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História

Entre homenagens e dedicações

História de: Jorge Eduardo Costa do Nascimento
Autor:
Publicado em: 13/01/2015

Sinopse

Conta sobre sua infância em Garanhuns-PE, a vida humilde de sua família e a dedicação de seu pai em sustentar a si e seus irmãos, sua entrada na Escola de Engenharia de Pernambuco, em Recife, 1970. Nos fala de sua entrada na Petrobrás em 1978, após alguns anos de estágio. Fala sobre sua partida para o campo de Caçarangongo na Bahia, pelo qual ficou responsável por muitos anos. Fala sobre seu casamento, sua atuação junto à CUT e ao movimento sindical petroleiro, suas ligações políticas, sua luta humanitária pela segurança do trabalho e seus sonhos para o futuro.

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História completa

Meu nome é Jorge Eduardo do Nascimento. Nasci em 18 de agosto de 1952, na cidade de Garanhuns - a mesma terra do presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva -, no Estado de Pernambuco.

FAMÍLIA

Meu pais se chamam José Rodrigues do Nascimento, já falecido - aqui eu dedico essa entrevista a ele -, e Filomena Rodrigues do Nascimento, que está em Pernambuco neste momento. Meus avós... Juvenal é meu avô por parte de minha mãe; os avós por parte de meu pai têm... Como isso já faz muito tempo, eu realmente tenho essa dificuldade. Como a parte da história do nosso país faz às vezes, nós de famílias pobres não temos o costume de valorizar nossa família. E talvez por conta dos meus pais, que tiveram pouco estudo - mas fizeram todo esforço para que todos os filhos chegassem a estudar -, não tinham essa preocupação, a preocupação deles era pela sobrevivência. Então eu peço desculpa por não recordar o nome dos meus avós. Mas aí eu até dedico a eles, que geraram meus pais. E hoje a família presta esta declaração porque a Petrobras é do povo, a Petrobras é dessas pessoas que muitas vezes não tiveram oportunidade de estudar história, não tiveram oportunidade de conhecer a Petrobras - mas a Petrobras não é dos empregados da Petrobras, a Petrobras é do povo brasileiro, e é por isso que foi uma pergunta muito difícil para uma pessoa que tem a família como principal eixo de sua persistência de luta pela vida, pelos seres humanos, pelas questões tão importantes - como é a Petrobras; é a história de Barbosa Lima Sobrinho, que dedicou mais de 100 anos da vida dele às causas públicas. Eu ia muito a Panelas, que era a terra do meu avô, terra da minha mãe. E Panelas é onde nasceu Gregório Bezerra, uma das pessoas que mais sofreram neste país. Eu estive lá há pouco tempo, relembrando a minha infância. Meu avô, quando eu ia lá, na infância, não tinha nem luz, não tinha nem energia elétrica. Quando era racionada era um sistema de energia elétrica que funcionava até determinadas horas. Então eu ia nas férias, então meu avô tinha os que trabalhavam na agricultura, quer dizer, a principal preocupação de meu avô – ele tinha uma venda, tinha uma mercearia lá em Panelas. E por parte do meu pai, quando eu nasci, praticamente meus avós por parte do meu pai já tinham falecido, eu sou o caçula dos homens então eu peço: essa parte eu fico devendo. Meu pai, uma das primeiras profissões que ele teve - eu soube isso porque, quando ele morreu, na memória dele, a fotografia, ele tinha escrito um texto chamado “A Biografia do Menino Pobre” e isso faz parte até dos documentos que eu vou deixar disponíveis aqui -, meu pai era mascate. Lá no Nordeste ele fazia roupa feita, ele cortava roupa, e nós filhos íamos levar nas costureiras. E nas férias ia ajudar meu pai, então meu pai era mascate lá em Garanhuns, ele fazia feira lá em Garanhuns - que era no sábado - e em São João, que é próximo de Garanhuns, na segunda-feira; Lajedo, que também é próximo de Garanhuns; Capoeira, que também é próximo. Inclusive todas essas. Eu fiquei até 18 anos em Garanhuns, então essa identidade que eu tenho muito com a vida de Lula - essas coincidências na vida que fazem a gente traçar determinado caminho. Eu fiquei até 18 anos em Garanhuns estudando - quando eu saí de Garanhuns fui direto para Recife fazer vestibular de engenharia, e graças a Deus passei na primeira tentativa. Quer dizer, a primeira vez que eu saí de Garanhuns foi para ir para Recife para fazer vestibular e consegui passar. E, eu vejo hoje, estudando a partir de 76; 79 eu já estava na Petrobras e comecei a me interessar pela história de Lula. E eu vejo o seguinte: que todo o esforço que papai fez para os filhos estudarem - que são cinco irmãos; todos conseguiram chegar ao curso superior - e eu vejo o quanto foi difícil para Lula, um torneiro mecânico num país que tem preconceito, que acha que as pessoas só têm valor se tiverem um diploma. Por isso que dedico muito ao pai, uma pessoa, como mascate, sem ter o estudo, meu pai ter conseguido chegar aonde chegou. É por isso que eu digo: o meu pai, ele era um mascate, e através dessa roupa feita, de uma tesoura - que tem uma foto que tem uma tesoura -, o meu pai conseguiu como mascate com uma tesoura sobreviver e dar a cinco filhos condições hoje dignas, que qualquer um tem condições de sobreviver. Hoje eu vejo pessoas que têm filhos doutores, filhos com medicina, filhos com psicologia, com engenharia, com jornalismo e muitas vezes desempregados. Então é por isso que eu digo: uma das coisas mais importantes que um ser humano tem não é o diploma, tanto que eu não uso anel no dedo - eu não uso anel no dedo porque às vezes um anel, às vezes não significa nada, significa arrogância, prepotência; então esse anel, que não tem no meu dedo, eu coloco no dedo de Lula, aquele dedo que falta de Lula, porque aquele dedo que Lula não tem é o dedo de Deus, é o dedo de todos os engenheiros, de médico, de psicólogo, de doutores, de empresários, que muitas vezes, com a sua arrogância, hoje são obrigados a respeitar um torneiro mecânico. Por isso que a Petrobras faz parte desta história. A Petrobras - quando a gente vê um doutor Barbosa Lima Sobrinho, que foi um dos jornalistas mais importantes que este país já teve e que dedicou uma boa parte a defender a Petrobras e que não era empregado da Petrobras, então eu acho que quando você pergunta o que meu pai era, meu pai era um menino pobre que teve um sonho, e esse sonho foi realizado quando seus filhos fizeram com que ele pudesse ver os filhos formados. E houve um corte, houve um corte na vida do meu pai. Em 1968 ou 69, o irmão mais velho, José Carlos Costa do Nascimento, foi cassado pelo 477. Ele fazia engenharia agronômica, era o mais velho, era o filho, assim, que seria a primeira realização do meu pai. Ele foi cassado pelo 477, ou seja, foi proibido de estudar. E eu vi meu pai em Garanhuns tendo que ver isso, sofrer isso. Tudo bem, o meu irmão foi embora, teve que parar os estudos, foi viver enfrentando a situação e conseguiu sobreviver. Em 70, meu irmão - o outro é arquiteto, é designer, um dos designers mais importantes que o país tem, João Roberto Costa do Nascimento, mais conhecido como o Peixe, um homem que criou a marca da bateria Moura, do Bompreço, a marca, e hoje é secretário de Cultura de Recife ,que fez um grande Carnaval - quem foi a Recife esse ano viu que o Carnaval - como o ministro da Cultura ,Gilberto Gil, se emocionou lá, vendo aquela festa de todas as culturas desse país, que o Brasil é um país rico  - e ele foi preso em 1970. E eu lá em Garanhuns, vendo meu pai sofrer. Então eu vejo que a Copa de 70 eu não pude comemorar como eu deveria comemorar o tricampeonato brasileiro, da Seleção Brasileira, porque eu tinha um irmão que estava sofrendo dentro da prisão. Mas mesmo assim ele conseguiu sair da prisão e hoje conseguiu terminar seu curso, como o outro irmão meu conseguiu terminar, e meu pai graças a Deus viveu e viu essa felicidade. Então meu pai era mascate, mas eu acho que ele deu um ensinamento muito maior. Ele não sabe o valor que tem, não. O que eu aprendi em universidade - porque o que eu aprendi na Escola de Engenharia de Pernambuco, o que eu aprendi na Petrobras foi muito, o que eu aprendi na vida foi muito, mas eu acho que o maior ensinamento que eu recebi foi o ensinamento do ser humano aprender a respeitar os outros não pelo seu valor, se tem um anel ou se tem muito dinheiro, mas pelo valor humano, de respeitar o ser humano, o que está dentro do interior de cada pessoa. Então eu acho que meu pai foi um mascate com aquela tesoura, que eu digo que é a tesoura para cortar a corrupção, cortar o tráfico de influência, mas é uma tesoura que representa uma simbologia do torneiro mecânico, do jeito que Lula chegou à Presidência da Republica - sem precisar roubar, com ética, com respeito. Eu acredito que as pessoas agora podem lutar, podem ter uma esperança, nós temos que lutar - porque não depende só do presidente da República. É como a Petrobras - a Petrobras não depende só do presidente da Petrobras; a Petrobras depende dos trabalhadores, depende de resgatar a história da Petrobras para a sociedade. Porque não adianta nós conseguirmos produzir a 2.000 metros de profundidade na lâmina d’água, nós conseguirmos descobrir o campo de Majnoon, que é um dos maiores campos do mundo - no Iraque, para as pessoas que não sabem; quem descobriu um dos maiores campos do mundo, no Iraque, onde está tendo esta guerra, foi a Braspetro, a Petróleo Brasileiro Internacional que conseguiu descobrir -, então não adianta a gente descobrir tudo isso se o cidadão comum não tiver a história, o resgate de quem faz a história. Então eu acredito exatamente nesta questão, então você levantou uma coisa: se eu continuar falando aqui vai dar 24 horas, vai dar um ano; eu vou passar o resto da vida falando do meu pai, como de minha mãe, porque são essas as pessoas a que a gente dedica.

INFÂNCIA

Uma das questões mais importantes para falar da minha infância - que quando chove aqui, principalmente como choveu ontem,  aquelas chuvas torrenciais lá em Garanhuns, lá no Nordeste – é que eu brincava na chuva. Então uma das brincadeiras que eu me lembro era exatamente brincar na chuva, porque quando chove no Nordeste é festa. Brinquei muito de ximbra, que é bola de gude. Ximbra, que era bola de gude, brinquei muito de futebol - o meu sonho era ser jogador de futebol. Afinal, eu digo que meu pai fez tudo para eu ser engenheiro. Como eu não gostava de desobedecer meu pai, eu fiz para ser engenheiro, mas o meu sonho era ser Garrincha, ponta-direita do Botafogo, e jogar. Joguei muito futebol - eu acordava cedinho para jogar futebol, mas sempre estudando também. E foi por isso que eu terminei por um acaso na Petrobras, mas eu acho que brinquei bastante a infância, porque cidade do interior é outra vida. A gente brincava de tudo, Semana Santa a gente vendia frutas na feira - era uma brincadeira, porque os nossos vizinhos tinham um sítio, então a gente fazia a cota. Todo mundo dividia o dinheiro, no final, a criançada. Eu brinquei muito de corre-corre, de se esconder. Então, eu digo o seguinte: eu acho que a minha infância, quer dizer, eu tive que trabalhar também, porque nas minhas férias e sábados muitas vezes eu ajudava meu pai e eu já criança eu também contava o dinheiro do meu pai. Ele, quando chegava da feira, ele colocava o dinheiro lá e eu contava. No entanto, eu não quero mexer em dinheiro hoje, por quê? Eu acho que eu fiquei com trauma, porque era muita responsabilidade uma criança ter que contar dinheiro, mas era assim- a gente sabia matemática, sabia contabilidade, e assim a gente construiu a nossa família. Então eu brinquei bastante. Jogava botão, futebol de mesa, então cada um tinha um time - o Peixe era o Santos, o José Carlos era o Náutico, eu era o Botafogo, o outro era o Palmeiras. Então a gente fazia campeonato de futebol de mesa em Garanhuns, então jogamos muito, brincamos bastante.

