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História

Entre fios e bordados

História de: Marcelina da Silva Couto Ferreira (D.Macilina)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2022

Sinopse

Infância na Comunidade Quilombola do Cercado. Formas de subsistência da sua família. Aprendizados com a mãe, funcionamento do tear e trocas com a comunidade. Tingimento de tecido com casca de pau e coração de banana. Trabalho dos pais na lavoura e a vida de parteira da mãe. Cultura da comunidade, treição. Mudança para a cidade, trabalho. Casamento, volta para a comunidade, morte do marido, criação dos filhos e religião. Como aprendeu a bordar.

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História completa

P/1 - Seu nome completo, por favor, sua data de nascimento e lugar onde a senhora nasceu?

 

R - Marcelina da Silva Couto Ferreira.

 

P/1 -  Qual a sua data de nascimento?

 

R -  14/08/1943.

 

P/1 - E qual o seu local de nascimento?

 

R -  Sou natural de Paracatu.

 

P/1 - A senhora sabe me dizer qual o nome dos seus pais, Dona Marcelina?

 

R -  A minha mãe chamava Ana Tereza dos Santos e meu pai, José da Silva Couto.

 

P/1 -  E com o que eles trabalhavam, o que eles faziam, a senhora lembra?

 

R -  Mexia com lavoura.

 

P/1 - Seu pai e a sua mãe, os dois mexiam com lavoura?

 

R – É!

 

P/1 - E a senhora lembra com lavoura do que eles mexiam?

 

R -  Era plantio de milho, arroz, feijão, essas coisas.

 

P/2 -  A mãe da senhora fazia o quê junto com o pai?

 

R – Papai plantava mandioca, nós fazia farinha. Ela ajudava na roça e mexia com tear também.

 

P/1 -  Ela vendia as coisas que ela fazia?

 

R -  Ela tecia o pano. As mulheres que ela mexia, que era da roça também... Como eu mostrei ali, o algodão, ela fazia a linha e levava para tecer, aí ela cobrava a mão de obra.

 

P/1 - E como é que ela fazia esse tear, conta um pouquinho para mim, por favor dona Marcelina?

 

R - Ela urdia a linha que a pessoa levasse para ela. Tinha os torninho de ela fincar no chão para ela poder urdir a linha. Depois da linha urdida, ela levava para o tear, aí ela emendava fio por fio. Aí agora ela já enchia as canelinha, para poder fazer o pano. Aí ela tecer… era assim, jogava para lá, jogava para cá, batia, jogava para lá e para cá, era desse modelo.

 

P/1 - E nessa época, vocês moravam onde?

 

R - Nós morávamos no Cercado.

 

P/1 - Nessa época vocês estavam lá na comunidade?

 

R -  É!

 

P/1 - E lá era tudo roça no lugar?

 

R -  Era tudo roça.

 

P/1 - E aí sua mãe fazia esse trabalho então, e aí ela vende é para quem naquela época?

 

R -  Esses tecidos era para as donas, para as pessoas que davam para ela a linha para ela fazer, não era dela, ela fazia para os outros. Aí ela cobrava a mão de obra, fazia o pano, mas era com a linha de quem levasse. Por exemplo, você levava a linha, “eu quero que a senhora faça uma coberta xadrez para mim”. É como eu falei para você, ela vai por uma casca de pau para ferver e faz as meada, põe um toco lá, a linha, tinta e deixa secar, depois volta para lá de novo, enrola e faz um novelo, igual aquele ali. E agora que ela vai fazer. Se fosse uma coberta listrada, era listrada, se fosse xadrez era xadrez.

 

P/1 - Aí a senhora até tinha me contado que ela usava essa casca de pau para tingir a linha, como que era esse processo, como ela fazia para essa cor ficar?

 

R – Uai! Ela colocava para ferver junto com a casca de pau, aí a hora que fervia ela tirava e punha para secar.

 

P/1 -  Aí mergulhava ela lá na água fervendo com a casca de pau... 

 

R - E deixava ferver também, junto.

 

P/1 - Aí tirava, deixava secar e já estava colorido?

 

R – Ficava colorido, do gosto que quisesse. Outra hora, era aquela tinta mesmo de latinha, que comprava umas latinhas, vocês é capaz que não conhece, uma que tem um pozinho.

