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Éramos mais de seis

História de: Cícero Ferrer Teles
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Publicado em: 15/05/2020

Sinopse

Em seu relato, Cícero Ferrer Teles relembra sua infância vivida em Fortaleza (CE) e as dificuldades enfrentadas por sua mãe, para criar dez filhos, enquanto o marido viajava a trabalho pelo interior do Ceará. Viagens que renderam a Cícero alguns irmãos, incluindo Joana, uma amiga de escola que ele descobriu ser filha de seu pai.

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História completa

P/1 – Cícero, eu queria agradecer sua participação, e pra começar eu queria que você falasse o seu nome, local e data de nascimento.

R – Bom, eu me chamo Cícero Ferrer Teles, moro na Rua Francisco Calaça, número 18, 16, aqui num bairro próximo denominado Álvaro Weyne, Fortaleza, Ceará.

P/1 – E você nasceu aqui em Fortaleza?

R – Nasci em Fortaleza, num bairro aqui vizinho, bairro Weyne, migrei um pouco pra outro bairro vizinho, mas sempre estive atuando aqui nessa região.

P/1 – E qual é a sua data de nascimento Cícero?

R – É 5 de dezembro de 1963.

P/1 – Qual o nome dos seus pais, Cícero?

R – Minha mãe é Maria de Jesus Ferrer, né, acho muito sugestivo esse nome dela, e o meu pai é Sebastião Teles de Menezes.

P/1 – E o que eles faziam? O que eles fazem?

R – Na verdade a minha mãe foi uma guerreira, né, apesar de doméstica ela sempre esteve acessando outras atividades no comércio, ela era uma eterna vendedora pra poder complementar a renda, e sempre trazia algo a mais pra dentro de casa. Meu pai era um funcionário da Refesa [Rede Ferroviária Federal S/A], mas era um andarilho, né, viajava muito, então muitas vezes a gente, muitas vezes, tinha que complementar essa renda, e a minha mãe fazia isso.

P/1 – Ele trabalhava na Refesa, o que ele fazia na Refesa?

R – Ele era porteiro na verdade, ele não atingiu, assim, um nível de escolaridade um pouco maior, então ele permaneceu sempre em atividades, assim, de base.

P/1 – Ele era andarilho por quê? Ele viajava pela Refesa, ou não?

R – É, como a Refesa era uma empresa que permitia explorar outros lugares, a ferrovia era algo que estava se desbravando, né, na época que ele teve que ir até lá, então ele se habituou a estar viajando muito, talvez seja a razão pela qual ele até construiu outras famílias, né (risos).

P/1 – E ele viajava por onde? Você sabe pra que lugares?

R – Ah, basicamente aqui pelo interior do estado do Ceará, né, essas localidades, Quixeramobim, São Benedito... ele passou um bom período na serra, foi uma época que eu até o acompanhei, era um trabalho que ele desenvolvia lá na serra, um período que ele ficou fora da empresa e ele acabou tomando conta das fazendas. Era um cara muito envolvido com animais, gostava de andar de animais, cuidava da terra, ele tinha essa coisa muito forte no cotidiano dele.

P/1 – E você, chegou a conhecer os seus avós?

R – Na verdade uma das coisas que me deixa um pouco triste é não ter conhecido os meus avós paternos. Eu só conheci a minha avó materna, Clara Ferrer dos Reis, uma senhora... Não sei se o nome foi por conta dela ser clara mesmo, bem clarinha, olho azul, muito sábia, uma pessoa que me impressionou muito porque ela tinha uma ciência de decifrar sonhos, e lia muito. Uma das coisas que me impressionava era ir à casa dela e poder observar que ela tinha um baú que ela guardava livros, e eu achava ela uma pessoa super sábia.

P/1 – Me fala uma coisa, você sabe a origem da sua família? Qual é? Qual a ascendência deles? Se eles sempre viveram aqui no Ceará...

R – É uma das grandes curiosidades minhas, poder saber, conhecer um pouco dessa árvore genealógica dos Ferrer, dos Teles, que existem várias pessoas conhecidas com o nome, mas eu não tenho, assim, uma informação muito precisa pra te dizer dessa origem. A gente tem Ferrer aqui em Lavras da Mangabeira, a gente tem Ferrer que vem da Paraíba, né, a gente tem Teles que vem ali da Serra de Guaramiranga, que o meu pai era de lá com a família dele, e a gente não conseguiu definir um local de origem. E a gente também tem informações de que o Ferrer tem uma origem meio europeia, tem algumas famílias que migraram aí da Europa e trouxeram esse nome.

P/1 – E você tem irmãos?

R – São muitos!

P/1 – Quantos?

R – Se eu tiver que considerar o primeiro casamento do meu pai, eles tiveram dez filhos. No casamento com a minha mãe teve mais dez filhos, e no terceiro casamento dele ele conseguiu ainda mais três filhos. Então eu tenho aí que eu conheço, 23 pessoas que agregam o grupo de irmãos. É bem verdade que alguns já se foram, né, e outros estão aí bem morando por partes deste país, e alguns estão por aqui.

P/1 – E vocês conviviam? Você chegou a conviver com eles quando você era pequeno? Como se dava essa convivência?

