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História

Entre o samba e a ciência

História de: Paulo Emílio Vanzolini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2011

Sinopse

Paulo Emílio Vanzolini foi, desde pequeno, muito interessado na vida dos "bichos". Sua primeira coleção zoológica começou logo na infância, quando criou um primeiro museu em casa. A partir daí, surge também sua paixão pelos museus, que são, segundo ele, lugares da ciência decantada no tempo. Porém, talvez muitas pessoas não o reconheçam por isso, e sim pelos sambas que compôs e cantou. Sucessos de rádio como 'Volta por Cima' e 'Ronda', são regravados por diversos artistas desde sua criação. Paulo, no entando, humildemente diz que não teve sucesso algum no mundo da música, e o único dinheiro que ganhou no ramo foi para comprar livros raros de sebos. Simpático e risonho, teve a vida toda permeada pela ciência e pela arte, concomitantemente, e lembra-se com carinho dos que cruzaram essas suas duas vidas. 

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História completa

P/1 - Boa tarde! Eu queria começar a entrevista, perguntando ao senhor o nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Paulo Emílio Vanzolini, 25 de abril de 1924. São Paulo. Avenida Brigadeiro Luís Antônio.

 

P/1 - Essa é a data da sua carteira de identidade?

 

R - Não. Na carteira de identidade está 1923.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Porque quando eu fiz dez anos de idade, não podia fazer exame para o ginásio. Só com onze e eu estava pronto para fazer e entrar no ginásio e o meu pai não queria que eu parasse de estudar. Então, ele foi ao cartório no Brás e fez uma certidão de nascimento de onze…

 

P/1- O senhor podia falar o nome dos seus pais e atividades deles?

 

R - O meu pai chamava-se Carlos Alberto Vanzolini. Era engenheiro e professor da Politécnica. Minha mãe chamava-se Finoca Gilze Vanzolini e era dona de casa.

 

P/1 - E o senhor passou a sua infância em que bairro de São Paulo?

 

R - Alameda Tietê e Rua Atlântica.

 

P/1 - Que ótimo! E como era naquela época da década de vinte? O senhor se recorda?

 

R - De vinte, não! Eu me recordo da década de trinta.

 

P/1- Década de trinta. Como é que era? Era bem diferente de hoje?

 

R  - Era menos intenso. Em frente da casa do meu pai tinha uma quitanda e em cima da quitanda era um clube de futebol. Uma vez por semana davam uma dança no clube de futebol e eu sentava com a orquestra para aprender samba.

 

P/1 - Ah, é? Então o senhor já era ligado na música desde pequeno.

 

R  - Desde pequeno. E meu pai foi para o Rio quando eu era criança. Ele foi para construir a Escola Normal do Rio, hoje Instituto de Educação e eu ouvia Noel Rosa no rádio.

 

P/1 - Que beleza! E o senhor tem mais irmãos?

 

R - Tenho um irmão e uma irmã.

 

P/1- E o senhor é o mais velho?

 

R - Sou o mais velho.

 

P/1 - E na sua vida até chegar à escola. A sua vida de criança era mais brincar em casa ou brincar na rua?

 

R - Só em casa. Não se brincava na rua naquele tempo.

 

P/1- E o que vocês faziam em casa, em termos de brincadeira?

 

R - Não me lembro. Eu mais lia.

 

P/1- E então o senhor vai estudar. Estudar aonde?

 

R - Liceu Nacional Rio Branco. Que era o colégio moderno. Mas me aborreci lá e passei para o Ginásio do Estado, que era um patamar acima de qualidade de ensino. Estudar lá naquele tempo era o fino. Estudei grego.

 

P/1- Grego?

 

R - Estudei grego no ginásio. Não era eu. Era uma turma de cinquenta.

 

P/1 - E dessa época, ficaram muitas amizades?

 

R - Não. Não ficaram muitas amizades. Mais meus irmãos... Nós somos três irmãos extremamente unidos. Dessa época ficou... Também... Eu estou com oitenta e sete anos. Meus amigos morreram. Eu tinha um primo que era quase meu irmão. Que trabalhava em rádio. Henrique Lobo. Era um disc jockey. Morreu.

 

P/1- O senhor poderia contar um pouquinho, como era a escola naquela época?

 

R - A escola era como hoje. Sentava e a professora te dava uma lição para você fazer.

 

P/1- Não mudou nada?

 

R -Nada. Quer dizer. Eu não sei. Eu não vou à escola primária hoje em dia.

 

P/1- Seu Paulo, como surgiu esse interesse pela medicina?

 

R - Não é pela medicina. É pela zoologia. Desde criança eu queria ser zoólogo.

 

P/1- Então, o senhor podia contar um pouquinho sobre esse interesse.

 

R - Quando eu fiz dez anos de idade, que eu entrei no ginásio, meu pai me deu uma bicicleta. Peguei a bicicleta e fui passear. Fui ao Butantã e me apaixonei pela cobras. E resolvi que ia ser zoólogo.

 

P/1- Então foi assim?

 

R - Eu já entrei na Faculdade de Medicina porque o Dreyfus, que era professor de genética da Faculdade de Filosofia, aconselhou meu pai não me pôr na Faculdade de Filosofia, porque o professor de zoologia não conhecia vertebrados. Era um homem de invertebrados. Que eu fosse para medicina, que eu fazia as matérias fundamentais e o resto do curso clínico eu enrolava com a barriga. Como de fato, assim foi. Tanto que eu estou lhe dizendo,  quando eu cheguei aos Estados Unidos, eu tive o prêmio de ter sido faculdade de medicina, porque eu tive dispensa de todos os cursos da Universidade de Harvard. Então, se você pegar alguém que conhece Harvard, você vê o que isso significa. E em dinheiro também, porque Harvard é uma universidade cara pra burro. E não tem bolsa de estudo.

