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História

Entre o novo e o velho

História de: Leonildo da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/02/2005

Sinopse

Seu Leonildo, nascido em Ipuã, São Paulo, conta um pouco de sua história, que percorre a transição entre velho e novo na telefonia brasileira. Trabalhando até os 23 anos em lavouras na região do Alto da Mogiana, parte posteriormente para a região urbana em função das políticas que demarcam o êxodo rural na década de 1960. A fim de adquirir prática e poder sair do trabalho no campo, passa a realizar cursos em correspondência para se aprimorar, o que o abre as portas para a CTBC, onde entra logo em seguida e contrói uma carreira duradoura como técnico.

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História completa

P/1 – A gente prefere contar a história através da memória que as pessoas têm dessa história do que pessoas estranhas chegarem aqui e contarem uma história que não viveram.

 

R – Eu acho que os protagonistas que passaram por isso são os melhores, que viveram, que têm isso na cabeça, mais realidade.

 

P/1 – Uma vivência única.

 

P/1 – Boa tarde, Seu Leonildo, eu queria começar perguntando seu nome completo, local e a data de seu nascimento.

 

R – Meu nome completo é Leonildo da Silva, nasci no dia 25 de março de 1944, nasci no Estado de São Paulo, na cidade de Ipuã.

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R – É Aquelino Estevo da Silva e Isabel Maria da Silva.

 

P/1 – Qual era a atividade do seu pai?

 

R – Meu pai era lavrador.

 

P/1 – Lá em Ipuã?

 

R – Sim, lá em Ipuã e em vários outros municípios que a gente morou também.

 

P/1 – Em terra própria ou ele trabalhava…?

 

R – Não, ele trabalhava pra fazendeiros da região.

 

P/1 – Ele tinha alguma especialidade?

 

R – Não, meu pai sempre foi lavrador e semi-analfabeto. Naquela época não se usava, não tinha esse costume das pessoas terem um certo grau de estudo.

 

P/1 – Eu perguntei se ele tinha uma especialidade, uma cultura que ele produzisse melhor: feijão, milho, mandioca?

 

R – Naquela época a plantação, até então, no Estado de São Paulo, era o café, o cultivo de café. A cana é uma coisa mais recente.

 

P/1 – E seu pai se dedicava mais ao café?

 

R – Sim, mais à lavoura de café.

 

P/1 – Seu Leonildo, o senhor conheceu seus avós?

 

R – Não conheci. Conheci, sim, os meus avós maternos. Meus avós paternos, não.

 

P/1 – O senhor sabe o nome deles?

 

R – Exatamente, não, mas o primeiro nome a gente sabe. A minha avó era Maria e meu avô chamava Rialino.

 

P/1 – Isso da parte de...?

 

R – Da parte de minha mãe.

 

P/1 – E da parte de seu pai?

 

R – Não, eu não conheço, e no momento não lembro o nome deles, não.

 

P/1 – O senhor tem notícia de que seus avós, pais da sua mãe ou do seu pai, tenham vindo de outro lugar para Ipuã ou se eram ali da região mesmo?

 

R – Eu nasci em Ipuã, mas o que a gente guarda na lembrança é que meus pais sempre trabalharam em região de lavoura de café na Alta Mogiana, mas detalhes desse passado eu não sei.

 

P/1 – O senhor tem irmãos?

 

R – Tenho oito irmãos. Oito comigo.

 

P/1 – E essa casa de Ipuã, o senhor tem lembrança dela?

 

R – Não, eu saí de Ipuã muito criança, com uns três ou quatro meses de idade e não tenho lembrança, não.

 

P/1 – E foram pra onde?

 

R – Bem, a gente sempre morou no Estado de São Paulo, daí a gente saiu de Ipuã e meu pai, devido às próprias circunstâncias de trabalho, se mudou muito de local. De lá de Ipuã a gente foi pra diversas fazendas na região da Alta Mogiana. Município de Batatais, Ribeirão Preto, uns exemplos de onde que eu já morei.

 

P/1 – O senhor se lembra de algumas das casas que o senhor tenha morado, que ficou mais marcada?

 

R – Sim, o que ficou mais marcado, por volta de nove ou dez anos, foi uma casa de pau-a-pique que era totalmente de barro e madeira, e o capim que fazia o telhado da casa. Essa que ficou mais marcada, a melhor casa que eu já morei.

 

P/1 – E escola, como o senhor fazia pra frequentar escola?

 

R – Eu trabalhei na lavoura desde os oito anos de idade até mais ou menos 23 anos. Aí, então, sempre tinha escola da fazenda. Era uma casa improvisada que sempre vinha professoras ou professores da cidade, que o fazendeiro contratava. Ali a gente tinha as primeiras lições de português, matemática, basicozinho, até o que equivalia ao quarto ano primário hoje. Foi o que eu fiz até quando eu morei na fazenda.

 

P/1 – Alguma professora ou professor especial que o senhor tenha lembrança?

 

R - Não. Ah, sim, eu me lembro agora de um professor, homem, um senhor chamado Seu Carlos. Eu só me lembro que além de ele dar aula ele trabalhava na lavoura. A mão dele era muito grossa, tinha muito calo, então quando ele dava um tapa na gente doía demais. Naquela época a gente apanhava mesmo na escola, como se tivesse batendo de palmada, uma série de coisas. A gente recebia castigo. O que me lembro é desse professor que a mão dele era muito pesada e muito ardida.

 

P/1 – O senhor era um garoto levado ou não?

 

R – Não, nunca fui, não. O ponto que eu fui levado foi só o limite de uma criança normal. Nunca exagerei, não.

 

P/1 – Como é o trabalho de um garoto de oito anos na lavoura, que obrigações o senhor tinha?

