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História

Mudanças locais e transformações de vida

História de: Entrevista de Jorge Streit
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 10/07/2021

Sinopse

Jorge começa seu depoimento relatando a mudança do Rio Grande do Sul para a cidade de Ariquemes, localizada em Rondônia, quando tinha 17 anos. Nos conta como se deu seu primeiro contato com o Banco do Brasil, trabalhando como escriturário e chegando a Supervisor. Sua militância política começou na criação do Sindicato de Bancários de Rondônia, e destaca como sua participação nesses movimentos foi marcante para atuação em programas e iniciativas dentro da Fundação do Banco do Brasil a partir de 2003. Ele também descreve as ações realizadas atualmente com Associações e Cooperativas de Brasília, especialmente ligadas a reciclagem e aos catadores, e como esse trabalho é gratificante e importante para a vida de tantas pessoas.

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História completa

 

Projeto Fundação Banco do Brasil

Entrevista de Jorge Streit

Entrevistado por Cláudia Leonor e Elieti Silva

Brasília, 02 de Fevereiro de 2006

Realização Instituto do Museu da Pessoa.Net

Entrevista PFBB_HV0022

Transcrito por: Flor de Maria

Revisado por: Danyella Xavier Franco

 

P1: Jorge, eu vou pedir para você falar de novo, o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R: Jorge Streit, 12 de maio de 1961. No Rio Grande do Sul. Passo Fundo.

 

P1: Jorge, qual é o nome de seus pais e a atividades profissionais deles?  

 

R: Meu pai era comerciante. Ildemar era o nome dele.

 Minha mãe hoje é aposentada.

 

P2: Nome?

 

R: Juraci é o nome dela.  

 

P1: Ih! Você tem irmãos?

 

R: Tenho seis irmãos!

 

P1: Você passou a sua infância no Rio Grande do Sul, ou você já saiu logo?

 

R: Passei a infância, sai do Rio Grande do Sul com 17 anos. É foi quando fui para Rondônia. Então, vivi até os 17 anos no Rio Grande do Sul.

 

P1: Me fala um pouco assim, como foi esse período de infância assim lá?

 

R: É, lá meu pai era comerciante e tinha um posto de gasolina. Eu trabalhei com ele desde de pequeno, estudei e trabalhei com ele. E, em certa altura, ele decidiu vender o que ele tinha lá, e mudar pra Amazônia. A convite de um irmão dele que já trabalhava, já morava no Norte do Brasil. Então ele decidiu, e nós éramos todos menores de idade e fomos com ele, fomos os sete juntos. Minha irmã era a mais velha tinha 18 anos, eu tinha 17 e a mais nova tinha 7/8 anos. Então foi quando a gente foi todo mundo para lá.

 

P2: Como é que foi essa viagem, qual meio de transporte que vocês usaram?

 

R: Ah! Foi muito difícil né, porque, não tinha estrada na época. Nós fomos de caminhão. Levamos um caminhão e um carro. E uma parte na cabine do caminhão e outra parte no carro. Mas nós levamos 14 dias do Rio Grande do Sul até Rondônia. Né, um trecho de 1000km que hoje fazem em 12/13 horas. Nós levamos 8 dias para fazer naquela época. Então, foi um período muito difícil né, a cidade estava começando não tinha nada. Estava só a clareira no meio da floresta. Então foi uma aventura do meu pai, que acompanhamos na época.

 

P1: Porto Velho?

 

R: Não, no interior! Numa cidade, que fica a 200km de Porto Velho. Chamado Ariquemes. Hoje é uma cidade com 60 mil habitantes mais ou menos, uma cidade razoável, né?  

Mas na época, não tinha nada. Estava começando, a primeiras casas estavam sendo construídas, as primeiras árvores estavam sendo derrubadas. Hoje é uma cidade grande, uma cidade razoável.

 

P1: A cidade estava surgindo por alguma atividade econômica, ali da região?

 

R: O governo estava oferecendo terras para colonos do Sul, na Amazônia. Para aliviar a tenção por terra no Sul. Assim, fazia propaganda nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Para quem quisesse ir para Amazônia, Pará, Mato Grosso, Rondônia esses Estados. E oferecia terra e financiamento bancário. Logo, no primeiro momento, nós fomos, pai foi para pegar terras para plantar. Apesar de nós não sermos de origem rural, meu pai nunca foi agricultor. Mas se interessou por pegar terra e começar a fazenda lá. 

É foi!  E depois mais tarde ele pegou essas terras, e depois o financiamento. Mas acabou que nós, “ os irmãos”, acabamos nem trabalhando com ele na fazenda porque demorou esse processo um pouco. E nós fomos nos empregando, logo no ano seguinte, nós chegamos em  78, em 79 eu já entrei no banco. Minha irmã também já foi trabalhar como professora, o outro meu irmão também já entrou no Banco do Brasil no ano seguinte, e meu outro irmão já foi para o quartel, ficou, e até hoje está. Então, acabou que a gente não trabalhou com ele nisso, na atividade que ele queria porque cada um foi tomando seu rumo.

 

P2: O teu ingresso no banco, foi por concurso ou foi como menor aprendiz?

 

R: Não, eu trabalhei um pouco uns três ou quatro meses como contratado, mas eu já estava concursado, já estava aprovado no concurso. Só que estava demorando para me chamar, porque eu tinha que resolver o serviço Militar. Assim, eu trabalhei um pouco sem vínculo de contratação formal com o banco, como serviço prestado. Mas eu já estava concursado. Então desde que já entrei no banco, já entrei concursado. Lá, nesse local.

 

P2: O que significava o Banco do Brasil naquela época?

 

R: Eu quando estava no Sul. Eu estava concluindo o segundo grau lá no Sul. Concluindo o ensino médio. Eu estava pensando em fazer um vestibular para alguma área, Agronomia ou Engenharia alguma coisa. Mas acabou que lá em Rondônia a gente chegou, e estava tendo alguns concursos e o gerente do banco foi no colégio que eu estudava. E eu estava concluindo  o ensino médio. E ele disse que tinha um concurso do banco, e nós fizemos, eu e vários colegas. Eu acabei passando e entrei. Mas assim, até então, não me passava pela cabeça a carreira bancária. Aí, depois eu entrei e fiquei.

 

P2: Mas na cidadezinha já tinha?

 

R: Estava sendo aberta a agência. Eu fui da primeira turma de funcionários. A agência estava sendo aberta era muito pequena. Mas depois cresceu muito, porque, todo colono que chegava era financiado. Então nós começamos uma agência com 11 ou 12 funcionários, depois já tínhamos 20, daqui a pouco era 60. Chegamos a trabalhar em 110 funcionários, nessa agência, uma parte era funcionários, outra era serviços prestados, outra parte era ADI(?), que eram pessoas do Brasil inteiro que iam para prestar serviço. Então, nós chegamos a trabalhar em 110 pessoas. A agência se dividia em três prédios, porque não tinha nenhum prédio na cidade que comportava a quantidade de funcionários e o público também que procurava a agência. Foi um período que a gente trabalhou muito, não tinha sistema, não tinha computador era tudo manual. Então, você imagina uma agência abrir em questão de um ano ou dois anos, abrir 25/30 mil contas. Financiamento para todo mundo, cadastro para todo mundo. Um só produtor tinha 3, 4,5 financiamentos, tudo manual.O banco não tinha sistema nessa época, tudo era via malote, tudo era máquina de escrever, máquina mecânica de lançamento de contabilização. Foi um período que nós trabalhamos muito. Nós trabalhávamos até uma hora da manhã, duas horas da manhã no outro dia entrávamos lá as 7 horas. Então foi um período de muito trabalho, muito, muito. Muitos anos assim, de uma carga horária muito pesada.  

 

 

P2: E você ficou nesta agência até quando, mais ou menos?

