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Erra o pênalti, mas não deixa de fazer

História de: Daisson Pimenta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/12/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Daisson Pimenta conta como foi a sua infância e como foi ficar dentro da oficina de seu pai, trabalhando com ele na área de radiodifusão. Relembra como implementou o sistema de rádio na cidade que nasceu, Uberlândia, como foi trabalhar na área de celular, e sempre mexendo com Telecomunicações. Relembra como entrou na Companhia Telefônica do Brasil Central, suas funções dentro da empresa, como aposentou-se e criou uma empresa com suas filhas. Também fala sobre a importância de fazer algo, mesmo podendo errar, ele diz:  “é preferível errar o pênalti do que não fazer”.

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História completa

P/1 - Bom dia, Senhor Daisson, eu queria, por favor, que o senhor dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R - Meu nome completo é Daisson Pimenta, eu nasci em Uberlândia, em 19 de outubro de 47.

 

P/1 - O nome do seu pai e da sua mãe, Senhor Daisson?

 

R - É Alcides Pimenta e Diva Almeida Pimenta.

 

P/1 - Os seus avós, o senhor os conheceu?

 

R - Eu conheci a avó paterna e avô e avó maternos. Avô paterno não tive a oportunidade.

 

P/1 – O senhor lembra do nome deles?

 

R - O avô paterno é Abílio Rodrigues. A avó paterna Maria Pimenta, onde eu puxei o nome. O avô materno é José Romualdo Filho e a avó materna é Dionísia Linhares Correa.

 

P/1 - Os seus avós eram daqui da região, ou vieram de outro lugar?

 

R - Não, meus avós paternos, a origem deles é no sul de Minas, na região ali de São Sebastião do Paraíso, aquele pedaço, Ribeirão Preto, aquela região ali. Eu não sei precisar com exatidão o local de origem deles. Pelo que eu tenho informação, a origem deles é de lá. Já os meus avós maternos, a origem deles é na região oeste de São Paulo, sul do Mato Grosso, alguma coisa por ali.

 

P/1 - O senhor tem ideia do motivo que os fez virem para essa região do Triângulo?

 

R - Pelo que eu sei, os meus avós paternos vieram acompanhando na época a Mogiana, com toda migração que teve do sul para o norte, foi baseado nisso. Depois devem ter achado aqui um local adequado para viver, e vieram parar aqui. O mesmo aconteceu com os meus avós maternos. Pelo que eu sei, o meu avô materno era militar, e depois ele, com esse deslocamento, esteve em algumas revoluções, parece... Ele me falou... Porque eu conheci ele quando... Até quando ele faleceu eu já estava casado. E em comentários, ele já esteve na revolução São Paulo e Minas, esteve em algumas coisas aí. E com essa andança de militar ele veio parar aqui, minha avó sempre a tiracolo, então veio, acabou chegando aqui, e ficou por aqui. Quando eu o conheci, ele era fotógrafo na época. Ele tinha um estúdio fotográfico, aquela caixa fotográfica, onde a pessoa entrava dentro dela e tirava fotografia de cabeça para baixo, eu não sei como ele conseguia fazer aquilo. Mas era aquilo.

 

P/1 - Mas funcionava.

 

R - É o famoso lambe-lambe que tem hoje. 

 

P/1 - Certo. E a atividade de seus pais, qual era?

 

R - Meu pai mexia na área de radiodifusão, na área de oficina de rádio na época, foi onde eu acompanhei, porque eu trabalhei muito tempo com ele. E estou  até hoje mexendo com isso, mas ele toda a vida mexeu na área de radiodifusão, de televisão, oficina de equipamento mesmo.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - Minha mãe é do lar.

 

P/1 - E como é que era essa oficina do seu pai, que lhe encantou tanto que o senhor acabou...

 

R - Não, não é questão de encantamento. Existe aquela ideia que o filho sempre acompanha, acompanha financeiramente, ou acompanha por gosto, o que o pai faz. Então, quando criança, eu sempre estava dentro da oficina dele lá, trabalhando, ajudando a fazer alguma coisa, ele saía, eu ficava tomando conta. E com o tempo a gente aprende, aí pega gosto pela coisa, e vai. Aí depois eu migrei para a área de telecomunicações. Mas até então, até quando eu fui para o exército, eu mexia com isso, com radiodifusão e consertos de aparelhos domésticos, que naquela época ainda compensava consertar, hoje já não compensa. 

 

P/1 - O senhor tem irmãos?

 

R - Tenho.

 

P/1 - São quantos?

 

R - Eu tenho um irmão. 

 

P/1 - Mais velho, mais novo?

 

R - Mais novo. 

 

P/1 - E de algum modo também ligado a essa área?

 

R - É, coincidentemente ou não, meu irmão faz a mesma coisa que eu faço em outra operadora de telecomunicações, que é a extinta Telegoiás, ele trabalha lá já tem mais de vinte anos. Porque ele foi para lá novo também, e ingressou numa empresa de telecomunicações, hoje ele trabalha na área de celular. Quando eu parei, eu trabalhava também na área de celular. Aliás, eu trabalho até hoje na área de celular, só que eu mudei o lado do balcão.

 

P/1 - Como é que era a sua casa de infância, Senhor Daisson, a lembrança que o senhor tem da casa que o senhor morava aqui em Uberlândia, onde era, como era? 

 

R - Bom, a minha infância, eu morei parte da minha infância com meus avós e parte com meus pais. Com meus pais era no bairro Martins, ali na... Deixe eu dar um ponto de referência por ali, perto do Tim, ali na Fernando Vilela, era Travessa Frutal, era uma travessinha estreitinha, que tem ali entre a Avenida Belo Horizonte, e a Avenida Fernando Vilela. A gente tinha... O meu pai morava lá, a gente tinha uma casa lá. Então praticamente toda a minha infância eu fui criado naquele pedaço.

 

P/1 - Como era essa casa? 

 

R - Era uma casa modesta, porque a minha família... Eu não descendo de uma família abastada. Minha família toda é uma família modesta, de pessoas não pobres, mas também não ricas, então uma família que sobrevivia dignamente, não tinha muita mordomia, não tinha coisa de outro mundo. Tinha o básico para sobreviver, e tudo que tinha.

 

P/1 - O senhor seria capaz de descrever essa casa, como ela era, como ela se distribuía?

 

R - Era uma casa que tinha dois quartos, um quarto dos meus pais, um outro quarto meu e do meu irmão, uma sala, uma cozinha, um banheiro, e um depósito onde guardava a coisarada. Naquela época não existia garagem porque todos os carros ficavam na rua mesmo. Então meu pai tinha alguns carros lá. Sempre teve carro velho, mas tinha. Para andar, sair, fazer alguma coisa. 

 

P/1 - E a oficina, ficava onde?

 

R – A oficina ficava na Fernando Vilela, em frente à Rua Grande, que é uma travessa também que tem ali, ficava naquele local essa oficina, onde... Era a dois quarteirões da minha casa. Então eu estudava de manhã, ou quando eu estudava à tarde, sempre meio período era nessa oficina, talvez um pouco da noite também. 

 

P/1 - E o senhor se lembra quando o senhor começou a frequentar essa oficina, quando começou a mexer nas coisas, ou ser autorizado pelo menos a mexer nas coisas?

 

R - Essa autorização não foi autorização, foi uma coisa… Porque moleque não gosta muito de trabalhar, então a gente, às vezes, dava uma escapada, onde hoje é a rodoviária, era um lago, porque naquela região ali nasce um lago, nasce um rio, onde hoje é a Calu, ali é uma nascente de rio, então descia, desce até hoje, só que está canalizado tudo hoje. Mas ali, naquela região onde é a rodoviária hoje era um poço. Então a molecada toda deitava e rolava lá, nadava, se divertia lá, e com isso os pais ficavam um pouco preocupados com essa história, e sempre forçavam a molecada a trabalhar ou a estudar, não tinha meio termo com esse negócio de ficar em casa não. Quando eu tinha em torno de treze anos por aí, foi quando eu me lembro que eu comecei a ser colocado no trabalho mesmo, ou ficava na oficina lá tomando conta enquanto ele saía para fazer alguma coisa ou... E aí você começa a inventar moda, porque menino quando você deixa sozinho, começa a fuçar, e com isso a gente começou a mexer em alguma coisinha, teve um incentivo, eu não sei se era para me manter ocupado, ou se era para eu aprender, ter alguma produtividade. Mas com o tempo a gente começou a mexer. Isso foi em 64, por aí, 63, entre 62 e 65, a época que a gente começou a... Eu lembro perfeitamente que em 64 a gente já trabalhava, já produzia.

 

P/1 - Assumia consertos? Que tipo de consertos eram feitos lá nessa oficina?

 

R - Não, são aqueles rádios 14 bis, como se chama, são rádios todos valvulados, a coisa era completamente diferente do que é hoje. Naquela época ainda compensava reparar aparelho eletrodoméstico. Por sinal, eu posso até fazer um parêntese aqui, recentemente eu andei jogando coisas da minha casa fora porque o conserto não compensa o valor do aparelho. Hoje se você pega uma máquina de fax, pega um aparelho, um televisor qualquer, alguma coisa, não compensa consertar. Naquela época não, naquela época compensava consertar as coisas, porque eram muito caras. Era um bem mesmo. Um aparelho doméstico que você tinha, tipo uma TV, um rádio, alguma coisa, aquilo era considerado um bem mesmo. Então a pessoa tinha um amor por aquilo, e mandava arrumar, e sempre arrumava. Então eram rádios antiquíssimos que... Eu diria na Segunda Guerra ainda. E a gente tinha que reparar, trocar alguns componentes que estragavam, tinha que fazer esse reparo. 

 

P/1 - O senhor chegou a se interessar, por algum tipo de aparelho em especial ou ficar mais dedicado a um ramo especial, para esse tipo de reparo?

 

R - Quando a gente começou a mexer com isso, eu comecei a me interessar mais pela área de... Foi quando começou a sair os musicais, eu comecei a ter algumas ideias de construir amplificadores que esses conjuntos usavam para tocar. E eu consegui fabricar alguns, que na época não tinha como comprar. Então era fabricado artesanalmente mesmo, não tinha uma linha de produção normalizada desse produto. Então cada conjuntinho desses, de bandinha dessas que tem por aí, eles mandavam alguém construir, como se construía um sapato, como se construía alguma coisa, que não tinha nada em série. Então eu me interessei muito por isso aí. Andei fabricando algumas coisas, calculando, projetando, comprava componente, quando não tinha, pedia para São Paulo, por carta. Esse negócio demorava às vezes um mês para vir parar na mão. Mas sempre eu me interessei mais por essa área. Posteriormente, eu comecei a me interessar pela área de radiodifusão. E na época existia a Rádio Educadora de Uberlândia, a Rádio Cultura, que hoje é a Globo Cultura, já existia, a Rádio Difusora, que eu me lembre eram essas três. Tinha uma outra, mas eu não lembro o nome não.

 

P/1 - Mas aí prestava assistência técnica para essas emissoras?

