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História

Entre o pré-sal e o petróleo: Pesquisas, desafios e descobertas

História de: Cristiano Leite Sombra
Autor:
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância. Nascido em Belém, morou na Ilha de Marajó, Fortaleza, Salvador e Aracaju. Faculdade. Ditadura, movimento estudantil, protestos. Festas. Trabalho na Petrobras. Mudanças por conta do trabalho. Perfuração de poços, petróleo, pré-sal. Rochas, sedimentos. Procedimentos, projetos. Pesquisa. Desafios a serem cumpridos.

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História completa

Projeto Memória Petrobras

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Cristiano Leite Sombra

Entrevistado por Márcia de Paiva e Douglas Tomás

Rio de Janeiro, 24 de julho de 2009

Código: MPET_PRESAL_HV013

Transcrito por Keila Barbosa

 Revisado por Luana Baldivia Gomes

 

 

P/1 – Cristiano, bom dia, queria agradecer por você ter vindo até aqui, e eu gostaria de começar pedindo que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.


R – Bom dia. Meu nome é Cristiano Leite Sombra, e a data do nascimento é 26 de dezembro de 1955, em Belém, no Estado do Pará.


P/1 – E o nome dos seus pais?


R – Raimundo Carvalho Sombra e Valderez Leite Sombra.


P/1 – Qual a atividade deles?


R – Meu pai era médico, os dois já falecidos, e a minha mãe era doméstica.


P/1 – Era mãe [riso]?


R – Era mãe.


P/1 – E Cristiano, você cresceu em Belém? E você tem irmãos... Ah, perdão, você tem irmãos?


R – Tenho.


P/1 – Quantos?


R – Tenho cinco irmãos.


P/1 – Opa! E você, na escala, é qual?


R – Sou o mais velho.


P/1 – É o mais velho?


R – Isso.


P/1 – Qual é o nome dos outros irmãos?


R – Bom, Ivone, Inês, Laurênio, Eugênio e Manoela.


P/1 – E me conta então como é que foi a sua infância, se você cresceu em Belém, e teve uma infância com os irmãos...


R – Não, eu morava em Marajó [tosse].


P/1 – Ah, é?


R – Só nasci em Belém, mas eu fui criado, até os cinco anos, na Ilha de Marajó.


P/1 – Seus pais eram de lá, ou tinham ido para lá?


R – Não, a minha mãe que era de lá, mas o meu pai estava lá a trabalho. E em seguida eu fui para a Bahia, fui criado na Bahia, desde os meus cinco anos até eu me formar. Quando eu terminei a minha graduação, comecei a trabalhar na Petrobrás.


P/1 – Deixa eu só... Vamos com calma, deixa eu só... Um salto já, meio rápido. Você tem alguma lembrança da Ilha da Marajó, até os seus cinco anos?


R – Não, dessa época, as lembranças são muito poucas, mas eu tenho lembranças posteriores, que eu retornei lá, porque o meu avô morava lá, então eu voltei lá para visitar o meu avô. Mas, da minha época até cinco anos, são muito vagas as lembranças.


P/1 – Seus avós foram, avós, assim, meio participantes da vida de vocês também, ou...


R – Não, não foram não, porque depois dos meus cinco anos, eu fui embora para a Bahia, então eu tinha muito pouco contato com eles por causa da distância.


P/1 – Seu pai que era da Bahia?


R – Não, o meu pai é cearense.


P/1 – Mas porque vocês foram...


R – Eles resolveram ir para a Bahia, por motivo de trabalho, lá ele trabalhava na Fundação SESP, Serviço [Especial] de Saúde Pública, que tinha no local no interior da Bahia. Então, em função disso ele foi, por motivo de trabalho.


P/1 – E conta como... na Bahia era Salvador mesmo?


R – Não [tosse], houve uma época [tosse], logo no início foi no interior da Bahia, um local chamado Barra do Rio Grande, e em seguida nós fomos para uma outra cidade chamada Irecê, e depois para Salvador, por último.


P/1 – Conta um pouquinho o que você se lembra da sua infância, com seus irmãos também, você tinha o papel do irmão mais velho? Como é que era?


R – Ah, por um tempo sim, mas... Bom, da minha infância lá, a minha infância foi... Eu acredito que é muito boa a infância no interior, em função de você não ter horário, não tem medo, não tem... Se pode voltar pra casa no horário que quiser, na hora que quiser, e ninguém se preocupa onde você está. Então, aliás, eu tinha uma, só tinha uma regra lá em casa: sete horas da noite tem que aparecer em casa [riso]. Era a única [riso], mas fora isso ninguém sabia onde que eu estava, sumia nos rios lá, tomava banho de rio também. Não tinha isso, não. Bom, não teve assim esse papel de irmão mais velho, porque eu tinha diferença grande da minha, da segunda para mim foram seis anos, então já era uma diferença grande.


P/1 – E suas brincadeiras, você falou, então podia sumir lá pra tomar banho de rio... O que você mais gostava, o que você fazia? Tomar banho de rio era bom?


R – Isso aí, e jogar bola, futebol, o dia todo, além do colégio. Não gostava de pescar, tinha uns colegas que gostavam de pescar, nunca fiz isso. Jogar bola e nadar um pouco.


P/1 – E assim, também de casa, das suas lembranças também meio... Da própria casa, seus pais também, como é que tinha essa liberdade, por conta do lugar ou também tinha um lado de temperamento deles, de deixar também mais livre... O que você se lembra?


R – Não, eu acho que todo mundo era assim, lá, não era por conta deles não. Todos saíam em grupos de crianças, assim, bandos, 10 crianças, 20 crianças e ninguém tinha medo, não.


P/1 – Era uma turma grande então? Uma criançada.


R – Era, para jogar futebol, era. Tinha que fazer os times.


P/1 – Cristiano, e da escola, o que você se lembra? O que você se lembra, assim, da sua primeira escola, quais são as suas lembranças?


R – Bom, essa minha primeira escola, uma lembrança que eu tenho é que naquela época tinha um negócio chamado admissão, que era que nem vestibular, que a gente tinha muito medo desse negócio. E foi nessa época de mudança, porque lá onde eu morava no Marajó, não sabia nada, não frequentava escola, até os meus... Fui frequentar escola nos meus, se não me engano, cinco, seis anos. Acho que foi a primeira vez, não foi?


P/1 – Aonde?


R – Na Bahia.


P/1 – Mas você se lembra qual era a cidade, dessas que você morou? A sua primeira...


R – Barra do Rio Grande.


P/1 – Barra do Rio Grande.


R – Então eu fui para... No começo, eu tinha dificuldade de acompanhar as outras crianças... Não, a admissão foi depois. A escola era tranquila também, era uma boa escola, tinha um bom padrão e tudo. Muita atividade esportiva.


P/1 – O que você gostava de estudar [telefone toca]?


[pausa]


R – Eu gostava...


P/1 – Você gostava de estudar? Você gostava mais de esporte? 


R – Eu gostava de estudar sim, quer dizer, eu não sei se eu gostava, mas eu estudava [riso]. Tirava notas de média para boa.


P/1 – E tinha alguma matéria que você gostava mais?


R – Houve fases. Houve uma fase, assim, que eu gostava de Geografia, gostava de Matemática. Houve uma fase que eu não gostava de Português, mais adiante eu passei a gostar muito de Português, porque eu tive um professor que eu devo a ele esse... Engraçado isso, ele ensinou Português de uma forma diferente, e eu passei a gostar.


P/1 – E ele era um professor tão... que ficou na sua... marcante... você se lembra do nome dele?


R – Jaime Barros, o nome dele, na Bahia, em Salvador. Mas isso já com 17 anos que eu vim a gostar de Português. Além disso, criança, eu não gostava de Português.


P/1 – E você falou que gostava de esporte também.


R – Eu gostava de futebol, que era o que eu fazia todo o dia.


P/1 – [riso] E na escola também.


R – Na escola não tinha tanta atividade física, assim, tinha ginástica, mas futebol era mais quando eu saía da escola.


P/1 – Como é que alguma dessas matérias te influenciaram na sua escolha profissional, ou algum professor... Como é que você, também, foi se encaminhando, e quando que você chegou à conclusão do que você queria fazer?


R – Eu não tinha, ao contrário de algumas pessoas que sabem o que querem desde criança, eu não tinha essa visão de que eu queria ser geógrafo, até o ano do vestibular. Nesse ano que eu me defini. Acho que a minha definição tem um pouco de romantismo. Talvez influenciado pelo fato de eu ter vivido na Amazônia, uma fase que eu queria desbravar um pouco, também, né, sair fora da Capital. Talvez, eu acho que teve um pouco. Acho que Geologia ainda seria uma coisa que eu iria gostar.


P/1 – Você nem me contou dessa fase que você viveu na Amazônia.


R – Bom, foi até os meus cinco anos.


P/1 – Até os cinco anos, lá do Marajó?


R – Do Marajó.


P/1 – Tá, e aí você acha que aquele tempo ficou um pouco também na sua cabeça, para te influenciar?


R – Já tinha influenciado um pouco. Também o fato de ter vivido em cidade pequena, em seguida, no interior da Bahia também. Eu acho que isso aí deve ter alguma influência, porque eu me recordo, assim, que quando eu estava indeciso, entre algumas opções...


P/1 – Você ficou indeciso entre o quê?


R – Ah, eu acho que cheguei a pensar em Medicina, em Agronomia, Engenharia, em Geologia, aí a opção final foi Geologia mesmo. Aí, quando eu fiz, que eu me decidi, eu não tinha tanta certeza de que era isso que eu queria ser. Foi uma decisão difícil.


P/1 – E Medicina você pensava também um pouco por influência do seu pai, né? Eles chegaram, seus pais chegavam a falar, também: “Ah, faz isso.” Ou tinha... Porque Medicina, também, ela sempre foi...


R – Não, meu pai e minha mãe, aliás meu pai nunca falou nada, ele nunca deu opinião, e a minha mãe achava que eu não devia fazer Medicina, porque ela achava muito sacrificado. Então, em geral eles não opinavam tanto, não.


P/1 – Aí você disse então, que você só se decidiu mais ou menos na época de fazer a inscrição.


R – Isso.


P/1 – E você sabe de onde, você acha que foi o quê da... Por inspiração desse período de vida, ou por alguma matéria de escola, também, que você tenha...


R – Não, não foi por matéria de escola não, porque não tinha nada de Geologia na... Como, aliás, praticamente não tem hoje, na formação do curso secundário, não tem Geologia. Hoje, alguns cursos falam um pouquinho da terra, em si, e tal, da composição da terra. Mas, é muito pouco coisa.


P/1 – E aí quando você estava fazendo, na época do vestibular, você já estava em Salvador?


R – Estava em Salvador.


P/1 – E como é que foi também, dessa juventude em Salvador, o que você fazia, você também tinha um grupo de amigos?


R – Eu...


P/1 – Alguém foi fazer também...


R – Primeiro eu fui sozinho, assim, porque meus pais ficaram no interior, estavam no interior.


P/1 – Ah é?


R – Eu fui sozinho, mas morava no que chamavam de república, eu dividia com outros colegas e tal, também. Antes de ir para Salvador, passei um período em Fortaleza...


P/1 – Com seus pais? Ou...


R – Fui com meus tios.


P/1 – Com seus tios.