CASA

A minha casa era interessante, porque quando o meu pai faleceu – aliás, meu pai e minha mãe antes foram para Recife, então antes dele falecer a casa ficou alugada bastante tempo - quando ele morreu, cada um procurou pegar alguma coisa da família. Eu fui lá, vi as fotos, vi várias coisas. Terminei ficando com a tesoura dele, e eu não queria que vendesse a casa lá em Garanhuns - para você ver o quanto está na minha cabeça aquela casa, porque ela ficava no lugar mais baixo de Garanhuns, e quando chovia a água vinha de todos os lados e lá muitas vezes enchia a rua e transbordava, e a gente tinha que limpar a casa, porque transbordou - e isso era uma festa. Como eu te disse, minha mãe mandava a gente limpar, tirar a lama toda, e terminava sendo uma festa depois ter que pintar. Então a minha casa ficava na rua Dom José, 303, em Garanhuns, e é como se eu estivesse lá hoje. Até eu vim aqui, que tem até um pouco de interior por aqui por dentro, é como se eu estivesse lá, porque essas questões culturais da infância fazem a gente viver o presente

SONHO

Também a gente não pode esquecer o passado. A gente só consegue vislumbrar o futuro tendo outros sonhos. Eu tenho outros sonhos, eu tenho 50 anos, vou fazer 51, mas não morri. Eu tenho outros sonhos, eu sonho que cada cidadão possa estudar, possa comer, possa ter saúde. Então esse é meu sonho - o sonho do meu pai eu consegui alcançar -, um sonho que é individual, qual é o meu sonho? É que qualquer cidadão brasileiro possa estudar, possa se formar, possa fazer um concurso - seja na Petrobras, na Eletrobras, no Banco do Brasil ou numa iniciativa privada; optar por qualquer empresa. Então esse é meu sonho, e a minha casa resgata isso, porque lá foi onde eu estudei, onde eu preparei a minha base, quer dizer, é muito difícil uma pessoa que sai do interior como Garanhuns a primeira vez que tenta o vestibular consegue passar.

EDUCAÇÃO

A minha base foi muito bem feita. Eu, no científico, terceiro ano científico, naquela época eu já tinha resolvido todos os problemas de física do livro de Halliday, que é dado no primeiro, segundo ano na escola de engenharia, mas por quê? Porque eu estudei em bons colégios em Garanhuns. Então isso é o recorde. E onde eu estudava para me preparar para fazer as provas no colégio - que era o Diocesano o primeiro, depois o estadual e depois o XV de Novembro - era exatamente em casa ,onde eu pude curtir as brincadeiras e a seriedade. A primeira vez que eu fui para a escola eu tive que ir na marra, fui na marra. Meu tio - esse que morava em Panelas - por coincidência estava lá visitando minha mãe e: “Hoje você vai para a escola”. Eu sei que eu corri, fiz de tudo para não ir para a escola. Ele me pegou na marra para ir para a escola - e interessante, só foi esse dia que eu dei trabalho para ir para a escola. Fui, cheguei lá, gostei. A minha primeira professora, acho que era dona Terezinha o nome dela. E só foi dessa vez que dei trabalho para ir para a escola. Depois eu me acostumei, gostei e gosto muito de estudar. Com 18 anos, mais ou menos, eu fui para Recife para fazer o vestibular. Quando eu fui já estavam os dois irmãos mais velhos, que eu já havia citado, o Zé Carlos e o Peixe. Eu já tinha ido várias vezes a Recife visitar, tinha ido inclusive na escola de arquitetura. Inclusive tem um lance engraçado - a primeira vez que eu fui na escola de arquitetura foi para conversar com meu irmão, que era Peixe; ele já tinha um nome popular lá na escola, que colocaram: Peixe. E aí, por coincidência, colocaram o meu nome Piaba, que é o irmão de Peixe, que é o peixe pequeno. Colocaram Piaba, fiquei com o apelido Piaba. Então, quando eu fui estudar em Recife, eu já conhecia. Tinha um tio lá, fiquei inicialmente na casa do meu tio e fui morar na casa dos estudantes universitários, que é CEU. Eu já tive a felicidade de morar no CEU, que é a casa dos estudantes universitários. Lá é bom porque a gente aprende a morar num coletivo, eu morava na casa dos estudantes e fazia engenharia, que era próximo. A gente ia a pé para a escola de engenharia. Fui inclusive Presidente da Casa do Estudante Universitário também por vários motivos. A gente tinha problemas de água, alguns problemas de reforma. Era um momento em que queriam acabar com as casas de estudantes, e nós lutamos para não acabar com a casa dos estudantes. Fizeram a reforma, e a gente ficou lá, e eu acho que foi um sucesso a gente proteger um local para as crianças que vinham do interior, os adolescentes com 18 anos, mas já com uma outra formação. Porque hoje o adolescente leva mais tempo, mas com 18 anos eu já tinha responsabilidade, morava na Casa dos Estudantes e estudava engenharia. E lá na Casa do Estudante aprendi a conviver com muita gente. Eu quero recordar aqui o deputado federal Fernando Ferro, do PT de Pernambuco, um dos deputados mais atuantes do Congresso Nacional - inclusive participou da CPI do Narcotráfico, ele inclusive na área de minas e energia é um dos técnicos mais competentes dentro do país; conseguiu avaliar o PV, aquele apagão que teve o ano passado -, eu convivi com Fernando Ferro na Casa do Estudante. Eli, que é meu cunhado, e várias pessoas - Anisio Brasileiro, que está lá na Escola de Engenharia - e consegui conviver com pessoas diferentes. E isso me deu um amadurecimento muito grande. Eu citei alguns, mas pode dedicar também a todos os meus colegas e amigos da Casa do Estudante da Universidade de Pernambuco, porque aquela história do CEU é uma história que a gente aprende com outras pessoas de outros Estados, de outras cidades do interior, mas que têm um objetivo só, que é estudar e sobreviver.

INGRESSO NA PETROBRAS

Eu fiz o concurso da Petrobras durante o período da Escola de Engenharia. Eu fui monitor de física e também dava aula de física e matemática lá em Recife. E coincidência ou não, eu estava fazendo o último ano da Escola de Engenharia. Minha esposa, que continua comigo até hoje, eu acho que eu devo muito a ela ter entrado na Petrobras, porque eu nem pensava fazer o concurso da Petrobras, e coincidência ou não, 7 de abril é o aniversário dela. E não é por um acaso que eu estou aqui: existe uma sinergia, ela me deu força, quis que eu fizesse o concurso. Eu fiz o concurso - eu já dava aula de física e matemática; exigia muito conhecimento de física e matemática -, eu fiz e passei, passei em Pernambuco. Fiz, acho que foi em outubro mais ou menos, que eu fiz o concurso, o concurso de engenharia de petróleo. Então foi aí que eu entrei na Petrobras e depois eu fui fazer o curso lá na Bahia.

CASAMENTO

Eu conheci minha esposa na Escola de Engenharia de Pernambuco - ela fazia engenharia também. Eu morava na Casa do Estudante Universitário. Durante a semana era da casa para a universidade, da universidade para a Casa do Estudante ,e às vezes final de semana a gente ia no máximo num cinema. Tinha muito pouca diversão, se dedicava muito ao estudo - e eu por um acaso conheci ela, porque comecei a participar do movimento estudantil, na época em que começou a redemocratização do país, em 74, 73, 74, 75. E várias pessoas que participaram do movimento estudantil se encontravam às vezes fora da universidade, e eu realmente comecei a namorar com ela no dia da formatura dela - porque ela terminou um ano antes de mim. E quando eu fui convidado para a formatura dela, a festa de formatura, foi quando eu comecei a namorar com ela. A partir daí começou a ter muita... Além do curso de engenharia, que era comum, as dificuldades. A gente se conheceu lá mesmo na Escola de Engenharia; ela fez civil, eu também fiz civil. Ela também teve um irmão que foi preso, que foi preso junto com o meu irmão - na mesma época -, então isso nos deu muita união e solidariedade. Por quê? Porque a gente não podia falar isso na escola, porque se a gente falasse podia ser presa também, podia sofrer tortura, podia sofrer perseguição. Então a nossa identidade, de ter em comum ela um irmão e eu um irmão que sofreram nessa década de 70, eu acho que isso nos ajudou muito a compreender um ao outro. Eu acho que está fazendo 27 anos que eu vivo com ela, eu acho que hoje em dia é muito difícil conviver tanto tempo com uma pessoa só. Precisa ter muita compreensão, muita dedicação. É como eu digo: eu acho que a vida da Petrobras e a vida da minha esposa são mais ou menos comuns, porque coincidiram as duas vidas. A gente às vezes xinga, reclama, mas a gente só xinga porque tem vida; existe amor, existe dedicação. Eu gosto muito da Petrobras, como eu gosto muito da minha esposa, da minha filha. Não é por um acaso que hoje eu falei do Lula, de Garanhuns, de toda aquela história. Hoje eu descubro que a esposa de Lula, a Marisa, a primeira-dama do país, faz aniversário hoje também. E coincidência ou não, eu tenho um irmão - o outro irmão, que jogava futebol comigo - é Lula; até tem uma foto dele aí que eu juntei, que ele mandou lá de Garanhuns, que eu nem me lembrava disso: eu e ele jogando no colégio XV de Novembro. onde nós estudamos. Então, o que eu estou dizendo, o que eu posso falar da minha esposa, da minha convivência assim, foi uma namorada que começou na Escola de Engenharia.

INGRESSO NA PETROBRAS

Foi em outubro, novembro, dezembro - dezembro foi a formatura, e em janeiro começou o curso da Petrobras, 31 de janeiro de 76. Terminei em 75, e logo em seguida emendou com o trabalho da Petrobras, um curso que já é um trabalho, que já é uma responsabilidade.

