Busca avançada



Criar

História

Entrega para o mundo

História de: André Martins Palhano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Em seu depoimento, André Palhano fala sobre a criação em Piracicaba, cidade do interior paulista. Cidade universitária, lá André passou a juventude em meio às festas de república, que lhe "abriram a cabeça". Modou-se para a capital para cursar a faculdade de jornalismo na PUC-SP. terminado o curso trabalhou por oito anos na Agência Estado e em diversos veículos de imprensa. Em 2005, após uma viagem aos EUA, André tem uma crise psicológica que o faz repensar a forma como vive, neste momento passa a assinar uma coluna sobre sustentabilidade para o caderno de Economia da Folha de São Paulo e apaixona-se pelo tema. Desde então dedica-se à causa organizando a Virada Sustentável, uma campanha educativa que procura sensibilizar e conscientizar a sociedade sobre o tema.

Tags

História completa

Meu nome completo é André Martins Palhano, eu nasci em Piracicaba, interior de São Paulo, no ano de 1976. Meus pais eram funcionários públicos, os dois, tanto meu pai quanto minha mãe são funcionários do Banco do Brasil, se conheceram lá, então eu posso dizer que sou um fruto do funcionalismo público. Eles se separaram quando eu tinha onze anos, embora com a mesma profissão, eram duas pessoas absolutamente diferentes. Mas são pessoas muito boas, realmente eu tive essa sorte, sabe, de ter pai e mãe cujos valores eu admiro bastante.

 

Eu lembro muito da casa da minha infância, era uma casa muito gostosa, uma casa de bairro, térrea, muito gostosa e que quando a gente era pequenininho, ela tinha uma espécie de parquinho atrás, o quintal tinha uma caixona de areia com um escorregador, tinha um balanço, aqueles kits de brinquedo para criança. Eu lembro que eu adorava, a gente sempre teve gato, cachorro em casa, então era uma festa, foi uma época muito gostosa. Saimos de Campinas quando eu tinha onze anos de idade, minha mãe teve uma promoção do banco para ir para Brasília, onde era a sede do Banco, meu pai já tava se aposentando e acabou indo a família inteira para Brasília. Ficamos um tempo em Brasília, mas meu pai não curtiu muito a cidade e eles se desentenderam. Meus pais se separaram e fui morar com o meu pai em Piracicaba. Então, eu tinha uma vida dupla eu ficava morando em Piracicaba com o meu pai, passando todas as férias escolares, mais feriados e tal em Brasília.

 

A minha adolescência foi basicamente em Piracicaba, fiquei em Piracicaba até ir para a faculdade em São Paulo. Foi ali que eu passei toda a juventude. E é interessante porque Piracicaba também é uma cidade muito livre, nesse sentido de você sair na rua, eu me lembro com quatorze anos, pegava o meu skate, e ir para a rua para fazer street, enfim, era um época bem livre. Foi a época também que eu abri minha cabeça, Piracicaba, apesar de ser uma cidade do interior, é uma cidade que tem muitas universidades, seis ou sete universidades. Por ser uma cidade que não tem, digamos, muitas opções culturais e tal, mesmo de outro tipo de atividades para oferecer, então, tem uma USP, UNICAMP, muito universitário, então é uma cidade que é fácil fazer festas, ir em festas em republicas.

 

Acabei optando pelo jornalismo, achei tinha uma pegada um pouco mais intelectual, de pensar as coisas, de fazer algo que tivesse algum tipo de impacto. Aí, vim fazer jornalismo, prestei em algumas faculdades, passei em Bauru também, mas passei na PUC aqui em São Paulo e falei: “São Paulo é o lugar”. Então mudei para cá, para essa terra maluca, e depois da faculdade fui para a Agência Estado, fui trabalhar na Broadcast que era o serviço em tempo real da Agência Estado. Embora fosse um assunto super árido falar dos temas que interessam o mercado financeiro, era interessante porque tinha uma base técnica, eu cheguei nesse meio tempo a fazer uma pós de jornalismo econômico. Quando você começa a entender a economia, como é que se relaciona politica cambial, monetária, fiscal, muito interessante porque você vê mais ou menos que é o modo como a gente se organizou como sociedade. Fiquei oito anos na Agência Estado, e era muito gostoso, porque apesar desse tema árido, a equipe era uma delicia, era leve, as pessoas se gostavam.