R – Aí eu fiquei alguns anos lá, depois fui para Salvador.


P/1 – Me conta um pouquinho de Fortaleza, quantos anos você tinha em Fortaleza?


R – Acho que, se não me engano, entre os 14 e 16. Aí eu fiquei lá...


P/1 – Você que decidiu? Ou seus pais...


R – Não, isso aí foram os meus pais que achavam que eu deveria ir para uma Capital, para estudar.


P/1 – Para ter um colégio melhor?


R – É.


P/1 – Eram os parentes do seu pai?


R – Isso. Depois eu vim para Salvador, já no próximo vestibular.


P/1 – E foi um período bom lá em Fortaleza, ou você sentia saudade? Como é que foi, também?


R – Não, foi muito bom, eu gostei muito também. Eu gosto de Fortaleza também. Salvador eu gosto muito. Salvador tem uma coisa especial, mas Fortaleza eu gosto bastante também.


P/1 – E aí depois então de Fortaleza você foi para Salvador, só para eu também entender essa sua...


R – Isso.


P/1 – ...Entender essa trajetória.


R – Aí eu já fui, fiquei em Salvador, passei no vestibular, e fiquei lá, até eu me formar.


P/1 – Como é que foi chegar... Seus pais foram com você, ou você foi sozinho? Você que se virou lá, em Salvador?


R – Não, eu fui sozinho.


P/1 – E aí como é que foi também, achou uma república, saiu pesquisando?


R – Não, isso aí a gente já tinha uma indicação de outras pessoas, também, que estavam na mesma situação que eu, e a gente se juntou lá com um grupo, para formar um... Alugar um apartamento, dividir os custos com umas seis pessoas.


P/1 – E era aquela vida de estudante mesmo, que tinha também um lado também de sair junto, ou era só estudar? Como é que foi, também, essa...


R – Não, saíamos juntos. Porque cada um estudava uma coisa diferente, num colégio diferente. Depois que a gente fez vestibular, cada um fez... Uns já faziam, ou já estavam... Cada um fazia uma coisa diferente.


P/1 – O que você gostava de fazer, era festeiro, gostava de... Como é que vocês se divertiam também?


R – Ah, a gente se divertia com qualquer coisa que não tivesse dinheiro. Não ia para show nem teatro porque nosso dinheiro era muito pouco. Mas qualquer coisa que a gente pudesse ir a pé ou de ônibus... Era praia, festas de rua, tal, essas coisas, assim. Salvador tem festa de, por exemplo, de... Acho que a primeira delas vêm em novembro, até o Carnaval, tem festa todos os dias. O povo não falta festa não, chamava Festa de Largo, a festa só se desloca de um bairro para o outro. Aí ela fica um mês num bairro, 15 dias, aí ela vai pra outro, e depois vai... Começa na Conceição da Praia, perto ali do dia 2 de fevereiro, Iemanjá, e tem o Carnaval, próximo ao Carnaval acaba.


P/1 – E você era muito festeiro? Você gostava dessas festas?


R – Eu ia, eu e o grupo todo. Nesse grupo, ia normalmente ia... ia uma turma...


P/1 – Foi namorador também nas festas?


R – Não fui namorador demais, não, mas eu também namorava. Não era tipo muito namorador, que trocava de namorada com muita frequência, mas gostava muito de ir para as festas.


P/1 – Então tá. E aí, foi lá em Salvador, nesse período ainda na república, que você se decidiu por Geologia.


R – Isso. Foi lá que eu tomei uma decisão e foi, fiz a minha inscrição, mesmo que sem consultar ninguém, só comuniquei. Aí eu me lembro que quando avisei para os meus pais, meu pai: “O que é isso, Geologia? Nunca ouvi falar dessa carreira.” Meu pai ficou surpreso. Então ninguém conhecia muito não. Não tinha...


P/1 – Da onde você foi tirar isso [riso].


R – É.


P/1 – Você acha...


R – Não tinha, não era uma coisa... naquela época existia poucos cursos, teve poucas opções de cursos, e alguns cursos novos, então era muito pouco difundido. O pessoal não sabia o que era.


P/1 – Você também foi estudante numa época complicada do país. Você se interessava um pouco também por esse lado de política? Você acompanhava, ou... Como é que você conviveu com isso?


R – Não, naquela época eu me interessava e acompanhava, e a gente tinha uma indignação muito grande pelo o que estava acontecendo no país, pela [pausa]... Em 1974, a gente estava no auge de ditadura. Então a gente, a juventude toda tinha um certo grau de envolvimento político, e opinava, e Salvador não era... o Rio de Janeiro era o... Apesar da Capital já ser Brasília, o Rio de Janeiro e São Paulo ainda tinham uma... Era onde aconteciam os movimentos principais de protesto. Mas Salvador, com o tempo, começou acontecer também, e começou a ter um envolvimento todo do grupo estudantil. Foi uma das primeiras, um dos primeiros movimentos mais fortes que a gente teve, que eu me lembro bem, foi, eu acho que estava no segundo ano de faculdade, e já teve uma greve com muita repressão, com muito cacetete e tal. Então, era uma época difícil para a gente se manifestar, a gente tinha receio.


P/1 – Mas você chegou a participar de grêmio estudantil, alguma coisa assim?


R – Eu não era da Chapa. Não era da Chapa, mas eu estava presente, assim...


P/1 – Acompanhava?


R – Acompanhava.


P/1 – Então tá. E aí, a faculdade em si, correspondeu ao que você esperava? Como é que foi, você gostou, era aquilo que você imaginava mesmo do que...


R – Bom, no final, eu tive algumas decepções, não era exatamente o que eu imaginava. Eu acho que eu só vim a gostar muito, assim, de Geologia, foi a carreira que eu escolhi, tempos depois lá no trabalho, aconteceu isso. Mas durante a época de faculdade, em si, a minha identificação foi parcial mesmo, não detestei, não aconteceu isso. Mas eu não adorei. Como, por exemplo, hoje eu gosto muito, e depois de um certo tempo eu passei a gostar bastante, mas aconteceu depois, no trabalho, e não foi logo no início do trabalho, não. Foi com o tempo, no trabalho, esse... Digamos assim, esse lado de eu gostar de Geologia foi crescendo.


P/1 – À medida... Aí você entrou em qual universidade, que a gente também não gravou?


R – Foi na Federal da Bahia.


P/1 – E já era um curso antigo, esse Geologia da Universidade Federal da Bahia, que tem poucos, tinham poucos, não sei se...


R – É, eu não me recordo em que ano que ele foi iniciado. Já tinha algumas turmas já formadas nesse curso, mas não é um curso muito antigo não.


P/1 – Que tinha o de Minas...


R – Eu não sei se tinha algo em torno de dez anos... por aí, ou um pouco mais, talvez, mas, não saberia dizer. Mas ele não é muito antigo.


P/1 – Tinha o de Minas e lá do Rio Grande do Sul, né? Também, que era o mais...


R – Tinha o de Minas, em Ouro Preto.


P/1 – Ouro Preto.


R – Era talvez um dos mais antigos...


P/1 – Acho que era o mais antigo, né?


R – É, não sei se (Avocet?), começou o (Avocet?), e posteriormente teve Geologia em Ouro Preto também, mas, esse de Engenharia de Minas era um misto entre Geologia e Engenharia.


P/1 – E aí você fez estágio durante a faculdade?


R – É, isso foi uma coisa boa também, que eu consegui um estágio na própria Petrobras. Aí eu passei 30 dias tendo uma visão geral. Fiquei 15 dias com a Geofísica e 15 dias com a Geologia, chamavam de Acompanhamento de Poço. Ficava no poço, acompanhando a perfuração. E na Geofísica, eu fiquei em Equipe Sísmica, tinha uma equipe sísmica chamada Equipe 26, E-26 lá na Bahia, uma equipe muito antiga e tal, lá em São Sebastião do Passé, então deu pra ter uma noção muito boa do que era essa atividade de Geofísica e atividade de Geologia também, de aquisição de dados. Parte da aquisição de dados sísmicos, e aqui a Perfuração de Poços.


P/1 – E desse contato com a Petrobras, pro seu estágio, também, te deu uma ideia também de que trabalho, por que área da Geologia você seguiu? Ou você tinha vontade de ficar mais em alguma outra área, parte de...


R – É, desde esse trabalho, ele... Esse estágio, ele me ajudou, porque, quando a gente faz um concurso para a Petrobras e tal, a gente tem que optar entre a área, eu como geólogo, entre ser Geofísico dentro da Petrobras, ou Geólogo. Então, eu gostei das duas, mas eu preferi optar pela Geologia, e acho que esse estágio me ajudou. Então eu gostei da atividade, e foi aí quando eu tomei a decisão. Ah, uma outra coisa que esse estágio me ajudou, ele me ajudou a, digamos assim, gostar mais da Petrobras, porque existia naquela época algum preconceito sobre a atividade de Geólogo dentro da Petrobras, que algumas pessoas falavam: “Ah, você vai para a Petrobras, você não faz mais Geologia, e tal.” Eu vi que não era verdade. E tinha uma certa preferência pelas atividades mineradoras e mineração em geral, dentro da faculdade. Praticamente, um ano, a turma anterior à minha que se formou, todo mundo conseguia emprego com muita facilidade, naquela mineração. E nós do meu ano, que vários colegas procuraram tentar fazer concursos e tal, para a Petrobras, eu acho que pra mim foi uma decisão muito certa, foi muito bom ter feito isso, e eu acredito que esse estágio me ajudou.


P/1 – E aí quando você se formou, você foi trabalhar, foi fazer o concurso, ou você trabalhou em algum outro lugar?


R – Não, eu, praticamente, me formei no final do ano, em 1977, e em 26 de janeiro do ano seguinte eu já comecei a trabalhar.


P/1 – Na Petrobras.


R – Na Petrobras.


P/1 – Então em 1970 e...?


R – Oito.


P/1 – Oito. E, então, era o seu primeiro emprego.


R – Foi o meu primeiro emprego e até hoje.


P/1 – Até o estágio já foi na Petrobras.


R – É, também, eu fiz o estágio, e desde 1978 eu estou na Petrobras.


P/1 – Cristiano, e aí você trabalhou aonde, logo no seu primeiro ano? O que você se lembra desse primeiro ano? Você foi pra um... ficou na Bahia mesmo? Foi para algum outro lugar?


R – Não, a Petrobras, ela tinha uma política de circular com as pessoas, então ela não deixava, acredito que era para não deixar a pessoa criar raízes demais num lugar. Por exemplo, ia ser muito difícil a Petrobras me transferir para outro lugar depois, se eu tivesse ficado em Salvador. Eu gostava muito de Salvador, eu tinha raízes, eu tinha família próxima a Salvador, então, eles tinham uma política de mandar a gente pra... Eles perguntavam para onde a gente queria ir, eu falei: “Salvador.” Aí eles me mandaram para outro lugar, e eu fui para Aracaju. Então eu fiquei em Aracaju, comecei a trabalhar em Aracaju, com a atividade de exploração de Petróleo na... Aí eu desenvolvi várias atividades lá. A gente começa no poço, começa trabalhando nas sondas, durante a perfuração dos poços. Quando para a perfuração, joga pro mar e volta. Então a gente fica meio que aprendendo a acompanhar a perfuração do poço. Nessa atividade, o geólogo descreve as amostras de rochas que vão sendo retiradas, descreve o tipo de rocha e verifica se tem algum petróleo ou não naquela rocha...


