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História

Enxergando além da visão

História de: Adriane da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/09/2014

Sinopse

Adriane é alegre e expansiva. Ao contar sua história, ela fala sobre o problema que deu origem à sua cegueira. Relembra as brincadeiras de infância em Ferraz de Vasconcelos. Discorre sobre os problemas que teve que enfrentar para aprender a ler braile, se locomover pela cidade de São Paulo e como cada vez mais sua autoconfiança tem melhorado com a ajuda dos professores do Cieja da Vila Sabrina. Finaliza o depoimento falando sobre o seu batizado, o dia mais importante de sua vida.

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História completa

Meu nome é Adriane da Silva, eu nasci em 1973, tenho 41 anos, e nasci em São Paulo, em São Miguel Paulista. Eu lembro assim muito pouco, do meu avó, ele ia de vez em quando em casa, visitar a  gente e a gente ia lá na casa dele. Era muito legal quando ele ia lá em casa, ficava conversando com a minha mãe.  Ele era de Minas, era caminhoneiro O nome da minha mãe é Olinda Faustino da Silva. Minha mãe nasceu no Tucuruvi, aqui em São Paulo. Minha mãe sempre foi independente sempre trabalhou, e minha mãe foi uma guerreira, sempre lutou pra dar sustento pra mim, pras minhas irmãs. O meu pai, eu não sei muita coisa dele, o nome dele é Carlos Alberto Mota. Minha mãe é mãe solteira e por isso eu não tive convivência com ele, eu sempre fui criada pela minha mãe. Meu pai já morreu faz tempo. Eu tinha contato, ele ia em casa visitar a gente, ele conversava comigo, brincava, ele era muito brincalhão, muito legal. Minha mãe era copeira hospitalar.

 

Eu brincava de fazer bolinho de terra, brincava de boneca, essas coisas assim. Eu não era de sair na rua, por causa da minha deficiência.  Foi um erro médico, porque eu nasci de 6 meses incompletos e me colocaram na incubadora e não tamparam minhas vistas e queimou as retinas e eu fiquei assim. Só que não avisaram a minha mãe, minha mãe não sabia. Eu tenho duas irmãs. A mais velha é Andrea da Silva, ela tem 43 anos e a mais nova é a Amanda Cristina da Silva, ela tem 29 anos. Eu lembro que morei em uma casa que o bairro se chamava Castelo, lá em Ferraz de Vasconcelos, eu lembro que a casa era muito grande e atrás dessa casa, tinha uma goiabeira onde eu ficava me balançando e ficava esperando minha mãe chegar do serviço. Depois, a gente se mudou pra rua que tem lá em Ferraz, que se chama Nove de Julho. Tinha a casa da minha tia que era na frente e a casa que eu morava com a minha mãe era nos fundos. Eu ficava mais com a minha tia, porque a minha irmã mais velha estudava, ainda não tinha minha irmã caçula, e eu ficava mais na convivência com minha tia, com as minhas primas. E era muito legal, que eu podia correr no quintal, andar atrás da casa, fazer meus bolinhos de terra e ficava lá assistindo televisão, brincando de boneca.

 

