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História

Entre mares e caminhos, meu eu

História de: Cecília de Deus Leite Prado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/01/2021

Sinopse

Filha de uma migrante nordestina. Três irmãos. Relação maravilhosa com a mãe. Religião e igreja. Falecimento da mãe. Sonho em ser professora. Desistência da Faculdade de Pedagogia. Faculdade de Logística. Sonho de ser mãe. Diversas tentativas para engravidar. Casamento com seu parceiro de vida e grande amor. Trabalho. Motorista de ônibus e carreta. Empresa Brasil Terminal Portuário. Amor pela profissão.

História completa

Me chamo Cecília de Deus Leite Prado, nasci em Santos.

 

Eu não tive uma infância muito solta, porque o meu pai era um tirano. Meu pai, tipo assim, não tem conversa com ele, não tem diálogo, meu pai é: “não!”. Pronto. Meu pai não deixava nada. Eu via meus amigos irem à praia, de domingo que juntava a turma, não. Não deixava eu brincar solta de jeito nenhum. Eu fui chegar a noite em casa eu já estava noiva, porque eu não podia, dez horas tinha que estar em casa de qualquer jeito, eu não podia nada, não podia cinema, tudo tinha que estar com  o meu irmão, com a minha mãe, meu pai não deixava nada. Meu pai era só “não”. Mas acho que eu tive uma infância feliz, apesar do meu pai, porque eu tinha uma mãe parceira.

 

Todo mundo fala assim: “Mãe, você é a melhor mãe do mundo”, né? Mas existem conflitos, existe sempre… E a minha mãe… Eu não soube é o que é [ter] conflito com ela. É uma pessoa que eu não sei descrever o tamanho da generosidade daquela mulher, sabe? Ela era um ser humano generoso com todos, com um, com outro. Porque é fácil ser bom com quem a gente ama, é fácil ser bom com quem está perto da gente. A minha mãe era extremamente boa, com um coração que eu nunca vi até hoje, ninguém. A minha mãe era especial. 

 

Meu sonho de infância era ser professora, e eu fiz o Magistério, me formei no Magistério, quando foi pra fazer a Faculdade de Pedagogia, aí eu tive que fazer os estágios, né? Ali eu vi que eu não nasci pra isso. Aí foi quando eu decidi, falei: “Eu não vou mais por esse caminho, não quero”. Aí eu tava em casa, assim, e estava tendo, em São Vicente, um negócio de Lotação, pra dirigir lotação, e tinha uma prima minha que falou se eu queria trabalhar com ela, e eu não estava fazendo nada, aí eu peguei, tirei a carta de ônibus e comecei a trabalhar ali, pra passar o tempo, e foi indo. Depois que eu saí da Lotação eu entrei numa empresa de ônibus, trabalhei sete anos nesse empresa, aí depois que eu saí dessa empresa de ônibus, uma amiga minha, a Ana, ficou me perturbando pra tirar a carta de caminhão, e pra mim era o sonho dela, nunca foi meu, assim, eu nunca me imaginei dirigindo um caminhão, mas nessa eu já tinha feito faculdade, Faculdade de Logística, depois que eu terminei eu fiz pós-graduação em Gestão Estratégica de Negócios, fui fazendo outras coisas.

 

Mas [o momento que eu dirigi uma carreta], foi meio traumático (risos), porque quando eu fui fazer a entrevista, eles me perguntaram: “Você já trabalhou com carreta?”, “não - tinha acabado de sair da autoescola - nunca trabalhei em carreta”, “você fala no rádio PBX?”, eu falei: “não, nunca falei no rádio PBX”, “você já entrou no Terminal de Cargas?", “não, nunca entrei num Terminal de Cargas”, “você já trabalhou em turnos?”, “não, nunca trabalhei de turnos”, aí ele olhou pra mim e fez assim, aí eu olhei pra ele e falei assim: “Mas eu estou aqui pra aprender, eu quero entrar, eu quero aprender”. Aí eu pensei que não tinha passado na entrevista, falei: “Não, esse cara não vai me passar”, mas aí ele passou. Aí fui fazer o treinamento. Para mim foi um choque entrar no Porto [de Santos], um choque, nossa, porque superprotegida, não tinha nem noção o que era o Porto de Santos, o que eu sabia do Porto de Santos é o que eu via na TV.