 

R -  É. Prestava assistência técnica para as emissoras. Porque as emissoras na época, elas não eram como as emissoras atuais. As emissoras atuais a única coisa que precisa é por um cachorro lá na porta para não deixar alguém entrar lá para fuçar. Naquela época não, precisava de uma manutenção constante. Tanto a parte de estúdio quanto a parte de transmissão, havia uma necessidade de ter um monitoramento constante, porque corria o risco de queimar componente. Então eu me interessei muito por essa área de radiodifusão. Onde a gente andou dando manutenção em algumas emissoras, a Rádio Difusora, que era uma emissora bem famosa aqui na cidade que era de um ex-prefeito de Uberlândia, Geraldo Ladeira,  a gente andou dando manutenção para a rádio dele. A gente dava manutenção para a Rádio Educadora, a gente dava manutenção para uma rádio emissora lá de Tupaciguara, uma emissora de AM, daqueles Fauze Abdulmassih, é um negócio assim, são uns turcos que tinham lá. Esses tinham um monopólio na cidade, eram dono de cinema, dono de emissora de rádio, uma série de coisas.

 

P/1 - Em Tupaciguara?

R - Em Tupaciguara.

 

P/1 - Nós estamos deixando de lado um pouco da sua formação formal, digamos assim, que é a escola. A sua primeira escola qual foi?

 

R - Até o quarto ano eu estudei no Colégio Rio Branco. Alguém deve lembrar da falecida Dona Carlota. Ela foi minha professora durante muitos anos. Como diz, professora, mãe, batia também, porque naquela época a coisa era um pouquinho diferente de hoje. Eu acho que se mantivesse aquela mesma coisa daquela época hoje em dia não estava essa molecada nessa mesma situação que está aí hoje, porque naquela época aluno apanhava mesmo. Fazia coisa errada, entrava na régua.

 

P/1 - Palmatória, régua?

 

R - Palmatória, régua, batia de tudo. Não tem esse negócio de... Talvez estranha. Mas eu não sei, eu acho que se for pegar, ler perfeitamente esse negócio que criança não pode apanhar, você já deve ter apanhado quando era menino, você lembra muito bem disso, não é? Eu acho que criança ou aprende pela educação ou pela coação. A coação é puro instinto, não vou fazer isso, senão eu levo uma pancada aqui, fica pior. Então a coisa... Eu acho que o caminho é esse. Aí depois fiz o exame de admissão, que na época existia o exame de admissão, aí eu consegui fazer o primeiro grau em um colégio estadual, que é o museu, na época do professor Vadico, que foi meu professor também. Aí posteriormente a isso eu tive que me ingressar no exército, aí eu tive que dar uma parada, porque o exército não permitia manter as duas coisas, as duas atividades, que era escola e exército, porque o índice de falta era enorme. Então eu achei por bem ficar, como diz, dar um tempo, onde... No exército também eu mantive a mesma linha de atuação minha, quando eu me apresentei no exército aqui em Uberlândia, foi em 1964 para 65. Eu faço aniversário no final do ano, então quando você inteira dezessete anos você tem que se alistar. E no ano seguinte você tem que se apresentar. Então eu me apresentei aqui em Uberlândia, inclusive, o comandante daqui pegou, falou: "Não, sua formação profissional não é adequada para você fazer parte do exército aqui em Uberlândia. Então você vai ter que ir para Araguari". Na época estava recém fundado um batalhão lá, porque o batalhão em Araguari foi fundado em 64. Então eu fui encaminhado para lá. Continuei trabalhando na mesma área de radiodifusão. 

 

P/1 - Que batalhão é esse?

 

R - É o batalhão ferroviário. É o segundo batalhão ferroviário de Araguari. Lá era mais voltado para a área de engenharia, que meu perfil mostrava isso. Naquela época eles já tinham esse cuidado para não pegar uma pessoa com uma determinada atividade profissional e distorcer aquilo para uma outra finalidade que não fosse aquela coisa afim da pessoa. Então eu gostei dessa atitude deles, inclusive quando eu fui para lá eu me identifiquei, tudo, e lá, como era um batalhão voltado para a área de engenharia, tinha a área de construção de rodovias, a área de construção de ferrovias, a área de comunicação, tinha todas as áreas disponíveis lá, e todas as pessoas, quando chegavam lá, pelo perfil da pessoa, ela era encaminhada a atividade que ele mais se adequava. No meu caso, foi a área de radiodifusão, o sistema de comunicação do exército, que eu trabalhava lá sob orientação de um major e um sargento. Éramos quatro pessoas que cuidávamos do sistema de comunicação desse batalhão, inclusive, em uma época muito crítica, que eu tive oportunidade de ver algumas coisas no exército, que até hoje isso reflete no meu modo de agir, no modo de pensar, eu não consigo entrar em uma manifestação coletiva. Porque eu vi o que aconteceu em 64, eu tenho lembrança disso, então hoje quando tem alguma... Hoje no meu caso não é mais isso, mas no caso da... Quando eu trabalhava na CTBC, houve algumas manifestações coletivas e eu achei por bem me manter à parte dessa manifestação em função desse trauma que eu vivi... Mas não seria trauma, do que eu pude presenciar, que eu servi o exército em 66. Eu entrei em janeiro de 66. A revolução de 64 aconteceu, você sabe a data. Então tinha um ano de diferença. Então estava tendo aquela caça aos... Como é que eles falavam? Aos subversivos, e aquilo ali a coisa estava pegando. Eu vi muito radialista ser preso, que eu trabalhava no ramo. Em 64 eu vi muito radialista ser preso, eu vi muitas pessoas voltadas nessa área, líderes estudantis, líderes de grupos, uma série de coisas, eu vi eles serem presos, torturados. A coisa fica meio assim, você fica receoso de se meter em uma confusão dessas, embora conhecendo as consequências também, porque as consequências desse negócio eram bem... Então sempre eu tomei esse cuidado.

 

P/1 - O senhor presenciou esses episódios lá em Araguari, enquanto estava no batalhão, ou aqui em Uberlândia?

 

R - Aqui em Uberlândia, em 1964, quando houve aquele quebra-quebra generalizado aqui, eu já tinha idade suficiente para ver o que que estava acontecendo, para perceber. Então eu lembro perfeitamente que foram quebrados todos os cinemas que existiam na cidade, algumas emissoras de rádio foram completamente destruídas. Então a gente pode ver uma série de coisas. Aí depois começou aquela virada de governo, quando os militares assumiram o governo, foi onde resolveram dar um limpa nisso. E aí as partes que mais sofreram consequência dessa história aí foi exatamente as pessoas de comunicação, as pessoas ligadas na área de... Nessa área que mantém contato direto com um grande número de pessoas, que eram líderes estudantis, esse negócio. Eu pude presenciar isso bastante aqui em Uberlândia, inclusive Uberlândia é considerado historicamente o maior foco de comunista que existiu em 64, eu não sei se é verdade, vocês são jornalistas, vocês devem saber melhor do que eu.

 

P/1 - Teve um movimento forte mesmo.

 

R - É, essa região teve isso daí, onde era muito vigiado. 

 

P/1 - E lá em Araguari isso continuou a ser, quer dizer, ainda foi possível observar esse tipo de repressão?

 

R - Não, lá em Araguari eu via as pessoas sendo presas. Inclusive eram presos que ficavam dentro do quartel, que tinha uma ala lá, logicamente não era preso em cela, igual um presidiário, um criminoso. Mas a pessoa era retida dentro do quartel, ele era vigiado até no pensamento dele, até o modo dele agir era vigiado. Então tinha as pessoas que eram presos de gaveta, eles botavam infiltrado no meio dos presos políticos lá, para ver quais eram as pessoas que estavam tendo alguma tendência esquerdista na época. Exatamente esse cara, tiravam ele daquele grupo, ia para outro lugar. Tinha gente que vinha do sul, gente do norte... Eles tinham um procedimento, quando pegava algum subversivo desse aí, ele nunca ficava no local de origem dele, sempre fazia aquela migração, fazia uma troca, pegava o daqui levava para lá, o de lá trazia para cá. Exatamente para evitar o contato de comunicação entre os demais. Então ninguém se conhecia, não tinha como formar... Eles queriam, na realidade, desmanchar aquele grupo. E eles conseguiram fazer isso com essa atitude.

 

P/1 - No quartel o senhor chegou a conversar com essas pessoas, a trocar alguma...?

R - Já. Cheguei a conversar com algumas pessoas.

 

P/1 – Lembra de alguma em especial?

 

R - Não. Assim especial não porque, primeiro que a área que eu trabalhava não tinha muito contato, assim, contato pessoal com as pessoas. Mas eu via as pessoas que estavam detidas, na realidade não era presa, estava detida. Ele não podia sair de dentro do quartel, não podia fazer nada lá dentro sem a autorização de alguém. Como eu trabalhava em uma área de comunicação, então não tinha muito acesso a essas pessoas. Lá, esse grupo que eu te falei, desse major, esse sargento, mais duas pessoas lá, dava manutenção nos transmissores, no sistema de comunicação do exército com o resto do mundo, e que era muito crítico, precisava de uma supervisão 24 horas por dia porque, imagina naquela época um quartel inventar de sair, um sistema de comunicação sair do ar. Aí era meio complicada a coisa.

 

P/1 - Do ponto de vista tecnológico o senhor aprendeu muito lá, utilizando, mexendo nesses equipamentos, ou esses equipamentos eram também defasados?

 

R - Não, os equipamentos, até hoje, toda iniciativa pública eu considero que tem os equipamentos defasados do resto da... Como por exemplo, da iniciativa privada. Dada essa circunstância, quando eu saí do quartel, eu saí do quartel em... Fui em 66, saí no começo de 67, e entrei na CTBC logo que eu saí do quartel. Eu saí de lá e vim trabalhar aqui.

 

P/1 - Essa transição foi uma transição pensada ou foi uma coisa que o senhor já tinha...?

 

R - Isso foi alguma coisa, assim, não foi pensada, mas foi, como se diz, foi mais espontânea, pelo seguinte: quando era para eu me desligar do exército, que eu cumpri minha obrigação militar, tudo, que naquela época era tido como obrigação militar, hoje eu não sei como que a pessoa chama isso, mas eu me senti bem lá dentro. Não tive, em função do que eu fazia, não havia motivo de sofrer punição, de... Eu não era punido por alguma coisa que eu fizesse ou deixasse de fazer, porque lá eu era mais um profissional da área do que um soldado, ou um cabo, alguma coisa assim. Então o relacionamento meu com os superiores era um relacionamento não hierárquico, era um relacionamento mais amigável do que hierárquico. Eu lidava com o major da mesma forma que lidava com um colega meu de trabalho, ele era tido como um colega meu de trabalho, dado o respeito pela idade. Mas na época deu me desligar, eu tive proposta de permanecer no quadro, porque havia uma carência muito grande de pessoal nessa área. Não tinha ninguém que pudesse me substituir na época lá. Aí me deram um prazo para eu pensar, se eu quisesse ficar no exército, ou se eu quisesse sair. Se eu quisesse ficar, eu teria uma promoção, e teria algumas outras coisas lá que seriam boas, e eu podia sair se quisesse também. Aí foi a primeira vez que eu tive que decidir a minha vida sozinho, porque não tinha ninguém para definir se eu faço isso ou se eu faço aquilo. Eu achei que aquilo deveria ser uma decisão minha e não adiantava eu perguntar para a minha mãe, meu avô, meu pai, meu avô tinha sido militar. Eu pensei em perguntar para ele, falei: "Bom, mas não vai adiantar." Isso vai resolver minha vida, não a dele. Vai chegar um e vai falar que eu tenho que ser um militar, porque aquilo é uma coisa bonita. Outro vai falar que eu tenho que seguir minha carreira, continuar estudando, fazer alguma coisa. Então não adiantava. Foi onde eu decidi, resolvi, achei por bem me desligar e seguir para a vida civil mesmo.

 

P/1 – Senhor Daisson, voltando a essa... Quer dizer, o senhor decide finalmente, deixar a corporação militar, e voltar para Uberlândia. 

