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Entre dores e milagres

História de: Berenice de Souza Torres
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2020

Sinopse

Berenice de Souza Torres, nascida em 22 de setembro de 1980 em Pirá, Bahia, é a décima terceira filha da família. Berenice, desde que nasceu, foi rodeada pela pauta da importância da educação na vida de todos. Aos oito anos de idade veio com sua família para São Paulo e passou boa parte da vida na favela de Paraisópolis, onde cravou a luta pelos estudos, pela cultura e, principalmente, a luta por seus direitos. Estudante do CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério, tornou-se professora da Prefeitura de São Paulo e atualmente conclui o seu mestrado pela PUC-SP.

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História completa

Sou Berenice de  Souza Torres, mas gosto que me chamem de Berê. Nasci no dia 22 de setembro em 1980 em Pirá, Bahia. Bahia.....

 Meu pai, Manoel Dias Torres, minha mãe Maria de Souza Torres, não são mais vivos, infelizmente. 

Ah sim! Meu pai gostava muito de cozinhar para a família, né, para os filhos... gostava de assoviar, gostava muito de ouvir notícia, é... ouvir rádio, notícia, ele era muito disso, de ler bíblia e conversar, conversar, falar, contar histórias. Meu pai lembro muito disso. Minha mãe era muito alegre, era muito sociável, gostava de conversar com as pessoas... era muito atuante das obras sociais também, ajudava muito nos trabalhos da igreja, cesta básica para as pessoas, ajudar... Todos os vizinhos, nascia filho, alguém adoecia, minha mãe tava lá ajudando. Então ela era muito de ajudar as pessoas e gostava muito de cantar. Muito de cantar. Era muito vaidosa e muito muito muito cuidadosa, assim, com a casa, com os filhos e com as pessoas. Minha mãe era muito de gente assim, de gente, gente.  Então, minha família sempre foi muito assim né, minha mãe, meu pai. Tanto que na minha casa quando eu tinha 14, 13, 12 anos, morava a gente e o pessoal que vinha da Bahia, eles acolhia todo mundo. O pessoal vinha pra minha casa, uma casa assim, pequena, morou assim, moraram 22 pessoas, 25 assim... E aí as pessoas vinham para casa, os meus pais arranjavam emprego, por que meus pais conheciam muita gente, assim, e então eu trago muito deles essa lembrança de acolhimento, de gente, de lidar com as pessoas... Mesmo eles tendo muita... sendo muito pobres, né, muito simples, não tinham recursos, mas o que eles tinham eles ajudavam. Eu falo que eram do povão, assim (risos). Muito da comuna, mesmo... 

Ah… o que eu sei e que sempre me deixa muito curiosa, é que assim.. Eles casaram e tiveram os dois primeiros filhos da Bahia, depois vieram para São Paulo, e aí nasceram uns aqui Santos, Guarujá, Santos e Guarujá eu tenho um monte de irmão que nasceram... Aí depois eles voltaram para Bahia, ai nascemos os últimos, assim, até a 13 que sou eu e depois eles voltaram para cá. Da história do meu pai, que ele me contava, o que me marcou e me marca até hoje é da vó dele. Que a vó dele era filha de escravos... era filha de escravizados, né?. E a avó dele, ele fala que tinha quase 100 anos, e contava história para eles todos sentados “assim”, inclusive para o meu pai, que meu pai era muito pequenininho e contava da época da escravidão, e contava da senzala... E meu pai contava isso “Olha, minha avó era uma negona, que veio de África por Cuba, era filha...”. Ela não chegou a ser escravizada, mas viveu como, porque ela viveu na casa da galera, dos senhores, dos pais dela que foram escravizados, no caso... E eu prestei atenção nisso já muito adulta assim, já depois que comecei a cavocar com uns 20 e poucos anos, então isso me marcou. Da história da minha mãe, o que minha mãe conta é que a minha avó, que é a mãe dela, é filha de um estupro de um fazendeiro e que foi lá na tribo da minha bisavó e estupro a minha avó. Hoje se fala estupro, né, mas naquela época não entendi assim. E minha vó que é filha de indígena com português é filha desse abuso aí. E a minha vó cresceu na fazenda desses portugueses lá na Bahia como empregada, ela e a mãe dela. Ela nunca foi filha, ela nunca foi reconhecida, né. E ele era, ela e minha bisavó eram empregadas desse fazendeiro português que a gente nunca teve contado. Então a minha avó traz essa história da indígena, que foi...  a minha avó é fruto disso. E da parte do meu pai que é neto de escravizados. Então eu falo que sou brasileira mesmo, assim... Daquelas, daquela parte oprimida sabe, tanto de um lado quanto do outro. E da parte do meu pai ele também acho que é neto ou bisneto de português, e da parte da minha mãe também. Mas não como... mas nunca foram reconhecidos como, eu digo que como pessoas, né, porque você crescer marginalizado, nem de um lado nem de outro, não foram considerados. Negros, indígenas, no Brasil... você imagina, né? Então a minha história é dai, o que eu lembro que me marcou muito e hoje reflito muito é essa questão de consciência de classe, de história, de identidade, eu trago... hoje o que me marca é isso, das minhas origens, tanto materna quanto paternas. Tanto que minha mãe tinha muitos traços indígenas e o meu pai era um negro muito misturado, um negro que tinha uns traços de… meio que sararás, era um negro meio claro, com os olhos sabe assim... Então eu sou fruto disso. Eu não reconheço na minha identidade, na minha história, o meu lado europeu, português no caso, por que eu não quero mesmo, por que antigamente não foi reconhecido, então eu não falo com orgulho assim, porque tem gente que fala: “ah porque sou neto de italiano, eu sou neto de português, de espanhol...”. Eu não, eu falo com muito orgulho que eu sou neta de indígenas e de africanos, que a minha origem é muito África e indígenas brasileiros. Então é o que me sustenta, é onde eu me reconheço. 