 

R: Eu fiquei! Aí eu entrei como escriturário, depois eu fui ser Auxiliar de Supervisão, depois fui ser Supervisor. Passei no concurso interno que o banco fazia naquela época de nível básico para nível superior. Aí, eu fui nomeado como supervisor, fui ser tesoureiro do banco, trabalhei como tesoureiro um bom tempo. Aí, depois me afastei. Eu fui para Porto Velho, é lá eu fui assumir a diretoria do Sindicato. O Sindicato de Rondônia também não existia. Existiam  Associações de Bancários nos Municípios, e nós fundamos várias Associações nesse período. Na minha cidade, na cidade onde meu irmão estava como bancário e outros colegas. Fundamos várias Associações, depois fundimos e formamos e criamos o Sindicato Estadual, foi nesse período de 86/87/88. Começou a ficar incompatível a minha condição de chefe no Banco e Sindicalista. Começou a ficar muito difícil, muito conflito com o banco. E aí, a certa altura eu tive que me afastar, eu tive que fazer uma opção. Ou eu ficava no banco, ou eu... Começaram as greves, as grandes greves de 85/86/87. Grandes greves, greves prolongadas, greves radicalizadas, e aí ficou incompatível, ficou insustentável a minha situação no banco, e eu acabei me afastando, fui para o Sindicato. E criamos o Sindicato, fui assumir a presidência pelo primeiro mandato. Depois, ajudei na criação da CUT, lá no Estado não existia também a CUT. E fui ser presidente da CUT também depois. Fui presidente da CUT durante dois mandatos simultâneos com o Sindicato. Presidente da CUT.  Foi um período assim, com muita mobilização, muita atividade sindical e política. E eu acabei voltando para o banco só em 95. Nesse período, nós ajudamos a fortalecer o Partido dos Trabalhadores [PT] lá, no Estado. Eu acabei participando de muitas campanhas me envolvi, fui candidato na época, cheguei a ser candidato a Governador do Estado, lá, pelo PT. E, depois eu voltei para o banco. Em 95, eu voltei para o banco, fiquei ainda de 95/98 numa condição difícil, porque, eu não me afastei totalmente da atividade sindical e dos movimentos sociais. Então, eu fiquei de 95/98 muito envolvido nos movimentos sociais e no banco.

 

P2: Deixa eu te perguntar, voltando um pouco! Essas grandes greves 85/86/87 são grandes greves do Brasil também, né?

 

R: É!

 

P1: Mas no caso do Sindicato dos Bancários. Quais eram as principais reivindicações?

 

R: Eram as reivindicações nacionais, eram campanhas salariais nacionais, e nós lá, não tínhamos uma coisa específica. O que nós tínhamos eram uma unidade nacional. Nós em Rondônia representávamos uma coisa importante, porque, os Sindicatos do Norte todos eram Sindicatos muito atrasados. Não participavam de nada. De Mato Grosso do Sul para cima não participavam dos movimentos da categoria bancária, a não ser Rondônia e Acre. Mas Pará não participava, Amazônia não participava, Mato Grosso não participava, Mato Grosso do Sul não participava. Pelo menos o Sindicato não participava. Os bancários voluntariamente se mobilizavam, mas os Sindicatos sempre eram contra. Então nós...

Apesar de ser um Estado pequeno “o Acre era Estado pequeno”, mas a gente representava uma referência no Norte. É foi assim, que construímos uma relação com o Sindicato dos Bancários de São Paulo. Os Sindicatos dos Bancários de São Paulo nos ajudou. E o Sindicato dos Bancários de Londrina nos ajudaram a criar o Sindicato. Nos ajudaram a criar o Sindicato de lá. Depois, em 95/96, começamos uma relação com os militantes de Brasília, aliás, em 85/86 começamos uma relação com os militantes de Brasília. Foi quando eles nos auxiliaram na legalização do Sindicato de Rondônia junto ao Ministério do Trabalho, aqui, quando o “Pazianotto” era do Ministério do Trabalho. O Jaci Afonso e o Jacques nos ajudaram muito nesse processo de construção do Sindicato de lá. Porque eles atuavam aqui. E foi quando a gente começou essa relação. É, pois muitas greves sucederam nesse anos seguintes, muitas campanhas pela diretoria da Previ. Dos cargos da direção da Previ, da Cassi. É, nós participamos de tudo, e a gente fazia uma unidade nacional. E fazíamos uma espécie de contato no Norte para o Movimento Nacional dos Bancários. E com esse fato dos bancários serem muito articulados, a gente conseguiu ajudar a CUT a se firmar nessas regiões. Então, foi um período interessante, porque a gente consolidou o movimento bancário. Depois criamos uma federação dos Bancários na região, envolvendo Mato Grosso, envolvendo Rondônia, envolvendo Acre, envolvendo vários Estados. Hoje o Distrito Federal faz parte dessa mesma Federação. Mas nós criamos também nesse mesmo período. Aí, a gente é quem deu início. 

 

 

P2: O que te levou ao Movimento Sindical? Foi depois que você foi para Porto Velho ou foi lá na cidadezinha?

 

R: Lá, lá! Em 82 eu estava com três anos de banco, e nós começamos a nos envolver com as lutas que ainda estavam existindo com o fim da ditadura. Ainda estava naquele momento final da ditadura militar em 82. E lá, demorou um pouco mais para terminar, porque, lá era território. Então, sendo território o Governador era nomeado pelo...

Foi e ficou como Governador nomeado bem mais tempo do que aqui. Então, acabamos nos envolvendo nessas mobilizações contra a ditadura, pelo fim da ditadura. E aí, em 82/83 a primeira eleição. Lá, não teve eleição para Governador porque era território, eram eleições só para Deputado. E acabamos nos envolvendo. Em 83/84, começamos com a criação das Associações de Bancários 85/86. Mas assim, eu...

Na verdade, eu não fui do, mas meu movimento não foi do sindical para o político. Foi do político para o sindical. Eu já tinha uma militância estudantil, lá. A gente fazia um curso universitário lá, mesmo em Ariquemes. Era um núcleo de extensão da Universidade do Pará, que exista, lá. Então, eu já fazia alguma atividade estudantil, boletim, jornais etc...

É aí, foi quando nós começamos a mobilizar o setor bancário.Mobilizar a categoria bancária.Então, foi essa passagem, aí.

 

P2: É como a sua família via isso? Essa participação? Você falou que tem um irmão, que era do Sindicato?

 

R: Meu pai foi por muitos anos foi contra, ficou muito contrariado por muitos anos. Porque tanto eu como meu irmão, nós dois éramos do banco. E ele tinha muitas expectativas em relação a nossa carreira. E nós dois, entramos no banco e crescemos muito rápido lá. Tivemos uma trajetória rápida para crescer na empresa. E, a certa altura, desenvolvemos muito com Sindicato e começamos a nos afastar da carreira. Tanto eu, quanto ele. O meu irmão chegou a sair do banco.

 

P2: Acho que é o seu celular!

 

R: É, meu irmão... 

 

(Pausa)

 

R: Então, eu estava dizendo, meu pai ele ficou durante muitos anos, muito contrariado com isso. Porque meu irmão ficou muito envolvido sindicalmente e politicamente. Nós dois, ele até chegou em uma situação mais radical do que eu, porque ele chegou a sair do banco. O conflito dele com o banco ficou muito forte. E ele era envolvido com movimento social também, com o movimento sem terra e tudo. Chegou a certa altura, ele teve que sair do banco, ou ele saia ou seria demitido. Aí, ele saiu do banco. E só voltou anos depois, acho que...Só voltou para o banco uns seis ou sete anos depois. Fez concurso novamente. E hoje é gerente no banco. Voltou... Reconstruiu a carreira e tudo. Mas foi bem depois. Foi um processo que o Jacques se envolveu na época. Que o Jacques estava no GAREF [Gabinete de Representação dos Funcionários do Banco do Brasil] em Brasília. No gabinete de representação dos funcionários do banco. Nós tentamos ver se o banco o readmitia... Pois na época existia a situação de readmissão dos funcionários O banco não aceitou em readmití-lo no Governo de Itamar. E aí, foi quando ele fez concurso de novo e passou de novo e entrou. E hoje está no banco, está trabalhando.       

 

P1: Tenha alguém assim, que inspirava vocês a ir pelo movimento Sindical? Tinha uma figura? Não era o pai quê...