 

R - Correto.

 

P/1 - Para estudar?

 

R - A princípio sim. Mas aí, como eu já te disse, eu não venho de família abastada, eu venho de família modesta, e qualquer coisa que eu fizesse deveria ser mantido por mim mesmo, porque eu venho de uma época que a pessoa, depois de uma certa idade ela tem que se manter. Tem que manter os vícios, tem que manter o combustível, tem que manter a roupa, tem que sobreviver sozinho. É o que não acontece hoje, por exemplo, eu conheço rapaz aí que vive às custas do pai, está com 28 anos. Eu acho um absurdo uma coisa dessa. Nessa época não, nessa época com uma certa idade a gente já tinha que sobreviver. Pelo menos o básico, comida e lugar de dormir teria em casa, mas o restante teria que ser por sua própria conta. Então eu achei por bem, resolvi trabalhar. Falei: "Bom, vou trabalhar um pouquinho, depois eu vejo o que eu resolvo." Foi onde eu ingressei na CTBC. 

 

P/1 – Como foi essa chegada?

 

R - Naquela época eu tinha um amigo que já trabalhava na CTBC, amigo de infância meu. O nome dele é Cláudio. Ele trabalhou na CTBC também. Ele falou: "Olha, lá está precisando de gente nessa área sua. Só que você vai ter que ver se consegue falar com o Doutor Luiz." Eu falei: "Ué, se tem que conversar com o homem, eu vou conversar com o homem. Como faz para falar com ele?" "Ah, você tem que esperar a hora que ele sair na rua." "Então mas que horas que ele sai na rua." Ele falou: "Não, de vez em quando à tarde ele sai lá do escritório dele, e vai lá na confeitaria Na Hora..." Era um bar que tinha na Afonso Pena ali, entre a... Onde é um banco hoje, não sei qual banco que é ali, se bem que ali é tudo banco (risos). Ele saía para tomar café. "Tudo bem, vou esperar o homem aqui na porta do Cine Regente, a hora que ele sair eu bato um papo com ele." Quando ele saiu, cheguei perto dele, falei o que eu fazia, falei que eu tinha conversado com esse amigo meu, ele pegou e falou: "Mas você sabe fazer mesmo isso?" "Sei." "Então está bom, então você pode começar lá." Falei: "Pois é, mas quando?" "Amanhã cedo, rapaz, sete horas, não me atrasa não, hein?" (risos).

Então começar a trabalhar na CTBC não era igual hoje. Hoje tem que fazer um... Preencher um currículo, tem tanta coisa para fazer, que... Não é como era antigamente, e realmente no dia seguinte eu apareci lá para trabalhar, eu falei: "Bom, agora eu vou trabalhar com quem?" Cheguei, entrei na sala dele, e naquela época não tinha porta na sala dele, ele sentava em um cubiculozinho lá, cheguei, falei com ele: "Onde eu tenho que ir?" Ele me encaminhou para quem eu deveria ser encaminhado. Falou: "Trabalha com esse rapaz aí, faz um teste nele." E eu comecei a fazer teste, testei trinta anos lá (risos). 

 

P/1 - E quem foi a primeira pessoa com quem o senhor conviveu dentro da CTBC, além do Doutor Luiz?

 

R - Foi essa pessoa que cuidava dessa área de, eu não diria de transmissão, seria uma outra área, que é uma área de... Na época não existia rádio, não existia, existia só um sistema semelhante ao rádio, só que andava pela linha física. Era onde a gente instalava os equipamentos nas pontas, e o sinal andava pelos fios. Essa pessoa, a primeira pessoa que eu trabalhei, o nome dela era Leônidas. Era o responsável por essa área lá. 

 

P/1 - E em que consistia o seu trabalho? Esse seu primeiro trabalho no que consistiu? Qual era a sua função específica?

 

R - A função específica era manter esse equipamento funcionando. Quando eu entrei, eu não notei, uma coisa muito diferente do que eu já fazia, porque eu já conhecia algumas coisas. Então como a familiaridade leva você a não estranhar mais, como por exemplo, um computador, você conhece um computador, você pega um computador de última geração, que tem, vamos supor, na Nasa, por exemplo, você vai ver que é um computadorzão grandão, mas você vai ver, aquele negocinho não é bicho de sete cabeças para uma pessoa que já está misturada nessa área. Então comecei a trabalhar lá, comecei a ver alguns documentos de manutenção desses equipamentos, porque na época era tudo reparado em laboratório também, então nós consertávamos isso. Criamos um laboratório lá dentro, e as placas que eram danificadas ou por descarga, descarga elétrica, ou por danos naturais mesmo, a gente reparava ela lá nesse laboratoriozinho, voltava ela para o lugar, e voltava o sistema a funcionar.

 

P/1 - Onde era esse local?

 

R - Quando eu entrei, era na Avenida João Pinheiro, 620. Era a CTBC aqui do Centro, era o prédio pequeno, aquele que tem o mármore preto em volta. O departamento nosso era no final do DG (Distribuidor Geral), da Central 234, que é aquele DG que tem lá no piso, no nível do piso ali, que era o nosso departamento. Posteriormente, ali por questão de espaço, achou-se que não dava mais para ficar esse departamento lá. Aí o Senhor Alexandrino mudou para a Granja Marileusa, o Doutor Luiz mudou para o apartamento que o Senhor Alexandrino morava, e a transmissão... Esse departamento ficou ocupando o apartamento que o Doutor Luiz morava na época, que era no primeiro pavimento... Naquela época não existia aquela escada redonda ali. Existia uma escada do lado, até tem uma portinha lá até hoje, onde é que põe aquele... Aquilo era uma escada reta que subia lá para os apartamentos. Então o apartamento do fundo era onde ficava esses equipamentos. Levamos tudo para lá, montamos tudo direitinho, ficou funcionando lá. Então onde começou a realmente tomar corpo a área que eu diria de transmissão, porque o último nome do sistema foi trasmissão. Mas na época chamava departamento Carrier. Era um departamento, esse nome o Doutor Luiz que criou, porque não existia um nome até então para essa coisa que funcionava lá, que multiplicava a quantidade de linhas interurbanas, que na realidade era um multiplicador de linhas interurbanas. Tinha um par de fio que falava doze pessoas. E com isso sempre construindo linhas ao longo dessas estradas por aí, e a gente indo e botando esse equipamento no local lá, para multiplicar as linhas, onde propiciava um aumento de  capacidade de transmissão de interurbano. 

 

P/1 - Então o senhor acompanhou bastante também essa expansão física mesmo da rede?

 

R - A expansão física na área de transmissão eu acompanhei totalmente. Porque quando eu ingressei na CTBC existiam três equipamentos desse. Existia um daqui para Ribeirão Preto, um daqui para Ituiutaba, um para Barretos, que era um canal só, existiam esses três. Aí depois com a construção de linhas, aí começou a ampliar a quantidade de equipamentos. E quando se lançava a linha física, e o Senhor Alexandrino cuidava pessoalmente dessa parte de lançamento de rede física, e a gente ia posteriormente, botava o equipamento nas pontas e multiplicava essa linha física que ele implantava lá. 

 

P/1 - Fale um pouco do Senhor Alexandrino, Senhor Daisson, o senhor chegou a conviver muito com ele?

 

R - Convivi demais. De uma maneira geral, a família Garcia... Eu convivi muito com eles, foi uma convivência, eu diria hoje, uma convivência estreita, eu não tinha eles como meus patrões. Dado a idade, dado o relacionamento... Está certo que eles tinham aquela parte deles de ser enérgicos. O Senhor Alexandrino era uma pessoa muito enérgica e muito dinâmica. O Senhor Alexandrino, eu não lembro alguma vez que eu fui trabalhar que ele já não estivesse lá. Então ele era aquele primeiro a chegar e o último a sair. Muita gente tinha receio dele. Então como ele mexia com linha física e eu mexia na área de transmissão, nós tivemos a oportunidade de viajar juntos, demais da conta. Então a gente tinha oportunidade de conversar, de trocar ideias, de trocar opiniões. Então eu tive muita oportunidade, tanto ele como o Doutor Luiz Garcia, que a gente teve muito contato, a gente teve a oportunidade de observar a pessoa como ser humano também, não como um patrão. Porque muita gente, às vezes, não gostava do Senhor Alexandrino. Eu falava para alguns colegas meus que não gostavam dele, falava: "Olha, ele é melhor do que o Doutor Luiz. Ele bate, depois passa merthiolate e sopra. Agora o Doutor Luiz não, ele só bate (risos). Então, presta atenção nisso." Porque ele era muito amoroso com as coisas. Tinha hora que ele estava irritado, como qualquer pessoa fica. Se ele está irritado, a melhor coisa é ficar longe dele (risos). Eu via muito entrevero dele com alguns funcionários, que talvez a pessoa... Eu achava que a pessoa estava errada e não tinha como falar. Mas às vezes, pelo nervosismo dele, a coisa ia em uma consequência mais danosa em função de não entendimento. Então, eu acho que... Teve outras pessoas que tiveram a oportunidade de conviver bem com ele, e que teve a mesma opinião minha a respeito. A esposa dele, não tem pessoa melhor de se conviver, é a Dona Maria. Aquela lá eu vou te contar, não tem jeito. Ela era amorosa, ela era toda cheia de coisa. Chegava alguém lá, era tido como praticamente um filho que chegava lá. Ela recebia a gente muito bem na casa deles.

 

P/1 - O Senhor Alexandrino tinha por conta dessa compulsão em estar sempre presente na ampliação de rede… Como era esse trabalho dele lá na frente de combate do negócio?

 

R - O Senhor Alexandrino andava muito, ele vivia procurando locais para implantação do sistema dele. O local que ele via e via uma oportunidade, aí vem o lado dinâmico dele. Ele passava em uma cidade, como nós já passamos juntos em algumas, passava em uma cidade ele via que aquela cidade não tinha telefone, ou que o telefone da cidade era da Prefeitura – que normalmente naquela época quem implantava o sistema telefônico em uma cidade era a Prefeitura – e ele chegava nessa Prefeitura, ou propunha implantar um sistema, ou propunha absorver aquilo ali com a colocação de... Na ampliação da rede, modernização, colocação de sistema interurbano eficiente. Porque até então tinha algumas cidades que tinham um sistema telefônico sozinho. A pessoa se comunicava com o resto do mundo por carta. Então não justificava isso. Só falava dentro da cidade. E ele chegava na cidade e propunha isso. E eu sempre acompanhei algumas viagens dele nessa história, nós tivemos a oportunidade de presenciar a negociação dele com as Prefeituras, com os líderes da localidade, que é Prefeitura, ou é Igreja, alguma coisa assim. Então ele assumia o sistema telefônico daquilo, com alguma promessa de implantar uma rede de interurbano, sempre interligando uma cidade maior. É onde ele conseguiu ampliar a rede dele, se não me engano, se não me falha a memória, até 153 localidades, é uma coisa assim, eu não lembro ao certo a quantidade de localidades que ele conseguiu implantar dentro da área. Eu lembro quando eu entrei, existiam poucas localidades, existia umas dez ou doze localidades.

P/1 - E que tipo de argumento que ele usava quando sentava para negociar com esses líderes, ou com essas lideranças comunitárias?