 

P/1 - Sim!  Isso existe até hoje.

 

R - Pois é! Ela punha também, aí já punha na água fervendo, cortava umbigo da banana e punha lá para ferver junto.

 

P/2 -  Para segurar a tinta.

 

R -  Para segurar a tinta.

 

P/1 - Além da casca de pau ela colocava essa, como que chama essa?

 

R - Umbigo de banana.

 

P/1 - É uma folha essa, ou é uma raiz?

 

R -  Aquela que dá no cacho.

 

P/1 -  A gente não conhece.

 

P/2 - É o coração da banana, é do cacho da banana.

 

P/1 - Que legal! Eu não sabia que vocês chamavam assim.

 

R - Mas lá, a gente conhecia por umbigo da banana, mas é o coração da banana.

 

P/1 - Mas aí fervia tudo junto com a casca de pau, colocava o fio lá, fervia junto e depois quando tirava deixava secar e já ficava cor?

 

R -  E não soltava mais nunca.

 

P/1 - Além da lavoura, sua mãe também fazia esse trabalho?

 

P/2 -  Outra coisa, ela era Parteira,né?

 

R -  Ajudava também.

 

P/1 - Além dela trabalhar na lavoura, dela fazer o fião e o tingimento, ela ainda trabalhava como parteira? Me conta essa história?

 

R -  As mulheres de antigamente, ganhavam neném tudo na roça, não era igual hoje que é tudo no hospital. E na época, também ninguém tinha condição, os meus meninos mesmo, os mais velhos, nasceram todos na roça.

 

P/1 - Nessa época não tinha hospital, não tinha posto de saúde, não tinha nada lá?

 

R -  Lá não tinha nada e não tem. Tudo é aqui, tudo que precisa é aqui.

 

P/1 -  Nessa época que não tinha hospital, as mulheres tinham filho em casa. Como que era sua mãe nessa época?

 

R -  Ela ajudava. A gente que era mais entendida... a gente nem via, porque era tudo escondido na época. A gente nem podia saber, a gente nem sabia como que era nada. Aí tinha um negócio, “a cegonha trouxe o neném para fulano e tal”, era assim. A gente não via nada. Aí depois, a gente foi crescendo, as mais (entendida) explicavam nada para a gente. A gente não ficava sabendo de nada.

 

P/1 -  Tem alguma história dessa época que a senhora lembra? Pode ser uma história sua, não precisa ser da sua mãe.

 

R - A história minha era roça mesmo.

 

P/1 - Mas nessa época da infância, a senhora já trabalhava na roça?

 

R – Trabalhava. Nós, na época, trabalhava pequeno. Quando a gente estava na idade pequeno, novo, a gente já trabalhava, não é igual hoje que menino não pode trabalhar. Com 15, 16 anos, não pode trabalhar. Lá, eu tava com 8 anos e já fazia comida. O fogão nosso era fogão a lenha, tinha um toco lá desse tamanho assim. Punha o toco lá e subia para poder alcançar as panelas, para mexer. Na hora que a minha mãe chegasse da roça, a comida está pronta.

 

P/1 -  Além de cozinhar em casa, também ia para a roça.

 

R -  Trabalhar na roça, capinei muito na minha vida.

 

P/1 -  Isso desde os oito anos de idade?

 

R -  Os 9 anos, 10 anos.

 

P/1 - E a senhora tem irmãos?

 

R -  Só tem uma irmã. Não, um casal de irmãos.

 

P/1 -  E eles tem muita diferença de idade da senhora?

 

R -  Tem! A caçula está com 63, acho que é 63.

 

P/1 -  Nessa época da infância vocês já tinham muita diferença de idade, a senhora nasceu, ela nasceu muito depois, vocês não conviveram muito tempo com a mesma idade, a senhora já era adulta quando ela nasceu?

 

R - Já.

 

P/1 - E nessa época de infância não tinha tempo nem para brincar?

 

R -  Até que a gente brincava brincava de boneca, juntava as amiguinhas lá, nós ia por debaixo dos pau, varria lá, fazia cozinhadinho.

 

P/1 -  Cozinhadinho como é esse?

