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Entrevista na íntegra

História de: Geraldo Britto Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2010

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P - Geo, a gente começa sempre perguntando seu nome completo, o local e a data de nascimento.

R - Geo Britto, Rio de Janeiro, 2 de julho de 1969.

P - Geo, eu queria que você falasse do trabalho que você desenvolve, do trabalho pelo qual você está aqui, desde quando começou, conta um pouco esta história.

R - Do Ponto de Cultura especificamente ou da instituição de uma maneira em geral?

P - Ponto de Cultura para começar.

R - Chamo Geo Britto, sou do Centro de Teatro do Oprimido. É uma entidade que existe há mais de 20 anos no Rio de Janeiro, que foi dirigido pelo Augusto Boal nos últimos 23 anos. Nós consideramos que sempre fomos um Ponto de Cultura já fazendo o que a filosofia dos Pontos de Cultura prega, no sentido de passar os meios de produção teatral para as próprias pessoas. Não só levar o consumo. Este é o trabalho que a gente faz. Nós somos um Ponto de Cultura e somos um Pontão. No nosso Ponto de Cultura, a gente trabalha no Rio de Janeiro com grupos do próprio Rio, onde desenvolve apresentações, ensaios e atividades de um modo geral. E no nosso Pontão de Cultura, que trabalha em 18 estados do Brasil e quatro países da África: Moçambique, Guiné-Bissau, Angola e Senegal, já o princípio é o mesmo, princípio da capacitação. Nestes 18 estados nós criamos nove pólos, pegamos dois estados, por exemplo, aqui em Goiás a gente juntava Goiás e Distrito Federal, então a gente fez duas turmas. A primeira turma a gente fez em Brasília, então as pessoas saíam Goiás e iam para Brasília e a gente fazia uma oficina de capacitação de 40 horas com pessoas de Pontos de Cultura e de movimentos sociais. Não só Pontos de Cultura oficialmente dizendo, mas movimentos sociais, que também consideramos que o movimento social também é um Ponto de Cultura. Então, o MST, o Movimento dos Sem Teto, Movimento do Passe Livre, aqui em Brasília, vários movimentos. A gente faz uma capacitação com as pessoas e estas pessoas retornam para seus Pontos de Cultura ou entidades e multiplicam o que aprenderam com a gente. A gente aprende com elas e elas vão e ensinam para os outros. A gente acredita que a melhor maneira de você aprender é ensinar. Então estas pessoas começam a multiplicar nas suas entidades e depois de um tempo elas retornam. E a gente faz um acompanhamento disto: ou através de visitas locais, ou através de relatórios que eles enviam pra gente. E depois, num segundo momento, tem uma oficina de aprofundamento com esta mesma turma. E aí eles voltam de novo para os seus Pontos de Cultura, suas entidades, e reaplicam novamente a técnica. E a ideia é você poder criar grupos teatrais que se utilizem do teatro para discutir suas próprias questões. O teatro do oprimido é um teatro de luta, onde você trabalha seus próprios problemas, suas próprias opressões, você teatraliza estas opressões para buscar alternativas concretas de transformação da sua realidade. A gente trabalha em favelas, trabalha com quilombos, com indígenas, trabalha com o Movimento dos Sem Terra, trabalha em escolas, em prisões, trabalha nos CAPS, que são Centros de Atenção Psicossocial da Saúde Mental. A gente trabalha com todo grupo social que quer, que é desejante de ter uma metodologia diferenciada para transformar a sua realidade. É mais ou menos assim que o processo acontece: a gente faz capacitações e as pessoas formam grupos, então estes grupos começam a apresentar nos seus Pontos de Cultura, depois fora do Ponto de Cultura, produtos artísticos desde pintura, poesias, que tenham a ver com a estética do oprimido. A última pesquisa que a gente fez junto com o Boal, que a gente desenvolveu; que saiu até o último livro dele agora. Este é o tipo de trabalho que a gente faz, no Brasil e na África também, porque na África, em Moçambique, são mais de 150 grupos de teatro do oprimido hoje, trabalhando nas onze províncias, que são os estados, como eles chamam, com a temática principalmente da AIDS. Porque a AIDS lá é uma fatalidade, não é uma fatalidade porque é uma questão humana, né? É uma emergência crucial, as pessoas morrem, a expectativa de vida é de 38 anos; para cada quatro, um é soropositivo. Então é uma emergência crucial e a gente faz este trabalho em várias partes do mundo.

P - Queria que você contasse um pouco sobre o projeto, quando entra o Programa Cultura Viva, quando o projeto se intercala.

