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História

Entre Brasil e Espanha: a busca de suas raízes

História de: Argemiro Navarro Ortega
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/09/2011

Sinopse

Argemiro passa sua infância e juventude em São Paulo na região da Mooca. Uma história cercada de lembranças dos bailes de fino trato, os namoros no portão de casa e o bonde que tinha os trilhos fixos na rua de sua casa. Seu depoimento é uma viagem entre São Paulo e Espanha repleta de histórias. Argemiro Navarro leva em seu sangue a herança espanhola que só foi conhecer quando se aposentou, ele nos conta a vinda de seus parentes para o Brasil e depois anos mais tarde a sua visita a região da Espanha em uma aventura para reencontrar os parentes remanescentes.

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História completa

P/1 _ Para começar Seu Argemiro eu gostaria que o senhor falasse seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

 

R _ Meu nome é Argemiro Navarro Ortega. Eu nasci numa cidade do oeste do estado de São Paulo. Uma cidade pequena chamada Santo Anastácio. Eu nasci em 15 de março de 1939.

 

P/1 _ E seus pais são de Santo Anastácio? Nasceram lá?

 

R _ Meus pais são. Meu pai sim, minha mãe é de outra cidadezinha perto. Entendeu? Mas são de origem espanhola. Meus avôs são espanhóis, tanto parte de pai como de mãe. Então, conclusão, nós viemos para São Paulo com dois anos de idade. Então, como eu disse, eu estive lá só para nascer. Estou setenta anos aqui.

 

P/1 _ E Seu Argemiro, o senhor conviveu com seus avôs na infância?

 

R _ Convivi bastante.

 

P/1 _ E que lembranças o senhor tem da infância?

 

R _ Eu tenho muitas coisas. Isso que me entusiasmou depois de procurar as raízes e descobrir alguma coisa. O meu avô era mais caladão, mas a minha avó gostava muito. Como os espanhóis falam. Era muito salseira. Gostava muito de conversar, muito alegre. Tocava castanhola, cantava em espanhol. Então, tanto eu como minha irmã tivemos facilidade de aprender e falar espanhol. E tivemos muita convivência com as histórias que ela contava. Meu avô não, era mais sisudão. Ela já contava tudo que podia. Lembrava de alguma coisa e contava. E cantava. Estava sempre alegre.

 

P/1 _ O senhor falou que ela contava histórias. O senhor lembra alguma história que ela contava?

 

R _ Eu lembro porque ela gostava de dançar e tocar castanhola, e essas coisas. E meu avô, como era mais rabugento não gostava. Quando ela estava contando alguma coisa assim que ele estava perto, ele daquele jeitão dele: “Cala-te, tonta”. Querendo dizer para ficar quieta. Entendeu? Ela contava que eles iam visitar aquelas cidadezinhas. Ela ia muito para aquele lugar que se chamava Caravaca de La Cruz. Quando ela tinha algum problema de saúde, ou alguém assim, ela ia lá. Tipo o que o pessoal faz aqui para Aparecida do Norte. Ela ia lá. Essa Caravaca de La Cruz. Ia muito para esse lugar. E tinha um lugar, tipo de um balneário, eles tomavam banho lá também. Então... E outras histórias que eu não lembro, mas ela gostava muito de contar.

 

P/1 _ E ela cozinhava para vocês? Você lembra alguma coisa especial?

 

R _ Não. Porque quem cozinhava assim mais era minha tia, que era filha dela. Ela fazia alguma coisa também. Uma das comidas que ela fazia que depois eu só fui comer lá na Espanha era miga. Uma comida chamada miga. Era de pão velho. Quando sobrava pão, então fazia aquilo na frigideira com alho. Um negócio gostoso. Era uma comida simples, mas gostosa.

 

P/1 _ E seus avós trabalhavam? Eles faziam o quê?

 

R _ Olha, o meu avô, nunca me lembro dele ter trabalhado. Como ele tinha sete filhos, acho que os filhos não deixavam ele trabalhar. Nem minha avó. Eles tinham uma vida boa.

 

P/1 _ Aí vocês mudaram aqui para São Paulo. O senhor lembra a casa em que vocês moraram aqui em São Paulo?

 

R _ Lembro da primeira casa. Primeiro veio meu pai com um tio dele. Até compraram um terreno junto e construíram. Cada um fez uma casinha junto. Que era irmão da minha avó. E meus avós vieram dali uns cinco anos depois, que veio junto com os outros filhos. Eu lembro o primeiro lugar que eles moraram. Eu era pequeno, mas a gente tem aquela lembrança.

 

P/1 _ Você lembra como era a casa? Onde era a casa?

 

R _ Lembro, era no Belém. A gente morava na Mooca. Essa casa que a gente morava na Mooca, meu pai comprou em sociedade com meu tio. Eram pobres. Compraram o terreno e construíram a casa. Meus avós quando vieram procuraram ficar perto da gente. Então o Belém é divisa com a Mooca. Entendeu? Então é isso aí. Eles moravam meio perto e a gente tinha essa convivência.

 

P/1 - E a casa estava sempre cheia de gente.

 

R _ Sempre. Meu avô tinha sete filhos. Só uma tia minha que ficou no interior, o resto veio todos juntos para São Paulo. A minha tia, a primeira, a mais velha ficou no interior, em Santo Anastácio. O resto veio tudo para cá, os outros filhos.

 

P/1 _ Seu Argemiro. Conta um pouco o que o seu pai fazia? O que a sua mãe fazia?

 

R _ Meu pai tinha certa liderança com os irmãos. Então, é o seguinte, ele era operário, mas ele tinha uma visão para negócio de terrenos. Sabe? Ele tinha faro para isso aí. Por exemplo, para começar, quando ele veio para São Paulo, ele já comprou um terreno junto com esse tio dele, que era irmão da minha avó. Aí quando um irmão dele ia casar, eram todos mais novos do que ele, aí ele já descobria um terreno e comprava, e falava que ia ser para ele e que depois ele pagava. Aí com o outro era a mesma coisa. E ele quando ele escutava qualquer coisa de alguém que tinha um terreno assim e tal ele já procurava. Se era para vender, ele já comprava. Ele tinha sorte para isso. Então, ele tinha certa liderança com os irmãos. Então praticamente todos os terrenos dos irmãos que tiveram as casas, foi meu pai que arrumou e comprou. Então era isso aí. Mas ele não enriqueceu com isso não. Não ficou rico com isso. Por quê? Por causa da mentalidade dele. O negócio dele não era gosto de ganhar dinheiro. Era gosto de ajudar os irmãos. E como era o mais velho, então ele tinha essa liderança. E de todos esses só tem um vivo. Só tem um. Os outros morreram todos, irmãos, irmãs.