P/1 – Que são os testemunhos?


R – Não, os testemunhos são outro tipo de amostra, mais especial. É um tipo de amostra de calha, que é uma amostra triturada pela broca. Ela vai subindo e a gente vai descrevendo. Tem a parte do gás, também, que a gente tem algum indício de gás, tem um aparelhinho chamado Medidor de Gás, que a gente fica monitorando. Então basicamente a gente está ali acompanhando a broca, perfurando, e a gente está olhando o que está acontecendo no poço. Muitas vezes, naquela época a gente não tinha fax, que a gente... muitas vezes, quando tinha atividade em Alagoas, por exemplo, tinha, no final da perfuração de poço, uma operação chamada Perfilagem, que desce alguns registros eletrônicos e registra a parede do poço dele, sai correndo, registrando o poço. E a gente fica com várias curvas, que nós falamos, de perfis do poço, e a partir dessas curvas a gente calcula se tem petróleo, se não tem, que tipo de rocha, quer dizer, essas curvas dão uma ideia pra gente de quanto de petróleo tem ali, e a gente, às vezes, tinha que... Acabava uma operação dessas de madrugada, quatro da manhã, e a gente tinha que pegar o carro de Alagoas, e não tinha fax, e a gente tinha que levar esse perfil para a sede. Então era perigoso. Eu acho que isso, naquela época, essa atividade de Segurança, Meio Ambiente, SMS [Segurança, Meio Ambiente e Saúde], era mais frouxa. Então, às vezes a gente ia dirigindo, não tinha motorista para fazer isso, quatro da manhã, a gente passou o dia e a noite trabalhando, e tinha que transportar esse negócio pra sede, lá em Aracaju. E às vezes dava sono, a gente, era um pouco... Teve algumas vezes que eu tive que dar uma paradinha na estrada, uns 20 minutos pra dormir, porque eu não estava aguentando.  Era perigoso.


P/1 – Essas estradas não deviam ser tão boas também não.


R – Oi?


P/1 – As estradas também não deviam ajudar muito de onde vocês estavam...


R – Não, não eram muito boas, porque eram estradas...


P/1 – Vocês estavam vindo do interior e faziam onde? Era...


R – Tinha uma base, lá em São Miguel dos Campos, em... próximo a Maceió e a sede da Petrobras, tanto referente a Sergipe e a Alagoas, ficava em Aracaju. Então, davam umas duas horas de carro. Então, nesse período, era uma atividade de acompanhamento de poço que a gente tinha que trabalhar 24 horas. Não era em regime de turno, como se diz, você fica oito horas, o outro oito, não. Muitas vezes a gente ficava sozinho, a cada 24 horas, que era chamado de Sobreaviso, regime de Sobreaviso, então se o poço parasse para trocar uma broca ao meio dia, eu tinha que dormir aquela hora, e se voltasse a trabalhar à meia noite, a gente ficava num “trailerzinho”, a nossa casa era o trailer, aí a gente tinha que trabalhar conforme a operação do poço. E no final do poço, nessa operação de Perfilagem, nós tínhamos que... Eu me lembro que a gente não tinha computador, tinha às vezes uma calculadora, assim, a gente tinha que fazer as contas à mão, para calcular o que a gente chama a saturação de óleo, o quanto tem de óleo em cada profundidade. E a gente fazia isso, escolhia algumas profundidades, fazia uma conta lá, depois de fazer essa conta a gente pegava o carro e ia pra sede. Era um pouco cansativo.


P/1 – Era um trabalho bem duro, né?


R – É.


P/1 – Você ficou nessa parte de Acompanhamento de Poço, por quanto tempo?


R – Eu fiquei acredito que uns quatro anos. Eu também saí um período e fui para uma área, que chamava de Interpretação de Dados Sísmicos, me testaram, aí depois eu voltei para acompanhar poço.


P/1 – Mas lá em Aracaju?


R – Em Aracaju.


P/1 – E me conta o que foi também, nesses quatro anos, um momento marcante, para você, do trabalho, assim, teve algum poço especial, alguma história, sei lá?


R – Bom, eu me recordo que teve um episódio, que as condições... Eu estava numa plataforma, no mar, plataforma de perfuração, uma sonda de perfuração, e tinha uma programação de testemunhar – testemunhar era cortar testemunho –, cortar testemunho de uma rocha contínua, que você faz em determinadas condições especiais, você para o poço e tira uma amostra, e tinha essa programação de cortar testemunho lá de uma determinada formação chamada Calumbi, lá em Sergipe. E essa formação, ela tem por característica uns corpos que nós chamamos de areias turbidísticas, delgados, e muita vezes você começa e já acabou a areia. E essas areias têm petróleo, e tem horas que muitas vezes tem alta pressão. Então, tinha um aparelho que mede a taxa de perfuração do poço, e a gente sabia que, quando entrava nessas areias, o poço perfurava muito rápido, e a taxa aumentava muito, aí depois que saía da areia a taxa caía. E esse aparelho estava quebrado, então a gente pedia lá pro rapaz chamado Sondador, que fica lá na sonda: “Olha, você marca com um giz, aí, a cada metro, e você mede o tempo, você vai medindo o tempo.” Aí, o rapaz chegou pra mim e disse: “Olha, doutor, desceu três metros aqui que eu nem vi a hora.” Eu falei: “Ih, para aí, para aí.” Aí eu pedi para ele parar, disse: “Vamos cortar o testemunho.” Nessa operação, era de fato uma areia muito delgada, que passou os três metros, acabou a areia, mas aí quando a pessoa estava retirando da coluna de perfuração, deu broalte. Broalte é...


P/1 –Explica para mim.


R – Broalte é uma... O petróleo lá muitas vezes está sob muita pressão, nós dizemos que pode ser normal, que é uma pressão alta, porém de acordo com o esperado. E ele pode estar com uma pressão anormalmente alta, que é uma pressão muito maior do que nós esperamos para aquela profundidade. Então foi isso que aconteceu. Começou a produzir petróleo e gás, e produziu durante três dias, sem controle nenhum, ou seja, ninguém conseguia fechar o poço, e durante três dias nós ficamos sem socorro, porque o rebocador não podia encostar na plataforma, as pessoas tinham receio de faísca, de alguma coisa bater na plataforma e estar saindo faísca. Então, não podia evacuar, e naquela época eu me lembro que quem mais sofreu foram os fumantes – inclusive eu fumava naquela época –, porque a gente não podia acender cigarro. Nenhum fogo durante três dias. Até que os químicos, chamados de fluído, lá, conseguiram matar o poço, digamos assim, que impediu o broalte. Então foi um susto.


P/1 – Um sustão.


R – É.


P/1 – E sem fumar dá mais nervoso ainda.


R – Mais nervoso ainda, sem ter o que fazer, parado, sem poder acender nenhum fogo lá dentro.


(fim do cd 01)


P/1 – Então essa história você falou que aconteceu num poço offshore.


R – Em Sergipe.


P/1 – Em Sergipe.


R – É.


P/1 – Vocês ficaram ilhados lá na sonda.


R – É, sem podermos sair, e por uma questão de segurança também a embarcação não podia encostar na plataforma, lá.


P/1 – Ah, ainda tinha essa, de não poder encostar até para não...


R – É, por questões de segurança, é o que foi explicado para nós na época.


P/1 – Você sentiu medo?


R – Senti, muito medo e depois muito tédio, né, porque... Depois o medo foi passando, no segundo dia, no terceiro... E a gente não tinha nada pra fazer lá, porque o poço estava parado, e na minha atividade não acontecia nada, então, só esperando o químico trabalhar.


P/1 – Cristiano, logo nesse início, também lá, as sondas eram bastante diferentes. Conta pra gente um pouco do que mudou dessas sondas, também. Não sei se você tem...


R – É, eu acho que as sondas hoje, bom, mudou muita coisa no seguinte aspecto: a gente tinha, naquela época, um certo limite de perfuração de três mil metros. Era meio que um tabu, muita gente achava que abaixo de três mil metros você não teria petróleo e tal. Aí teve um trabalho de um... acho que são dois americanos, Schmidt e McDonald's, que eles deram, digamos, quebraram esse paradigma, e eles geraram um conceito de que você tinha muita porosidade secundária em grande profundidade. Porosidade secundária seria a porosidade gerada na rocha, que a rocha que contém o petróleo, por dissolução de gás carbônico, você tem CO2 nos fluidos em grande profundidade. Então, esse conceito teve um impacto muito grande na indústria do petróleo, muitas empresas passaram a procurar petróleo mais profundo, por exemplo, o Pré-Sal hoje está a mais de cinco mil metros. Mas esse negócio, naquela época, normalmente eles paravam o poço a três mil metros. Agora, isso teve uma consequência, também, esse conceito deu uma guinada na exploração do petróleo. Muitas áreas passaram a ser revisitadas, áreas que...


P/1 – Você sabe datar, mais ou menos de quando foi...


R – Eu acho que esse trabalho foi publicado na Associação Americana de Geologia de Petróleo em 1978, se não me engano, e ele passou a ter um impacto nos anos seguintes. Esse trabalho teve um impacto grande, por essa questão da profundidade, os poços passaram a ser aprofundados em busca de (__) mais profunda. Ele teve um impacto. Outra questão que teve um impacto muito grande, eu diria, na exploração do petróleo... Bom, teve dois conceitos, em Geologia, que são extremamente importantes: um foi a questão da tectônica de placas, que quando eu fiz Geologia Estrutural na faculdade não era ensinado dessa forma, ou seja, foi mais ou menos quando eu me formei que ela se popularizou, e pela tectônica de placas, as placas da crosta terrestre se movimentavam, ou seja, aquele conceito de que o Brasil e a África já foram juntos, tudo, e hoje já é mais ou menos... Até as crianças já aprendem esse conceito, naquela época ainda não estava muito sólido. E teve um outro conceito importante para a Petrobras que eram os turbiditos. Turbidito era um tipo de depósito submarino, um depósito de areia em que você ia carregando a areia para o fundo oceânico, e depois essa areia era soterrada por lama, e tal, mas a areia viraria depois um reservatório de petróleo. Bom, esses conceitos tiveram um impacto muito grande na indústria: primeiro, a questão da porosidade secundária fez a indústria procurar poços mais profundos, e qual a consequência disso? Passou a precisar de sondas com maior capacidade. A sonda com capacidade para três mil metros não conseguia perfurar quatro ou cinco mil metros, então passou a se exigir sondas com a capacidade muito maior, mais resistente. Alguns processos de automação das sondas, as sondas eram muito manuais, iguais a hoje, que tem tudo automática. O aparecimento do computador também impactou, e o conceito do turbidito levou a Petrobras junto com ele a perfurar o mar. Então a gente tinha potencial grande de ter reservatórios de turbiditos na nossa plataforma continental, e a Petrobras soube aproveitar destes conceitos. Então, também, logicamente que passou a requerer equipamentos mais adequados para a perfuração no mar.


P/1 – A Petrobras [tosse], já existia esse conceito do turbidito, e a Petrobras começou a aprofundar os estudos e a investir...


