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História de: Joel Gomes da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/09/2013

Sinopse

Em seu depoimento Joel recorda sua infância nas cidades de Pindaré-Mirim e Santa Inês. Ele lembra quando mudou para a região do Jari, para trabalhar e em busca de melhores condições de vida. Conta seu envolvimento com o movimento estudantil secundarista e com teatro. Recorda seu envolvimento com política e com ONGs. Com muita convicção fala sobre a criação da Academia Laranjalense de Letras que ajudou a fundar com amigos de Laranjal do Jari e como ajudou a montar a biblioteca da Academia.

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História completa

Eu nasci numa cidade chamada Pindaré-Mirim, no Estado do Maranhão, no dia 8 de dezembro de 1971. Naquela região tem um rio chamado Rio Pindaré, que na língua indígena quer dizer pedra pequena. Eu saí de lá com 16 anos de idade, nós mudamos para Santa Inês, e nessa cidade eu fiquei até os 18, quando eu vim para região do Vale do Jari. Ela possui a economia baseada no pescado e não tem grandes indústrias. Pindaré-Mirim é que tem mais de 90 anos.

 

O primeiro nome da cidade era Ponta da Linha porque tinha um trem que carregava a cana, então por isso aonde findava. Depois a BR-316 passou mais próximo de lá do que na cidade Pindaré-Mirim e impulsionou o crescimento de Santa Inês. Hoje Santa Inês deve ser a quinta cidade do estado e Pindaré não chega a 100 mil habitantes. O nome do papai é André Gomes da Silva, ele é piauiense, mas com uns dez anos de idade mais ou menos, o vovô mudou-se para o Estado do Maranhão. Nós somos quatro irmãos, duas irmãs e dois irmãos. O meu irmão mais próximo é mais velho do que eu 12 anos. Então quando eu nasci eu já não conheci o avô paterno e o materno, conheci as duas avós.

 

Papai sempre foi lavrador, hoje agricultor. Ele mora em uma cidade chamada Santa Rita, próximo de Miranda no Estado do Maranhão e continua trabalhando com horta. Tem mais de 85 anos de idade. A minha mãe sempre trabalhou em casa, também para ajudar na renda trabalhava com bordado e essas toalhas para cozinha, toalha, roupa também. A nossa casa na cidade de Pindaré, a que nós moramos até o ano de 86, era uma casa simples, feita de que chamam de sapê, pau-a-pique e barro e coberta com palha de babaçu, coco babaçu, que lá você tira o olho do coco, da palmeira, abre e cobre a casa. Nós mudamos para Santa Inês, também era uma casa em um bairro chamado Jardim Tropical e também era uma casa de sapê. A maior parte da família mudou-se para Santa Rita e ficou apenas a mamãe e uma irmã em Santa Inês. Essa minha irmã que ficou em Santa Inês comprou uma casa em São Luís e para mamãe não ficar só lá em Santa Inês, ela acabou mudando-se ano passado para cidade de Santa Rita. O papai morou muitos anos numa cidade aqui próxima, no Estado do Pará, chamada Monte Alegre. Oficialmente, eles passaram um tempo distanciado, mas oficialmente continuavam casado, nunca houve uma separação nesse sentido.

 

Teve vez dele passar cinco anos sem retornar. Não querendo me vitimar, mas eu acho que nesse caso eu fui o mais prejudicado, porque eu fui o único que não tive ali a presença do pai, e isso é muito importante, você ter a figura masculina. Eu falo isso, mas tenho rancor, não tenho raiva. Eu lidava bem com a situação, porque a minha mãe me disse por várias vezes que eu sou diferente, diferente dos irmãos, diferente das pessoas, eu não tenho tanto problema. Eu comecei estudar em 81, na época chamava o primário. A minha mãe e minha irmã me ensinaram a ler e escrever em casa, mas só depois que a mamãe foi perceber que isso não era o aconselhável. Me levaram para escola, eu com dez anos de idade fazendo o primeiro ano. Aos 14 anos eu tive um problema, que hoje chamam derrame. A seqüela foi na vista. Eu uso óculos, mas para longe, para próximo eu tenho que tirar os óculos. O olfato, eu não sinto como todas as pessoas. Eu comecei a escrever em 96 e fui descobrir que os primeiros textos que eu fiz foram dois sonetos. Eu gosto muito do soneto, está com mais de dez anos que eu não consigo escrever. Talvez seja bobagem, mas talvez eu nunca consiga escrever outro tipo de literatura que não seja o soneto. Eu saí de casa com 16 anos, justamente quando nós mudamos do Pindaré para Santa Inês. Eu fugi, para ir atrás de papai. Quando nós retornamos, para mim era uma glória, ter o pai e a mãe juntos novamente e foi muito bom.