 

P/1 _ Me conta um pouco do que você lembra do seu pai? Como ele era com vocês?

 

R _ Meu pai era, não sei não, é difícil explicar. Eu sou suspeito para falar dele, mas era trabalhador, muito bom. E a coisa que eu puxei dele acho que é esse negócio de família. Entendeu? De querer visitar os parentes. E uma coisa que eu tenho orgulho de dizer que eu conheço praticamente todos os primos, tios, filhos de primos que estão nascendo. Só os últimos que nasceram agora que devem estar com um ano. Eu era muito de visitar os parentes, os tios. E eu ia sempre junto com ele. Então alguma coisa que eu aprendi. Isso aí, acho que não se aprende, já se nasce com isso.

 

P/1 _ E da sua mãe. O que você lembra?

 

R _ Da minha mãe não tem muita coisa para contar, não. Ela o acompanhava. Inclusive, minha mãe veio falecer faz dois meses. Estava numa casa de repouso. Tinha uns problemas lá, complicou e morreu agora. Meu pai morreu bem antes, com cinquenta e oito anos. E o que eu posso dizer dele é isso, que era um homem muito humano. Todo mundo que conheceu ele tinha boas lembranças. E a minha mãe, quando vieram para São Paulo, que eu me lembro até quando eu tinha uns dez, onze, doze anos, ela trabalhou também em fábrica para ajudar. Depois parou de trabalhar.

 

P/1 _ Como era o trabalho deles? Trabalhavam em fábricas?

 

R _ Meu pai trabalhava em fábrica, era operário. Eu estou falando que se ele tivesse dedicado a esse negócio de terreno. Inclusive, ele ajudou duas pessoas da família. Ajudou tanto financeiramente para a pessoa começar o negócio de corretor, que ficaram bem. Se ele tivesse se dedicado assim, a comprar e vender, a negociar e tudo, ele tinha ganhado bastante dinheiro. Mas não, ele já não era tão atrevido assim.

 

P/1 _ Senhor Argemiro, o senhor comentou que tem uma irmã. Era só uma irmã?

 

R _ Só eu e ela. Inclusive, ela é solteira até hoje.

 

P/1 _ E na infância vocês brincavam de quê? Você lembra de brincar na Mooca? O que vocês faziam?

 

R _ As brincadeiras de antigamente eram diferentes de agora, viu. E acho que era mais saudável. Agora é só computador. Meus netos e todo mundo lá me dão um baile em computador. Eu costumo brincar e dizer o seguinte, que eles não sabem subir num pé de goiaba. Se ele ver uma galinha pensa, sei lá, que é outro bicho. Modo de dizer. Seria mais ou menos isso. Na nossa época não, era diferente. Fazia estilingue para pegar, matar passarinhos com arapuca, roubar cenouras na chácara. Lá na Mooca, naquela época, sessenta anos atrás, tinha muitas chácaras. Inclusive, um lugar chamado Campo dos bois. Então, tinha chácaras de uns portugueses lá e a gente ia de noite lá roubar. Roubar ou pegar cenouras para comer. Inclusive, um amigo meu caiu dentro daqueles buracos que os portugueses faziam. Os poços para tirar água, meu amigo caiu lá dentro do poço. Aí teve que chamar o dono da chácara. Entendeu? Mas foi uma infância boa. A gente fazia, quando era moleque, a gente fazia guerra de mamona. Você lembra guerra de mamona? Fazia o estilingue e pegava as mamonas e um guerreava com o outro. Hoje a molecada não sabe nem o que é mamona. Entendeu?

 

P/1 _ Você falou da Mooca. Fala um pouco mais da Mooca daquele tempo.

 

R _ A Mooca. A Mooca era boa naquele tempo. Inclusive, a rua que eu morava assim era uma travessinha da Rua dos Trilhos. Você sabe por que tem esse nome? Porque antigamente era bonde. Então o bonde que vinha da Praça da Sé ia até a Mooca. Passava e tinha aqueles trilhos. Então por isso que chama Rua dos Trilhos. Eu acho que deveria ter bondes até hoje. Eu acho mesmo. Tem cidades na Europa muito mais adiantadas que nós que tem. Em Lisboa tem bonde. Em Estocolmo também. Em outros lugares que tem bondes. Porque a gente não pode ter aqui? Eu não sei se é retrocesso, mas eu acho que até certo ponto.

 

P/1 _ Seu Argemiro. O Senhor falou que tinha chácaras. Que mais o senhor lembra que tinha?

 

R _ Ah. Tinha chácaras e muitos campos de futebol. Esses Campos dos bois que eu falo, era um conjunto que depois se transformou em quatro campos de futebol. Porque com o progresso já foi acabando os bois, vacas, cabritos, essas coisas, já não tinha. Então eles transformaram em campo de futebol de várzea. Entendeu? Inclusive eu joguei um pouquinho nesses campos. Não tive sorte de ganhar dinheiro. Eu era perna de pau. Era isso. Então o progresso veio vindo e foi descaracterizando aquelas coisas. A Mooca hoje seria uma cidade do interior. Entendeu? Seria como uma cidade do interior hoje. Passava aquele rio que a gente tomava banho. Tinha um rio lá. A água era suja, mas sabe, quem não tem piscina vai. Então, a gente punha aqueles paralelepípedos com galhos de mamona assim e fazia uma represa e tomava banho. Tomava banho lá. Então tudo era interessante.

 

P/1_ Quem morava na Mooca nessa época?

 

R _ Quem morava?

 

P/1 _ Vizinhos. Amigos.

