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História

Época boa para fazer amigos

História de: Elisabeth Aparecida Silva Campos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2005

Sinopse

Elisabeth Aparecida Silva Campos, conhecida como Betinha, atualmente motorista de transporte escolar, viveu parte de sua infância e adolescência acompanhando a história do Clube da Esquina através do irmão, Milton Nascimento. Nesse depoimento ao Museu, ela conta um pouco sobre a relação de amor com os pais e os irmãos e relembra como o Clube da Esquina foi capaz de transformar a vida dos moradores da cidade mineira de Três Pontas, da família e da própria Betinha.  

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História completa

P1- Eu queria que você começasse dizendo seu nome, data e local de nascimento?

R- Meu nome é Elisabeth Aparecida Silva Campos, eu nasci em 19 de julho de 1959 em Três Pontas, Minas Gerais.

P1- E nome dos seus pais?

R- Josino de Brito Campos e Lilia Silva Campos. 

P1- E você tem irmãos?

R- Tenho três irmãos que é o Bituca, Fernando e Jaceline.

P1- E me conta como foi a sua infância em Três Pontas? 

R- Foi maravilhosa, porque só de ter ganhado mais dois pais na minha vida, porque eu também sou filha adotiva, e ganhar mais dois pais que trataram a gente como filho, porque nessa época adoção era um pouco complicada, porque as pessoas adotavam para as crianças para trabalharem, enfim, ter algum retorno em cima dessa adoção e que não foi o nosso caso, então foi muito bom ter sido adotada, ter ganhado um pai e uma mãe de novo.

P1- E o que você se lembra da dona Lilia?

R- É difícil falar dela, porque ela era uma fadinha, eu não posso falar se não eu vou chorar, fadinha, era uma maravilhosa que apareceu na vida da gente que deu amor, carinho, tudo que um filho precisava. 

P2- E Seu Zino? 

R- O pai já era aquele Professor Pardal, mais durão, mas muito inteligente e muito paciente também. Não participava muito das coisas familiares, mas estava sempre atento, paizão também. 

P1- E qual ligação com o seus pais e avós com a música? 

R- Eu acho que não teve muita ligação, a única ligação foi que a minha mãe cantou no Coral do Villa Lobos e que minha tia, irmã dela, tocava piano, essa é a ligação assim que eu vejo da família. 

P1- E você teve alguma ligação com a música, alguma coisa de infância. 

R- Eu tive com eles, com o Bituca, com o Márcio, com o Beto, com eles, escutei músicas com eles. 

P1- Mas antes da sua adolescência, voltando um pouquinho a sua infância?  

R- Assim, eu sempre gostei muito, tanto é que toda vez que eles iam para Três Pontas, eu fazia teatro, me apresentava para eles e tal, sempre gostei de música. 

P2- Como era a sua casa?

R- Era a mesma casa de hoje, era uma casa super frequentada, era uma casa que sempre estava cheia de amigos, porque eram os meus amigos, os amigos do Bituca e sempre muita gente dentro de casa, era assim.

P1- Quando você fala Bituca, é o Milton Nascimento. Qual é a versão que você sabe sobre apelido?

R- É porque ele estudava no Grupo, como se chamava na época, eu não sei se é assim ainda e um amigo dele bateu lá porta de casa, isso foi minha mãe que me contou, e um amigo dele chamando pelo Bituca. Aí ela falou: “Quem é Bituca?”. “É o seu filho Bituca”. “Mas por que Bituca?”. “Ah, porque ele é Botocudo, então para ficar mais carinhoso Botocudo ficou Bituca.”

P1- E quais eram as brincadeiras da sua infância?

R- Acontecia muito roubar muita fruta (risos), queimada, ouvir música, fazer teatro, brincar na pracinha, eram essas brincadeiras.

P2- Quais são as suas influências musicais na infância, o que se ouvia na sua casa?

R- No caso o que eu ouvia, o Bituca ouvia. No ambiente familiar rolava Crosby, Stills, Nash & Young, Aretha Franklin, Michael Jackson, Cat Stevens, era tanta coisa. Depois veio o Beto com Yes, com Genesis é uma salada muito boa.

P2- Qual é a diferença de idade entre você e seus irmãos?

R- Aí a gente vai ter que fazer uma matemática. Primeiro é o Bituca, depois o Fernando, eu e Jaceline.

P1- Agora tenta lembrar um caso engraçado lá de Três Pontas.

R- Essa é a parte mais difícil, porque tem muitos casos engraçados. Eu posso ir tentando lembrar e depois tentar encaixar. Eu vou ficar com isso na cabeça.

