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História

"Errou no passado, vai mudar no presente"

História de: Gabriela
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Gabriela nasceu em Pernambuco, em 1988. É a mais velha de três irmãos. Quando era criança, sua mãe descobriu que o pai tinha uma amante, o que levou à separação do casal. A partir daí, a mãe de Gabriela, que era dona de casa, passou a trabalhar o dia todo, e a responsabilidade de cuidar dos irmãos passou para a filha mais velha, ainda criança. Passados cinco anos da separação, a mãe começou a namorar, e mudou-se para a casa do namorado com os filhos. Porém, com doze anos de idade Gabriela escolheu ficar na antiga casa, sozinha. Um incêndio em sua casa levou-a a ir morar com uma colega. Essa amiga que a acolheu era garota de programa, e, de pouco em pouco, Gabriela também começa a trabalhar com isso. Vendia frutas no farol, e era lá que conhecia seus clientes. Fez programas por alguns anos, sempre com o desejo de mudar de vida. Durante sua segunda gravidez, sua irmã, já ingressa no Projeto, comenta sobre o ViraVida e Gabriela se inscreve. Entra no projeto e, aos poucos, vai mudando de vida. 

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História completa

Me chamo Gabriela, nasci em Pernambuco em 1988. 

 

Na minha casa, era meu pai que sustentava a gente, ele trabalhava numa área de Zona Azul, vendia Zona Azul. Minha mãe não trabalhava, era dona de casa. Quando minha mãe se separou dele eu tinha doze anos de idade. A área de Zona Azul meu pai deixou para ela trabalhar, para sustentar a gente.

 

Meu pai sempre bebia muito e chegava em casa bêbado, muitas vezes. Minha mãe discutia sempre, sabe? Porque tanto ele bebia como ele era infiel à minha mãe. Então, muitas vezes a gente sabia, a gente via, mas tinha medo de contar e o medo deles se separarem. E meu pai vivia muito em compra e venda de roubo. Se alguém chegasse na porta dele, quantas vezes a Polícia arrombou a porta da minha casa, a porta da minha mãe, querendo que ele desse conta da televisão que ele comprou, roubada; querendo que ele desse conta de um celular que ele comprou roubado...

 

Já no caso da amante de meu pai foi o seguinte: ele botou ela para morar numa das casas do meu avô, a gente sem saber que era amante dele. Éramos amigas dela e tudo; hoje em dia ela é mulher de meu pai, mora com ele. Surgiu o comentário e minha mãe descobriu. Minha mãe bateu nela nesse dia, cortou ele com a tesoura, pegou as roupas dele jogou fora. Muito ruim, foi um momento muito difícil.

 

Depois de alguns anos dessa separação, a minha mãe começou a namorar e meu avô, pai de meu pai, pediu a casa, queria porque queria a casa, minha mãe disse: “Olha, a casa é de meus filhos”. Ele: “Não, a casa é minha”. Minha mãe começou a namorar um rapaz, depois de quase cinco anos que ela estava solteira. Esse rapaz fez uma casa para dar a ela, do lado da casa da minha avó, construiu e mobiliou a casa todinha. Deu a casa para ela e eu não quis ir. Eu não queria ir, achava que viver com mãe era viver presa, sabe? Aquele negócio preso? Pensava eu, que a vida era um mar de rosas: “hoje tem, amanhã vai ter; hoje tem comida, amanhã vai ter”. Não tinha. Aí fiquei sozinha na casa de meu avô, a antiga que a gente morava. A casa pegou fogo com nem um mês, por causa de um ventilador. Minha casa pegou fogo, minha mãe foi me buscar, eu fugi e fui morar na casa de uma amiga minha.

 

Nessa época comecei a vender fruta no sinal, depois que comecei a morar com ela, porque tinha que sustentar a casa. Ainda não tinha o pensamento de fazer programa, mas ela fazia. Ela morava até com um coroa na época.

 

Um dia ela me convenceu a ir com ela para o ponto, disse que era bom. Eu fui, foi minha primeira vez. Depois eu não quis mais ir, eu fiquei. Eu cheguei para minha amiga e falei assim: “Ó, eu não gostei, não”, ela: “Por quê?”, “Porque não” “Mas o dinheiro não compensou?”, “Compensou, mas eu não gostei”. Me senti com nojo depois. Depois que eu percebi que fiquei com nojo até de mim mesma. Tomava banho, me limpando todinha.

 

Até então, quando eu comecei, “eu vou voltar a vender de novo as coisas no sinal”. “Tu é muito besta”. Então, quando eu voltei para o sinal que começou. Eu comecei a sair, não era mais aquele ponto fixo. Eu conhecia o cara, tudo, a gente marcava de sair e saia, não era aquele ponto fixo, não. Como eu fiz daquela vez.

 

Sempre foi ruim, na realidade. Nunca foi bom. Eu nunca tive... as minhas amigas sempre vinham dizer: “É bom”, não sei o quê. Nunca tive essa mentalidade, porque eu sabia que aquilo ali que eu estava fazendo não era certo. Porque ali eu estava vendendo o meu corpo para querer uma roupa boa, porque elas tinham roupa boa e eu não tinha. E minha primeira vez, eu me lembro, foi com um velho, horrível, não gosto nem de me lembrar.

 

Eu passei um tempo vendendo fruta e com esse mesmo processo, foi quando a minha irmã também, que era quase o mesmo ritmo que eu, fazia quase a mesma coisa, conheceu o ViraVida. Ela entrou e quando ela entrou ela disse assim: “Gabriela, eu entrei e eu vou fazer de tudo para você entrar também”. Eu disse: “Tá bom”. Foi quando foi acabando o projeto, ela foi e falou com as meninas. 

 

De primeira, eu não consegui entrar, não fui selecionada, não passei pelo processo seletivo. Com cinco meses, teve a desistência de três alunas e, ela me chamou e eu fui. Realmente, mudou a minha vida mesmo porque eu tinha apoio, entendeu? Às vezes, eu estava com algum problema, alguma coisa acontecendo. Me ajudaram, aconselharam a fazer o certo. Foi quando eu esqueci mesmo a vida que eu vivia. Eu passei uma borracha, porque foram coisas que me marcaram muito, pelo o que eu passei a vida me ensinou muita coisa, não é essa maravilha para ninguém. Você vender o seu corpo para ter uma roupa; você vender o seu corpo porque as outras fazem, né? Você fazer uma coisa errada, às vezes não é nem para te satisfazer, era para mostrar para aquelas pessoas que você sabia também, muitas vezes até melhor, entendeu? Então hoje eu vejo que tudo aquilo que eu vivi não valeu a pena. 

 

Eu passei muitos momentos difíceis, depois que eu engravidei e que eu tive o meu filho, eu vi que tinha uma vida que dependia de mim. O quê que eu ia dizer para ele quando ele crescesse? O quê que o pessoal ia dizer a ele? “Tua mãe era garota de programa”, tua mãe era isso, tua mãe era aquilo. Então eu não queria mais isso; eu não queria que ele crescesse sabendo que eu fazia coisa errada. O que eu iria cobrar dele? Se ele depois jogasse na minha cara “o quê que a senhora vai cobrar de mim, uma coisa que a senhora já fez tanto na vida? A senhora já errou tanto na vida então o quê tá cobrando de mim?”. Eu nunca quis escutar essa frase dele, entendeu? E nunca quero escutar. 

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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