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Recicleiros

História de: Erich Burger Netto
Autor:
Publicado em: 25/05/2021

Sinopse

Erich Burger Netto conta como o lixo sempre lhe incomodou, depois de conhecer cidades com a história do lixo mais organizado, como Austrália e Alemanha, volta para o Brasil com uma ideia e um nome na cabeça “Recicleiros”. A Recicleiros teve inicio dentro do quanto da irmã de Erich que estava saindo de casa para casar. O amigo Dani, seu sócio no inicio dos Recicleiros, o convida para pensar um conceito de reciclagem de um festival de rave de 3 dias que aconteceu em Indaiatuba. Latões de lixo bem sinalizados, uma tenda dentro do festival para encaminhar o lixo e contratar catadores para dentro dos festivais. Assim inicia a história da Recicleiros, que hoje constrói coleta seletiva de alto impacto social em cidades brasileiras, junto com prefeituras.


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História completa

Meu nome é Erich Burger Netto. Eu nasci na cidade de São Paulo, em 3 de junho de 1982.  Meu pai é Eduardo Burger e a minha mãe Anna Beatriz Antunes Razzo. Meus pais são separados definitivamente desde que eu tinha uns 12 anos.

Meu pai é engenheiro civil, mas na minha lembrança de moleque, da profissão do meu pai, não era da Engenharia Civil. Ele já era um cara que tinha se formado e resolvido empreender, as primeiras lembranças que eu tenho do meu pai é com uma injetora de plástico que fazia peças de pequenos materiais.

Com 23 anos viajei para a Austrália tentando realizar o sonho de aprender a falar inglês, que eu vi que era uma coisa que eu precisava, então eu peguei tudo que eu tinha de economia, eu trabalho desde os 16 anos, no Banco Itaú de office boy.

Um dia conversando com a minha tia, advogada do Banco Itaú, “um amigo meu foi pra Austrália, vai ficar um ano lá pra aprender falar inglês, parece que lá tem trabalho, então não precisa ter muita grana pra ir, consegue sobreviver lá lavando louça”. “Vende seu carro, eu te ajudo a pagar a passagem, vai pra Austrália”. Eu fui! Fico lá um ano.

Meu pai me pega depois de um ano no aeroporto e a primeira notícia: “Sua tia morreu”. Aquela tia que eu estava louco pra voltar e trocar uma ideia em inglês. Era o meu projeto, chegar e falar: “Olha como valeu a pena!” 

Eu admirava demais o meu pai e eu penso muito, eu tenho um filho homem, eu tenho o Emanoel, que tem dez anos de idade e eu me preocupo pra caramba com o relacionamento que eu construo com ele, falo: “Puta, eu dei uma bronca, será que ele vai me interpretar mal, vai falar: ‘O pai é o maior vacilão’”? Aí eu lembro da minha admiração pelo meu pai e falo: “De jeito nenhum, cara”. Moleques tendem a idolatrar demais o pai.

Minha mãe sempre foi a mãe do carinho, do carregar no colo. Nunca me bateu, nunca encostou a mão em mim. Ela é um talento absurdo com moda.

O lixo sempre foi um negócio que me incomodou. Eu volto de uma Austrália bacana, mais organizada, um pouco mais limpa, eu já tinha ido pra Alemanha uma época, onde eu conheci a história de coleta seletiva, descarte seletivo, de como isso trazia bem estar pras pessoas dentro de casa, nas ruas.

Então eu volto pro Brasil já com essa coisa, se eu conseguisse fazer alguma coisa no Brasil que fosse diferente em relação a lixo, seria muito legal. E me veio o nome, Recicleiros, em algum momento, que eu nem consigo lembrar quando. Eu comecei a ficar com essas coisas na cabeça, mas não sabia nem por onde começar.

Minha irmã estava pra casar, então ela ia liberar o quarto dela. Ali começa a Recicleiros, num notebook velho, dentro do quarto da minha irmã, eu começando a tentar estudar o negócio, montar uma lógicas de: “O que eu vou fazer, pra atender qual objetivo? Qual seria a missão dessa Recicleiros?” Dentro disso aparece uma oportunidade que eu percebo, de botar todos os conceitos que eu estava imaginando de sustentabilidade num produto pra eventos. O Brasil estava bombando ali com a história de eventos e festivais, em 2006. E aí eu consigo criar um negócio muito legal ali, muito maluco, que fez a Recicleiros, sem Cnpj, do dia pra noite, ter um primeiro projeto que gerou caixa. E eu consigo montar isso ali com um amigo, um grande amigo meu que está morando hoje no Texas, o Dani. 

O Dani chegou e falou: Cara, tem um amigo meu fazendo uma rave, um festival rave de três dias, em Indaiatuba e precisa por um conceito de reciclagem lá. Vamos fazer? A gente recicla o resíduo da festa e a gente bota essa história de contratar catadores pra dentro. Eu e ele começamos a criar as ideias ali e a gente consegue vender - pra três moleques que trabalhavam ali.

A festa fica um espetáculo, mas é um desastre financeiro, a gente fica sem receber parte da grana, porque o comecinho a gente recebeu e pagou todo mundo, não ganhou um centavo, trabalhou que nem uns cavalos, mas aprendeu que lá tinha um produto. Isso no comecinho de 2007. E aí, com essa história, a gente consegue, na sequência, vender essa mesma ideia pro Terra, portal de notícias, que fazia, na época, o Planeta Terra Festival. E a gente conseguiu emplacar com os caras de fazer a reciclagem do evento.

Comecei a ver essa história de festivais que estavam acontecendo e ver que a galera ia lá, 15, 20 mil pessoas, pra cada cerveja um copo plástico e uma lata, lixo, lixo, lixo, lixo. Só lixo bom. Limpo, reciclável. Tudo amarrado num saco preto. E nas ruas catadores puxando carroça e tentando revirar saco de lixo na rua, pra achar uma latinha. “Por que as pessoas já não descartam separado?” Se elas tiverem boas lixeiras, com uma sinalização muito bem feita, tiver campanha, sinalização, infraestrutura de qualidade pra o público do evento já descartar isso, o catador já vai se beneficiar. Se o evento paga o cara da limpeza, o cara da segurança, o DJ, por que não pagar o catador pra vir aqui reciclar o resíduo do evento? Aí eu descobri que isso se chamava Psau, pagamento por serviços ambientais urbanos. Já existia esse conceito.

O evento vai investir numas lixeiras legais, bem sinalizadas, que possibilitem a ação qualificada do público e dão infraestrutura de qualidade, esse material vai ser transportado pra um galpão dentro do evento, onde eu vou ter máquina, esteiras de separação, o catador não vai ficar de cócoras mexendo em lixo, ele vai ficar de pé, recebendo pra fazer a triagem dos materiais recicláveis de qualidade, que são descartados”. Então, esse era o contexto que até hoje é a metodologia de trabalho do Recicleiros. Só foi acrescentada regulamentação, porque a gente foi parar nos municípios.

Eu hoje construo coleta seletiva de alto impacto social em cidades brasileiras, junto com prefeituras.


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