 

R – Um garoto de oito anos, naquela época, tinha a obrigação basicamente de um adulto, o que os pais exigissem dele. Que o trabalho dele rendesse igual a de um adulto. Ele tinha a obrigação de levantar de manhã, pegar a enxada, jogar no ombro, caminhar junto com os adultos na mesma direção da lavoura, começar o trabalho no mesmo horário e encerrar o trabalho no mesmo horário que os adultos encerrassem. Esse era um cotidiano, muitas crianças da minha época faziam isso normalmente.

 

P/1 – Mas tinha força suficiente pra isso?

 

R – Ah, sim, as condições físicas... É porque a criança era adaptada a uma maneira muito rústica dentro de trabalho desde criança, com alguns afazeres domésticos que a criança já passava a fazer a partir de cinco ou seis anos, então a musculatura se adaptava ao trabalho rústico e pesado e acabava se acostumando nessa lida do dia-a-dia.

 

P/1 – Como que era um dia típico? Que horas o senhor acordava, que horas o senhor almoçava, quando voltava? Como era?

 

R – Um dia típico na fazenda é um dia de levantar de madrugada, arrumar as ferramentas de trabalho, e às seis horas da manhã, naquela época, até então, já se saia para o trabalho. Geralmente o pessoal da lavoura almoça bem cedo, por volta de oito horas da manhã, nove horas, com uma refeição leve lá pelas três horas e geralmente se trabalhava até cinco e meia, seis horas da tarde. Depois retornava ao lar.

 

P/1 – Essa comida já levava pronta, se esquentava lá?

 

R – Geralmente tinha pessoas da própria família que levavam. Aproximando o horário das refeições, essa comida era servida, levada na lavoura e servida no local.

 

P/1 – Normalmente o que se comia no almoço, por exemplo?

 

R – Acho que naquela época se comia muita carne de porco, principalmente o pessoal da lavoura. Se comia muita carne de porco, bastante verdura, batata e outras raízes como mandioca, a própria batata doce. Isso era uma alimentação que o pessoal mais usava, como farinha, o fubá. Se alimentava muito de fubá que era, hoje a gente passa a saber, uma alimentação muito nutritiva, energética.

 

P/1 – Seu Leonildo, com essa lida toda, principalmente nessa idade, como as crianças, os garotos se divertiam? Que tipo de lazer vocês tinham lá?

 

R – Na época, o lazer era bola e caçada de animais selvagens, como alguns tipos de passarinho, alguns tipos de animais selvagens como paca, tatu. Basicamente, era esse o entretenimento da molecada na roça.

 

P/1 – E caçavam com o quê, com espingarda?

 

R – Não, a caçada era com esse estilingue, o popular estilingue com a forquilha, duas tiras de borracha e você arremessava a pedra com essa arma que não era tão inofensiva, não era tão destruidora. Geralmente a molecada não usava arma de fogo, alguma faca ou algum facão pra fazer isso na época, não. Era essa arma do estilingue, que não dava pra depredar nada, não.

 

P/1 – E era possível matar um animal como a paca assim com o estilingue?

 

R – Depende da paca, se fosse uma paca filhote, que geralmente não passa de uns dez, quinze centímetros, e se pegar uma pedrada na cabeça, uma pedra bastante resistente, matava sim. Eu já cheguei a ver, já presenciei. Agora, tatu a gente não matava, pegava com a mão, esse não tem jeito.

 

P/1 – Como é a técnica de pegar o tatu?

 

R – Eu não acho que a gente sabia de técnica, não. A técnica que nós usávamos era apenas correr atrás do tatu, quando conseguia, a velocidade de determinar as estaturas muito baixas e pegar ele pelo rabo, antes que ele entrasse no buraco totalmente. Se ele tivesse cavando o buraco pra entrar, aí você pegava ele pelo rabo e puxava ele pra trás. Não tinha muita técnica, não.

 

P/1 – E o bicho não resistia, não?

 

R – Não, o tatu não teria tanta força assim pra resistir.

 

P/1 – E passarinho?

 

R – Passarinho, geralmente, era realmente com uma pedra. Uma pedrada numa certa velocidade, qualquer passarinho você conseguia acertar. Alguns garotos tinham mira mais certa, outros, não. Eu era um péssimo caçador de estilingue, nunca prestei pra isso. Acho que eu me lembro. Por incrível que pareça, eu nunca fui bom pra isso e o único passarinho que eu consegui atingir com a pedra foi um beija-flor. Eu me lembro disso, eu só matei um beija-flor. O menor que eu podia matar, eu estou sentido até hoje. Se eu pudesse voltar pra trás eu acho que eu voltava e fazia diferente.

 

P/1 – Fora a caçada, tinha outra brincadeira que o senhor gostava?

 

R – Não. A gente gostava de certos tipos de trabalho que a gente levava como brincadeira. Às vezes, mexer com o gado, tipo pegar o gado e levar para o curral, tirar o leite, tocar a bezerrada. Esse tipo de coisa, às vezes, de dia, de sábado ou domingo, a gente fazia isso e levava como brincadeira, era uma brincadeira dentro do trabalho, mas a gente considerava uma brincadeira. Alguns gostavam de montar em novilho, garrote, que geralmente não era manso pra isso. A molecada dava uma de pião, fazia um rodeiozinho particular, e às vezes, de dia, de sábado e domingo se entretia também.

 

P/1 – E essa vida no campo, na roça, o senhor ficou até quando?

 

R – Eu trabalhei na roça até por volta de 23 anos.

 

P/1 – E aí foi pra cidade porque quis? Como foi?