 

R - Não, ele propunha melhoria no sistema, como realmente ele melhorava o sistema. Algumas localidades aí, que era um sistema manual, que tinha uma telefonista, ficava uma moça lá 24 horas por dia, ele propunha a colocação de uma Central Telefônica, era uma Central modesta, mas colocava um sistema automático lá, que dava mais condição da pessoa fazer aquele serviço telefônico sem muita necessidade de uma telefonista. Ou, se tinha uma mesa de operadora lá, ele colocava uma mesa mais adequada, porque a mesa era fabricada por ele mesmo também, não é? Ele só comprava os equipamentos que agrupavam a mesa. Então era implantado esse sistema. E ele levava uma linha telefônica até lá, uma linha interurbana, para fazer o atendimento, a comunicação externa da cidade.

 

P/1 - O senhor, por exemplo, nunca chegou a comentar com ele: "Poxa, Senhor Alexandrino, essa é uma cidade muito pequena, isso não vai gerar receita, isso pode dar prejuízo para nós." Não havia esse tipo de contra-argumento?

R - Uma vez eu fiz o contrário. Eu sempre passava em uma cidade, eu via que essa cidade não tinha telefone, eu falava: "Gozado, eu passo sempre aqui essa cidade não tem telefone, não tem nada." E um dia eu falei com ele: "Senhor Alexandrino, eu passei por essa cidade aqui, essa cidade não tem telefone." Ele falou: "Vai lá e conversa com o prefeito, se ele topar..." E foi o que eu fiz. Na próxima viagem eu fui lá e conversei com o prefeito, ele concordou. Ele tinha já o equipamento, ele tinha tudo. Aí eu fui, instalei o equipamento na cidade mais próxima, levei até lá, e de lá eu chamei para ele. Falei: "Senhor Alexandrino, já está na cidade aqui, o homem tinha rádio. Então botei para falar. Está aí na linha com o senhor. Quer falar com ele? Está aqui do lado." Foi em Santa Juliana. Santa Juliana é uma cidade que tem para frente de Nova Ponte, mas isso é uma outra história que depois nós vamos chegar lá.

 

P/1 - Mas de todo modo essa expansão foi feita muito no muque, não é?

 

R - É, não havia uma pesquisa de verificação de receita. No custo-benefício não era verificado isso, isso era mais no achismo. Eu acho que telefonia é uma coisa que sem pensar a pessoa pode investir tranquilamente, até hoje, porque senão não estaria tantas empresas aí investindo nessa área. Ele teve a sorte de ver isso há muitos anos atrás, quando constituiu a empresa, teve a sorte de observar isso daí, em algumas viagens ele falava, ele pegava e falava: "Olha, você vai ver que no futuro a comunicação vai movimentar o mundo." Isso ele falava para mim em 1970. Agora, qual é a visão desse velho? Hoje está aí, nós estamos vendo na internet, estamos vendo a Nasdaq, isso é comunicação, é comunicação purinha. Então é uma coisa que a gente tem que observar e tem que lembrar também que a pessoa, quando faz alguma coisa nesse nível aí, ela tem o mérito dela. Então ele não pensava duas vezes. Quando tinha que implantar uma cidade, ele ia lá com o carimbinho dele e pronto. Não tinha o que tem hoje, fazer uma pesquisa, fazer todo esse negócio, eu acho que isso perde tempo. É uma coisa que ele sempre falava também, que eu sempre, assim, eu era inimigo de papel. Ele falava: "Seu moço, papel não faz telefone funcionar não, viu?" Então a gente vê certas coisas que, algum tempo atrás quando a empresa começou a entrar naquele sistema de qualidade, de ter relatório para isso, relatório para aquilo, relatório para aquilo outro, eu via que a empresa estava perdendo a rotatividade, estava perdendo a principal virtude dela, que era fazer e anotar depois. Vamos fazer uma casa, faz a casa, depois nós fazemos o projeto, porque está pronto, fica mais fácil. Agora, se for fazer o projeto, aprovar esse projeto, vamos fazer isso, fazer aquilo outro, aquilo outro, aí já foi o outro lá e já pôs lá no lugar e já está funcionando. Eu vi isso recentemente, uma história parecida com essa. E que se fosse CTBC eu tenho certeza que não teria acontecido isso. Então é onde a gente observa algumas coisas dessas, que ele fazia isso no instinto mesmo, é aquele instinto, ou a visão, não sei, se é visão ou se é instinto, o que é, só sei que ele ia lá e fazia e dava certo.

 

P/1 - Ele tinha essa tendência de entender a comunicação como um serviço público, quer dizer, ele tinha essa intenção de fazer com que a telefonia aproximasse pessoas e gerasse negócios, isso era uma coisa clara na cabeça dele?

 

R - Era. Era tanto, porque na época eu lembro que existia daqui para São Paulo somente um canal. E para fazer um interurbano de Uberlândia à São Paulo demorava-se horas, ou dias. Então a pessoa... Tem até aquele negócio, quando a pessoa se veste mais adequadamente, a pessoa... Tem aquele gracejo: vai telefonar para São Paulo, vai fazer exame. Então, o que acontecia na época? Acontecia na época que falar em São Paulo era um trunfo. Aí ele resolveu, na época a empresa que existia no Estado de São Paulo era a CTB, Companhia Telefônica Brasileira, e tinha uma rede de Ribeirão Preto para São Paulo que tinha doze canais, de Ribeirão Preto até São Paulo, atendendo aquele eixo da Anhanguera todinho ali. Ele resolveu levar uma linha física saindo de Uberlândia para Ribeirão Preto. E foi, só que ele esqueceu Ribeirão Preto, e foi passando, foi embora. Se eles não brecam o velho, ele chegava com essa linha lá em São Paulo. Aí deram uma brecadinha, pegou e falou: "Não, do jeito que está lá não pode ficar. A coisa está horrorosa." Se a estrada de ferro, a Mogiana, era um canal de transporte que existia, o maior canal de transporte que existia entre norte e sul, porque tudo passava por aqui, porque comunicação não podia passar também? Ele tinha essa visão também. Então comunicação tinha que ser daqui distribuído para os demais pontos. Se tinha uma estrada de ferro chegando aqui, ele achava que comunicação deveria chegar aqui e não parar em Ribeirão. Como ele estava tendo dificuldade em conseguir canais em Ribeirão para fazer interligação com São Paulo, falou: "Então vou levar a linha física até São Paulo. Levar até na porta do freguês lá. Eu quero ver o que vai acontecer." Foi aí que eles acharam por bem parar eles lá em Ribeirão Preto. Falaram: "Não, nós vamos te ceder os canais." Aí Uberlândia começou a possuir seis canais para São Paulo direto, e o restante para Ribeirão Preto, que era um equipamento, como eu te falei, de doze canais. Aí tinha uma distribuição de canais na região da Alta Mogiana, para onde era distribuído esses canais, mas Uberlândia passou a ter seis canais direto com São Paulo.

 

P/1 - Aí o tempo de...

 

R - Aí o tempo de espera reduziu violentamente. 

 

P/1 - Mas ainda tinha espera?

 

R - Tinha. Ainda havia espera, porque quando a pessoa se apoderava de um canal, ele fazia tudo que tinha direito naquele canal, porque sabia que se tivesse que fazer nova chamada talvez corria o risco de ser demorado. As chamadas interurbanas não eram como é hoje, você fala um dois minutos e desliga. Naquela época não, a pessoa falava até uma hora em um canal. 

 

P/1 - Uma hora?

R - Pagava caro, mas falava, resolvia o problema. Porque daqui a São Paulo era o caos na época, seguramente você gastava dois dias. 

 

P/1 - E a qualidade da transmissão, melhorou?

 

R - A qualidade da transmissão, considerando que era uma transmissão analógica, era uma transmissão, como diz, não atendia dados, isso eu sei, mas atendia voz. Então dava para se conversar perfeitamente entre os interlocutores. Dava para se entender, dada a característica de equipamento da época, era razoável.

 

P/1 - Isso teve um impacto na vida econômica da cidade, não é?

 

R - Teve, é lógico que teve. Porque isso evoluiu bastante o sistema de comunicação, aí Uberlândia, na área de comunicações, se tornou um pólo de comunicações, onde todas as cidades aí passaram a se interessar a ter uma conexão em Uberlândia exatamente por isso, porque aí havia uma conexão para São Paulo, para Belo Horizonte, para algum, para esses locais por aí, que até então não havia. A pessoa ficava completamente ilhada. Ou falava por carta, ou não falava. 

 

P/1 - Veja se o meu raciocínio está correto: então você cria uma possibilidade de atender uma demanda maior, a tendência é que essa demanda aumente. E aí você acaba sobrecarregando aquele sistema que você havia implantado para atender aquela demanda que já não é mais daquela dimensão. Como isso era resolvido, como isso se deu nessa época?

R - Na época, quando começava a, como diz, a demanda, quando o tráfego estava estrangulado, que se falava, a primeira iniciativa era comprar equipamentos capazes de duplicar, porque em telefonia você não consegue passar de dez para onze. Ou você passa de dez para vinte, ou de vinte para quarenta, e assim por diante. Tanto, até hoje, a mesma coisa, você não consegue... Você sempre consegue duplicar, você não consegue fazer uma coisa diferente do que duplicar a capacidade. Então, na época, quando ficava esse tráfego estrangulado, tinha que se comprar equipamento. Aí a CTBC já era uma empresa que já detinha um certo conceito junto à sociedade, junto à indústria, junto a uma série de fabricantes, o próprio governo. Porque ela tinha mais agilidade de expansão do que o sistema. Porque o sistema dependia de ministro, dependia de militar, dependia de político, dependia de uma série de fatores para atender àquela demanda. Já a CTBC não, era uma empresa puramente financeira, ela tinha o interesse em ganhar dinheiro, estando dando dinheiro, está ótimo. Então ela tinha muito mais facilidade de expandir a planta do que as demais empresas, foi onde ela teve como trunfo a expansão dela, e exatamente a agilidade. Foi uma das primeiras empresas que eu conheço que implantou uma rede de rádio totalmente transistorizada. Inclusive saiu nos jornais americanos, nos outros jornais: "O Brasil implanta uma rede de rádio, o primeiro sistema em estado sólido na selva do Brasil." Era daqui até Patos de Minas. Não sei onde é que tinha essa selva (risos). Saiu nesse jornal. Eu falei: "Bom, só se alguém fez alguma selva aí." (risos)

 

P/1 - Que ano foi isso, Senhor Daisson?

 

R - Essa implantação se iniciou em 1970 e terminou por volta de 73, por aí.

 

P/1 - O senhor esteve envolvido nela?

R - Completamente. Eu era uma das pessoas, inclusive eu aprendi a dirigir envolvido nessa rede. Aí que vira, o relacionamento já não era tanto com o Senhor Alexandrino, porque o Senhor Alexandrino era mais ligado à rede física, esse equipamento Carrier. Foi onde foi introduzido na CTBC a primeira rota de rádio em estado sólido. Eu falei: "Opa, vou entrar nessa também, gostei."

 

P/1 - Finalmente, o senhor volta às origens?

 

R - Não, esse outro equipamento de transmissão era basicamente a mesma coisa, só que aí, quando começou o colocar sistema via rádio na CTBC, eu falei: "Não, aí está dentro do meu perfil." Isso já era de dentro do nosso departamento. Estava tudo lá dentro, só que aí teve alguns grupos, algumas pessoas, porque aí já existia mais pessoas lá dentro, só que existiam algumas pessoas que foram se familiarizando mais com o sistema Carrier. Eu trabalhava no sistema Carrier também. Eu, como me familiarizava mais com o sistema de transmissão rádio, conhecia já alguma coisa de rádio, eu achei por bem ir para a área de transmissão via rádio. Aí o relacionamento já não era com o Senhor Alexandrino, já era com o Doutor Luiz, porque ele que resolveu implantar essa rota aí. 