R: Quando eu nasci a gente morava... os meus pais já tinham voltado de São Paulo, essa parte assim.. ai eu nasci lá, eu fui a última. Ai a gente morava na roça né, falava, o nome da roça era Fazenda Rural, era Fazenda Retiro, era Fazenda Retiro, isso mesmo! 

(..)Porque eles falavam que educação não enchia barriga, que estudar não enchia barriga, que lápis e caderno não enchia barriga. Que tinha que trabalhar na roça e por isso que o pessoal tinha muito filho... sei lá. E os meus pais, não. Meus pais não, não sei se essa cultura de São Paulo e tudo, falavam, não, que a gente tinha que estudar. E todo mundo estudava e metade do dia trabalhava na roça e era assim, quem estudava de manhã trabalhava de tarde e quem estudava de tarde trabalhava na roça de manhã.  Mas estudava! E aí todo mundo criticava. E aí minha irmã tava fazendo o magistério, se formando, né, para ser professora básica, do ensino básico, de primeira a quarta série e a casa de farinha que era... a gente fala “terreiro” lá, não fala quintal... que era bem no nosso terreiro assim, tinha a nossa casinha e a casa de farinha, aí o prefeito pediu para ser a escola rural da região. Ai a minha irmã nem tava formada ainda, tava no último ano e já foi professora de todo mundo ali da região. Como que era essa? era classe multisseriada, vocês não são da educação, vou te falar como que funcionava... era assim... Era uma sala de aula... Ai meu pai que reformou, com a minha mãe com minha mãe, o meu pai reformou a casa de farinha e cedeu e daí virou Escola Rural Fazenda Retiro.