 

R – Não foi porque quis. Foi o êxodo rural, na época que as lavouras de café estavam acabando e, consequentemente, devido a algumas leis que foram colocadas na época, que o governo começou a exigir dos fazendeiros. Como o governo começou a exigir dos fazendeiros que tivessem registro na carteira de trabalho dos empregados, que tivesse iluminação elétrica nas residências das fazendas e que tivesse água encanada... Essa condição que o governo começou a impor para os fazendeiros. Consequentemente, os fazendeiros começaram a impor alguma coisa para os empregados, como, tipo, salário fixo; não tinham direito de plantar lavoura, uma lavourinha particular; não tinham o direito de criar um animal doméstico, como uma galinha, um porco de engorda em casa ou no quintal próximo à sua casa. Isso foi que começou a deslocar o pessoal da fazenda e vir tudo pra cidade. E eu, consequentemente, que morava na fazenda com o meu pai e meus irmãos, tivemos que vir pra cidade.

 

P/1 – Foi a família toda?

 

R – Foi, sim. A família toda.

 

P/1 – E para onde vocês mudaram?

 

R – Minha primeira residência na cidade foi em Orlândia, no Estado de São Paulo.

 

P/1 – O senhor com vinte e poucos anos?

 

R – É, por volta dos 23 anos.

 

P/1 – E como foi essa mudança pro senhor, que sempre viveu no campo, vir para a cidade?

 

R – Foi um pouco difícil de se adaptar. Agora, até certo ponto, a gente veio para a cidade, mas na época, o povo todo estava vindo pra cidade, o campo começou a esvaziar e os próprios fazendeiros achavam melhor contratar o pessoal na cidade pra ir trabalhar na lavoura, através de caminhão, o famoso pau-de-arara. Eu acabei morando na cidade, retornando todo dia pra trabalhar na lavoura e voltando pra cidade à tarde. Essa foi minha primeira, a minha adaptação não foi tão difícil porque eu não perdi totalmente o contato com a lavoura. Por alguns anos eu trabalhei dessa forma. Morava na cidade e trabalhava na lavoura.

 

P/1 – Seus irmãos também?

 

R – Todos meus irmãos, meu pai também.

 

P/1 – Em fazendas diferentes?

 

R – Em fazendas diferentes e em lavouras diferentes. Lavoura de café, lavoura de arroz, milho.

 

P/1 – E nesse vai e vem, chovendo ou fazendo sol, tanto faz?

 

R – Ah sim, isso é rigor, todo dia esse trabalho tinha que ser feito porque você tinha que ganhar seu dia de trabalho. Você ganhava por dia, você era um diarista.

 

P/1 – E na época de entressafra? Tinha trabalho o ano inteiro?

 

R – Sempre tinha porque, até então, na época, tinha lavoura de diversos tipos. Tinha lavoura de milho que era numa época, tinha café, tinha algodão. Tinha muitas diversificações na época. Hoje eu não vejo que seja tão diversificada assim.

 

P/1 – E nesse esquema de trabalhar, o caminhão pegava de manhã cedo, o senhor levava sua comida?

 

R – Pegava de manhã cedo e cada um levava seu próprio almoço, cada um levava sua refeição, passava o dia todo na lavoura e retornava no período da tarde, no mesmo local na cidade.

 

P/1 – Quanto o senhor ganhava por dia, na época, embora o dinheiro tenha mudado?

 

R – Mudou tanto... Acho que se fosse colocar hoje em comparação com o valor do dinheiro que está hoje, eu acho que eu ganhava cinco reais por dia, dez no máximo. Mais por volta de cinco, a média era essa.

 

P/1 – E sua casa em Orlândia, como que era?

 

R – Minha casa em Orlândia já era uma casa mais moderna, já não era de pau-a-pique, era de tijolo, tinha três quartos, tinha varanda. Aquela casa ainda que tinha alpendre. Naquela época usava muito alpendre na frente. Então basicamente era isso.

 

P/1 – E, na cidade, aos sábados e domingos, tinha algum tipo de lazer, o senhor ia fazer alguma coisa, passear?

 

R – Nessa época que eu mudei pra cidade, o cinema era o primeiro lazer do pessoal. Era o cinema porque era na época dos famosos “Bang Bang”, aqueles famosos filmes norte-americanos, os atores italianos que hoje já estão bem velhos. Então se usava aqueles filmes de “Bang Bang”, o Tarzan, que rolou muitos anos... E por que não falar então dos filmes brasileiros? Até hoje eu gostaria que voltasse como o grande Mazzaropi, o grande Oscarito. É uma coisa que a gente gostaria que voltasse.

 

P/1 – Era esse o programa de fim de semana?

 

R – Sim, o primeiro programa.

 

P/1 – E depois do cinema, o que se fazia?

 

R – Depois do cinema a gente gostava de passear na praça onde tinha o coreto, tinha uma bandinha que tocava. E a gente gostava muito disso aí. Dar volta na praça, ficar conversando com os amigos na praça onde tinha uma igreja. Era muito legal isso aí.

 

P/1 – E as namoradas?

 

R – Namoradas a gente sempre tinha. Era um pouco diferente de hoje. As namoradas eram uma coisa... Parece que mais reservada. Você tinha uma namorada, parece que você tinha uma coisa tão sagrada, uma coisa muito especial. Eu acho que eu vivi em duas épocas. Na minha época... O que eu quero dizer é que ela mudou muito e eu acompanhei essas duas épocas, o antigo e o moderno. Eu pude ver essas duas coisas. O namoro de antigamente e o namoro mais recente. Eu casei com 33 anos de idade, já bem coroa.

 

P/1 – Até que nem. Até quando o senhor ficou em Orlândia?

 

R – Eu fiquei em Orlândia até por volta dos anos 1970 por aí, 1968, 1970, não me lembro exatamente. É mais ou menos isso aí.

 

P/1 – O senhor conheceu sua esposa lá em Orlândia?

