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Escola e comunidade

História de: Washington Dourado
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Publicado em: 28/01/2022

Sinopse

Washington nasceu no Distrito Federal, mas passou sua primeira infância no interior da Bahia, onde iniciou seus estudos. Conta como se deu a sua opção pelo magistério e lembra da primeira escola que assumiu, onde trabalhou com crianças especiais. Relata como se deu a sua aproximação e posterior vinculação ao SINPRO. E reflete sobre os desafios colocados ao sistema educacional em tempos de pandemia.

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História completa

A minha mãe é da Bahia, veio para [o DF] nos anos de 1975-76 e conheceu meu pai. Não chegou a ter um casamento, não chegou a ter um relacionamento duradouro. Eu nasci em 1978 e com um ano e pouco fui enviado para Bahia, e lá fui criado com a minha avó. Voltei para o Distrito Federal em 1996 a primeira vez, e depois em 1997 de vez, para ficar, e estou até hoje. [Minha primeira escola] na Bahia [era] uma escolinha; na verdade, não tinha nem um prédio: era uma escola municipal onde uma tia minha era a professora, e a gente estudava embaixo de uma árvore ou dentro de uma espécie de cabana natada, que chamava na época, que era uma cobertura de palha e telhas muito antigas, e as paredes eram de reboco lá. Não era bem uma escola, do ponto de vista de estrutura que nós conhecemos, é uma improvisação. Isso no interior de um município chamado Barro Alto, na comunidade de Santa Cruz. Fui estudar a terceira série em diante em Barro Alto e o ensino médio eu fiz em Barra do Mendes. Eram escolas do interior, dos anos 1980, toda a precariedade. O ensino médio eu concluí em Barra do Mendes, numa escola já bem estruturada. Naquela época tinha a possibilidade de fazer contabilidade e magistério, e eu optei pelo magistério. Nunca foi exatamente o sonho, mas isso veio mesmo quando eu cheguei em Brasília e tive a oportunidade de ser aprovado no concurso [para professor da rede pública] e ser nomeado, em 1998. Nunca tive como objetivo, mas foi a oportunidade. Exerci até 2017 com muita satisfação e até hoje me considero um professor. Passei no concurso e fui nomeado para a Escola Classe 21, em Taguatinga, onde trabalhei o primeiro ano em uma turma de ensino especial. Era uma escola que até hoje é uma grande referência, principalmente no ensino de surdos. Foi uma experiência marcante, porque era uma escola que estava no auge da gestão democrática do governo Cristovam [Buarque], tinha uma experiência de gestão maravilhosa. A gente formou uma equipe em que fazíamos de tudo para agradar e para fazer um bom trabalho com os nossos alunos, que eram todos especiais. Aquela experiência foi o que despertou em mim essa coisa do ser professor, do papel do professor e da importância que é o professor na vida de uma comunidade carente e que precisa de apoio. Ali nós fizemos muito além do que é atividade de um professor normal em sala de aula. Era um trabalho com a comunidade. Em 1998 houve a primeira greve e eu já participei com dificuldade, com aqueles medos de iniciante: tinha chegado da roça, tinha um emprego, faziam pressão. Foi num momento muito de disputa. Havia um contexto diferente, porque o governo à época era próximo do Partido dos Trabalhadores, e o sindicato dirigido também em sua maioria por integrantes do Partido dos Trabalhadores. Havia diversos conflitos entre a própria militância, mas eu participei como grevista, como apoiador. Em 1999 teve algum movimento, eu também participei, mas em 2000 veio a eleição da ASEF, a Associação dos Servidores da Fundação Educacional. Foi uma disputa muito grande e ganhamos, eu inclusive fiquei responsável em fazer a campanha no Recanto das Emas. Fiz a campanha a pé, de ônibus ou de bicicleta nas escolas e fui me aproximando do grupo. Em 2001 tive a oportunidade de compor o grupo de oposição à direção sindical, consegui fazer parte da chapa, e ganhamos a eleição. Assumimos em 14 de julho de 2001 a direção do SINPRO. O básico de um sindicato é pensar que a sua primeira razão é a luta pela valorização salarial e condições de trabalho. Isso em qualquer circunstância, com pandemia ou sem pandemia. Em 2020, 2021, nós tivemos uma situação de mudança drástica, e certamente criou e trouxe para os professores e para os alunos das escolas públicas um grande prejuízo, uma grande perda, uma grande defasagem, por mais que tenha tido esforço no seu processo de aprendizagem, de crescimento, que a convivência na escola possibilita. Além de vacina, além de um retorno seguro, é preciso cobrar das autoridades um investimento maciço nos próximos anos em educação, para que a escola, assim que puder ter um retorno tranquilo, possa dar aos professores as condições para oferecer aos alunos uma recuperação digna das perdas que a pandemia trouxe para a atividade de ensino e aprendizagem em sala de aula. Outra coisa que vem me preocupando bastante: há uma grande discussão de que agora o ensino a distância veio para ficar, vai substituir o ensino presencial. Eu acho que estrategicamente o SINPRO não pode perder de vista que o objetivo é ter as condições de retorno às atividades presenciais nas escolas. A continuar desse jeito, legitimando as atividades não presenciais, em breve o próprio governo ou setores mais privatistas da educação vão entrar com outras propostas que aprofundem ainda mais a ausência em sala de aula nas escolas, em [favor] das atividades por videoconferência, internet e outros meios, no sentido de que o professor é virtual e pode ensinar para dezenas, centenas e milhares de alunos ao mesmo tempo.

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