E aí o... era uma sala que funcionava em dois turnos e a noite a minha irmã ainda ia para Pintadas que era a cidade que era fazia o curso. E eram quatro fileiras, primeira série, segunda série, terceira série e quarta série no mesmo lugar. Então funcionavam quatro séries e minha irmã tinha que dar conta de alfabetizar desde o comecinho e pela idade... E não era assim, você é analfabeto que você vai para a primeira série, não, era por idade e minha irmã conseguia alfabetizar. E eu, com seis anos já era alfabetizada, porque eu aprendi a ler acho que com quatro, cinco anos, por conta de todo um incentivo dos mais velhos e eu era a caçula, e todo mundo lia né. E lia muito a bíblia, a bíblia sempre foi a porta de... A minha mãe aprendeu a ler e o pai a bíblia. Eles foram estudar depois, mas eles foram alfabetizados para lerem a bíblia e funcionavam, liam muito bem. E aí, a gente... tá. Eu lia e escrevia e com seis anos eu era a aluna mais nova da minha irmã e eu ajudava a alfabetizar os outros, aí eu era chamada de “professorinha”, porque com seis anos eu já ensinava, eu já sabia. Ai essa história é legal, porque com seis anos eu falei: “eu quero ser isso”. E realmente fiz magistério depois, aqui em São Paulo, fiz Pedagogia, já fiz duas pós e hoje estou na terceira, stricto sensu. Sou professora de escola pública, né, da Prefeitura Municipal de São Paulo, mas aí... veio daí, veio dessa herança que sou hoje... O que eu falo é que eu tive o privilégio de escolher a minha profissão. Já ouvi muitas vezes as pessoas falarem que, isso é uma verdade “porque quem que faz pedagogia é por que... não é por que gosta, é por que é mais fácil, por que tem curso a noite, tal, tal, tal...”. para muitos sim, mas para mim não, é por que eu escolhi. Tanto que a minha família queria que eu fizesse Direito, eles falaram: “não a gente paga, todo mundo vai se juntar, a gente faz a firmagem e tal, a gente paga...”.  E aí eu falei: “não, eu quero ser professora, eu quero ser”. E sou hoje, quero ser e não estou arrependida, gosto e tenho muita consciência da minha profissão e muito orgulho de como nasceu, né, que foi da luta dos meus pais, da minha irmã, os meus pais formaram a minha irmã; minha irmã acabou sendo a Professora Veronice da região, a filha do seu Mané, né, por que meu pai era Manuel, a filha Dona Edite e do Seu Mané, a professora... E depois, meus vizinhos valorizaram muito. E aí viemos para São Paulo nesta época, acho que quando eu estava na segunda série viemos para São Paulo, já. E aí acabou a escola lá na região, não sei como tá hoje, enfim… os vizinhos choraram muito, lamentaram bastante. Eu tive outra irmã que chegou a dar aula nessa escola, por que ela era alfabetizada tal, mas ela não tinha o magistério, mas na falta da minha irmã a outra que assumia e foi legal, assim… foi escola formalizada, ia merenda, os materiais… Eu lembro que aquela cartilha, que vocês num… que não é da época de vocês, que é a “Caminho Suave”, que é a “vovó..” (risos) que o  Paulo Freire critica muito, com muita razão: “vovô viu a uva”, sabe essas coisas?; eu aprendi com essa cartilha, antes de entrar na escola e… por que minha irmã já dava aula, né? e… aquela “Caminho Suave” eu lembro com muita afetividade, porque eu lembro que quando… cada vez que chegava uma de alguma das séries eu lia por uma semana, fazia todas as liçõezinhas, tal… Aí eu lembro que tinha, eu lembro até hoje, que tinha naquelas cartilhas umas famílias assim, branquinhas né, na mesa… por que tudo tinha desenho... e uma empregada: negra!. Eu não tinha noção, mas na minha cabeça era aquilo, era o certo e nos livros de história também. Eu fui me dar conta disso, dessa coisa mamãe, papai e os dois filhinhos todos branquinhos e a empregada negra, quando eu tava no magistério aqui em São Paulo, no CEFAM. Tudo o que eu for falar, eu sempre vou buscar essa linha gente, porque nessa linha que eu me reconheço, que eu me identifico e tudo eu busco, assim, eu puxo para isso… por que essa é a história da minha vida, né, essa questão do racismo estrutural, essa bate muito forte… e no CEFAM um professor falou assim: “Por que sempre essa família, papai, mamãe, dois filhos, um menino e uma menina, a empregada e todos muito lindos, todos cheios de brinquedos e sempre brancos?”. Eu não me dava conta… “é assim a vida de vocês?” assim, o professor de história que fazia mestrado na USP na época, chamou a gente para essa questão. E essa familinha perfeita, com sofá, sabe… com.. geladeira, tapete… não era minha realidade e eu ficava sonhando com aquilo, e muitas vezes eu me sentia muito mal, me sentia feia, sabe: “nossa, eu queria ter aquele tapete, eu queria ter empregada”.... Só que eu nunca me do que aquela história, do que a Caminho Suave e os livros de história traziam para perpetuar aquele padrão de família: mamãe e papai, menino e menina branquinhos e a empregada negra… Ai depois veio o Monteiro Lobato por quem eu era apaixonada!!. Li toda coleção, na roça ainda, de Monteiro Lobato, tinha sete, sete ano, oito anos, sete ou oito anos, acho que oito anos, é já lia aqui em São Paulo, mas eu me apaixonei… não tinha noção da questão do Saci, da Dona Benta, da… Não tinha noção daquelas brincadeiras, e eu era muito apaixonada. Então quando com 16 anos eu comecei a ser conscientizada, me conscientizar e puxar… os professores do CEFAM, o que é CEFAM? Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério, que era como se fosse uma pedagogia técnica, sabe assim, primeira formação, que hoje não tem mais.  E os professores nos politizavam nesse sentido, sabe, puxavam para isso. Mas enfim, na roça foi essa história, e aí quando tinha de sete para oito anos meus pais venderam, viemos para São Paulo por que meu pai falava que em São Paulo ia ter trabalho, estudo melhor para todo mundo.

