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História

''Entrei na melhor área da White Martins.''

História de: Antônio César Torres de Miranda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/08/2020

Sinopse

Antonio começa contando de sua origem, sua infância e sua família. Conta que queria ser Engenheiro desde pequeno e relata que realizou esse sonho ao ingressar no curso de Engenharia Mecânica. Relata sobre suas ''molecagens''. Ele conta sobre sua faculdade e sobre alguns concursos que prestou, entrando logo no período em que ingressou na White Martins. Ele conta sobre sua função na empresa, relatando em conjunto ponto sobre a infraestutura e funcionários dela. Antonio conta de como José Gurjão o ajudou a crescer em sua profissão. Conta dos desafios de conciliar família e trabalho, principalmente no período em que teve de exrcer sua área na região Norte e Nordeste. Conta das perspectivas da White Martins, finaliza e agradece. 

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História completa

 

 

P/1 – Antes de começar eu queria que o senhor falasse para gente o seu nome completo, local e sua data nascimento.

 

R – Antônio César Tôrres de Miranda, sou natural do Rio de Janeiro, nasci no centro da cidade, no dia 28 de julho de 1962.

 

P/1 – E qual que é o nome dos seus pais, dos seus avôs?

 

R – Pais: Sonia Cardoso de Miranda, viva, 77 Anos. Reginaldo Cardoso de Miranda, falecido, teria 76... Avós por parte do meu pai... Inocência Miranda e Agenor Miranda. Por parte da minha mãe, Artur Torres e (Aideia?) Torres. Todos falecidos.

 

P/1 – Me conta um pouquinho da história dessa família, qual que é a origem, como seus avós se conheceram depois os seus pais.

 

R – Meus avós eu não faço ideia, eu os conheci muito pouco. Tive pouca oportunidade de conviver com eles. Convivi um pouco mais com o pai da minha mãe. Quando a mãe da minha mãe faleceu, eu era muito pequeno eles eram separados e meu avô morava em Niterói porque sou filho único. Eu costumava ir à casa do meu avô uma vez a cada três meses, quatro meses. Meu avô foi gramático da língua portuguesa, é o Artur de Almeida Torres e, eu me lembro indo almoçar na casa dele de tempos em tempos. Não lembro exatamente da minha avó porque era muito pequenininho quando ela faleceu. Esses são meus avós por parte de mãe. Por parte de pai eu também tive muito pouco contato. Meu avô eu não lembro, o Angenor. Minha avó um pouco mais. Ela era portuguesa, Inocência do Cintra morava em Sepetiba. Todo Natal era na casa dos meus avós por parte de pai, mas eu também era muito pequeno quando ela veio a falecer também. Então eu lembro mais dela. Ela tinha aquele perfil assim de portuguesa, uma cara de portuguesa. Imagina uma mulher portuguesa, era minha avó. Lembro basicamente do Natal com meus primos por parte do meu pai.  – porque a família da minha mãe é muito pequena. A família do meu pai é grande. Eu tenho um primo por parte da família da minha mãe e vários por parte da família do meu pai, e, eu lembro que gostava de ir para lá no Natal porque Sepetiba tinha praia. Apesar de muita lama, lodo, eu gostava de ir porque tinha um clima de praia e a gente... Era uma cidade do interior tínhamos muita liberdade. Era segura, então os pais deixavam os meninos pequenos saírem para a rua e ir à cidade, ir à praia, sozinhos. Pouquíssimos carros,  a segurança era muito, muito boa. Isso era bom, porque eu morava no Rio de Janeiro, no Meyer, num bairro que era bem movimentado, tinha certa liberdade, mas era cidade grande. Em Sepetiba a gente tinha muita liberdade e isso pra criança era tudo, não é?  Adorava estar com meus primos. Por ser filho único eu tinha muitos amigos, não tinha muitos primos próximos, eram mais esses que encontrava somente no Natal. 

 

P/1 – Me conta um pouquinho dessa infância no Meyer, qual  era a atividade dos seus pais, como era o bairro, quais eram as brincadeiras que você mais gostava.

 

R – Meu pai era bancário e minha mãe professora. Minha mãe fez o normal na escola de aplicação, se formou professora do ensino fundamental e trabalhava bastante com criança. Meu pai bancário, do banco... Banco Industrial e Comercial do Sul, que depois veio a ser comprado pelo Banco Sul Brasileiro. No início eu sempre estudei com a minha mãe professora. No primário eu estudei grande parte da minha vida em escola pública e algumas vezes, até na escola em que ela lecionava. O ginásio e o científico fiz em escola particular no Colégio Metropolitano, lá no Meyer.   Sempre fui muito bom aluno, tive boas notas. Sempre tive facilidade de passar de ano. Tinha  tendência para a área de exatas, de matemática, física, química e também gostava muito de português por causa do meu avô. Eu gostava de meu avô, ele foi um grande exemplo para mim. Talvez me sentisse um pouquinho na obrigação de ser bom em português. Pela herança, não é? Pela herança genética, eu diria. Na escola eu sempre fui muito bem, nunca dei trabalho para minha mãe com relação aos estudos. Na infância junto com meus amigos sempre tive muita liberdade. Minha mãe trabalhava, meu pai trabalhava e como eu sempre fui bom aluno eles confiavam bastante em mim, me davam liberdade para estabelecer meu horário de estudo, meu planejamento de estudo e o lazer. Vivi  grande parte da minha vida, no mesmo local, com muitos amigos de infância. Eu gostava de jogar futebol na rua porque a gente não tinha muita estrutura, éramos eu diria de classe média baixa. A rua era nosso ambiente de lazer. A gente soltava  pipa... Isso durante a luz do dia. E à noite era brincar do que a gente chamava de barrilha, tipo um pique esconde. Não se enxergava direito era nossa brincadeira, uma alegria. Sempre muito bom muito divertido. Durante as férias eu saía de casa oito horas da manhã e retornava, sei lá, às 11 horas, meia noite. O tempo todo na rua. Normalmente almoçava na casa de amigos era uma felicidade muito grande. Quando meus pais me informaram que iam tirar férias e viajar, aí era aquela tristeza.  Depois que nós compramos esse apartamento lá em Cabo Frio amenizou um pouquinho essa notícia das férias, eu gostava muito de ir pra lá.

 

P/2 – E o que o senhor na sua meninice queria ser quando crescer? Tinha assim algum...

 

R – Engenheiro. O que  sou. Eu sempre tive isso em mente. Tenho um filho de 21 e uma filha de 17. Os dois tiveram dificuldades, minha filha está agora fazendo vestibular, meu filho já está na faculdade e os dois tiveram dificuldade para escolher a profissão a seguir.  Eu sempre fui muito decidido com relação a isso. Como eu gostava muito de matemática e física eu queria ser engenheiro. Eu nunca tive dúvida em relação a isso. Então, antes mesmo de entrar na faculdade, eu já procurava saber o que acontecia na  faculdade e saber se realmente era isso que eu queria. E era isso que eu queria. Então, nunca tive dúvida, sobre o que   sou hoje. Quer dizer, fui... Hoje eu sou mais administrador do que engenheiro.

 

P/1 – E me diz uma coisa, durante a sua infância o senhor pensava em engenharia porque o senhor tinha algum fascínio?

 

R – Tinha. Os engenheiros que eu conheci me fascinavam com a utilização da física, da matemática, a possibilidade de criar, inovar numa área que eu gostava.  Fiz Engenharia Mecânica que das engenharias era aquela que eu mais me identificava. Motores, enfim, eu me identificava bastante com essa área.

 

P/1 – E agora, queria que o senhor... Esses amigos da infância,  esse período. O senhor tem alguma história marcante, algum momento mais significativo?

 