 

R – Não, conheci aqui em Minas. Ela é mineira, mineira de Frutal. Então eu conheci ela quando vim pra cá, pra Uberlândia.
 

P/1 – Desculpa, o senhor saiu de Orlândia pra cá?

 

R – Sim, eu saí de Orlândia e vim pra cá.

 

P/1 – E qual foi o motivo?

 

R – Foi que eu pensava no futuro. Apesar de Orlândia ser uma cidade muito boa em termos de infraestrutura, até então não tinha faculdades como tem em Uberlândia, que é uma cidade maior e com mais recursos em termos de faculdade, em termos de medicina. Então, apesar de não ser casado até então, quando vim pra cá, eu pensava que eu ia casar muito breve, que meu objetivo era casar. Então eu teria que adquirir família numa cidade que tivesse uma estrutura melhor. Esse foi meu maior objetivo ao sair de Orlândia e vir para Uberlândia. Consequentemente, eu já trabalhava numa companhia telefônica em Orlândia, nessa época. Nessa época ela se chamava Companhia Telefônica Alta Mogiana.

 

P/1 – Como o senhor chegou lá? Como o senhor saiu do campo e foi trabalhar nessa companhia?

 

R – Com o tempo, trabalhando na lavoura e morando na cidade, eu fui pensando em me adaptar melhor, me estruturar para que eu pudesse arrumar um emprego na cidade para deixar a lavoura. Eu comecei a pensar numa forma em que eu pudesse deixar a lavoura e ficar trabalhando na cidade. Bom, pra isso eu teria que ter alguma profissão não de lavrador, mas que me deixasse com emprego na cidade. Então, na época, era muito difícil. Estudar o quê, como? Lá não tinha nem curso técnico nem nada, como eu poderia fazer? Na época, devido à falta de escolas especializadas em determinadas profissões, existia muito o estudo por correspondência, isso se usava demais. Várias profissões como mecânico, eletricista, técnicos de televisão e várias outras profissões como costureira por exemplo. Na época eu escolhi fazer o curso de Rádio e Televisão. Bom, daí eu me inscrevi nessa escola e fiz o curso de Rádio e Televisão. Daí o meu estudo por correspondência durou mais ou menos dois anos, foi quando eu trabalhava numa empresa revendedora da Volkswagen, trabalhava de contínuo, isto é, eu fazia faxina e trabalhava no posto de gasolina. Aí, quando eu já estava concluindo o curso de correspondência de eletrotécnico, isto é, de Rádio Televisão, eu passei a conhecer, que frequentava essa agência, um gerente — naquela época se chamava gerente — da empresa telefônica local, da Companhia Alta Mogiana. Então, ele conhecendo a minha habilidade como técnico formado por correspondência — que na época era uma novidade —, ele me convidou pra ir para a Companhia. Quando estava começando, um pouco antes de começar a automatizar o sistema, comecei a trabalhar na companhia telefônica local, que o nome era Companhia Telefônica Alta Mogiana.

 

(troca de fita)

 

P/1 – O que o senhor fazia lá, quais eram as suas funções?

 

R – Quando eu entrei na Companhia Telefônica, os processos, os telefones eram manuais. Não tinham telefones automáticos quando eu entrei. Justamente eu entrei porque tinha um projeto, já estava executando um projeto de uma montagem de uma central automática em Orlândia. Quando eu entrei os telefones eram manuais e eu fazia o trabalho com os telefones manuais. 

 

P/1 – Que trabalho era esse?

 

R – O meu trabalho na época era o seguinte: eu pegava uma vara bastante comprida e saía pra rua pra tocar com a ponta da vara os fios que estavam nos postes. Na época não eram cabos, era fio nu. Tinha bastante fiozinho nu nos postes, na rua. Não tinha cabo. E aqueles fiozinhos, com o vento, pegavam um no outro, daí começava a cruzar os telefones. Daí a minha função era bater naqueles fios pra eles desagarrarem uns dos outros. Quando chegava de tarde, já viu como estava o meu pescoço: todo dolorido de ficar olhando pra cima o dia inteiro com a vara na mão. Mas foi ótimo. Foi o começo, o início de eu integrar no sistema telefônico.

 

P/1 - A tal linha cruzada?

 

R – A linha cruzada, na época, já tinha. Até hoje ainda tem, mas acho que isso vai acabar logo.

 

P/1 – O senhor só fez isso enquanto esteve lá na Companhia Alta Mogiana?

 

R – Eu trabalhei uns tempos com isso aí e quando o pessoal da empresa CTBC comprou o equipamento automático que é a _______ do Brasil. Quando eles começaram a fazer a montagem, fui designado pra acompanhar todo o processo e que eu pudesse fazer meu treinamento com o pessoal de montagem e teste dessa primeira Central Telefônica, que era a _____________.

 

P/1 – Então a CTBC comprou essa companhia de Orlândia e o senhor continuou na companhia, certo?

 

R - Justamente a CTBC comprou essa companhia lá e eu continuei trabalhando mais uns cinco anos ainda. Depois que automatizou eu fiquei...

 

 

P/1 – Mudou muito quando a CTBC chegou lá em Orlândia?

 

R – Mudou demais, não só em Orlândia. Pelo que eu sei, tudo quanto é lugar em que a CTBC chegou, houve uma mudança drástica em termos de equipamento. Ali na Alta Mogiana eu posso dizer porque eu acompanhei praticamente todo o processo, que seria Araminas, Ituverava, São Joaquim da Barra, Orlândia, Ipuã, Morro Agudo, e daí pra diante.

 

P/1 – O senhor ficou encarregado de acompanhar a montagem do equipamento que a CTBC levou pra lá?

 

R – A montagem, porque o objetivo era eu operar os equipamentos, ficar na parte de operação. Como eu fiquei.