P2- Qual é a sua lembrança mais antiga do Bituca como artista?

R- Nossa, a minha lembrança mais antiga foi quando ele saiu na revista Cruzeiro, na Manchete e na Fatos e Fotos, quando ele ganhou o Festival da Canção, o ver sendo carregado pelos amigos com o Galo de Ouro, foi a primeira vez que eu vi o sucesso dele e daí em diante, não parei mais de ver.

P2- Você tem alguma lembrança de vocês dois como irmãos, juntos?

R- A lembrança mais legal é que em todas as férias ele trazia a gente para o Rio e aí ele era obrigado a levar para a praia, ao Tivoli Parque. Ele fazia um papel de pai, de irmão, de tudo e ele gosta de criança, até hoje gosta muito. Então era um barato porque acabava que ele participava com a gente de todas as brincadeiras, entrava no Trem Fantasma com a gente e participava mesmo, ele virava uma criança também.

P1- E das visitas dos amigos do Bituca em Três Pontas?

R- Era um aluguel, porque eu queria cantar, para ver se ia, eu queria interpretar, eu queria mostrar que eu também queria ser artista. Então era um aluguel porque eu queria me apresentava para eles e ainda cobrava o ingresso, e aí esquecia a cena (risos), voltava, mas eles prestigiavam.

P1- E era legal esse movimento dos amigos chegando a Três Pontas?

R- Era, tudo o que eu queria é que eles chegassem, que aí eu já botava um bilheteiro na porta da garagem, cobrava os ingressos, botava as cadeiras da copa, da sala de jantar no quintal e me apresentava.

P2- Que tipo de apresentação você fazia?

R- Cantava Travessia, porque tinha acabado de acontecer isso tudo e a Noviça Rebelde também, porque eu também tinha acabado de ver o filme, era isso. Era basicamente dançando igual à Noviça Rebelde, cantando.

P1- E qual era a reação?

R- Todo mundo aplaudia. (risos)

P2- Quantos anos você tinha?

R- Eu devia ter nessa época da Travessia, tipo oito ou nove. Tinha uma cortina que era um lençol que eu mesma abria, eu mesmo fechava, eu que administrava todo o teatro.

P2- E a Jaceline contracenava com você?

R- Não, ele era pequenininha.

P1- E esse movimento da turma em Três Pontas, mudava muito o habito da cidade?

R- Mudava, praticamente virava um feriado, porque quem trabalha, não ia trabalhar para poder encontrar com todo mundo, pra poder sair, tocar, ver o pôr do sol, enfim, curtir coisas com eles que eles sabiam mais do que a gente, porque eles moravam fora. As coisas aconteciam mais rápidas para eles, então a gente adorava quando eles chegavam, porque eles mostravam pra gente o que estava acontecendo, o que estava rolando.

P2- E quem são eles?

R- Beto, Lô, Marcinho, o Telo, o Nico, Guarabyra, essa galera. Zé Rodrix, o Wagner, Miúcha teve uma época que foi lá. Cada época era uma turma, eles iam conhecendo cada vez mais gente, então ia aumentando.

P1- E todo mundo ia a Três Pontas.

R- Todo mundo.

P2- E o que vocês faziam então?

R- Dependia da época. Se fosse carnaval a diversão era correr atrás do boi, ou o boi correr atrás da gente, ou a gente fazia um bloco de todo mundo que tinha ido. Dependia da época.

P-1 Então conta um pouco das suas viagens para Diamantina.

R- Eu, na verdade, viajei com eles uma vez para Diamantina que eu nem me lembro nem para o que quê foi, nem sei o que estava sendo filmado, era um especial, alguma coisa. E foi ótimo, porque assim, nessa época a gente conseguia fazer da filmagem, um lazer também, era tudo muito espontâneo, muito natural, muito carinhoso, fluía de uma maneira profissional e ao mesmo tempo, boa demais, muito prazeroso estar todo mundo junto.

P1- E teve alguma para Ouro Preto com Tavinho Bretas?

R- Com o Tavinho Bretãs, eu não tenho certeza se foi para Ouro Preto ou para Belo Horizonte.

P1- E o seu primeiro contato com o Disco Clube da Esquina?

R- Foi maravilhoso, porque assim, eles gravando na Odeon ali em Botafogo e a gente vindo de Três Pontas, podendo estar dentro de um estúdio, vendo como é que acontece um disco e acontecendo era mágico, era tudo muito mágico, porque às vezes tudo fazia ali, ou já estava pronto, mas era emocionante ver gravar e ficar horas no estúdio. Muito bom, foi uma época boa demais.