 

R _ Eu vou te contar um que esses aí vocês conhecem.  Os Demônios da Garoa, vocês já ouviram? Então, eles eram de lá. Moravam na Rua dos Trilhos e esse conjunto praticamente foi formado lá. Entendeu? Eles moravam lá. Tinha dois irmãos e o pai. O pai acho que não participou, o pai deles, mas depois participou dois. Agora os dois, um morreu e o outro se afastou. Agora está o filho desse que morreu e o neto. Nesse conjunto tem pai e filho, que seria o neto daquele primeiro. Que é o conjunto mais antigo que tem em São Paulo. Eles eram lá da Mooca, faziam os ensaios deles lá.

 

P/1 _ E muitos imigrantes?

 

R _ Tinha. Naquela época lá, principalmente, na Mooca. Não sei se vocês sabem, até o jeitão de falar italiano. Orra meu. E não sei quê. Essas coisas que nem fala o Faustão. É típico sotaque da Mooca. E o jeitão dele. Então na Mooca tinha muito italiano que predominava. Português, alemão. E perto de casa tinha um núcleo de estrangeiros que eles chamavam “hungarês”, eram os bichos da água. Vocês nunca ouviram falar de bicho da água? Bicho da água, a gente denominava esses que eram desses países tipo Alemanha, Hungria, Rússia. Como eles são brancos, então a gente falava os bichos da água. Então tinha uma vila que chamava Vila Hungaresa porque tinha muitos húngaros. Na Mooca mesmo. Vocês não vão lembrar, a Rua Caetano Pinto e a Carneiro Leão era italiano e espanhol. Mas isso era bem lá embaixo. Eu morava lá para cima. Tinha inclusive as brigas deles lá, os italianos com os espanhóis. Era gozado aquilo, naquela época. Depois foram acabando.  Acabando e começou a vir os nordestinos. Onde era reduto italiano e espanhol virou coisa de nordestinos. Mesmo na Mooca, aquelas casas antigas virou isso aí. Inclusive, o avô da minha mulher tinha casa lá embaixo, na Mooca, que eram tudo os italianos vizinhos dele. E aí foram mudando para prédios. E onde era a casa deles. E ainda é. Se não é coisa de nordestino. Eu não estou falando isso como preconceito, estou falando a realidade. Ou senão outra coisa agora que deu foi coreano com malharia. Entendeu? Chineses também. Coreanos, bolivianos. Inclusive no Ipiranga também. Você vê aquelas caras de bolivianos lá. A gente conhece de longe, aqueles zoinho assim, meio sem pescoço, meio gordinho. Estão tudo ilegal aqui. É diferente daquela época lá. Entendeu?

 

P/1 _ Naquela época, o senhor lembra festas do bairro?

 

R _ Lembro. Até na nossa rua fazia festa.

 

P/1 _ Como era? Conta para a gente.

 

R _ Na nossa rua não tinha asfalto. Tinha o problema de lama, mas depois foram jogando umas coisas lá para melhorar. Então começaram a fazer, não era tudo ano seguido, mas era assim, dava na louca em um lá para fazer uma festa fogueira. Era fogueira, fazia aquelas mesas e o balão sempre teve. O balão já é originário aqui, coisa antiga. Até eu gostava de fazer balão. Então, o que acontece... E cada um levava uma coisa. Geralmente era batata doce. Pipoca e tudo isso no meio da rua. Fazia tudo isso aí. Era festa junina. E carnaval era só em salão. Nos clubes que tinha. Hoje nem tem mais, não tem.

 

P/1 _ Como era o carnaval de salão?

 

R _ Ah, era gostoso. Eu gostava de carnaval de salão. Inclusive um dos lugares mais famosos que tinha era no Aeroporto. O salão do Aeroporto era famoso. Em cinemas, lugares por exemplo, lá no Largo de São José de Belém tinha o cinema lá. Eles tiravam as cadeiras e fazia o baile lá. Entendeu? Era aquele pula pula. Quase igual agora, só que agora é pior, um pouco.

 

P/1 _ Seu Argemiro, vamos voltar um pouco. Eu quero que o senhor me conte como era a rotina da casa. Vinham muitos parentes?

 

R _ Vinha. Você quer ver uma coisa que eu noto uma diferença. Antigamente não se tinha - computador é outra história e coisa do futuro mesmo - não se tinha carro. Era muito raro. Não se tinha telefone. Não se tinha metrô. E se visitava os parentes muito mais. Você entendeu? A gente estava sempre, geralmente os mais novos iam às casas dos mais velhos. Eu e o meu pai íamos à casa dos avôs. Só que depois com o tempo você pega e casa e já modifica um pouco. Entendeu? Mas naquela época outras diferenças que tem é o seguinte. Quando tinha um casamento ou um enterro, uma pessoa que era considerada um tio, um primo ou sei lá. Ia pai, mãe e filho. Ia todo mundo. Tanto no enterro como no casamento. Hoje você não vê isso aí. Você vê enquanto é criança tem dez anos. Passou disso não leva de jeito nenhum. Não é?

 

P/1 _ Seu Argemiro. O senhor falou dos bondes. O senhor andou bastante de bonde em São Paulo?

 

R _ Eu andava. Eu gostava de andar de bonde. E no carnaval então. O carnaval para não dizer que era diferente. Era andar de bonde. Quando não era bailes dentro de cinema ou salão era bonde. Mas aquilo era uma farra. Então, vinha o bonde de cá com o bonde de lá. E jogava talco, água. Era aquela bagunceira. Jogava tudo que tinha direito, ovo, laranja. Era uma guerra. Quando encontrava um bonde de lá com o bonde de cá, Nossa Senhora. Era um fuá! Principalmente farinha. Nossa! Mas era tudo divertido. Era mais saudável. Não tinha revólver, punhal. Essas coisas. É tudo bobeira. Ninguém nunca ouviu dizer que matou com uma laranjada ou farinhada.

 

P/1 _ O senhor lembra a primeira vez que andou de bonde?

 

R _ O bonde... E ainda vou te falar, para pegar o bonde era como daqui na estação de onde eu desci, era meio longinho. Tinha uns dois quilômetros. Não pensa que o bonde passava perto de casa. A Rua dos Trilhos era travessa da rua que eu moro, mas não chegava até lá. Entendeu? Chegava até o Largo da Mooca. Então tinha que amassar barro para ir até lá. Depois foi progredindo. Foram asfaltando a rua e já foi melhorando.