R – Dessa época de infância... Falando dos amigos, eu era sempre o mais novo lá da turma e muito folgado, era muito folgado. É... Então os amigos eram normalmente 3, 5, 6 anos mais velhos. Nessa época faz muita diferença. Mas eu conseguia conviver com eles no futebol, conseguia transitar bem. Era mais novo, tinha a cabeça muito mais nova, mas pelo porte físico eu conseguia transitar bem entre eles e o futebol. Um meio de integração muito forte porque normalmente são muitas, muitas meninas, muitas pessoas. Eu jogava muito bem futebol e era forte, então eu transitava nesse meio. Apesar de ser novo era um  respeitado pelos mais velhos por isso. Mas eu lembro que era muito folgado (risos), muito abusado e sofri por isso, viu? Sofri bastante porque tive que correr um bocado (risos) para não apanhar dessa turma, viu? Mas eu merecia, merecia sim. Não é exatamente um fato marcante, mas eu me lembro dos rachas que tinha em São Paulo, nas ruas de paralelepípedo. Então hoje eu tenho artrose, dedo quebrado,  quebrei tudo que você pode imaginar. Dei muito trabalho pra minha mãe e pro meu pai. Na escola também, fui bom em estudo, notas, mas dei muito trabalho em termos de comportamento. Sempre muito irrequieto, tenho a impressão que eu fui muito ativo na infância. Não conseguia ficar sentado o tempo todo.  Acho que perturbava um pouquinho a aula com esse comportamento irrequieto na época. As histórias então são essas do futebol que eu jogava na rua. Hoje, se boto um tênis inapropriado já sinto... Na época jogava descalço, pisava em pedra, pisava no paralelepípedo, chutava pedra, aí quebra queixo,  cabeça. Vivia me machucando. E empinando pipa também. Fazia pipa, fazia o cerol,  não sei como é que se chama aqui em São Paulo,  o cerol cortante. Moía o vidro, comprava cola de madeira, derretia, isso junto com 2 ou 3 amigos.  Lembro um fato interessante com relação a esta questão de empinar pipa e fazer cerol cortante. Fomos à casa de um amigo, que veio a ser meu padrinho de casamento, mas faz muito tempo que não vejo  a casa dele era no centro. Era lá que as coisas aconteciam. Onde tinha o futebol, onde a gente empinava pipa. Então eu vivia muito na casa dele. O nome dele é Wander. O Wander era o terceiro de quatro filhos. O pai dele, Dr. Mauricio, é engenheiro. Dona Francisca, a mãe dele, professora também. Então os pais trabalhavam e a casa ficava com a empregada e com os filhos. O Wander era mais ou menos da minha idade, a gente vivia junto, principalmente pra empinar pipa. Nós fomos um dia lá, pra fazer cola de madeira. Não sei se vocês conhecem cola de madeira. É vendida em loja de ferragem. Você derrete o tablete  numa panela, aí a cola fica líquida. Daí você  pega uma garrafa de viro e mói.  Quanto mais fino melhor. Uma lâmpada era ideal. Você mói o vidro num paralelepípedo, depois côa numa meia e coloca numa garrafa a cola de madeira e o vidro. Essa mistura você passa na linha e ela é cortante. Serve pra cortar as outras pipas. Lembro de uma vez, íamos fazer a cola de madeira, compramos, pegamos a panela, enchemos de água, botamos a cola dentro. Estávamos derretendo a cola e alguém gritou: “A pipa na sua casa, a pipa na sua casa!” Saímos para ver a pipa e a cola de madeira ficou lá. A empregada veio, viu aquela panela, olhou e desligou. Aí o que acontece, quando você desliga estraga a panela. A  gente se distraiu, demorou pra voltar, esquecemos da panela derretendo a cola.  Quando voltamos... A panela que usamos era a melhor panela da dona Faninha. Ela chegou e olhou aquela cola de madeira sólida na panela. Teve que jogar fora a panela, e aí foi uma bronca danada. E a partir daquele momento a gente nunca mais pode fazer a cola de madeira na casa do Wander. Então a cola de madeira era feita lá em casa. Mas foi um aprendizado. Desde então derretemos a cola de madeira a gente se preocupava em não perder a panela. Essa é uma  história, assim, simples, mas  a gente não esquece. E o futebol era sempre no paralelepípedo, cheio de pedra e areia... Eu vivia machucado, com problema de joelho ralado, de dedo estourado, sem unha, cotovelo, porque você caia na rua. 

 

P/2 - Antonio, agora me conta um pouquinho qual foi a sua primeira lembrança da escola,  seu primeiro dia de aula.

 

R- Não lembro o primeiro dia de aula. A primeira escola? Acho que foi a Escola Rocha Pombo em Quintino, onde minha mãe lecionava perdão, foi o jardim de infância perto de casa. Não lembro o nome.  Foi quando eu comecei. O primeiro ano do primário é que foi na Escola Rocha Pombo em Quintino.  No primeiro ano já era bom aluno, mas muito irrequieto. Porque eu levantava saía da sala e voltava e levantava e conversava e incomodava os alunos, então isso criava realmente... Tinham que chamar minha atenção. E as professoras que eram amigas da minha mãe comentava com ela. Começou a criar um constrangimento, até o momento que ela viu que não ia dar certo. Então resolveu me mudar de escola. Fui para outra escola... E aí eu fui para uma escola que eu podia ir a pé, perto de casa. Para a escola  em Quintino, a gente ia de ônibus, dava uns 40 minutos. O José Eduardo Macedo Soares era uma escola pública perto de casa.  Uma escola maior, nova, tinha sido recém-construída. E fiquei lá até... Comecei no primeiro ano do ginásio não... Acho que foi no segundo ano do ginásio. Depois, saí dessa escola pública e fui estudar nesse colégio particular. Essa escola era a melhor escola particular do Meyer. Ia a pé, demorava uns 15 a 20 minutos. A empregada, Pureza era o nome dela, ajudou a minha mãe a me criar. Como meus pais trabalhavam ficava em casa com a Pureza. E ela fazia o papel de segunda mãe, digamos assim. Era quem me levava para a escola, porque quando eu era novo, a mamãe falava: “Não é tão perto assim pra te deixar ir e voltar sozinho, a Pureza vai te acompanhar”. Aí eu falava: “Não precisa!” Sempre fui muito independente, não gostava muito disso não.  Então a Pureza ia. Mas a Pureza  ia uns dez metros atrás, porque eu não queria que ninguém soubesse que a empregada estava me acompanhando até a escola. Ficava cheio de ideia. E assim a uns 200 metros da escola ela não podia mais avançar: “Chegou teu limite, fica aqui porque se você vier atrás de mim eu vou correr e você não vai correr atrás de mim”. Eu tinha que chegar à escola sem ninguém saber  que ela estava perto de mim. Essa é uma história interessante. Até que durou pouco, depois minha mãe viu que não havia necessidade, eu ia e voltava sozinho da escola. E adorava isso! Porque no meio do caminho encontrava um monte de gente, conversava com os vizinhos, parava na casa de um, parava na casa de outro, normalmente na volta.  Era raro eu almoçar em casa. Parava na casa de um para almoçar e ligava. Só tinha telefone fixo na época,  ligava e falava:  “Pureza, vou almoçar aqui na casa do fulano. Isso  eu me lembro. 

 

P/1: Antonio César, eu só queria entender um pouquinho, essa coisa de mudar de escola, como foi a adaptação, o que tinha numa escola que não tinha na outra, o que você sentia falta, o que você mais gostou na outra escola.

 

R: Nunca tive problema. Aliás, uma coisa que eu nunca tive problema na minha vida é de mudança. Até os filhos aprenderam a gostar também. Mas desde pequeno eu nunca tive problema com mudança, achava até legal. Gostava de experimentar desafios diferentes, coisas novas.  Adaptação nunca foi problema. Gostei de todas as escolas. É claro que depois que experimentei escolas maiores, gostei mais, porque é mais movimentado.  A escola pequena é muito limitada, muito contida. A escola maior dava um pouco mais de espaço, de liberdade. Sempre tive muita facilidade de fazer amigos até porque não tive irmão. Os primos moravam distante, eu não tinha muito relacionamento. Por isso, minha vida sempre foi cercada de amigos, quanto mais, melhor. As escolas maiores me davam essa possibilidade.

 

P/1: E das festas que as escolas comemoram qual era  a sua preferida? Festa junina, dia dos pais, dias das mães...

 

R: Festa junina. Gostava de participar. Lembro mais das baladas, na época eram chamadas festinhas.  Nas festinhas do Metropolitano, eu tinha mais idade. Eu fui muito cedo às baladas da escola. Entrar de penetra era um barato. Tem até hoje eu acho... É... Naquela época não tinha muito esse negócio de segurança na porta, ou convite com cartão, era: “Aparece lá em casa”, ou no máximo um papelzinho, ou coisa assim. Era o máximo você entrar na porta da balada sem ser convidado. Isso era... O cara era respeitadíssimo quando isso acontecia. Sempre numa boa, sempre no sentido de diversão, de curtir. Gostava mesmo é das baladas.





P/1: E quais eram os truques para entrar nas festas escondido? (risos)

 

R: Uma amiguinha que conhecia a dona, que tentava,  ou passava um amigo que tinha sido convidado entrava abraçado com ele, esses truquezinhos bobinhos.  Mas era tudo coisa do bem. Mesmo que se observasse que determinada pessoa não tinha sido convidada, sendo do grupo, normalmente era da escola, deixavam. Os pais na época eram mais condescendentes com este tipo de coisa, mais compreensíveis. E a gente era tudo do bem. 

 

P/1: Teve algum professor que marcou sua trajetória escolar, alguma matéria preferida?