 

P/1 - E como é que surgiu a vontade de fazer o doutorado lá?     

 

R – Lógico! Se eu queria ser dentista eu precisaria fazer doutorado. E lá era o melhor que tinha. Não fui pela universidade. Fui pelo professor. Era o Homer, que era o grande homem de répteis da geração dele, que foi um pai para mim.

 

P/1- O senhor poderia contar um pouquinho mais sobre ele?

 

R - Sobre o Homer? Homer era um americano típico. Com aquela ingenuidade de americano. Era um sujeito muito bom. Tinha uma reputação internacional extraordinária. Eu conheci todos os grandes cientistas do meu tempo. Sabe como? Indo na casa do Homer. Porque passavam por lá para visitar. Passavam pelos Estados Unidos e iam visitar o Homer em casa. E o Homer pegava os alunos escolhidos e levava para conhecê-lo. Então, eu conheci todos os grandes cientistas do meu tempo. Os grandes herpetologistas do meu tempo, na casa do Homer.

 

P/1- Que beleza!

 

R - Eu devo muito aos Estados Unidos. Eu fui muito bem tratado por lá. O Museu de Nova York, Museu de Washington foram pai e mãe para mim.

 

P/1- E o senhor foi com a família para lá?

 

R- Eu casei e fui.

 

P/1- E como foi esse momento que o senhor viveu lá? O senhor ficou dois anos lá?

 

R -Dois anos e meio. Foi muito bom lá. Eu tive muitos bons amigos, que eu tenho até hoje. E me dava muito bem, fui muito bem tratado. Como estou dizendo, ajudavam-me. Eu nunca precisei de ajuda, que não tivesse na hora. Americano é muito generoso. Então, foi um tempo muito feliz da minha vida.

 

P/1- Na volta, o que o senhor pensou em fazer no Brasil?

 

R - Eu já trabalhava no museu quando eu fui. No Museu de Zoologia da USP.

 

P/1- E o senhor pretendeu voltar para o museu?

 

R - Voltei e fui diretor trinta anos.

 

P/1- Seu Paulo, como o senhor chegou até o museu?

 

R – Ué! Porque eu sabia que existia um museu e eu queria fazer museu e fui lá ver. Na cidade de São Paulo todo mundo sabe que tem o Museu no Ipiranga.

 

P/1- Aí, o senhor foi bem recebido e ficou?

 

R - O diretor que me antecedeu e que foi o meu patrono, que era Lindolfo

Guimarães, era um tipo extraordinário. Um grande cientista e uma grande pessoa humana. Chama Lindolfo Rocha Guimarães. Tanto que, quando eu tinha um barco na Amazônia, botei o nome de Lindolfo R Guimarães.

 

P/1- Um barco de pesquisa?

 

R - O barco era da FAPESP, mas era no meu nome. Fiz onze mil quilômetros de rio, na Amazônia.

 

P/1- É mesmo? E a sua base era onde?

 

R -No barco.

 

P/1-A partir de que cidade?

 

R -No barco. Não tinha cidade. Quer dizer o barco ficava em Manaus.

 

P/1-Ficava em Manaus. E a partir de Manaus, o senhor andou onze mil quilômetros de rios aí da Amazônia?

 

R -É.

 

P/1-Que beleza! E como era a rotina de trabalho dentro do barco?

 

R -A gente parava sempre numa pequena povoação, com quatro, cinco casas. Fazia preço nos bichos e ficava comprando só bichos. Andando no mato e comprando os bichos.

 

P/1-Interessante!

 

R - Quinhentos réis uma lagartixa ou um sapinho e cinco mil réis

uma cobra.

 

P/1- E essas pesquisas com o barco duraram muitos anos?

 

R -Trinta anos.

 

P/1-O senhor estava indo lá periodicamente.

 

R -É.

 

P/1- Muitos alunos como assistentes?

 

R-Não. Poucos alunos. Poucos alunos como assistentes. O dinheiro era difícil.

 

P/1- Sempre é. E falando do museu, seu Paulo; o senhor ficou trinta anos no museu?

 

R -Mais. Trinta anos como diretor.

 

P/1-Quando o senhor chegou, o senhor lembra como era o museu? Era muito diferente?

 

R -E era. Era um museu mais provinciano.  Eu e a minha turma transformamos o museu em mais civilizado, mais moderno.

 

P/1-Quais foram os primeiros desafios?

 

R - Modernizar o museu. Modernizar as bibliotecas e as coleções. Por exemplo: O museu. Nós fizemos uma coleção de dípteros para usar em medicina legal. Porque um cadáver pode ter as larvas de moscas. E a larva de mosca dá o tempo de morte do cadáver. Então é muito importante a larva de mosca. O museu fez a primeira coleção de larva de moscas dedicada à medicina legal. Tanto que, sabe como chama o laboratório de medicina legal da USP? Paulo Vanzolini. Porque eles ficaram gratos, porque o museu não podia fazer uma coleção. Só profissionais podem fazer. A qualidade científica do pessoal do museu era excelente. Era excelente mesmo!

 

P/1-Então, seu Paulo, a história dos museus é sempre uma luta de se conseguir recursos, para fazer com que a instituição funcione. Lá era assim?

 

R - Não. São Paulo sempre teve muito dinheiro para tudo. Nunca faltaram recursos para nós.