 

Em 2005, eu fui para os Estados Unidos com o meu pai, viajei por lá, fui encontrar um outro amigo em Nova York e tal, depois voltei e tive uma coisa que eu nunca tive e que mudou minha vida para sempre, que foi uma crise de pânico. Em determinado momento lá e tal, eu tava dirigindo ali perto de Key West, ali para baixo de Miami, estava naquelas pontes enormes e começou a me dar um calafrio e tal, aí me deu o tal do pânico. Aí, cara, fiquei desesperado, falei: “Nossa, o que tá acontecendo comigo?”, voltei para o Brasil e o medo de ter aquilo de novo.  Por uns quatro, cinco meses, fui atrás de psiquiatra, psicólogo e tal, mas foi muito interessante, porque era como se o meu corpo tivesse falando: “Olha, ok, você é um cara de sucesso nisso que você faz, mas você tá realmente feliz? realizado?”. E aí foi engraçado, porque eu fui procurar, eu morava aqui na Vila Madalena nessa época, eu fui procurar e nunca tinha dado importância porque era super cético e tal, alguns trabalhos mais holísticos, de espiritualidade. Então fui desde fazer yoga, meditação, respiração holotrópica, isso abriu minha cabeça assim, de um tanto, sabe, realmente foi como se eu tivesse conhecido outro mundo. Eu vivia naquele mundinho do mercado, da gravata, do dinheiro e tal e de repente, sua visão se abre para um outro mundo numa magnitude impressionante. Saí do Estadão, comecei a fazer alguns "freelas", e entre esses "freelas" a Folha de São Paulo me chamou para fazer uma coluna de sustentabilidade no caderno de Economia, que chamava Dinheiro, na época. Eu falei: “Nossa, vou falar de sustentabilidade no caderno Dinheiro, falar sobre o Mico Leão Dourado? Como?”, sabe quando você se sente, literalmente, um foca: “O quê que eu vou falar? O que tem a ver com Economia?”, e aí você descobre que sustentabilidade não é apenas questões ambientais, como biodiversidade, água, preservação de florestas, na verdade, é um conjunto muito mais amplo de temas, tem a erradicação da pobreza, redução de desigualdade, diversidade, cultura de paz e tantos outros e aí, você não tem como não se apaixonar por esse tema, você vira quase um ativista dessa causa, assim, porque você percebe que tem entre outras coisas, uma lógica absurda, inclusive, do ponto de vista econômico, então não é uma utopia, é um salto civilizatório do modo como a gente vive.

 

Incomodava muito a mim o fato da sustentabilidade estar associada apenas às questões ambientais, ou seja, ser percebida apenas parcialmente e quando percebida era nessa esfera, de uma maneira muito pesada, carregada, aquela coisa do: “Faça a sua parte, seja isso”. Então ali começou a surgir uma semente de uma ideia de falar: “Por quê que a gente não faz um festival de sustentabilidade? Uma campanha de informação que tenha essa cara de festival?”. Em vez de alguém falando o que você deve fazer e tal, você mostra com teatro, com cinema, com atividades lúdicas o que é possível, o que são esses temas da sustentabilidade, então foi ali que surgiu a ideia do que eu faço até hoje que é a Virada Sustentável, é uma campanha de educação, uma campanha de informação que a gente nunca vai usar esse nome, você dá a ela essa roupagem de festival cultural, sobretudo cultural, um grande agito na cidade e as pessoas vão participar daquilo ali, saem dali um pouco mais informadas, um pouco mais conscientes, então foi esse start da Folha que trouxe para isso e enfim, é o que eu faço profissionalmente até hoje.

 

A questão do consumo consciente tem a ver, entre outras várias questões, com o resíduo que você gera ao consumir. Uma das coisas mais legais que aconteceram na Virada, acho que de 2015, era um circuito de várias instalações e em um deles era uma instalação do BijaRi, de trinta metros de comprimento por três de altura, que era a palavra consumo montada com fardos de lixo, uma bela instalação. Aquilo ali, você olha aquilo, consumo, imagine, trinta metros, uma super palavra escrita, montada com fardos de lixo, e isso que é interessante, não precisa ficar ali explicando que se você consumir muito, ou de uma maneira exacerbada, você vai gerar resíduos, enfim, ali já é na porrada.

 

Existem outras esferas que não são verdes que também fazem parte desse guarda-chuva da sustentabilidade, só que é impressionante como as pessoas ainda associam a sustentabilidade apenas às questões ambientais. Por isso que a Virada tem tantas atividades ligadas a direitos humanos, à diversidade, à cidadania, à cultura de paz, tem até uma parte zen da Virada que é super forte com atividades de meditação, yoga. E o que isso tem a ver com sustentabilidade? Com qualidade de vida, com saúde, que também são temas ligados à sustentabilidade. Eu acho que hoje a melhor tradução que existe disso são os objetivos de desenvolvimento sustentável, porque ali são sete temas dos quais uns quatro ou cinco apenas são verdes. Você tem um conjunto muito maior de temas, é claro que esses temas estão todos, de alguma maneira, inter-relacionados, então, essa beleza, essa complexidade que torna esse tema tão fascinante.

 

Eu acho que a paz, você conseguir ter uma vida de bem estar, de paz e principalmente, do que você faz ser uma coisa que tem propósito, que entrega não só para você, que entrega para o mundo, também, isso sem dúvida, é a coisa mais importante para mim. Depois da primeira edição da Virada, eu vi algumas cenas, assim, eu choro pra caramba na Virada, fico super emotivo de ver algumas coisas, eu falei: “Eu já posso morrer, já entreguei para o mundo muito mais do que eu poderia tirar dele”, é uma sensação muito boa essa, você fica mais leve, a gente tem que viver feliz, tem que viver em paz.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | [email protected]
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+