 

R: Matemática. Teve um professor no Metropolitano que eu não esqueço. Sempre me desafiou muito. Acho que ele acreditava em mim.  Parte deste meu gosto por matemática, devo a ele também. Lembro que ele fazia concursos, eu adorava isso. No meio da aula ele dizia: “Hoje tem concurso, quem ganhar vai receber um prêmio. De dez eu ganhava nove. Sempre fui competitivo. Falou em concurso era comigo. Campeonato, torneio, meta, eu estava dentro. Aliás, até hoje. Claro que hoje tem uma série de limitações, tem coisas físicas, mas, disputar, é comigo. Até videogame, com os meus filhos eu tenho que me controlar para não ganhar. E o professor sempre me desafiou em relação a isso. “Vou dar um problema aqui agora e quem acertar vai ganhar um prêmio”. Ele era professor de matemática muito reconhecido tinha livros publicados, então normalmente a gente ganhava um livro. Eu tinha vários livros do Roberto Zarenga. Ele sabia que eu gostava disso, chegava falava: “Trouxe um negócio pra você aqui, a gente conversa amanhã”. Normalmente era um daqueles exercícios cabeludos. Eu era muito inteligente. Nesse dia  nem queria descer pra jogar bola, nem pipa. Eu ficava vidrado em resolver, pra no dia seguinte dizer a  ele: “Isso aqui é pinto pra mim”. A maioria eu conseguia resolver, mas não era fácil não. E isso me motivava. Tudo bem era uma matéria que eu gostava, mas, era inteligente esse professor. Muito inteligente. Se todos tivessem a perspicácia dele, de perceber quem se motivava com isso, e estabelecer metas mais arrojadas, os professores incentivariam muito mais o desenvolvimento dos alunos, não é? O que eu sinto hoje é a falta de cumplicidade entre o professor e o aluno. Tratando todos iguais gera uma frustração no estudante muito grande, principalmente o estudante de hoje que tem tudo na mão. Então esse professor, eu lembro bastante. Ficou marcado.

 

P/2: Teve alguma vitória que foi mais marcante do que as outras, mais específica? Alguma história pra contar?

 

P/1: E Antônio, conforme o senhor foi crescendo o interesse pela matemática apareceu... Já gostava? Já tinha aquele fascínio pela engenharia? Como se deu a sua escolha? Seus pais tinham alguma preferência?

 

R: Não, eles estavam bem confortáveis com a engenharia. Meu pai gostava muito da medicina. Também gosto muito. Acho uma profissão lindíssima, mas, meu fascínio era pela matemática, pela física, pela química, mas matemática e física. Já tinha certo na cabeça que ia ser engenharia. Eles não me forçaram a nada,  ficaram muito confortáveis com isso, me incentivaram bastante. 

 

P/2: E como se deu a sua entrada na faculdade?

 

R: Na época do pré-vestibular também me interessei muito por  oceanografia por geologia, isso no terceiro científico, chamado assim na época.  Resolvi fazer as duas. Acho que isso tirou um pouquinho o meu foco da engenharia. Eu tinha certeza que era engenharia que eu queria, mas eu estava bastante motivado e encantado com essa possibilidade de fazer oceanografia e geologia. No final se tornou geologia pela facilidade futura de emprego, principalmente na Petrobrás. Resolvi fazer geologia, então. Acho que isso tirou um pouquinho meu foco na reta final. Então, como a geologia exigia outras matérias  fui com mais sede ao pote para a  geologia, mas fiz as duas. E aí passei em geologia pela UERJ, era acho que 30 vagas para não sei quantos alunos. A relação candidato/vaga era muito alta. E aí passei muito bem em geologia na UERJ. Na engenharia  fiquei para o segundo semestre. Passei na Gama Filho. Não era exatamente o que eu queria na época. Mas, depois eu vi que tudo na vida não  acontece por acaso, acredito muito nisso. Não reclame de absolutamente nada da vida porque tem um motivo. As coisas acontecem, definem um caminho. Lá na frente é que você, na maioria das vezes entende o porquê. Comecei então o primeiro semestre na geologia, no segundo semestre engenharia, ia fazer as duas. Minha ideia era cursar  engenharia de manhã e geologia à tarde e um pedacinho da noite. Conseguir conciliar as duas. Quando  comecei geologia na UERJ, se  tive 40% das aulas foi muito porque naquela época era uma greve de professores atrás da outra. Sendo greve o pessoal faltava. Uma escola estadual reconhecidíssima no Brasil imagina! No Rio de Janeiro! Era sem custo e perto de casa... Naquela época era nossa! Era muito conturbada essa questão de greve de professores. Não tinha aula, não tinha  aquela vontade realmente, aquele desejo de ensino. Aquilo me frustrou  demais! Então, nada acontece por acaso. Passei em engenharia pela Gama Filho, não pela UERJ. Eu imaginei: “Será que era na UERJ mesmo que eu queria?”  Porque imagina a profissão de escolha minha só com  40% das aulas. Os alunos da UERJ não se formavam em 5 anos. Formavam-se em 6, 7, 8 anos. Não terminavam os períodos, por causa das greves. Eu lembro bem que enquanto eu terminava um período da faculdade lá na Gama filho, eles por causa da greve atropelavam as coisas, entendeu? Você não terminava normalmente o curso no prazo por causa desse problema. Gostei muito da Gama Filho, o ensino foi  forte,  os professores do IME... Nunca tivemos  falta de professor, problema de greve, me senti  muito confortável e satisfeito com a faculdade. Me formei em 5 anos, direitinho, sem problemas. Então quer dizer há males... 



P/1: Conta para gente então como  foi, entrar na White Martins, como o senhor decidiu fazer o estágio.

 

R: Uma coisa curiosa. Eu não fiz estágio. Porque? Por que infelizmente meu pai faleceu no último período da faculdade, naquela época, o estágio era  nos dois últimos períodos. Não tínhamos uma situação financeira confortável.  Meu pai tinha se separado da minha mãe e tinha outra família. Então, quando meu pai melhorou um pouquinho de vida, ele separou da minha mãe e constituiu outra família, e nós, eu e minha mãe perdemos um pouquinho de qualidade de vida.  A situação não era confortável. Quando meu pai faleceu não tinha muita herança, praticamente nada. Sobrevivemos com o salário da minha mãe de professora e com alguma outra coisa que ele deixou, muito pouco. A situação ficou um pouquinho apertada. Tivemos que vender os 2 carros que tínhamos.  Me vi na necessidade de trabalhar. Como não era formado o melhor caminho foi fazer um concurso para Agente Administrativo do INPS. Fiz prova de matemática e português e passei em primeiro lugar. Nem sei como fiquei sabendo desse concurso acho que alguém falou para minha mãe. E minha mãe disse: “Você não quer fazer esse concurso? Se você passar é uma renda para a gente se estabilizar um pouco mais. Você não é formado, vai arrumar emprego de que? Esse é um emprego público”... Eu falei: “Tudo bem mãe eu vou fazer”  Ela disse: “As matérias da prova são matemática e português, então as chances, filho,  de você passar são boas”. E eu passei em primeiro lugar. Naquela época tinha muito esse negócio de pistolão. Esse negócio de “isso é tudo carta marcada, e não sei o que, não sei o que lá”. E minha mãe falou:  “Meu filho não acredita nesse negócio não”. Aliás, os valores que meus pais me transmitiram foram sempre muito fortes. “Não acredita nisso não, acredita que você é capaz e você vai passar”. Eram 100 questões acertei 99. Errei uma de matemática que até hoje eu não esqueço.  Acertei 50 de português e 49 de matemática. E passei em primeiro lugar. Sendo assim, tinha direito de escolher onde  trabalhar. Tudo na vida acontece porque tem que acontecer. Havia o preenchimento de vaga imediata,  os outros aguardavam a chamada durante  1, 2 anos. Eu passei em primeiro e fui chamado logo,  podia escolher. Entrei para trabalhar em função administrativa e escolhi Duque de Caxias, que não ficava tão longe de minha casa. Porque eu não queria  hospital.  E nessa época a minha mãe falou: “Com o dinheiro da venda dos carros que seu pai deixou a gente  compra um carro bom para você  trabalhar lá em Duque de Caxias”.   E assim ela me deu um carro, melhor, não é? E fui trabalhar em Duque de Caxias. Depois passei a faculdade para o período noturno. Por isso não fiz  estágio. Não era obrigatório na época. Quando eu me formei, enviei um currículo para uma empresa de pequeno porte, lá em Caxias. E consegui mudar a minha função de Agente administrativo, para uma atividade noturna. Só tinha trabalho à noite, o que eles chamavam de PU (Posto de Urgência), num hospital da baixada Fluminense. Então liberei o horário da manhã. Enviei um currículo para uma forjaria que precisava de engenheiro mecânico em Caxias. Fui lá, fiz a prova, fiz a entrevista e passei. Lá era muito longe da minha casa, era uma hora e meia de carro. Trabalhava das sete às cinco e meia da tarde. De lá ia para o trabalho público. A única coisa que o proprietário da forjaria pediu foi o seguinte: “Eu não quero que você chegue aqui cansado e não consiga render”. Eu falei: “Deixa comigo”. Tinha que me sustentar  ia  correr atrás.  Garoto, não é? O início foi muito duro, eu estava num posto de urgência de um hospital da Baixada fluminense, na parte administrativa. Na recepção, era duro, muita gente baleada, muita facada, era difícil, muito difícil. Tive dificuldade em continuar. Aguentei sei lá, seis meses. Não me sentia bem, realmente não me sentia bem. A contragosto dei baixa no serviço público. Muita gente: “Dar baixa no serviço público, isso é para sempre, nunca ia ser   demitido!” Eu: “Não tem alternativa, o que eu quero da minha vida é engenharia, não quero ser agente administrativo do serviço público.”  Aí fui lá, pedi demissão, dei baixa no  RH. Nunca esqueço porque  a moça  tem o mesmo nome da minha mãe, Sônia. Ela me adorava.  E ela disse: “Eu não vou fazer isso. Vou solicitar uma licença sem vencimentos. Para você ficar tranquilo. Quando você voltar a gente conversa”. Disse a ela que não, queria dar baixa, era isso que eu queria. E assim foi. Dei baixa, depois conversei com o dono da forjaria. Falei assim: “Olha estou saindo, assim, assim. Existe alguma forma de você melhorar a minha condição salarial”? Era uma empresa pequena. Ele disse: “Vamos ver. Vou pensar”. Esse deixa eu dar uma pensada demorou. Foi quando surgiu a White Martins. Aliás, surgiu a White Martins e a IBM. Abriram vaga para engenheiro, eu já estava formado. Fui ao dono da forjaria, falei: “Olha só, entendo a tua dificuldade, mas o salário que você me paga  não me atende, certo? Não tenho  recurso para ficar só com esse salário, tenho desgaste do carro, eu venho da minha casa a 50 km daqui, demora uma  hora e meia para chegar. Estou sendo sincero. Vou iniciar o processo seletivo e queria que você soubesse disso. Se quiser me demitir agora me demita. Ou então continuo trabalhando contigo e você já vai pensando num outro engenheiro para me substituir”. Fui transparente com ele. Ele disse: “Eu entendo, vai em frente, conto contigo enquanto você puder”. Eu disse:  “Tá bom”. E assim fiz até o dia que apliquei para a IBM e para White Martins. A vaga era aqui no Sumaré.  Na IBM o processo avançou e cheguei à final. Estive 5 vezes aqui em Sumaré, para as entrevistas, fui passando. Na IBM o processo seletivo era muito complexo, demorava muito. Passava por muitas etapas. Até que o processo da White avançou e o da IBM também. No final a IBM me informou: “Olha ficou você e mais um candidato, eu queria saber se eu posso manter o seu nome aqui para uma vaga que provavelmente vai surgir em seguida. Nós gostamos muito de você. Eu disse: “Não”! “Eu avancei lá na White Martins e vou ser contratado”. Bom, as coisas não acontecem por acaso mais uma vez. Porque trabalhar no Sumaré seria longe da minha família, da minha mãe, que nesse momento estava passando por um momento difícil, viúva, sozinha, só tinha a mim, estava fragilizada. Primeiro meu pai se separou logo em seguida faleceu.  Decidi ficar no Rio de Janeiro na White Martins mesmo. Isso foi em setembro de 1986. Um ano depois de formado. Uma história longa para uma pergunta curta. Por isso não fiz estágio.