E eu não dei sorte de pegar um bom gestor, o meu gestor foi meio cruel comigo… Entrei junto com a Ana Lúcia e ela já tinha experiência, ela tinha trabalhado em outros portos, então ela tava… Eu não, não sabia nada, mal sabia dirigir a carreta. Imagina, você pegar uma pessoa que não sabe nada, eu não entendia o que eles falavam no rádio, eu não conseguia dormir direito - porque você tem que dormir em horários diferentes - eu não conseguia comer direito - porque um dia você almoça às dez e meia, outro dia você almoça às duas e meia, outro dia você não almoça, que não da tempo - então o meu organismo teve que se organizar, minha cabeça teve que se acostumar, e eu não tive muita ajuda desse gestor, ele não teve paciência, sabe? Ele queria que eu chegasse fazendo, e eu tinha muito medo, eu tava muito insegura, eu morria de medo de tudo, nossa, foi muito, muito difícil o meu começo no Porto, foi dolorido. Eu achei que eu não ia conseguir, que eu não era capaz. [E aí o meu gestor]

pegou e me mudou de equipe, me tirou da equipe dele, não me quis mais na equipe dele; eu me senti um lixo, desprezada, sabe? Eu quis desistir, eu quis sair de lá, com seis meses que eu estava lá, eu quis sair. Eu fui para outra equipe, e lá sim, eu faço questão de falar, foi o supervisor Alberto, esse cara eu nunca vou esquecer na vida, sensacional, o homem era maravilhosa, em todos os sentidos, não só comigo, com todos. Parece que Deus me mandou certinho pra equipe certa. Ele falou pra mim: “Cecília, não desiste, você vai conseguir, é calma, aqui ninguém ta pedindo pra você correr, tá certo que aqui é produtividade, tem que produzir, mas ninguém está pedindo pra você correr, se sinta segura. Você vai colocar o caminhão numa bay, você não se sentiu segura? Espero um outro colocar, presta atenção onde o cara pôs a roda, vê qual foi a manobra que o cara fez, se o cara fez, você também faz…” Aí, eu me arrepio quando lembro dele falando isso pra mim. Ele me inflamou, ele me deixou de um jeito que eu devo a ele hoje o meu emprego. Hoje eu amo o que eu faço, eu faço rindo, eu vou pra lá sorrindo, eu adoro, eu acordo animada que eu vou trabalhar. Cara, eu vou pegar minha carreta, e eu vou trabalhar, eu vou produzir - e eu produzo mesmo - hoje eu posso dizer que eu trabalho, que o pessoal me admira hoje, eles falam pra mim: “Caramba Cecília, não sei o que”. Tem produtividade, quando é apresentada, o meu nome está lá em cima. Hoje eu me sinto super orgulhosa, eu, hoje, falo: “Eu me acho, eu me sinto o máximo”, porque eu faço o meu trabalho perfeitamente, corretamente, eu sei fazer, não tenho medo quando me chamam, faço tudo como eles mandam, sigo os procedimentos, sabe? E eu agradeço esse Alberto, que ele foi o gestor. Ele é o tipo do cara que te resgata, te conhece… E ele é assim com todos. Não é assim: “Ah, porque ela é mulher, quis dar uma atenção”, não. Ele é assim com todos os funcionários dele, todos os funcionários fazem questão de apertar a mão dele, eu acho isso incrível. Ele é aquela pessoa que as pessoas fazem questão de estar lá. Eu falo: “Se um dia eu for alguém, eu quero ser igual a ele”.

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