R – Esse conceito na Petrobras existia, mas ele estava no começo, eu me lembro que, por exemplo, tem em... Muito próximo a Salvador tem alguns pavilhões de rochas, exposições, que nós éramos levados para ver esses pavilhões de rochas que nós chamamos de afloramentos, exposição de rochas, na Bahia de Todos os Santos, tanto em Itaparica do lado de lá, quanto do lado de Salvador, chamado Ponto da Sapoca, perto da Furada, são vários paredões, e os professores chegavam para nós e diziam: “Olha, essa daqui é sedimento calcário e tal.” Aí algum tempo depois, lá dentro da Petrobras, outros professores da Petrobras nos levavam: “Olha, isso daqui são turbiditos e tal.” Então... 


P/1 – Tinham (___)?


R – (___) era o mesmo, mas o conceito mudou. Então, é mais ou menos naquela época.


P/1 – Eu lembro que eu entrevistei um geólogo, já aposentado, Della Fávera, que foi fazer o mestrado dele na Itália, de uns turbiditos, acho que é isso, eu não estou lembrando a data, mas acho que já era 60, fim de 60 e tudo, foi por aí que a Petrobras começou também a...


R – Ó, esse conceito de turbiditos, por exemplo, quando eu fui visitar o Ponto da Sapoca e fui apresentado pelo professor da universidade da Bahia, como sedimentos deltaicos, isso foi em 1976, mais ou menos, e eu voltei lá, eu e a Petrobras estávamos dando curso na Petrobras a esses mesmos locais com conceito diferente já em 1981, então foi nesse período...


P/1 – Foi nesse período...


R – Começou a ter uma, digamos assim, a popularizar mais esses conceitos.


P/1 – Então tá. E isso foi importante para a Bacia de Campos, do desenvolvimento desse...


R – Foi. A Bacia de Campos, ela... essa história do turbidito, foi uma mudança de paradigmas muito grande, porque antes se perfurava procurando os autos estruturais na seção (__) e aí ele vai por baixo, e aí no turbidito teria que estar no (__) baixo. E aí foi uma mudança muito grande, eu acho que a Petrobras desenvolveu uma expertise no ambiente de exploração geológica e geofísica muito grande, de saber aonde procurar os turbiditos. Ela desenvolveu uma, assim, digamos, uma tecnologia, isso é uma tecnologia, não é nenhum parafuso, um aparelho, mas é uma tecnologia fortíssima. Pode levar a companhia de petróleo a ter sucesso ou insucesso, todo o restante da cadeia da companhia, em função dessa ideia que os geólogos da Petrobras passaram a dominar.


P/1 – Mas eles aprimoraram esse conceito, ou ficaram só nessa parte também mais de... tem um lado também de, ao mesmo tempo que você está trabalhando e conhecendo, desenvolvendo um conhecimento até prático.


R – Aprimoraram. Eles foram cada vez mais testando essa ideia, comprovando, entendendo e desenvolvendo a parte conceitual, o que controlava você ter sucesso ou não na acumulação de turbidito. Cada vez mais que você vai adquirindo dados, eu considero aquilo com maior gosto, e você vai: “Não, esse aqui funciona, esse aqui não funciona.”


P/1 – Então não é errado dizer que a Petrobras aprimorou o conceito também.


P – Também. A Petrobras é reconhecida mundialmente como uma empresa de águas profundas, isso é... Mas isso aí é uma parte, digamos, mais de engenharia de você ter plataforma de produção e procedimentos, e tal... Mas ela é também reconhecida mundialmente como uma empresa com expertise em turbiditos.


P/1 – Aham...


R – Mundialmente as pessoas respeitam a Petrobras por esses conceitos, não só por ela desenvolver, ela ajudou a desenvolver porque não foi aqui no Brasil, nem na Petrobras que se criou a palavra turbidito. Mas ela adotou esse conceito, testou e muitas vezes comprovou a eficácia dele.


P/1 – Tá certo. Vamos voltar para a sua trajetória. Você ficou, então, lá... já se chamavam de Seal? Tinha essa abreviatura de Sergipe Alagoas, ou isso é mais recente?


R – Não, isso é mais recente. Eu acho que naquela época chamava Distrito de Exploração do Nordeste.


P/1 – Mas abrangia as duas áreas: Sergipe e Alagoas.


R – E Alagoas.


P/1 – E você ficou lá quatro anos, fazendo esse trabalho de acompanhamento de poço, e você falou que trabalhou numa parte de interpretação também lá.


R – É, nessa... Até nessa época que teve esse trabalho de colher os Dados Secundários, que eu comentei do Schmidt e do McDonalds, então foi requisitado para ver como é que era a evolução da porosidade na Bacia de Sergipe e Alagoas, então trabalhei praticamente em todas as áreas na Bacia, medindo a porosidade das areias em função da profundidade, e colocando isso em gráfico. Para (__) ligamos a atividade, para quando eles fossem perfurar novos poços já ter uma previsão de qual seria a porosidade, antes da perfuração conforme esses gráficos. Fiquei mais ou menos um ano nessa atividade.


P/1 – Você pode explicar para um leigo, como é que você consegue...


R – Medir a porosidade?


P/1 – Medir a porosidade? É o que, por sísmica ou como é que é? Ou por testemunho?


R – Esse trabalho foi feito usando os perfis dos poços. Os perfis dos poços, nos testemunhos também, e nos perfis. Mas testemunhos normalmente são poucos. Para fazer um gráfico, assim, no poço inteiro, tem que usar os perfis. Não é muito complicado isso aí. É, você tem os registros dos perfis que dão uma indicação da porosidade da rocha, a gente faz uma continha lá, e transforma.


P/1 – Tá certo, e aí então de lá você foi trabalhar onde, Cristiano? Lá do...


R – Bom, em 1981 eu voltei para Salvador, o geólogo tinha esse fluxo, trabalhava um período em atividade de campo e voltava para a reciclagem, para treinamento de um ano, isso era na Bahia. Aí eu fiquei lá em 1981 e retornei em seguida para Aracaju.


P/1 – O curso era de um ano?


R – Era um ano, quase um ano. Era um curso de reciclagem, aperfeiçoamento, que eles chamavam, e nesse curso...


P/1 – Ainda é assim hoje? Primeiro a prática, e depois volta para o curso teórico, nessa área de Geologia?


R – Não, hoje, o que aconteceu é o seguinte, em função do fato da Petrobras ter ficado dez anos sem poder contratar ninguém, não tinha gente nova na Petrobras. Aí de repente, agora, há pouco tempo, ela começou a contratar gente nova pela necessidade. Bom, além disso, no Governo anterior teve um fato que impacta muito isso aí, passaram a incentivar todo mundo a ir embora da Petrobras. Chamava Incentivo... Demissão Voluntária, uma coisa assim, tipo um incentivo. Então, os técnicos, uma pessoa de 40 e poucos, 50 anos de idade, o cara está querendo que o cara se aposente, e ainda oferecia grana para o cara ir embora. Aí começou a diminuir muito drasticamente o quadro de funcionários especializados, professor, doutorados, especialista no negócio, então dava uma grana para o cara ir embora, o cara com 50 e poucos anos de idade. Então muitos colegas meus, com... Eu tenho colegas que até são próximos à minha idade e se aposentaram. Alguns estão em universidade, outros estão fazendo alguma coisa por aí, mas são pessoas jovens, então, por um determinado período que eu não me recordo bem quando começou exatamente o ano, mas que foi revertido com o Governo Lula, mudou isso. Aí o Governo Lula começou a contratar, foi os dois Governos de Fernando Henrique, onde aconteceu isso. Então no Governo Lula começou a contratar, então estava numa carência muito grande de pessoas e não tinha a faixa etária mediana, só tinha os muito jovens ou os mais velhos. Então, as pessoas estavam necessitando de gente para trabalhar, então não podia fazer aquele esquema, os jovens iam passar por um treinamento pelo campo, um aperfeiçoamento, depois vir para o escritório. Então esse pessoal já passou a receber esse treinamento mais forte, já na entrada, trazendo direto para o escritório. Ficou meio sem essa fase de campo e sem a fase de aperfeiçoamento, e hoje o aperfeiçoamento é feito de forma mais diluída, à medida que vai precisando do trabalho.


P/1 – Tá certo. Cristiano, você voltou lá pra Aracaju, pra Sergipe, e você continuou a fazer o trabalho de campo, ou ficou também no trabalho de Acompanhamento de Poço, ou Interpretação?


R – Bom, quando eu resolvi ir para Aracaju, fui transferido para uma área que hoje é chamada de Reservatório, que naquela época chamava de Geologia de Desenvolvimento. Essa atividade, para diferenciar o que é Geologia de Desenvolvimento do que é Exploração... Na Exploração você vai chegar para uma área de forma pioneira, você vai procurar petróleo em uma área nova. E na Geologia de Desenvolvimento, é diferente, pois o pessoal da Exploração já descobriu, e você vai desenvolver um campo de petróleo, ou seja, junto com os engenheiros, você vai mapear aquela acumulação a um nível de detalhes maior, e desenvolver um plano de exportação, e já é exploração anterior à exportação do desenvolvimento, depois... produzir petróleo. Você vai produzir petróleo. Já está numa atividade que fica mais ligada à Produção. Então eu fiquei nessa atividade, e me lembro, até a título de curiosidade, que o primeiro cargo, quando eu cheguei lá, me entregaram o campo de petróleo para tomar conta, e era o campo do Pré-Sal. Lá também tinha o Pré-Sal, em Sergipe. Só que o Pré-Sal de lá não é muito famoso, mesmo porque as acumulações são muito menores que a Bacia de Santos.


P/1 – Espera aí, Cristiano, vamos por partes. Já se falava até com essa terminologia Pré-Sal mesmo, ou já era um conceito, é um conceito...


R – A terminologia já existia, mas não era famosa.


P/1 – Mas era um conceito da Geologia...


R – (____) tudo o que era anterior, são as rochas, que foram depositadas antes do sal, estão embaixo do sal.


P/1 – Isso é um conceito da Geologia mesmo...


R – Geologia, isso é um conceito de Geologia...


P/1 – É errado falar camada, que eu já ouvi um geólogo falar...


R – São camadas...


P/1 – Então, isso já era conhecido da Geologia, que... E essa lá de Aracaju você tinha visto, mas, conta pra gente, então, essa parte aí também.


R – Bom, normalmente a gente usa essa palavra onde você tem sal. Então o Pré-Sal é o que está antes do sal ou embaixo do sal. Existe também um conceito chamado Sub-Sal que é um pouco diferente do Pré-Sal. O Sub-Sal é o seguinte: em algumas bacias sedimentares o sal se movimenta, ele é quase um fluido. Então ele pode subir, pode chegar até o fundo do mar, ou até a superfície da terra. E nessa subida, em alguns locais ele passa a se movimentar horizontalmente, ele pode subir, formar tipo um cone, nós chamamos de (___) de Sal, e formamos um movimento horizontal. Então nesse movimento horizontal, ele rompe com as rochas antes de chegar à superfície, o que estaria embaixo dessa porção que se movimentou, seria o Sub-Sal, mas não é Pré-Sal, porque para ser Pré-Sal, tem que ser mais antigo do que o sal. Nesse caso, o sal se movimentou e rompeu, e passou a se movimentar horizontalmente, mas o sal do ponto de vista de decomposição é mais antigo do que a rocha que está lá. No Pré-Sal não, o sal é mais novo, a rocha que está embaixo que é mais antiga do que o sal. Então, lá existia esse conceito de Pré-Sal, mas não era muito popular, porque as acumulações lá eram menores, não tinham, não tão pequenas. Mas por exemplo, o Campo de Carmópolis, que era o maior campo terrestre no Brasil, era uma acumulação Pré-Sal.