 

 

R: Nós, tanto eu como quanto ele, nós, na época que a agência abriu, muita gente veio de fora para o banco, lá, onde  nós estávamos. E uma pessoa em particular, hoje é falecido o Alencar, ele veio do Rio Grande do Sul. E foi quando estava havendo a abertura, que estava podendo comprar livro aqui no Brasil, que era difícil comprar livros, então não consegui. E ele foi com uma mala cheia de livros para lá. E chegou lá, não tinha muito que fazer, porque em uma floresta imensa, não tinha muita opção. Então ele ficava nos dando livros. Para vários, mais jovens que estava entrando no banco naquela época. Ai, livro para mim, para meu irmão e tal. E aí, foi quando a gente começou, a partir de uma motivação de um colega. Que estava cursando Faculdade no Rio Grande do Sul, teve que interromper para ir para lá. Assim como várias pessoas iam para Estados como Rio de Janeiro, de Salvador, de Brasília. Porque, a opção que o banco dava, era se quisesse tomar posse teria que ir para uma região dessa. Pois no Sul, já estava. Então foi aí, a partir dessas leituras, dessas discussões nós começamos a nos envolver muito. Começamos a tomar partido e tudo. Então foi um período. Porque minha família ao contrário, minha família no sul, sempre foi muito conservadora politicamente. Meus avós sempre foram muito envolvidos, tanto do lado da minha mãe como do lado do meu pai. Então a conversa sobre política na minha casa era constante, o meu pai não se envolvia diretamente, nunca concorreu, nunca se candidatou, mas ele sempre fazia parte de grupo político, sempre atuou assim, ajudou apoiou e tal. Mas eles sempre foram assim conservadores na política, sempre foram contra os trabalhistas no Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul fervilhava muito essa coisa, Brizola, Jango e Getúlio, etc...

 Mas eles sempre foram contra esse lado. Sempre foram UDN, foram setores mais conservadores. Alguns deles PSD, mas nenhum deles tinham, nunca tiveram relação com trabalhismo no Rio Grande do Sul, nunca. Então todo discurso que a gente sempre ouviu dentro de casa foi no sentido contrário, nem sempre muito ativismo político, mas sempre um ativismo político no sentido contrário.

 

P2: Jorge, qual origem de sua família?

 

R: Origem Alemã!

 A origem do meu pai... Meu pai é nascido no Brasil, o pai dele e nascido no Brasil. Mas assim, seus antecedentes vieram da Alemanha. Na colonização do Rio Grande do Sul, foi  alí 1700/1800. Então, depois teve migrações internas no Rio Grande do Sul da primeira colonização que foi na região de São Leopoldo, eles foram para a região onde meu pai nasceu. E minha mãe, minha mãe é dali mesmo, da região do Rio Grande do Sul, o pai dela sempre foi da região daquela região. Minha mãe tem um pouco da descendência índia assim, né? Caboclo brasileiro dali da região. Ali, teve...

Enfim é...

Essa região do meu pai era de colonização alemã, essa região da minha mãe já não tinha tanta presença do imigrante no Sul.

 

 

P2: Vamos retomar?  Até 95 você ficou no Sindicato, como presidente do Sindicato, é isso?  

 

R: É até 95. Aí, 95/98 eu fiquei me dividindo. Eu fiquei ainda vinculado a atividades sindicais bastante, é no banco. De volta no banco. Então eu fazia seis horas no banco, no CESEC [Centro de Processamento de Serviços e Comunicações] e tal. E continuei mantendo uma porção de coisas no movimento social.Então, também foi um período muito difícil, porque, eu precisava reconstruir a carreira e ao mesmo tempo não me desvinculava da lutas sociais. E foi período Fernando Henrique. Um período de novo (__________________). De novo (________________) anterior. Foi o período do PDV. Um período de muita tensão interna no banco.Muita repressão. Assim, eu voltei para banco em 98, voltei para o banco não, aí, foi quando eu me desvinculei dos movimentos. E comecei a atuar mais no sentido da carreira no banco em 98. Foi quando comecei a assumir cargo de gerência no banco, depois gerência da sala do empreendedor, depois gerente de conta pessoa jurídica e tal. Então, dei uma retomada, comecei a fazer cursos no banco. Eu passei um período mais ou menos de 12 anos, sem fazer um curso no banco. Um curso que nada, eu estava totalmente desatualizado. Quando eu voltei para o banco, teve um ano que eu acho que eu fiz 12 ou 14 cursos, é, alto extrainstitucionais, cursos que eu pegava para fazer. Teve um colega no banco, que me ajudou muito nisso, porque, quando eu voltei, ele tinha sido afastado, ele tinha atuado na política e tudo. Ele já tinha voltado uns dois anos, antes que eu. E quando eu voltei, ele já era gerente. Por isso, ele sabia da dificuldade que era de você se reintegrar na carreira, depois de tantos anos de afastamento. Principalmente o banco ter mudado tanto quanto mudou nesse período. Porque, o banco informatizou totalmente, virou on-line, que dizer, era uma coisa que a gente não tinha antes. Então, eu perdi todo esse processo, quando eu voltei a adaptação foi difícil, e esse colega foi quem me ajudou, pois, ele era gerente e  disse “ó você trabalha seis horas, e duas horas todo dia você estuda.” E aí, foi quando me reintegrei, passei o ano só fazendo cursos, na Agência Presidente Dutra. Só fazendo curso não, eu trabalhava seis horas, e duas horas só me dedicar a estudar. Foi aí então, que retomei a carreira.

Meu problema com a faculdade também ficou muito complicado, porque, eu viajava muito por conta do Sindicato de coisas. Comecei curso superior uma vez, lá em Ariquemes ainda, larguei o curso sem concluir por causa da atividade.

 

P2: Qual era o curso?

 

R: Na época eu fazia Letras, aí eu acabei abandonando. Aí depois, só anos depois que eu fui fazer Administração, isso já era 95. Então eu já tinha filhos, já foi bem complicado esse período 95. Mas aí, eu me dediquei muito, aí de 95 a 2000 eu concluir o curso. Aí, depois...

 

P2: Lá em Porto Velho?

 

R: Em Porto Velho! Uma coisa que eu nunca... Quando eu estava muito diretamente no movimento político, eu não conseguia fazer. Porque, não tinha, a rotina não permitia.

 

P2: Eu queria que você registrasse o nome desse seu colega do banco, que te incentivou para estudar? 

 

R: O Marine! O colega Marine.Inclusive é engraçado, porque no movimento do banco e na política nós sempre fomos contra o outro. Nós sempre fomos contra, porque ele sempre ligado a um setor político e eu a outro. Todas as campanhas era, ele pedindo voto para um lado e eu pedindo voto para outro. Mas eu era muito amigo da família dele toda. Os irmãos dele tinham trabalhado comigo banco. Eu já tinha ajudado o irmão dele uma época. Outro irmão dele tinha sido meu padrinho de casamento. Então tínhamos uma relação de família. A família deles chegou em Rondônia na mesma condição que nós.Aquela família de muitos irmãos migrantes do Paraná, eles eram. Por isso, nós tínhamos uma identificação muito grande de história pessoal tanto dele quanto comigo. Apesar de na politica estar sempre contra, a gente se gostava muito como colegas e tudo. E hoje ele está fora do banco”Marine”, mas é uma pessoa fora de série. Saiu do banco agora recentemente, faz um ano ou dois.

 

P2:____________________ Você acha que a colonização que foi para lá do Sul, tem alguma influência política, na organização política lá do Sindicato?

 

R: Teve um pouco porque Rondônia foi um aprendizado muito grande para muita gente. Porque você chega de uma região muito antiga onde as instituições já estão consolidadas, você não tem espaço praticamente para nada, tudo tem dono, tudo já tem suas coisas  estabelecidas seus caciques, essas coisas. E as pessoas vão para uma região dessa, tudo por fazer, as coisas estão totalmente abertas para todo mundo. Então lá é assim, quer dizer, a gente chegava e via as coisas por fazer, e ia fazendo, quando você ia ver, você já estava se envolvendo com as coisas. Por isso, acaba sendo assim para você constituir associações, grupos, comunidade e direção de escolas e essas coisas. E acaba sendo assim, também com sindicatos. Então eu acho que teve a ver, porque eu acho que se tivesse ficado no Sul, dificilmente eu teria me envolvido com política, eu acho. Por causa da história da minha família.Tem que ter todo...