 

R -  Fazia as comidinhas lá. Pegava as coisas da cozinha dos nossos pais e levava para o mato para fazer o comer para dar a amiga lá no mato. A gente ia brincar de boneca.

 

P/1 -  Fazer comidinha para brincar entre vocês, igual a comida do adulto, mas só que era uma comida para criança. E tinha tempo de brincar, porque a senhora trabalhava muito?

 

R -  Mas nos finais de semana, eles davam folga para gente. A gente trabalhava durante a semana.

 

P/2 -  Porque eles, antigamente, guardavam o domingo, o feriado.

 

R -  Aí era da gente. A gente tinha o tempo para brincar. 

 

P/2 - É o momento de lazer, de diversão. Antigamente, domingo era domingo.

 

P/1 - A senhora estava contando que o único tempo que dava para fazer alguma coisa era no final de semana, como é que era isso lá?

 

R -  Porque hoje em dia é como ela falou, ninguém tem esse tempo. E, naquele tempo, os povo tinha os feriados, não trabalhava, domingo era descanso, então era o dia que a gente aproveitava.

 

P/1 -  E a senhora aproveitava como? Brincando, e o que mais tinha lá no Cercado que era diferente no final de semana, tinha alguma festa, algum evento ou alguma coisa mais religiosa?

 

R -  Tinha as festas de final de semana. Era assim: vamos dançar na casa de fulano hoje. Já juntava a turma, a moçada, rapaziada, os pais da gente, ia para casa do vizinho, ia brincar, dançava, era aquela coisa saudável.

 

P/1 - E isso era sempre de final de semana?

 

R - Era fim de semana, que só tinha isso.

 

P/1 - Como que era a cultura do povo da roça?

 

R - Lá era muito bom! Uma boa união, todo mundo era unido, não tinha desavença, todo mundo era muito amigo. Que hoje tem muita inimizade. Nesse tempo, já tinha muita gente, hoje que acabou.

 

P/2 - A senhora vai falar a cultura lá…

 

R - A "treição", que a gente fala. Se nós fossemos dar uma "treição" nele, nesse aqui, ele não podia saber não. Você arrumava tudo, aí quando era de noite chegava a turma de gente tocando e cantando, falando o que ia fazer, ia limpar a roça deles. Aí o almoço era por conta do "treiçoeiro". Se eu, Corina, vocês aí fossem ajudar na "treição", aí o almoço era por nossa conta. O dono da casa só tinha para a janta, aí ele ia correr, levantava o olho desse tamanho.

 

P/1 - Mas me conta, como é que vocês escolhiam a pessoa, como é que acontecia isso?

 

R - Porque estava com a roça precisando limpar para plantar. Aí, juntava aquele tanto de homem, ia aquela homaiada para roça, as muiezadas tudo, conforme a distância, fazia comida na roça, ou não, fazia comida em casa e levava para a roça, né Corina? Aí todo mundo almoçava. Ai ia estar correndo para arrumar a janta, para garantir a janta. A janta e a festa era por conta dele.

 

P/1 - Mas aí, não avisava a pessoa, é isso?

 

R - Não podia avisar, se não, não era "treição". Ele tava sabendo, ele ia correr e arrumar as coisas. Ele tinha que ficar inocente.

 

P/1 - Vocês iam lá, ajudavam a capinar e a festa era por conta da pessoa?

 

R - Aí, de tarde, juntava aquele tanto de homem com as enxadas no ombro, parece que trazia um ramo, né Corina? Você lembra? Sei que limpava a roça toda e não podia ir lá na roça, se fosse, o povo dava uma carreira nele.

 

P/2 - Diz que tinha uns que até apanhava…

 

R - E levava. O povo limpava a roça e tudo, e quando era de tarde, ia cantar na porta dele, entregando o serviço. Todo mundo com as enxadas no ombro.

 

P/1 - E quando terminava o serviço, como é que era essa festa, porque a pessoa tinha que arrumar de última hora?

 

R - Naquele tempo, parece que as coisas eram mais fáceis. A pessoa arrumava, matava um porco, matava frango, para fazer a janta, para dar para o pessoal todo. Todo mundo jantava. Entregava o serviço, todo mundo ia para suas casas, se arrumava, tomava banho e voltava para jantar. Sanfona, violão.