 

P/1 – Gostaria que o senhor contasse um pouco mais detalhadamente como é que foi essa implantação dessa rede de rádio, de transmissão via rádio entre Uberlândia e Patos de Minas, como o senhor se envolveu nisso e que resultados isso gerou.

 

R – Na época foi feito um contrato com uma empresa, a empresa chamava Standard Elétrica, é uma empresa do Grupo ETT dos Estados Unidos.

 

P/1 – Nós estamos falando em que ano?

 

R – Nós estamos falando entre setenta e 74. Porque, como eu havia falado, eu entrei em 67, durante esses três anos eu trabalhei nessa área de Carrier. Aí em 1970 foi quando começou-se a implantar o sistema de rádio daqui para Patos, eu comecei a participar mais diretamente nessa área. Então quem cuidava disso era o Doutor Luiz Garcia. Aí o que ocorre? Eles vislumbraram o mercado de telecomunicações que abrangia Nova Ponte, Patrocínio, Patos de Minas, Carmo do Paranaíba, que eram cidades que já tinham, como eu havia falado, já  tinham as Centrais Telefônicas implantadas, tinham tudo, o sistema de comunicação interno na cidade estava atendido. Porém, não havia na época um sistema de comunicação externo. Não tinha como falar em lugar nenhum. Então decidiu-se, acredito que foi o Doutor Luiz que resolveu fazer isso. Inclusive ele, quando ele fez isso, o Senhor Alexandrino não estava muito satisfeito com essa ideia, ele achava por bem botar uma rede física daqui até lá e ele achou por bem colocar um sistema rádio. Foi implantado uma série de torres entre Uberlândia e Patos de Minas, que era uma torre aqui, onde é a Algar hoje, lá na época não tinha absolutamente nada, era só uma casinhola e uma torre do lado, nessa época. Não tinha absolutamente nada lá. E um cercado, com cerca de arame, aquele terreno todo lá. Na época esses terrenos eram doados pela Prefeitura. Então para você ir lá você andava estrada de terra um bocadão. Não tinha nada. E a outra torre era em Indianópolis, tinha uma torre em Nova Ponte, uma outra torre em Pedrinópolis, outra torre em Patrocínio, outra torre em Patos de Minas e outra torre em Carmo do Paranaíba. São essas as estações que foram a primeira rota de rádio transistorizada. Que eles haviam já comprado alguns outros rádios, mas eram rádios monocanais, valvulado, então é uma coisa bem mais antiga, fabricação da Telefunken.

 

P/1 - Que distância isso cobria, de Carmo até Uberlândia, que distância de cobertura?

 

R - Não, de cobertura como?

P/1 - De cobertura não. Qual é a distância entre Patos e Uberlândia, dessa ligação?

 

 R - Nessa época a gente não falava a distância em quilômetros, a gente falava a distância em tempo. Porque dependia do tempo, se estava chovendo, se não estava chovendo, ou se o cara que mexia com a barca de atravessar o rio tinha tempo de fazer isso a tempo (risos). A coisa era um pouco diferente, porque hoje se fala as coisas tudo em distância em quilômetro. Quando fala em quilômetro a pessoa logicamente relaciona com uma determinada velocidade e consegue chegar em um tempo. Mas na época não, na época houve casos da gente gastar às vezes um dia para ir daqui à Indianópolis, que é uma cidade a sessenta quilômetros daqui. Se bem que não existia essa estrada que sai ali, Romaria, Monte Carmelo, essa estrada não existia não. A estrada que existia era uma estrada de terra que começava na [Rua] Floriano Peixoto ali, no antigo posto do Neca, onde hoje é o posto Marquez, é na Floriano Peixoto, perto do Colégio José Inácio ali, dali para frente já era estrada e terra. Não tinha mais a mordomia de asfalto não. Então você saía dali, para você chegar no Posto da Matinha, você já estava viajando há muito tempo.  

 

P/1 - A opção por essa transmissão via rádio se deu por que? Por uma questão de custo, agilidade, como é?

 

R - Não, por questão que não existia estrada, porque se houvesse alguma estrada, alguma rodovia já definida, seria mais fácil a implantação de uma rede física. Mas como não existia estrada, então o negócio teria que ser via rádio. Foi onde o Doutor Luiz viu a única alternativa de saída até lá, que seria por um sistema rádio, que ele atenderia uma maior quantidade de localidades, a um custo menor e tempo menor também. Porque não existiam estradas disponíveis na época, principalmente para essa região. Foi onde implementaram essas torres. Logicamente vieram... Veio o pessoal, os técnicos, na época, da ITT, porque nós não tínhamos ainda conhecimento de fazer esses cálculos de rádio enlace, não existia cultura de comunicação via rádio. 

 

P/1 - Cálculos de que, desculpe?

 

R - De rádio enlace.

 

P/1 - Ah, rádio enlace.

 

R - É, não existia cultura de transmissão por rádio. Nós começamos a aprender isso nessa época, a calcular um enlace rádio que deveria ter para falar com uma qualidade aceitável, não é? 

 

P/1 - E havia alguma coisa similar no Brasil, pelo menos no interior do Brasil nessa época? 

 

R - Não. A única coisa que existia era Novacap, na época, que era uma rota de rádio que foi implantada antes da Embratel, a Novacap que originou a Embratel. Eram rádios valvulados. A rota de rádio já existia, porém rádios completamente em estado sólido, esse foi o primeiro. 

 

P/1 - E quando isso começou a operar, o que isso significou?

 

R - Isso foi praticamente um marco dentro da CTBC, foi quando mudou-se o perfil que até então era sempre amarrado na linha física, sempre amarrado no sistema Carrier. Quando esse sistema virou realidade, ele demorou um bocado, que teve alguns problemas de energia, começou energia, começou problema no próprio equipamento mesmo, erro de projeto, algumas coisas que ajudaram a demorar bastante esse sistema. Mas quando esse sistema se tornou realidade, ele virou basicamente uma política dentro da empresa, uma vez que o atendimento era extremamente rápido e era seguro, porque não tinha vandalismo, porque... Fala que hoje ainda há roubo de fios, lá naquela época também existia. E as redes naquela época eram todas de cobre, então era dinheiro ao vivo para a pessoa que roubasse linha. Eu lembro perfeitamente quando roubava quilômetros de linha, o Senhor Alexandrino via aquilo e ficava irado com aquilo, não pelo preço que a pessoa vendia aquela linha, é pelo que ele deixava de atender. Às vezes ficava uma pessoa doente, alguma coisa, ele ficava... Ele tomava muito cuidado com isso. Ele achava que era uma injustiça a pessoa ir lá e fazer isso, e às vezes se quisesse aquele fio ia lá e ele dava o fio de presente para o cara, mas deixa aquele fio quieto lá. Mas a pessoa... Ladrão é ladrão, então sempre havia roubo. E com essa implantação do sistema rádio percebeu-se que com esse sistema de transmissão a empresa teria um maior ganho, o tempo de paralisação era menor e a capacidade de transmissão era maior. Então eles adotaram esse sistema de transmissão via rádio.

 

P/1 - Frente a essas dificuldades que o senhor relatou, erro de projeto, energia e tudo o mais, como o Doutor Luiz, que foi o grande animador de tudo isso se comportava, como ele fazia  nesses momentos?

 

R - O Doutor Luiz, pela formação dele – a formação dele é na área de engenharia – pela formação dele ele compreendia os problemas, porque aí na época nós passamos a operar essa planta. E a gente saía e chegava em uma estação, por que tinha parado? Falta de energia porque caiu uma faísca, queimou um transformador, desligou um fusível, então tinha uma série de coisas que envolvia para manter esse sistema no ar. E aí como consequência disso, como aumentou-se a capacidade de transmissão, a capacidade de canais e uma rota de rádio simples, a responsabilidade, consequentemente, aumentou violentamente. Então praticamente a gente vivia andando nessa rota de rádio, andando para lá e para cá para ver onde tinha problema de energia, para dar um jeito no motor, aonde ia ter problema de energia, quando ia chover para ver sistema de proteção, de fusível, de tudo, se estava tudo arrumadinho. Então tinha uma série de precauções que tinham que ser tomadas, porque aí já era uma população muito maior sob responsabilidade de uma rota de rádio só. Então seria Carmo do Paranaíba, Patos de Minas, Patrocínio, Nova Ponte, eram cinco cidades que estavam penduradas ao longo dessa rota. Então se parasse, o primeiro enlace se parasse, o resto ficava fora do ar, sem comunicação. Então tinha que tomar bastante cuidado com esse sistema, porque se ele interrompesse o dano dele seria bem maior.

 

P/1 - Ainda assim a manutenção era mais simples do que a linha física propriamente dita?

 

R - Era. A manutenção em um sistema desses era mais simples, se bem que exigia pessoa mais qualificada para dar essa manutenção. Aí já não era mais, como falava, peão de rede, para dar manutenção em um equipamento desse. Houve a necessidade de alguns instrumentos, de algumas coisas aí, foi quando o Doutor Luiz fez uma viagem ao Japão e andou trazendo algumas coisas de lá que ajudaram a gente trabalhar. Porque quando ele saía para viajar ele sempre perguntava se estava precisando de alguma coisa. Eu não sei se ele faz isso hoje ainda, mas na época, quando ele saía em uma viagem ao exterior, ele perguntava: "Olha, estou indo em tal lugar, existe alguma coisa que vai precisar de lá, que a gente possa trazer?" Sempre a gente falava: "Olha, está precisando disso, disso, componente, de instrumento, alguma coisa." Então são coisas que auxiliam no dia a dia. E ele, como parte integrante desse processo, ele se sentia na obrigação também de ajudar, de participar, como ele participava. Ele participava bastante nesse processo.

   

P/1 - Agora eu quero fazer uma pergunta mais do cunho pessoal do que exatamente do profissional: envolvido em uma operação como essa, de montar uma rede de transmissão como essa, sabendo que é um trabalho pioneiro, aí você vê aquele negócio operando. O que passa na cabeça do técnico, da pessoa: "O negócio funcionou!" O que passava na sua cabeça nesse momento?

 

R - Olha, eu vou te falar Luiz, isso é uma coisa que a gente se sente orgulhoso não só nessa época. Qualquer coisa que aconteça que venha a ser realidade, como por exemplo, a primeira rota de rádio funcionando, a primeira rota de microondas funcionando, o primeiro telefone celular funcionando – que a Cleide lembra disso, presenciou – o primeiro sistema digital, a primeira fibra ótica. Então sempre é um motivo, intimamente a gente tem uma satisfação enorme de ver que esse trabalho você teve... Não teve, assim, 100%, mas teve a sua pequena participação que auxiliou nisso. Porque existe a ideia do grupo da CTBC, por ser a primeira em muita coisa por aí. Que eu me lembre, a CTBC foi a primeira em muitas coisas que posteriormente a gente pode até comentar. Mas o orgulho é sempre grande. Não é coisa da gente, eu não tenho benefício nenhum com isso, não tive ganho financeiro com isso, mas a gente se sente satisfeito de ter obrigação cumprida. É aquele orgulho de falar: "Eu ajudei a pôr tijolo nessa construção." Então a gente se sente realizado.

 

P/1 - Como foi a evolução da transmissão de rádio para a transmissão por microondas?