 

P1: Contexto!

 

R: Aquela coisa de família que é daquele grupo, e tal. Eu acho que dificilmente, se tivesse ficado no Sul teria me envolvido com política. Rondônia! A ida para Rondônia teve muito haver com isso.

 

P2: Aí, 2002?

 

R: Esse período de 98 a 2003 eu fiquei muito focado em estudar, e acabei o curso e tudo, fiz duas especializações nesse período, e fazia curso no banco. Aí, eu comecei a me focar na área de crédito. Comecei a entender crédito para investimento, para fomento. Quer dizer, não aquele crédito que o banco gostava de fazer muito na época, que era o crédito para consumo. Quando eu voltei a me reintegrar na carreira, eu também  me integrei em uma linha que não era muito a linha que o banco queria. Nessa época, estava muito focado em produto de varejo, produto que dão grande rentabilidade, vamos dizer assim dos “produtos do portifólio bancário.” Eu aprendi isso também, mas não me interessava nisso, fui tentar entender crédito de longo prazo, crédito para fomentar a produção, etc... Aí, eu fui para essa sala do empreendedor que eu disse: “ Já fui trabalhar com micro empresa, com cooperativas com associações. Fui incentivar o PROGER [Programa de Geração de Emprego e Renda]” que era o programa de geração de emprego e renda na época. O superintendente de lá era meu amigo, apesar de várias incompatibilidades por causa da minha atividade política, mas  tínhamos uma relação de amizade com ele. Mas ele viu que eu estava me interessando, estava estudando sobre isso e acabou me nomeado para ser o primeiro gerente dessa sala que estava sendo criado “Sala do Empreendedor.” Era uma sala que funcionava dentro da agência do banco, mas que tinha uma equipe de pessoas de fora do banco, que eu coordenava para atendimento, de um público que geralmente não tinha canal dentro do banco. Não tinha quem tratasse desses assuntos de crédito para setor informal, para camelô, para ambulante, para feirante, para cooperativas de trabalho, essas coisas. Então era uma coisa que não existia no banco, e eu fui trabalhar com isso, eu me identifiquei muito e gostei muito. Fui trabalhar junto com Sebrae, fazer umas parcerias para incentivar a capacitação desses pequenos empresários. Também fui fazer relação com a Universidades, eu tinha muita relação com os professores, porque eu estava vindo do curso de Administração também. Criamos a Empresa Júnior na Universidade trouxemos os alunos da Empresa Júnior, para ajudar na assessoria a esses pequenos empreendimentos. Então foi um período muito interessante. E depois que eu saí, eu fui chamado para assumir uma carteira de pessoa jurídica, eu fui trabalhar com pessoa jurídica, aí eu fui trabalhar com média empresa também. Foi quando já era 2002/2003. Foi quando já estava sendo montado o novo Governo Federal. Foi quando Jacques estava na expectativa de ser nomeado presidente da fundação, foi quando eles fizeram o contato comigo, o Jaci Afonso e o Jacques. Jaci Afonso que é do Sindicato do Bancários  de Brasília e o Jacques, sobre o que ele queria fazer na Fundação, e me empolguei com o que ele estava querendo, achei que tinha muito haver com o que eu também achava interessante. Aí, ele me chamou para assumir essa diretoria, porque ele queria fazer mudanças nessa diretoria e eu aceitei. Aí, eu vim. Não imaginava sair de Rondônia, porque estava muito arraigado em mim o Estado, eu já estava lá há mais de 20 anos, não tinha mais essa perspectiva de sair de lá, porque muitas raízes se formam.

Eu cheguei lá com 17 anos, essa altura meus filhos já tinham 16/17/18 anos, eu tenho uma menina hoje que tem 21, a outra tem 20, meu filho tem 16 anos hoje. Então meus filhos já tinham uma relação lá, apesar de que eles já estavam começando a sair para estudar. Já tinha uma que já estava em Florianópolis estudando Engenharia, a outra também já estava saindo aquele ano. Já estava em Florianópolis para fazer o cursinho também. Então, eu estava ficando um pouco dividido, porque elas estavam numa rota de vir para o Sul, por causa de melhores faculdades e tudo. E a gente estava ficando lá. Por isso, havia muita distância, então, essa chamada do Jacques para cá, teve também isso, de conciliar esse lado também pessoal. A minha mulher ela sempre militou comigo, nós militamos muitos anos juntos. Ela era bancária também, ela era do sindicato também, ela era da CUT também. Assim, nós atuamos muitos anos juntos. Aí, depois em certa altura, ela saiu do banco e foi advogar. Foi ser advogada trabalhista, foi advogar para sindicatos também, advogou muitos anos. E aí então, ela estava bem quando saímos de lá. Ela trabalhava em um grande escritório, eles tinham uma carteira de vários sindicatos importantes. É... Mas ela... Enfim, quando surgiu a proposta de ir para Brasília, ela também achou interessante, para ficarmos mais próximos, para acompanharmos as meninas que estavam no Sul e o meu filho também poder  já desde o final do ginásio (fundamental), ele já começar por escolas melhores aqui em Brasília. Agora ele já está no terceiro ano do ensino médio. Assim, quer dizer, foi uma coisa que veio a calhar, tanto no ponto de vista pessoal como profissional também foi interessante, né?

 

 

P2: Chegando à Fundação, como é... Situação anterior estruturada...Como estava estruturada a área de renda?

 

R: É, aí... A área de renda ela estava estruturada de uma forma, dentro de uma determinada lógica, não era a lógica que Jacques queria trabalhar, porque ela trabalhava só com recursos de terceiros, com recursos do Ministério do Trabalho. É a Fundação, ela não tinha uma lógica própria de atuar em relação a trabalho e renda, ela era muito subordinada ao que era determinado no convênio com o Ministério. Então, se o Ministério queria fazer a ação com um determinado público era com aquele público, se queria fazer naquela determinada região, era com aquela região e se... Enfim, não havia uma inteligência interna na Fundação sobre isso (risos), nem uma política própria na Fundação sobre isso. E aí, a partir de 2003, houve essa decisão administrativa dentro do conselho da Fundação, de que uma parte dos recursos da Fundação que antes era só para programas como BBDUCAR, programas importantes, mas que não tinham essa concepção de tornar as comunidades autônomas do ponto de vista econômico, né? Eles eram programas como BBDUCAR  (que era um programa de alfabetização de adultos) e o ABB Comunidades. Esses eram os programas que já existiam.E tinham programas na área de saúde, como o Diversidade, como o programa... Alguns programas que... O Criança...

 

 

P1: Criança é vida!

 

R: Criança é vida! Alguns programas na área de saúde. E o Jacques achou que a Fundação não devia permanecer nessa linha, pois teria de fazer essas coisas se transferirem um pouco mais para o poder público. Essas Prefeituras assumirem esses os hospitais que a Fundação tinha ajudado a montar, e tudo mais, e entrar com esses programas num processo de encerramento e esse recurso ser direcionado para uma outra área. Foi quando o Governo começou a falar muito em programas que fossem de natureza mais estruturante, quer dizer, de você não só fazer o programa doação de alimentos, mas criar uma porta de saída para essa situação, né? Para... Que não criasse essa situação de dependência. Enfim, houve essa decisão na Fundação que uma parte do orçamento da Fundação seria direcionada para ações de trabalho e renda. E foi a partir daí, que nós começamos a ver o que íamos fazer.  Quê, quê, quê... Que direcionamento iria ser dado a esse recurso. Aí, começamos a construir um pouco de algumas experiências para atuar em algumas atividades produtivas, com prioridades para alguns públicos, né? Quer dizer, essa coisa de escolher algumas atividades, foi a partir de alguma relação com o banco, para nós vermos, onde é que... Que tipo de atividade poderia nos aproximar dos setores de IDH mais baixos, setores mais fragilizados da sociedade etc...