E dai todo mundo continuou estudando e trabalhando, todo mundo aqui continuo a trabalhar, né, e estudando, eu e os outros. Aí meus pais faziam de tudo, estudavam alguns no Paraisópolis e os mais velhos em Pinheiros, assim, que falavam que as escolas eram melhores, tal. E cresci, fiquei no Paraisópolis dos meus sete, oito, oito… até os vinte… que hoje eu já tenho 38, né galera. Então é… então morei no Paraisópolis por um bom tempo, não vou lembrar, mas até uns 24 anos eu acho, 25 talvez. Aí eu estudei no Paraisópolis, depois é… fui pra o CEFAM no Itaim Bibi, que eu queria mesmo ser professora, com 15 anos eu fiz a matrícula, passei. Para passar no CEFAM era difícil, você tinha que fazer um teste, prova, e num sei… E consegui, graças a Deus, fiquei em primeiro lugar da turma, passar. E consegui fazer esse curso de magistério que foram quatro anos, que foi um divisor de águas da minha vida, tanto social quanto… social que eu falo não da minha estrutura social, mas da minha cabeça social, cultural, político, porque o curso de magistério, o que eu trago muito hoje, que é um diferencial, que é o cultural mesmo na minha vida: a gente viaja pra várias cidades do interior e do Brasil também, então eu conheci Paraty, as cidades históricas de Minas, Curitiba por esse curso… E fora os professores e fora a semana da consciência negra que teve em 1996, a primeira semana de consciência negra, que esse movimento já estava começando e teve no CEFAM. Foi aí que eu me vi bonita, fui me reconhecer como bonita, começar o processo, que meu cabelo tudo bem, que minha história tudo bem… Que meus professores trabalhavam muito nessa questão da identidade, do nome, que é de onde você veio… tua história no livro e a tua história como é… os professores… por isso que eu detesto essa história de escola sem partido. Eles nunca trabalharam com partido, mas a questão da... que o Paulo Freire traz muito… da conscientização política, de quem é você, da consciência de classe, de quem é você no mundo, porque você é assim?.. É culpa tua? não, né, não é culpa tua, existe toda uma história por traz disso. Então o CEFAM foi importante nisso, teve a semana da consciência negra também, teve aquele filme acho que é 1936, né? não tem um documentário da história do Brasil, que eles matam muitos índios, que  os portugueses vieram e massacraram, não sei… Tem um filme brasileiro que foi muito importante para mim também, fora as viagens. E a gente era muito… cobrado não, mas eles levava mesmo a gente pro museu, por exemplo, conheci o MASP, o MAM, bienal, por exemplo, a primeira Bienal da minha vida foi por conta do CEFAM… muitas exposições… de moeda… tudo que você imaginar de exposição o CEFAM levava a gente, de arte, de moeda, sei lá o que fosse. Conheci museus e minha paixão por museus foi daí. Teatro: a gente era muito… levava, tudo, “ah, vai ter uma peça de teatro não sei aonde” o CEFAM levava a gente, nunca tinha entrado no teatro na minha vida. Até hoje eu vou, assisto, vou por conta, pago. Vejo… o SESI, né, tinha muito de graça nessa época, não sei como que está hoje, mas fui muito por conta do CEFAM e fui muito por conta própria, já ia. Teatro, museus, viajar… esse gostinho de conhecer mais pelo Brasil, as diferenças dentro do Brasil e as coisas bonitinhas e as cidades históricas… por exemplo, Minas Gerais: quando eu pisei em Minas me deu uma tristeza tão grande, porque ali eu já estava consciente que quem tinha construído cada pedra eram os meus. Então eu viaja tanto na maionese, eu tinha 16, 17 anos, 17, que parecia que eu via os escravos trabalhando… tanto que eu falava “nossa, to com uma saudade mas uma tristeza, porque isso aqui foi construído com sangue e suor dos meus antepassados…”. E a gente entrou em uma senzala e aí eu já… eu entrei naquela senzala já assim né… “caramba… era pior do que isso”... e os brancos, meus amigos brancos entrando de boa… então já tinha uma certa consciência. Então tem o outro lado que eu visitei a casa do Guimarães Rosa, que eu já lia, tal, sempre fui muito apaixonada por leitura e aí eu gostei muito daquilo. Depois conhecemos Paraty, aí paraty tem muito a questão dos indígenas e dos escravos, dos quilombos. Até hoje eu vou muito lá, sou muito apaixonada, depois eu falo pra você (inaudível), você precisa conhecer, que tem a história muito bonita do Quilombo do Campeio. Então o CEFAM… ah, no CEFAM fui à minha primeira manifestação, né, que o Governo Covas queria cortar o