 

P/1: Conta um pouquinho como foram os primeiros dias de White Martins, quais que eram as suas primeiras funções.

 

R: Sensacionais. Foi uma época muito fértil e produtiva da minha vida, eu gostei demais. Realmente foi uma dádiva entrar na função de engenheiro de processos na White Martins. Entrei na melhor área da White Martins, até hoje. A área de Aplicação de Gases que hoje está comigo. Uma área  “tecnocomercial”. Utiliza todo o conhecimento de engenharia em prol do negócio. É uma área que o engenheiro de aplicações só leva boa notícia para o  cliente, entendeu? As coisas mudam, eu entendo isso. As coisas mudam na minha casa, mudam no mundo. Porque o engenheiro na companhia hoje tem carro, celular, notebook, tudo que precisa. Na minha época, não tinha nada disso. Eu viajava de ônibus cada vez que tinha uma área para cobrir. Se fosse para Juiz de Fora, por exemplo, ia para a rodoviária pegava um Cometa. Levava os maçaricos, os painéis para fazer os testes no meu cliente. Eu pegava aquilo tudo levava até a rodoviária, e da rodoviária pegava um ônibus e ia para o cliente começar o meu trabalho. Na filial o vendedor é que tinha o carro dele, que não era da White, era dele. A White reembolsava a quilometragem. Botamos todo aquele equipamento no carro dele começava a trabalhar. E isso com muito prazer, sem reclamar de nada. Hoje em dia, se o celular deu um probleminha, nosso profissional reclama um bocado, eu entendo. As coisas mudam tudo bem. Mas, quando você faz as coisas com prazer, adora a companhia, acredita nas pessoas, tem paixão pela sua atividade, pela empresa, essas coisas são pequenas, você faz esforços muito, muito maiores. Então, foi realmente uma benção aquela função. Eu adorei! 

 

P/1: Antonio, qual era área que você cobria, por onde você passava e quais eram os equipamentos que viajavam com você conta um pouquinho como era o mercado ali naquela região. 

 

R: Eu era responsável pela parte dos equipamentos de corte oxiacetilênico. Tínhamos bico de corte, maçaricos e assim por diante. Eram, equipamentos mais produtivos, traziam benefícios de aumento de produtividade para o cliente. Para as demonstrações na área de corte tínhamos painéis que pesavam seguramente uns vinte quilos. Painéis de rotâmetros, reguladores e assim por diante. Hoje são pequenos... Para uma demonstração do equipamento novo, de um bico ou de um maçarico mais produtivo, tinha-se que provar ao cliente que ele ia ter benefício na velocidade, no corte e no consumo de gases. O mesmo consumo de gás num corte mais rápido.  Algo nesse sentido. Montávamos os equipamentos na casa do cliente e fazíamos os testes sempre na presença dos operadores e dos técnicos. Os painéis demonstravam as vazões e pressões que utilizávamos no processo de corte. Eram maçaricos enormes, à corte ou aquecimento. Da mesma forma a solda. Tínhamos mistura de gases melhores e mais produtivos para aumentar a velocidade e a qualidade da soldagem. Era preciso medir a passagem do volume de gases para provar ao cliente que ele ia gastar menos. Com isso, à medida que a gente fazia os testes e mostrava  nossos equipamentos e processos o cliente ou comprava, ou assinava um contrato com a White Martins. Dessa forma é que a gente ajudava o negócio. Trazendo novidades tecnológicas para ajudar o vendedor a vender mais.  A gente não falava em preço, a gente falava em qualidade, produtividade, segurança e assim por diante. Então, eu lembro, por exemplo, de um maçarico chamado MAQ-300. Um maçarico de aquecimento que fez uma revolução no mercado de aquecimento. Era um maçarico enorme, um maçarico de provavelmente 1m de comprimento, até um pouco mais. Bicos BMA-150, BMA -300. Dependendo do bico tinha um potencial de aquecimento maior ou menor. O bico de corte Soldox tem tecnologia inovadora para aumentar a concentração da mistura  e a velocidade de corte.  Eu sempre gostei de negociar. Então você aliava o conhecimento técnico com a negociação. A função técnica  comercial é a melhor função que existe, na área de negócios da companhia. Eu atuava em Espírito Santo, na Zona da Mata Mineira, e no Rio de Janeiro.  Esse foi o início da minha estada no Rio de Janeiro.  A função existia no Brasil todo. Fazíamos reuniões periódicas com os engenheiros do Brasil inteiro. Trocam-se ideias, e apresentavam-se os resultados de algumas experiências inovadoras e diferentes. Era comum, por exemplo, o Nordeste pedir para que eu fosse desenvolver um cliente lá,  com potencial parecido com aquele que eu desenvolvi numa determinada região. Como eram casos de sucesso eu podia replicá-lo em outras regiões. Nessas reuniões era comum ouvirmos histórias de sucessos dos colegas, eu falava: “Ah! Tenho um cliente que nessa história se encaixa”. Esse intercâmbio de conhecimento era comum. Estive nos estaleiros da Bahia. Estive em São Paulo. No Nordeste, por exemplo, tive colegas que conheciam muito essa área de corte e solda. Me ajudaram com  os  clientes lá.  Um período muito fértil, muito interessante. Essa era mais ou menos minha atuação.

 

P/1: A partir do momento que vocês iam oferecer o produto, mostrar as vantagens. O cliente tinha espaço de pedir algum produto para  a White Martins  desenvolver no futuro? 

 

R: A White Martins tem profissionais muito qualificados. Essa é uma área core da organização. É uma área de tremendo valor. A propósito, me lembrei de uma coisa. Ontem fomos eleitos a sétima empresa mais inovadora do Brasil pela Revista Época Negócios em parceria com a consultoria A.T.Kearney.  Essa área contribui enormemente termos de inovação e tecnologia.   Eu, o William, a Cristina de Comunicações e Sustentabilidade e o Orlando Peres,  Diretor de Negócios em São Paulo, fomos receber essa premiação. E a gente estava concorrendo com empresas tipo Procter & Gamble, Vale, WEG, Basf, Whirlpool e assim por diante. Ano passado fomos 11ª colocada entre 20. É uma tremenda vitória. Porque é uma área que traz muita inovação para a organização. E a tua pergunta era?

 

P/1: Era se tinha não só o espaço de oferecer, mas também um espaço de absorver as necessidades futuras.