CASAMENTO

Ela foi em seguida porque ela tinha terminado o curso, ela trabalhava numa empresa de saneamento em Recife. Em 22 abril de 76, descobrimento do Brasil, eu também casei com a minha esposa. Essa data é simbólica, 22 de abril, porque também a gente já estava junta. Ela foi para lá durante o curso, e a gente simplesmente formalizou. Ela sempre trabalhou em saneamento, ela fez curso, na Bahia, ela trabalhou nessa parte também de hidráulica, saneamento, planejamento urbano, trabalhou inclusive na Prefeitura lá de Salvador na época. O primeiro ano que nós tivemos em Salvador teve um fato que marcou muito tanto a mim quanto a ela: ela teve uma gravidez tubária; foi um Deus-nos-acuda - tivemos que correr muito para detectar que era uma gravidez tubária. Graças a Deus conseguimos a tempo. Ela fez a cirurgia em Recife; tinha muito vínculo de família, nós tivemos que sair correndo de Salvador para fazer a operação em Recife, e deu tudo bem, e eu vim para o Rio. Isso marcou muito ela na cidade de Salvador. Gosto muito da Bahia - se não tivesse tido esse incidente talvez eu estivesse na Bahia até hoje. Acho que tem muito em comum com os cariocas também; os baianos e os cariocas. Aí eu terminei vindo para o Rio, porque ela não se adaptou lá. Ela veio para o Rio primeiro do que eu. Começou a fazer o curso da Fundação Oswaldo Cruz e de Manguinhos, de saneamento também, e ficou vários anos procurando emprego e tal e acabou fazendo o concurso da Prefeitura aqui da cidade do Rio de Janeiro e hoje trabalha graças a Deus na Prefeitura como fiscal de renda. Muito bem, eu acho que isso deu uma auto-estima muito grande, porque o crescimento de uma família não pode ter dominação ou de um ou de outro. Eu acho que o crescimento tem que ser de toda a família. Eu fico muito realizado, eu acho que o crescimento de minha esposa – hoje, inclusive por alguns problemas que não vale a pena citar aqui, graças a Deus ela tem um salário muito melhor do que de um engenheiro de 27 anos da Petrobras, embora ela tenha um tempo menor na Prefeitura. Acho que graças ao esforço dela, à dedicação dela. Ela gosta do trabalho, e isso aumentou muito a auto-estima dela - como também me equilibrou, porque na realidade já houve alguns problemas de ordem política em outras gestões da Petrobras, o que me prejudicou bastante profissionalmente. Então eu acho que o maior ganho de tudo isso foi o ganho da família, o ganho de passar dificuldades. Quando eu fui demitido por justa causa da Petrobras em 88, por conta de uma greve legitima que nós fizemos, vitoriosa, da URBE, junto com todos os petroleiros do país - alguns estão até na direção da Petrobras hoje e eu faço uma homenagem ao meu companheiro Santarosa, que junto com outros companheiros, como o companheiro Armando, mais conhecido como Bacalhau, o próprio presidente da Petrobras, o companheiro José Eduardo Dutra; eu posso estar esquecendo de alguns companheiros -, mas eu acho que aquela luta de 88 ajudou alguns companheiros, como o próprio presidente da Republica, que está hoje onde está. Então eu dedico à minha esposa. Ela não trabalhava - a única pessoa que trabalhava na minha família era eu, e isso dificultou muito, mas graças a Deus ela esteve do meu lado, me ajudou, me deu toda a solidariedade, e nós enfrentamos sozinhos, voltamos à Petrobras pela própria Justiça. Isso é uma demonstração de força, de que os petroleiros são uma categoria eficiente. E eu acho que é muito importante, a esposa e a família, porque se você não tiver uma família por trás, uma sustentação humana por trás, você não consegue vencer os obstáculos. Graças a Deus eu considero isso uma página virada da minha história, uma página vitoriosa, uma página que eu não posso dizer que foi somente minha. Eu dedico muito à minha esposa; ela dividiu comigo tudo o que eu tenho na vida. Hoje eu dedico - antes de casar, à minha família, ao meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus avós, que por um acaso me esqueci, mas dedico tudo -, divido com ela hoje, porque eu acho que tenho muita força, mas às vezes a gente se sente frágil, a gente precisa de uma ajuda, de um colo, de um ombro, e eu acho que a minha esposa deu esse ombro a mim. E não é por um acaso que ela, há 27 anos, 28, ela teve a sabedoria de dizer, de me dar força. Porque eu nem pensava, pensava em continuar professor, gostava muito de dar aula, eu acho que sou professor por natureza, e ela teve a luz e disse: “Faça o concurso”. E acho que valeram a pena esses 27 anos.

INGRESSO NA PETROBRAS

Antes de fazer o concurso não tinha pensado em trabalhar na Petrobras, até porque Pernambuco não tem muito de Petrobras, a Bahia tem bastante, São Paulo as refinarias. Pernambuco tinha a BR Distribuidora - não tinha o terminal ainda na época, quer dizer, hoje tem o terminal, e nós estamos lutando, os pernambucanos, para que surja uma refinaria em Pernambuco, porque até o Porto de Suape já tem infra-estrutura. As negociações entre o governo brasileiro e o governo da Venezuela levando a um bom caminho, provavelmente vai ser uma decisão técnica, mas também geopolítica. O presidente da Petrobras tem dado as suas declarações considerando a questão técnica. O lobby está muito grande, os interesses são muito grandes, mas a gente tem que ver o interesse do país, que é o combate à fome, a questão do desenvolvimento regional, fazer com que as pessoas tenham emprego, tenham condições de cidadania. Porque não tinha nada disso em Pernambuco. Eu pensava em ficar ou na universidade, fazendo pós-graduação ou dando aula lá, ou fazendo física - que eu gostava muito, gosto ainda de física. Lógico que com essa vida, em que eu assumi determinadas posições políticas, construir o Partido dos Trabalhadores, construir CUT, defendi a categoria petroleira dos ataques que a Petrobras sofre, muitas vezes injustos, do combate aí das pessoas que querem acabar com as riquezas brasileiras e entregar como se fosse uma mercadoria qualquer. Isso é uma questão estratégica, o petróleo é estratégico, a energia é estratégica. Eu não pensava, eu acho que foi uma luz: “Faz o concurso”. Fiz, fui para a Bahia, gostei da Bahia - alguns colegas meus que foram para o curso da Bahia desistiram. Eu me lembro de um detalhe, de alguns assim que logo nos primeiros três meses se adaptam ou não com a parte de petróleo. Tinha aula de blow ou , blow out é quando um poço pega fogo. Então passava - naquela época o maior incêndio acho que tinha sido de Mapele, é um campo lá na Bahia; tinha sido o maior incêndio da história da Petrobras, aí teve a aula sobre blow out:  incêndio de petróleo, como combater e tal. Alguns colegas desistiram: “Não vou continuar”. Foram embora e pediram demissão e voltaram - alguns eram até de Pernambuco. Era gente do Brasil todo, eram mais de 150 engenheiros do Brasil todo nesse curso de engenharia de petróleo, CEP 76. Aí eu não pensava de jeito nenhum, acho que foi por aí que eu terminei batendo da Petrobras. O curso lá na Bahia era praticamente de janeiro a novembro, dezembro a gente tirava as férias, era corrido o curso. Tinha a parte teórica, tinha as matérias - reservatório, produção de petróleo -, tinha noções de administração - porque queira ou não queira você tem que conhecer a organização da empresa, mas eram cursos específicos dirigido para engenharia de produção e perfuração, o curso tanto dava perfuração como produção de petróleo. No final do curso podia escolher: ou ia para produção ou ia para perfuração. Durante o curso teve alguns estágios. Nessa primeira etapa de três meses nós fizemos um estágio prático de visitar uma plataforma, passar 15 dias lá e conhecer como ia se ambientar ou não. O curso era esse. Era um curso teórico com uma visão prática. Agora, a parte prática mesmo começava no primeiro ano. Você passava no curso e ia trabalhar na plataforma, ou na Bahia ou em Sergipe, onde você ia trabalhar, a tua especialização, aí tinha um curso mais prático.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Eu fiquei de 77 até 78 - 76 o curso - 77, 78 na Bahia; trabalhei na Bahia antes de vir para o Rio. Na área de produção. Foi ótimo, eu trabalhei - tem até uma foto aí, estagiário, cabelo de capacete; eu fui responsável pelo campo de Caçarangongo. Caçarangongo é um nome meio estranho, é lá perto de São Sebastião do Passé, que é próximo da cidade de Candeias, que dá o que, uns 100 quilômetros de Salvador. Todos os dias a gente pegava o ônibus por volta de 6 horas, 10 pras 6, e 7 horas, 7 e meia já estava no campo, então, eu era responsável por esse campo de Caçarangongo. Eu me recordo que na época estavam descendo as primeiras bombas elétricas testadas - tudo importado -, estava sendo testado o bombeio elétrico, que é colocar uma bomba no fundo, uma bomba elétrica, e conseguir fazer com que o petróleo chegue até a superfície. Porque o poço surgente é aquele poço que produz naturalmente - você não precisa colocar nenhuma bomba, nem gás, nem nada; ele surge naturalmente. Quando ele perde a elevação, ele perde o poder de se elevar, então você coloca algum mecanismo artificial, que se chama elevação artificial, um método de elevação artificial de petróleo. E aí naquela época estavam testando essas bombas, e os cabos também era a primeira fabricação nacional, e eu me lembro que a produção aumentou bastante, foi um período muito bom lá na Bahia, eu consegui adquirir os conhecimentos básicos. Até porque o poço de petróleo, tanto faz ser em terra como em mar, a metodologia da parte de petróleo é a mesma, o que muda é que no mar você precisa de equipamentos mais sofisticados, em terra são mais simples, mas a metodologia de como você tira o petróleo lá de baixo é praticamente a mesma. Em 79 eu vim para o Rio, continuando a trabalhar na mesma área de produção de petróleo, programação, previsão.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO

Lá era um campo, tinha vários campos, no caso na Bahia tinha quatro campos: era Brejinho, Cana Brava, Caçarongongo e tinha mais um campo, Gomo. Eram quatro campos, campos de petróleo - que não é poço, porque um campo são vários poços. Então, quando eu sai de lá da Bahia e vim trabalhar no Rio, na produção de óleo, que coordena a produção nacional do petróleo, que funciona aqui no Rio - na época funcionava dessa forma, quer dizer, cada engenheiro ficava responsável por um campo. Por exemplo, tinha um engenheiro na Bacia de Campos, o outro ficava pela Bahia, o outro pelo Rio Grande do Norte, o outro lá para o Amazonas, então cada um ficava responsável por uma área e acompanhava a produção, os investimentos, as obras, está entendendo? Basicamente isso.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Eu na época estava responsável pela área do Norte e Nordeste, que pegava - a Bahia era uma região só, mas pegava Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte e estava começando Ceará. Eu inclusive peguei o início da produção em terra no Rio Grande do Norte, porque no início só tinha produção marítima no Rio Grande do Norte. Eu acompanhei todo esse início. Um fato interessante é que começou a descobrir petróleo no Rio Grande do Norte em terra a partir de uma piscina em um hotel, porque começou a vazar óleo e vir água e óleo junto. Aquelas piscinas térmicas - eu não sei se todo mundo conhece, mas no Rio Grande do Norte a temperatura é altíssima, e em Mossoró tem um hotel de termas, em que os turistas estavam lá hospedados, tomando banho; de repente começou a vir a água escura. Na realidade foi ali que começou a produção terrestre, e hoje o Rio Grande do Norte é a maior produção terrestre do Brasil. A fazenda Belém, que já fica do lado do Ceará e tem do lado de cá vários campos do lado do Rio Grande do Norte, na realidade fica na divisa entre Rio Grande do Norte e Ceará. Daí então começou assim. Na época também não tinha nada no Amazonas, me lembro que foi um poço pioneiro, o PAS 11 – Palácio Submarino 11 - que começou também a produção lá no Norte, que hoje é a Bacia de Solimões, que é a região norte, que hoje já é um Distrito independente, já é um órgão independente do Rio Grande do Norte, então é basicamente isto daí.