 

P/1 – Então o senhor virou o cérebro da Companhia lá?

 

R – Acho que isso, não. Eu acho que não seria o cérebro, acho que eu somei, posso dizer que eu somei lá. Isso eu digo com orgulho.

 

P/1 – Esse equipamento significou acréscimo de muitas linhas?

 

R – Ah, sim, sem dúvida nenhuma, porque até então, eu acho que em Orlândia, devia ter umas cem linhas telefônicas manuais, na época. Isso aí, com a implantação do equipamento, passou a ter mais ou menos... com a primeira implantação foram oitocentos terminais. Eu me lembro como se fosse agora.

 

P/1 – Automático?

 

R – Sim, totalmente automático. Fazendo uma colocação, o sistema era automático só dentro da cidade, porque até então não tinha implantado o DDD [discagem direta à distância] ainda. Então, pra se falar DDD tinha que se comunicar com a telefonista e ela iria completar a ligação.

 

P/1 - E aí o senhor ficou trabalhando dentro da Central, parou de trabalhar na rua, é isso?

 

R – Aí fui contratado pela CTBC, fui registrado em carteira e então comecei a trabalhar dentro da estação, dentro do prédio, um salão, uma estação local.

 

P/1 – Vamos descrever esse trabalho lá na Central?

 

R – O trabalho era basicamente manter o equipamento em funcionamento. Como você tinha uma rotina de testes, essa rotina tem que ser obedecida em qualquer equipamento para que você possa detectar alguma anomalia. Aí, além de você cuidar do equipamento de comutação, cuidar do equipamento que alimenta o equipamento de comutação, que seria a parte das baterias, os aterradores de baterias, as mesas das telefonistas... Era eu quem dava manutenção nas mesas, aqueles cordões de manipulação, que tinham os desgastes naturais. Eu que fazia a substituição.

 

P/1 - O senhor trabalhava em equipe ou trabalhava sozinho?

 

R – Na época, devido à quantidade que tinha, era necessário que mais de um técnico operasse o equipamento. Então tinha o pessoal, a gente tinha uma equipe que era designada para a manutenção interna que, no caso, devido à quantidade de equipamento era só eu. Oitocentas linhas e um técnico eram suficientes. E tinha um pessoal de rede. Então esse pessoal de rede operava na rede e a gente operava na parte de manutenção do equipamento interno. Mas a gente tinha uma boa integração, eu e o pessoal da manutenção externa.

 

P/1 – Pra quem o senhor se reportava?

 

R – Na época o nosso gerente, no Estado de São Paulo, em Orlândia, era o finado Seu Wilson. Ele era o gerente e ficava em Ribeirão Preto, na época. Qualquer tipo de problema que a gente tivesse a gente tinha que reportar a ele.

 

P/1 – E o senhor continuava a morar com a família lá em Orlândia?

 

R – Sim, continuava morando com a família.

 

P/1 – Nessa época, o Seu Alexandrino e o Doutor Luiz costumavam passar por lá pra ver como estavam as coisas?

 

R – Ah, sim... Passavam acho que de vez em quando, eu acho que na época eles visitavam mais as localidades do que hoje. Hoje eu acho que eles visitam muito pouco. Na época eles tinham muito mais contato. O Seu Alexandrino e o Doutor Luiz tinham bastante contato com as cidades, todas as cidades da CTBC. Parece que a coisa era mais pequena, tinham menor dimensão e eles tinham bastante contato com a gente.

 

P/1 – Que lembrança o senhor tem do Seu Alexandrino?

 

R – Acho que a lembrança que eu tenho é de uma pessoa de muito trabalho, poucas brincadeiras e muito trabalho. Acho que seria um herói, pra mim sempre foi um herói. Acho que o Seu Alexandrino fez muita coisa, trabalhou muito. Pouca gente existe como ele, principalmente que o trabalho dele era um trabalho braçal. Estou me referindo ao trabalho daquela época. O trabalho de hoje é um trabalho mais moderno. Ele como trabalhador braçal... Quer dizer, ele ia, ele tinha contato com o trabalho. Ele ia manualmente pegar no serviço, ajudar no serviço. Ele queria fazer isso, ele ia ajudar. Era na construção, não só na área de telefonia propriamente dita, mas na área de construção, de lavoura. O Seu Alexandrino não gostou só da área de telefonia, não. Eu, pra mim, ele gostava de tudo que ele fazia.

 

P/1 – Metia a mão na massa?

 

R – Metia a mão na massa.

 

P/1 – O senhor conviveu com ele bastante?

 

R – Eu acho que eu convivi mais com ele do que ele comigo. Não sei se eu vou saber explicar dessa forma, porque eu com ele, no meu trabalho, eu não desenvolvi um contato direto, de eu ter contato direto com ele. Eu sempre tive contato com o gerente, mas eu via ele muito de perto porque ele era muito atuante, eu de longe ________ pra enxergar ele, por isso que eu falo alguma coisa dele. 

 

P/1 – Era uma presença?

 

R – É, tinha uma presença em tudo quanto era lugar. A minha presença era tão pouca que ele não me percebeu muito. Acho que quando ele percebia muito a pessoa é porque ele não estava gostando muito do que a pessoa fazia.  Se ele começasse a pegar no pé de um, podia ver que aquela pessoa tinha alguma coisa que não estava de acordo com o que ele queria. E no meu pé ele nunca pegou.

 

P/1 – Está muito bem explicado. O senhor ficou em Orlândia esse tempo todo, e o que motivou a sua mudança para Uberlândia?

 

R – Eu já disse eu queria me especializar mais na área de telefonia, eu queria passar para um centro de mais equipamentos, queria conhecer mais a diversificação de equipamento telefônico e aprender mais coisa. Foi quando eu resolvi vir pra Uberlândia e tive oportunidade ter vaga aqui pra mim. Aí facilitou mais a minha vinda.