 

P/ 1-E quais foram os grandes marcos desta evolução do museu? Dessa modernização dele?

 

R -Foi gradual. Não teve marcos. Foi gradual.

 

P/1- Foi gradual. E hoje o senhor olhando o museu, que boas histórias o senhor pode contar desse período?

 

R -Não tem história para contar. Negócio de histórias para contar é a desgraça da minha vida. Eu fui muito amigo do Adoniran Barbosa e todo mundo quer que eu conte história do Adoniran. E não tem história nenhuma para contar do Adoniran. Eu fui muito amigo do Geraldo Filme e não tem nenhuma história para contar de Geraldo Filme. A vida é simples e cotidiana. Negócio de história geralmente é inventada.

 

P/1- São versões. Nós estamos na Semana dos Museus e tivemos essa ideia de convidá-lo, por toda sua experiência nessa área.

 

R -E até hoje me considero membro do museu de Zoologia da USP.

 

P/1-E para quem não conhece o museu e vendo essa entrevista, se anime a visitá-lo. O senhor poderia contar um pouquinho, como ele é e como ele está estruturado?

 

R - Muito simples. Tem as coleções de bichos do Brasil, para exposição pública. Tem uma biblioteca muito boa e muito bem atendida. Bibliotecárias de primeiríssima ordem. As melhores bibliotecárias do Brasil estão no Museu de Zoologia. Então, quem quiser estudar bicho dentro do país, o museu dá apoio completo e imediato.

 

P/1-Então, o senhor viajou o Brasil inteiro, coletando espécimes ou foi mais na Amazônia?

 

R-O Brasil inteiro. Inteiro mesmo. Vinte e um estados.

 

P/1-Que beleza! Então, o senhor ia fazer viagens para coleta de bichos?

 

R -Para mim, réplica de anfíbios. Naturalmente aparece um bom inseto eu não vou jogar fora. Ou um mamífero.

 

P/1-E essas viagens começaram por onde? Pela Amazônia?

 

R -Começaram pelo Estado de São Paulo. Pirassununga. Pirassununga tem uma estação de piscicultura do Ministério da Agricultura que é excelente. Então, não só a gente tinha peixe como era no meio de um cerradinho. Então, o primeiro trabalho sobre forma de cerrado do Brasil é meu e feito no Cerrado de Emas. Chama Emas esse lugar em Pirassununga.

 

P/1- Então ali começou a pesquisa.

 

R -É.

 

P/1-Depois o senhor foi indo para que Estados?

 

R -Tudo. Onde aparecia uma chance, um correspondente.

 

P/1-Correspondente... e na Amazônia, particularmente, vocês ficaram fazendo pesquisa por muitos anos?

 

R -Quarenta anos.

 

P/1-Então existe até hoje esse barco e isso tudo continua?

 

R- Não. O barco, a FAPESP tomou.

 

P/1-Como tomou?

 

R -Brigaram comigo e tomaram o barco. Problema de ciúme e coisa profissional. Um dia eu tinha barco e no dia seguinte não tinha mais barco, porque o barco era da FAPESP e não era meu.

 

P/1-Que pena!

 

R -Estamos no Brasil.

 

P/1 -E o senhor contou, que uma parte da coleta era  comprada das pessoas do local, que traziam os bichos. E aí, conheciam vocês e já estavam esperando ou iam procurar as pessoas?

 

R -A gente chegava e parava o barco. Chega um barco e é a curiosidade da zona. Vem todo mundo para ver o barco. O barco ficava penso de tanta gente sentada na beirada. E aí, a gente ia fazer uma ideia do preço que podia oferecer por um bicho e começava. Era um vidão. Tinha um cozinheiro excelente. Cozinheiro de bordo.

 

P/1-E o que o senhor gostava de comer o que ele fazia?

 

R -Peixe. O que a gente ia comer na Amazônia?

 

P/1-Peixe. Ele mesmo comprava e preparava para vocês?

 

R -Os marinheiros pescavam. Os marinheiros eram todos da Amazônia. Tudo gente da terra. Nós tínhamos uma rede e chamava despensa. De noite, quando a gente encostava o barco, amarrava essa redinha na popa e de manhã o peixe vinha batendo o rabo para apanhar.

 

P/1-Que vidão! O senhor poderia falar um pouquinho da sua época do ginásio?

 

R -Eu era aluno do Rio Branco. Eu tinha um maravilhoso professor de português. Um homem que marcou minha vida. Chama-se Omar Sampaio Dória. Esse marcou minha vida. Ensinou-me a ler. Ensinou-me a gostar de poesia, me ensinou a escrever. Eu era o rabo dele. Ele andava namorando e eu atrás...  E eu era o primeiro da classe. Não vamos esconder. E aí, um dia, conversando com o filho do dono de uma torrefação de café, que tinha em frente de casa, eu vi que o... que era do mesmo ano do meu no ginásio, sabia de coisas que eu nunca tinha ouvido falar. Então, falei com o meu pai, que o Ginásio do Estado era muito melhor que o Rio Branco. Meu pai era amigo do diretor do Ginásio do Estado, que era o Martin Damy, que me transferiu no dia.

 

P/1 - É mesmo?

 

R -É. E aí, eu cheguei ao Ginásio do Estado. Eu no Rio Branco nunca tirava menos que cem e minha primeira nota, que eu tive no Ginásio de Estado, foi vinte e cinco. Engraçado. Era ali na Várzea do Carmo. Era na Rua do Carmo.

 

P/1-Esse professor dava que disciplinas?

 

R -Português.

 

P/1- Só português?