Eu estou me alfabetizando agora, depois de adulta, porque minha mãe sempre procurou escola pra mim quando eu era pequena, mas eles falavam que não dava. A minha irmã caçula tem uma amiga, que conseguiu pra mim, uma entrevista na escola que estava, na Adeva, que é escola pra deficiente visual e a gente foi fazer a entrevista. E eu estava aprendendo o braile com meu ex-professor João, que é ótimo, que é uma ótima pessoa também, e foi estranho, logo a primeira vez que eu cheguei lá, pra aprender a andar sozinha, a fazer locomoção que se fala, olha, foi muito diferente, mas foi bom, foi legal, muito bom. O professor João, ele é deficiente visual, então ele foi me ensinando o alfabeto, o braile, que tem o alfabeto colado, depois eu aprendi, tentei escrever na reglete, que é um tipo de material que tem pra deficiente visual, mas não deu muito certo, porque eu não consigo, não consigo! Já na máquina, eu consigo, na máquina braille é mais fácil, foi muito bom, cada coisa nova que eu aprendia pra mim, era um passo que eu estava dando. Foi muito bom, foi uma mistura de sentimentos bom e assustador. Primeiro foi uma reunião que teve explicando como que ia ser, depois, cada um dos alunos se conhecendo, tal, foi muito bom, gostoso, maravilhoso. É tudo adulto já, tudo adulto que tinha voltado a estudar ou pessoas que já sabiam ler e escrever, que ficaram deficientes visuais, cada um tinha uma história ali. Mas eu não vou saber lembrar a história, não, porque faz muito tempo. Isso foi em 2011, 2012. Estava sendo muito cansativo pra minha mãe, que ela enfartou, em 2010, ela não andava se sentindo muito bem. Depois que conseguiu a transferência aqui, melhorou. A Adeva é muito boa, muito boa, excelente, maravilhosa. Eu morava no Jardim Brasil, eu mudei pro Jaçanã. Meu horário no Cieja é das dez ao meio-dia e quinze. Foi menos tenso do que da outra escola. Era tudo novidade, comecei no dia 5 de fevereiro desse ano, caiu numa quarta-feira. Era uma coisa nova, eu tava mesmo em uma sala de aula, a professora Neusa, que é uma ótima pessoa também, gosto muito dela. E foi muito bom, muito diferente, descobri coisas diferentes que até então eu não tinha vivido. Eu estou aprendendo o alfabeto, eu estou aprendendo a mexer no espaço, inclusive o professor Marcos, que está aqui ele é ótimo, maravilhoso, ele ensina bem, ele é um ótimo profissional. Então, é legal, eu estou aprendendo a escrever no teclado normal, sem ser o teclado em braile, o alfabeto normal, é muito gostoso, porque é uma coisa diferente.

 

Na infância eu corria pra tudo quanto era lado, eu andava na ponta do pé, que eu caí do caminhão do meu tio quando eu tinha dois anos. Encolheu o tendão da perna, não vou saber te explicar, eu sei o que os médicos falam. E imagina, isso não atrapalhava em nada, não, eu brincava, eu brigava, tudo ao mesmo tempo.  Ando com a minha mãe, faz tempo que eu parei de fazer aula de locomoção que eu mudei de escola. Mas por exemplo, já lá na escola eu já conheço o ambiente. Já estou mais ou menos familiarizada lá, eu ando ali, com tranquilidade, sem medo de cair, nem nada, até porque, não tem nada pra tropeçar, nem pra cair. Eles ensinam como o deficiente deve andar com a bengala, a posição da bengala, como atravessar a rua, quando você tem que prestar atenção. Na minha casa, eu desço e subo a escada, toda hora. Como eu vou de perua agora eu fico mais tranquila. Eu não gostaria, mas é um medo de você estar em um lugar que você não está acostumado, todo dia. Você tem aquela coisa do medo, da insegurança, de você estar com estranhos, então fica aquela coisa de medo.

 

A minha casa, ela é grande, tem um quarto embaixo, tem dois quartos em cima, é um sobrado, tem uma lavanderia embaixo, bem fechadinha, bonitinha e tem a lavanderia lá em cima, você tem que subir as escadas pra ir pros quartos e sobe outra escada pra ir pra lavanderia, é grande lá, bonito a minha casa, legal.  Eu fazia aula de violão lá, no Lara Mara, eu estava indo bem, eu nunca tive um violão meu próprio, é um instrumento que eu gosto muito, acho muito bonito. Haja paciência pra aprender, tem que ter paciência, mas é legal, tudo com paciência, dá certo. Eu tava aprendendo aula de violão lá, a professora saiu de lá foi embora e eu parei. Eu gosto de filme e depende eu gosto de novela, depende dos filmes que eu gosto, não todos. Sou muito católica e devota de Nossa Senhora Aparecida. Eu gosto de ir pra Aparecida do Norte também, quando dá a gente vai assim. Eu sou católica porque minha mãe sempre ensinou a gente assim, a rezar, a ir na missa, a importância de uma religião pra gente, me sinto bem na minha religião, eu amo ser católica, gosto muito, me faz muito bem, eu gosto de ouvir o padre Marcelo, o padre Juarez de Castro, o padre Antônio Maria, é muito gostoso, eu amo ir na missa, eu já fui na missa do padre Marcelo, muito boa.