 

R: Quando  vamos aos clientes levamos novidade. O cliente tem um nível de confiança muito grande em nossos profissionais, porque nós temos um conhecimento técnico muito forte. É que a relação vá além desse horizonte. Esses profissionais têm a capacidade de identificar uma série de outras oportunidades além daquela que é proposta no momento. Temos grandes e pequenos consumidores. Na época em que trabalhava em aplicação de gases, atuava junto a pequenos e médios consumidores. Toda vez que  vislumbrava   algum  potencial de aplicação que não fosse da  minha área, e eu tinha conhecimento para isso, explorava aquele assunto com o cliente, até o máximo. E prometia a visita de um especialista. Na área de líquidos por exemplo.  O especialista se apresentava, conversávamos, e a partir daquele momento os dois trabalhavam juntos com o cliente.  O profissional da área técnica tem um respeito, uma confiança muito grande por parte do cliente. É exatamente o que acontece.

 

P/2: Quais que foram as próximas etapas?

 

R: Tive muita sorte. Tive um mentor, o  José Gurjão que me ensinou muito. Costumo chamá-lo carinhosamente de professor Pardal. Ele é  inteligente,  capaz,  muito perspicaz. Tê-lo como mentor foi uma grata surpresa. Ele era engenheiro da matriz e eu trabalhava no campo.  Um pensador, um cara brilhante, está na companhia até hoje desenvolvendo novas tecnologias.  Em função disso consegui gerar muito negócio. Com a ajuda dele, desenvolvi bastante. A partir daí fui convidado a assumir a área comercial de uma unidade. Em março de 1988, dois anos depois que eu entrei na companhia,  fui convidado a assumir a gerência da filial de Volta Redonda. É uma atividade comercial. Naquela época era uma parte distribuição, uma parte produção, administração, vendas, como se fosse um mini negócio. Tive que mudar para Volta Redonda. Lembro bem que eu namorei oito anos minha esposa, com quem eu sou casado até hoje, sou muito feliz. Comecei a namorar aos 17, muito cedo. Disse: “Fui convidado para ir à Volta Redonda. Ela falou: “Eu vou, de acordo, apoiado”. Ela era historiadora, e arquivologista. Competente e muito  requisitada. Trabalhou  no Museu Nacional e  numa  empresa de engenharia.  Estava indo muito bem profissionalmente. Então  nos pedimos em casamento em março. Ficamos noivos e marcamos a data. Casamos em  julho. Ela largou tudo, para ir comigo. E aí eu falei: “Agora vamos juntos  falar com minha mãe”. Eu já tinha entrado na White Martins, então o salário já era outro, não é?  Nossa vida já tinha melhorado um pouquinho. Mas minha mãe... Eu ia sair de casa e ela ia ficar sozinha. E ela ainda estava abalada pela questão do meu pai. Ela disse assim: “Claro que você tem que ir, eu te apoio, vai sim,  eu vou te visitar,  você vem me visitar”. Aquilo me deu muita força.  Fui para Volta Redonda. Casamos em quatro meses. Eu estava no início da White, então para casar era fácil. A família dela não tinha recurso.  Família grande, ela perdeu o pai cedo não tinha recurso. Eu tinha o  carro que a minha mãe  me deu para  trabalhar em Caxias. Ela falou: “Tem que ser um carro novo para não dar problema de manutenção”. Era Escort simples, básico, mas novo. Vendi o Escort para pagar grande parte das coisas do casamento e fiquei com um Passatizinho caindo aos pedaços, bem velhinho. Mas  a vida recompensa quem trabalha. Porque Gerente de  Filial tinha direito a um carro e a empresa logo me deu um. Deixei o  Passat com a minha esposa, para ela fazer as coisinhas ali perto de casa  quando a gente casou. Casamos em julho e ela foi morar comigo em Volta Redonda. Tive outro mentor na organização, que trabalha comigo hoje, chama-se Ney Ferreira de Souza. Era Gerente de Distribuição de Gases e  ajudava as filiais com planejamento, recursos, um nível um pouquinho acima do meu. Era ele quem me apoiava e a tínhamos o  mesmo chefe. Eu era muito moço tinha  25 anos. Fui para lá em março de 1988   faço aniversário em julho.  Era muito novo para assumir aquela responsabilidade. Pensei: “Vou colar em quem tem experiência para me ajudar”, e colei no Ney que era uma  capacidade, uma sumidade, inteligente e muito capaz. Ele foi meu mentor. Dava dicas e eu fazia mais ou menos do jeito que ele me orientava. Comecei a ter sucesso. Entreguei bons resultados nesse período e o meu Gerente Regional deve ter  feito propaganda minha para o  Superintendente de que ficava na matriz, na época. Era o Gustavo Pedral. O Gerente Regional é o Henrique (Lepeque?). Ele deve ter dito: “O menino é novo lá, mas é impetuoso”. Deve ter sido alguma coisa nesse sentido... Em 1989 meu filho nasceu. E um ano depois, fui convidado a assumir a Gerência da Filial  Líquidos. Outro status, Gases Líquidos.

 

P/2: Explica um pouquinho essa questão do novo status.

 

R: Por que os clientes eram maiores. Acho que é pelo tamanho do cliente, isso mesmo. As plantas on-site são o máximo! Disse à minha mulher que tinha sido convidado para ir a Salvador. Ela respondeu: “Vamos!” Pegamos as coisas e fomos.  Mudei de casa 14 vezes... De cidade, várias. Ela falava sempre assim: “Vou a frente”.  Eu dizia: “A companhia não vai pagar”. Ela: “Não tem problema, a gente dá um jeito”. A companhia pagava xis dias para a estadia de hotel e procura da casa. Normalmente na mudança, o profissional ia antes,  conhecia a cidade, alugava a casa, depois levava a família. Em casa era o contrário. Em casa a gente ia e alugava tudo em uma semana, mas quem alugava era ela, eu já ia trabalhar. A gente não tinha filho então ela ia comigo. Tínhamos direito a ficar tantos dias no hotel. Naqueles tantos dias ela fazia tudo! Sozinha. Eu deixava o carrinho na mão dela, ela fazia tudo, às vezes de táxi. Procurava as casas e falava: “Selecionei essas duas, quer ir ver”? Às vezes dava para ir, às vezes não dava, porque eu já estava mergulhado no trabalho. Deixava tudo na responsabilidade dela. Eu nunca fiz uma mudança. Eu não sei o que é fazer uma mudança. Ela contratava a empresa fazia a embalagem, desembalar tudo sozinha era uma guerreira. Trabalhei muito em Salvador, uns cinco 5 meses. Tremendo de um resultado. Muita sorte. Aliás, na minha vida profissional sempre dei muita sorte. Ela engravidou do meu filho. Lá em Salvador. Gravidez difícil, muito difícil. Engravidou do Diogo, sangrava muito, o médico que estava atendendo a gente disse que ela tinha perdido o bebê e tinha que fazer uma curetagem. E aí, sentimento de mãe, ela falou assim: “Perdi o bebê?”. Aí, ficou triste: “Eu não acredito que eu perdi meu bebê”. O cara parecia realmente um charlatão, sabe? Ela foi, procurou outro médico indicado por uma amiga dela: “O bebê está aqui olha o coração batendo”. Quando o coração bateu, tínhamos ido juntos, a gente começou a chorar. Quer dizer, o outro era um charlatão, queria cobrar uma curetagem, um absurdo completo. Foi até difícil segurar depois para não fazer uma bobagem. Meu filho estava lá, mas a gravidez era de risco. Então ela ficou de repouso algum tempo lá em Salvador, para segurar a gravidez. E eu trabalhando. Até que um dia... Uns cinco meses depois, eu recebi um convite para ir à Belém, ser gerente da regional em Belém, assumir a região norte. Era outro status. De gerente de filial em Salvador, para gerente regional de líquidos. Isso foi em 1989 estava com 27 anos, era muito novo.  E a minha esposa ainda de cama, de repouso. Falei: “Fui convidado para ser gerente regional em Belém”. Ela falou: “Já?”. Eu falei: “Já, vamos?”.  “Faz um favor, ela disse, passa na banca e compra para mim um atlas geográfico, que eu quero entender como funciona a região”. Eu falei: “Vamos entender juntos então”. Porque era distante. Na selva amazônica. Dito e feito. Comprei um atlas geográfico, na banca, na loja, sei lá, e estudamos a região norte, onde ficava Belém, perto de que cidades. Ela ligou naquele mesmo dia para irmã dela, hoje falecida, e pediu à irmã que fosse à Salvador ajudá-la. Nós não tínhamos muito tempo. A irmã e a mãe foram ajudar na mudança. E eu já estava a essa altura em Belém. Já estava trabalhando. As três mandaram a mudança. E eu, viajando. Porque minha área era toda a área da Amazônia legal, que compreendia na época, Mato Grosso, Acre, Rondônia, Amazonas, Roraima, Amapá, Belém, Maranhão. Piauí veio depois. Depois do desmembramento de Goiás. Tocantins ficou fazendo parte da região Norte, passou a ser minha área também. Não sei se hoje a Amazônia legal está exatamente assim. Essa área toda do norte e nordeste era conduzida por um gerente regional que ficava em Recife. O nome dele era  Albino Carneiro,  hoje nem está mais na empresa. A região era muito grande para ele. Então o  Gustavo Pedral  dividiu  essa região em norte e nordeste e me convidou para tocar a do norte. Eu não parava em casa.