 

R -Mas ele foi uma influência marcante na minha vida.

 

P/2 -Esse colégio. Como era o nome dele? Esse que ficava na várzea do Carmo?

 

R -Ginásio do Estado.

 

P/2 -Como era o nome?

 

R - Ginásio do Estado.

 

P/2 -Chamava Ginásio do Estado?

 

R -É.

 

P/2 -Como era a Várzea do Carmo naquela época? Você lembra?

 

R -Lógico. Tinha o trinta e oito BC. Era o quartel que era o trinta e oito BC. E aí saía briga. Depois da revolução de trinta e dois, saía briga entre os alunos do ginásio e os soldados nordestinos do trinta e oito BC.

 

P/1 -Nossa! É mesmo?

 

P/2 -E você viu isso acontecer? Era normal na época?

 

R - É lógico! Eu tenho uma vida de militância política, que começou aos dez anos de idade.

 

P/1 -Então, seu Paulo, no ginásio que o senhor aprendeu grego? É isso?

 

R -Eu tive aulas de grego. Não aprendi grego. Mas o ginásio ensinava até isso. Era uma qualidade de ensino imensamente superior ao das escolas particulares. Tanto que aluno de lá não fazia cursinho. Eu não fiz cursinho para entrar na faculdade de medicina. Entrei direto.

 

P/1 -Tinha uma boa base.

 

R -Não era eu. A minha turma toda. Não estou dizendo que eu sou diferente. A minha turma toda. Era um ensino de grande responsabilidade do aluno. Eles jogavam coisas para você e você que se virasse. Havia professores famosos pela dureza... O famoso Cruise, de matemática, que todo mundo tinha pavor dele. Era uma escola maravilhosa.

 

P/1 -E na época, como se chamava? Era ciência, biologia? Como era o nome?

 

R-História Natural.

 

P/1 -Então, o senhor era um bom aluno de história natural? E nesse período o senhor já era encantado?

 

R -Já. Eu tinha museu em casa.

 

P/1 -Conta isso para a gente. Tinha um museu em casa?

 

R -Tinha um museu com os bichinhos que eu pegava. Não era um museu científico. Mas era um começo de vida.

 

P/1 -E como o senhor armazenava os bichos?

 

R -Numa estante. No porão de casa. Meu pai era uma maravilha de pessoa. A força que ele me deu, para me fazer cientista é incrível. Ele era professor da POLI. Aliás, um lugar de pouco espírito científico na época, era a POLI. Era puramente profissional. Engenheiro de quatro lados e quatro cantos iguais.

 

P/2 - E seu pai te incentivou? A convivência com seu pai que te incentivou?

 

R -Eu adorava ele. Era o rabo dele. Ele de noite ia trabalhar no escritório dele. Na nossa casa tinha três andares. E o andar de cima era escritório. O dele. Do meu irmão. Cada filho tinha. Eu com dez anos de idade tinha um escritório meu. Com minha estante, minha mesa e tudo. E meu pai ia trabalhar de noite nas contas dele e eu sempre ficava sentado no chão lendo, para ficar perto dele. Adorava meu pai. Morreu com cinquenta anos.

 

P/1 -Ah é! Morreu novo assim?

 

R -É.

 

P/2 -E esses bichinhos que você pegava era coisa de menino ou era uma brincadeira?

 

R -Não. Era já me profissionalizando.

 

P/1 -E essas coletas eram feitas ali nas redondezas ou você ia passar em algum lugar?

 

R -  São Paulo era um lugar bastante suburbano naquele tempo.

 

P/1 -Eu não consigo imaginar. Então, era nas redondezas mesmo.

 

R -Eu, por exemplo, assisti fazer o Hospital das Clínicas. Era um campo de futebol. O Glorioso Futebol Clube, onde hoje é o Hospital das Clínicas. Assisti fazer.

 

P/2 -Você viu a construção, o primeiro prédio?

 

R -Tudo.

 

P/2 -Era um caminho que você passava?

 

R -Não. Era na Avenida Rebouças. Era um campo de futebol. A direita da Rebouças era desocupada. A direita de quem desce. Então, lá era um Clube de Futebol. Tinha dois clubes de futebol. O outro tinha um nome lindo: Caveira de Ouro.

 

P/1 -Gostei! Caveira de ouro.

 

R -Eram o Glorioso Futebol Clube e o Caveira de Ouro Futebol Clube. Os dois clubes da Rebouças.

 

P/1 - E o senhor estava dizendo, que queria destacar esse período do ginásio, que foi um período marcante.

 

R -Marcou. Ensinou-me a estudar em casa. O professor dava o assunto e você se virava. Era um ginásio maravilhoso. Professores não eram luminárias. Não eram grandes cientistas, nem nada, mas era gente firme, competente e muito séria. Eu tenho e melhor lembrança do Ginásio do Estado.

 

P/1 - O senhor contou e muita gente vai ter curiosidade depois de ver isso. A sua primeira coleção, que o senhor fazia em casa dos animais... Que animais  eram?

 

R -Ué! Lagartixa, sapinho, borboleta. Todos os bichos que você pega na rua.

 

P/2 - Você armazenava vivo?

 

R -Não. Preparado. Era museu.

 

P/1 - Que beleza! Então, já estava vocacionado mesmo.

 

R – Eu nasci para isso. Sou até hoje um homem de museu.

 

P/1 -Que beleza! A gente estava contando que...

 

R - Onde eu estudei em Harvard? Museu de Zoologia Comparada.  Estudei no Museu de Zoologia de Harvard. Não foi na Universidade em geral. Foi no museu. Meu professor era o diretor do Museu de Harvard. Que é um Museu famoso. Foi fundado por Louis Agassiz.