 

Eu era cobrador de uma autopeça, de uma casa que vende peça para carro, lá em Santa Inês, chamado Grupo Brasil. O emprego não era carteira assinada, eu não tinha idade para ter carteira assinada. Eu tinha amizade com um policial da Polícia Rodoviária Federal que me indicou. Depois apareceu a oportunidade de vir para cá, para essa região, eu tinha uma prima e um primo que morava. No dia 4 de fevereiro do ano de 1990 eu vim para cá para trabalhar. Vim passar três meses e passei dois anos. Na época vim trabalhar nas áreas que a empresa, que a Jari tem, de eucaliptos, na época pinho, era cortando, roçando, cortando. Eu trabalhei cortando uns dois meses e depois, tinha uma vila aqui chamado Vila de São Miguel, onde a minha prima morava e eu fui para lá. Lá eu trabalhava na própria vila. Era uma espécie de uma terceirizada, tem a empresa Jari e tinha na época tinha um que chamado SASI, que era Serviços Silviculturais. Eu pegava aqui mudas, pé de café daqui da região, levava para Monte Alegre, trabalhei um pouco com vendas.

 

Como no São Miguel não tinha escola de nível médio, só tinha do nível fundamental e eu fiquei impossibilitado de todas as noites, eu vim para o Monte Dourado estudar para concluir o ensino médio, então retornei, passei um mês lá com a mamãe e vim para cá. Em 98 eu mudei para o Laranjal. Então eu comecei trabalhar, aqui a Justiça do Estado tinha um projeto chamado Projeto Pirralho, que era um trabalho para criança e adolescente que estão em vulnerabilidade social. Então tinha várias oficinas, teatro, de dança, de artesanato, e fui convidado para coordenar a oficina de teatro, pela experiência que eu tinha e pela oficina que eu tinha feito pela Federação Amapaense de Teatro. Depois disso eu fui Secretário Municipal de Meio Ambiente aqui do município, isso dez anos atrás, depois eu fui Gerente Local do Pescap, que é a agência de pesca do Estado do Amapá. E em 2011, 2010 eu consegui um contrato do Camp do Rio Grande do Sul que trabalha com educação popular. Comecei a estudar, fazer o ensino médio, numa escola aqui chamada Mineko Hayashida e comecei a militar no grêmio, no movimento estudantil, disputei eleição do grêmio da escola, não tive êxito.

 

Então, criamos logo em seguida a entidade municipal, no caso a UMES, União Municipal dos Estudantes Secundaristas e, eu acabei me filiando do PCdoB, Partido Comunista do Brasil. Em 2000 eu fui candidato a vereador, para nunca mais. Eu me encontro bem melhor na questão social, de ONGs. Não foi fácil, eu não tinha onde morar, eu morava na casa da mãe de uma amigo. Depois eu já tinha uma esposa, conseguimos comprar um terreno e construir uma casa bem simples para sair do aluguel, então, estamos aqui até hoje. A minha esposa era evangélica, tinha se afastado, estava sendo umbandista e, depois ela retornou para igreja e um ano após também retornei e estamos até hoje. Eu cursei Teologia aqui mesmo no Laranjal, foi à primeira turma, foi formada em 2008. Acabou que eu fiz e 50% do curso, eu comecei a gostar Teologia, porque eu tinha outra visão. Depois de formado eu entrei para o Conselho Federal, sou um dos representantes do Conselho Federal de Teologia aqui no Estado do Amapá. Em 96 tinha um jornal local e eu vendia matéria paga para o jornal. Eu só vendia anúncio, na verdade o espaço para o anúncio, e certo dia eu cheguei à edição do jornal e tinha um senhor que estava falando e eu percebi no bolso da camisa dele um santinho, ele era candidato a vereador. Começamos a conversar sobre literatura e ele me passou o endereço dele. Fui à casa dele, umas duas semanas após. Ao chegar o Helomar já estava lá. Mais tarde surgiu a discussão da criação de uma associação de poetas e escritores e marcamos uma reunião, que seria em Monte Dourado.