 

P/1 - E o senhor ia para que outros lugares de São Paulo? O senhor falou do salão do Aeroporto.

 

R _ No meu tempo, que eu lembro, a gente fazia muito piquenique, chama convescote. Então eu lembro que em Itapevi tinha um lugar. Era mata e tinha um lugar para fazer churrasco e essas coisas. Outra coisa, o Horto Florestal, a gente ia lá. Eu vejo hoje em dia diferente. Eu, naquela época, eu gostava de ir a lugares diferentes, ou então ir para Santos. Mas hoje tem gente que você fala... Eu moro perto do Museu do Ipiranga e tem gente que nunca esteve lá no museu. Falar em Horto Florestal, então. Dá a impressão que você vai para outro estado. E são lugares bonitos para conhecer. Entendeu? Eu praticamente conheço todos esses lugarejos. Eu vejo aí e fuço. Entendeu? Gosto de conhecer esses lugares.

 

P/1 _ O senhor falou que fazia piquenique em Santos. Como era?

 

R _ Em Santos. Vixe! A gente alugava ou ônibus ou senão ia de trem. Acho que o trem nem chega lá hoje. A gente alugava uma perua ou qualquer coisa assim e ia. Não é que nem hoje que fala que namorado vai e dorme lá, não sei o quê. Você ia, mas voltava no mesmo dia. Entendeu? Hoje é diferente. Tem certas coisas que eu gostaria de ser jovem hoje. É verdade mesmo. Eu para ir ao cinema com a minha mulher tinha que ir a avó e minha cunhada junto. Vocês não acreditam nisso?

 

P/1 _ Ainda na sua infância, o senhor foi para a escola aqui em São Paulo?

 

R _ Fui. Eu fiz o primário e depois de certa idade a gente precisa ter uma profissão. Então o que acontece… Aí eu fui procurar saber as profissões e fui ao SENAI. Passei no teste e fiz o curso de ajustador mecânico. Isso era durante o dia. À noite eu estudava outra coisa. Estudava desenho mecânico na Getúlio Vargas que era uma escola que tinha na Rua Piratininga. Agora mudou de lugar. Era Escola Técnica Getúlio Vargas. Fiz curso de desenho.

 

P/1 _ O senhor lembra a escola? De algum professor marcante?

 

R _ Ô se lembro. Lembro de uma professora, até hoje sei o nome dela, era Dona Dora. E aconteceu uma coisa interessante. Um dia o diretor da escola anunciou: “Olha eu vou apresentar um professor novo aqui. Ele vai dar aula para vocês”. Era José, não lembro o nome dele. “Ele vai contar umas histórias de lá de onde ele veio.” Lá da cidade de Santo Anastácio. Era da minha cidade. Mas eu era muito tímido naquela época e não tive coragem de falar para ele: “Ô Professor, sou de lá também”. Sabe, eu não falei, eu era tímido mesmo. Agora eu já sou mais cara de pau, mas seria uma coisa de eu falar. Se fosse hoje em dia, nossa! Ia desvendar tudo. Mas é uma coisa interessante. Ele foi lá e apresentou-o como se fosse Santo Anastácio. Bom, de fato é longe até hoje. Seiscentos quilômetros, mas é uma das coincidências. Coisa que eu lembro assim daquela época.

 

P/1 _ O senhor falou também da professora Dona Dora.

 

R _ A professora, era uma professora primária, muito boazinha. E olha, às vezes eu vou lá para Mooca, que eu tenho parentes lá na Mooca e no Belém e passo por aquela rua. Minha mulher fala que eu sou muito saudosista e sou mesmo. Eu sou muito saudosista. Então eu passo na casa onde ela morava e a casa está do mesmo jeito, aquela casa velha. Às vezes eu fico com vontade de perguntar. Acho que ela deve até ter morrido, sei lá, mas é curiosidade. Às vezes, eu não faço certas coisas assim por insistência da minha mulher. Que a gente passa de carro, eu falo que tenho uma vontade de perguntar se essa mulher está viva ou sei lá. Pode até ser que ela esteja velhinha, com noventa e sei lá quantos anos, pode ser. Eu sou muito apegado a essas coisas antigas, coisas daquele tempo. Sou muito apegado.

 

P/1 _ Conta agora quando o senhor foi fazer o curso técnico. Como era isso? Todo mundo ia fazer o curso técnico?

 

R _ Geralmente eram mais coisas técnicas, tinha pouca coisa comercial. Era ajustador, o torneiro. O Lula era um torneiro. Um mau torneiro, pelo que eu escutei falar. Então, ajustador, torneiro. E tinha os cursos das mulheres. E era alguma coisa você dizer que era torneiro ou ajustador. Torneiro mecânico, foi o curso que eu fiz. As mulheres, na Escola SENAI tinham o negócio de tecido. Tecelã, cerzideira. As mulheres estudavam isso. Então, você quer saber alguma coisa que eu estudei, isso e depois fui me aperfeiçoando um pouco. Então passei para ferramenteiro. Ferramenteiro era um pouco superior ao ajustador. Entendeu? E cheguei a ter uma pequena empresa de plásticos. Firminha pequena de plásticos. Eu era ferramenteiro e fazia os moldes, eu e outro rapaz. Entramos como sócio. Aí passou e tivemos quatro a cinco anos com a firminha. Aí um camarada fez uma proposta de comprar e vendemos a firma. Aí parei. Aí fui trabalhar de empregado. E depois de vendedor. Tive várias profissões.

 

P/1 _ O senhor começou a trabalhar cedo?