 

P/1 - A gente vai chegar lá. Eu queria que o senhor falasse. Então, o senhor passou no vestibular e foi para a universidade. Universidade de São Paulo.

 

R - Aí fui estagiar no Instituto Biológico, porque havia facilidade. Foram muito bons para mim, mas era um lugar retrógrado cientificamente. Eu tive que desaprender tudo que eu aprendi lá. Mas era boa gente. Trabalhadora, honrada. Só que eles eram muito atrasados. Era a Escola Manguinhos. Chamava de Escola de Manguinhos. Então, isso para mim foi bom, porque foi gente muito boa, que me entusiasmou para fazer carreira. Ensinaram a beber cachaça... Todo dia, quando fechava o laboratório, tomava um golinho.

 

P/1 - Que beleza!  Aí então o senhor fez mestrado?

 

R - Não fiz mestrado. Fiz doutorado direto.

 

P/1 -O senhor fez doutorado direto. O senhor lembra o ano que foi para os Estados Unidos?   

 

R -1951. Em 1951 fiz o doutorado. Fui para lá em 1949, 1950.

 

P/1-E a sua filha nasceu lá?

 

R-Nasceu. A minha filha Maria Eugênia.

 

P/1 -E aí, o senhor volta em 1952?

 

R -1951.

 

P/ 2 -Qual foi a grande experiência que o senhor teve lá e aprendeu?

 

R -Foi morar lá. Exatamente. É uma civilização completamente diferente da nossa. Principalmente retrógrado como era São Paulo. São Paulo era um lugar interiorano, naquele tempo. Eu ficava em Boston, que era uma cidade ultra sofisticada. Meu Deus! Na primeira vez que eu entrei num bar de jazz eu quase desmaiei.

 

P/1 -Foi onde? Em Boston mesmo?

 

R -Não. Em Orleans. Eu viajava muito nos Estados Unidos.

 

P/1 -O senhor podia contar então isso. O senhor foi para lá num bar de jazz. E como foi?

 

R - Eu vi escrito na porta: Village Vanguard. Gostei do nome e entrei. Me dei com as garçonetes e fiquei frequentador desse bar. Na época, conheci George Weiss, que foi um dos grandes cantores do tempo. Ficou muito meu amigo.

 

P/1 -Já que o senhor falou um pouquinho de música, eu queria que o senhor contasse... Não vamos ter tempo de falar sobre tudo, mas a sua entrada no mundo da música, o senhor tinha quantos anos?

 

R -Foi no primeiro ano de medicina. Nós tínhamos uma caravana acadêmica. Era um show ambulante do Centro Onze de Agosto. Era mais da faculdade de direito, mas tinha das outras escolas também. E andava pelo interior dando show. E tinha um regional muito bom. Foi aonde eu aprendi sambar.

 

P/1 -Foi assim?

 

R - Foi. O chefe do regional e violão... hoje o departamento de direito penal da Faculdade de Direito tem o nome dele: Manoel Pedro Pimentel. Foi com ele que eu aprendi. Era um tempo bom.

 

P/1 -E daí a coisa foi acontecendo. O senhor foi para o rádio depois?

 

R - Hein?

 

P/1 -Tem um momento que o senhor vai para o rádio.

 

R -Era o meu primo Henrique. Eu ia atrás do meu primo Henrique.

 

P/1 - Era o seu primo que o senhor falou.

 

R - Ele era o maior disc jockey de São Paulo. Morreu muito mal, porque fez negócio com os militares e foi banido da classe artística. Classe artística naquele tempo... Negócio de Getúlio era uma coisa séria. Eu me criei no anti getulismo.  Sou paulista de quatrocentos anos. Lógico que minha família veio da Itália em 1890, mas sou paulista de quatrocentos anos.

 

P/1 -Seu Paulo, como foi esse período lá no rádio?

 

R - Eu era mais um parasita, um acessório. Por exemplo, a Cacilda Becker, que era muito amiga de meu primo e ficou minha grande amiga, tinha um programa chamado Consultório Feminino e eu dava receitas médicas. Quem dava era eu. Cacilda era uma mulher inteligentíssima e fascinante. Ela e a irmã dela que também era muito inteligente. Muito bonita. Ainda viva. A Cleyde. É viva a Cleyde Yáconis?

 

P/2 -É.

 

R - Deve ter a minha idade.

 

P/2 -Tem a sua e ainda faz teatro.

 

R -Deve estar chegando aos noventa.

 

P/2 -Está. Cleyde Yáconis deve ter uns noventa anos.

 

R -Eu estou com oitenta e sete e ela é do meu tempo.

 

P/2 - E você dava as receitas no programa?

 

R -Receita para emagrecer.

 

P/2 -Você conta uma para a gente. Estamos precisando.

 

R -Copiava de revistas.  

 

P/2 -Você e a Cleyde eram amigos?

 

R -Muito amigos. Era mais amigo da Cacilda.

 

P/1 -Seu Paulo, então na música, quando acontece a primeira gravação de música sua?

 

R -Foi ‘Volta por cima’... Não. Foi a ‘Ronda’ com Inezita. Inezita Barroso era muita minha amiga. Ela foi para o Rio para gravar ‘Moda da Pinga’. E minha mulher, que era amiga dela de escola e eu fomos junto. Chegou lá no estúdio, faltava o lado B da ‘Moda da Pinga’. Ninguém tinha pensado que disco tem lado B. Então Inezita... Era sábado de manhã… onde ia arranjar música para a Inezita gravar naquele dia. Porque o Regional já estava no estúdio. Era um Regional que vou dizer para vocês. Menezes, Bolsa Sete, Garoto e Abel Ferreira.