 

E começamos a marcar uma bateria de reuniões. Em 2003, eu era Secretário de Meio Ambiente e fui à cidade de Castanhal no Estado do Pará, Belém e Castanhal, Belém fazer um curso e em Castanhal checar de perto uma experiência de reciclagem, que a ideia era, na medida do possível, trazer para cá algo parecido. E um amigo que é sindicalista, o Domingos Eleres, que ele é de Castanhal, estava morando aqui, ele me levou a Academia Paraense de Letras. Essa noite eu só dormi depois que li todo o estatuto e o regimento interno da Academia Paraense de Letras, quando ao retornar nós digitamos o Estatuto da Academia Paraense de Letras e o regimento interno na íntegra para depois fazer as alterações para nossa Academia Laranjalense de Letras. Nós levamos uns quatro meses, mais ou menos, reunindo, e discutindo, conseguimos fechar com quinze pessoas. Doze pessoas assinaram a ata de fundação, então ficaram três cadeiras vagas. A professora Ana Goretti foi a única mulher a participar da fundação, isso em 2003.

 

Em 2005 nós lançamos o edital para as cadeiras que estavam desocupadas e três pessoas se inscreveram. Toda Academia de Letras tem a sua biblioteca, então essa biblioteca é da academia e foi aberta ao público em 2005. Nessa biblioteca vêm pessoas do ensino médio a pós-graduando, fazer pesquisa. Começamos a discutir o que nós chamamos de Projeto Farol, que seria um trabalho voltado para outras áreas convergindo com a literatura, seria o trabalho da educação popular. Nós planejamos de 2006 a 2016, 2016 nós iríamos sentar e avaliar. Só que esse projeto avançou e acabou sufocando a academia. Agora estou sem remuneração fixa, tenho algumas atividades minhas, mas que ainda não estão dando rendimento, porque eu consegui um terreno aqui e pretendo trabalhar com apicultura e outras atividades Mas eu também sou professor. Eu sou pós-graduando em docência do ensino superior, e por esse fato eu já fui chamado para dar aula na Faculdade de Teologia. Nós entendemos que o que nós já fizemos enquanto instituição e pessoas para cultura local e para literatura foi muito pouco. Em relação aos Correios, o acervo que nós temos aqui nós não compramos nenhum livro, todos esses livros foram doados.

 

Temos uma campanha permanente, então, segundo o bibliotecário, o livros que chegaram de São Paulo, mas não tem nenhum registro dos Correios, mas veio pelos Correios. Estamos na fase de pesquisa, uma exposição sobre os Correios, a história dos Correios, como surgiu, onde surgiu, até o momento, pois julgamos que é importante, porque nós criamos criar aqueles clubes, por mais que não seja institucional, mas um grupo para discutir o selo, a importância do selo, a coleção do selo. Eu costumo dizer que eu não tenho sonhos, talvez fosse um sonho que, para mim, na minha ideia particular e pessoal, eu acho que sonho é mais aquilo que não depende só de você, depende de 90% dos outros e apenas dez ou menos de 10% de você. Mas o sonho, meu sonho é ganhar o Nobel de Literatura, o problema é que ainda não nasceu livro para ganhar o Nobel, mas é continuar a luta. Alguns me inspiraram: Machado de Assis, o Drummond, nos sonetos, Camões, na filosofia eu gosto muito da obra do Emanuel Kant, do Voltaire, do Marx. Na Teologia é o Leonardo Boff. A teologia da Igreja é muito rasa, não tem tanta profundidade, se é assim porque é assim e tal, eu não estou falando de questionamento de princípios, mas eu gosto do fervor, da formação, formação da ebulição.

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