 

P/1: Antonio deixa eu te fazer uma pergunta. É difícil a questão de distribuição, da infraestrutura, como era na época? Conta pra gente.

 

R: Muito, muito difícil. As estradas eram muito ruins. As estradas hoje não são boas, mas antes eram muito ruins. Para você ter uma ideia. A Companhia Vale do Rio Doce em Carajás, no sul do Pará era na época, um grande cliente da White Martins. A distância aproximada de nossa unidade produtora em Belém de  Carajás no sul do Pará era  de  400 km. Para entregar o gás lá atravessamos 35 pontes de madeira. O fluxo muito intenso de veículos quebrava as pontes, todas de madeira. Além disso, diz a lenda,  não tenho provas disso, os índios daquela região  quebravam muitas no sentido de auferir algum dinheiro para a sua reconstrução. Foi o que eu ouvi, não sei. Eu parei em várias pontes. No início fazia esse percurso de carro, para conhecer o caminho. Tucuruí ali perto, foi uma grande consumidora de gases na época da construção da hidrelétrica da Eletronorte. Fui duas ou três vezes de carro. Depois fui de avião. Eu não sei o que era melhor, ir de avião ou de carro, porque o avião era um Bandeirante despressurizado. Muito perigoso. Graças a Deus eu nunca caí, mas tenho conhecidos que caíram. Alguns não estão hoje aqui, para contar a história. Outros sim.  Então, para atender a Vale, que era um grande cliente, atravessavam-se 35 pontes que invariavelmente estavam danificadas. Então, é comum você levar um dia pra chegar lá. Filas de caminhão! Saímos de carro com o farnel: água e alimento. Porque não sabíamos quanto tempo íamos  ficar na estrada. Era um perigo, você não tinha recurso. A dificuldade era muito grande. Parece que hoje as pontes foram reconstruídas. São metálicas, enfim, hoje parece que o acesso está bem melhor. A região se desenvolveu muito. A Vale investiu muito na região. Existem clientes industriais e hospitais em Macapá. Para se levar o produto a Macapá é preciso atravessar a foz do rio Amazonas. As balsas... Toda hora dava problema. Afundar não era comum não, mas sempre havia algum problema. Tinha-se que levar o produto a Manaus porque a planta não atendia a necessidade do mercado. De Belém, as balsas demoravam... 5 dias pra ir e 7 pra voltar. Então, quer dizer, é uma região repleta de desafios do ponto de vista logístico. Fomos pioneiros nesse desenvolvimento. Por isso a gente tem uma participação alta lá. Aprendi demais! Engordei 32 quilos em um ano. Comia muito mal, era totalmente indisciplinado... Alimentação... Atividade física... Mas faria tudo de novo. Amei a experiência, adorei, aprendi muito e a minha esposa sempre sozinha, não é? Como Belém era muito sem recurso, íamos ter a  criança e estávamos sozinhos eu disse à minha esposa que ligasse para a mãe dela” Ela negou. “Vou ter a criança aqui em Belém do teu lado. “Vou ter a criança aqui”. Aí a mãe dela veio. Essa é uma passagem interessante porque ela foi ter o neném no hospital adventista de Belém, o melhor hospital de lá e o meu filho nasceu no fechamento de mês. Fechamento de mês na White Martins, naquela época, e hoje também, era um estresse danado porque você tinha que fechar a cota mensal. Fizemos fechamento no hospital. Eu, meus funcionários, meu filho e minha mulher, dentro  do quarto. Meu filho, 1 hora de nascido, tudo no mesmo quarto. Meu chefe estava de férias e o Ivan Garcia, Vice- Presidente da companhia, ligando. E eu fazendo o fechamento e minha esposa a toda hora: “Ai meu Deus do céu!” E meu filho chorando... Uma passagem interessante que ela lembra até hoje. Meu filho chorou muito porque ela teve dificuldade com o leite, sempre foi faminto, então chorava muito. Tomava  chazinho de erva doce acalmava 30 segundos, aí chorava, chorava, chorava. Nesse hospital a criança nascia eles já levavam para o quarto. A criança chegava primeiro, a mãe depois. Meu filho chegou chorando eu falei:  “A senhora pode levar ele agora”. A enfermeira respondeu: “Não, aqui a gente não leva. Chegou antes da mãe. O senhor é quem vai cuidar dele”. Eu falei: “Eu?”  A minha sogra estava comigo. Eu disse à ela:  “Então a senhora cuida aí, porque é a primeira vez que eu sou pai, eu não sei cuidar de uma criança chorando, recém nascida”. E ela falou assim: “Olha, é a primeira vez, eu nunca tive um filho que chegasse antes de mim no meu quarto, então, vamos ver o que é que a gente faz”. Enfim, no final deu tudo certo.

 

P/2: Agora me conta um pouquinho, você foi Gerente Regional de Líquidos do Sul e depois foi trabalhar com desenvolvimento de mercados. Primeiro começou como técnico, depois passou a cuidar de toda a estrutura, e depois no desenvolvimento de mercados. Conta um pouco sobre essa área de desenvolvimento de mercados.

 

R: Tem uma passagem interessante antes. Meu filho tinha 9 meses, lá em Belém, quando fui convidado para ser o Gerente Regional do Sul. Era sair de Belém para ir a Porto Alegre. A mesma coisa... Minha esposa largou tudo, fez a mudança para Porto Alegre, conseguiu tudo e tal. E meu filho saiu de 40 graus de lá, e logo depois veio o inverno no sul e o Toninho sofreu muito. Foi uma época difícil porque a minha cunhada veio a falecer aos 39 anos de idade, muito nova.  E a minha esposa ficou enlouquecida com isso, ficou doente, uma doença ruim. Durante alguns meses ela ficou na ponte aérea Porto Alegre e Rio de Janeiro. Foi uma época difícil sobre esse ponto de vista. Por outro lado, eu fui especialmente recebido pelos gaúchos, tenho amigos até hoje. Fora e dentro da companhia. Ajudaram muito. Foi uma época muito difícil. Adaptar-se ao frio, e minha esposa estava, aliás, todos nós, muito sensibilizados pela morte da minha cunhada... Então, sentimos a necessidade de retornar ao Rio. Foi quando eu retornei ao Rio e a função disponível era a de Gerente de Desenvolvimento de Mercado e Distribuição e Desenvolvimento de Mercado. Tive um rebaixamento, uma função que se reportava ao Gerente regional. Eu me reportava ao Elvino Carneiro que me recebeu muito bem. Voltamos, ficamos próximo da mãe dela que sentiu muito, dos irmãos. Ela se acalmou se sentiu mais acolhida, mais protegida. Ficamos no Rio 6 meses. Nessa época, aconteceram umas mudanças na companhia. O Cláudio Pedel foi demitido da companhia, e para o lugar dele veio o Ricardo Malfitano. Ele fez umas mudanças e mudou o Gerente regional do nordeste. Aí ele perguntou: “Está tudo certo, tudo sobre controle, estabilizaram? Topam ir para o Recife cuidar do nordeste? Está disposto? Fala lá com ela!”. Eu falei: “Não preciso falar com ela, eu aceito, quando é que eu vou?”. Ele falou: “Preciso de você lá amanhã”.  “Perfeitamente, só preciso ir para casa pegar a roupa”. Aí passei em casa ela falou: “Fechado”. Fui para o Recife como responsável pelo Nordeste. Uma época maravilha! Fiz grandes amigos. Recife é uma cidade belíssima, foi sensacional. Tive um desempenho muito bom, depois veio uma série de modificações. Uma delas foi juntar novamente Norte com Nordeste. Era separado, juntaram. Fiquei responsável pela região Norte e Nordeste. Todas as 4 regiões eram sediadas em São Paulo. Montou-se então um centro de negócios em São Paulo. O Marcelo Quintana era responsável pela região São Paulo.  Os quatro responsáveis por essas regiões distribuídas pelo Brasil vieram trabalhar na sede em São Paulo. Então em 1993 vim morar em São Paulo cuidar da região Norte e Nordeste.  Imagina como eu vivia lá em casa morando em São Paulo e cuidando dessa região. Nisso a minha esposa engravidou e perdeu o bebê de três meses. Ela fez uma curetagem e engravidou um mês depois, de novo, da minha filha Bruna. E, grávida de três meses da Bruna... Minha filha nasceu em São Paulo. Então, interessante, meu filho foi gerado na Bahia, nasceu em Belém, minha filha foi gerada em Recife, nasceu em São Paulo. Minha filha é paulista. Em 93 nós viemos para cá, e logo depois fui promovido para a Superintendência Regional. Em 1997 o Ricardo Malfitano me convida para ir ao Rio. Nós fomos. Nunca negamos os convites da empresa, sempre acreditando nas pessoas, mas São Paulo marcou demais a minha esposa. Fomos com aquele sentimento de, um dia eu volto. Fui para a matriz. Pela primeira vez trabalhando na matriz, uma experiência diferente de trabalhar no campo. Você tem que ter um pouquinho mais de habilidade de negociação, política, uma experiência muito interessante. Depois o Ivan Garcia me promoveu a Diretor de Marketing.