P/1 – Já era, mas era mais, era mais próximo, mais fino.


R – Uma outra coisa que eu acredito, bom, o que popularizou o Pré-Sal, esse conceito recentemente de 2007 aqui no Brasil, tanto na imprensa quanto na mídia e tal, bom, houve um certo espanto com algumas coisas. Por vários motivos, por exemplo, o Pré-Sal é um cenário muito desafiador. A Petrobras atravessou dois mil metros de camada de sal, era uma coisa que algumas pessoas achavam que não era nem possível de fazer isso. O sal tem uma certa fluidez, ele pode se fechar durante a perfuração do poço, ele vai colapsar, pode até prender a coluna de perfuração. Pode ser muito difícil furar um poço no sal; pode ser, pode não ser, depende da (__). Mas muitas pessoas achavam impossível perfurar um Pré-Sal na Bacia de Santos. Então houve, digamos, esse espanto, dentro da companhia, e tal, mas acho que isso passou pra fora. Outra coisa é que nas lâminas d’água profundas, de 2.200 metros, você tem poços profundos a, digamos, cinco, seis, próximo a sete mil metros, a profundidade final do poço, e você tem distância da costa de 300 quilômetros, principalmente volumes muito grandes. Por exemplo, o campo de Tupi tem um volume de petróleo... Anterior à Tupi as maiores acumulações do Brasil eram as do Roncador, Marlim, que são acumulações da ordem de 7 milhões de barris, aproximados. Então, na Tupi nós não sabemos muito bem ainda, mas estimamos que pode ter bem mais que 20 bilhões, ou seja, de óleo, nós chamamos de In Place, para diferenciar. A Petrobras anunciou cinco a oito bilhões de barris de óleo recuperáveis.


P/1 – Pra Tupi.


R – Pra Tupi. Anunciou na imprensa, explorou, a Petrobras teve o cuidado de dizer: “Olha, nós estamos com dois poços”, na época do anúncio, “Nós vamos perfurar os dois poços, mas o nível de incerteza hoje é muito grande.” Mas isso foi talvez o fator que tenha popularizado mais o Pré-Sal, a questão desses volumes. Então hoje a gente tem uma perspectiva de ter descobertas muito grandes, quando as grandes descobertas no Brasil estão mais raras; a última tinha sido o Roncador, a grande descoberta. Depois de Roncador, nenhum gigante de campos, que nós chamamos de gigante desse porte de Roncador, foi descoberto. Então, o último foi Tupi, em 2007. Eu acho que isso foi motivo da... Eu acho também que mundialmente, há muitos anos não tem uma grande descoberta desse porte. Então, obteve até repercussão nacional isso. A escassez de petróleo mundial, que algumas pessoas acreditam que a gente está muito próximo de entrar num pico, ou já entrou, ou já está numa descendente, em termos de reserva de petróleo. Então tudo isso acredito que popularizou o Pré-Sal.


P/1 – Então vamos lá. Você está me explicando também, toda essa popularização no Pré-Sal, pra dizer que isso já era, enfim, um conceito bastante conhecido e até trabalhado na Petrobras, é isso? Você pode falar então um pouco desse trabalho anterior ao que já se conhecia, um pouco?


R – É, mas como eu já te falei, o Pré-Sal de Sergipe era muito diferente em alguns aspectos, por exemplo, a Petrobras tinha mina de sal em Sergipe, e produzia petróleo no Pré-Sal. Essa mina de sal, chamada de Taquari-Vassouras, produzia potássio, lá em Sergipe, e ia mais a fundo, e tinha acumulado Pré-Sal, que era onde tinham os campos de petróleo.


P/1 – Como é que é o nome da mina, você pode repetir, por favor?


R – Taquari-Vassouras, Vassouras, que hoje ela está sob concessão da Vale do Rio Doce. Hoje, a Petrobras, tinha uma empresa chamada Petromisa, nessa época, e essa era uma empresa da Petrobras. Essa empresa foi passada, está com a Vale já há vários anos, e a gente trabalhava, então, com o sal e com o Pré-Sal. Produzíamos petróleo do Pré-Sal, tinha vários campos de petróleo lá no Pré-Sal. Mas por que não era tão popular? Bom, era raso, eram terrestres, eram cenários muito mais fáceis.


P/1 – E os reservatórios não eram tão grandes?


R – Não eram tão grandes assim, já não tinham tanta popularidade. Os reservatórios também eram diferentes. O reservatório do Pré-Sal de lá, são rochas que nós chamamos de conglomerados, os daqui são carbonatos. Eles não são iguais aos daqui de Santos, da Bacia de Santos. Acredito que eles não tiveram tanto impacto assim na economia do país, a ponto de virarem notícia, que o Pré-Sal de Santos está tendo agora.


P/1 – Cristiano, aí você está estudando então essa camada, você começou a acompanhar desde essa época, esses estudos sobre o Pré-Sal, e vendo as diferenças, as diferenças do...


R – Desde a época, então, eu tenho um envolvimento com o Pré-Sal, mas eu não usava muito esse nome Pré-Sal, era muito raro usar.


P/1 – Qual era o nome que vocês usavam?


R – Não, eram os conglomerados Carmópolis, a gente chamava assim. Eventualmente a gente usava muito pouco esse nome, camadas de Pré-Sal.


P/1 – Mas você ficou estudando isso, ou acompanhando, como é que era?


R – É, eu trabalhei com isso, há uns quatro anos, eu fui para Outro Preto para fazer uma pós-graduação e mestrado com esse Pré-Sal, também, que era o Carmópolis, o conglomerado Carmópolis.


P/1 – Como é que foi, qual é o nome da sua tese de mestrado?


R – Ah, a minha tese tem o nome comprido: “Sedimentação de Agendas e Alguns Aspectos Relacionados com Potencial de Danos nos Conglomerados Carmópolis.”


P/1 – E enfim, isso, então, foi estudado e até motivo do seu mestrado, né?


R – É, eu tentei fazer o mestrado, usando um material, naquela época também era mais fácil a gente conseguir dados da Petrobras para mestrado, porque ainda tinha o monopólio, então, não tinha muita dificuldade. A gente usava o material do próprio trabalho e publicava, sem grandes problemas. Então eu usei o mesmo material que eu trabalhava, e tem muita coisa complicada, mas eu conhecia as rochas lá, são diferentes das rochas do Pré-Sal de Santos, porque lá são conglomerados, e em Santos são carbonatos.


P/1 – Mas de qualquer forma isso já é um conhecimento, tem uma... tem algo que você aproveita desse seu estudo pra agora? Como é que é que a gente pode pensar isso?


R – Tem alguma coisa, por exemplo...


P/1 – Pra você mesmo, o que esse teu trabalho de mestrado te ajudou a você entender agora também? Não precisa entrar em detalhes, enfim, lá de...


R – Eu não diria que me ajudou muito, porque as rochas são bem diferentes. Mas o que me ajuda é a metodologia de trabalho. A metodologia serve para qualquer coisa que você venha a trabalhar. A rocha, em si, era diferente, não tem tanto impacto no que eu estou fazendo hoje.


P/1 – Não?


R – Não, eu diria que não, é muito diferente.


P/1 – Mas tem esse lado da metodologia e até de já ter entendido um pouco desse movimento do sal, ou isso, enfim, lá também tinha, para perfurar, você sabe, o que você acabou de falar, né, sal, enfim, que pode até prender a coluna da...


R – Então, isso ajudou um pouco porque eu conheci um pouco dessa... Porque quando a gente fala de sal, a gente pensa no sal como uma coisa homogênea, mas o sal, na verdade, são vários tipos de sais. E tem o que nós chamamos de sal de cozinha, que é o cloreto de sódio; halita, que ele não é o sal mais problemático. Tem os sais de potássio, ou o sal chamado de taquidrita, que são extremamente... tem uma fluidez de cem a 200 vezes maior que o cloreto de sódio, que é a halita. Então esses são os complicados para a perfuração. Desde o início eu sempre alertei as pessoas a trabalharem com isso, falei: “Olha, vocês têm que olhar para a taquidrita, têm que olhar para a carnalita, que ela é o que causa problema para o poço.” Então essa visão que eu tinha no sal, acredito que eu tento passar para as pessoas.


P/1 – Tá, e essas carnelitas...


R – Carnalitas.


P/1 – Carnalitas e as taqui...?


R – Taquidritas.


P/1 – Taquidrita, isso, você pode ter momentos distintos, ou pode...


R – É, são camadas, o sal é constituído por camadas de diferentes composições, e assim como você tinha lá, você tem aqui em Santos também. E ao atravessar uma camada desse tipo de problemática e tal, é onde você tem o potencial de ter mais problema. Então é importante reconhecer essa coisa, que ela é a fonte do problema e não o sal como um todo, né. O sal pode passar trechos enormes sem ter problema.


P/1 – Cristiano, e quando você vem pro Cenpes [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello]?


R – Ao concluir lá em Ouro Preto, em 1987, eu fiquei dois anos e meio e vim para o Cenpes, logo em seguida. Uma coisa, aqui no Cenpes, eu tanto trabalhei na atividade, como eu expliquei, no Reservatório de Produção, como com a Exploração. Antes de eu estar no Pré-Sal, eu estava na Exploração.


P/1 – Aí a gente pode dizer, tanto a exploração quanto a explotação.


R – Pode. Durante muito tempo esse nome de exportação foi dado até na Gerência de funcionários da Petrobras, por exemplo, existia uma Gerência de Geologia de Explotação, que era focada mais no aspecto de produção, e a Exploração, que era uma atividade maior, é uma atividade que sempre existiu. 


P/1 – E os trabalhos, o que você destacaria desse seu trabalho lá, também, de... Foi relacionado mesmo à essas pesquisas, nessa área que você já tinha desenvolvido o seu mestrado, como é que foi?


R – Bom, eu trabalhei na Exportação, Reservatórios, trabalhei muito mais com turbiditos.


P/1 – Mais com turbiditos.


R – Turbiditos, que geralmente eles são Pós-Sal, estão acima do sal.


P/1 – Isso porque era uma demanda também do que estava acontecendo na Bacia de Campos.


R – É, acontecendo na Bacia de Campos. É o que estava acontecendo no momento. Mas a partir do momento que eu voltei para a Exploração, na Exploração a gente trabalhava com tudo, é o que aparece no momento, é o que tem de novo e tal. Eu comecei a trabalhar com o Pré-Sal, em Santos, de fato, em 2007, mais ou menos; eu passei a coordenar um projeto para entender as rochas do Pré-Sal de Santos, do ponto de vista de correlacionar as características delas, com os perfis, chamados perfis dos poços.


P/1 – Esse projeto era um projeto seu, ou estava ligado a algum programa?


R – Esse projeto de Geologia não tinha programa.


P/1 – Não tinha programa, era um projeto individual.