 

R - Bom, como eu te falei, depois adotou-se um procedimento de algumas localidades serem atendidas por rádio. Então passaram a ter algumas regiões no interior de São Paulo, aqui na própria região mesmo, algumas outras localidades serem atendidas. Quando não era rádio multicanal, era rádio monocanal. Aí já existia o rádio monocanal transistorizado também. Aí o Doutor Luiz gostou tanto que acabou comprando uma fábrica de rádio. É aquela história, não é? Isso aí tem uma outra passagem depois. Aí construiu-se a primeira rota de microondas, que era uma rota de microondas daqui para Ituiutaba. Como nós já estávamos familiarizados com transmissão via rádio, que é baixa capacidade, que na época era considerado alta capacidade, depois virou baixa capacidade. Aí surgiu o microondas, nós colocamos uma rota de microondas daqui para Ituiutaba. Nós participamos dessa instalação também. Então aí a gente começava a ver aquela outra rota como o patinho feio, mas era responsabilidade da gente, tinha que cuidar das duas coisas. Aí a gente implantou uma série de rede de microondas, aí depois saiu com uma rede para Frutal. Depois a gente implantou uma rede entre Ituiutaba e Santa Vitória, tudo em microondas. Aí já não era mais 24 canais ou sessenta canais. Aí já eram novecentos canais, mais um canal de televisão. Aí, então, era uma coisa bem mais sofisticada do que o sistema até então. Qualidade de transmissão bem melhor.

 

P/1 - Aí já se poderia falar em telecomunicações mesmo?

 

R - Aí poderia, porque aí já estava baseado em alguns procedimentos, no sistema Telebrás. Então tinha a quantidade de tempo que podia ficar parado o sistema, já tinha uma regra, uma regulamentação desse sistema. Então a coisa já começou a tomar o lado mais profissional, porque até então não. Até então, uma rota dessa parava, tinha que sair para arrumar, como você perguntou a distância. É o que a gente falava. Nós já tivemos a oportunidade de gastar um dia para andar sessenta quilômetros, como chegava lá, não era lá, era na estação seguinte (risos). Então era aquela confusão, mas naquela época não tinha nada que regulamentasse, que exigia que esse sistema deveria ficar em um determinado tempo inoperante. A única coisa que tinha era a reclamação dos prefeitos, dos líderes, falar: "Não gente, vamos dar mais manutenção." Aí a gente tinha que explicar para a pessoa que aquilo não foi culpa da gente, que aquilo foi uma faísca que caiu que andou queimando muita coisa lá, que nós demoramos pra chegar lá porque não tinha acesso. Era ponte que caía, acontecia de tudo (risos). 

 

P/1 - Que caso é esse que o senhor queria relatar sobre a fábrica de rádio?

 

R - Não, com essa implantação dessas redes de rádio, aí o Doutor Luiz achou por bem comprar uma fábrica de equipamentos. Foi onde ele criou a... Ele se associou a um grupo italiano e eles fundaram uma empresa de... Ele comprou uma fábrica de rádio lá Belo Horizonte, onde o grupo passou a produzir também os equipamentos de rádio que eram utilizados pela CTBC e pelo mercado nacional, porque até então existia só um fabricante no Brasil. Então ele resolveu comprar essa para produzir esse rádio. E depois de algum tempo ele achou por bem nacionalizar também esse rádio. Então foi uma coisa muito dinâmica que aconteceu em Contagem, dado ao gosto que ele teve. Acredito eu que ele gostou tanto desse sistema de transmissão que ele se meteu na área da indústria também, para fabricar esse equipamento, porque a demanda era tanta, que aí começaram: fazendeiros a querer um sistema de comunicação, começou as pequenas localidades, em vez de ter uma central telefônica, cada um ter um rádio lá que propiciava um sistema de comunicação com a cidade, que é a telefonia rural, não a que foi implantada. 

 

P/1 - Esses equipamentos produzidos eram de boa qualidade, como é que chamava a fábrica?

 

R - ABC Italtel.

 

P/1 - Eram de boa qualidade esses equipamentos?

 

R - É, o rádio, o projeto original dele era um rádio de origem italiana. Já era um rádio que já tinha uma, como diz, já tinha hora de vôo. Então era um rádio que simplesmente deixou de ser... Não é que deixou de ser fabricado lá, ele passou a ser fabricado aqui também, onde começou a ser distribuído para o mercado nacional esse rádio. Era um rádio de boa qualidade, não era um rádio, como diz, de fundo de quintal. Era uma indústria séria. Então foi onde eles resolveram produzir esse tipo de equipamento lá. 

 

P/1 - Como é que se deu a transição do microondas e do analógico para o digital, como foi essa passagem?

 

R - Como eu te falei, a CTBC toda a vida teve o hábito de ser a primeira em tudo. O primeiro enlace digital foi a CTBC que implantou, o primeiro enlace óptico a CTBC implantou, até que veio o ministro aqui para ver esse sistema no ar funcionando. O primeiro sistema de fibra óptica interurbano, a CTBC implantou. Então teve uma série de coisas que a CTBC foi a pioneira nessa área. Por ser uma empresa privada, ela podia correr o risco de errar. Aí não precisava escutar de ninguém, uma estatal tinha que ter certeza que aquilo estava redondinho para depois pôr no ar. Já aqui não, aqui, por ser uma empresa privada, podia errar sem ser penalizado por esse erro. Porque ele não tinha que responder a ministro, não tinha que responder para ninguém. Não funcionou, não funcionou, paciência, vamos ver onde é que está o erro. Então acho que aqui foi basicamente um laboratório na área de telecomunicações, porque aí começou toda a indústria nacional, começou a tomar gosto. Como eu trabalhava nessa área, eu tive um cargo de gerência dentro da área que eu trabalhava, sempre tinha indústria que me ligava e falava: "Olha, eu estou com um equipamento assim, assim. Tem como a gente colocar aí para experimentar, ver se está funcionando direitinho, vocês fazerem as modificações necessárias, alguma coisa assim?" Eu falava: "Tudo bem, manda para cá." Sempre implantavam sistemas, os protótipos implantavam aqui na região. Então isso com apoio da própria CTBC, falava: "Olha, isso é um experimento. Então se der errado, a gente vai ter que ver o que está errado, orientar a indústria para ver o que eles podem corrigir nisso daí." E sempre fazia, sempre, quando dava problema, vinha a indústria, corrigia o que estava dando de errado, porque eles sabiam fazer equipamento, mas operar telecomunicações eles não sabiam. Estando com um equipamento desse funcionando na planta, podia-se observar onde é que era o ponto crítico dele, onde ele tinha problemas de temperatura, de energia, de uma série de coisas que envolvia, de proteção propriamente dita, onde é que ficava o ponto crítico desse equipamento.

 

P/1 - Coisas que só a operação era capaz de revelar, não é?

 

R - Na operação é capaz de revelar. Porque no laboratório não era. Não tinha como você, aliás eu acho que para toda indústria, a automotiva, de telecomunicações, mecânica, de usina, qualquer coisa, eu acho que há necessidade de um teste, de um trying. Quer ver um carro a quatro rodas, não faz um teste em um carro andando trinta mil quilômetros no carro, depois não desmonta ele inteiro, para ver onde é que pegou? Eu acho que a indústria também tem que fazer isso, porque senão não sai um equipamento de boa qualidade. Pega um aparelho celular, por exemplo, eu conheci um teste da Motorola de aparelho celular que ficava o dia inteiro dando pancada no chão. Tinha uma molinha que suspendia e soltava: tum. Para ver o equipamento, se ele resistia a pancadas e quantas pancadas e, quando estragava, o que estragava dentro dele, para eles corrigirem exatamente aquilo que estragava. Então era feito isso, tem que ser feito isso. 

 

P/1 - Me diga uma coisa: essa sua presença constante na linha de frente, digamos assim, da expansão das novas tecnologias de transmissão, nessas viagens, nesses deslocamentos, acabava encontrando cliente, não é? Qual era a resposta que isso acabava tendo de um trabalho que era um trabalho, enfim, puramente técnico? Que tipo de resposta o senhor ouvia, que tipo de reação que o senhor buscava ou achava nessas viagens?

 

R - Você fala nessas andanças aí, atendendo essas manutenções desses equipamentos?

 

P/1 - É.

 

R - É, existe aquele cliente oportunista, existe aquele cliente que não tem noção do que ele está falando e existe o político. Então quando se pega o político, dependendo da situação dele, ele vai querer sempre criticar alguma coisa. Político, ele critica, sempre que ele tem uma oportunidade, ele critica alguma coisa, acha que está errado, mas ele não dá solução. Porque criticar é uma coisa muito fácil. Eu posso achar sua camisa feia, mas eu poderia também dizer qual a camisa que você poderia vestir que ficasse boa. Político sempre tem o hábito de achar que está feio, mas ele não tem uma solução. Então espera lá, não é bem esse caminho. Tem aquele cliente que não tem conhecimento do que está acontecendo, ele acha que tudo tem que funcionar às mil maravilhas. Então o relacionamento era um relacionamento bem heterogêneo, não era uniforme as reclamações. Às vezes a gente estava em um hotel, chegava alguém: "Quem que é da CTBC?" "Sou eu, por que?" "Porque está acontecendo isso, isso e isso no meu telefone, assim, assim, assim". Eu sempre procurava descobrir o que estava acontecendo, procurava dar a resposta para a pessoa, que eu acho que a pessoa não deve ficar sem a resposta. Aí quando eu percebia que a pessoa era pouco informada, a gente procurava pegar um currículo da empresa, aquele folder que o Celso produzia na época, colocava esse folder na mão da pessoa, falava: "Olha, a empresa é isso, tem essa área, tem essa área. Como você quer reclamar isso, você tem que se dirigir a essa pessoa." Como a gente estava lá, a pessoa às vezes reclamava do aparelho dele que não estava funcionando. Não era a minha área. E se eu falasse que não era a minha área, o cara ficava achando que não tinha recebido atenção adequada, porque no final das contas a gente estava com o crachá da empresa pregado. Então achava sempre por bem, a gente tentava resolver o problema, ou punha ele em contato com alguém, dava um jeito de resolver a situação. Sem resposta a pessoa não podia ficar.

 

P/1 - Como é que foi o final dessa trajetória, quer dizer, o senhor ficou na CTBC durante todo esse tempo, ajudou a implantação desses sistemas de transmissão e foi até o celular? Até o celular o senhor estava?

 

R - Fui até o celular.

 

P/1 - Quando se implantou o celular?

 

R - Como eu te falei eu sempre procurei me manter, não por... Como é que seria o termo? Para contar vantagem, para isso não. Acontece que eu me interessava realmente. Quando migrou da tecnologia de rádio para microondas eu acompanhei, quando do microondas para o digital eu acompanhei, do sistema digital de alta capacidade eu tive oportunidade de acompanhar, a rede óptica também. Aí quando saiu o sistema celular, isso já tem bem menos tempo, foi em 94, 95, por aí, criou-se um grupo de trabalho. Na realidade não existia nada definido para celular. Foi criado um grupo de trabalho, inclusive quem criou isso foi o Luiz Alexandre. Ele que propôs um grupo de trabalho que atendesse a área de celular. E eu fui içado, eu fui praticamente capturado para participar desse grupo de trabalho. E foi uma coisa que logicamente chegaram perto de mim e perguntaram o que eu achava de participar desse grupo de trabalho de celular. Eu falei: "Ué, para mim é uma honra, porque eu gosto disso daí também." Então eu participei do projeto na fase um, que é implantação de Uberlândia, Uberaba e Franca. Trabalhamos alguns sábados aí para colocar o projeto bonitinho, inclusive para enviar o projeto para o Ministério na época, não era a Anatel ainda, era o Ministério das Comunicações. Nós fizemos praticamente o projeto inteiro atendendo às especificações do Ministério, porque nós fomos em Brasília, pegamos o procedimento completo que teria que ser para obter a outorga para operar telefonia celular. E fizemos o projeto inteirinho, um calhamaço de folha para atender esse objetivo. Encaminhamos o projeto para Brasília, logicamente com a aprovação da diretoria. Até a época não existia um diretor específico para a área de celular. Eles tinham uma diretoria técnica. Apresentamos a documentação para a diretoria, eles aprovaram essa documentação, para onde foi encaminhado. E daí para frente eu fiquei totalmente dedicado na área de celular.