 

P/1 -Garoto e Abel Ferreira.

 

R -Era o fino. E eu lá com o hino na missa. Aí, a Inezita disse: - Só se gravar ‘Ronda’. Porque precisava do autor autorizar. E sábado de manhã no Rio... Então teve que ser ‘Ronda’ e Inezita gravou. Mas ela não ligou. Ela deixou. Quem depois foi gravar ‘Ronda’, a sério, foi Márcia, que teve uma gravação. É uma grande amiga nossa. E da Ana também.

 

P/1 -Tem uma voz maravilhosa.

 

R - E é uma pessoa muito boa.

 

P/1 -Então ela gravou lado B, mas não estourou naquela época?

 

R -Não. Ficou escondida. Lado B da ‘Moda da Pinga’. Meu Deus do Céu! Não tem melhor esconderijo.

 

P/1 - O que aconteceu depois dessa gravação?  

 

R -Nada. Por intermédio da Inezita eu entrei no ambiente artístico e fiquei amigo de um e de outro e começou a aparecer chance. Todo mundo sempre louco de novidade para gravar.

 

P/1 -E o senhor compunha como?

 

R -Na cabeça.

 

P/1 -Sem acompanhamento?

 

R -Acompanhamento só me atrapalharia.

 

P/1 -Então o seu jeito de criar é esse?

 

R - Tudo de cabeça. Se tiver um sambista de rua sou eu.

 

P/1 - Caminhando e o samba surgia?

 

R -Não. Acordando o dia inteiro e pensando. Eu larguei de compor porque cansava muito. Não é fácil você compor.

 

P/1 -Não deve ser. Então muito esforço e muito trabalho?

 

R -É. Muita preocupação. Você não tira a cabeça daquilo. Vira obsessão.

 

P/2 -Sempre sozinho? Compunha com alguém ou sempre sozinho?

 

R -Sempre sozinho. Depois, mais tarde, eu arranjei parceiros. Um parceiro muito bom que eu tive foi Eduardo Gudin, que é muito inteligente. Para fazer parceria não dá para fazer com bobo. Tem que ser o sujeito inteligente. O Gudin foi um bom parceiro que eu tive. O que eu fiz com o Gudin?

‘Mente’, ‘Condição de Vida’, ‘Pra tirar você do sangue’, ‘Longe de casa eu choro’. Foi uma coisa engraçada, porque eu quando era jovem, escrevi um livro de poesia chamado ‘Lira de Paulo Vanzolini’ .O Clube de Poesias publicou e eu dei para os meus amigos. Um dia Paulinho Nogueira, que era meu companheiro de Campinas e grande amigo disse: “Xará, você está errado. Você não é poeta, você é letrista.  Esse livro teu está cheio de samba esperando melodia” e botou ‘Volta por cima’, que ele fez, estava no livro. Esse ‘Longe de casa eu choro’, também está no livro.

 

P/1 - Alguém fala que ‘Longe de Casa’ é quando ele estava fazendo doutorado.

 

R -Ah! É verdade.

 

P/1 -Pelo nome: ‘Longe de casa’.

 

P/2 -Quando você escreveu o livro de poesia você tinha quantos anos?

 

R -Uns vinte.

 

P/1 -Cedo publicou.

 

R -Quem muito me entusiasmou para publicar foi um amigo que eu tinha. Que era um bom poeta e muito meu amigo, que era Geraldo Vidigal. Morreu faz pouco tempo. Era um grande amigo meu. Um belo poeta. E foi ele que me entusiasmou. Quem publicou o livro foi o Clube de Poesia… Domingos Carvalho da Silva.

 

P/1 -Domingos Carvalho da Silva. Grande poeta da geração de quarenta e cinco.

 

R -Era a minha geração.

 

P/1 -Depois surgiram alguns parceiros e aí a coisa foi crescendo.

 

R -Não foi crescendo não. Nunca cresceu muito.

 

P/1 -Não?

 

R -Só tenho duas gravações de sucesso.

 

P/1 - Que seriam quais?

 

R -‘Ronda’ e ‘Volta por cima’. ‘Volta por cima’ deu um monte de dinheiro. Comprei livro. Comprei uma biblioteca inteira em livreiro de livros antigos. Esses livreiros de livros raros. Mandam o catálogo e você compra pelo catálogo. E eu comprava e não perguntava o preço. Comprava em dólar.

 

P/1 -O senhor podia contar a história da ‘Volta por cima’. Como ela surgiu? Como ela foi gravada?

 

R -Como ela surgiu eu não me lembro. Surgiu como tudo. Deu-me a ideia de fazer um samba. Ela foi gravada. Eu tinha um amigo chamado Zé Henrique. Chamado Zelão e ele tinha um bar na... Como é o nome da rua, mesmo…?  Peixoto Gomide . Ele era um crioulo aqui do Cambuci, do Morro do Piolho. E ele era muito meu amigo. E eu dei a música para ele gravar. Era a primeira que ele ia gravar. Mas ele falou: Eu briguei com a gravadora e não posso gravar. Mas o Borba, que era um advogado boêmio aí na praça, arrumou uma boca para Mário. Mário da Viola. Mais tarde, por causa de ‘Volta por cima’, voltou e veio chamar-se Noite Ilustrada. Mas nesse tempo ele chamava Mário da Viola. Então, Mário gravou ‘Volta por cima’. E foi um sucesso. O único sucesso mesmo que eu tenho, é esse.