P1- E do Clube da Esquina nº2?

R- Eu estive no Clube da Esquina nº2, uma vez, porque aí eu já estava morando em Belo Horizonte, estudando, com compromissos então não podia estar presente como no um. No um eu era menor, era época de férias, eu ficava um tempo. Mas esse eu já não participei tanto, eu estive uma vez no estúdio e eu também não me lembro da música que estava sendo gravada neste dia, sei que tem até a foto de todo mundo no estúdio do nº2, é a foto de todo mundo que esteve no estúdio e no nº1, são fotos de um apanhado geral. Então não me lembro direito, eu estive uma vez.

P1- E desse disco, principalmente Clube da Esquina, quais as músicas mais significativas?

R- “Tudo que você podia ser”, “Hoje é dia Del Rey”, “Tarde”, “Outubro”, “Rio Vermelho”, “Irmão de Fé”, “Itamarandiba”, “Cravo e Canela”, “Fé cega e faca amolada”. Tudo, você vai ouvindo e vai resgatando, vai levando.

P2- E você esteve naquele festival em Três Pontas?

R- Foi o Festival no Paraíso, eu devia ter uns 14 anos, foi uma loucura, por isso que eles chamam de Segundo Woodstock, porque acabou água, acabou comida. Porque a cidade não estava preparada para receber tanta gente, então não tinha uma infraestrutura e foi virando uma loucura, mas, ao mesmo tempo, muito bom, muito emocionante, porque Chico, Fafá, Clementina de Jesus, Gonzaguinha no meio do mato, no meio de um nada. Naquela época, levar aquilo tudo para cima daquele morro. O Paulo Pila um gênio com a montagem que ele fez, ele pensou até na lata de lixo para colocar lá em cima e o show aconteceu do seu jeito, mas aconteceu.

P2- Você foi?

R- Eu fui, eu filmei com câmera de Super 8 que eu tinha ganhado de um namorado, mas lá pelas tantas eu passei a câmera para um afilhado do Bituca, o Sossoca e ele passou a câmera rápido, então assim, eu tenho até que procurar isso, porque eu acho que eu tenho pelo menos a parte que eu filmei, eu acho que rola legal. Mas quando eu passei pro Sossoca, o negócio virou uma... Eu preciso encontrar, porque realmente agora eu não sei, eu acho até que está em Três Pontas, fantástico isso.

P2- Então teve esse festival que mobilizou a cidade e o Milton participou?

R- Participou, ele cantou uma música que é “Viva Belém” do Tucupi e do Tacacá e depois, ele realmente estava tão emocionado com a situação que os amigos acabaram dando conta do resto do recado. Aí entrou a Clementina com Circo Marimbondo que foi o maior barato, o Gonzaguinha, é difícil falar, eu não lembro qual que foi o repertório, mas “Viva Belém” do Tucupi, essa foi inesquecível.

P2- E seus pais foram?

R- Foram.

P2- Como eles viam ou como, até hoje, o seu Josino vê o Bituca, enfim, aquela criança que hoje se transformou em um dos maiores expoentes da música da nacional. O que seus pais diziam ou dizem a respeito disso?

R- É o orgulho da família, porque o Bituca sempre fez tudo sem muito pedir nada pra eles, então o retorno que o Bituca deu para eles é o motivo de serem super orgulhosos com o filho, é o xodó da família.

P2- E para a cidade de Três Pontas? Qual é o significado?

R- Eu acho, hoje eu tenho certeza disso, mas também é um orgulho pra cidade, porque a cidade quantas vezes foi mencionada, quantas vezes foi levada para o mundo inteiro através dele, através da voz dele e ele sempre, sempre fez questão de dizer que é de lá e não é, ele é do Rio de Janeiro. Ele botou Três Pontas no mapa, ele ama a terra e eles gostam dela.

P2- Você conta que houve muito essa ida, esse movimento de vários artistas que foram a Três Pontas, você acredita que uma parcela do Clube da Esquina tenha se formado a partir lá da cozinha da sua casa? Parece que o seu Josino contava que havia um grande movimento na cozinha, o pessoal tomando café, você acha que tem uma parcela da sua casa no Clube da Esquina?