UNIDADE

UN-RNCE

Os principais problemas que tinha lá na região do Rio Grande do Norte... Era o início da produção terrestre, o Rio Grande do Norte só tinha produção marítima, que eram dois campos, Agulha e Ubarana, então começou em terra naqueles poços rasos. Tinha alguns problemas, porque os poços lá eram bastante rasos, enquanto os da Bahia eram um pouco mais profundos, os poços terrestres. Tinha que ter cuidado com a água do lençol freático, para não ter poluição. Tinha que ter todos os cuidados, e era muito distante um poço de outro. Para controlar aqueles campos todos, aqueles vários poços, tinha que ir logo. Tinha também problemas no mar, que era o seguinte: foram colocadas duas plataformas, de processo e de armazenamento - era PUB 2 e PUB 3; PUB é a sigla, Plataforma de Ubarana, então era para processar e armazenar o petróleo -, só que essas plataformas tiveram um erro de projeto. Elas foram projetadas para o Mar do Norte, que é uma temperatura baixíssima; trazer isso para o Rio Grande do Norte, onde a temperatura é altíssima, você não conseguia ficar lá dentro. Uma pessoa operando dentro de uma plataforma de concreto, armazenando petróleo, e aquela questão toda. Teve muitos problemas de técnicos dessa parte. Tanto que terminou se construindo em terra. O que ajudou muito também foi a produção terrestre. Isso começou a viabilizar uma estação em terra, que hoje se chama Estação de Guamaré, que é uma estação em terra que já tem até planta de gasolina natural. Essas questões aí foram, com o tempo, os próprios técnicos, os engenheiros, vencendo esses desafios, sejam desafios operacionais da própria natureza, sejam os problemas técnicos. Eu sempre digo o seguinte: aqui o nordestino é pequenininho; a altura média do nordestino todo mundo sabe que é em torno de 1 metro e 60, 1 metro e 65. Se você traz uma plataforma importada da Inglaterra ou de outro país, a altura média de um desses é muito maior, então todo engenheiro tem que estudar a matéria de ergonomia, que é matéria de ergonomia. Eu não posso estar aqui sentado incômodo, eu tenho que estar sentado na altura do vídeo, sem nenhum desconforto. Para quê? Para que o produto final, que é a entrevista, saia da melhor maneira possível. A mesma coisa é a questão do petróleo, o petróleo tem que ser entregue da melhor maneira possível, com qualidade e sem acidente, então quando fizeram essas plataformas cometeram um erro, de não fazer os estudos ergométricos, que seria a adaptação dessa plataforma seja ao homem que iria operar, seja à temperatura ambiente. Mas nisso a Petrobras evoluiu muito, e hoje a gente está dando de, eu não digo de 10 a 0, porque a gente tem que ser simples, a gente sempre está aprendendo com os outros, a troca de conhecimento é muito grande hoje no mundo, eu acho que a Petrobras hoje avançou bastante.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Acidente de Enchova

Eu fiquei trabalhando nessa área de produção e controle de produção basicamente até 1984. Eu trabalhei nessa área de controle de produção e acompanhava o Rio Grande do Norte, Sergipe acompanhava os projetos de engenharia e tudo. Em 84 houve um acidente, que ocorreu na plataforma de Enchova, em que morreram 37 trabalhadores, eu acho que foi um dos maiores acidentes que a Petrobras já teve. E é por isso que eu digo que a comunicação e a informação  têm que chegar à população de uma maneira bem transparente. Eu acho que em 84 se procurava chegar a 500 mil barris de petróleo a qualquer custo e passava por cima de determinados critérios - seja técnico, que seriam os períodos de vida dos reservatórios. Porque você não pode produzir um reservatório, tirar a vazão a qualquer preço, porque ele tem que ser controlado, ele tem que ter medida aquela vazão, porque senão diminui o tempo de produção daquele campo. As instalações de plataforma têm que ser bem cuidadas, ela tem que ter um certo tratamento. Não se pode colocar a produção acima da capacidade de uma determinada plataforma. E também a questão das vidas humanas. Você não pode colocar um ser humano - todo o ser humano tem um limite, então você não pode colocar a sobrecarga de serviço a ele, a qualquer custo você colocar sobrecarga de trabalho e de análise sem saber se aquilo coloca em risco ou não a própria vida dele como também as instalações e os reservatórios. Na época eu era diretor do Sindicato dos Engenheiros aqui, junto com outros diretores que hoje são conhecidos de vocês - o Jorge Bittar, o Eliomar Coelho, Luiz Fernando, que hoje trabalha como assessor do diretor Hildo Sauer, e vários outros companheiros que junto conosco, no Sindicato dos Engenheiros, eu acredito que se começou a mudar a história do Rio de Janeiro. Começou a mudar a história da engenharia e começou a mudar inclusive a visão de produzir petróleo e procurar sempre ver o outro lado, o lado da técnica. Então eu não sei por quê, até hoje é uma interrogação que eu coloco, porque eu estava apenas cumprindo o meu dever como engenheiro, em primeiro lugar, colocando a minha capacidade a serviço da humanidade, a serviço da vida. Eu acho que não é incompatível você produzir petróleo e defender a vida, eu acho que esses dois termômetros são o mesmo objetivo. Um não vai contra o outro, são duas escalas idênticas. Na produção de petróleo eu posso produzir petróleo e garantir a vida das pessoas em primeiro lugar. O emprego que isso gera, o que pode gerar... E até essa data, após esse acidente, eu, representando o Sindicato dos Engenheiros, coloquei uma entrevista colando a minha visão, que era do Sindicato dos Engenheiros. Indiquei esse acidente, que precisava ser indicado, e arbitrariamente, depois de muitas pressões sobre a minha pessoa, procuraram me convidar para ser chefe da segurança na Bacia de Campos. Por uma questão ética - eu fiz um concurso para engenharia de petróleo, eu devo os meus conhecimentos à população brasileira, eu estudei em universidade pública; os meus conhecimentos são do povo brasileiro; eu passei num concurso público da Petrobras para ser engenheiro de petróleo, eu fiz um curso de engenharia de segurança por meu interesse como cidadão do mundo, eu não fiz um curso de engenharia de segurança na Petrobras, eu fiz um curso após o expediente da Petrobras, então a Petrobras me convidou depois de fazer pressão psicológica: “Se for dar outra entrevista”, eu disse: “Se eu for dar outra entrevista eu vou confirmar o que eu disse”. Aí me convidaram para eu ser chefe da segurança na Bacia de Campos. Eu não aceitei, até porque eu acho que tem engenheiros na Petrobras, de segurança, muito melhores do que eu, que conhecem lá, que estavam lá trabalhando. Então não era problema de trocar pessoas, é de mudar filosofia, é de mudar pensamento - e é por isso que eu acho que essa mudança que houve no país agora, o ano passado e agora na Petrobras, José Eduardo Dutra, eu acho que o fato dele já ter feito um acordo com as viúvas dos companheiros da P-36. Eu dedico essa matéria a todas as pessoas que perderam a vida pela Petrobras, pelo Brasil. Foram mais de 127 pessoas que morreram na Petrobras nesses últimos 4 anos, e eu acho que é preciso essa visão humanista. É necessário a gente ver com bons olhos, a gente procura resolver as coisas em acordo, de forma transparente. Então até 84 a minha vida na Petrobras foi normal, depois de 84 eu não aceitei ser chefe por imposição. É o que eu digo: eu estou à disposição do novo governo, estou à disposição do presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, estou à disposição do povo brasileiro. Porque eu penso assim: quem paga o meu salário e o salário dos funcionários da Petrobras é o povo, e é ao povo que a Petrobras deve satisfação. A sociedade brasileira é a maior acionista da Petrobras, quem é dono da Petrobras. Mais de 50% das ações da Petrobras são do povo. Então eu acredito que, se tiver que fazer de novo, se tiver que dar uma nova entrevista para defender a vida, eu estaria do lado da vida. Se eu tiver que fazer um curso de engenharia de produção de petróleo eu estarei de novo para fazer o curso de engenharia do petróleo, se tiver outro curso de engenharia de segurança para defender a humanidade, porque isso eu faço de graça, eu não cobro nada para dar assessoria e conhecimento técnicos aos sindicatos.

ACIDENTE

Já participei de várias comissões. Quando morreram os jornalistas, em 27 de junho de 84 - quero aqui também prestar uma homenagem aos jornalistas que morreram em 1984, 27 de junho. Quando foram cobrir os 500 mil barris de petróleo um avião caiu, um avião Bandeirantes, morreu fotógrafo, morreu jornalista;  à noite, a notícia principal não foram os 500 mil barris de petróleo que o Shigeaki Ueki queria anunciar, a notícia mais importante talvez seja a notícia que marca a minha vida. Foi 27 de junho de 1984, quando 18 jornalistas - heróis anônimos, porque já morria muita gente na Petrobras, mas não era divulgado; era colocado numa caixa preta - esses jornalistas obrigaram a Petrobras a rever sua posição da informação, da transparência, e eu fui solidário com todos eles, como também serei solidário - porque não adianta trabalhar na Petrobras e o povo não saber o que a Petrobras faz. Se houve esse incidente na minha vida na Petrobras, foi porque a causa é muito maior do que uma causa isolada, foi uma causa de vidas humanas, 37. Todo mundo viu a comoção da população com o afundamento da P-36, foram 11 pessoas que morreram. Se morresse só um a gente já seria solidária, que dizer nesse acidente de Enchova - foram 37, isso é uma guerra, 37 pessoas morreram de uma vez. Isso choca qualquer ser humano, choca um engenheiro de produção, eu sou um engenheiro de produção. Imagina eu ver os meus colegas lá, como Richard Takahashi, que era um engenheiro, engenheiro Everton, que era o timoneiro - que infelizmente, além de tentar salvar vidas humanas, sem nenhum laudo, sem nenhuma análise técnica, inicialmente colocaram que a falha foi humana. Quando esse cidadão, Ueki, estava no Estados Unidos e lá do Estados Unidos elogiou o Everton, dizendo que era um ótimo engenheiro, e dias depois ele é acusado como falha humana... Nós temos o acompanhamento, o Sindicato dos Engenheiros acompanhou, o Sindicato dos Petroleiros na época também acompanhou. Eu acredito assim que não adiante você ser técnico se não usar a técnica. Em primeiro lugar o engenheiro, porque a responsabilidade é maior - quando o médico erra, o erro dele é apenas uma vida humana; quando um engenheiro erra - por exemplo esse acidente agora, quantos rios, quantas cidades foram atingidas. Quer dizer, a prevenção: se eu estou lá na Petrobras, se eu vejo alguma coisa em que eu possa ajudar, tem que ser prevenido depois do acidente. Acho que os conhecimentos, o saber tem que ser da humanidade, o saber não pode ser corporativista. Quando nós adquirimos o saber, seja num lugar público ou privado, mas quando é privado alguém está pagando para aquilo chegar a você, então essa é a minha visão.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Minha carreira na Petrobras terminou em 1984, e a minha vida agora na Petrobras é uma causa maior, é a cauda da humanidade. Estou querendo ajudar a nova administração da Petrobras - e quero dizer aqui ao companheiro Santarosa: eu me lembro que em 91 nós tivemos que ocupar a Rede Manchete, para o Santarosa poder ir à noite no Renato Machado, que naquela época trabalhava na TV Manchete, para dar uma entrevista, para poder dar a versão dos petroleiros de uma acusação que o presidente da CSN na época, Lima Neto, não Lima Neto que é funcionário da Petrobras, Lima Neto que foi deputado federal, presidente da CSN, acusou os petroleiros de marajás. Quer dizer, uma acusação infundada. Uma pessoa que dá a vida pela Petrobras. Vai lá nas plataformas, vai lá numa refinaria: nesse exato momento, faça chuva ou faça sol, a produção está existindo. Descobrir um campo no Iraque, Majnoon, e lugar de conflito. Com esses companheiros que já foram seqüestrados, da minha turma, e isso significa o quê? Que essas pessoas dão a vida não só pela Petrobras, dão a vida pelo país. Santarosa foi para televisão. Nós ocupamos a TV Manchete; teve o direito de dar a entrevista, respondendo à altura ao presidente da CSN. Quero dizer a Santarosa que valeu a pena a luta de Santarosa – por quê? Porque hoje ele está responsável pela área de comunicação da Petrobras e está responsável por uma das áreas mais importantes do país. Porque sem informação, como Hélio Beltrão disse uma vez: “A informação e o preconceito são os maiores inimigos da Petrobras”. Então nós estamos num projeto que resgata a história da Petrobras, a história dos petroleiros, que muitas vezes foram vitimas, e também acaba com esse preconceito. É importante ouvir várias versões. Santarosa, hoje qualquer canal de televisão, qualquer patrocínio da Petrobras, hoje a gente não precisa mais fazer passeata em frente à TV Manchete porque até a TV Manchete acabou, não existe mais a TV Manchete, mas a Petrobras está viva. Eu quero saudar o companheiro Santarosa, desejar a ele um bom trabalho e dizer não somente a Santarosa, mas a todos os trabalhadores que chegaram exatamente onde mereciam chegar. Não que seja mais ou menos, quando eu falo dos trabalhadores eu falo independente, porque as pessoas que estão numa empresa procurando fazer aquela empresa produzir, dando emprego, elas  têm o seu trabalho. É a visão do trabalho das pessoas que contribui para uma nação. Então eu acredito hoje que a Petrobras pode resgatar, pode fazer projetos em comum com universidades, com prefeituras, com outros órgãos e resgatar a memória da Petrobras, mas também a cultura. Porque a Petrobras é a empresa que mais investe em cultura no Brasil. Eu estive agora no Carnaval de Pernambuco, eu gosto muito do Carnaval da Bahia, o Gilberto Gil esteve lá em Pernambuco, chorou lá com o Naná Vasconcelos, então eu, como um bom pernambucano, como um bom brasileiro, eu quero dar um recado aos companheiros da comunicação e dizer que estão em boas mãos com o nosso companheiro Santarosa.