 

P/1 - Eu queria que o senhor contasse um pouco sobre esse momento da chegada do celular, que também foi um marco da história da companhia e o senhor estava lá metido no meio do tiroteio.

 

R - É, o marco da chegada do celular... Isso sempre foi um anseio. O Doutor Luiz sempre chegava perto de mim e falava: "Olha, o relógio está correndo ao contrário para a gente. Nós temos um despertador que vai tocar agora mesmo e nós não vamos estar com esse negócio no ar." Eu falei: "Ué, é só a gente implantar o sistema, porque o projeto está pronto." O plano de cobertura já está pronto. Então é só botar a central para funcionar. Aí demorou um pouco em função da escolha da tecnologia, porque até então a tecnologia disponível era Ericsson, Motorola e Nec. Eles tiveram a felicidade de escolher a tecnologia certa, porque as pessoas... Como, por exemplo, o Rio de Janeiro, que entrou com a tecnologia de outro fabricante, não foi uma tecnologia adequada em função do conhecimento. Eu acredito que nem a indústria, nem as operadoras, nem ninguém conseguia prever o boom que existiu de equipamentos de celular. Porque na época, quando nós fizemos, em 94, nós fizemos o projeto inicial, a gente calculou que iria existir uma penetração de 5% de telefonia celular na telefonia fixa em 2005. Isso já aconteceu há muito tempo já. Eu acredito que a penetração que houve de telefonia celular, se alguma pessoa, ou se eu tivesse ao menos sonhado isso naquela época, eu acho que hoje eu seria uma pessoa milionária. Ninguém conseguiria prever isso, porque quando a telefonia celular implantou na nossa região, ficou sendo o patinho feio e abandonado durante um bocado de tempo. Primeiro porque o equipamento custava muito caro. Segundo que a cobertura era muito modesta. E terceiro que sempre achavam as pessoas. Não era um carecimento, exceto São Paulo, Rio de Janeiro, alguma cidade maior, que havia uma necessidade mais, assim, de aparelho celular. Na época quem andava com aparelho celular na cintura era símbolo de status. Hoje qualquer carroceiro dá conta de colocar um aparelho celular na cintura e funcionando, mas naquela época, realmente a coisa pegava bastante. Foi em 98 que começou-se a... Não! 98 não! É, foi 98. A primeira copa foi 94, não é?

 

P/1 - 94.

 

R - 94. Então foi depois de 94, em 96, por aí, foi quando começou a haver um crescimento efetivo mesmo do sistema de comunicação celular.

 

P/1 - E a tecnologia melhorou também?

 

R - É, foi a introdução da tecnologia digital, o sistema melhorou bastante, transmissão, o sistema de sigilo, uma série de coisas. Mas eu tive oportunidade de participar na área de celular, que posteriormente foi criado um... Aí não existia mais um núcleo de telefonia celular. Foi criado uma diretoria celular, que é onde a gente participou, eu participei na área de engenharia. Foi criado um núcleo de engenharia, um núcleo comercial, foi totalmente separado, visando uma outra operadora para explorar o sistema celular. 

 

P/1 – Uma área de negócio específica?

 

R - É. Foi criado um sistema completamente separado. 

 

P/1 - Eu me lembro do início da implantação do celular, que muita gente em São Paulo tinha telefones com o prefixo 34.

 

R - Correto.

 

P/1 - Usava-se telefone da CTBC lá, porque lá não tinha tantos.

 

R - Não, não é que não tinha. Acontece que o preço de um aparelho celular em São Paulo, em 96, chegou a custar cinco mil dólares. Então aqui você comprava um aparelho na ordem de mil dólares e habilitava, por 150 dólares, você habilitava um aparelho aqui. Aí a pessoa achava melhor pagar o deslocamento. Naquela época não existia o homing automático ainda, ele se habilitava como assinante visitante, e ficava lá o tempo todo. Ele não migrava para cá. Então existia muito isso.

 

P/2 - Pelo próprio ineditismo também, porque aqui foi o primeiro, mais uma vez.

 

R - Exato. Porque a primeira estação celular que entrou no Brasil foi no Rio de Janeiro, depois foi aqui junto com Brasília e Curitiba. Entrou praticamente junto essas três regiões.

 

P/1 - Isso, quer dizer, a tendência agora, na telefonia celular, é entrar, quer dizer, tem um potencial cada vez mais efetivo sobre os terminais fixos, é essa a tendência que o senhor vislumbra?

 

R - Nós andamos fazendo algumas palestras até 97, a gente andou fazendo palestra em escolas de engenharia, entidades de classe, em uma série de regiões por aí, eu tenho um pensamento comigo, o futuro não vai ser mais a telefonia. Porque a telefonia, aquela história do telefone plantado na sala da sua casa, aquilo vai ser um meio de comunicação que seria... Futuramente aquilo vai ser um meio de comunicação, um serviço faixa larga. Eu vejo que pelo meu modesto conhecimento e minha modesta futurologia, eu vejo isso daí e no futuro bem próximo você não vai ter mais na sua casa um aparelho de televisão, você não vai ter mais na sua casa um computador, você não vai ter mais na sua casa um telefone. Você vai ter na sua casa um monitor de serviço. Isso eu já andei colocando em alguns pareceres meus. A rede telefônica tem uma capilaridade enorme, porém a capacidade de transmissão muito baixa. Já uma rede de TV a cabo tem uma capacidade de transmissão enorme, mas uma capilaridade muito baixa. Acontece que a coisa está mudando. Hoje já não se fala mais em uma empresa de TV a cabo. É Cabo-Telecom, sempre tem as Cabo-Telecoms por aí. Eu vejo no futuro esse monitor que você vai ter na sua sala, ele vai te servir para a Internet, vai te servir para telefonar, para trafegar, você quer telefonar com imagem, quer sem imagem, do jeito que você quiser. Quer usar computador? Você usa. Porque cada vez mais está aumentando a capacidade de transmissão dos meios físicos que existem nos centros urbanos. E com esse, com isso daí, vai existir não aquele aparelho telefônico dentro de uma casa, que você vai sentar numa poltrona e vai telefonar. Aquilo ali vai servir para tudo, inclusive para você fazer funções remotas na sua casa. Você está lá em Brasília, por exemplo, e quer ver dentro da sua casa que jeito que está. A comida do cachorro, o passarinho se está voando, quer dizer, você vai ter como fazer isso. Agora, o seu meio de comunicação vai ser um negócio que você tem na cintura, pode ser chamado de PCS, um serviço de comunicação pessoal. Que isso aí, acredito que mais daqui para frente você vai ser, quando nasce, é dotado de um número e esse número, quando não atender, pode ter certeza que você já morreu. Então eu acredito que o caminho vai ter que ser esse. Não adianta querer fazer de outra forma, porque já tem, eu vi ontem na televisão, a portaria do GSM, a portaria das operadoras C, D e E, um punhado de operadoras por aí, então vai ter uma briga fantástica entre elas. E isso vai levar a uma redução de preço tão grande, que não justifica mais você ter um aparelho na sua casa, ou não usar o aparelho celular, porque as tarifas são altas, porque hoje a tarifa de um celular já não é tão alta. Já houve tempo que a pessoa pagava quinhentos reais em uma assinatura, uma pessoa comum pagava um valor desse para ter um aparelho celular. Hoje não. O cara que paga isso é um maluco, porque deve falar o dia todo no celular. Porque você vê que o custo está caindo. E com a entrada de outras operadoras, a tendência vai ser o custo cair mais ainda. Então eles têm que propiciar uma melhor qualidade de transmissão, tem que propiciar mais banda larga, mais serviços verticais, que aquilo são coisas que agradam o cliente. Não adianta querer monopolizar, porque o monopólio já era.

 

P/1 - Me diga uma coisa, depois de toda essa sua trajetória na empresa, de estar presente nesses momentos críticos do avanço do desenvolvimento tecnológico da empresa, por que o senhor saiu da CTBC?

R - Eu me aposentei. E eu toda a vida tive a opinião que quando a pessoa se aposenta... Eu criticava isso dentro da CTBC, porque tinha um punhado de aposentados lá dentro trabalhando, eu achava errado essa atitude da pessoa de aposentar e se manter dentro do quadro da empresa. Por outro lado, eu achava também que deveria ser dada a oportunidade, porque sempre um que vai, tem outros que vêm. Então ficar sentado segurando a oportunidade dos que vêm eu acho que não seria justo. Como também eu não gostaria de parar de trabalhar, porque eu acho que a pessoa não deve parar de trabalhar enquanto tem condição, enquanto tem potencial, ou um potencial físico, ou um potencial intelectual, eu acho que a pessoa tem que se manter na ativa, porque senão a pessoa tende a morrer. Ou morre de infarte, quer dizer, sempre a pessoa que fica parada, ela tende a... Ou bebe mais, ou fuma mais, ou engorda mais. A pessoa não pode ficar sem ter uma atividade diária. Então quando eu observei esse fato, que nos próximos dois anos eu iria me aposentar, eu criei uma empresa para mim. Falei para as minhas filhas: "Olha, vocês criam essa empresa aí, eu ajudo vocês e quando eu aposentar eu vou trabalhar com vocês." E foi isso que foi feito. Hoje nós temos uma empresa e trabalhamos na área de telefonia celular da mesma forma, só que aí eu estou agora do outro lado do balcão, eu não sou mais o cliente. Agora eu sou o fornecedor (risos).

 

P/1 - E qual a especialidade dessa empresa, que tipo de serviço que ela presta? 

 

R - Nós montamos central. Central de celular. Seria as estações rádio base, repetidores, sistema irradiante, uma série de coisas que fazia na época lá, só que agora nós diversificamos o nosso cliente. Porque qualquer pessoa em sã consciência não vai querer deixar uma empresa só como 100% do faturamento da empresa. Então nós prestamos serviço para toda área de telefonia celular, seja Maxitel, seja CTBC, seja Telemig Celular, Telefônica, Amazônia Celular, quer dizer, o nosso mercado de trabalho abriu violentamente. Quando eu aposentei, eu assustei. A hora que eu saí do lado de fora... Você já ouviu aquela história do passarinho que toda a vida foi criado dentro de uma gaiola, não é? Durante trinta anos dentro de uma empresa, tendo aquele salário, tendo aquilo tudo. Passado esse peso, falei: "Bom, agora isso depende de mim. Puramente de mim." Aí tem que a coisa é completamente diferente. É onde a gente, no começo assusta, mas depois começa... Aí acostuma.

 

P/1 - Quer dizer, na sua avaliação, esse mercado está aquecido, tanto que a sua área de atuação, de atividade, extrapola os limites do triângulo, é isso que eu entendi?