Começamos a escolher algumas atividades, começamos a olhar para a...  Por exemplo:  ovinos, caprinos e culturas, não foi uma a atividade que trabalhamos mais no início, mas agora estamos trabalhando, apicultura, mandiocultura , cajucultura, né? Enfim, atividades que é... Os setores de reciclagens de materiais, que foi uma feliz ideia também dessas gestão de... Porque nós escolhemos várias atividades, e essas atividades, muitas delas, atividades rurais, atividades que nós aproximavam da realidade brasileira, mas nós não tínhamos uma atividade que fosse forte no setor urbano, para atuar ou excluir do urbano, né? E atuar na cadeia da reciclagem foi uma ideia muito feliz, porque nós hoje construímos um relacionamento com mais de noventa cooperativas e associações de catadores no Brasil todo. Nós já investimos, nesse período, cerca de 10 milhões de reais em cooperativas e associações de catadores, quer dizer, dinheiro direto da Fundação para as cooperativas e associações de catadores para comprar equipamentos, comprar caminhões, comprar máquinas, comprar coisas para que eles possam transformar esses materiais ou vender esses materiais em condições melhores, ou ter mais condições de aumentar a produção, porque tem caminhões para ir e buscar esse materiais. Só aqui no Distrito Federal nós já doamos quatro caminhões para Associações e Cooperativas.

 

P1: As usinas?

 

R: Usinas de ?

 

P1: Para reciclagem!

 

R: É! Essa coisa de usina nós estamos com duas coisas que tem a ver com essa...

É... Bom! Então, na reciclagem por exemplo: nós tivemos uma atuação variada , quer dizer, nós tanto atuamos com coisas mais primárias, coisas assim, mais adaptadas a essas associações que estão realmente em situação mais difícil, começando e tal. Que são prensas, balanças equipamentos básicos, para algumas caminhões, etc e tal. Até coisas mais, mas... Tentando dar um salto de patamar na cadeia dos recicláveis em particularmente duas coisas, uma em Minas uma experiência que nós temos lá com ASMARE [Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável ]. Nós estamos construindo uma unidade industrial de processamento de plásticos na reciclagem. Então, a uma rede de onze Associações e Cooperativas da grande Belo Horizonte, ali. Eles formam uma rede, e todas as Associações vão fazer e convergir seus materiais para esse ponto, onde esse plástico vai ser processado. No primeiro momento, ele vai ser só peletizado, “transformado em flocos.” Mas em momento seguinte vai ter outra transformação, né? É então, esse é um grande salto, porque você pensar em catadores, pessoas que até poucos anos atrás eram moradores de rua, passam a ter um domínio de uma empresa social. Uma empresa de médio ou grande porte, e dá um salto dentro da cadeia produtiva ao ponto de estar industrializando materiais, né? Quando há pouco anos atrás, essas associações lutavam por coisas básicas, de enfrentamento com atravessadores, compradores, sucateiros essas coisas. Assim, é uma experiência interessante que nós estamos apostando, porque... Está faltando agora, algumas coisas que a Petrobras está ficando de nós ajudar, mas vamos ver se ela começa a funcionar de verdade agora, nesses próximos dois meses. E uma outra... Nós estamos fazendo no litoral norte da Bahia, estamos fazendo uma Indústria de... Indústria não! Uma usina de processamento de lixo orgânico. Na verdade, isso faz parte de um outro projeto nosso, um projeto de responsabilidade social junto com uma empresa que é de propriedade da Previ, que é a SAUÍPE. S.A. Nós estamos fazendo ações de geração de renda com comunidades que estão em volta do complexo hoteleiro de Sauípe. Comunidades que ficaram excluídas ali, quando entrou o complexo, algumas ficaram sem acesso ao mar para pescar, outras ficaram sem condições de vender seus produtos dentro dos hotéis. Então, nós estamos fazendo várias ações com artesanato, com pescadores, com pequenos produtores rurais para produzir hortifrutigranjeiro para os hotéis. Estamos fazendo uma série de ações nesse sentido. É uma ação tratar todo o lixo orgânico daqueles hotéis, ali. Transformar em adubo orgânico para alimentar, para realimentar, vamos dizer assim, as atividades produtivas que estamos apoiando, através de cooperativas de pequenos  produtores que, por sua vez, vão vender para os hotéis etc... É uma lógica de uma atividade que se complementa a outra.

 

 

P1: Essa aí, é uma ideia da cadeia produtiva?

 

R: Não! Isso aí é, uma ação que chamamos de desenvolvimento local, porque é uma ação focada no território que integra várias cadeias ali. Integra a cadeia de artesanato, com a cadeia da pesca. E uma coisa mais focada com aquele espaço ali.

 

P2: Geográfico?

 

R: Geográfico!  Então, na Fundação nós temos assim, nós temos ações que são verticais em cadeias produtivas por exemplo: “ a ação produtiva na cadeia do caju, ela vai para cinco Estados que é Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Bahia, etc e tal…”Ação na cadeia produtiva da Apicultura “Piauí, Ceará, Pernambuco.” Ação na cadeia produtiva  da Mandiocultura “Bahia e agora o Pará provavelmente.” Então, as outras nós elegemos a cadeia, as atividades, depois elegemos os Estados em função de várias coisas, até mesmo ações dos bancos nessa região, né? Se o banco está desenvolvendo alguma ação de desenvolvimento local sustentável nessas regiões. Assim, estamos fazendo bastante essa sinergia com o banco, está sendo um aprendizado também de fazer as ações da Fundação e conversar com as coisas do banco. É porque durante bom período de tempo a Fundação desvinculou as suas coisas das coisas do banco. E hoje nós temos construído vários pontos de contatos com o banco. Por isso, em vários programas da Fundação, hoje tem uma forma de se relacionar com o banco. A Fundação tem que viver essa condição meio dúbia, de ela ao mesmo tempo não ser uma coisa tão orgânica do banco, porque não é permitido uma Fundação ter relações tão orgânicas com o banco, mas também ela não pode se distanciar do banco, né? Porque se a Fundação se distanciar muito do banco, ela vira uma Fundação qualquer. A grande força da Fundação, já que sempre insisto nisso, é justamente isso, é ela ter essa capilaridade que o banco tem, e ela ter essa placa que o banco tem, é na placa que se casam. Assim, isso tem muito a trazer para a Fundação. Isso atrai muitas parcerias, por causa da credibilidade que traz e tudo, né?  Então, nós que gerenciamos programas na Fundação, nós sempre temos que trabalhar com essas duas situações. E teve uma situação aí, que nós começamos a atuar com recursos próprios cada vez mais, nós começamos em 2003, nós operamos perto de 6 milhões de reais em uns 50 projetos . Em 2004, nós já operamos 23 milhões de reais, uns 250 projetos. Em 2004 aliás! Em 2004, demos um salto de 6 para 23 de 50 projetos para 200 e poucos projetos. Em 2005, nós já operamos 40 milhões de recurso próprio, e apoiamos uns 350 projetos. Em 2006, agora só não vamos fazer o mesmo valor, porque o banco deu uma reduzida em nosso orçamento. Mas a ideia era continuar nessa mesma progressão. E continuamos... E passamos a fazer isso, mas não saímos do recurso de terceiros, nós continuamos hoje, nós operamos com recurso do Ministério do Trabalho e Emprego, recurso do Ministério do Desenvolvimento Social e recurso do Ministério de Turismo.     

 

P1: De Turismo também?

 

R: De Turismo também!  É, os três têm a mesma... Quer dizer, embora sejam atividades, as próprias missões dos Ministérios são outras, mas o foco é um só. É geração, trabalho e renda. Então geração, trabalho e renda em ações relacionada ao turismo, e conversado com o Ministério, onde são as regiões prioritárias, que o órgão precisa desenvolver alguma alternativa econômica para pessoas que estão relacionadas ao turismo naquela região para potencializar o turismo naquele local e tudo mais. Nós estamos atuando nisso, então, a Fundação recebe o recurso, administra esse recurso e faz essa mediação entre o Ministério e a Associação, Cooperativa ou a ONG enfim. Assim, a Fundação atua fazendo esse meio campo, entre o beneficiário do recurso e o ministério que tem o recurso. Em alguns Ministérios, nós colocamos recursos nossos, por exemplo o BNDES. Nós temos  um convênio com eles, que é para fomentar trabalho e renda em assentamentos, em regiões de quilombos, antigos quilombos em regiões que o Ministério de Desenvolvimento Social, e aí em regiões dos Consares que são os consoles de segurança alimentar. Quer dizer, regiões que o Ministério do Desenvolvimento Social acha que tem que criar mais alternativas a Bolsa Família para essas famílias... Eles chamam de “porta de saída para a Bolsa Família”. Para as pessoas com fome, elas vão adquirindo uma condição um pouquinho melhor, elas começam a se desvincular do Bolsa Família e entrar em uma atividade sustentável, produtiva e tal. E esse recurso que tem na Fundação é para isso. Para construir essa alternativa.