SINDICATO

SINDICATO DOS ENGENHEIROS DA PETROBRAS

TRAJETÓRIA SINDICAL

A minha vida sindical é conseqüência da minha militância na época de estudante, presidente da Casa do Estudante Universitário. Então eu já tinha uma certa consciência política. Na Bahia, quando eu cheguei realmente não existia espaço, porque estava num momento muito difícil, mas eu fui da Cipa lá da Bahia. Eu acho que isso já me deu um primeiro trabalho coletivo na Petrobras, porque grande parte dos cipeiros normalmente depois vira sindicalista. Aqui no Rio de Janeiro eu cheguei em 79, já no final de 79 comecei a me interessar pela parte sindical. Comecei a freqüentar o Sindicato dos Engenheiros, que tem um movimento de mudança da diretoria na época que reuniu vários companheiros, como eu já citei: Jorge Bittar era um dos principais, ele e o Eliomar Coelho, Luiz Fernando, Antônio Martins, Chacon, que foi presidente do Crea, vários companheiros, Paulo Melo, que, em cargos do próprio governo, BNDES, outros continuam como assessores, outros ajudando a CUT, na construção da CUT, outros estão lá em Brasília. Esse trabalho começou no Sindicato dos Engenheiros. Foi vitorioso - nós mudamos a diretoria. A primeira diretoria acho que foi 81 a 83. Nesse mesmo período o Sindicato dos Engenheiros tinha uma orientação política de que a gente participasse do sindicato de sua categoria ou, se não tivesse, fazer associação. Então, como foi Furnas - associação dos funcionários de Furnas, nós fomos lá e fizemos a associação de Furnas -, aqui na Petrobras tinha a Aepet que já existia, mas precisou ser revigorada, porque passou um período muito difícil na época da ditadura também. E nós começamos a participar da Aepet - eu fui diretor da Aepet também, fui diretor do Sindicato dos Engenheiros na segunda gestão, fui diretor aqui da Aepet 86, 84 nesse período, até 86 eu acho que fiquei na Diretoria dos Sindicatos dos Engenheiros. Ao mesmo tempo nós começamos a criar aqui no Sindicato dos Petroleiros - teve a greve em 86 de Campinas e Mataripe, porque nós aqui já estávamos organizando a oposição sindical, dentro de uma visão que depois terminou com a construção da CUT, e nós criamos um movimento chamado Surgente. É interessante esse lado do Surgente, porque grande parte dos companheiros, é bom notar que a maioria dos sindicalistas que participam, normalmente eles são ótimos técnicos. Isso ocorre na Embratel, ocorre na Petrobras, ocorre em Furnas. Nós vemos aí um sistema que tenta marginalizar o sindicalista. Se você vê inúmeros companheiros que eu conheço, se você vê excelentes técnicos. Eu conheço o Cândido Pinto, que era um engenheiro dos mais competentes que o país já teve, trabalhou na equipe de Zerbine, ficou paraplégico - fruto de uma bala perdida em Recife - e esse homem morreu o ano passado lá em Recife, porque não agüentou. Mas estava trabalhando, na ativa. A última peça que ele assistiu foi Débora Colker - no outro dia ele não agüentou e veio a morrer. Mas ele cumpriu a missão. Eu presto até uma homenagem ao engenheiro Cândido Pinto, que ficou paraplégico, como o companheiro Diomedes, que foi diretor junto comigo no Sindicato dos Engenheiros. Até, quando eu citei o Jorge Bittar, eu me esqueci de citar o Diomedes Cesário, que é um grande engenheiro do Cenpes, que ficou paraplégico fruto de uma bala perdida em Laranjeiras. Quer dizer, a bala que atingiu Diomedes não é diferente da bala com que o major Ferreira dos Anjos tentou matar Cândido Pinto, mas o Cândido Pinto não foi morto, porque a idéia dele continua viva, deixou uma netinha. Eu acho que ele cumpriu toda a missão como ser humano. É por isso que a gente fala que são essas pessoas que nos dão energia. Qual é a força que eu tenho? Eu tenho duas pernas, eu tenho um braço. Eu vejo pessoa que tem duas pernas, mas uma pessoa tutela ali; ela não vai socorrer, então para que ter duas pernas? Então essa visão que eu tive, graças a Deus o Sindicato dos Engenheiros me ajudou a ter consciência de que isto está no caminho certo.

Greve de 83

O companheiro Lula me ensinou, como sindicalista de São Bernardo do Campo, me lembro do companheiro Lula na primeira greve - nós vendemos rifa clandestina, fizemos solidariedade clandestina, os companheiros lá, Jacó Bittar, Santarosa, Zica, vários companheiros de Campinas fizeram a primeira greve lá. Nós estávamos aqui em 83, como oposição, dando solidariedade aos companheiros, então essa luta foi crescendo, o Surgente surgiu sem energia artificial, então nós colocamos. Fizemos um concurso. Colocamos três nomes. Era Blow out, Gás lift, Surgente ou outros. Uma pesquisa - porque eu posso ter uma ótima idéia, mas o associado pode não pode querer; o Lula pode ter uma ótima idéia, mas será que o povo acha aquela idéia ótima? Então essas questões de contato permanente com quem você representa são a chave de qualquer mobilização e permanência no poder. A permanência no poder significa se você representa aquelas pessoas pelas quais você foi eleito. Então ganhou o Surgente - lógico, porque é uma palavra bonita. Surgente vem de quê? Natural, o movimento sindical, ele tem que ser natural, ele tem que ser espontâneo, ele tem que dar espaço a todas as visões, ele não pode ser sectário ou cooperativista, eu não posso só está preocupado com o petroleiro; eu tenho que saber se o trabalho do petroleiro vai resolver o problema da seca lá no Rio Grande do Norte, se o poço seco daquele petróleo não tem água pra combater a seca lá do Nordeste. Porque o problema do Brasil e do Nordeste não é petróleo - o problema do Brasil é água. Vê agora esse problema que teve em Minas, o problema é água, o problema do futuro é água. O petróleo, se o Nordeste fosse auto-suficiente, se fosse em outro país, com o petróleo que o Nordeste tem, seria suficiente. A questão é que o grande consumo está aqui em São Paulo, e vem o quê? Não tem emprego no Nordeste, vem todo mundo para o Sul atrás de emprego. Agora está sendo ao contrário - tem que voltar, porque não tem mais emprego aqui. Então é preciso pensar no Brasil como um todo - e o sindicalista, o Sindicato dos Engenheiros me deu essa visão, me deu uma visão que não é só Petrobras. O meu trabalho é muito maior, então eu acho que isso me ajudou, o Surgente acho que também me ajudou, porque a gente começou um movimento forte.

SINDICATO

SINDIPETRO-RJ

Em 90 nós lideramos a Diretoria do Sindipetro. A gente já tinha vários sindicatos - Campinas, Bahia, vários outros - e em 90 a gente ganhou o sindicato com essa chapa cutista. Hoje o nome do jornal do Sindipetro é Surgente. O Sindipetro fez 40 anos; o Lula foi um dos homenageados - acho que foi em 99, se não me falha a memória, 40 anos do Sindipetro. Uma festa bonita, tem até gravado lá o depoimento. Então o jornal é Surgente, então é o seguinte: é impessoal, quer dizer, o fato de ter um nome, Surgente, ele faz parte de um trabalho coletivo. Então são as idéias do movimento sindical. Se eu pudesse resumir para você - você pediu para eu falar da parte sindical - eu resumiria nisso aí. A vida sindical, ela não termina. O Lula hoje precisa negociar com vários sindicatos. Na questão do combate à fome ele precisa de apoio da sociedade, a questão da reforma da Previdência, a tributária. Então, o que acontece? O Sindicato, a vida sindicalista, é bem diferente do que muita gente tem. Uma visão que tenta se passar, uma visão corporativista, quer dizer, a visão que nós temos é muito superior ao teu interesse individual, muitas vezes. Eu conheço companheiros que perderam a vida, o Chico Mendes perdeu a vida; a Marina Silva hoje é a ministra do Meio Ambiente porque o Chico Mendes perdeu a vida. Eu só sou o que eu sou porque várias pessoas no Brasil deram a vida para esse país mudar, eu só sou engenheiro de petróleo que eu sou porque morreram 37 em Enchova - se não morressem 37 em Enchova, a Petrobras não tinha nada de produção de petróleo em alto-mar. Se aqueles jornalistas não morressem pra cobrir os 500 mil, ninguém ia saber que a Petrobras bate recorde mundial de petróleo, que vai receber prêmio agora em Huston, que é o centro internacional de petróleo - se a guerra não atrapalhar, vai receber o prêmio da OTC.

