque o resultado era muito bom. Logo de início eu peguei uma turma de 1a Série, com crianças que estavam há seis anos nessa 1a Série repetentes e, ao final do ano, o resultado foi muito bom justamente porque era um projeto que olhava para essas crianças que estavam à margem de toda essa escolarização, vamos dizer, normal, sem nenhuma repetência. Então eu fui me identificando com esse tipo de trabalho que era desenvolvido através de projetos. Eu trabalhei nove anos nesse Ciep. E quando eu saí desse Ciep, fui trabalhar em um outro órgão, depois de quatro anos essa turma que eu havia ajudado a alfabetizar me convidou para ser a madrinha da turma, que eles estavam se formando na 4a Série. Foi aquela felicidade e o resultado de que a coisa deu certo. Bem, depois desse Ciep, eu fui trabalhar na Coordenadoria Regional de Educação na Ilha do Governador, para acompanhar o trabalho pedagógico das escolas, porque nesse Ciep, depois de uns dois anos, eu fiquei coordenando todo o trabalho de alfabetização com as professoras, porque antes eu fazia o trabalho diretamente com as professoras. Quando eu fui para a Coordenadoria, fui ampliar esse trabalho. Fui atender, quer dizer não eu, somente eu, mas toda a equipe, a 135 escolas em um trabalho de formação de professores. E a minha área ficou sendo a área de alfabetização. Foram seis anos nesse trabalho de acompanhamento e de capacitação de professores. E a gente nesse caminho faz amizades, conhece outras pessoas, e nesse Ciep que eu havia trabalhado eu conheci a professora Márcia Pena, que já conhecia meu trabalho. Conversando com ela, ela já estava aqui e me contou do trabalho que era desenvolvido e eu fiquei interessada em ver como que era isso. E um dia eu vim visitar o Casarão e ela me convidou para trabalhar nesse novo projeto daqui. Eu aceitei. Hoje a gente desenvolve aqui, a minha parte é a parte administrativa, mas sempre olhando o projeto em si. Tudo está vinculado, as coisas não são isoladas. Juntamente com a direção da casa, que hoje é a Bernadete, a gente faz um trabalho bastante participativo de gestão, em relação a planejamento, em relação aos projetos que vão ser desenvolvidos. Em relação à minha chegada até aqui é isso, acho, o que eu tenho a dizer.

 

P/1 – Você poderia falar um pouco desse trabalho que vocês realizam aqui no Casarão, principalmente em relação ao relacionamento com a comunidade, com as crianças, os idosos, como se dá isso no dia-a-dia?

 

R – A gente, como o Casarão tem uma presença artística, acho que a gente pode dizer, e ele também atrai muitas pessoas pela localidade dele, que está bem de frente para a comunidade. Muitas pessoas apresentam projetos para a gente, para serem desenvolvidos aqui. A gente tenta pegar esses projetos aliando ao nosso planejamento, porque a gente também tem uma proposta de trabalho para cá, que é estar trabalhando essas diversas linguagens, a música, o teatro, as artes plásticas, mas estando vinculado, canalizando para a população aqui dos Prazeres. Então, o que a gente tenta trabalhar, desenvolver aqui, é ver o que essa comunidade quer, o que ela deseja, o que ela inspira enquanto indivíduos, enquanto cada um pensa de si, mas enquanto comunidade também, enquanto coletividade, e ver de que forma esse projetos podem estar ajudando nessa vivência deles mesmos. Estar sempre atrelando o desejo da comunidade e a proposta da gente também, porque a gente também tem uma visão de vida, principalmente, e do trabalho que pode ser feito aqui.

 

P/1 – Certo. Em termos de proposta de trabalho vocês intentam fazer do casarão, prioritariamente, o quê?

 

R – Olha, o Casarão tem que ser uma coisa viva. E eu acho que o fio é você estar atendendo à comunidade, principalmente às crianças. Como eu te falei anteriormente, eu vim de um trabalho de escola que priorizava apenas o conhecimento em si, o básico, é ampliar isso. Acho que o casarão tem essa função de estar ampliando esse conhecimento que vai além da escolarização. Que na verdade eu acho que é escolarização também. É porque a escola em si ela fica muito fechada nos conteúdos. Então o fio daqui é estar ampliando essa visão de conhecimento, mas de estar atendendo aos desejos dessa comunidade.

 

P/1 – Deise, você poderia traçar uma relação daqui para a frente do Morro dos Prazeres com o Casarão dos Prazeres, quer dizer, da finalidade básica desse casarão?

 

R – Acho que a finalidade básica, eu não sei se estou sendo repetitiva [risos], mas é da gente estabelecer uma parceria com a comunidade, fazer ver que isso aqui não é do Governo, isso aqui é nosso, das pessoas que estão envolvidas. E que a gente consiga preservar essa idéia de trabalho que a gente tem. Que a gente consiga ser uma coisa só. Porque a gente está vindo de fora, a gente está vindo do asfalto, mas a gente se identifica com esse tipo de trabalho. Acho que a gente pode contribuir e o mais importante é que eles consigam também enxergar a nossa pretensão, a nossa proposta.

 

P/1 – Certo. E o que significa o Morro dos Prazeres para você?

 

R – O Morro dos Prazeres é uma história de vida [risos]. Quando eu vim para cá, como eu falei, quando eu trabalhava com a formação de professores, você se sente mais distante da realidade. Hoje eu me sinto mais dentro dessa realidade. A gente não imagina, quem está lá embaixo, quem está no asfalto, vamos dizer assim, quem não é daqui, o quanto de riqueza que tem o lugar. Pelas pessoas, pela história de vida que cada uma trás. E na medida em que a gente vai trazendo satisfação, você consegue estabelecer laços de amizade com as pessoas, as pessoas chegam até você, se aproximam mais, contam a sua história de vida, então, o Morro dos Prazeres para mim tem sido uma lição de vida. Porque a gente se compara até o que a gente é mesmo. As dificuldades que todo mundo passa e que eu passo também, quando eu vejo as dificuldades daqui e de pessoas que no momento estão contando para a gente uma situação conflituosa, de tristeza mesmo, mas daqui a pouco estão rindo, “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”... E isso está sendo uma lição  muito grande, lição de vida para mim. Então hoje o Morro dos Prazeres é isso para mim, é um aprendizado. Eu acho que eu posso dizer isso.

 

P/1 – E o que você achou de ter participado dessa entrevista e ter contribuído para o projeto de memória do Morro dos Prazeres?

 

R – Eu gostei, achei interessante, porque às vezes você fica pensando: mas o que eu posso contribuir? Mas acho que só de falar desse tempo que eu estou aqui, que não é muito, só tem seis meses, mas que já tem também uma história. Eu acho do projeto que, você ouvir as pessoas que moram aqui e ouvir as impressões que as pessoas têm por estarem trabalhando aqui ou porque passam nas ruas e olham isso aqui, eu acho que faz parte também da construção dessa história.

 

P/1 – Muito obrigado.

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