R – Na verdade, quando eu era jovem, meu pai resolveu nos aproximar da primeira família dele, e paralelo a isso, também a terceira família, né, porque quando ele viajava, mantinha contato conosco, né, e eu acabei indo e tendo uma convivência com irmãos da primeira família, e tive convivência com irmãos da terceira família. Um desses momentos bem  interessantes, foi quando eu fiz um curso no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], um curso de Eletricidade, foi da quinta à oitava série, e lá eu gostava de jogar muito pingue-pongue. O Sesi [Serviço Social da Indústria] era bem do lado e tinha uma pessoa que a gente se afinou muito. Era uma garota que estudava violino, uma loirinha dos olhos azuis, e eu me afinei muito com essa garota porque ela começou a pedir que eu a ensinasse a jogar pingue-pongue. Mais tarde eu descobri que essa garota era minha irmã em uma visita à casa desses meus irmãos porque alguns deles estavam vindo de São Paulo e do Rio, pra fazer uma visita a meu pai. O meu pai era muito ligado a mim, eu sempre viajava com ele, e ele pediu que eu fosse até lá, e quando eu cheguei lá não tinha ninguém, só a primeira esposa dele, e a primeira pessoa que entrou na sala foi essa garota, Joana d’Arc, que era a minha primeira irmã. Ela entrou, me viu e perguntou o que eu estava fazendo lá na casa dela, e daí pra frente foi só emoção, né, a gente acabou descobrindo que éramos irmãos e não sabíamos.

P/1 – Que bonita a história. E eu queria que você falasse um pouquinho dessa casa onde você morava com os seus pais, da sua infância, como era esse bairro, como era a cidade naquela época? Você falou que você sempre morou próximo, nasceu num bairro, mora no outro agora, então eu queria que você falasse um pouquinho da cidade, do bairro, quais eram as suas brincadeiras quando criança…

[pausa]

P/1 – Então, retomando a pergunta, como era o bairro? Como era a sua casa quando você era pequeno?

R – Na verdade eu não tive uma infância muito privilegiada. Naquela época a gente teve que enfrentar grandes dificuldades, por conta do meu pai ser esse cara aventureiro, desbravador, ele acabou nos deixando um pouco, assim, sozinhos, então a casa que a gente passou a morar... A gente tinha uma casa até relativamente boa, mas ele teve que vender essa casa e nós passamos a morar numa outra casa, uma casa muito simples, humilde, e eu lembro que com quatro anos de idade, quando nós fomos pra lá, a gente teve que construir a parede da lateral da casa pra poder entrar. Eu lembro que chovia muito, era um lugar de chão de terra batida. Lógico que naquela época saneamento era uma coisa que nem se pensava que ia existir, né, e a gente teve que morar nessa casa, uma casa de taipa, né, baixinha, rústica. E que acabava sendo aconchegante porque a gente tinha uma relação de família muito forte. Nós estávamos juntos e isso era muito importante, nos confortava, mas era uma carência por conta de não saber o nível, assim... conhecer como as outras famílias realmente tinham conforto, porque naquela época, os bairros aqui vizinhos, todo mundo tinha quase que o mesmo padrão de vida, inclusive o bairro na época era aquela floresta, era só mato, as casas eram poucas, e a gente passou alguns momentos, assim, difíceis, principalmente em épocas de inverno porque a casa era um pouco baixa, e a telha... Às vezes, a gente tinha que colocar alguns objetos pra poder impedir que a chuva chegasse até às redes. Nós dormíamos em redes na época, então foi realmente uma infância muito difícil.

P/1 – Então, você estava falando que o seu pai vendeu essa casa, vocês foram pra uma casa mais simples, e nessa época você tinha quantos irmãos? Você falou que tinha quatro anos, quantos irmãos você tinha nessa época?

R – Nós éramos cinco porque haviam falecido alguns já, na verdade éramos seis, mas um ficou morando com a tia, não quis vir conosco, se habituou ao lugar que estava, e nós viemos em cinco. Na verdade a Joana, que eu conheci depois, ela foi levada quando jovem, quando criança, pra morar com a primeira esposa do meu pai, foi uma história, assim, que a gente ainda hoje tenta descobrir como ela aconteceu... Essa garota que eu falei que mais tarde eu a conheci e descobri que era minha irmã, ela foi levada pelo meu pai para morar com a primeira mulher, que foi ruim, um desprendimento porque a gente perdeu esse convívio e isso afetou de certa forma. A gente hoje tenta recuperar, ela esteve aqui na fábrica visitando e a gente tenta resgatar esse carisma, né, essa perda, essa relação que ficou para trás. Mas aí nós ficamos em cinco, o José Ubiratan, o João, o João faleceu pouco tempo atrás, Maria Gorete, Telma e eu. Telma também teve que sair da nossa convivência, ela também foi morar com outra pessoa conhecida da minha mãe porque era muito difícil ela sozinha, com a saída do meu pai, ela poder nos sustentar, né, e a minha mãe sofria muito com isso. Quando ela via alguma carência, eu a via chorando afastada, ela não queria que a gente visse aquilo pra que a gente não sofresse, mas a gente percebia, então prejudicou um pouco a composição da família, né, a gente foi prejudicada por isso. Talvez isso tenha afetado até o desenvolvimento de alguns que não conseguiram acessar de forma melhor os conhecimentos, né, ter uma possibilidade maior de acessar os espaços, né, que a sociedade oferecia, por conta desse problema que existiu na base da família.

P/1 – E me diz uma coisa, você falou dessa sua irmã, a Joana d’Arc. Ela era filha da sua mãe com o seu pai?

R – Com o meu pai.

P/1 – E como ela foi doada para outra mulher, você sabe?

R – Naquela época os homens... ainda hoje existe muito isso, um machismo muito grande, né, a cultura patriarcal muito forte, minha mãe muito submissa, e...

P/1 – Tá ruim, né?

P/2 – Foi.

P/1– Deixa eu te perguntar uma coisa...

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