EMPRESA

A Petrobras participa do congresso - o que eu quero dizer é que a Petrobras sempre é uma das convidadas; sempre a de destaque. A participação da Petrobras é fundamental nesse congresso - se a Petrobras não participar desse congresso, a realidade é que o congresso se esvazia. Então, o que eu quero dizer, a importância que tem esse trabalho conjunto, essa visão conjunta, ou seja para nós ganharmos esse prêmio - que já ganhamos duas vezes na OTC, que é como se fosse a taça Jules Rimet, da Fifa, que o Cafu levantou do pentacampeonato -, que o Brasil já ganhou tantos prêmios na tecnologia off shore. Se o brasileiro soubesse os prêmios que nós da Petrobras, que o povo brasileiro conseguiu ganhar na indústria de petróleo, ele teria outra visão, porque a Petrobras é do povo, quando a Petrobras perde quem perde é o povo, então nós temos que ter essa noção, e isso eu adquiri aonde? Eu nasci com isso? Não, foi a vivência com as pessoas de Furnas, com pessoas do BNDES, pessoas desempregadas. Quer dizer, eu consegui uma outra visão, pessoas de outros sindicatos de petróleo, pessoas de refinaria, pessoas de terminal, porque o engenheiro no Edise ele tem uma visão, mas na hora em que você começa a ter uma visão da Petrobras - porque quando eu falo Rio Grande do Norte, quando eu falo Campinas, eu estou sabendo o que eu estou falando, eu já vi fisicamente, como eu estou vendo aquele copo. É diferente de uma pessoa que só trabalha em ar condicionado, que o outro no telefone fala: “Olha, Campinas produziu, processou 300 mil barris de petróleo”, ele não está sabendo se está falando com a maior refinaria do país, ou se está falando com uma média ou se está falando com petróleo pesado, com petróleo leve. Ele tem que saber fisicamente com quem ele está falando, então essa visão de conjunto você tem que adquirir porque só a Petrobras não dá.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Se você for aquele engenheiro que está preocupado com promoção, com a vida pessoal, com a sua ascensão profissional na Petrobras - eu não sou contra; pelo contrário, eu acho que todo mundo tem que ter sucesso, pelo contrário; quando eu vejo Armando, quando eu vejo Diego, quando eu vejo Santarosa, quando eu vejo Lula, eu vejo as pessoas chegarem ao poder, eu vejo meu avô chegar ao poder - eu me esqueci do nome dele porque eu não convivi com o meu avô -, é diferente de pessoas ricas que vão para o exterior com avô, com avó e voltam, estudam no exterior e depois voltam para cá. É diferente quando um Santarosa chega ao poder, quando um Bacalhau trabalhava lá em planta de gasolina natural, lá em Catu, em Candeias. Quem chegou foi o peão, foi o camarada lá da plataforma, foi lá o camarada de Campinas que muitas vezes nesta empresa foi humilhado. Eu me lembro da greve de 83 - eu entrando com a foto da greve de Campinas embaixo do braço, na primeira página o presidente do Sindicato dos Petroleiros de Campinas liderando uma das maiores greves, que teve uma importância política muito grande para mudar o rumo da Petrobras. Eu entrava orgulhoso, porque ali eu sabia que tinham trabalhadores que eu como engenheiro tinha que ouvir. E as pessoas prepotentes, arrogantes. E graças a Deus eu digo que essa visão que eu adquiri é essa visão da noção do que é o poder, o poder é quando todos podem chegar e trabalhar em equipe. Não se pode esquecer, é muito importante isso, é ter essa visão pé no chão. Então, quando eu vejo que há mudança - e mudança tem que ir com calma -, mas é uma grande mudança, a mudança qualitativa, cultural; a gente saber que pessoas como nós estamos dividindo e aos pouquinhos vamos fazer aquilo que nós achamos. Então a vida do sindicalista se confunde como a vida do ser humano Jorge Eduardo, do fundador do PT Jorge Eduardo, da pessoa que teve a visão como classe trabalhadora que não pensou só o engenheiro de petróleo, só no sujeito do ar condicionado do Edise, no camarada que só pensa na Petrobras. Eu pensei que os trabalhadores precisam ter um instrumento, um Parlamento, e agora, no Poder Executivo, ter a nossa representação. Então é uma mudança muito grande. Quando a gente tem um José Eduardo Dutra na Presidência da Petrobras, mexe com o mercado, porque existe hoje tem uma tentativa de desqualificar muitas vezes o presidente da Petrobras, de dizer que ele não entende de petróleo. Ele é geólogo, ele entende mais de petróleo que muitos banqueiros que foram presidentes da Petrobras - os interesses que estavam ali não era o interesse do povo brasileiro. Então eu considero que essas questões todas são questões que precisam ser debatidas, precisam resgatar, dentro da questão, do papel hoje, da conjuntura hoje a Petrobras tem um papel muito grande, e o sindicalista faz parte desse processo. Eu considero o seguinte: se minha visão fosse uma visão corporativista, se a minha visão fosse uma visão individualista, eu diria que nem prejudicou, porque em 84 eu era engenheiro 2, e eu conheço colegas que eram engenheiro 1 e que hoje são engenheiro 4 - última letra -, eu continuo engenheiro 2. Eu não posso julgar os outros, eu posso julgar a mim. Por outro lado, eu tenho o prazer de ter participado com Santarosa, com Bacalhau, com Diego, com Lula, com Amadeu, com Cequinel, com Geraldo, lá no Rio Grande do Norte, com Geraldo no Rio Grande do Norte. Se eu for citar aqui, eu conheço na palma da mão todos os principais companheiros que fizeram essas mudanças dentro da Petrobras. Então é o seguinte: se você perguntar para essas pessoas, muitos que hoje são 4, última letra, que teoricamente tiveram sucesso, se você perguntar quem são seus amigos, eles não sabem - porque depende até do cargo. Eu gosto de contar uma história, de um colega que não está mais vivo. Tinha um cargo importante na Petrobras; estava em doença terminal, já aposentado e uma das reclamações que a família fez é que ele não recebia visitas. E eu conheço inúmeras pessoas que subiram na empresa graças à ajuda dessa pessoa. Então eu digo, solidariedade não é isso, porque aparentemente eu fui congelado, colocado numa geladeira por defesa dos meus pontos de vista, defesa do que eu aprendi na engenharia usando o código de ética do Crea. Várias questões que eu defendo e continuo defendendo e vou continuar defendendo até a morte, esses princípios, que são princípios da vida, que é como eu digo: a tesoura do meu pai foi para formar um ser humano não foi para ganhar a vida. Meu pai queria que eu ganhasse a vida porque ele passou necessidade, porque ele não tinha diploma lá em Garanhuns, e como só se dá valor a quem tem diploma, meu pai com toda a sua inteligência, e a minha mãe também me ajudando.

FAMÍLIA

Essa ousadia que eu tenho eu agradeço à minha mãe. O lado revolucionário, de não aceitar as coisas conforme está estabelecido, eu agradeço à minha mãe, minha mãe que me dá toda a ousadia de achar. Uma pessoa que morre no trabalho é normal? E morrer 37 pessoas num acidente, é normal? Não é normal, foi minha mãe que me ensinou isso: “Não se conforme com as coisas estabelecidas”. Então eu agradeço exatamente esse lado, aquela tesoura. Então eu pergunto, o que adianta a pessoa ser engenheiro última letra, morrerem 37 pessoas e não acontecer nada? É para subir em cima de cadáveres, pessoas que às vezes esperam ter um acidente para ser aberta uma comissão e ele subir em cima do cadáver seja acidente na plataforma, seja na Baía da Guanabara. E eu não sou o único caso de sindicalista perseguido na Petrobras, a gente conhece companheiros que ainda estão do lado de fora da Petrobras. Então eu acredito o seguinte: é relativo. O que adiantava eu ter chegado a engenheiro 4, última letra, e ter sido omisso com esses casos? Será que meu pai não ia ressuscitar do túmulo e dizer: “Meu filho não foi para isso que eu me esforcei, que eu dei a minha vida para você ser doutor”? Então eu acho o seguinte, eu ganhei, eu ganhei o lado humano - essa dimensão que eu tenho é porque eu comecei a sofrer coisas que muitas pessoas não sofreram. A gente só aprende no sofrimento.

RELAÇÕES DE TRABALHO

O que eu sofro é muito pouco em relação à viúva, ao filho. Eu conheço um caso de uma viúva de um companheiro de Enchova, que quando ocorreu o acidente de Enchova ela estava grávida. Ano passado ou retrasado eu fui para uma homenagem que houve no aeroporto de Campos, lembrando as vítimas do acidenta de Enchova, tem um cidadão de 18 anos - era o garoto, que nasceu depois que o pai morreu, era o garoto que não conhece o pai. Isso me satisfaz, isso é a continuação da vida da história do pai dele, quem é que resgata a história do pai dele é esse depoimento que eu estou dando aqui, é essa história. Porque muitas pessoas que morreram é que fazem a história da Petrobras. É o Doutor Barbosa Lima Sobrinho - com mais de 100 anos não tinha medo de defender o Brasil e não era da Petrobras. Essas pessoas que eu considero assim que se houve algum prejuízo a mim eu peço que a Justiça julgue isso ou as pessoas de bem que tenham poder de julgar isso, isso para mim, como se diz é uma página virada da minha história, o mais importante é você continuar vivendo, é você continuar fazendo aquilo que você acredita e é por isso que eu digo: o que eu puder fazer para colocar os meus conhecimentos e a sensibilidade que eu tenho, mas o que eu tenho a ver com o jornalista, o que eu tenho a ver com o camarada que vai fazer a cobertura dos 500 mil? Eu sou engenheiro de petróleo ali naquela sala, eu só cuido do Rio Grande do Norte e do Ceará; se eu for cuidar dele eu vou ser prejudicado, deixar de ser promovido... Mas espera aí, quanto vale uma vida humana, quantas vezes eu fui promovido pela justiça divina, que essa é que vai me julgar, essa que vai dizer para mim de quantas promoções eu deveria ter se eu não tivesse tomado as decisões que eu tomei. Graças a Deus, agradeço as decisões que eu tomei, não me arrependo um milímetro, não me prejudiquei em nada dos valores que eu dou, do sentido do que tem valor na vida. Agora, às vezes cobro os direitos para que outras pessoas que vêm atrás de mim e que precisam às vezes de apoio, que precisam ter a força e a persistência que eu tenho, então para essas pessoas não sofrerem eu coloco essas questões em outro nível, que não é um nível pessoal, que não é um nível hoje com relação com a Petrobras. Porque eu trabalhei para que pessoas que estão na direção da Petrobras hoje chegarem onde chegaram, para isso que eu lutei. Então eu acredito que são necessárias mudanças, que vai depender de mim não é uma coisa à parte. Todos têm que participar, então é basicamente isso, eu acredito, dói em mim quando você faz uma pergunta dessa. Como João Paulo, outro, dia prefeito de Recife, perguntou: “Qual é o seu cargo na Petrobras?”. Isso eu não respondi a ele, eu disse a ele que o meu cargo na Petrobras era o mesmo cargo que eu tinha há 27 anos, quando eu saí de Pernambuco, é o cargo de cidadão brasileiro, é o cargo de trabalhar numa empresa pública como a Petrobras e ter orgulho de ser petroleiro, um dos meus maiores orgulhos - porque eu tenho vários orgulhos. Minha filha, eu tenho o maior orgulho da minha filha, que está hoje com 22 anos, eu tenho orgulho dela, eu tenho orgulho da Petrobras, eu tenho orgulho de trabalhar no Edise, eu tenho orgulho de trabalhar com as pessoas que eu trabalho. Tem pessoas que xingam: “Absurdo trabalhar na Petrobras, é marajá”, não sei o quê. Vamos visitar a plataforma, vamos lá em Urucu, vamos lá em outra região de conflito onde a Petrobras muitas vezes está lá, então eu acho que eu considero que as promoções que eu deixei de ter eu entrego a Deus e que Deus faça o julgamento adequado. Então é isso - eu acho que as pessoas que muitas vezes são promovidas não são todas, muitos companheiros sindicalistas como eu continuam sofrendo a mesma coisa que eu sofri, mas isso é normal num país capitalista, num país em que os valores materiais são superiores aos valores humanos, mas isso está mudando aos poucos. A própria sensibilidade que o Lula tem está mudando, o povo tem que ajudar Lula, tem que cobrar do Lula também - não é que achar que vai cair do céu, não. Têm todos que trabalhar. E outra questão, acho importante aqui citar Nelson Mandela. Nelson Mandela passou 27 anos na cadeia, chegou à Presidência da África do Sul; o Lula passou 31 dias na cadeia, chegou à Presidência da República, graças a Deus eu não passei nenhum dia na cadeia, eu não perdi nenhum parente na plataforma. Então dona Lindu sofreu muito mais que a minha mãe - nem quando eu fui demitido eu falei para a minha mãe nem para o meu pai, para eles não sofrerem, porque meu pai já tinha sofrido um filho preso, acusado como se fosse o maior marginal, porque lutava por essas causas que hoje conseguimos - chegar àa Presidência da República. Um filho deixar de estudar, porque foi cassado pelo 477, graças a Deus o que eu fizer para evitar a morte, seja na Petrobras, seja fora da Petrobras, é pouco para uma pessoa que perde um filho ou um parente, entendeu? Então, o que eu perdi, perdi, mas isso faz parte da guerra, eu acho que valeu a pena, eu acho que estou vivo aqui, continuo 2; não sei se vou terminar 2 na Petrobras. De uma coisa eu tenho certeza: eu estou contando a história da Petrobras, a minha história aqui e isso é mais importante do que qualquer promoção. É o resgate do que está aqui dentro de mim, é o resgate do meu pai, é o resgate da minha família, daquelas pessoas que fizeram tudo o impossível em Garanhuns, muita gente vê gente passando fome em Garanhuns, no Piauí hoje, aquilo eu vi, eu convivi com aquilo, então agora quando sai o combate, à seca, à fome, tudo isso eu estou dizendo que eu poderia ser um daqueles. O Lula está ali por um acaso, eu estou aqui por um acaso, mas eu estou pensando naqueles pessoas que não tiveram as oportunidades que o Lula teve, que por acaso eu tive também. Então eu digo com sinceridade: perdi. Perdi, mas eu vou recuperar tudo, vou recuperar com juros e correção monetária. Depois, se eu recuperar, se for financeiro, eu penso no que eu vou fazer com o dinheiro - se vou doar ao combate à fome, ao MST, a instituição de caridade, vou doar à minha mãe, se estiver viva. Não quero nem tocar no dinheiro, mas tem processo na Justiça. Entrei na Justiça, quem vai julgar isso é a Justiça. Agora, não vou permitir de maneira nenhuma que uma vida humana seja comprada com o cargo de chefia. Na Petrobras eu conheço colegas que são capazes de matar a alma da mãe para ser chefes, passam por cima de qualquer cadáver pra ser chefes. Graças a Deus eu fui convidado para ser chefe porque eu estava sob coação e graças a Deus tive a tranqüilidade de dizer que não aceitava por questões éticas e que preferia continuar no trabalho que eu fazia. Mas a Petrobras é grande, a Petrobras é muito maior do que muitas pessoas pensam, que já passaram, estão até fora, então são pessoas que combateram: o companheiro Santarosa, combateram outros companheiros lá da Bahia, do Rio Grande do Norte, do Pará. Essas pessoas todas enfrentaram esse sistema - e na Petrobras parece que conseguimos, por enquanto. O jogo é difícil; não podemos dizer porque eu acho que se tem que trabalhar muito, é um trabalho dinâmico. Diria o seguinte: a maior vitória que eu tenho é ver certos companheiros que não são nem engenheiros, porque a Petrobras é uma empresa de engenharia, a Petrobras é uma empresa em que o engenheiro tem muito poder, é uma empresa inclusive machista também, você vê quantas mulheres são chefes na Petrobras? É muito pouca ainda, ainda bem que a gente tem uma presidente no Conselho de Administração, que é uma mulher, isso muda. É muito diferente isso. Para muitas pessoas que achavam que ali eram os donos do mundo, hoje serem subordinadas a uma mulher na Presidência do Conselho é uma revolução muito grande. É a mesma revolução do Lula ser presidente da República, em termos culturais, de torneiro mecânico. Então eu acho assim, a visão que eu acho em termos de perdas, em termos de valores, tudo isso vai ser recuperado. Quando eu vejo o Santarosa, o Bacalhau e outras pessoas que são nível médio na Petrobras e conseguiram chegar onde chegaram, eles conseguiram representar a base da empresa, aquelas pessoas que estão na plataforma, aquelas pessoas que estão numa planta de gasolina, e isso é uma grande mudança.