 

P/1: Esse período foi exatamente um período no Brasil de abertura da economia, privatização. É quando a White Martins conquista as plantas on site. A White Martins já estava preparada para conquistar esses clientes maiores? 

 

R: Esse momento foi um momento muito importante para a companhia. Foi um divisor de águas, eu diria. As plantas  siderúrgicas eram em grande parte estatais. As estatais investiram na sua própria planta de produção. Era fundamental que a White Martins fosse agressiva nesse processo. Precisa. Cirúrgica. E foi. Evidentemente nem todos os negócios foram maravilhosos sobre o ponto de vista de rentabilidade. No entanto, movimentos estratégicos de fundamental importância foram fundamentais para levarem a gente onde  estamos hoje. Aquele momento, eu diria, foi um dos marcos de crescimento e consolidação do sucesso da empresa.  Lembro bem do estresse que a gente viveu, naquele processo de ganhar todas as plantas. Nós ganhamos e hoje estão operando. Todos eles, mas o Felix e o Ivan Garcia tiveram nesse ponto papel fundamental. De liderança realmente, de visão estratégica, de habilidade comercial e assim por diante. Foram profissionais de muita importância na organização. Com quem eu aprendi muito. A partir do momento que ganhamos as plantas, nós precisávamos desenvolver o mercado. Nós tínhamos a planta, a disposição, o produto.  Foi nessa época que  a Praxair investiu em marketing definindo  alguns Vices Presidentes globais de marketing.  E designou um Vice Presidente global para cuidar do crescimento desse mercado estratégico no mundo. O mercado medicinal era um mercado estratégico. O mercado siderúrgico era outro.  O mercado de bebidas e alimentos e o metal mecânico, outro. E esses Vices Presidentes globais tinham o objetivo de desenvolver tudo que fosse necessário, pra vencer nesses mercados. Foi uma iniciativa bem interessante. Gerou-se um grande plano estratégico mundial. Uma mobilização de toda organização, toda a corporação, nesse sentido. Nessa época eu era Superintendente de Gases Industriais. Cuidava da parte de expansão, de novos negócios, das avaliações econômicas dessas plantas que nós ganhamos. Era uma atividade mais back office, mais burocrática, mais interna. Nessa função de Diretor de Marketing, havia o Murílo Mello, profissional da mais alta competência. Muito inteligente e extremamente capaz. É um dos profissionais da companhia que melhor fala o inglês. É impressionante a fluência do Murilo. Ele foi convidado para ser um desses vices presidentes globais da área de alimentos nos Estados Unidos, responsável pela condução do marketing desse mercado do mundo inteiro. Então o Ivan Garcia me chamou: “Olha, você vai substituir o Murilo”. Mais uma promoção, não é? Falei: “Ótimo, obrigado pela oportunidade”. Eu  tinha feito até meus 18 anos de idade um curso regular de seis anos em inglês e um de conversação. Na época da promoção estava com 33 anos. Então desde os 18 anos não exercitava meu inglês, não é?  Lembro como se fosse hoje. Ele disse: “Vamos começar hoje. Hoje tem uma conferência com o mundo inteiro nós vamos falar sobre desenvolvimento de planta, começa às 18h”. Perguntei: “A que horas acaba?”. “Não tem hora pra acabar”. “Como assim?”. “Talvez às 4h da tarde, alguma coisa assim”. Foram oito horas de conferência, em inglês. A gente almoçava lá, tomava café, lanche, tudo na sala do Murilo. Oito horas de conferência com o mundo inteiro. E eu há 20 anos sem falar inglês. E o Murilo um expert. O cara que mais fala inglês da companhia. Dando um show na conferência. Eu falei: “Murilo, quando você vai?”. “Estou indo amanhã, na próxima conferência, tu vai lá tocar”. Eu falei: “Murilo, vai dar problema”. E eu me lembro como se fosse hoje. A conferência funciona assim: Na Ásia alguém explica: “Aqui o que está acontecendo é isso, isso, isso”. E aí o líder da conferência, ou qualquer pessoa  presente: “Mas no Brasil está assim também?” Aí você: “Assim o que?”. Você não pode perder a atenção, porque a pergunta vem quando você está distraído. Então você tem que ficar oito horas ligado. É interessante. Ligado não só na hora que você fala, mas na hora que os teus colegas estão falando também.  Porque é uma conversa, é um bate papo, uma troca de ideias. Você deve ficar atento porque alguém vai perguntar se no Brasil é assim também. Eu fiquei muito assustado, muito. Voltei para  casa naquele dia e falei pra minha esposa: “Meu desafio maior vai ser a língua, o resto eu toco, porque  conheço a empresa, as pessoas. O  negócio vai ser a língua inglesa”. Então, por minha conta, eu chegava, ficava em casa das seis horas da tarde à meia noite ouvindo coisas em inglês, fitas, lendo. Naquela época já tinha a coleção da TV a cabo. Eu fiquei paranóico com isso, contratei um professor. E a conferência seguinte, não ocorreu em 30 dias, ocorreu em 60. Em 60 dias eu consegui tocar a conferência. Desconfortável, bastante desconfortável. Mas em quatro meses eu estava fluente.  Foi um dos maiores desafios que eu enfrentei nos meus 25 anos de carreira na White Martins. Esse, do inglês, quando o Murilo foi embora. E eu vou te falar uma coisa. Não se deve reclamar de nada, mais uma vez, porque se não fosse assim eu não teria a fluência que  tenho hoje. Não teria crescido na organização como cresci. Não teria o respeito dos americanos como tenho hoje. E assim por diante. Então na vida a dificuldade vem para fazer a gente crescer realmente. Esse foi um dos maiores desafios da minha carreira, em 1999.

 

P/1: Antonio, depois dessas conquistas das plantas na White Martins e também dessas direções estratégicas... Também tem a questão da Praxair fechar as ações da White Martins e se tornar controladora, há 20 anos, eu acho. Queria que você falasse um pouquinho qual foi a atuação da Praxair, a importância disso na empresa. Conta um pouquinho pra gente.

 

R: Na verdade são 20 anos do spin off quando a Carbide fez um split e a Praxair foi cuidar de gases no mundo e a Carbide ficou com a área de químicos que depois veio a ser adquirida pela Dow. O fechamento de capital foi em 2000. Ela foi ao mercado, decidiu fechar o capital, fez uma oferta aos minoritários, fechou e saiu da bolsa daqui. Isso foi em 2000. O fechamento de capital tem 11 anos.  O que mudou de lá pra cá? Não sei se foi bem isso exatamente, acho que é um movimento normal de um lance  majoritário global. Tenho visto isso em outras empresas. Ela começou a participar mais do negócio. Começou a definir mais. Políticas, manuais, procedimentos, controle de processos decisórios. O nível de autonomia de tomada de decisões pelo  Felix e pelo Ivan é hoje um processo  mais discutido, restrito. Embora seja de certa forma mais lento é mais seguro e confiável. Temos um envolvimento  maior com a Praxair hoje. Mais do que no passado. Na época,  éramos uma empresa do grupo Praxair hoje somos uma subsidiária. Há quase 25 anos a Praxair está conosco. Ficamos importantes dentro do grupo. Então, houve uma interferência no bom sentido Na parte de controle, participação, procedimento. Muito maior do que num processo de evolução normal de  qualquer empresa que tem prazos e contas. Eu não atribuiria essa mudança  ao fechamento de capital, mas a uma evolução natural das empresas globais, no sentindo de controlar um pouco mais as suas operações no mundo inteiro. Até  porque o mercado hoje é definitivamente global.  A própria bolsa de valores é um exemplo disso. Os contágios, as contaminações ocorrem positiva e negativamente. A Grécia influencia fortemente o que acontece no Brasil, esses vasos comunicantes globais se intensificaram muito ao longo do tempo. É normal que a empresa queira realmente controlar suas operações no mundo inteiro. Qualquer problema que aconteça aqui afeta lá. Normal.

 

P/1: E agora, queria que você contasse pra gente um pouquinho suas conquistas como Diretor de  Marketing, depois como executivo de negócios. 