 

R _ Comecei. Comecei a trabalhar com um vizinho nosso, era tintureiro, japonês, acho que com dez anos. E vou contar outra coisa pitoresca desse negócio. Então, eu ia entregar os ternos. Ajudava a lavar. Sabe como lavava os ternos naquela época? Era uma tina de água e ele punha um produto lá e ficava socando assim. Aí depois à tarde eu ia entregar os ternos. Eu lembro que um dia... Eu gostava de nadar nessa represa, eu sempre gostei de água e de nadar. Inclusive meu signo é peixes, não sei se é por coincidência. Então, eu gostava de nadar nesse lugar. E esse lugar o pessoal joga óleo e tudo essas coisas. Óleo de carro e tudo isso aí, e a água fica meio suja. Então isso foi de manhã, que eu estava tomando banho. E agora para tarde, eu fui entregar ternos. Eu ia entregar ternos e era meio longe onde a gente entregava terno, coisa de mais de um quilômetro. A freguesia dele era longe. Aí eu peguei, era um terno branco, o japonês falou: “A freguesa quer que entregue hoje, que o marido dela vai precisar do terno”. E eu passei a mão no terno e pus aqui, assim. Quando chega lá o terno estava todo manchado de preto. Vixe, a mulher falou que não ia aceitar isso. Como é que é isso? O que será? Leve o terno de volta. Um terno branco. Aí que eu me toquei, o óleo que ficou no cabelo. E eu andava com o cabide e punha aqui. Quando eram vários ternos você punha naquele pau. Hoje em dia nem tem. A gente carregava um pau assim, com uma almofada assim, que nem cabo de vassoura. E lá punha quatro ternos na frente e quatro atrás e saía. Nesse dia eu fui entregar só esse e eu o pus aqui assim. E aquele óleo de onde eu tomava banho ficou impregnado no cabelo e o terno. Aquela coisa ficou toda preta. Eu tive que trazer o terno. E o japonês querendo saber por quê. Eu falei que também não sabia. Depois que eu percebi que era o óleo de onde eu tomava banho lá com a molecada. Saía e nadava. E aquele óleo impregnava no cabelo e passou para o terno branco. É isso aí.

 

P/1 _ E depois de entregar terno, o senhor foi fazer o quê?

 

R _ Depois eu trabalhei na feira também. Depois eu fiz o curso do SENAI e foi melhorando.

 

P/1 _ O senhor trabalhou na feira também? Como é que era?

 

R _ Vixe, eu trabalhava numa barraca de azeitonas. Vixe, do jeito que eu gostava. Azeitona. Já viu? Azeitona, queijo, laticínios. Mas era gostoso. Era duro levantar cedo. Mas não foi por muito tempo não. Uns dois anos. Porque tinha de fazer feira de sábado e domingo, também. Já pensou?

 

P/1 _ Mas era com a sua família?

 

R _ Não, era um vizinho lá que tinha caminhão de feira e fazia feira junto com ele. Depois veio a época do exército. Eu já estava trabalhando dentro da minha profissão. Como a gente não tem muita prática, você tira diploma e é que nem hoje, mas não tem muita experiência. Então você não começa logo como oficial. Começa como meio oficial para ir progredindo. Então chegou a época do exército. Fiquei um ano servindo o exército. Aí voltei para a profissão de novo. Aí que eu fui trabalhar depois de muitos anos de ferramenteiro. Depois de autônomo. Aí montei essa fabriquinha que eu falei de plástico.

 

P/1 _ Conta um pouquinho para a gente a época do exército?

 

R _ O período, vixe! Me dá uma saudade de eu voltar lá no quartel. Verdade. Eu não falei que eu sou saudosista. E no dia 16 de dezembro é o dia do Reservista. Vocês não serviram o exército? Não. Depois que você dá baixa, você é obrigado a ir durante uns três anos lá para ver se você mudou de endereço, para eventualidade de uma guerra. E outra coisa interessante, antigamente, os pais pagavam para um sargento ou coronel, ou sei lá, para quebrar o galho. Para não ir servir o exército. Sabe? “Não, pelo amor de Deus, meu filho não vai.” E você sabe que hoje acontece o contrário, que tem pai que paga para o filho ir. “Vai lá, pelo amor de Deus. Vai lá servir o exército.” É verdade isso aí, eu já notei isso. Eu fiquei um ano lá com satisfação.

 

P/1 _ Como foi? Conta para nós.

 

R _ Foi bom. Foi bom. Eu era bom de tiro. Tinha negócio. Onde eu servia era em Quitaúna. Era o Segundo Grupo de Artilharia Antiaéreo. Era artilharia antiaérea, de atirar em avião. Essas coisas, entendeu? Eu vou contar outra coisa pitoresca que aconteceu no exército. Quando você vai, eles te dão um número. O meu número foi setecentos e quatorze. Setecentos e quatorze. Meu armário era número quatorze. Minha cama também. A cama eu acho que era cento e quatorze. Tinha muita cama. Depois, a primeira advertência minha foi um pernoite. Você fez uma falta meio besta lá, pernoite. Tem que passar a dormir no quartel. Não pode ir para casa. Foram quatro dias de pernoite. E aí vai aumentando a pena, na medida em que você vai. Eu não era dos soldados ruins, má coisa, até que eu era bonzinho. Aí a segunda punição: quatro dias detido. Você pega um fim de semana tem que dormir lá os quatro dias. Terceira punição, disparei um tiro lá quando eu estava de guarda sem querer. A gente ficava assim, punha na bala e ficava lá. Você tinha que travar ela, para não disparar o tiro e ficava no gatilho, sabe assim. O gatilho ficava aqui e a arma assim. E eu me esqueci de travar. Pum! Nossa! O sargento veio lá. Escuta o barulho e foi ver o que, quatro dias detido. E depois, você... Tem pessoal que é bonzinho e sai na primeira baixa. Tem pessoal que é mais ou menos e sai na segunda. E depois sai na terceira. Eu saí na quarta. Que é a penúltima. Mas você notou do que eu estou falando do número quatro? Meu número terminava com quatro. Meu armário também era quatorze. A cama também quatro. A primeira punição quatro dias de pernoite. A segunda, quatro dias detido. A terceira, quatro dias de prisão. Tudo com quatro. Quatro me perseguia no exército. Saí na quarta baixa. Que tinha primeira baixa, que era os mais bonzinhos. Segunda. E foi na época do Pelé, eu estava saindo e o Pelé estava entrando. Inclusive nosso quartel jogou. Eles eram Artilharia de Costa, contra navios. E nós éramos artilharia antiaérea. Teve um jogo lá do nosso quartel contra o quartel do Pelé. Era um saco de batata doce. Adivinha se nós perdemos. O Pelé já jogava naquele tempo. E eu tenho vontade de ir lá. Já faz o que? Vixe, que eu dei baixa, quase cinquenta anos. E tem um cara que serviu perto de mim, um rapaz.  Rapaz! Que serviu na minha época. Então de vez em quando eu encontro ele. Ele serviu na mesma bateria, que chamava bateria. Tinha a primeira, segunda, bateria de tiro. Então eu tenho vontade. Eu falo: “Vamos ver se a gente vai um dia. No dia 16 de dezembro, que é o Dia do Reservista”. Que no Dia do Reservista pode visitar o quartel. Quem serviu pode ir lá visitar. Entendeu? Eu tenho uma vontade de ir lá. Eu tenho vontade, mas até agora não deu certo. Porque eu trabalho praticamente até hoje. Quando não são dois dias aqui, é uma firma que me chama. É outra coisa lá. É vender sapato com meu filho. E fazer outras coisas, uma correria. Então nunca deu certo de coincidir o dia 16. Pode até já ter acontecido, mas ainda um dia eu vou lá.