 

P2: ________________.

 

 

R: É, o Ministério temos... Só para... São os três Ministérios. Nesses trabalhos nós temos recursos lá, hoje, principalmente da Secretária Nacional da Economia Solidária. Então, a Fundação tem como função  implantar a política do Ministério, na área da economia solidária. Construir uma série de ações, feiras de economia solidária, congressos e encontros. Para fomentar, para fazer o setor da economia solidária crescer no país. Assim, continuamos operando com recursos de terceiros, tanto quanto antes. Então, nossa área virou um monstro (risos).Virou uma coisa...(risos).

 

P1: Esses orçamentos e lucros, é só em relação de renda da Fundação?

 

 

R: Isso é tudo renda! .

 

 

P1: Só renda (_____________)

 

 

R: Essas ações que eu estou dizendo, e recursos Públicos, dos Ministérios, recursos da Fundação e essas cadeias produtivas, que tudo isso é em nossa área. Onde nós trabalhamos. Eu sou diretor da área, tem dois gerentes que um é o Ricardo Browne e o outro é o Silvio que em outro momento vem aqui também, e alguns assessores plenos, sênior e pessoas contratadas. Nós hoje trabalhamos com uma equipe de 28 pessoas. Em termo de números de funcionários e em termo de volume de recursos é a maior área da Fundação hoje, individualmente. É nós três; tanto eu, como o Fumiu quanto o Fadanelli, nós somos vinculados ao Paraca (responsável pela Área de desenvolvimento Social da Fundação). Onde são operados e implementados os programas. O Fumiu tem com ele vários programas, Fadanelli com ele têm vários programas e eu na minha área só tenho um programa. Só que ele tem todas essas... É o programa Trabalho e Cidadania, mas que tem várias subdivisões. Não são recursos...

 

P2: É um programa com vários projetos?

 

 

R: É um programa com dois braços, vamos dizer assim: um recurso de terceiros e outro recurso próprio, e vários projetos por dentro desse...

 

P2: Jorge, eu gostaria que você comentasse um pouco do alinhamento da Fome Zero assim... O alinhamento da Fome Zero só está relacionado a esse recurso do Ministério do Desenvolvimento Social, esse alinhamento em relação a ações locais, ou Trabalho e Renda  existe por que, existe o Programa  Fome Zero? Como  que é isso?

 

 

R: Na verdade, é uma relação que está na origem da nossa atuação, porque foi com essa motivação da Fome Zero, que a Fundação decidiu destinar recursos, mas desde o começo quando o Governo Federal estava começando com isso, lá na Fundação já ficou claro que o recurso da Fundação não seria para atividades, ações de caráter assistencial. Que as ações de caráter social, o Governo ia fazer. Bolsa Família, doação de alimento ou coisa assim, ou os comitês dos bancos, ou funcionários dos bancos iriam fazer. Então, nossas ações iriam ser no sentido que nós chamamos de “estruturante”, de criação de alternativas econômicas. E isso foi bem visto dentro do Governo, tanto que, em certa altura, o Governo decidiu pegar recurso seu e colocar na Fundação para poder potencializar mais as ações. Depois, houve um período um pouco instável, pois foi quando o Zé Graziano saiu do Ministério, e esse Ministério da combate à fome foi extinto e fundiu dentro do MDS. Mas, logo depois, com a equipe do MDS entrando nós começamos a articular e nós, de início, também trabalhamos com hortas comunitárias, pois as hortas comunitárias tinham muito mais essa coisa da segurança alimentar e nutricional do que geração de renda propriamente. Até quem tinha um “viézinho” de renda, sendo que o excedente da horta poderia ser vendido, mas o fundamental  era poder melhorar as condições de alimentação das famílias, e nós apoiamos muitas hortas comunitárias no Brasil nesse período. Até o ano passado, nós apoiamos um recurso razoável para hortas. Então, foi uma ação que também teve muito a ver com essa coisa da Fome Zero do Governo Federal. E aí, também porque... Uma coisa que é importante destacar é a política de parceria da Fundação e Trabalho/Renda porque, por exemplo, Petrobras e Fome Zero: A Petrobras apartou um recurso para atuar em ações de Trabalho e Renda e, na medida em que essa instituição tem seus recursos e sua política, nós temos nosso recurso e nossa política, nós começamos a ver que, em alguns setores, que eles estavam atuando e nós também, assim, começamos a nos aproximar. Hoje eles estão junto conosco no projeto de mandiocultura, pois eles precisavam fazer ações em algumas regiões onde nós estávamos querendo ir, eles tinham na prioridade deles atuar, por exemplo, no sertão baiano, em algumas regiões assim. Por isso,  eles se interessaram em entrar conosco. Estamos construindo um projeto grande para 5 mil produtores de mandioca nessa região, mas mais em frente, a ideia que se tem é uma produção de fécula. Que  é a industrialização dos derivados da mandioca. E com a relação muito forte com a Petrobras, construímos uma relação muito forte com a Embrapa, pois a Embrapa ganhou muitas premiações na Fundação. Através do banco de tecnologia social, ela desenvolve muita pesquisa e concorre ao prêmio e ganha. Quase todos os anos, ela é finalista, esse ano ela foi finalista com duas tecnologias sociais. E aí, nós passamos a estreitar nossas parcerias com ela, a Embrapa. A Embrapa não entra com recursos, ela entra com conhecimento, e com esse conhecimento acumulado, sobra para atividades que nós atuar. É assim nós estamos fazendo, principalmente no caju. Eles desenvolveram a tecnologia de processamento da castanha, e nós estamos levando, reaplicando isso em várias regiões do país.Conosco na mandioca,

eles estão com uma unidade de pesquisa sobre a mandioca em Cruz das Alma (BA). Esse pessoal está conosco no projeto da mandioca. As pessoas da Fruticultura tropical do Ceará estão conosco no caju. Têm pessoas deles na área de Caprinocultura de Cratos em Sobral (CE) que também estão conosco. Têm deles na unidade do interior de São Paulo, que está na parte de saneamento básico na área rural, que atua pela área do Fumio,  enfim, vários pontos de contatos com a Embrapa. Sebrae também, nós estabelecemos várias parcerias com eles no sentido de que a Fundação possui a possibilidade de portar recursos para bens de capital em empreendimentos para máquinas, para equipamentos e eles têm facilidades para portar recursos para capacitação e consultoria. Então, nós temos feito muitas coisas juntas.

 

P2: Parceria.

 

R: Muita parceria com eles. Então, assim, Sebrae, Embrapa e Petrobras são grandes parceiros da Fundação na área de Trabalho e Renda. Agora estamos começando alguma coisa com o BNDES. O BNDES criou uma área voltada para empreendimentos cooperativos e solidários. Criou uma linha de crédito. Nós estamos fazendo contato com eles, também. E temos a UniTrabalho uma parceria interessante que eles têm núcleos dentro das Universidades. Dentro de 80 Universidades. Núcleos de pessoas que estão criando incubadoras de empreendimentos solidários, né? Então, é um conhecimento importante, porque, são professores universitários que montam grupos de alunos que vão assessorar empreendimentos no Brasil afora. E é um trabalho que está conosco em várias regiões do Brasil. Temos hoje parcerias internacionais como a Ecoholandesa, a qual é uma Ong Holandesa ligada a várias igrejas da Holanda que desenvolve ações no Brasil. Ela tem uma parceria muito forte com a Fundação também. Estamos fazendo um projeto no Piauí junto com eles na área da apicultura. Então, essa área de parcerias foi uma área foi a que cresceu muito na Fundação, e isso envolve uma dedicação muito grande nossa para poder manter em pé e manter as políticas afinadas para não ter muitos desencontros.