 

P/2 -  Porque antigamente não tinha esse som assim.

 

R -  Era sanfona, violão e dança a noite toda.

 

P/1 -  E a comida era isso, porco, galinha que a pessoa matou para poder preparar de última hora para festa poder acontecer?

 

R -  Fazia uns biscoitos também. Lá para madrugada, servia uma mesada de café.

 

P/1 -  Era do que esses biscoitos?

 

R - Era de polvilho, de fubá que a gente fazia. Punha fogo no forno, forno de Barro.

 

P/1 - Isso também… tudo feito meio de última hora? Nesse tempo que o povo estava trabalhando no terreno era o tempo de preparar?

 

R - Preparando uma coisa, preparando outra.

 

P/1 - A senhora ficou lá até quando?

 

R - Já faz tempo que eu vim para cá. Na época, os meus meninos estudavam lá, acabou a escola, não tinha o grau maior lá, aí nós já tínhamos comprado a casa aqui. Meu esposo falou mode eu vim, não queria ficar na casa dos outros, aí eu vim para cá. Mas foi falta de sorte, porque eu vim dia 11 de janeiro e ele faleceu no dia 27 de março…

 

P/1 - Quando veio aqui para a cidade, aconteceu aqui na cidade?

 

R - Foi!

 

P/1 - Na adolescência, a senhora ainda estava lá no Cercado? 

 

R - Estava, que eu casei foi lá na roça.

 

P/1 - Conheceu seu esposo lá na roça? Ele também era do Cercado?

 

R - Era lá do Cercado.

 

P/1 - Então conta um pouquinho dessa história?

 

R - Essa época ainda mexia, só que eu vim para trabalhar aqui, no ano que eu casei estava trabalhando aqui, na casa dos outros.

 

P/1 - A senhora saia lá da roça e vinha para cá, é isso?

 

R - Saí de lá e vim trabalhar aqui na cidade, de doméstica.

 

P/1 - Isso a senhora já tinha mais ou menos que idade?

 

R -  Já tinha uns 20. Eu casei com 21 anos.

 

P/1 -  E como a senhora conheceu o seu esposo lá?

 

R -  Lá o povo morava todo mundo perto um do outro.

 

P/1 -  Ele tinha uma idade parecida com a senhora, próxima, ou ele era mais velho, mais novo?

 

R -  Toda vida, quem manda é o que tá no papel. Eu era mais velha, mas nós ficamos tudo numa idade. Que os pais da gente antigamente, não registravam, a gente que trabalhava e registrava, que eu registrei quando eu fui casar. Aí o meu pai falou a idade para o Sérgio Cordeiro, que eu tinha essa idade. Chegou lá e falou "não, seu pai falou que você tem essa idade".

 

P/1 -  E aí, pelo papel dizia que ele era um pouco mais novo?

 

R -  Não, nós ficamos sendo tudo da mesma idade, que ele é de 43 também e eu sou de 42, mas por causa do papel. O que conta é o papel, ficou tudo uma idade só.

 

P/1 -  Mas vocês cresceram tudo junto, porque vocês se conheciam lá da roça?

 

R -  Foi!

 

P/1 -  E como aconteceu o casamento?

 

R -  A gente morava perto, um gostava do outro e, no fim, deu casamento.

 

P/1 -  E ai, quando casaram, vocês casaram lá na roça?

 

R - Meu pai levou o padre lá na roça e nós casamos lá.

 

P/1 - E tinha igreja lá na época?

 

R - Casamos na casa do meu pai mesmo.

 

P/1 - E não tinha na comunidade nada de igreja?

 

R - Nesse tempo, não tinha essas coisas.

 

P/2 - Aí, na época, o padre foi lá na roça?

 

R - Foi. O padre foi e fez a festança lá.

 

P/2 - Aí depois, a senhora conta como passou para congregação.

 

R - Na época não tinha, nós nem conhecia evangélico, todo mundo era católico. Depois que nós ganhamos umas visitas lá de irmãos da Congregação Cristã do Brasil. A gente foi vendo, aí a gente gostou. Aí fez uma igrejinha lá no …

 

P/1 - A senhora estava contando que nessa época chegou a igreja evangélica que vocês não conheciam. Ela fez uma igreja, é isso?

