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História

Equilíbrio e liberdade

História de: Fernanda Aparecida de Jesus
Autor: Jan Balanco
Publicado em: 03/05/2017

Sinopse

Fernanda, jovem moradora da Zona Sul da cidade de São Paulo, conta sua relação com o bairro onde mora, sua vida cotidiana, e a magia do slackline, modalidade esportiva que pratica.

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História completa

Fernanda Aparecida de Jesus nasceu em São Paulo em 26 de novembro de 1997. Ela é o que faz. Uma pessoa que respira. Sua primeira lembrança de vida é correndo descalça, atrás do carrinho de maçã do amor no bairro onde ainda mora, Capão Redondo. Brincava com Barbies na caixa d'água, imaginando, junto com sua amiga Karina, que era uma praia. A casa onde mora com seus pais e irmãs fica em cima de um salão de festas, que sua família aluga. Sua prima quase mora lá, de tanto que a visita. Sua avó materna, "velhinha, gordinha, esquecida... maravilhosa, daquele jeito!", como diz, vive em Pernambuco e, antes da morte de seu companheiro, costumava receber seus 10 filhos e, mais ou menos, 30 netos. Ela contava-lhes boas histórias, como a das nuvens de algodão doce que derretiam a partir do choro de Deus. Por parte de pai, uma família da Bahia, sua avó faleceu há quatro anos e seu avô "é X na sua vida". Os pais de Fernanda se conheceram no ônibus, quando ele se ofereceu para segurar sua bolsa já cheio de mochilas no colo. Ambos vieram para São Paulo com 19 ou 20 anos para tentar uma vida melhor e são muito organizados. Ele, professor de educação física e biologia, dá aulas pra lá de Parelheiros. Está sempre feliz, é uma pessoa positiva - Fernanda puxou isso dele – que não se preocupa com nada. Sua mãe, diarista e administradora do salão de festas, o oposto, tem uma visão mais negativa da vida, e é extremamente religiosa. Mas sobretudo, sua mãe se preocupa muito com os outros, e Fernanda puxou isso dela. Sua irmã de 10 anos é loira de cabelos cacheados, olhos verdes bem clarinhos, e já usa WhatsApp. A diferença entre elas é de nove anos e Fernanda sabe que é uma referência para a caçula. Costuma levá-la ao Sesc Campo Limpo, museus e cinemas, tentando cultivar seu interesse pelas programação cultural da cidade, de modo que possa conhecer o mundo para além das fronteiras de seu bairro e forme sua personalidade a partir de suas experiências, e não apenas através de contatos em redes sociais. Pretende inclusive ajudá-la a custear seus estudos. Elas dividem o mesmo quarto e, apesar de uma briga ou outra, gostam disso. O espaço é cheio de fotografias autorais, de familiares ou lembranças de exposições, e de máscaras. Estudou em uma única escola, tendo lá continuado mesmo ao se mudar de endereço. Lembra-se com saudade dessa época com saudade e diz ter sido um período marcado por mudanças. De menina briguenta que era, tornou-se uma mulher calma e da paz. Era sim da turma do fundão, mas também de todas as turmas. Não deixava de conversar com os "nerds", inclusive os mais reclusos. Era uma potterhead, como são chamados os fãs de Harry Potter, daquelas que se colocavam nas histórias, intercalando a realidade e a fantasia. Hoje, adulta, entende que perdeu essa capacidade, substituindo a pelo simples ato de assistir à história, talvez até criticá-la, mas que não as aproveita mais como costumava fazer quando pré-adolescente. Quando mais velha, ia às festas organizadas em salões, como a Dom Party que existe até hoje. Os rolês eram pagos em troca de serviços domésticos para a mãe ou descolando uns VIPs com a galera. Funk, rap, e muita loucura para uma festa só. Já foi expulsa de algumas baladas por usar RG falso, o que não foi problema para quem estava próxima da Rua Augusta. Nos dias atuais, ainda vai para baladas, mas agora com a galera da facul, já que os amigos do Capão ficam por lá mesmo. Todo ano tinha que responder o que queria fazer da vida a sua tia Leozina. Começou dizendo que queria ser escritora de fatos cotidianos, professora de educação física, como seu pai, arqueóloga e geóloga (ainda pensa nisso), além de cientista marinha, porque ama o mar, contudo hoje faz o último