 

P/2 -Ficava tocando em rádio sem parar? Quanto tempo?

 

R -Ah! Bastante tempo.

 

P/1 -Até hoje toca.

 

P/2 -Até hoje.

 

R -Deu muito dinheiro para mim.

 

P/2 -Que delícia! Dá ainda ou não dá mais?

 

R –Não. Outro dia recebi de direitos autorais sessenta e três reais.

 

P/1 -Alguém fala que foi do livro.

 

R -Ah! Foi do livro.

P/1 -Continuando. O senhor poderia contar um pouquinho do Jogral?

 

R -Posso. O Jogral... eu entrei no Jogral e fiquei amigo do Luís Carlos Paraná. Daí que fez o Jogral. O Paraná tinha umas ideias meio culturistas. Porque era o Jogral de Nossa Senhora. Sabe a história? É a história de um Jogral que não tinha nada para dar a Nossa Senhora, então ele dava show para a Nossa Senhora, que era a única coisa que ele tinha para dar. E o Paraná era apaixonado por essa ideia. Então, ele fez esse bar. O Jogral, que era um bar de primeira categoria. Era muito escolhido. Freguesia e artistas. Inclusive o Paraná era muito meu amigo. Amigo de casa. Frequentava a minha casa. Morreu jovem.

 

P/2 -Ele ficava aonde? O Jogral inicialmente.

 

R -O primeiro foi naquela galeria. Como se chama?

 

R/2 - Galeria Metrópole.

 

R - No porão. Depois que passou para a Rua Avanhandava.

 

R/2 -Naquela época, o Chico ia lá. O Chico Buarque... no Porão.

 

R -Chico frequentava um bar chamado ‘Canto o terço’.

 

P/2 -Quem passou lá no Jogral? Quem eram as pessoas que tocaram lá, naquele momento?

 

R -Todo mundo que você possa imaginar. Martinho da Vila foi lançado lá. Jorge Ben foi lançado lá. Começaram a carreira lá.

 

P/1 -Olha só!

 

R -Não é pouco não!

 

P/1 - Você estava falando do Chico. O Chico gravou seu... foi o quê? ‘Praça Clóvis’?

 

R -Ana?

 

R/2 -‘A primeira vez’.

 

R- Foi. O pai de Chico era um grande amigo meu. O Pai de Chico era um grande amigo meu.

 

P/1 -O Sérgio?

 

R - É. Eu saía quase toda a noite da casa de Sérgião.

 

P/1 -E como ele era?

 

R -O Sérgio? Era o cara mais alegre, mais aberto do mundo. Engraçado. Quando dava para ser chato, ninguém aguentava. Começava a falar alemão. Cantar em alemão... Era uma pessoa encantadora. O centro da casa mesmo era Maria Amélia, mulher de Sérgio.  Essa era a figura dominante. Todo mundo adorava Maria Amélia. Morreu com mais de cem anos.

 

P/1 -Pois é. Foi recente.

 

P/2 -Ano passado.

 

R - Foi por causa de Maria Amélia, que eu conheci Sérgio. Porque Geraldo Vidigal, que eu falei para você, meu amigo... O pai dele, Doutor Alcides. Os filhos eram meus amigos, mas o pai também era meu amigo. Independentemente. E disse: “Olha! Vem uma parente nossa mudar aqui para São Paulo e nós estamos muito preocupados que ela vai ficar sem  ambiente. Vai ficar muito isolada. Vocês visitem. Façam um pouco de ambiente para ela”. Era a Maria Amélia. Pedir, por favor, para ir à casa de Sérgio Buarque é um absurdo.

 

P/1 -Que interessante!

 

P/2 -E você conciliava essa sua vida trabalhando no museu e no Jogral? Como você conciliava os dois?

 

R -Indo nos dois.

 

P/1 -Simples assim.

 

R -Jogral era um lugar ótimo. Era Paraná e Adauto Santos. Adauto era o número dois do Jogral. Era um cara ótimo também.

 

P/1 -Seu Paulo, o Marcos Pereira, o senhor o conheceu lá no Jogral?

 

R- É lógico! O Marcos tinha uma agência de publicidade. E ele resolveu fazer um disco para os representados dele. E fez no Jogral. E o disco foi um disco meu. ‘Onze sambas e uma capoeira’. Foi o começo da carreira. Foi o que fascinou Marcos na carreira de produtor musical, foi esse disco. ‘Onze sambas e uma capoeira’.

 

P/1 -E quem participa do disco?

 

R -Paraná, Cláudia Morena, Chico, Mauricy Moura e Cristininha. Todos os meus amigos. Conheceu Mauricy? Mauricy era um tipo maravilhoso. Morava em São Vicente. Eu chegava lá em São Vicente: “Oh, Paulo! Vamos para Santos” “Fazer o quê?” “Arrumar briga no cais do porto…”

 

P/2 -Você era amigo de pai e filho. Do Chico e do Sérgio?

 

R -Chico eu conheci, ele tinha três anos de idade.

 

P/1 -É mesmo? Criancinha.

 

R -Nós íamos todas as noites na casa do Sérgião. Uma casa maravilhosa.  Sérgio era um tipo fora do comum.

 

P/2 -Tinha música e escrita junto. Vocês conversavam sobre o livro dele sobre música? Como é que era?

 

R -Não. Música foi um dia, quando eu ia saindo. O Chico me parou no terraço e falou assim: “Eu fiz um samba. Você quer ouvir?” Eu falei: “Quero”. Era ‘Pedro pedreiro’. E ele perguntou: “O que você acha?”  “Eu acho imelhorável”.