 

Eu quero me alfabetizar ainda pra poder fazer o meu curso de culinária, eu já fiz curso de artesanato também, aprender a fazer cachecol no tear, é muito gostoso, é muito legal, eu gosto de artesanato, é muito bom. No começo foi difícil, porque até então, eu só tinha ouvido falar e fazer esse curso de tear por causa da Kátia Fonseca, do “Mulheres”. Foi ela que me incentivou. Então eu falei pra minha mãe: “Eu quero aprender a fazer alguma coisa no tear”, eu contei pra ela como é que a Kátia estava fazendo tudo, muito legal e eu fiz um cachecol pra minha mãe, no tear, não foi fácil, mas que eu fiz, eu fiz. Eu sou muito persistente. E eu não gosto de ser desafiada, quando a pessoa fala: “Ah você não vai conseguir tal coisa”, é que eu faço. Eu consigo. Gosto de fazer comida. Minha mãe me ensinou porque eu ficava muito sozinha. Eu ficava sozinha em casa, minha irmã caçula estudando, minha irmã mais velha trabalhando e minha mãe também. Minha mãe me ensinou a cozinhar, porque eu comia comida fria, não sabia esquentar comida, minha mãe me ensinou tudo que eu precisava saber. Sei fritar um ovo, sei temperar feijão, fazer arroz, fazer macarrão alho e óleo, tudo, tudo que precisa, eu faço. Eu fico com a minha mãe, a gente almoça às duas horas, depois a gente fica assistindo a novela.

 

Quando dava a minha mãe levava a gente pra praia. A gente ia viajar, muito gostoso! E na viagem eu sempre fico acordada, não consigo dormir, não adianta. Tenho que ficar prestando atenção em tudo. Eu não tenho visão boa, mas a minha audição é ótima. É uma delícia. É ótimo. Indiscutível. Minha mãe levava eu e a minha irmã mais velha pra Santos. Quando a minha irmã caçula ainda não tinha nascido, nossa, que delicia! A gente se divertia na água, na areia, era muito gostoso, muito legal. Por isso que eu digo pra você, a minha infância foi abençoada, maravilhosa, agradeço a minha mãe por isso. A pessoa que enxerga não usa muito tato, mas pra gente é indiscutível. Eu gosto muito de artesanato, artesanato é relaxante, é bom, eu sei fazer até artesanato no sabonete. Muito legal. É mais fácil, então, depende do guardanapo que você tiver, da estampa que você tiver, você só rala um pouco o sabonete, depois, você passa aquela lixa de artesanato no sabonete, passa cola e cola assim a estampa que você quiser e  pronto. Fiz curso na escola que tinha perto da minha casa, que era lá no Jardim Brasil. E tinha artesanato lá e minha mãe foi ver, eu me interessei e fui fazer, legal, não precisava pagar nada, muito gostoso.

 

Eu caí do caminhão do meu tio, fiz a cirurgia da perna já adulta também, depois, eu fiz mais uma cirurgia, operei os tendões, mudanças na vida que a gente tem, às vezes, pode até todo mundo dizer que é castigo, não sei o que, mais pra mim, é amadurecimento, muito legal.  Eu fiquei com escoliose eu fiquei com problema na coluna, eu tive que operar, fazer esse alongamento de tendão, eu não vou saber te explicar que é coisa de médico, coisa de médico pra gente, que é leigo sempre é complicado. Agora eu estou andando direito, porque antes eu andava na ponta do pé. Então eu sempre brincava com a minha mãe que eu era a bailarina do Municipal porque eu andava na ponta do pé.

Em 2004 fui batizada. Foi no dia 13 de novembro de 2004. Caiu no sábado. Que momento lindo! Ótimo, meus padrinhos, minha mãe, minhas irmãs, todos que me conhecem, familiares, conhecidos, todos ali no meu batizado, pra mim foi um grande momento. Depois, no mesmo mês, no mesmo ano, no dia 20 de novembro do mesmo ano, eu fiz minha primeira eucaristia, é muito importante pra quem é católico assim, nossa, é um momento meu, momento que eu me senti a pessoa mais feliz da face da terra, momento lindo, meu, maravilhoso, muito bom.

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