R – Era um projeto de Geologia só, não tinha o aspecto do sal, nada disso, e o objetivo era entender a rocha do reservatório do Pré-Sal, só. Não tinha nenhuma conotação da parte de poço, nem o reservatório como um todo.


P/1 – Porque essa rocha ainda era muito desconhecida, assim, era isso?


R – Muito desconhecida. Ela não é uma rocha... ela é uma rocha antiga, do ponto de vista geológico, é uma rocha já conhecida de muitos, porém não como reservatório de petróleo. Mundialmente, muita gente, digamos assim, teve... Você não tem uma cultura muito forte nesse tipo de rocha a nível mundial como reservatório de petróleo [pausa]. Eu diria que a rocha do Pré-Sal, que alguns chamam de calcário microbial carbonato, e esse termo microbial vem de micróbios, que são organismos minúsculos, que são nossos antepassados, né, nós acreditamos que viemos dele, como seres humanos, viemos da evolução deles, ou seja, são os primeiros organismos vindos da terra, que há quatro bilhões e meio de anos começaram a aparecer. E nós temos muitos calcários microbiais, de um bilhão, dois bilhões de anos e tal. E o nosso calcário do Pré-Sal, a gente data como 110 a 120 milhões, não são bilhões, são milhões de anos, que eles já são um pouco mais jovens do que esses de bilhões. Mas esses antigos, de bilhões, normalmente nós não temos mais reservatórios de petróleo deles. O nosso calcário microbial, até então, nós não tínhamos nenhum reservatório de petróleo nele, por exemplo, em Sergipe, era diferente, era como (__). Para nós, era uma novidade grande, em termos de rocha, a nível mundial é novidade também. O pouco que temos, os poucos consultores que podem chegar, por exemplo, e contratar um consultor externo e dizer: “Olha, esse aqui vai nos ensinar uma coisa que nós não sabemos.” Não é assim, nós temos que desenvolver a nossa cultura de calcário microbial, podemos ter ajuda de fora, e aqui de universidades do Brasil, mas muita coisa, muitas perguntas vão ter que ser respondidas pela primeira vez por nós.


(final do cd 02)


P/1 – Cristiano, então esse projeto, que você começou também a fazer em 2007, era um projeto meio independente, sem estar vinculado a programa nenhum, e isso foi... como é que isso funciona? Você propôs, ou alguém, ou foi demanda...


R – Não, essa demanda veio da sede da Petrobras, da Exploração, e eu acredito o seguinte, que, eles perceberam que estávamos diante de uma rocha nova, um sistema novo, e que precisavam de ajuda para ajudar a compreender um pouco melhor aquilo ali. Então eles, “Vamos pedir alguém para ficar estudando junto com a gente esse problema aqui, vamos aprender a fazer o que nós chamamos de avaliação por perfis, e essa avaliação por perfis abrange algumas etapas, por exemplo, que você precisa calcular corretamente a porosidade daquela rocha, calcular corretamente a saturação de fluidos carbonatos – que nada mais é do que a porcentagem de cada fluido de óleo, gás ou água dentro da rocha –, e o tipo de rocha, a litologia, que nós chamamos.” Então, precisávamos parar um pouco, porque isso aqui para nós é novo. Também, a Petrobras tem pouca experiência com carbonatos, digamos assim. As maiores reservas de petróleo no mundo não estão em turbiditos, estão em carbonatos – na Arábia Saudita, principalmente, no Oriente Médio, são principalmente em carbonatos. Então...


P/1 – Mas são carbonatos diferentes?


R – Diferentes.


P/1 – Bastante diferente?


R – Bastante diferentes. Nós temos alguns campos de petróleo em carbonatos aqui no Brasil, mas com volumes pequenos, anteriores ao Pré-Sal, volumes pequenos, nos chamados Pós-Sal, que estão acima do sal, e nós...


P/1 – Na própria Bacia de Santos? Você pode falar onde, esses...


R – Tem na Bacia de Santos, tem alguns em Campos, na Bacia de Campos...


P/1 – De Campos.


R – Tem vários Campos chamados de carbonatos, Campo de Bonito, Enchova e por aí, então. Bacia de Santos tem um chamado Tubarões, Estrela do Mar, Coral, todos são carbonatos. Mas o nosso histórico com carbonatos, comparados aos turbiditos, eram muitos... Não eram tão bons em termos de volume e produtividade dos poços. E agora mudou, então além de... Nós tínhamos um carbonato diferente, que é um carbonato microbial, que é diferente do outro. Então, eu acho que as pessoas perceberam que tinham que estudar melhor este carbonato.


P/1 – Mas convidaram porque você já tinha também uma experiência.


R – Eu tinha experiência não nesse tipo de rocha, mas na atividade de fazer calibração de perfis de poços com dados de rocha, eu tinha experiência grande nessa atividade. Mas de fato este tipo de rocha, o carbonato microbial, calcário microbial, para mim passou a ser completamente novo, eu mal ouvia falar disso. Então, para mim, eu tive que estudar, com os especialistas, principalmente dentro da Petrobrás, que tinha pessoas que entendiam, e ler um pouco artigos fora, para saber onde eu estava pisando. Então foi um aprendizado.


P/1 – E quando foi criado o Pró-Sal?


R – Bom, quando houve a descoberta de Tupi, a empresa percebeu que era uma acumulação muito grande, ela tinha incertezas, como eu falei, muito grandes, e continua tendo, porque ainda não furou toda ela, mas percebeu que tem muita gente trabalhando em cima disso, que era um cenário totalmente novo, e isso foi mais ou menos em junho de 2007, a Diretoria da Petrobras aprovou a criação deste programa tecnológico. Bom, um pouco depois eu fui convidado para coordenar e eu aceitei. Eu fiquei contente, porque era um negócio que eu já estava trabalhando e estava gostando de trabalhar com aquilo, desafiador, e eu percebi, eu já sabia da importância desse sistema, quer dizer, eu não vim de fora completamente, eu já estava um pouco envolvido com este Pré-Sal. E eu fiquei mais ou menos uns quatro meses, um semestre, aproximadamente, conversando com as pessoas para conhecer melhor os problemas, porque aí, a partir do momento que eu passei a coordenar o Pré-Sal, já não era mais um problema de Geologia só, era um problema de Engenharia, era um problema de várias especialidades diferentes. Então eu ia ter que deixar de fazer aquilo que eu estava fazendo e abrir o meu leque. Eu comecei a procurar, montar o que nós chamamos de uma carteira de portfólio de projetos de pesquisa, que atendesse as necessidades.


P/1 – E aí, você falou então de 2008, né, ou 2007.


R – Isso foi no segundo semestre de 2007, então em janeiro de 2008 aí, quer dizer, o Pré-Sal passou a existir desde junho de 2007. Mas ainda foi aprovado, né. Eu fui convidado e tal, se não me engano em julho, e passei esse segundo semestre de 2007 conversando. Então em janeiro de 2008 ele começou, digamos, a funcionar mais de fato, assim, já com 16 projetos de pesquisa, montados...


P/1 – Em várias áreas.


R – Montados, cada projeto tem um Coordenador, ou o Gestor, e tal, do projeto e focando em três áreas diferentes, principalmente.


P/1 – Quais são as áreas?


P/1 – Uma, é que a gente chama de área de Engenharia de Poço, que é a questão de fazer o poço mais seguro, mais barato, de maior produtividade, então a preocupação é essa. A outra é a de Engenharia, hoje, Engenharia de Reservatório do Pré-Sal, entender melhor o carbonato do Pré-Sal, e...


P/1 – A terceira?


R – E tem uma terceira área que é chamada de Garantia de Escoamento, ou seja, você vai garantir que a produtividade do Petróleo do Pré-Sal pelo poço e pela linha de fluxo no fundo do mar vai ter o mínimo de problema possível, e como resolver quando aparecer esses problemas.


P/1 – E hoje ainda são 16 projetos, ou isso já aumentou um pouco?


R – Não, hoje são 22, mas os projetos iniciais, quase todos eles estão em andamento. Então a gente procurou fazer projetos de duração não muito curta, assim, de projetos de três anos, para que as pessoas se fixassem naquele problema, pra que elas tivessem... Se a gente começasse a fazer muitos projetos de curto prazo, a gente podia perder um pouco a continuidade, então a gente procurou fazer isso para que desse à pessoa uma visão mais de longo prazo. Então, a maioria dos projetos estão com o cronograma até 2010, final de 2010, que é para reter as pessoas, e que elas não sofram muita descontinuidade nesse processo.


P/1 – E vocês ali no Cenpes, existem outros programas, inclusive o próprio Procap [Programa Tecnológico da Petrobras em Sistemas de Exploração em Águas Ultraprofundas], vocês têm uma interface, há uma interação, vocês se conversam? Como funciona... Eu não sei também, se já na mesma pergunta, como a própria experiência do Procap, pode ajudar o Pré-Sal.


P/1 – A experiência do Procap foi fundamental para o Pré-Sal. Sem o Procap, sem a experiência em água profunda, a Petrobrás não teria ido ao Pré-Sal, que a lâmina d’água do Pré-Sal é dois mil e duzentos poucos metros. Então ela só foi lá porque já tem algo produzindo muito próximo a isso, tem um conhecimento anterior. Mas o Pré-Sal tem algumas diferenças em relação a esse aspecto da lâmina d’água, porque ele tem um pouco mais do que nós chamamos de contaminantes, é mais corrosivo ao ambiente. Então tem que ser novos materiais, talvez plataformas um pouco diferentes, porque você está hoje a 300 quilômetros da costa lá no Pré-Sal, então, tem algumas diferenças. Então o Procap, o Pré-Sal, ele não está se dedicando a tudo, até porque é muito abrangente. Então nós estamos focados naqueles problemas mais iniciais, que estou chamando de problema da área de poço, reservatório e escoamento. O Procap também está nestes problemas iniciais. O Procap tem uma tradição na parte de materiais, plataformas, na parte de Engenharia, que chamamos, às vezes a gente brinca, com (laço?), a parte de rádio da Produção, e o Procap, o Pré-Sal está mais na parte de soft, é a parte de superfície, são mais estudos, a parte do petróleo em si, escoamento do petróleo. Mas o Procap também está se dedicando a projetar, digamos, sistema de produção adequados, do ponto de vista da base de plataformas, e linha e tal, adequados para o Pré-Sal.


P/1 – Então há essa interface, entre os...


R – Existe, nós ficamos na mesma sala, com o Coordenador do Procap, o Maurício Werneck, então nós ficamos juntos na sala.


P/1 – E, deixa eu te perguntar também, com os outros projetos há algum que vocês tenham mais interação, como é que é, e com o resto das outras áreas que estão envolvidas, lá do AIP [Acordos de Individualização da Produção], como é que se dá essa interação entre vocês todos?


P/1 – Tem um programa, um outro programa tecnológico que é o Pró CO2, que é novo e está sendo criado agora.


P/1 – Perdão, você pode repetir o nome?


R – Pró CO2, que ele vai ter também um foco grande no Pré-Sal. Bom, esse tema Pró CO2 é bem conhecido do público, porque...


P/1 – Eu lembro.