 

P/1 – O senhor pediu pra vir?

 

R – Não, eu não pedi pra vir, eu fui convidado pelo Seu Cleber Garcia, sobrinho de Seu Alexandrino. Hoje, parece que ele está na Itália, não sei bem. Então... Eu fui convidado pelo Seu Cleber Garcia porque na época que estava estruturando o setor de equipamento privado — e eu nunca tinha trabalhado nesse setor —, eu estava interessado de ingressar neste setor pra conhecer mais esse tipo de equipamento.

 

P/1 – Que é esse equipamento privado, que vem a ser...?

 

R – O equipamento privado a gente distingue do seguinte. Os equipamentos de Central são equipamentos de Central Pública, são equipamentos das companhias operadoras. Os equipamentos privados são os equipamentos de empresas onde tem os PABX [Private Automatic Branch Exchange] instalado na empresa e seus equipamentos de comutação interna dentro da empresa.

 

P/1 – E isso estava começando a aparecer no mercado na época, por isso que o senhor se interessou?

 

R – É, isso estava muito na moda. Como o setor de telefonia pública estava automatizando, o setor de equipamento privado, estavam modernizando essa parte também, as empresas estavam muito interessadas também nesse tipo de equipamento e estava expandindo muito

 

P/1 – O senhor veio pra cá aprender isso? Quem foi seu mestre, digamos assim?

 

R – Aqui na CTBC, pra maioria do pessoal, principalmente para os mais antigos, a CTBC foi sempre uma escola. E daí ela foi uma escola pra mim também. Aí a gente, num processo de trabalho no dia-a-dia com os colegas, um colega vai ensinando pro outro. Isso aí incluindo alguns cursos de especialização nas fábricas, como eu tive em várias fábricas, fazendo cursos direcionados para vários tipos de equipamentos, isso aí ajudava. Com a colaboração dos colegas mais esses treinamentos a gente conseguia dominar os equipamentos com mais facilidade. 

 

P/1 – Enquanto esses equipamentos iam sendo instalados o senhor e seus colegas iam fazer cursos nas fábricas?

 

R – Sim, periodicamente. Eu estive fazendo curso em São Paulo, em Curitiba, em Brasília, foram as principais localidade que eu estive fazendo estágio e cursos desse equipamento mais antigo.

 

P/1 – A CTBC estimulava a saída? Ia bastante gente daqui?

 

R – Sem dúvida, tinha bastante gente que fazia o curso. Pessoal de todas as localidades tinham oportunidade de fazer curso.

 

P/1 – O senhor, quando veio pra Uberlândia, veio morar onde?

 

R – Eu morava... Não, eu sempre morei, porque moro ainda no Bairro Roosevelt. Esse foi o primeiro bairro para que eu vim, e estou lá até hoje.

 

P/1 – O senhor veio sozinho de Orlândia pra cá?

 

R – Si, vim sozinho, porque na época eu era solteiro. Estava por volta dos trinta anos mais ou menos, 32. Foi quando, logo em seguida que eu vim pra cá, comecei a trabalhar na Empresa, conheci minha esposa, e logo em seguida a gente casou. Então morávamos lá e estamos morando até hoje. 

 

P/1 – O senhor conheceu sua esposa na CTBC ou não?

 

R – Não, em meus trabalhos externos por aí, em outras localidades. Como eu viajava muito, viajava pra Frutal, Uberaba, em várias localidades que a gente viajava dando manutenção em equipamento ou fazendo montagem de equipamento, a gente passava a conhecer as pessoas. Daí numa dessas oportunidades eu conheci minha esposa.

 

P/1 – Lá em Frutal?

 

R – Lá em Frutal.

 

P/1 – Aí quando tinha algum problema em Frutal o senhor era o primeiro a querer ir?

 

R – Vontade a gente sempre tinha, mas a gente tinha que aguardar determinação do encarregado na época, que a gente chamava de chefe. Era o Seu Cleber Garcia.

 

P/1 – Ele costumava viajar com o senhor, participar dessas expedições?

 

R – O Cleber, não, ele foi mais dedicado aqui na CTBC à administração. Ele era um bom administrador, eu achei. Foi um bom administrador na época, foi excelente.

 

P/1 – E dos companheiros de trabalho do senhor, tinha alguém que era especial, mais próximo?

 

R – Se teve alguém mais próximo, eu não senti. O que eu senti, e até hoje ainda sinto, é que todas as pessoas que trabalharam comigo estão muito próximas de mim. Não sei separar um do outro, não. O pessoal, quem está comigo, eu me aproximo deles da mesma forma. De qualquer um deles eu tenho um bom relacionamento, não posso apontar um, não.

 

P/1 - Esse foi um momento de muita expansão dos serviços da Companhia, quando ela estava crescendo?

 

R – A Companhia... É o que eu digo: eu vim de uma época mais antiga, mas eu passei por várias mudanças na empresa. Várias mudanças, e foram para melhor. Eu, aqui em Uberlândia, peguei uma época de expansão incrível. Disparadamente ela [estava] expandindo direto e colocando equipamentos, modernidade. Como no caso do celular, eu acompanhei não como técnico, mas vivi aquilo tudo junto, a implantação do celular. Disparadamente, sempre a CTBC crescendo demais.

 

P/1 – E como o senhor com o seu trabalho foi acompanhando essa situação? O senhor dava manutenção nas Centrais, essas Centrais foram...

 

R – Eu sempre acompanhei tudo dentro da CTBC, até de coisas que eu não estou ligado diretamente. Eu estou ligado mais à área técnica, mas através de palestras, através de reunião, através de conversas com colegas, através de verificações presentes, a gente foi acompanhando tudo isso. Desde a implantação de equipamentos eletrônicos, como as CPAs, a gente acompanhou tudo isso de perto através desses contatos.