 

P/1 _ Seu Argemiro, conta um pouco do curso técnico.

 

R _ O curso técnico, de desenho técnico? Era para ser desenhista. Entendeu? Eu fiz os três anos. Só não consegui tirar o certificado de conclusão do curso porque eu estava no exército. Na época que eu estava no exército, eu estudava a noite. Inclusive, eu faltava. O dia que eu dava serviço de guarda eu tinha que faltar. Inclusive, para eu estudar a noite, o comandante do quartel teve que fazer uma autorização com o roteiro que eu fazia. Por quê? Hoje eu não sei. Mas tinha a polícia do exército. Se a polícia do exército te pegava, a PE que chamava, se pegar fora de hora, depois das dez horas na rua, te prendia. Soldado não pode. Então, com aquela autorização eu podia. Mas eu podia o que? Dentro da Rua Piratininga, Rua da Mooca, Rua dos Trilhos, o trajeto só. Se te pegava fora daquele trajeto ia preso também. Você entendeu? Era mais rigoroso. E você andava com aquela cabeça feia, que eles passavam aquele negócio. Hoje eu vejo soldado com cabelão grande para caramba. E assim, até maior que isso aqui. Era ridículo, sabe. Era mais ou menos igual esse jogador do Santos. Como chama? Neymar. Tudo peladão aqui e o cabelão tipo moicano. Era mais ou menos igual. Era uma vergonha. Quando você ia a baile, que eu gostava de dançar. Todo mundo falava que era recruta.  Soldado do exército.

 

P/1 _ Seu Argemiro, o senhor falou que gostava de baile. Como era o baile?

 

R _ Era diferente. Era baile a dois. Você dançava. Hoje você não dança. Sacoleja. Um daqui e outro de lá. Essas baladas que falam. Bonito só o nome. Balada. Não é romântico como o nosso tempo. Falar no ouvido da mulher e a mulher falar para a gente. Você nunca dançou assim, né? Você não sabe o que é bom. (risos).

 

P/1 _ Conta um pouquinho como era o baile.

 

R _ Era o tempo, tudo que eu for falar aqui vocês não vão lembrar, o conjunto Lucho Gatica. Tinha muito bolero, sabe aqueles boleros cubanos, mexicano. Tinha muita música latina. E algum samba também. E alguns tanguinhos também. E eu, modéstia a parte, não era muito ruim de dançar. De bola eu não era bom, mas de dançar eu gostava.

 

P/1 _ E aonde vocês iam para dançar?

 

R _ Dançar? Naquele tempo tinha o… Eu gostava de pegar esses bailões de gafieira. Piratininga. Vocês nunca ouviram falar no Pira? Nós chamávamos de Pira. Era gafieira mesmo. Na Rua Piratininga, o Lilás professorado. E tinha um lugar que eu também gostava de ir que parece que existe até hoje. Um camarada nessa firma que eu trabalho dois dias por semana, ele mora lá para Santo Amaro. Eu falei: “Escuta, existe o Vila Sofia?” “Existe.” Eu gostaria de ir lá um dia para ver o Cassino Vila Sofia, chamava. Agora o pessoal que dança lá é só velharada. Entendeu? Só velharada. Então ficou aquele negócio tradicional. Lá no Ipiranga também tem.  Tem um lugar lá que dá esse baile, daquele sistema antigo, que era gostoso dançar aquilo. Eu dançava nesses lugares. Ou alguém falava que tinha um baile em tal lugar. Eu ia de sábado. E outra coisa, a gente ia de terno e gravata. E não tem nada de comprar o terno no Mappin, não. Mandava fazer em alfaiate. Mandava fazer terno, gravata, tudo bem vestidinho. Hoje eu costumo dizer que, você me desculpa, eu costumo dizer que é uma geração de mal vestidos. Você vai a casamento e vê o cara de camiseta, calça rancheira - eu falo rancheiro, calça Lee - de tênis. Que falta de respeito com os noivos. Sei lá, eu acho. Então era aquilo. Tem certos lugares para dançar, você tinha que ir de terno e gravata mesmo. Entendeu?

 

P/1 - Senhor Argemiro. Como era o baile para quem não sabe?

 

R _ Vocês estão gostando? Eu estou falando coisa da minha época.

 

P/1 _ Está certinho.

 

R _ Eu estou falando coisas da minha época. Até eu posso ofender vocês, assim de ter falado que é uma geração de mal vestidos, mas dentro dessa geração tem uns bem vestidos também.

 

P/1_ O senhor começou a falar um pouco que tinha baile de formatura. Conta pra gente como era.

 

R _ Tinha. Eu conheci minha esposa num baile de formatura. Eu gostava muito. Mas era tudo com convite, você tinha que ser convidado. Mas tinha que ser aquilo, baile de formatura era traje praticamente a rigor, que falava na época. Quem não tinha, pedia emprestado, mas eu tinha gravata borboleta, faixa de cetim, terno preto. Entendeu? Eu gostava de andar nos trinques. Mesmo. Sapato preto. Não tem nada de misturar sapato preto com coisa de outra cor. É por isso que eu digo que a gente tinha certo alinhamento para se vestir. E fazia terno em alfaiataria. Que hoje nem existe. Você não vê alfaiataria. Você já viu alguma alfaiataria por aqui? (risos).

 

P/1 _ O Senhor falou que conheceu sua mulher. Conta essa história.