 

R - É! fez uma igrejinha lá no Sumido, uma igrejinha de palha, fez a casinha de palha de coqueiro.

 

P/2 - Mas muito longe lá de onde é.

 

R - Amanhã você vai passar lá perto, onde era a igreja. Tivesse alguém que fosse que conhecesse, para falar onde que era, a distância que a gente via, tinha gente que ia até de pé, nós ia de carroça e quando não ia levar os meninos nos ia de cavalgada, nos dois ia na cavalgada.

 

P/1 - Porque era lá no Cercado, mas não era assim do lado da casa que a senhora morava. Era distante?

 

R - Muito distante.

 

P/2 - A gente saia cedo, 8h da manhã. O culto era que horas? Acho que 14h.

 

R - Tinha vez que nós saia lá de casa… quando ia só nós dois, saia meio dia. A gente ia rápido, ainda chegava, esperava o operador chegar. Foi assim muito tempo, até que desativou a igreja lá. Aí ficou sem a igreja. Depois que a gente veio para cá, que a gente congrega direto.

 

P/1 - Porque aqui na cidade já tem igreja e vocês vão na igreja quando vão congregar?

 

R - É.

 

P/1 - Mas lá era essa igreja, que surgiu depois até. Que antes disso era a católica, mas também nem igreja católica tinha? 

 

R - Não tinha igreja.

 

P/2 - Aí depois de muito tempo, muito tempo mesmo, passou a ter a igreja lá. Que é essa que está de pé, que amanhã vocês vão ver também.

 

R - Foi bem para cá.

 

P/2 - Essa deve ter uns 20 e poucos anos. É bem mais nova.

 

P/1 - Mas essa da congregação também é um pouco mais antiga. Não é da época da infância, mas é mais antiga do que essa que ela está contando agora. Essa mais ou menos que época, essa da congregação, tem mais de 30 anos?

 

P/2 - Tem! Eu lembro que eu era menina, a gente ia. Eu lembro de eu, com 7 anos, indo para a igreja.

 

R - Acho que já tem mais de 30, mas o tanto eu não sei.

 

P/1 - Como a senhora veio trabalhar de doméstica na cidade?

 

R - Porque eu já estava enjoada de mexer na roça. Eu queria uma vida melhor. Aí meus pais deixaram eu vim trabalhar. Tinha uma mulher, ela já se dorme, ela arrumou o serviço para mim e eu vim ficar com a mulher que ela arrumou, e fiquei lá, saí de lá para casar.

 

P/1 - Mas quando casou, casou na roça, que era o que a senhora estava contando. E quando casou, ficou morando lá um pouquinho ainda?

 

R - Muitos anos.

 

P/2 - Pelo tempo que ela ficou lá na roça, tem pouco tempo, né tia Marcelina, que a senhora está aqui na cidade? Pelo o que viveu na roça, hoje tem o que? Uns 25 anos que a senhora mora na cidade?

 

R - É! Já está quase pulando para os 30. Eu vim para cá em 94.

 

P/1 - E nessa época que a senhora estava morando na roça… a senhora vinha todo dia para a cidade? Era todo dia que trabalhava?

 

R - Não, eu vinha para trabalhar aqui, foi antes do casamento, aí depois que eu casei, não vim. Vim trabalhar aqui foi depois que eu fiquei viúva, ai que eu fui trabalhar para os outros, porque a vida não estava fácil.

 

P/1 - Na época do casamento, a senhora não chegou a trabalhar fora?

 

R - Não!

 

P/1 - E seu esposo trabalhava com o que na época?

 

R - Era lavrador.

 

P/2 - Era na roça também.

 

P/1 - Lá também no Cercado? E nessa época… a senhora teve filhos?

 

R - Um tanto, graças a Deus.

 

P/1 - Então me conta dessas filharada toda. Eu quero conhecer eles também. Quantos filhos a senhora teve?

 

R - 10.

 

P/1 - E a senhora lembra o nome de todos eles?

 

R - Ai tem que contar, botar a fila. O mais velho chama Benedito, o segundo, Sinval, o terceiro, Paulo Cesar, Valdeci, João Batista, Edson, Alcione, Simone, Irani, Iraci. Falta um?