SEGURANÇA DO TRABALHO

Eu acho que a primeira mudança é que até aquela data, 84, até agosto de 84, que foi quando houve o acidente – junho, 1 mês antes, 2 meses antes de quando houve o acidente dos jornalistas, que caiu o avião -, normalmente caía um avião quase que cada mês. Eu acho que depois daquele episódio, de tornar público o debate - porque qual que foi a grande virtude daquela entrevista? Foi colocar publicamente um debate que era feito embaixo do tapete. Primeira coisa: quando morreu jornalista já não podia mais esconder da sociedade brasileira, porque eram 18 jornalistas dos principais órgãos de comunicação na época: TV Globo, Manchete, Bandeirantes, Record - as pessoas que davam notícias para o Brasil por volta de 8 horas. Então não dava mais para esconder, como é que ia esconder que o camarada que ia dá notícia, que aparecia todo dia, não estava presente? Então não podia esconder, então eu considero heróis anônimos; aqueles jornalistas são heróis anônimos - eles fizeram um bem, principalmente aos petroleiros, que eles jamais poderiam imaginar. Se eles tivessem dado a notícia dos 500 mil, talvez cada um em uma missão - é como o Samuel Wainer, morreu no outro dia, quando foi fazer a reportagem dos colegas que tinham morrido. São coisas que acontecem, que a gente tem que analisar depois com calma. Então houve a primeira mudança, do que esse debate tornou público. Então não podia mais esconder; se não podia mais esconder tinha que melhorar, para evitar de se dar notícia trágica. Então eu acho que essa foi a primeira questão que começou a mudar. Depois, o que aconteceu? A nossa luta na época foi formar uma comissão mista - Sindicato dos Petroleiros, dos Engenheiros e Ministério do Trabalho, que era para quê? Para verificar por que estava ocorrendo tanto acidente. Porque era normal na pirâmide de acidente um acidente fatal. Já ocorreram 10  com lesões leves - são pequenos acidentes; 30, danos materiais, que são só perdas materiais, e 600 incidentes críticos, que são o quê? Os quase-acidentes. Então às vezes é um acidente pequeno, mas deve ser anotado por quê? Porque se aquele tornar a se repetir pode se tornar grave, e assim vai subindo até acidente fatal. Então aquilo era anormal dentro da análise estatística e das análises de perda de possibilidade de acidentes. Então começou a se procurar formar uma comissão. Como era um regime muito autoritário, não permitiu - achou que não precisava nem do Sindicato dos Petroleiros, nem dos Engenheiros, que já tinha uma comissão de especialistas. “Já foi tudo resolvido”, foi a resposta que foi dada na época. Então começou o Sindicato dos Engenheiros, depois a CUT formou uma comissão de saúde e segurança do trabalho, depois os sindicatos dos petroleiros em quase todo o Brasil começaram a ter as suas comissões e recentemente, quando houve, eu acho que foi o acidente da Baía de Guanabara e o acidente da P-36, o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio fez comissões com a participação do Sindicato dos Petroleiros e da FUP envolvida, até porque até esses anos a Petrobras também não permitiu o acesso dos sindicatos nas investigações. E lá no Paraná também; teve um acidente na Repar, também o sindicato lá fez uma comissão junto com o Crea, à semelhança do daqui do Rio de Janeiro, da Baía da Guanabara, que foi no mesmo ano. O da Bahia foi em janeiro, e o da Repar foi em julho, e o da P-36 foi em março de 2001. Foi uma sucessão de acidentes na gestão de Reichstul que já estava chamando atenção. Eu acho que há até um paralelo, assim, que precisam até os estudiosos de segurança fazerem um estudo. É o seguinte: em 84 tinha tido em Cubatão, em fevereiro de 84, o acidente da Vila Socó; em julho o acidente dos jornalistas; e em agosto o acidente de Enchova, quer dizer em 1 ano foram mais de 50 vítimas fatais; sem falar fora da Petrobras, fora assim serviço da Petrobras, porque no acidente lá da Vila Socó, mais de cem pessoas - ninguém sabe o numero até hoje. Então era muito grave, um índice muito grande em 84. Mas se você pega o ano passado, 2000, janeiro de 2000, julho de 2000 e março de 2001 você vê em praticamente um ano três acidentes de grande proporção. Alguma coisa está errada, então se você fizer um paralelo no período entre 2000, 2001 e 84, você vai ver que tem muita semelhança em termos de acidentes, porque há avisos, a estatística mostra, as análises que prevêem que você pode ter grandes acidentes se você não resolver aqueles menores. Então eu acho que essas comissões, elas começaram a surgir a partir da abertura, do conhecimento, formando comissões técnicas, formou-se o Diesat também, que é o Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho, que é o Dieese da área de segurança do trabalho - tem o Dieese da parte econômica e o Diesat, que é para essa área de análises, então começou a assessorar os sindicatos, começou a formar as suas comissões, começou a entrar em acordo coletivo. Hoje já é uma própria constatação, a própria Petrobras hoje já aceita com muito mais cuidado a participação dos sindicatos, porque os sindicatos estão psra ajudar. A melhor coisa do mundo - isso a gente aprende na própria análise de acidente - quando tem um acidente que é você ouvir os próprios trabalhadores que estavam no local do acidente sem versão, ou seja, sem haver nenhum tipo de maneira que ele possa omitir alguma informação, então é muito importante que o sindicato participe, porque às vezes uma pessoa é coagida - quando você perguntou sobre promoção - muitas vezes as pessoas aumentam informação de acidente ou de doença porque às vezes elas deixam de ser promovidas por isso, porque às vezes tem gerente que se tiver acidente zero ele ganha pontos na hierarquia. Então essas questão são importantes em termos técnicos. E que se ouçam os principais interessados, então as comissões técnicas com participação dos Sindicatos foram a partir desse acidente de 84, que eu acho que gerou toda uma discussão. Os sindicalistas começaram a ficar mais sensíveis, então eu acho que isso teve uma contribuição.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Hoje eu tento, como se diz, contribuir da melhor forma para a Petrobras, estou procurando conversar com o presidente da Petrobras, com a nova gestão da Petrobras, para resolver todas essas questões pendentes sobre a minha vida profissional. Estou marcando para conversar com a ouvidora da Petrobras. Eu acho que isso é uma grande conquista, quando a gente vê a Maria Augusta - ela gosta de ser conhecida como Guta -, que eu a conheci pelos jornais recentemente, mas lembrando a história dela eu lembro a história do meu irmão, que foi preso em 70. Ela passou vários anos fora do Brasil. Eu acho que é uma pessoa que sofreu na carne o que é uma perseguição política, o que é você sair do seu país porque defende determinados ideais, então procuro conversar com ela, vou procurar conversar também dentro do possível com o José Eduardo Dutra, estive na posse do José Eduardo Dutra simbolizando de certa forma toda a minha luta com outros companheiros, fomos desejar a ele bom trabalho e deixamos com ele contribuições nessa linha de trabalho na realidade para o novo governo que está assumindo o país. E ele, como presidente da Petrobras, vai ficar com essa missão especifica, vou procurar conversar com ele, vou procurar resolver essa questão. Porque no momento é o que eu estou dizendo. Desde 84 eu considero que eu não cometi nenhum crime, eu defendi a vida de 37 pessoas, o patrimônio da Petrobras e a questão maior que são os objetivos da Petrobras.