 

R _ Conheci na Casa de Portugal, que existe até hoje. Eles alugavam para formaturas, para tudo isso.  Teve uma formatura de uma vizinha dela, uma colega dela, e eu fui até lá. Aí começamos a dançar, e vem aqui e depois vai lá. Começamos a namorar e deu no que deu.

 

P/1 _ Como era o namoro naquela época?

 

R _ Como era? O negócio não era que nem agora. Por isso que eu falo que eu gostaria de ter uma juventude de agora. Era lá até certa hora e cai fora. Só que eu fazia o seguinte, eu e dois amigos meus acabavam de namorar e se encontravam, e ia a um baile depois. Se ela vê isso aí... Mas ela sabe. Entendeu? Ia para a gandaia depois. Namorava direitinho. Hoje, não. Acho que talvez seja melhor. Você vai e namora, e vai para a balada. Vão os dois juntos e volta a hora que tem que vir. Mas não era assim não. É tudo coisa que o tempo vai mudando. Então é assim, muda.

 

P/1 _ Seu Argemiro, o senhor falou do Mappin. Fala um pouco do centro de São Paulo.

 

R _ O centro, aquele centro era bonito, rapaz. Inclusive eu tinha uma fotografia que era para ter trazido aqui. A gente estava sempre de terno. Eu gostava de passear no centro. Bom, era centro da cidade. E cinema, cinema não podia entrar sem paletó. Sabia? Gravata eu não lembro, mas sem paletó não podia. Divertimento era esse. Quando não era baile, era dançar ou ir ao cinema. Depois começou a aparecer boliche. Eu acho um negócio meio sem graça, boliche. Então, isso aí. Não tinha muita alternativa.

 

P/1 _ Mas conta como era o centro. O que tinha no centro?

 

R _ O que tinha? Era bonito, todo aquele pessoal. O centro... Olha, é o seguinte, aqui em São Paulo o centro é diferente do interior, porque eu já conheci várias cidades do interior. Passeando, assim, e as minhas primas que moravam lá e falavam. No interior quase toda cidade, na praça principal, tem o foot, que eles chamam. O foot era aquele passeio. Então os caras ficam andando para lá e pra cá, que nem bobo, fica dando volta na praça. E aí simpatiza com uma moça e vai atrás dela e marca encontro. E sei lá. Mas aqui em São Paulo, como é uma cidade grande não tinha esse negócio aí. Então você ia lá. Ia ao cinema ou ia à Praça da República, ou em outra praça. Passear, comer pastel e depois vinha embora. Também não tinha muita alternativa na época. Era mais cinema. O centro era mais para ir ao cinema.

 

P/1 _ Você lembra a primeira vez que você foi ao cinema?

 

R _ No cinema, no bairro tinha, mas era aquele negócio. Era mais coisa você ir ao centro do que naquele cinema de periferia. A Mooca era periferia. Agora periferia é sei lá aonde, São Miguel Paulista. Hoje praticamente, a Mooca é que nem centro. Então tinha cinema de bairro, mas o gostoso era ir ao cinema do centro.

 

P/1 _ Tinha algum filme que o senhor gostava muito?

 

R _ Antigamente era mais filme de faroeste. Sabe? Hoje tem pouco. O que? Você quer que eu fale algum tipo de filme? Um filme marcante para mim foi aquele “

. Vocês nunca assistiram? Fizeram uma nova versão dele. Eu gostava de filme de faroeste. Eu gosto de natureza. Então, a gente vê cavalo correndo. Inclusive, na minha juventude eu ia até passar carnaval no interior, às vezes. Ou ia lá visitar algum parente. Vamos numa fazenda de um primo meu, sabe. Eu gostava de ver boi, andar de cavalo, tomar banho no rio, pescar. Eu gostava de tudo essas coisas de natureza. É isso aí, no interior. Eu ia muito passear no interior.

 

P/1 _ O senhor viajava muito?

 

R _ Mas sabe quantas horas tinham para a minha cidadezinha de Santo Anastácio? Era um dia e uma noite, vinte e quatro horas. Você pegava na Estação da Luz. E aquilo quase não andava. Inclusive acabaram com aquele trem da Sorocabana. Era Estrada de Ferro Sorocabana.

 

P/1 _ Como era essa viagem de trem?

 

R _ Ah, era gostoso. E eu fui num carnaval. Nossa, que gostoso! Era aquela bagunceira. O trem lotado, ia gente até. Entre um vagão e outro tinha um espaço assim, mas não era tudo fechado. Era aberto. Não deu nem para sentar. Era um dia e uma noite de trem. Fui com um primo meu e minha irmã.

 

P/1 _ Tinha festa dentro do trem?

 

R _ No trem ia aquela bagunceira. Cantando. Entendeu? Mas era gostoso. E você ia com aquela expectativa de chegar à cidade, no baile de carnaval. E a gente era de São Paulo, numa cidadezinha dessa todo mundo sabia. Vê gente diferente. Minha prima apresentava para as amigas dela. “Olha, vou te apresentar um primo. E não sei o quê.” Sabe, era tudo diferente. Mas era gostoso. Era meio cansativo.  Aí um dia... Aí depois, diminuiu esse trajeto de vinte quatro horas. Parece que foi para dezoito horas ou doze horas, não sei. E aí eu cismei de levar minha família. Minha mulher não quis saber nunca mais de ir. Ficar sentada num trem lá um dia inteiro, tá louco. Ela falou para mim: “Você me pagou de segunda passagem, de segunda classe”. Ah, mas era gostoso. O trem quando chegava às estações, principalmente à noite, o pessoal daquela cidadezinha, as moças iam tudo lá na estação olhar o pessoal. Olhar a moçada, fazer flerte. Então era diferente. Hoje está tudo desativado as estações. Até a linha Sorocabana não tem mais.

 

P/1_ Lá em Santo Anastácio como era? O que lembra?