projeto, como conseguiu depois com o PSDB cortar o projeto. Como funcionava o CEFAM? era um curso de quatro anos e integral, período integral, então a gente ficava quatro anos lá, porque era um médio com um técnico em magistério para se tornar professora. E então a gente recebia uma bolsa do governo que era um salário mínimo, por que? porque eram adolescentes se formando, estudando o dia inteiro, e fazendo estágio e tal. E o governo achou que era.. que tava gastando muito dinheiro e que a gente estava ficando muito “saidinho”, por que? porque os alunos saíam do CEFAM, os professores formados e iam na Assembléia Legislativa cobrar, fazer manifestação naquela época! E aí o governo federal não gostou muito, porque vinha de lá, não gostou e cortou. E aí quando, em 98, quando veio aquela primeira “nós vamos acabar com o CEFAM” nós saímos do Itaim Bibi, fomos caminhando com cartazes, um monte de adolescente e invadimos, invadimos mesmo, o Palácio do Governo, né, lá no Morumbi, e pra mim isso foi “ah nossa, o que é isso?”, pra você ver como a formação da gente nesse período adolescente é importante, né, jovem… Essa foi minha formação, então por isso que eu falo que o CEFAM é um divisor de águas, porque me abriu para cultura, esse gosto por museu, teatro, música, de me sentir bem, conhecer esses lugares e reconhecer esses lugares como meu, eu posso. Lógico que até hoje tem peças que eu vou e musicais que você olha assim e quantos negros tem? às vezes tinha só eu, mais um, mais dois, e o pessoal dependendo olha assim como se… o que você ta fazendo aqui, né? mas eu vou!. E então o CEFAM foi importante assim na minha vida, não para minha formação profissional apenas, mas para minha formação como pessoa, como mulher, como negra, e me reconhecer como negra bonita, sim… e eu me sentia muito… Tem um menino no CEFAM que eu gostava ai ele falou assim pra mim, um moleque branquelo, ai hoje eu falo (risos): “meu, como que eu gostei?”. E aí ele fala assim: “ai… eu até ficaria com uma menina negra (falando de mim), mas minha família não ia gostar, então…” . Na minha cara isso! só que… eu fiquei muito… só que foi bem na época que tava acontecendo toda essa desestrutura que eu tinha de ser negrinha, de ser feia… por que eu tinha essa estrutura, também? porque eu apanhei muito, não falei para vocês: no Paraisópolis, que eu estudei da terceira até a oitava série, eu apanhei… fui muito xingada... eu tinha muito apelido, muito apelido mesmo, “testa de amolar facão” é… “fuscão preto”, “piche de asfalto”, “a macaca chegou!”, “a carvão”, “filha do mussum”, tudo o que você imaginar e eu lembro que às vezes eu ouvia “a neguinha vai passar! a neguinha da Bahia!” eu tinha chegado da Bahia… isso na terceira série foi onde eu mais sofri, e eu tinha sotaque para falar o alfabeto “a b c d e f g h…” eu falava “a b c d e f gue h i je le me ne”... que era Nordeste, até hoje muitas cidades bem do interiorzinho falam o alfabeto assim assim. Então eu tinha três questões: eu era evangélica, negra e baiana. E aí tem gente que pergunta: “mas na favela? com um monte de pobre?”. E sim!. Eu sofri muito preconceito e racial era o pior, aí: “ah, a neguinha vai passar, vamo faze corredor polonês”. E me batiam! todo mundo ia chutando a minha bunda!. E na sala os apelidos, a professora ria junto. Tanto que eu falo que até hoje eu não aprendi matemática, por que depois do recreio era aula de matemática, era português na primeira e matemática na segunda, segunda parte. E aí, como eu apanhava no recreio e a pior parte era voltar pra sala e a professora ria, aí pronto, eu tive um bloqueio bem bem severo… eu passei depois, eu passei, consegui com outras coisas, mas usando a lógica e tal… Mas assim, até hoje tô tratando isso, tô tratando isso agora forte. Tratei outras questões mas agora tô tratando bem forte nessa com a minha psicóloga, desse trauma de ter apanhado, ter sofrido e a professora branca rindo junto. Me tratava diferente também, não me acolheu!. Então isso eu levei para minha adolescência, por isso que eu cheguei no CEFAM sem gostar muito do meu nome e me achando… eu era muito assim gente… por que eu era preta e preta tem que baixar… Sabe assim? eu era feia… ninguém vai me querer… Na igreja ninguém queria porque meu cabelo era presinho e lá era só as menina de cabelo grande… Então eu cresci já sabendo disso, que eu seria a preterida, que eu seria a última escolhida. 

 

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