IMAGENS DA PETROBRAS

Quando ocorre um acidente o maior perdedor é a Petrobras, é o povo brasileiro, porque é a imagem da Petrobras que vai como imagem de incompetente. E muitas vezes não se sabe que os técnicos da Petrobras alertaram sobre o acidente, muitas vezes os trabalhadores dos sindicatos alertaram para aquele risco e muitas vezes a população não sabe disso. Então fica como se fosse a Petrobras incompetente, e aí vem aquele discurso: tem que privatizar senão tem acidente.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Hoje a minha missão mais importante é que eu desejo que se consiga uma refinaria lá no Nordeste, em especial em Pernambuco. Porque é importante para o Nordeste uma visão que o desenvolvimento seja descentralizado, não pode ficar só no Rio e São Paulo, porque muitos problemas do Rio e São Paulo são das pessoas que saem do Nordeste por falta de emprego e muitas vezes chegam aqui e ficam desempregadas, e aí o que acontece? Acontece toda essa violência que precisa ser debatida dentro de um projeto maior. Eu não posso pensar a Petrobras isoladamente, eu não posso pensar a reforma agrária isoladamente, eu não posso pensar a reforma tributária isoladamente e fica essa guerra entre Estado A e B, quando nós temos que ter objetivo maior. Então dentro disso aí, hoje eu procuro pensar os problemas estratégicos da Petrobras e dar subsidio a quem quiser, a quem quiser usar aqueles conhecimentos. Então eu acho o seguinte: eu posso contribuir muito para essa nova gestão da Petrobras, essas questões que foram colocadas aí de ordem profissional minha, elas já estão encaminhadas à Justiça. Vou conversar com o ouvidor e vou procurar o seguinte, dentro daquele espírito que sempre eu acho que me ajuda muito, que eu procuro não ter preconceito, eu procuro não ser desinformado e procuro dar crédito de confiança, então eu acho que a Petrobras colocar um ouvidor, ela quer ouvir muitas coisas que estão escondidas, eu tenho certeza absoluta que muitas informações não chegam ao Presidente da Petrobras porque existe um bloqueio na frente. E qual o objetivo de se colocar nessa nova gestão uma ouvidora com o perfil de Maria Augusta? É que é uma pessoa que tem a experiência com José Eduardo Dutra na Vale do Rio Doce, experiência com uma pessoa junto com o José Dirceu, com Wladimir Palmeira e com outras pessoas, como Gregório Bezerra, que foram para fora do Brasil e sabe o que é enfrentar as adversidades da vida. Eu tenho certeza que pessoas com esse perfil mudam a história da Petrobras, independentemente de qualquer coisa. Ela não precisa fazer mais nada, o simples fato de responder um e-mail que eu mandei para ela, você não precisa fazer mais nada, o simples fato de me responder, de me dar uma atenção, isso já significa uma mudança de qualidade. O que vai ser daqui para a frente vai depender dos dois lados, e eu acredito o seguinte: eu quero mudar a minha vida profissional, eu acho que uma pessoa que tem a capacidade técnica, a formação, o conhecimento e a experiência de vários companheiros, eu não sou o único, tem vários companheiros competentes, eu acho que vários companheiros que estão fora da Petrobas e o projeto de anistia de que o próprio José Eduardo Dutra é o autor, ele sabe a responsabilidade disso, a importância, a gente conhece companheiros que estão fora da Petrobras que podiam estar dentro da Petrobras contribuindo já com experiência de refinaria, de petróleo, de plataforma, de Cipa; pessoas que poderiam estar produzindo em vez de estar se reutilizando, em vez de estar treinando outras pessoas que têm que começar do zero. São pessoas que vão precisar de readaptação - eu até considero aqui, você considerou uma questão que eu acho fundamental: a questão do assédio moral. Hoje existe uma psiquiatra francesa, que se chama Mari France, que estudou o assédio moral, que são os problemas psicológicos, os problemas que existem dentro das grande empresas, e eu estou estudando isso dentro da Petrobras, procurando analisar os diversos itens. Então essas pessoas que foram demitidas, como Spis, como Geraldo e outros companheiros que são petroleiros, que vocês devem conhecer - as pessoas se conhecem -, essas pessoas recebem um dano moral na sua vida.

RECURSOS HUMANOS

Um impacto não somente na pessoas, mas na família. Eu conheço companheiros que se suicidaram quando foram demitidos na época do Collor; eu conheço companheiros que destruíram suas famílias. Essas pessoas, ao voltarem para a Petrobras, agora que está quase meio caminho andado - espero que isso em alguns dias esteja resolvido, até porque há interesse do presidente da Petrobras em resolver essas questões, as questões das viúvas da P36, isso já mostra um entendimento ótimo, isso é uma vitória, esse entendimento com as companheiras - porque a gente não pode recuperar a vida das pessoas; é o mínimo que a gente pode fazer. Então eu considero que essas pessoas, ao voltarem é preciso que o departamento de Recursos Humanos da Petrobras - e eu tenho certeza que isso o Santarosa, a Guta e o José Eduardo Dutra e outros companheiros que estão lá - bote um acompanhamento psicológico dessas pessoas ao voltarem para Petrobras para não permitir que essas pessoas sejam rotuladas, porque existem muitas pessoas que quando voltam são marginalizadas, como se fossem um verme. Essas pessoas cometeram algum crime por defender a Petrobras, para defender que Lula viesse à Presidência da República, que a Petrobras mudasse a sua visão social, que ela veja hoje a parte social? É importante o mercado; nós vamos querer que a Petrobras dê lucro, mas nós vamos querer saber ara onde esse lucro vai, então essa visão aí é a nova visão da Petrobras. Também é conhecido como a visão, eu fui punido na Petrobras por defender esses interesses que a Maria Augusta, que o José Eduardo Dutra, que Lula, que Santa Rosa defendem. Eu nunca me senti coincidindo assim. Os meus objetivos pessoais são os mesmos objetivos da direção da Petrobras, nunca ocorreu isso em 27 anos de Petrobras, porque os interesses pessoais eram conflitantes com Shigeaki Ueki, era conflitante com Joel Mendes Rennó. Os interesses deles eram uns, e os meus interesses eram outros, porque o meu interesse era em defesa da Petrobras, interesse da vida, então eu considero esse momento um momento riquíssimo da construção de uma nova Petrobras; é a Petrobras antes e depois de José Eduardo Dutra, antes e depois de Lula. Isso tem que ficar um marco na história. Como Barbosa Lima Sobrinho colocou um marco dele na vida brasileira, uma pessoa que é patrimônio, Barbosa Lima Sobrinho, independente de partidos políticos, de tendências ideológicas era uma pessoa respeitada, então eu considero esses momentos.

CULTURA PETROBRAS

 Eu tenho 27 anos de Petrobras. Seria inimaginável que uma pessoa com 27 anos de Petrobras, 50 anos de vida, fosse pensar em reaprender tudo como se fosse uma pessoa que saiu de Garanhuns ou de Recife para ir para a Bahia para fazer um curso. Então eu considero que há espaço para começar, dentro dessa nova visão, eu acho que dentro dessa visão a gente considera um garoto, uma criança, uma criança que vai reaprender tudo - e a melhor coisa do mundo é não saber tudo, como dizia Albert Einstein, a maior virtude de uma pessoa. Posso estar mudando, mas o sentido era esse - é que quanto mais ele estudava, mais ele verificava que não sabia de nada. Então eu verifico que quanto mais eu estudo a Petrobras, quanto mais eu sou questionado, sabatinado, que eu não sabia de nada, por quê? Porque vocês perguntaram de uma das coisas mais importantes, a minha árvore genealógica, ou seja, minha origem. Eu me lembrei de Panelas, de Garanhuns - então você vê que eu não sei de tudo. Ás vezes eu pensava que eu sabia de tudo. A nossa história não começa com o nosso pai, tem toda a nossa ascendência. Então eu acho que é exatamente isso. Eu espero que a minha vida na Petrobras volte ao que era até 10, 13 de setembro de 1984.

COSTUMES

Se eu pudesse mudar alguma coisa na minha vida eu mudaria no seguinte aspecto: eu acho que a inteligência nós temos que saber usar. Existem determinadas pessoas na vida que nós não podemos ser sinceros, e eu acho que eu fui sincero com pessoas que não mereciam que eu fosse sincero. Então a única coisa que eu mudaria é saber selecionar as pessoas para quem realmente a gente pode se abrir, pode ser sincero. Eu tenho uma característica, que eu acho que é de nordestino, que nós somos muito francos, a gente não sabe dar volta para chegar a uma história; a gente vai direto ao assunto. Então, se eu tivesse que viver de novo e fosse repetir algumas coisas, eu apenas ia usar a minha inteligência de uma maneira melhor, ou seja: a franqueza é uma grande virtude, a honestidade é uma grande virtude, a sinceridade é uma grande virtude; eu iria continuar com tudo isso, agora, eu iria escolher as pessoas. É como eu digo: amigos a gente escolhe, mas muitas vezes para conviver a gente tem que conviver com diversas pessoas, então a gente não pode ser sincero com todo mundo. Por exemplo, eu acho que Lula é uma pessoa extremamente sincera. O presidente da República, quando chega alguém e diz: “Não, ele tem que se afastar do povo”. Ele não pode se afastar do povo, porque o Lula é aquilo, o Lula corre o risco de vida com atentado, qualquer pessoa corre o risco de vida - a gente pode sair daqui e receber um tiro, a gente vê procurador sendo assassinado. Mas por que Lula não se afasta do povo? Porque a segurança do Lula é aquilo, no dia que ele se afastar do povo, ele é assassinado na mesma hora, hoje se ele for assassinado é o povo que é assassinado. Então é mais ou menos isso que eu digo: ele é sincero, não é por acaso que esta característica é das pessoas nordestinas de Garanhuns. Só existe gente lá honesta, existe gente sincera e honesta em todos os lugares do mundo, agora existe... Por isso que eu digo: eu fui prejudicado muitas vezes na minha vida profissional devido à minha sinceridade e à minha franqueza. A única coisa que eu mudaria é que eu não trataria mais essas pessoas com a mesma sinceridade; eu teria que fazer, não? E ia respeitar do mesmo jeito, ia respeitar porque todo mundo merece respeito. Agora, nós não podemos tratar pessoas que são diferentes de formas iguais, senão você está discriminado alguém. Então eu trataria de reformular a minha maneira de viver. Hoje, por exemplo, eu chegar aqui e estar conversando à vontade como eu estou conversando, isso mostra que se eu fosse fazer muitas coisas 20 anos atrás eu faria de forma diferente. Então eu não me arrependo de nada. Apenas, a partir de agora não sou mais criança - vou fazer 51. Uma boa idéia é começar a usar a inteligência de uma forma melhor.

ENTREVISTA

Eu acho importante esse resgate cultural, essa história, porque a desinformação, como dizia Hélio Beltrão, a desinformação e o preconceito são os maiores inimigos da Petrobras e do povo brasileiro. E eu acho também que não é só a Petrobras hoje - a história dos trabalhadores precisa ser resgatada, eu acho que a história não somente da parte do trabalho, mas da parte cultural. Seja Carnaval, seja cultura - nós vemos hoje nas favelas, vemos em diversos locais acabando o preconceito de achar que uma criança que nasce numa favela não pode ouvir música clássica, não pode gostar de balé. Por quê? Porque alguém está resgatando esta história. A própria Petrobras patrocina vários projetos culturais. Eu acho que está avançando, e eu acho que esse projeto que ora eu estou aqui dando esse depoimento, eu tenho apenas que parabenizar essa nova visão da Petrobras - começou ainda no ano passado, mas eu acho que ainda ela resgata uma visão do país de colocar as questões de forma transparente, sem preconceitos, em ouvir todos os lados de uma história para que no final o verdadeiro responsável para o julgamento desse projeto de Memória dos Trabalhadores da Petrobras, os 50 anos da Petrobras, que vai ser feito, na realidade seja o povo. Então eu acredito que as pessoas que idealizaram esse projeto estão de parabéns e eu espero que seja uma constância, uma permanente agora na nova visão cultural da Petrobras, de centralização do recursos. Que a BR não faça um projeto e a Petrobras faça outro, porque afinal os recursos nessa parte cultural a gente sabe que às vezes tem muitos projetos culturais no Brasil, no interior do Brasil, lá no Pará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, Paraná - o Brasil é muito rico em termos culturais, e eu acho que pode avançar para outros projetos. Não somente nessa Memória dos Trabalhadores, mas também um projeto com parceria de resgate da política brasileira, eu acho que é importante a história política brasileira. E colocar isso de uma forma mais popular, mais simples. E eu acho que é isso. Fico satisfeito e espero que outros trabalhadores que não tenham vindo nesse projeto possam vir em outros projetos, porque na realidade esse é um projeto impessoal.

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