ano de licenciatura em teatro, curso que assumiu para acalmar seus pais que a pressionava para que escolhesse logo alguma carreira. Seu pai disse: "Interessante..." e sua mãe "Ahn???" quando lhes contou o que havia escolhido. Fato é que sua ligação com o ensino, claramente advinda por influência do pai, e a atenção para com os outros, característica de sua mãe, circundam suas opções de atividades profissionais, não importando quão variadas sejam. Fernanda dá bom dia a todos de seu bairro, desde o maconheiro do beco à velhinha patricinha. O maconheiro sempre responde. O Capão raiz é favela, periferia, sem frescura, pés descalços... mexeu com um, mexeu com todos. O Capão nutella é o centrinho, que tira um pouco de sua essência. Quando sai de seu bairro, normalmente vai para algum evento ao centro da cidade. São Paulo. Depois de ter uma rotina diária de sair de casa às 5h30, e só chegar à meia noite, para estudar de manhã e trabalhar na biblioteca da faculdade até às 22h. Durante o dia sorria, como de costume, e à noite, enfim em casa, chorava no ombro da mãe. Largou seu emprego ano passado. Hoje, faz seus bicos de vendedora de latinhas a modelo, além de estagiar, colaborando com as aulas e oficinas oferecidas no Céu Capão Redondo. Começou a trabalhar com 17 anos, como supervisora de um callcenter. Desfilou pela 1dasul e Fundão, marcas de roupas do Capão Redondo que ela veste. Como nunca se deu bem com esportes de bola, viu na prática do slackline quando ia para praia uma oportunidade. Frequentemente faz no Sesc Campo Limpo, mas também amarra suas cordas na praça para sua irmã se divertir. Foi aí que, ao notar o interesse das outras crianças do bairro, resolveu se integrar a um projeto junto à comunidade em que vive, oferecendo aulas de slack e teatro, outra paixão de Fernanda. "Todo mundo gritando, correndo... e, quando subo no slack, e eu encontro meu ponto fixo, ali... é eu e eu, eu e a corda, meu equilíbrio, minha conexão. Bicho..." "O pessoal julga demais; e tenta de menos." Fernanda é como o mar, por vezes tudo, ora nada. Tem seus opostos... Em Novo Horizonte, procura por festas; nas praias, prefere baixa temporada. Ubatuba com suas ilhotas tem sua preferência. Em uma delas, certa vez, escorregou de uma pedra quando tentava chamar por um "amor de verão", que insistiu em entrar no mar, mesmo com ressaca. Do mar, no caso. Esse tombo lhe deixou uma marca no rosto, a qual as pessoas só percebem quando ela conta a história. Sua melhor lembrança de viagem foi quando "mochilou" com seu pai pelo nordeste brasileiro, com direito a pegar carona e tudo! Quando perguntada se estava namorando naquele momento, Fernanda ri, depois diz que não. Apenas casos pontuais, nada sério. Prefere casos abertos, que não desvirtuem ela de suas buscas e descobertas. Para o futuro sim, talvez um casamento, sobretudo pelos filhos, quantos couberem na casa e com nomes inspirados no universo de Harry Potter! Isso para não envelhecer sozinha. Mas, não consegue imaginar nisso sem logo pensar na separação. Dentre os movimentos políticos, escolheu como bandeira, sua paz. É por ela que luta. Participa de discussões diversas, mas prefere ouvir a falar, pois assim, a partir de posições diversas oferecidas por outras pessoas, vai formando a sua personalidade e, ainda assim, sente-se à vontade para não ter certeza de coisa alguma. Sua positividade é intencional. Enxerga beleza em tudo, pois nada mudaria fosse o contrário. Isso apenas aumentaria sua carga negativa. Vive muitos recomeços, sem viver os finais. Seus dias, úteis ou não, não seguem roteiros. Tudo pode mudar dependendo do dia da semana ou um convite repentino para algum evento. Nada lhe dói no momento. Umas cólicas acompanhadas de tristeza sem razão, no máximo. Sente-se foda quando alguém fala bem dela, e sente que algo lhe faltou se a sua presença é ignorada. Futuro para ela é incerto. Planta o bem hoje, para que suas esperanças sejam ainda melhores. Para velhice, Black Mirror. Quando envelhecer alguém troca. SEUS TERMOS: Bicho... | Vixe Maria... | Oxxii | Segura a marimba| Professor da bagaça| Misericórdia

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