 

P/1 – Nessa área técnica, a CTBC sempre saiu na frente das outras companhias?

 

R – Eu acredito que sim. Acredito, não pelo que a gente vê. Eu tenho certeza que sim porque, veja bem, o celular, quem foi que implantou primeiro aqui na região? Fibra ótica, quem foi que implantou primeiro aqui na região? Se eu estou lembrado foi a CTBC. A CTBC foi pioneira em várias coisas aqui em Uberlândia.

 

P/1 – A CPA, por exemplo, no interior do Brasil.

 

R – A CPA... É o que eu estou dizendo, o pioneirismo.

 

P/1 – Quando é que o senhor e seus colegas começaram a se dar conta dessa cultura de qualidade que passou a fazer parte do cotidiano da empresa?

 

R – Olha eu acho que a CTBC, através da diretoria, da presidência, sempre buscou qualidade, desde quando eu entrei no Estado de São Paulo. Só que a qualidade sempre se buscava, mas parece que não era tão divulgada. Tinha qualidade com a implantação de Centrais automáticas na região toda, no Triângulo Mineiro, no Estado de São Paulo, implantação de Centrais automáticas da Ericsson, da Siemens, nos rádios. A CTBC sempre buscou qualidade, mas a qualidade não era tão divulgada. Eu penso assim, pelo meu tempo de trabalho na empresa, vi que muitas coisa iam melhorando no dia-a-dia, anos que passavam, novos equipamentos, tiravam equipamentos antigos, colocavam equipamento mais moderno. Isso era a qualidade que estava vindo em cima disso aí. Isso não era colocado a nível de toda CTBC, “lá em tal lugar a gente implantou um equipamento de ponta”, na época não existia essa divulgação. E, hoje, se divulga demais o que foi feito, o que vai ser feito. A qualidade na CTBC sempre teve e hoje está continuando, é uma continuação do que já teve no passado que já vinha tendo qualidade, só que hoje está mais divulgado. Essa é a minha opinião a respeito da qualidade da CTBC.

 

P/1 – As pessoas costumam dizer pra nós que nos primeiros tempos de maior expansão da CTBC, o Seu Alexandrino era a cabeça administrativa e o Doutor Luiz era a cabeça técnica, e o senhor sempre trabalhou na área técnica. Deu pra conviver muito com o Doutor Luiz nesse trabalho?

 

R – Eu acho que o Doutor Luiz foi mais voltado para a área técnica, mas ele não foi de pegar na massa para fazer. Mas eu acho que o Seu Alexandrino também se envolvia muito com a área técnica. Quer dizer, o Seu Alexandrino entrava dentro de uma Central, ele conseguia ver coisas que o pessoal que estava lá dentro não conseguia ver. Problema de defeito e tal, alguma coisa que pudesse ocasionar algum problema técnico no futuro. Ele conseguia ver isso com muita clareza, com muita facilidade. Tanto ele como o Doutor Luiz conseguiam ver isso. Eles não eram de pegar pra fazer, mas eles tinham uma visão do que tinha pra fazer. Pra fazer eles tinham nós, que éramos contratados para isso. A visão deles era muito... Eles enxergavam muito longe, principalmente o Seu Alexandrino, que era um fenômeno pra enxergar o futuro.

 

P/1 – Ele descobriu um negócio tarde pra vida dele mas cedo ainda pro serviço que se tem hoje.

 

R – Eu acho que sim. Não acho que foi tarde, não sei o que é tarde, o que é mais cedo. As pessoas encontram as coisas na hora certa, não chega nada tarde, não. A hora que chegar, aquela hora, você vai ver que é a hora que você está preparado pra encontrar aquilo. Um exemplo característico é quando você encontra alguma coisa no seu caminho, talvez você esteja preparado para recepcionar aquilo com mais tranquilidade. O Seu Alexandrino encontrou as coisas na hora certa. Eu acho que ele foi muito feliz e teve muita visão.

 

P/1 – Ele teve uma coisa muito especial, pioneira, de entender a telefonia como um serviço público, menos como um negócio e mais como um serviço público.

 

R – Eu acho que ele...

 

(troca de fita)

 

R - O avanço que teve, quando a CTBC começou ingressar nessas localidades todas que ela adquiriu, o avanço que teve é uma prova que ele foi pra investir, pra melhorar aquele serviço. Aí, a consequência que ele teve foi uma coisa muito boa. Ele pensou em investir na melhoria do sistema e teve um retorno muito bom. Aquilo que ele plantou, ele teve de retorno.

 

P/1 – Teve um momento da CTBC, estava muito inchada... Quer dizer, o grupo estava começando a ter muitas empresas e a CTBC passou por uma reestruturação forte, no tempo do Seu Mário Grossi. Como o senhor sentiu tudo isso e como foi a sua trajetória nesse processo?

 

R – Mudança, são poucas pessoas que gostam, então eu tiro por mim, depende da mudança. Quando você fala “mudança” no seu trabalho, principalmente aquela mudança que às vezes você corre o risco de perder o seu emprego. Aí você vai pensar numa série de circunstâncias da sua família, no seu poder aquisitivo. Então esses tipos de mudanças, quando ameaçam o seu emprego, qualquer pessoa tenta despertar um pouquinho pra aquele fato. Mas, até então, a empresa era uma empresa muito inchada, fazia muitos favores. Chega num ponto que a empresa tem que pensar ela como uma empresa comercial e não como uma casa ou instituição de caridade. Chega no ponto que você vai pensar na empresa como empresa, ou você e seus empregados vão ficar sem empresa. Eu acho que a empresa tem que pensar como empresa. O que a empresa tem que fazer pra sobreviver, tem que fazer isso dessa forma pra que a empresa possa sobreviver. Então essa reestruturação que teve na CTBC — eu graças a Deus fui feliz, me sobrevive, estou lá até hoje — foi benéfica para a empresa. A empresa se estruturou, hoje é uma empresa muito forte. Hoje, não, sempre foi. Hoje, em termos de estrutura, eu acho que foi para o bem de todos. 