 

P/1 - Eles têm muita diferença de idade?

 

R - Dois anos.

 

P/1 - Então todos têm mais ou menos a mesma idade. Tinha época que a senhora estava com um monte de criança, como é que era a casa nessa época?

 

R - Vixi, era uma criançada! E depois peguei os meus sobrinhos, fiquei cuidando de 15 filhos, porque os meus filhos já estava trabalhando fora, mas só que quando eles chegavam eu tinha que cuidar deles, lavar as roupas deles, tudo. Todo mundo trabalhava. Os mais velhos trabalhava, os que trabalhava lá, outros trabalhava aqui. Os que trabalhava aqui, só ia lá mesmo para passear. Chegou a época que o Valdeci entrou para o exército, aí esse eu já não cuidava, ele que se virava. Os outros também, a mesma coisa. O Sinval quando chegou, foi para a casa do tio dele, que é esse aí, que é casado com a minha irmã, aí ficou morando com eles lá até casar.

 

P/1 - Antes de chegar nessa época de adulto, todos eram crianças. E a senhora cuidava de todos eles, ainda contou que além dos filhos ainda cuidava de 5 sobrinhos, então era 15 ao todo. E aí, como eles eram, eles eram bonzinhos, te ajudavam ou faziam uma bagunça?

 

R - Menino sempre faz uma baguncinha, mas eles até que eram obedientes. Os meninos até que me ajudavam muito. E a gente socava arroz ali no pilão, socava milho para fazer canjica.

 

P/2 - E botava esses meninos para ajudar.

 

R - Todo mundo ajudava.

 

P/1 - Como a senhora foi falando, eles também já foram crescendo e saindo de lá.

 

R - É! Eles foram saindo, cada um já foi pegar o seu serviço e cada um foi trabalhando, até que a casa esvaziou.

 

P/1 - Pois é! De 15, foi ficando 10, 9, 8… E como foi no final, antes de sair de lá, como estava a casa? Todo mundo já tinha saído?

 

R - Ainda tinha os mais novos, os mais novos ainda estava com nós.

 

P/1 - Aí quando vocês vieram para a cidade, eles vieram junto ou eles ficaram lá no Cercado?

 

R - Não, vieram todo mundo. Todo mundo já tinha vindo para cá, porque todo mundo já estudava aqui.

 

P/1 - A senhora tinha contado que era por causa da escola que não ia além.

 

R - Lá não tinha e vieram. Todo mundo estudou.

 

P/1 - Aí a senhora contou que logo depois teve que trabalhar, como é que foi essa época?

 

R - Não foi fácil! Até que Deus ajudou, que veio a aposentadoria, a pensão, aí já ajudou. Mas, naquele tempo, a pensão era pouca, não era muito. Mas parece que era mais do que hoje, parece que rendia mais.

 

P/1 - E nessa época que a senhora voltou a trabalhar, o que aconteceu com o seu esposo, a senhora tinha mais ou menos que idade?

 

R - Uns quarenta e pouco.

 

P/1 - Mas aí, já tinha criado os filhos tudo, tinha só esses que eram mais novos, que a senhora contou que estavam estudando. Quando voltou a trabalhar aqui, a senhora trabalhou com o quê?

 

R - Eu trabalhava de lavadeira, passadeira.

 

P/1 - E aí a gente soube que mais lá na frente, você tinha essa habilidade que tinha aprendido com a sua mãe, de fiar. E aí, você estava contando para a gente que fez um curso, que curso foi esse? Como foi que aconteceu?

 

R - Curso de tecelagem mesmo, curso de bordado que eu fiz.

 

P/1 - Aí você foi fazer onde esse curso?

 

R - Foi lá na Casa de Cultura, no Alto do Açude.

 

P/1 - E como a senhora ficou sabendo desse curso?

 

R - Eles falaram.

 

P/1 - E por que a senhora quis fazer o curso?

 

R - Eu já não estava trabalhando fora mais. Aí eu peguei, para não ficar parada e sirvo até hoje.

 

P/1 - Então conta para a gente um pouquinho o que você aprendeu neste curso? 