R - Eu acho que o projeto se intercala de uma maneira muito natural do ponto de vista porque na verdade a ideia do Ponto de Cultura é uma ideia que ela é muito antiga. O Ministro Gil quando foi no CTO até falou que o Boal foi um dos idealizadores da ideia do Ponto de Cultura. Porque da época dos anos 1960, quando a gente tinha os CPCs, que eram os Centros Populares de Cultura, que funcionavam numa linha mais ou ao menos, semelhante. Mas tinha uma grande questão: os CPCs tinham um certo centralismo, não tinha esta abertura toda, mas tinha o princípio de você estar multiplicando linguagens culturais, linguagens artísticas: cinema, vídeo, teatro. Tanto que tem todo aquele movimento dos anos 1960: Cinema Novo, Teatro de Arena, que o Boal dirigia, Teatro Oficina, a Bossa Nova, as músicas de protesto, enfim. Até que veio a ditadura e uma das primeiras ações da ditadura, no AI-1, Ato Institucional número 1, foi proibir os Centros Populares de Cultura. E depois, durante as campanhas do próprio Lula, as campanhas de todo Governo de esquerda, sempre existia esta ideia de se criar uma Casa de Cultura, um espaço cultural, enfim, tinham vários nomes que se dava a isto. Mas a ideia que eu vejo do Ponto de Cultura muito importante é que na verdade ele não tenta criar uma coisa nova para ser ocupada, ele aproveita o que já é ocupado, o curso do rio, e dá uma força para este rio andar de uma forma mais rápida, mais caudalosa, mais forte. Isto é um grande mérito. Eu costumo dizer que Ponto de Cultura é uma política do comum, nem do Estado nem da sociedade: é um movimento que já existia na sociedade que o estado percebeu e se juntaram e foram juntos. A ideia do Ponto de Cultura, de passar os meios de produção, é o que o CTO sempre fez na vida dele. Muitas vezes existem vários grupos artísticos que dizem que estão transformando e tudo, mas às vezes é muito complexo porque eles oferecem, eles dão acesso às pessoas ao produto cultural, o que é uma iniciativa interessante, mas acho que é insuficiente. Vejo vários grupos falando assim: “Vamos apresentar a nossa peça naquela favela”, “Vamos levar a música para aquela escola”. Isto tudo é maravilhoso, mas as pessoas desconsideram que estas pessoas são produtores de cultura, que todo ser humano é um produtor de cultura. Que todo ser humano é capaz de fazer tudo que um ser humano é capaz de fazer. É aí que vem casar o Ponto de Cultura com o Centro de Teatro do Oprimido, que é o que a gente já fazia e a gente pode potencializar este nosso sonho. Inclusive o teatro do oprimido é praticado em mais de 70 países do mundo, nós realizamos agora uma conferência mundial com 28 países: a Palestina, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Sudão, Senegal, Índia, Afeganistão, Paquistão, Argentina, Uruguai, México, Costa Rica e outros países europeus e da América do Norte, que utilizam o teatro do oprimido. E aqui no Brasil não era tão conhecido, ou se era conhecido também tinha uma resistência, muita vezes por uma questão óbvia, pelo compromisso político que ele tem. E através deste Programa Cultura Viva a gente conseguiu que o teatro do oprimido hoje seja utilizado na prática quase em todo o Brasil.

P - Tem uma questão que você respondeu agora, mas eu queria que você aprofundasse: mudou alguma coisa na maneira de trabalhar no Ponto de Cultura a partir do momento que entrou o Cultura Viva, ou ele só catalisa e melhora? Como foi?

R - Acho que mudou, no primeiro momento pelo apoio que você está recebendo. Isto é uma questão óbvia, seria hipocrisia não dizer; e acho que é fundamental que é dever do poder público dar este apoio. Acho que mudou no sentido da prioridade, que antes a verba ia para os mesmos de sempre. A outra questão é o edital: a forma de edital é muito mais democrática – sempre vai haver problemas, é claro, de quem avalia este edital e tudo – mas há um critério muito claro, que é de cultura popular, da cultura democrática, do acesso e de que os meios de produção possam chegar até quem nunca teve alguma capacitação neste sentido, que é produtor de cultura, mas nunca pode ser trabalhado, não pode ser desenvolvido. Acho que isto mudou também, esta questão do edital. E a questão também do processo de rede. Nós no Rio de Janeiro, hoje, depois deste edital, somos em torno de 200 Pontos de Cultura. Tinha muita gente que eu não conhecia, nunca soube, nunca tive contato. Então, a partir do Ponto de Cultura, nós do Rio de Janeiro criamos o Fórum Estadual de Pontos de Cultura, que foi um dos primeiros aqui do Brasil, que surgiu a partir inclusive de um problema que deu em relação aos Agentes de Cultura Viva, e a gente se juntou, passou a se conhecer e se fortalece. Porque quando você se junta você se fortalece. O Brecht, que é um teatrólogo, ele dizia que as vacas não iriam tão mansamente para o matadouro se elas conversassem entre si. Acho que quanto mais você se comunica, você conhece o outro, você se troca; mais você aprende, ensina e se fortalece.

P - Eu queria fazer uma pergunta final, em sua opinião qual a expectativa futura do Ponto e do Programa?

R - A gente tem um grande problema que é essa questão da burocracia, a gente tem um Estado que a gente sabe que ele, por si só, historicamente a gente sabe não é feito para atender a anseios democráticos e populares. A máquina não é feita para isso. Então você tem um desafio aí: como a gente faz para garantir que uma proposta democrática e popular seja implementada de fato e de direito? Você tem diversas discussões, desde a discussão que a gente tem levado na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, que é a questão da Lei Cultura Viva, mas a gente sabe que criar uma lei só não vai garantir isto. É um instrumento para potencializar esta possibilidade. Acho que a gente tem que estar em vigília permanente. É o movimento que vai ter que definir. A gente tem que estar o tempo todo pressionando e muita gente se cansa, ou fica desiludido. Eu acho que é de propósito, eles fazem justamente isto para você se cansar. Que eu sei que é uma guerra, é uma luta cotidiana que tem que ser feita. A expectativa que eu tenho é de que o movimento dos Pontos de Cultura... Por que hoje o que é um movimento social? Tem vários conceitos, acho que o Ponto de Cultura é interessante: nos anos 1960 nós tivemos os estudantes, nos anos 1980 tivemos os sindicatos e acho que nos anos 2000 nós temos a cultura. Sem perder a humildade e sem querer ser ingênuo também, que não vai ser só isto que vai fazer a mudança, mas acho que é um caminho, que você contempla com o movimento estudantil, o movimento sindical, o movimento cultural. Quer dizer, você consegue juntar toda esta riqueza, esta diversidade, buscando um bem comum que é transformar a realidade, transformar a vida das pessoas para melhor.

P - Obrigado, Geo.
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