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Equilíbrio, o primeiro passo

História de: Juliana Tostes
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Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Juliana aprendeu cedo sobre perda. A morte de seu pai foi a primeira de muitas situações que se tornaram gatilhos emocionais que agravaram o estado de sua dermatite atópica. Com os anos, aprendeu a olhar para seus sentimentos, buscando autoconhecimento e aceitando não só sua pele, mas quem ela é.


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Eu coloquei uma coisa na minha cabeça depois de uma fala do meu pai, numa época que ele estava doente. Era um café da manhã, estávamos minha mãe, meu pai e eu e ele falou assim: ‘‘Ju, assim que eu for embora, você é quem vai fazer o meu papel. Você vai tomar conta da sua mãe e da sua irmã". Na hora, eu nem levei a sério.

 

Mais tarde, eu tive que assumir esse papel de cuidar da minha irmã e da minha mãe, como se eu fosse mais forte. E, obviamente, não fui. Nem precisava ter sido, também - vejo isso hoje. E aí que começou a rolar a dermatite atópica na minha vida.

 

Quando eu fiz dez anos, descobri que meu pai estava com câncer, embora ele tivesse sido diagnosticado há muito tempo. Ele nunca se tratou até o momento em que o câncer já estava tão grande que não tinha mais o que fazer. Em nenhum momento eu pensei que poderia ter uma perda ali. Para mim, quem morria eram pessoas velhas. Nunca tinha visto alguém muito próximo e novo morrendo.

 

Lembro-me de uma ocasião em que fui ao hospital para pegar a chave da casa com a minha mãe. Lá vi meu pai e falei: "Oi, pai, como é que você está?". Ele respondeu: "O que você vai fazer agora?". Eu falei: "Meus amigos vão em casa para fazer trabalho da escola". Ele me chamou de Chimbica, um nome carinhoso e que a gente sempre usava, e pediu para eu ter cuidado. Eu não fiquei muito tempo lá. Depois de três dias, ele morreu e isso foi muito significativo para mim. Eu fico pensando que poderia ter ficado com ele naquele dia, mas eu não tinha essa noção de que ele iria embora. Para mim, não iria acontecer; não tinha como.

Toda a minha alergia foi por conta do meu lado psicológico, resultado dessa questão do meu pai. Foi a partir desse momento que as coisas foram ficando incontroláveis. Começaram a aparecer erupções e vermelhidão na minha pele. Foi o jeito que eu achei para colocar meus sentimentos para fora.

 

O jeito que o meu corpo acha não é chorar ou falar: vem na pele.

 

Esse processo da dermatite é assim. Na minha pior crise, meus amigos sumiram. Um dia, eu pensei: "Eu não aguento mais, não tem ninguém nessa cidade que tem esse negócio de dermatite atópica! Vou achar outras pessoas na internet, vou criar um grupo no Facebook para a gente se ajudar!”.

 

Criei o grupo com a expectativa de ter dez pessoas para conversar. Hoje somos 15 mil pessoas.

 

Eu já fui em tanto médico, já usei tanta coisa. Quem tem dermatite atópica fica em busca de algo que vai ajudar no tratamento. No grupo, as pessoas começaram publicando os casos delas e eu me identifico tanto com aquelas pessoas porque em algum momento a doença já me machucou muito e eu não tinha a quem recorrer.

 

Acho que a principal dificuldade é a gente se aceitar com essa pele.

 

Aceitar que não é porque a gente tem mancha que vamos ser piores. Obviamente que isso está relacionado com a autoestima, mas acho que a primeira coisa é se aceitar. É muito difícil o processo de autoconhecimento, de pensar que a gente não precisa ser igual ao outro, que cada um é um. Cada um está vivendo uma situação, com problemas distintos. Então é isso: a gente não precisa ser o modelo que a sociedade escolhe para o corpo!

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