 

P2: Agora do outro lado, você tem um trabalho grande com as cooperativas, associações e com as comunidades. Quais são as maiores dificuldades com as quais está trabalhando?

 

 

R2: É, as dificuldades...

 

 

P2: _____________________.

 

 

R2: É... Na verdade isso foi um nó para nós muito grande, porque, havia um pressuposto na Fundação de quê? Quem quisesse recurso da Fundação tinha de ter condições de atender os requisitos da Fundação e apresentar as coisas nas condições que a Fundação quer. Para poder analisar, etc. Essa é uma lógica que valeu e prevaleceu durante muito tempo. Só que as comunidades que queríamos beneficiar e que queremos beneficiar são comunidades que não tem quem as ajude. Então, se você esperar que ele traga um projeto na Fundação, para podermos atendê-lo, ele nunca vai ter dinheiro da Fundação.  Assim, isso é uma mudança de paradigma muito grande do técnico da Fundação, se dispor a ajudar esse projeto a ser construído. Orientar! Por isso, é um processo muito complexo, porque muitas o técnico da Fundação, depois de ele convencido de que tem de ser feito, na outra ponta não tem quem entenda a linguagem. Quer dizer, isso foi um processo muito complicado, nós tivemos que construir uma rede de parceria. Essas parcerias ajudam nisso, por exemplo, a Caritas Brasileira possui uma relação direta com muitos grupos desses. A Organização de Auxílio Fraterno com moradores de rua em São Paulo [OAF], as Universidades, o Sebrae e Companhias, quer dizer, alguém que posso aportar um conhecimento técnico para fazer com que esse projeto saia das cabeças das pessoas e vá para o papel, e possa entrar na Fundação em condições de ser analisado. Isso é uma coisa, outras coisas são nós irmos para a região articular essa comunidades.

 

P2: Localizar líderes?

 

R: É, localizar líderes, identificar.

 

P2: Mobilizar?

 

R: Nesse sentido teve uma outra coisa, também. Que é um negócio...

Nós, em certa altura, vimos que precisávamos construir um grupo a parte na Fundação para esse grande projetos de cadeia produtivas, e nós construímos um grupo que se chamava Grupo Técnico de Assessoramento [GTA] com uma parceria da UniTrabalho.. Montamos um grupo dentro da Fundação, que tem essa missão, por exemplo, a Fundação acha que tem que desenvolver um projeto a partir de várias análises no Sudoeste da Bahia, pegando 16 Municípios de produtores rurais familiares de 13 municípios, etc. Esse grupo vai para essa região, eles vão procurar as entidades que estão envolvidas, vai nas Associações, nos Sindicatos de Produtores. Cria um processo de discussão e de envolvimento das pessoas, e é daí surge um projeto. Cria toda essa mobilização e tudo mais para que haja um envolvimento efetivo das Comunidades, e que o projeto seja genuinamente feito pelas pessoas e não um projeto levado de cima para baixo. Então, nisso nós estamos validando uma metodologia, que é uma metodologia que nós criamos, construímos a partir de uma discussão interna. Nós, UniTrabalho, Sebrae e Companhia. Esse grupo está levando essa metodologia para o campo, e estão experimentando, modificando alguma coisa, etc. E nós e... Esse grupo já está a um ano e meio trabalhando em algumas cadeias, com mais efetividade. Esse ano nós queremos produzir um livro sobre essa experiência, nós já temos uma pessoa do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], que já está trabalhando nisso e está sistematizando essas experiências e registrando tudo isso. Ao final deste ano, que fará dois anos de trabalho com a aplicação dessa metodologia, nós vamos reproduzir uma reflexão sobre esse trabalho, pois é uma coisa muito nova você ter uma Instituição como a Fundação Banco do Brasil. Que até há um certo tempo você tinha um programa com determinados programas e com determinado caráter, e você muda para um caráter totalmente diferente, e passa a ter essa relação direta com essas comunidades, construir projetos em regiões totalmente diferentes. Assim, vai haver um trabalho nesse sentido, no sentido da sistematização do que representou,  até mesmo para que esse conhecimento ficar dentro da Fundação. Porque essas pessoas são externas. O coordenador durante certo tempo era funcionário do banco, agora já não é mais, porque a pessoa teve que voltar para o banco. Mas esse conhecimento, ele vai ter que ficar na Fundação para ser utilizado em momentos futuros e em outros momentos.

 

 

P2: Essas comunidades que você tem atendido... Mas o que são as cadeias produtivas? Você chegou a acompanhar localmente alguma?Você tem alguma que te chamou a atenção, uma história que você possa estar contando para nós que tenha impressionou você?

 

 

R: Eu acompanho todas. Eu tenho algum nível de contato não muito, porque eu tenho que ficar aqui em Brasília ou ficar muito nessas articulações de parcerias.  Eu... Em algumas eu tenho mais contato. O Browne tem mais contato com o caju, ele participa muito disso. E eu também, eu visito mais muito esporadicamente, a mandiocultura também. A cadeia com quem tenho mais contato é a da reciclagem até, porque também estou há dois anos, início de 2004, eu e o Fadanelli, nós ingressamos em um mestrado aqui na UNB. É um mestrado em Gestão Social e Trabalho e ele tem uma pré-condição de que o trabalho de conclusão seja feito em cima de um tema do nosso dia a dia profissional. Então, você não pode trabalhar em cima de uma dissertação, em cima de uma coisa teórica, tem de ser em alguma coisa de trabalho. Aí, o Fadanelli legou uma prioridade para ele e eu escolhi esse campo da reciclagem. Então, o meu trabalho de conclusão de curso que eu vou apresentar agora em março, já está pronto praticamente, é sobre isso. Eu estudei o caso de três cooperativas aqui no Distrito Federal de catadores. Três cooperativas... O que me interessou nelas foram as diferenças entre elas. Para quem não conhece o setor da reciclagem pensa: “não cooperativa de catadores é tudo igual” mas não, existem diferenças entre elas, e o que me chamou a atenção para escolher essas três foi justamente essas diferenças, e eu passei a ter uma convivência mais de perto com esse setor, e aqui eu estou... A minha pesquisa foi em torno da sem dimensão, cooperativas sem dimensão tendo Riacho Fundo, Cooperativa Acortrapi, que fica perto da Cidade do Automóvel e a Coopativa que fica perto da Petrobras, um cerrado que tem ali.  Então, é um setor que eu me interesso muito, eu tive essa curiosidade de tentar entender como é que pessoas, num dado momento, estão na condição de marginais, numa condição de marginalização muito grande, nas ruas, acampados, nos cerrado com carroças, sendo expulsos de todos os lugares. E vivendo e sobrevivendo da catação de lixo, e, em outro dado momento, eles terem que administrar um empreendimento produtivo. Assim, eu fui estudar isso, e a cadeia da reciclagem me chama muito a atenção, e tem mil histórias, aqui no DF, tem uma Cooperativa que se chama Coopativa que qualquer Instituição que ponha o olho lá não apoia, pois ela não atende o que uma Instituição gosta de ver. Porque existe uma espécie de uma “réguinha”. Muitas Instituições gostam de trabalhar com uma Associação ou uma Cooperativa que já esteja mais ou menos organizada. Para ser mais fácil, para tudo ser mais fácil e os resultados serem mais rápidos. E nós, não só nós, mas algumas outras Instituições e nós também topamos ajudar essa Cooperativa, apesar das condições deles, que acampados no cerrado, umas 150 famílias, sendo despejados mês sim, mês não. Sendo despejados pela Polícia Militar. Sem endereço, sem nada, sem referência apenas com o Estatuto dentro de uma pasta. Nós decidimos apoiar essa Cooperativa e fomos peitando uma porção de coisas. Lá atrás, em 2004, nós chegamos a conclusão, a partir da conversa que tivemos com o presidente da Cooperativa, que existia uma incidência de doenças muito grande por não ter água, e a água que ele consumiam era água contaminada. Aí, nós fomos e instalamos um sistema de água lá dentro do Cerrado, apesar de sabermos que era uma ocupação irregular, instalamos uma caixa d’água grande de 20 mil litros. A partir daí, reduziu muito a incidência de doenças, hoje eles são gratos à Fundação, assim de uma forma emocionante, para você ter uma noção de uma Cooperativa dessa. O que eles dizem a respeito da Fundação por causa de uma coisa simples, uma caixa d'água que fez com que as doenças das crianças reduzisse muito.