 

R: Em 2001 uma  série de mudanças aconteceu.  Como Diretor de Marketing, tive a oportunidade de estreitar meus relacionamentos com pessoas da Praxair.  Eu tinha uma exposição muito grande lá. Foi muito importante, para o  meu crescimento também. Pessoas que não mais estão pessoas que continuam lá. E que são grandes amigos.  O Ivan Garcia criou 4 diretorias executivas de negócios: Norte e Nordeste, São Paulo, Centro e Sul, e me convidou para assumir a diretoria de São Paulo. Isso em janeiro de 2001. Lembro-me que estava de férias. Recebi uma ligação: “Estou te convidando para ser Diretor Executivo de São Paulo, tudo bem?” Eu disse: “Fechado tudo bem. Estou dentro”. Eu estava com minha esposa. Ele disse: “Você não precisa mudar, você pode ficar no Rio de Janeiro, continuar no Rio de Janeiro”. Aí eu falei: “Diretor de Marketing para Diretor Executivo, estou dentro, não precisa mudar, tranquilo”. Aí a minha esposa falou pra mim assim: “Mas nós vamos mudar”. Eu falei: “Como assim?”. “Eu te conheço. Vai viver em São Paulo. Teu estilo é de estar próximo do negócio, próximo das pessoas, próximo do cliente. Eu te conheço. Você vai estar em São Paulo 80% do teu tempo e eu não vou ficar sozinha no Rio de Janeiro, não. Você quer mudar pra São Paulo?”.  E ela falou: “Eu estou doida pra mudar pra São Paulo, eu vou ficar perto de você como sempre, vamos pra São Paulo”. E eu falei: “Preciso convencer meu chefe que preciso ir pra São Paulo. Porque, ele falou que eu podia ficar no Rio e eu não sei se eu  podia significa que  tenho que ficar ou se posso ir.  Nisso Ivan Garcia foi embora veio o Ricardo como presidente da companhia. E eu já tinha pré negociado com o Ivan que eu ia para São Paulo e o Ivan falou: “Para mim está ótimo, melhor ainda”. Aí veio o Ricardo, falei: “Ricardo eu tinha negociado com o Ivan que ia para São Paulo para ficar próximo do mercado.”  “Tu não quer ficar no Rio, tua cidade é  aqui”. Eu falei: “Eu e minha família queremos ir pra São Paulo”. E nós voltamos para São Paulo. Foi um dos períodos mais fértil em termos de iniciativas e de crescimento profissional, de desafios. A época do racionamento de energia, da desvalorização do dólar, do real. Vários desafios ao mesmo tempo. A companhia naquela época perdia mercado em São Paulo, e nós conseguimos fazer um trabalho muito bom.  As pessoas estavam deprimidas,  cansadas, desmotivadas. Acho que  obtive um pouquinho desse mérito diria, nesse processo todo, de trazer confiança pra eles.  O que essa turma  passou a fazer. Uma coisa impressionante me emocionou. Pessoas que  respeito demais até hoje. Deu-se uma reviravolta imensa, sensacional. E a companhia teve muito sucesso em São Paulo. Em 2004 eu saí e no meu lugar ficou o José Bortoleto,  uma das pessoas que me ajudou nessa virada de mesa aqui em São Paulo e me sucedeu na função de Diretor Executivo. Vem fazendo até hoje o mesmo trabalho. Depois aconteceram outras mudanças. O  Domingos chegou para ser o Presidente da companhia e me convidou para ser o Vice-Presidente na empresa.  E eu cuidava de todos os novos negócios. O  gás natural, a  lavanderia, corte e solda e assim por diante. A sede era no Rio. Minha  família não quis ir. O  Domingos respeitou isso. Eu falei: “A família não quer ir. Tudo bem se eu ficar indo e voltando?” Ele falou: “Tudo bem”. Comprei um apartamento lá para não trazer gastos para companhia. Ficava no apartamento de segunda a sexta. Então eu ia segunda e voltava na sexta. E a minha família aqui. A primeira vez que a minha esposa falou: “Dessa vez eu não vou, mas você também não vai mudar”. Eu falei: “Não, não vou mudar, fico  com o apartamentozinho lá”. E eu tinha certeza que era temporário porque não era exatamente o que eu queria fazer. Em 2004, fui convidado para ser o Vice-Presidente de Negócios, função que  exerço até hoje. Então  fiquei um ano, digamos assim, indo e voltando, segunda a  sexta e pisando fundo. Não atrapalhou muito a minha vida pessoal, não. 

 

P/1: Como funciona a Central de Relacionamento com o Cliente? 

 

R: A Central de Relacionamento é um braço do Gerenciamento de Relacionamento com o Cliente, que em inglês significa Custumer Relationchip Mananger. O programa tem grande repercussão dentro e fora do Brasil. Completa 10 anos o ano que vem. Surgiu da necessidade de reter o cliente. É fundamental para seu crescimento, porque você cresce junto com ele. Alguns anos atrás, nós percebemos que a taxa de retenção era algo em torno de 92%. Se investíssemos num programa estruturado, que fizesse com que a taxa de fidelização de nossos clientes aumentasse todo ano, traríamos potencialmente mais de 200 milhões de dólares de valor para a organização. Acreditando nisso  estruturamos um programa de relacionamento com o cliente. A primeira coisa a fazer era identificar quem eram os principais clientes da empresa. Fizemos um score card e identificamos quais eram os 20% de clientes que representavam 80% do nosso negócio. Fizemos então programas de identificação de falhas através de reuniões quadrimestrais. De avaliações, de indicadores de desempenho, indicadores de excelência operacional. A cada quadrimestre  fazíamos reuniões com esses clientes no sentido de identificar  como  avaliavam os indicadores de desempenho da  White Martins. Toda vez que este cliente  identifica uma não conformidade  através de uma nota que vai de um a cinco, sendo que de três para baixo a nota é ruim, desenvolvemos um            plano de ação, estruturamos o  follow-up, estabelecemos uma data e designamos o responsável pela operação. E com isso a gente vem movimentando a organização para focar na excelência operacional e, encantar os nossos clientes. Depois instalamos o programa Neo, que é outra ferramenta de excelência operacional. Nesse caso, as pesquisas ao invés de serem quadrimestrais são diárias. A cada entrega de um produto, visita comercial, atendimento telefônico,  a cada contato com o cliente,  hoje  mais de 11 mil por dia,  o nível de  satisfação  em relação ao serviço prestado é capturado. Com isso a gente consegue tratar on line essas não conformidades e através de planos de excelência de ação resolver muito rapidamente. Problemas acontecerão, mas se o problema for identificado, tratado e resolvido  rapidamente... Todo o programa inclui a reestruturação da Central de Relacionamento e uma célula exclusiva para os clientes Magic que  são os clientes mais importantes.  A reestruturação da forma de responder e solucionar os problemas permitiu o aumento do nível de retenção de 92% para 99,5%. O programa é de fato conhecido como benchmarking. Possui o Certificado ISO 9000. É premiado pelas instituições especializadas na matéria. Recebemos inúmeras visitas aqui, externas e internas, para conhecê-lo. No último Dow Jones, que é o índice de sustentabilidade lá nos Estados Unidos, a Praxair foi reconhecida mais uma vez como uma empresa sustentável. O programa CRM aumentou o indicador da Praxair em 21 pontos percentuais em função do programa do Brasil. De 63% para 84%! A Praxair não tem um programa desse global.  Isso nos trouxe um orgulho muito grande. Existe um reconhecimento forte do valor deste programa.  Parece que a companhia vai fazer desse programa um programa Global. Acho bastante interessante, eu apoio, traz um tremendo valor para a organização.

 

P/1: Antonio, eu queria que você contasse o que você acha da White Martins falar da questão do desenvolvimento industrial e da cadeia produtiva do gás através de um projeto de memória, trabalhando com as histórias de vidas dos colaboradores. 

 

R: Eu acho uma iniciativa sensacional. Estou muito curioso para ver o resultado desse trabalho, porque tive uma experiência há talvez uns dois anos atrás que me deixou um pouquinho preocupado.  Eu tive uma reunião há dois anos com o presidente do hospital israelita Albert Einstein chamado Henrique Sutton. O hospital é um dos nossos grandes clientes e ele é neto de um dos fundadores da companhia chamado Marcos Sutton.  Natural que o assunto White Martins viesse à tona. E como neto de um dos fundadores, ele poderia ter muitas informações. Eu precisava estar preparado para isso. Então, eu estudei muito. É claro a gente vai ficando velho, vai esquecendo... Precisava revisitar muita coisa a respeito da história da White, inclusive do Marcos Sutton. Tive dificuldade de achar essa memória... Revisitar esse assunto com a profundidade necessária porque inclusive poderia ser uma quebra de gelo, porque ele é muito duro, o Henrique Sutton, é muito duro como cliente. Então eu precisava ter isso para não passar vergonha, mais para abrir portas. E tive muita dificuldade para acessar o material dessa época, muita dificuldade.  Naquele momento eu percebi que a companhia não tinha um departamento, uma área, um espaço físico onde a gente pudesse resgatar toda essa memória. Talvez até tenha, mas eu naquele momento não consegui acessar. 

Então eu estou muito curioso e muito motivado com a possibilidade de vocês resgatarem grande parte dessas histórias, através de depoimentos, e de pesquisas para que a gente, nos 100  anos da companhia,  tenha essa história resgatada muito fortemente. Eu estou  muito satisfeito com essa iniciativa.

 

P/1: E o que você acha de ter vindo até aqui, de ter conversado com a gente, contado a sua história?

 

R: Legal. Não sei se vocês perceberam, eu me emocionei um pouquinho, é normal, a gente... Coisas que marcaram muito esses 25 anos... Vou fazer 50, é metade da minha vida... E as pessoas que foram  importantes, momentos, passagens importantes que marcam sua vida. Então adorei, adorei a iniciativa. Me  ajudou bastante a relembrar algumas coisas. E parabéns pelas condições.

 

P/1: Em nome do Museu da pessoa a gente agradece.

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