R – Protocolo de Quioto e tal, ele extrapola e muito a indústria de petróleo, ele tem a ver com a atividade industrial como um todo. Mas existe uma preocupação muito grande com estes poços do Pré-Sal de aproveitar ao máximo o que a gente puder em função do conhecimento com o CO2 que tem nos gases do Pré-Sal. Então é você minimizar as emissões atmosféricas, até possivelmente depois ter créditos destes, como se fala por aí. É um tema muito complexo, e também está sendo criado um programa só para gerenciamento dessa questão do CO2 no Pré-Sal.


P/1 – E há interação com as outras áreas da companhia, estão envolvidas também no Pré-Sal? Lá no IAP [Instituto Ambiental do Paraná] existe um...


R – Por exemplo, o Coordenador do CO2, nós três dividimos a mesma sala: o Coordenador do Procap e do Pró CO2. Nós conversamos bastante.


P/1- Quem é o do Procap, do Pró CO2?


R – Paulo Rocha, o nome dele.


P/1 – E, mas aí com o AIP também, existe todo um planejamento, também lá da... Vocês compartilham?


R – Ah, a relação é muito forte. Compartilhamos, dentro existe um acompanhamento periódico muito frequente, mensal, praticamente, na nossa atividade. Nós temos que sempre discutir, apresentar os nossos projetos de pesquisa, eles são especificados com marcos, a serem atingidos em tal data: marco um, marco dois, tal... Tem um texto para a redação do marco, tal data, até 2010 nós temos, todos eles, sabemos onde queremos chegar. E mensalmente, praticamente, nós vamos à sede, mostrar como é que está o andamento dos marcos, nós temos uma cobrança muito forte da sede, no sentido de que, se o que nós chamamos de “amarelou”, a perspectiva de que não vamos cumprir esse marco, a gente já avisa imediatamente, tenta fazer alguma coisa pra ver se dá para corrigir a rota.


P/1 – Então está tudo dentro desse grande planejamento, nesse plano...


R – Isso.


P/1 – Você sabe, não precisa ser exato, mas dá uma média de quantas pessoas estão envolvidas lá no Pré-Sal? Dentro desses 20, 22...


R – Olha, esse número é muito fluido, porque desses dois projetos, são 22 coordenadores ou gestores, e eles têm laboratórios no país, no mundo todo, trabalhando junto com eles, e esse número, eu não tenho a fotografia, se eu tirar a fotografia do momento, daqui a uma semana já vai mudar.


P/1 – Já mudou.


R – Então eu não tenho, assim, essa radiografia, exatamente quem...


P/1 – Mas mais ou menos...


R – Mas eu diria o seguinte, que as pessoas mais diretamente envolvidas, muito ligadas, assim, são os 22 gestores, e se eu fizer uma média que cada projeto tem uma equipe mais fixa, assim, em torno de cinco pessoas. Mas a equipe móvel, por exemplo, se você contrata um laboratório no país ou fora do país para fazer uma análise, aí pode ser dez pessoas, para fazer aquela análise, e aquela análise durar um mês ou dois, ou três, acabou. Não é que fixa. Em torno de cem pessoas deve dar um número razoável.


P/1 – E lá da estrutura do Cenpes, você pode me falar, também, um pouquinho, ou o que vocês têm para atender ao Pré-Sal... O Cenpes, enfim, está até construindo um prédio novo, uma ampliação, sei lá, de investimento especificamente para o Pré-Sal, e, quais são os recursos que você tem à sua disposição para esses trabalhos?


R – Bom, o Pré-Sal é programado, a matricial não tem, essas pessoas que trabalham comigo não são gerenciadas por mim, e elas também têm um gerente funcional, então eu vou lá, converso com o gerente: “Olha, eu só preciso de uma pessoa pra fazer isso.”


P/1 – Como o Procap, né?


R – Como o Procap, a mesma coisa. Por exemplo, o projeto é aprovado, e essas pessoas começam a trabalhar desse jeito. Quando acabar esse projeto, eu não tenho nenhum vínculo direto gerencial com essa pessoa. Hoje, as pessoas têm tido uma facilidade, a gente tem tido uma facilidade grande de conseguir adesão das pessoas para trabalhar no Pré-Sal, um pouco porque as pessoas perceberam a importância do Pré-Sal é desafiadora, em geral os pesquisadores são pessoas que gostam de trabalhar em coisas desafiadoras, novas e tal, e naturalmente já chamam a atenção deles. Então, não tem sido difícil, a Petrobras tem dado uma prioridade muito grande, facilitando as ações ligadas ao Pré-Sal, muitas vezes, até a gente tem que, infelizmente, parar de fazer uma coisa que estava fazendo, para atender ao Pré-Sal, por falta de pessoal. Então, tem sido priorizado, eu diria que todas as iniciativas que a gente tem concebido, têm sido atendidas. Então, tem equipes trabalhando com prioridade.


P/1 – Tá certo. E o que eu também queria te perguntar, como é que está sendo essa relação, não sei se você pode me falar um pouquinho, com essa rede de pesquisa, enfim, que eu li lá, chamado, de repente, Pesquisa Galileu, que é esse consórcio com a PUC [Pontifícia Universidade Católica], com a USP [Universidade de São Paulo], são cinco universidades, né, até com a Federal da Bahia. É a Federal da Bahia, é?


R – A Pesquisa Galileu é mais focada na parte que eu comentei em (___). Ela está muito mais ligada com o Procap do que com o Pró-Sal, mas a gente tem essa interação em função de que o Procap está focado também nos objetivos do Pré-Sal.


P/1 – Então tá. E eu queria saber quais são os principais desafios do Pré-Sal, seus e do programa mesmo como um todo.


R – Como eu comentei, os nossos desafios da empresa como um todo, que o Pré-Sal é o desafio da empresa, é no final a gente ter um poço seguro, mais barato de alta produtividade, poço adequado para os finais do Pré-Sal. Segundo, a gente conhecer os reservatórios de calcário microbial, e o petróleo do Pré-Sal como um todo, conhecer como que vai ser o comportamento de produção dele, e extrair e gerar um modelo de produção adequada, que nós acreditamos que vai ser diferente dos turbiditos. Por exemplo: obtermos o fator de recuperação do petróleo do Pré-Sal, tal que ele viabilize economicamente as jazidas do Pré-Sal, ou seja, se nós passarmos pelo fator de recuperação de dez para 30 por cento, por exemplo, o que vale é descobrir nova acumulação, então, nós estamos trabalhando nessa linha, e a questão de garantir o escoamento do óleo do Pré-Sal que nós temos possibilidade de termos alguns problemas, e tal, mas acreditamos que temos gente pesquisando e vamos dar solução. Esses são os desafios, agora, tem outros desafios importantíssimos, que estão sendo pesquisados também, que não estão sendo olhados pelo Pré-Sal, assim, de forma que sistemática, mas a gente está acompanhando as outras iniciativas, por exemplo, a distância da costa é um problema, 300 quilômetros é um problema de logística, não é fácil você movimentar pessoas, levar funcionários para a costa, tem pessoas trabalhando, pensando em você ter plataformas, necessidades menor de pessoal, e também facilidade para transportar esse pessoal para lá e para cá. A própria logística envolve gasodutos, envolve oleodutos. Depois tem o impacto do Pré-Sal na Refinaria do país, porque o petróleo do Pré-Sal é totalmente diferente do petróleo da Bacia de Campos, ele vai requerer adaptações na Refinaria do país, porque em outros dutos, já pensando nisso...


P/1 – Ele é um óleo mais leve?


R – Mais leve, ele é um óleo mais leve. E, eu diria, por exemplo, que a empresa como um todo está ciente da grandeza que é o Pré-Sal e da grandeza das ações que vai ter que tomar; por exemplo, pra parte financeira, vai ser pesadíssima você desenvolver o Pré-Sal. Os grupos financeiros da companhia, a parte jurídica é importantíssima porque alguns petróleos, nós estávamos acostumados a ter blocos que eram bem maiores que as nossas próprias acumulações, então eu não tinha... Bom, na época, então, do monopólio certamente não existia esse problema de hoje (unitização?), ou seja, por (unitização?) você entende uma acumulação produzindo que está interferindo na outra, ou está extrapolando ou está entrando na área do outro, uma acumulação muito grande. No caso do Pré-Sal, isso poderá vir a acontecer de uma acumulação que seja maior que o seu bloco. Então, tudo isso impacta e tem gente envolvida nessas questões.


P/1 – Espera aí, tem um bloco definido e o reservatório extrapola...


R – Se for um pouco maior do que o...


P/1 – Transborda do bloco...


R – Transborda, exatamente. É possível acontecer isso.


P/1 – É? Isso vai ser uma encrenca?


R – Nós não temos isso ainda definido porque nós temos muito poucos poços, mas como as acumulações do Pré-Sal são muito grandes, pode ser que isso tenha acontecido. Então tem advogados estudando o problema.


P/1 – E isso pode ser uma encrenca?


R – Não...


P/1 – Tem que ser definido?


R – Tem que ser definido, o que fazer, né? A regra tem que ser clara. Isso é comum lá no exterior, nos Estados Unidos, é muito comum você ver esses procedimentos. No Brasil já teve outros casos assim. Talvez, eu estou falando o seguinte, que talvez, no Pré-Sal tem que ser tratados de uma forma diferente.


P/1 – Então tá. Você está animado com esses desafios [riso]?


R – Estou animado, e nós temos tido muitas, digamos, alegrias no meio do caminho, algumas tristezas também, mas as nossas tristezas são quando, por exemplo, a gente não consegue executar uma coisa prevista, principalmente, só está previsto pra fazer isso, e nós sabemos que é importante.


P/1 – E o que estava previsto que não aconteceu?


R – Ah, nós estamos em etapas, assim, que temos conseguido ter mais alegrias do que tristezas; por exemplo, estamos conseguindo perfurar poços muito mais rápidos, com velocidade. Isso aqui são influências, nós sabemos que o desenvolvimento tecnológico já foi impactante nisso aí, ter uma taxa de perfuração mais rápida, menos troca de broca e tal, segura, sem dúvida, de custo. Estamos conseguindo conhecer melhor o reservatório e fornecer parâmetros, bastantes parâmetros para as simulações feitas em computadores, a parte laboratorial, isso aí é importante. Temos conseguido também selecionar produtos para resolver problemas que eventualmente aparecem no caminho. Então nós avançamos bastante. Eu acho que a Petrobras tem uma característica de ter um grupo de pesquisa e desenvolvimento muito grande dentro do país aqui, que dá muita autoconfiança e sustento para a Petrobras. Quando eles precisam, sabem que têm a quem recorrer. Isso tem algumas empresas que fecharam o centro de pesquisa e tal, que eu não quero citar, mas que reduziram muito essa parte, então eu acho que essas empresas podem ter menos confiança na solução dos problemas. Eu acho que a Petrobras acredita muito na... Não é só o centro de pesquisa não, o empregado que está lá em Macaé ou em outros locais tem essa característica de inovar e testar inovações, porque ele está num país que fica meio distante, digamos assim, dos principais centros mundiais, então a gente tem que desenvolver coisas aqui, se não a gente fica à mercê.


P/1 – Tá. Queria te perguntar se você podia falar um pouquinho do papo da pesquisa e do investimento que a Petrobras faz em pesquisa e, enfim, se isso tem uma relação, em sua opinião, com a Petrobras ter chegado onde chegou.