 

R - Exato. Extrapola tanto que nós temos já propostas para prestar serviços na Argentina. Então são coisas que... É uma área que ela é bem carente de mão-de-obra especializada, porque existem os profissionais e existem os profissionais. Então como eu te falei durante esse tempo, você deve ter uma ideia do meu potencial profissional. Não adianta uma pessoa que formou esse ano, por exemplo, em uma escola qualquer por aí, querer ter conhecimento tecnológico de uma pessoa que tem já trinta anos de carreira dentro dessa tecnologia, começou desde o começo, conhece a base disso tudo. Então é onde essa pessoa tenta montar alguma coisa e talvez se dá mal por causa disso, porque não tem como. Eu me preparei psicologicamente para eu poder enfrentar esse mercado do lado de fora, que eu sei que não é um mercado tão manso igual quando a gente está na condição de cliente, lá dentro. Então eu sei que esse mercado aqui fora é um mercado agressivo. Eu não tenho também, aspirações de ficar milionário. Quer dizer, eu preciso, pretendo ter minha atividade diária que garanta minha sobrevivência para atender minhas necessidades.

 

P/1 - Como é o nome da empresa?

 

R - A empresa chama Protsel, (Projetos, Telecomunicações e Serviços Especiais?).

 

P/1 - Tem muita gente na empresa? É uma empresa grande, pequena, média?

 

R - Atualmente nós passamos por uma fase de enxugamento no quadro, como fizemos um curso há algum tempo atrás, um curso em Ribeirão Preto, esse curso, não sei se pode-se comentar ou não, mas esse é um curso de Administração Empresarial, foi um dos cursos que eu achei interessantíssimos. Teve alguns estudos de caso lá onde mostrou as empresas familiares. E esse estudo de caso começou na Matarazzo, indústrias Matarazzo, mostrou as indústrias do café, e mostrou o que aconteceu que levou as empresas à queda. Olhei, falei: "Bom, vou fazer um estudo de caso meu aqui agora." Aí resolvi terceirizar parte dessas atividades, que eu cheguei a ter quatorze funcionários registrados dentro do quadro. Mas depois eu achei por bem reduzir a quantidade de funcionários e terceirizar algumas coisas que eram atividades não-fim da empresa. Como o próprio nome já diz, que é Projetos, Telecomunicações e Serviços Especiais, a gente estava se metendo a mexer com antena, mexer com torre, mexer com infra-estrutura, que é uma coisa que não é o perfil nosso. Então a gente resolveu terceirizar essa área. Quando eu preciso, eu vou lá, isso não quer dizer que eu deixei de fazer isso. Mas quando eu preciso eu lanço mão da pessoa, falo: "Olha, você vai executar essa função para mim." Terminou aquilo, eu devolvo ele para a gavetinha dele lá, ele fica quieto lá. Ele já não faz parte do quadro. Atualmente nós estamos com cinco pessoas no quadro. São três técnicos, uma pessoa de projeto e um auxiliar.

 

P/1 - Desse outro lado do balcão, conforme o senhor se referiu, como o senhor passou a enxergar a CTBC, quer dizer, tentando abstrair os trinta anos que o senhor estava aí dentro, como o senhor está enxergando a CTBC nesse mercado e nesse futuro aí ao qual o senhor se referiu há pouco?

 

R - Com essa virada de balcão, eu até comentei isso com algumas pessoas dentro da própria CTBC. São pessoas ligadas ao nível de diretoria, porque quase todos os diretores foram estagiários meus, que é uma coisa que não foi comentada, como por exemplo, o Dílson foi meu estagiário, o Nelson foi meu estagiário, o Zé Cândido foi meu estagiário. Então tem uma infinidade de pessoas dentro da CTBC que enquanto estavam fazendo os cursos de engenharia, principalmente aqui em Uberlândia, ou Inatel, eles vieram trabalhar e, por sinal, começaram a trabalhar particularmente comigo e a gente teve oportunidade de ter um relacionamento. Aí eu já tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas dessas, nesse pós-desligamento, só que quando eu saí, a gente fica meio retraído um pouco, não consegue se abrir. E durante esses três anos que eu já estou fora de lá, eu tive oportunidade de conhecer outras empresas, tive a oportunidade de conhecer outras empresas quando lá era a Telebrás, depois outras empresas depois de privatizadas. Eu pude observar uma coisa: a CTBC se tornou uma estatal. 

 

P/1 - Uma estatal?

 

R - Se tornou uma estatal.

 

P/1 - Explique-se, por favor.

 

R - Quando eu falei isso para um diretor, o diretor fez essa mesma pergunta. Eu falei: “Escuta, toda a vida foi pregado pela CTBC ‘faz primeiro e escreve depois’." Depois inverteu. Tem que escrever primeiro para fazer depois. Com a implantação de um sistema de qualidade, eu não sei se a pessoa está levando muito a sério isso, ou se está levando ao pé da letra, só sei que a CTBC enrijeceu. Ela não está uma empresa... Está muito travadona, muito... Não consegue mudar as coisas com a velocidade que conseguia-se na época que... Bom, não diria que eu fazia isso, mas na época que eu estava lá, ainda era possível tomar algumas atitudes dentro da empresa, com o objetivo puro e simples de resolver uma situação. Hoje a pessoa, para fazer qualquer coisa lá, está ligada a um punhado de procedimento. Inclusive você já deve ter ido na CTBC. Você entra lá dentro? Lá, quando você vai fazer alguma coisa, você tem uma salinha que te isola completamente da empresa, que você não tem acesso, não tem aquele contato físico com ninguém. Então fica aquela coisa travada, porque às vezes, sempre está passando perto de um: "Ô, fulano, foi bom te ver, tenho que fazer isso assim, assim, como é que faz?" Até hoje tem pessoas que me ligam para tirar opinião, trocar ideia para saber alguma coisa, qual o procedimento que deve ser tomado em determinada circunstância. Em contrapartida, as empresas que eram assim, que era a Telemig, Telesp, essas empresas todas por aí, eu entro dentro... Eu tenho crachá da Telemig celular. Eu entro dentro da Telemig celular a hora que eu quiser. Tenho a senha de portas. Porque as estações da Telemig têm um codigozinho que você disca e aperta um botão, e a pessoa de lá, você fala no celular com a pessoa, ela aperta o outro, onde é que abre a porta. Então na Telemig você tem facilidade de acesso, na Amazônia celular você tem facilidade, na Telefônica, são as empresas que eu mais tenho relacionamento, tem facilidade de acesso. Aqui, quando tem que fazer alguma coisa tem que fazer três cotações, depois tem que esperar não sei quem aprovar, não sei quem. Com eles lá não, dá defeito em alguma coisa, já estão mandando. Quando eu vejo, chega um baita de um caixote lá para eu resolver algum problema para eles. Fala: "Olha, está chegando isso aí, depois você me manda uma cotação." Vamos fazer a coisa ao contrário. Ele quer que conserte primeiro e faz a cotação depois. Então é onde eles estão adquirindo uma agilidade maior, eu não sei até que ponto isso é vantajoso para eles ou desvantajoso para a CTBC. Eu só sei que no meu modo franco, eu estou falando com franqueza mesmo, no meu modo de ver, eu acho que a CTBC está enrijecendo, não sei se é em função de que as pessoas não têm condição de decidir, porque quando estava lá o Nelson, o Zé Cândido, o Oswaldo Firmino, uma série de pessoas que tinham lá dentro, são pessoas antigas dentro do... Então tinham um poder de visão e um poder de decisão muito rápido. Com essa trocação a nível de diretoria e coordenação, eles não têm esse senso, essa percepção rápida. É onde trava a coisa, fica aquele negócio, fica rígido mesmo. Não se consegue resolver as coisas em curto espaço de tempo. Eu não sei, vai chegar o momento que alguém vai ter que tomar uma decisão.

 

P/1 – Em um quadro de competição muitíssimo acirrado, não é?

 

R - Exato. Eu não estou criticando as pessoas, eu queria deixar bem claro isso, que eu não estou criticando as pessoas que estão lá. Não estou elogiando as pessoas que estavam lá. Eu estou simplesmente, como você perguntou, estou falando o que eu estou vendo.

Agora, nesse quadro aí, ou a pessoa se torna ágil e toma a decisão rápida, senão vai estar fadado ao fracasso. Porque eu tenho observado do lado de fora também que a CTBC só toma uma ação diante de uma ameaça. É uma coisa que não deve ser. Sempre a CTBC ameaçou, porque que ela está sendo ameaçada agora? Não sei. Uma empresa que entrou há pouco tempo no mercado aí está ameaçando a CTBC! Você vê a propaganda aí, não sei se foi vocês que fizeram esse comercial, se foi feito aqui, em algum outro lugar, aquela propaganda que o concorrente fala em qualquer lugar de Minas e da Bahia. Aí depois disso que a CTBC se uniu com a outra operadora de Minas de Banda A aqui, para falar local. Depois pegou no pré-pago aquele desenhinho lá que o cara ficava desajeitado lá dentro. Depois disso que tomou uma decisão.

 

P/1 - Você diria que está mais reativo do que pró-ativo?

 

R - Exato. Agora esta história dos 30%. Tenho certeza que vai tomar uma decisão, mas vai esperar. Nessa altura, o cliente já migrou para o concorrente. Porque o problema mais sério é a migração. Não a captação de novos clientes. Como, por exemplo, eu estou vendo aí que eles vão fazer uma mídia aí, parece que no fim do ano, se você comprar um aparelho celular e assinar um compromisso, um contrato de fidelidade por um ano, acho que seu filho ganha um dado. Entendeu? Quer dizer, eles vão esperar acontecer isso, porque se eu estou aqui de fora, eu estou sabendo disso, eles vão esperar acontecer isso para depois tomar uma atitude. Gente, vamos fazer o contrário. Porque toda a vida a CTBC foi pioneira em tudo. Não estou falando em questão de tecnologia, mas tem que ser também em questão de mercado.

 

P/1 - Está certo.

 

R - Então, se pensa que o outro vai fazer isso, já começa a fazer agora, não espera o outro fazer primeiro. Porque aí depois, enquanto começa a fazer, tem uma migração violenta para o outro, para o concorrente. E vai entrar Banda C, Banda D, Banda E. E eles vão ter alguma coisa melhor.

 

P/1 - Perfeito, Senhor Daisson. Para finalizar, o senhor tem sonhos aí pela frente?

 

R - É lógico. Eu acho que todo mundo tem. Eu acho que a partir do momento que a pessoa não sonha em alguma coisa, a pessoa acho que pode morrer ou deve morrer. Porque eu acho que o que alimenta alguma coisa são os sonhos e ver os sonhos realizados também, porque não adianta só a pessoa sonhar. Eu posso sonhar em ser um, sei lá, um Presidente da República aí, se bem que não é uma profissão muito boa atualmente, mas... Sonhar em ser alguma coisa. É uma coisa muito distante. Então a gente tem que sonhar alguma coisa que seja possível de ser alcançada, não adianta querer sonhar coisa impossível também.

 

P/1 - O que o senhor acha de ter dado esse depoimento?

 

R - Não, eu acho muito importante. Isso está resgatando uma série de coisas que... Até comentei com a minha esposa, falei: "Essa atitude que foi tomada é uma atitude muito boa, que isso vai, assim, amanhã ou depois meus netos vão ler um livro das pessoas que fizeram a CTBC.” Porque na realidade, queira ou não queira, eu participei dessa, como diz, de fazer a CTBC. O que ela é hoje, desde quando ela começou, eu tive uma participação. Pode não ter sido grande, mas eu tive, eu coloquei alguns tijolos lá nesse império que existe hoje. Então eu tive minha participação direta nisso. É motivo de orgulho, não é? Eu acho que fazendo isso é um meio de mostrar às pessoas que estão aí a ter a mesma atitude, seja certo ou seja errada. Como falam que muita gente erra pênalti, mas é preferível errar o pênalti do que não fazer. 

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