 

 

P2: _____________.

 

 

R: É, depois, em um outro momento com essa mesma Cooperativa, nós doamos um caminhão para eles e o pessoal da Caixa Econômica que está sempre conosco nisso. Os caras ficaram curiosos de saber qual é a ginástica interna que nós fizemos  para doar um caminhão para uma entidade daquela. É, porque não entra na cabeça. (risos)

 

 

P2: (risos) Ninguém acredita.(risos)

 

R: O Jacques foi lá no dia de entregar e ficou impressionado assim, impressionado com aqueles barracos de papelão.

 

 

P1: Onde eles ficam?

 

R: Eles ficam lá perto da Petrobras. Ali perto da Estrutural.

 

P1: Ah!

 

R: Jacques ficou muito impressionado assim, e agora eles conseguiram um terreno, a Fundação vai ajudar a construir um galpão. Então, quer dizer, eles já estão fazendo uma passagem para uma outra situação. Mas assim, uma coisa muito gratificante para nós é saber que a Fundação, com algumas coisas não muito complicadas, fez uma transformação na vida de algumas pessoas.

 

P1: _______________.

 

R: E também, a presença de uma Instituição como a Fundação, de uma Instituição como a  Caixa Econômica que tem alguns voluntários que atuam conosco, a Igreja, a Caretas, etc, já fez com que a Polícia e o Governo do Distrito Federal parasse com os despejos, porque começou a ver que havia um relacionamento da Cooperativa com Instituições, e que poderia dar uma repercussão muito negativa se continuasse com aquele tipo de política. Quer dizer, a presença da Fundação nessas Instituições provocou uma mudança no comportamento do Governo, quer dizer, a olhar de uma outra forma. Depois disso, já tivemos situações desses grupos serem recebidos no Palácio do Buriti por 15 Secretários, eles próprios “catadores” ficaram embasbacados de ver. De chegar lá, dentro do Palácio e ter 15 Secretários na mesa para receber os catadores, as Cooperativas dos Catadores. Mas tudo isso a partir do momento que o Governo do Distrito Federal viu que havia uma presença  de muitas entidades atuando. Nós fizemos um encontro na AABB [Associação Atlética do Banco do Brasil], em 2003, com mais de mil catadores, colocamos os catadores dentro da AABB que foi um negócio maluco, porque....(risos)

 

P1: (risos) Por quê?

 

R: (risos) Você já imaginou a bancária do Banco do Brasil, da alta cúpula do banco, chegar lá e ver mil catadores dentro da AABB? Dentro do ginásio da Associação, fazendo um encontro, almoçando lá, naquele centro social, naquela sede social da AABB? Então, eu nunca esqueço desse dia, do impacto que deu.

 

 

P1: (risos) É, nós estamos encerrando a entrevista Jorge, nós gostaríamos que você comentasse, qual o significado da Fundação para o desenvolvimento do Brasil? De maneira mais ampla agora.

 

 

R: Eu acho que o significado... Eu acho que atuação da Fundação está provocando reflexão interna em outras instituições do Governo, porque nós fazemos das tripas coração para vencer barreiras internas que existem dentro das instituições, das grandes instituições, das grandes estruturas para atender determinadas situações e atender com celeridade, porque, em muitas situações de conveniar com associações, com fundações com coisa assim, é um processo muito demorado, muitas vezes lá, as comunidades já nem existem mais, já se dissolveram, pois o apoio não veio na hora certa. Eu acho que... Eu mesmo tenho andado em alguns espaços, que nós ficamos no espaço mesmo da reciclagem. Os catadores, muitas vezes, nos deixam em situações difíceis. Os catadores, eles chegam e dizem assim: “porque a Fundação Banco do Brasil faz, e vocês não fazem” “como é que a Fundação do Banco do Brasil prometem as coisas para 90 dias, e, em 90 dias, o apoio está lá?”

Então, eu acho que... eu  já vi pessoas de algumas Instituições querendo nos usar para isso, para levar para dentro, para forçar algumas situações dentro das instituições, entendeu? Para dizer: “ o caráter da Instituição e Fundação e o caráter da nossa é similar, porque, eles podem e nós não podemos”. Eu acho que isso é importante, não pelo recurso da Fundação, que apesar de ser uma coisa expressiva para nós, mas mais assim no contexto do quadro social brasileiro e das necessidades do Brasil. Não uma questão expressiva, mas mais o efeito demonstrativo disso no nosso meio, no meio dessas empresas estatais que é muito grande. Acho que nós provocamos algumas situações que tem o efeito em cadeia muito grande.

 

P2: Bom! A última pergunta, nós sabemos que a sua história na Fundação é muito recente, mas não deixa de ser no momento importante, no contexto político, econômico e social. O que você achou ter olhado, a partir dessa entrevista rapidamente, a sua trajetória profissional, sindical e a importância disso para a história da Fundação?

 

R:É, acho que tudo na vida da gente, você acaba colhendo alguma coisa que você vai usar mais a frente. Mas eu tento ... nesse período que eu me dediquei a carreira do banco que eu fui procurar mais sobre a área de crédito do banco, e isso está sendo útil para mim hoje, por causa do contato com as áreas do banco que tratam disso. Esse contato que eu tive com os Movimento Sociais é muito importante para mim, porque eu, depois de tantos anos atuando no Movimento Social, eu tenho uma facilidade de entender algumas situações que acontecem dentro do Movimento Social, dentro da Cooperativa, dentro da Associação, porque, por mais que a finalidade social de uma Cooperativa seja ela diferente de um Sindicato ou de um Movimento que luta pela terra, ou de um Movimento por moradia ou coisa assim, que eu tive muito contato em minha vida. Mas as relações entre as pessoas acabam sendo as mesmas, isso quer dizer, é muito útil para mim hoje dentro da Fundação. Essa felicidade de eu ter podido também casar atividade profissional com esse período acadêmico, eu desde que acabei a graduação, eu já estudei Cooperativas na graduação, meu trabalho final foi sobre Cooperativas. Na época, eu fiz um trabalho sobre Cooperativas de trabalho, depois, em uma das especializações que eu fiz, eu também estudei sobre o terceiro setor. Enfim, agora esse trabalho que estou fazendo, a dissertação que eu vou apresentar em março é sobre esse tema. Então, eu acho eu esse link também da atividade profissional com a Academia é muito importante também, que você sai um pouco daquela coisa do fazer, fazer sem refletir. Eu acho que tudo convergiu com a felicidade grande, e assim como, a questão família, eu acho que a mudança para Brasília foi boa. Por isso, se tudo mais está bem, e esse outro lado não está legal, então não adianta. Assim, eu acho que foi bom para meus filhos, foi bom esse processo, porque eu estava me “descolando” muito deles em função de estar muito longe. Então, eu acho que foi muito bom em todos esses aspectos.

 

P2: E o fato de você registrar sua trajetória para o projeto memória dos 20 anos da Fundação e ter dado esta entrevista para nós?

 

R: Ah! Eu acho bom. Acho que...

Quando me disseram disso, disseram que eu é quem ia falar,

Eu estou aqui há três anos na Fundação, eu não peguei ...

A Fundação tem 20 anos, eu estou aqui há três anos de 2003 a 2006.

Então eu tenho pouca coisa a dizer sobre a Fundação, a não ser o programa que eu coordeno, as ações da minha área, mas assim, eu não peguei todo processo de construção da Fundação, estava muito distante disso, eu não tive contato com o que se passou na Fundação, como pessoas como Alfredo, o Chicão que são os históricos da Fundação. (risos)

Mas assim, no que nós podemos saber... Eu achei muito legal poder participar.

 

P1: Em nome da Fundação do Banco do Brasil e do Museu da Pessoa, agradecemos muito você ter vindo na entrevista.

 

 

R: Muito obrigado.   

  

 

--FIM DA ENTREVISTA--


 

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