 

P/1 – O senhor, quando estava nas centrais ainda, como foi acompanhando o desenvolvimento desses equipamentos? Elas foram automatizando e modernizando cada vez mais? Fora os cursos que o senhor fazia, o que mudou no seu trabalho?

 

R – Com o passar dos anos e com essa modernização, com a modernização dos equipamentos, você tem que agir com cada equipamento em cada época de forma diferente. Por exemplo, eu disse que eu comecei descruzando linha de ferro com uma vara de bambu. Essa era a minha ferramenta de trabalho quando entrei na empresa, logo em seguida eu deixei de fazer isso e passei para um equipamento mais moderno. Passei a trabalhar com um equipamento analógico onde tinha equipamento de teste para fazer análise, o equipamento analógico também de teste, que fazia análise do equipamento que estava funcionando... Quer dizer, eu tinha que ligar esse equipamento e esse equipamento tinha uma rotina de testes que eu tinha que ficar olhando. Então, como eu disse, fomos fazendo curso para nos integrarmos dentro desse trabalho. Cada equipamento que veio no passar desses anos, com dedicação própria, mais os cursos que a gente praticava e participava e mais a ajuda dos colegas, a cada equipamento você foi se adaptando. Como hoje, eu estou trabalhando diante de um terminal de vídeo dando comando para uma central computadorizada de programa armazenado.

 

P/1 – A sua trajetória na empresa acompanhou o desenvolvimento tecnológico da empresa, poderia se dizer assim?

 

R – Eu acho que eu fui muito feliz. nessa época que eu tive dentro da empresa. Eu fui muito feliz porque eu consegui pegar o novo, o antigo e o moderno. Eu posso dizer que eu peguei o antigo, o do meio, o intermediário e hoje eu estou no moderno. Eu fui uma pessoa que pegou várias mudanças dentro da Empresa, eu conheci várias coisas e aprendi muitas coisas nessa passagem desses anos.

 

P/1 – O seu trabalho consiste no quê, hoje?

 

R – Há pouco tempo eu fui para a central computadorizada, então o meu trabalho basicamente consiste em verificações de situações de órgão, componentes de software dentro de um equipamento que está rodando, um programa que está rodando dentro do equipamento. O meu trabalho é verificar se esse software está rodando perfeito, o que eu preciso fazer quando dá algum problema em algum ramo desse software, isto é, algum bloco desse software. O meu trabalho, meu e de meus colegas, hoje, seria de verificações de blocos de software, pra ver se esses blocos de software estão executando a função programada para ele.

 

P/1 – Se detecta um problema...

 

R – Se detecta um problema a gente tem sistemas, supervisionando esses blocos de software. Se esses problemas são detectados a gente faz a intervenção, isto é, a gente, através de comandos num terminal de computador, manda esses comandos e esse comando vai até o sistema para que esse software volte a funcionar normalmente. 

 

P/1 – Bem diferente da vara de bambu?

 

R – Sem dúvida nenhuma, uma mudança extraordinária. 

 

P/1 – E onde o senhor fica hoje?

 

R – Estou trabalhando no prédio da João Pinheiro com a Machado de Assis, no Centro, que nós chamamos de prédio da Central 236, isso é um nome vulgar ao que o pessoal acostumou chamar. No quinto andar que é o Centro de Controle das Centrais CPAs, incluindo a Central UlaC e a 236.

 

P/1- Perfeito. Voltando para sua vida pessoal, o senhor conheceu sua esposa em Frutal, mas acabaram vivendo aqui. Tiveram filhos?

 

R – Sim, sem dúvida. Eu tive dois filhos. Quer dizer... Eu, não, a mulher.

 

P/1 – E o senhor mora onde aqui?

 

R – Na Roosevelt.

 

P/1 – Seu Leonildo, o que o senhor enxerga, depois de todo esse tempo, de toda essa trajetória na companhia? Como o senhor vislumbra o futuro dela?

 

R – Eu penso assim, do jeito que está hoje, visando o futuro. Eu acho que a Companhia, hoje, tem uma estrutura, uma administração, uma diretoria. A CTBC, em si, está muito madura. A CTBC passou por várias mudanças no tempo, em tecnologia. Através da diretoria, através da gerência, tem muita gente competente que eu admiro muito. Como eles conseguiram reunir tanta gente competente numa empresa? Eu chego até a parar pra pensar como eles conseguiram essa equipe muito competente. Ela tem de tudo para levar essa empresa pro futuro, sem medo de eu errar.

 

P/1 – Seu Leonildo, foi muito bom tudo o que o senhor disse. O senhor gostaria de dizer alguma coisa que a gente não estimulou o senhor a dizer?

 

R – Eu só gostaria de dizer que, hoje, com esse meu conhecimento de agora, eu gostaria de estar vivendo há uns vinte anos atrás. Vivendo com essa tecnologia de hoje há mais ou menos vinte anos atrás. Seria espetacular.

 

P/1 – Seu Leonildo, o que o senhor achou de dar esse depoimento, de ter falado?

 

R – Eu achei muito bom porque a gente pôde, eu pude passar pras pessoas um pouco daquilo que eu vivi. E você passar um pouco daquilo que você viveu, parece que vai ajudar alguém em alguma coisa. 

 

P/1- Perfeito, muito obrigado!

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