R- O Clube da Esquina na verdade veio através do Lô, do Beto, do Bituca, do Marcinho e que foi crescendo, porque eles não paravam de fazer amigos, aquela época era pra fazer amigos. Então foi crescendo e aí o Clube foi aumentando porque eu acho que de certa forma, todo mundo foi entrando para esse Clube e hoje eu acho que já deve ter muita gente, eu não sei.

P2- E a esquina lá de Belo Horizonte, você chegou a frequentar?

R- Eu não frequentei muito Santa Tereza, essa época eu não sei, o Bituca tinha saído de Três Pontas, eu ainda era pequena, eu acho que eu não peguei muito essa história, eu ouvi muitas histórias, mas não participei.

P1- Mas na casa dos Borges você chegou a ir?

R- Participei de alguns almoços, alguns acontecimentos, sempre bom demais também porque a família Borges inteira, enorme também e juntava com todo mundo lá de fora, então não tinha como não ser gostoso, não tinha como não ser bom.

P1- Você é casada? 

R- Sou.

P1- E onde você mora?

R- Moro no Rio de Janeiro há 20 anos.

P1- Fala dos seus filhos.

R- Eu tenho três filhos, Dadáia que é a minha Jennifer Lopez, eu não sou de babar ovo de filho, não, mas ela é muito bonita, João Vitor que é uma gracinha de garoto, que já não é mais um garoto, já está virando um super rapaz, hoje, ele faz comunicação e radialismo e toca com o Bituca eventualmente, de vez em quando, ele está sempre dando uma canja na percussão, ele é baterista, tem uma banda de rock, de vez em quando toca com a Maria Lucia Priolli também e está indo, fazendo a vida dele. E a Cecília que tem oito aninhos e que também me parece que vai seguir o lado artístico porque ela faz uma escola de musicais que chamada Gato e Sapato, ela faz teatro, dança, circo e tem três anos que ela já se apresenta para o público. E Dadáia faz Direito e se forma esse ano, é o maior presente que eu pude ter que são os filhos, é um barato, adoro eles.

P1- E seu trabalho?

R- Eu já fiz de tudo. Eu, quando cheguei ao Rio, trabalhei numa produtora do Paulinho Lima que, na época, tinha lançado a Gal Costa, depois ele montou uma firma com a Ana Terra que se chamava Luz da Cidade onde eu trabalhei com A Cor do Som, Quinteto Violado, Marcelo, Luiz Melodia, a gente trabalhava no teatro Tereza Raquel e no Teatro Ipanema. Depois ficou complicado porque eu não conseguia estudar e trabalhar na noite ao mesmo tempo, aí fui trabalhar com o Bituca, tipo quando ele entrava no estúdio eu fazia assistência de produção de alguns discos dele, durante alguns anos. Depois eu resolvi tentar traçar um caminho, mas quando eu comecei a traçar esse caminho, graças a Deus que eu tinha esse trabalho alternativo, então a gente foi batalhando, comprou um carro e eu entrei num ramo completamente diferente que é o transporte escolar. E hoje eu trabalho com as crianças e como uma coisa puxa a outra, é todo mundo filho de artista, de diretor de cinema, de teatro, então eu trabalho com uma criançada muito bacana que eu adoro, que não é igual à música, mas que também eu fico muito grata. Eu costumo falar que o meu trabalho, hoje eu me chamo de Rodo-Moça, mas estou feliz. E claro continuo tendo um contato com a música, porque não tem como não ter, porque vivo ligada ao Bituca, ao Marcinho, aos meninos e é isso.

P2 – O Márcio contou que quando ia a Três Pontas, você era pequena e falava que o seu noivo ia chegar.

R- Eu sempre fui muito danadinha. Até a Cecília me puxou e eu amava paquerar eles (risos). Todos eles eram bonitos, mas o Marcinho me tocava mais, os olhos verdes, baixinho, magrinho então eu falava: “Você quer me namorar?”, e ele falava: “Eu não sou seu namorado, eu sou seu noivo”. E aí eu viajava nesse noivado.

P1- Então Betinha, o que você achou de ter dado essa entrevista?

R- Muito bom. Clube da Esquina eu acho que tem que, Marcinho, você falou uma coisa certa: “Eu quero viver os últimos anos como eu vivi os primeiros”. Eu acho que esse resgate não é uma nostalgia, é uma memória afetiva da pesada, incrível e que tem que fazer valer.

P1- E essa ideia do Museu?

R- Eu acho maravilhoso, eu acho que tem que botar pra funcionar para os que estão vindo, para os que vão vir, isso tudo que aconteceu, porque se a gente não colocar na memória, como é que eles vão saber que existiu todo mundo? 


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