 

P/1 -Imelhorável!

 

R -Imelhorável. E é mesmo. O Chico tem algumas coisas que são: Aquela ‘Construção’ por exemplo, ‘Rita’. Santo Deus! São coisas clássicas.

 

P/1 -Já surgiram clássicas. Mas voltando ao Marcos Pereira. Então, ele lança ‘Onze sambas e uma capoeira’ e depois ele começou a fazer aquela série de temáticas de músicas.

 

R -Aí começa a trazer os velhos cantores do Rio. Ele trouxe Carlos Cachaça. Quem mais, Ana?

 

P/1 -Cartola.

 

R -Cartola foi ele mesmo que lançou.

 

P/1 -Os dois primeiros discos do Cartola, acho que são Marcos Pereira.

 

R - O Marcos Pereira tinha o número dois na agência dele, que era muito ligado na questão de disco. Que era o Aluísio Falcão. Aluísio foi muito importante nesse movimento, porque ele era o braço funcionante do Marcos. O Marcos era o homem das ideias, das falarias, mas o Aluísio era quem trabalhava.

 

P/1 -Sei. Aí tem uma história, que a gente estava falando antes de começar a entrevista, que era sobre o “Cuitelinho”. Você recolheu o “Cuitelinho”, onde?

 

R -Na boca de um amigo meu.  Chamava-se Luís Carlos Xandó...Antonio Carlos Xandó. Era um fiscal de rendas e apaixonado por música caipira. E ele colheu isso no Rio Paraná, na boca de um barqueiro chamado Nhogostão e passou para mim.

 

P/1 -Sei. E aí quem grava é a Nara Leão.

 

R -Todo mundo gravou.

 

P/2 -Mas o que era? Eram os versos de domínio popular?

 

R -Era uma moda de viola.

 

P/2 -E aí você colocou os versos?

 

R -Coloquei um verso só e dei o jeito em alguns outros. Eu preparei para poder..

 

P/2 -Qual verso você colocou?

 

R -O último. “A tua saudade corta como aço de navalha”.

 

P/1-E depois virou e até foi creditada como música mineira?

 

R -É.

 

P/2 -É. Porque o Milton cantou fortemente. Cantou e gravou.

 

P/1 -Mas aqui ele está falando que não tem nada de Minas.

 

R -Isso aqui é do Rio Paraná, na fronteira Paraná-Paraguai. É paulista antigo. E só saber que tem ‘ai-lai-rai’. ‘Ai-lai-rai’ é a marca da moda paulista antiga. ‘Ai-lai-rai’.

 

P/1 -Falando então, mais do Marcos. Teve essa coleção que foi um trabalho grande de memória da nossa música e você acompanhou isso tudo com ele.

 

R -E acompanhei ele quebrar. Por causa da música, ele quebrou a firma dele de publicidade. E matou-se. De desespero.

 

P/1 -É triste.

 

R -É horrível! Não gosto nem de pensar.

 

P/1 -Queria que você contasse um pouquinho do ‘Acerto de contas’.

 

R –‘Acerto de contas’ é o meu acerto de contas com os músicos. Porque eu sempre fui... Eu sempre achei que os músicos de samba são muito injustiçados. Você pensa muito no cantor e o músico que dá o tutano da coisa é muito injustiçado. Então, ‘Acerto de contas’ era uma chance de botar os músicos em evidência.

 

P/1-Entendi. Quem produziu?

 

R -Foi o Ítalo. Não Foi?

 

R/2 - Produzimos eu, o Ítalo Perón e o Homero.

 

P/1 -Parabéns! Ficou maravilhoso!

 

R/2 - Cinquenta e duas faixas.

 

R -Até hoje se mantém.

 

R/2 - De receber gente. De Abrir o portão. Dar cafezinho. Animar. Preparar o ambiente. Acompanhar os ensaios. Sentar com o Ítalo depois e falar que podia gravar ‘Capoeira de Arnaldo’. Ficaria linda aquela do Ceará também. Isso aí! O diretor musical, que se dedicou bastante mesmo, foi o Ítalo Perón e também o diretor maior, no caso de execução. Ser um diretor executivo é muito maravilhoso. Em todos aqueles discos que ele produziu e ainda produz por aí é o Alberto Figueira.

 

P/1 -E o ‘Acerto de contas’ foi feito então. Você gostou?

 

R -Adorei.

 

P/1 -Paulo, nós estamos chegando ao fim da entrevista. A gente sabe que você tem outro compromisso. Queria terminar falando um pouquinho mais de museus. Afinal de contas, estamos aí na Semana dos Museus. Por que o jovem precisa frequentar museus?

 

R -Porque o museu tem a decantação no tempo. Você compreende? O museu tem a ciência decantada no tempo. Você tem toda a herança. O museu não é só o que se vê. É uma herança. É uma herança cultural muito grande. Uma biblioteca de museu é uma coisa maravilhosa. Vai à biblioteca do Museu de Zoologia, principalmente com as bibliotecárias que tem. Você fica fascinado. É Isso. Museu é uma história.

 

P/1 -Paulo, você quer frisar mais alguma coisa, antes da gente terminar a entrevista?

 

R -Não. Estou muito satisfeito. Se você está, eu estou.

 

P/1 -Nós adoramos. É uma honra para o Museu da Pessoa receber você e quando quiser conversar mais, estamos aqui de portas abertas.

 

R -Eu também.

 

P/2 -Muito obrigada, por atender! Fiquei amolando a Ana um mês... Foi uma honra para a gente.

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