 

R - Aprendi a bordar mesmo. Fazer bordado, fazer igual eu falei, tecer, fazia pano, essas coisas.

 

P/1 - E aí a gente viu a máquina lá, como surgiu essa máquina? Porque ela não tinha, ela não estava aqui.

 

P/2 - Na verdade, fiar não foi no curso, fiar aprendeu com a mãe dela. Mas como apareceu o curso, ela foi testar as habilidades dela.

 

P/1 - Aquilo que a senhora tinha aprendido com a sua mãe também.

 

P/2 - E aprender coisa nova.

 

P/1 - Aí, no curso foi aprender mesmo bordado. E a senhora faz isso até hoje?

 

R - O bordado? Até hoje eu faço.

 

P/1 - E fiar também?

 

R - Fiar, eu não estou fiando mais. Que essa roda é da minha professora. Aqueles panos ali, ela mandou porque tem muita coisa comigo, para mostrar, falar, como que é, como que não é. Mas essa roda não é a minha.

 

P/1 - Mas o bordado a senhora continua fazendo, pelo menos de vez em quando?

 

R - Eu faço direto. Quando eu enjoo de fazer uma coisa, eu faço outra.

 

P/1 -  E na religião, a senhora ainda vai?

 

R - Eu vou, todos os dias que tem. Se não tiver chovendo muito, eu vou. Agora, se tiver chovendo muito, eu não vou. Mas, os dias de culto, eu não gosto de perder.

 

P/1 - A senhora ainda vai congregar na igreja, ainda se envolve com as coisas da igreja. E como é que é a igreja aqui? O que ela tem de diferente da igreja da roça?

 

R - É a mesma coisa. Diferença só que veio para cá, mas é a mesma igreja.

 

P/1 - O lugar é diferente?

 

R - Diferente é isso, que era de palha e hoje é de telha.

 

P/2 - Mas só que chegou uma época que também lá na roça desativou a de palha, que a igreja congregação, ela tem um padrão, vocês já observaram. Aí, eles derrubaram o ranchinho de palha e fez a igreja bonitinha lá de telha, eu não sei porque ela acabou.

 

R - É mudança, que o homem que comprou lá…

 

P/1 - E vendeu o terreno?

 

R - É, vendeu e o outro não aceitou.

 

P/1 - Mas nessa época que a igreja foi construída foi no terreno de alguma família de lá, é isso?

 

R - Era de Bastia, nessa época. Depois ele vendeu.

 

P/1 - Era fazenda de uma pessoa, depois essa pessoa vendeu e por causa disso acabaram desfazendo? Mas é isso, ela foi de palha, mas chegou a ser de telha também lá.

 

R - É.

 

P/1 - E quando a senhora chegou na cidade já era essa igreja de telha?

 

R - Era e é.

 

P/1 - A senhora no decorrer da vida teve algum sonho?

 

R - Eu tive e tenho. Se eu tivesse condição, eu tinha vontade de arrumar minha casa.

 

P/1 - Essa casa aqui. O que a senhora ia fazer?

 

R - Eu ia aumentar ela, fazer uma cozinha, porque a minha cozinha é pequenininha. Eu tinha desejo, mas não tenho condição.

 

P/1 - A senhora gosta de cozinhar?

 

R - Eu não sei cozinhar, mas não fico com fome também. Eu gosto! Como diz, não sei cozinhar, mas não tenho preguiça.

 

P/1 - O que a senhora gosta de fazer?

 

R - Não sei fazer nada.

 

P/1 - Eu ouvi dizer que a senhora faz uma feijoada muito boa, pão de queijo. Tô sabendo que a senhora sabe cozinhar muito bem.

 

R - Sei nada!

 

P/1 - Como foi contar sua história para o Museu da Pessoa?

 

R - Eu acho que é uma coisa muito boa, porque a gente está antigo, já quase com 100 anos. Dá para ficar de recordação para os mais novos, porque a maioria deles não conhece  essas coisas, então fica de herança. Eu acredito assim.

 

P/1 - Então, o Museu da Pessoa agradece a entrevista que a senhora fez. Muito importante a gente guardar para as próximas gerações. A gente agradece muito!

 

R - Eu também agradeço muito vocês.

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