R – É muito difícil você citar nomes, é muito difícil, eu tento, inclusive, mas não consigo saber claramente, quando você fala, esse produto aqui, a Petrobras usa, isso é uma inovação, mas quanto por cento exatamente disso foi, eu posso creditar ao centro de pesquisa, e quanto por cento eu posso creditar ao órgão operacional. É muito encrencado esse negócio, os dois contribuíram. O órgão operacional contribuiu porque as pessoas conhecem o processo, têm um feeling se aquilo deve funcionar ou não, e a coragem de testar coisas novas. E o próprio centro de pesquisa, ele está junto ali, então, no final eu até nem gosto de separar: ah, isso aqui foi a pesquisa que foi responsável.


P/1 – Tá, não estou entendendo, você desculpa, mas talvez eu até tenha feito a pergunta de uma forma errada, eu estou pensando de uma forma até mais de capacitação do seu corpo de funcionários, seja com o Cenpes, eu estou pensando de uma forma geral. Não estou só dizendo que o Cenpes foi o responsável pela Petrobras ter chegado onde chegou não, porque eu acho que seria, enfim, um absurdo muito grande dizer isso só. A gente até, por mais que a gente reconheça todo o papel do Cenpes, mas de qualquer forma pergunto nesse sentido mesmo da Petrobras investir em capacitação, investir em pesquisa, você tem até inclusive gente muito capacitada em doutorado, mestrado, sei lá o quê, na exploração em outras áreas.


R – Hoje, só para você ter uma base, assim, por alto, hoje tem aproximadamente dois mil funcionários no Cenpes, desses daí eu acho que entre 650, aproximadamente, tem mestrado e doutorado juntos. Para nós, isso é absolutamente uma coisa difícil, porque num país como o nosso... Mas é uma coisa necessária, porque essas pessoas que têm mestrado e doutorado, que lideram as pesquisas, e as outras também que são importantíssimas para as pesquisas, sem elas, eu acho que a gente talvez não tivesse tido tanto sucesso em água profunda. Eu acho que a gente talvez não tivesse tido tanto sucesso, tivesse tido mais tropeços e mais problemas, até de confiança de fazer as coisas. Eu acho que essas pessoas ajudaram muito a companhia, mas toda vez que eu tento perguntar, assim, separar qual foi o papel da pesquisa e qual foi o papel da parte operacional, é como eu falei, eu tenho dificuldade de quantificar no resultado, mas o feeling, o sentimento que eu tenho é que elas contribuíram muito. E eu notei uma diferença muito grande nos últimos anos, o grau de participação das pessoas do Cenpes, dentro da sede, dos órgãos, das unidades de negócio, está muito grande. Porque no momento que foram criadas essas unidades de negócios, que era uma nomenclatura que não existia, eles passaram a disputar a mão de obra de pessoas da área de pesquisa, então às vezes até exageram porque querem que a pessoa trabalhe para ele, como se fosse uma atividade operacional. Mas aproximou muito, a atividade de pesquisa hoje é muito próxima da parte operacional. Então as pessoas estão juntas e, por outro lado, eu diria que as universidades brasileiras, o principal papel delas foi, na minha visão mesmo, foi formar essas pessoas. Eu diria que para a atividade de petróleo elas tiveram um papel importante na pesquisa, mas eu acho que o papel principal delas foi formar as pessoas. Hoje está sendo criada toda uma estrutura de redes. As redes... Está sendo feito um investimento muito grande com a necessidade de investir um por cento do faturamento na obrigação da lei, então, está sendo criada toda uma infra-estrutura nova em universidades, e aí essa infraestrutura está sendo montada e concluída a montagem dela, e agora nós vamos ter uma guinada nisso aí. Que as universidades do país vão passar a fazer de forma muito mais forte pesquisa de desenvolvimento focado no petróleo. Então eu acho que nos próximos anos, está chegando isso já, essa parte de infra-estrutura, já está montada, o investimento é muito grande e teremos, também, além do papel importante na formação das pessoas, muita pesquisa chegando aí, nas universidades.


P/1 – Cristiano, o que você acha, enfim, o que o Pré-Sal pode representar para o país em termos de reserva e para a sua economia?


R – Bom, o que está anunciado aí é importante para deixar para o Pré-Sal, a gente tem que ter serenidade porque a gente está na fase inicial de avaliação dos volumes, a gente não tem um número concreto. Então a Petrobras anunciou, para a imprensa Tupi, com arrecado de cinco a oito bilhões, você vê que os próprios números variam, é quase que a metade, entre cinco e oito, é porque ela não tem certeza muito grande, e a três a quatro. Mas nós estamos muito no início, e temos o Pré-Sal do Espírito Santos lá, que já está produzindo desde setembro do ano passado, que tem volumes, considerados também, pouquinhos menores que esses, mas bastante expressivos. Então, a expectativa hoje é que o Pré-Sal poderá dobrar, em geral, no Brasil, ou seja, alguns (__) otimistas, mais que isso, mas, a reserva do Brasil, hoje 12,4 bilhões de barris, hoje. Tudo o que temos hoje são turbiditos e outras acumulações. Então, poderemos ter mais outro tanto vindo do Pré-Sal, e a depender das avaliações, os poços vão ter que ser furados, não pode ser mais que isso. Então ainda, eu acho assim, temos que ter em mente o seguinte: temos esse potencial para dobrar, pode ser um pouco mais, pode ser um pouco menos, mas estamos em uma fase de avaliação, uma fase muito preliminar; então, sabemos que é importante e temos que nos antecipar. Por que nós temos que nos antecipar? Aumentar a diferença do Pré-Sal para a Bacia de Campos. A Bacia de Campos, a Petrobras foi descobrindo cada vez em águas mais profundas, aos poucos, uma descoberta atrás da outra. No Pré-Sal não, descobriu tudo de uma vez. Então a indústria vai ter que se preparar diferente de uma coisa para a outra, e a indústria tem tempo para ir fornecendo material. No caso do Pré-Sal, é um volume de material muito grande para fornecer para o desenvolvimento desses casos. Então, a Petrobras está certa em se antecipar e correr atrás, senão a indústria não fornece material. Se a Petrobras demorar muito, hoje nós temos um relógio, no passado nós não tínhamos, mas é o tempo da concessão. A concessão era Petrobras (__), monopólio. A vida toda. Agora não. Nós temos, por exemplo, Tupi, a partir, contando desde 2010, vamos ter 27 anos. Então se a gente leva dez anos para botar o sistema lá, só vamos ter 17. Então tem esse relógio agora. Temos que nos antecipar, e a incerteza sabemos que é grande, mas infelizmente tem que ser assim, com emoção.


P/1 – Cristiano, a gente vai terminando a nossa entrevista, queria perguntar também, enfim, acabou se atropelando, você casou, está casado, me conta um pouquinho, também, disso. Tem filhos?


R – Tenho, tenho três filhos, já me casei, e depois descasei. Quando a minha mulher, ela também trabalha na Petrobras, é Engenheira de ...


P/1 – Qual o nome dela?


R – É Francisca.


P/1 – Francisca do quê?


R – Ferreira do Rosário.


P/1 – E ela trabalha em que área?


R – Ela trabalha no Cenpes, também.


P/1 – Mas você está casado com ela agora?


R – Sim, estamos.


P/1 – E as suas filhas?


R – Bom, eu tenho uma filha já casada, entre 28 e 29 anos, uma de 24 e uma de 11.


P/1 – E as mais velhas fizeram o que? Alguma fez Geologia?


R – Não. Uma fez Administração, e a outra está terminando Psicologia.


P/1 – Você me disse o nome delas ou não?


R – Marta, Cristiane e Luiza.


P/1 – E você já tem neto? Da mais velha casada?


R – Não, vou ter uma agora, a primeira em agosto, dia 18, 19 de agosto, já deve estar chegando um aí.


P/1 – Um avô tão moço.


P/2 – Cristiano, e o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer?


R – Olha, ultimamente a coisa que eu mais tenho gostado... O que eu gosto mesmo, é não fazer nada, porque eu ando muito ocupado, então, ficar deitado, vendo televisão, olhando alguma coisa. Eu tenho procurado ter esse tempo aí para poder compensar o estresse das atividades.


P/1 – Tem sido muito estressante?


R – Tem picos, né. Tem picos. Não é sempre e nem todo dia, mas algumas vezes tem sido.


P/1 – Então tá, Cristiano, a gente vai terminando a nossa gravação, queria perguntar, enfim, o que você acha dessa... Antes, perdão, queria perguntar se você gostaria de deixar algo mais registrado, que a gente também não falou aqui...


R – Eu quero... Eu espero que essa entrevista aqui, quando a gente estiver... Puder rever daqui uns três anos, cinco ou dez anos e que a gente esteja, de fato viabilizando o Pré-Sal. Que ele esteja acontecendo. A gente agora só está no início, né, está começando. Quando eu puder rever esta entrevista, ou no museu da Petrobras, que a gente tenha uma realidade positiva.


(final do cd 03)


P/1 – Tá certo. Cristiano você estava falando só as suas projeções, né, desse planejamento, e até projeção mesmo do que vocês esperam, lá então, você pode repetir isso para mim?


R – Bom, algumas datas importantes, e números importantes aí para o futuro, é que até dezembro de 2010, pelo contrato da Petrobras com a (NT?), ela terá que se decidir qual vai ser o plano de desenvolvimento para a Tupi. Então, ela tem esse prazo, pode fazer antes, se quiser, mas ela no momento ela ainda não fez porque está estudando muito e com bastante cautela. Até dezembro de 2010 ela tem que ter o plano de desenvolvimento para a Tupi. Então, essa vai ser uma data, um marco, assim, muito importante para nós. Bom, e a gente espera (barulho de motor)...


P/1 – Vai queimar.


R – Isso ainda muito...


P/1 – Você deu pausa?


(pausa)


P/1 – Cristiano, então só para a gente terminar, queria perguntar, também, o que... Se você gostou da entrevista e o que você acha da... dessa iniciativa da Petrobras, no projeto memória.


R – Eu gosto muito dessa iniciativa, e eu gostei da entrevista, e há pouco tempo, eu vi uma iniciativa parecida com essa, mas não foi exatamente essa, mas eu imagino que as pessoas tiveram dificuldade enorme de compor aquele vídeo. Foi um vídeo preparado próximo àquela data que foi comemorada com a data da Auto-Suficiência do Brasil, né. Então naquela época foi feito um vídeo, lá na sede, pegando desde as pessoas que trabalharam na primeira equipe Cenpes, nas primeiras equipes Cenpes na Amazônia, na Bahia, em Sergipe, no Rio Grande do Norte, até a Bacia de Campos, e esse vídeo ele foi emocionante. Então, eu acho que eles devem ter tido muita dificuldade para fazer este vídeo. Imagino que agora, no futuro, quando alguém for querer fazer alguma coisa parecida de contar história da Petrobras, vai ter muito mais material do que tinha há pouco tempo, porque vai ser realmente um material de boa qualidade, não que o outro não tenha ficado, mas eu acho difícil de fazer. Eu acho que é excelente.


P/1 – Então tá, Cristiano. Eu queria agradecer, você ser tão atarefado também, tão... Com tanta coisa, e vir aqui colaborar com a gente. Muito obrigada.


R – Obrigado também a você.


P/1 – E a gente faz uma segunda rodada, Memória ainda tem que gravar com você ainda.

 

-- FIM DA ENTREVISTA --

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