 

R _ Eu lembro muita coisa, que ia caçar com o primo meu. Caçar passarinho, ia pescar. Tinha um primo meu e ele gostava de pescar também. Falei para ele: “Como é? Vamos Pescar?” “Vamos.” Mas tem que levar comida para comer, porque é meio longe, sabe. Não tinha carro, nem ele. Então nós fomos, juntamos as varinhas e pegamos pão e mortadela. E joga coisa dali e aqui. Quando fomos comer, nossa!. Imagina o que tinha na mortadela? Perto de um formigueiro. Vixe, encheu de formiga. Vai com formiga mesmo. Sapeca as coisas, faz uma fogueirinha e mandamos ver o sanduíche. Só que as formigas iam saindo. Mas era tudo farra. Entendeu? Você está com uma fome danada. Formiga não mata ninguém. Então fizemos sanduíche de pão, mortadela e algumas formigas junto.

 

P/1 _ Seu Argemiro, aí o senhor já começou a namorar a sua mulher. Como era o namoro?

 

R _ Aí já era difícil dar escapada para o interior. Então, foi namoro de uns quatro anos, por aí. Depois casamos.

 

P/1 _ Primeiro conheceu o pai dela e foi lá.

 

R _ É claro, você tinha que ir lá pedir licença. Quero namorar sua filha e não sei o que. Não podia ficar andando, os pais não deixavam. Não dava liberdade para as filhas ficarem, não. Aonde você vai agora. Tinha que falar que ia namorar. Então traz o cara aqui. Passava certo tempo. Você não podia ficar namorando dez, quinze anos. Tinha que se explicar. (risos).

 

P/1 _ E decidiram casar.

 

R _ Resolvemos casar. Casamos.

 

P/1 _ Como foi o casamento?

 

R _ Foi bom. Foi uma festança boa. Festa com baile. Podia ter até trazido a fotografia. Foi boa. Foi lá num clube de futebol, que o meu sogro era diretor, era juiz de futebol. Depois de certa idade já não jogava mais, então apitava jogo e era diretor. Lá na Vila Bertioga, que chama. E tinha um clube chamado Bertioguinha. Ele era diretor. Então alugou o salão lá, alugou, eu nem sei se alugou ou cederam. E foi lá a festa. Foi gostoso, uma festança boa. Tenho fotografia até hoje.

 

P/1 - E depois a vida de casado. Como foi? Onde vocês foram morar?

 

R _ Aí, no começo fomos morar de aluguel. Mas aí como meu pai tinha uma casinha que ele tinha um inquilino, ele pediu para o inquilino se pudesse sair e tal, para ajudar a gente. E aí nós fomos morar nessa casinha. Nessa casa para não pagar aluguel. E foi indo. Depois com o tempo, o que aconteceu? Ele faleceu e tivemos que vender as coisas que ele tinha e uma dessas casas. A casa que eu morava. Essa casa aí era a casa onde ele morava junto com o meu tio, com o tio dele. O tio dele ainda estava vivo. E meu pai morreu. Então o que acontece, aí depois o velho morreu, as filhas queriam que vendesse a casa. Tivemos que vender. E agora aonde que nós vamos comprar casa. A minha parte eu peguei e dei uma entrada lá no Ipiranga. Porque eu trabalhava no Bosque da Saúde. Trabalhava já como ferramenteiro autônomo, numa firma. Usava o maquinário deles, eu e outro rapaz. Então, no trajeto eu vi lá aquela casa para vender. Estava duro achar casa, e já estava na época do cara querendo que a gente entregasse a casa. E nós encontramos um cara que, eu desesperado para comprar e ele para vender. Então deu certinho, foi rápido o negócio. A casa que eu moro até hoje. Aí foi reformando aos poucos. Comprei a casa em dez pagamentos. Gozado, o camarada era filho de libanês, nascido em Cuba, era cubano. Mas deu certo. Ele era solteiro. Vendeu logo.

 

P/1 - E aí foram morar no Ipiranga?

 

R - No Ipiranga. Reformamos a casa porque era antiga. Vixe, as calhas quando chovia, parecia uma cachoeira de Foz do Iguaçu. Água toda podre. Aí aos poucos fomos reformando.

 

P/1 _ E o Ipiranga nessa época era bem diferente de agora como é?

 

R _ Era um pouco. Não mudou muito. O que mudou e foi até bom foi o progresso, que fizeram essa linha do metrô perto de casa. Setecentos metros da minha casa, metrô Imigrantes. No fundo da minha, duas ruas assim para trás, que é coisa de cento e cinquenta metros fizeram o supermercado Extra e junto o Leroy Merlin. Então estou num ponto tradicional. Fazer caminhadas. Quando cismo vou lá ao Museu do Ipiranga. Atrás do museu tem uma pista de cooper. Vocês nunca foram lá para trás? Lá é o Parque da Independência. É um quilômetro até lá. Estamos num lugar bem situado. Eu, quando saí da Mooca achei que não ia me acostumar, mas eu sou mais Ipiranguista que Mooquense. É verdade. Eu estou perto da Paulista. Eu tenho uma casinha no litoral, em Bertioga. E minha casa assim, duzentos metros já estou na Imigrantes. Vai que vai. Está tudo facilitado.

 

P/1 _ Seu Argemiro. E teve o primeiro filho. Já aqui no Ipiranga?

 

R _ É, deixa eu ver. Não, o primeiro foi na Mooca. Os dois nasceram na Mooca. Nasceu um e depois a gente estava na Mooca ainda. A casa ainda não tinha feito a partilha, não tinha vendido. Aí depois eles vieram já estavam com doze, um e dez anos, o outro, treze anos.

 

P/1 P_ E como foi ser pai?

 

R _ É bom. Mas ser avô acho que é melhor. Ser avô é ser pai duas vezes. É verdade isso aí que eu estou falando. Entendeu? É Bom. Quem não quer ser pai? É gostoso. E quando você tem filhos que, graças a Deus, não tem problema nenhum de saúde, trabalhador. Vixe, trabalham até. Isso eles puxaram eu. Trabalham que nem doido, os dois. É isso aí. Depois eles foram casando. Casa um, depois o outro.

 

P/1 _ Neto.

 

R _ É. Neto. Netos eu tenho quatro. Um tem duas meninas e o outro tem dois meninos, dois moleques.

 

P/1 _ E o Seu Argemiro avô como é?

 

R _ Ser avô? Eles acham que sou meio ranheta, não sei. Porque eu não gosto de certas coisinhas. Eu costumo brincar lá. O seguinte, às vezes minha mulher fala: “Você não vai levar nada para eles lá?” Eu falo: “Olha, o meu avô, sabe o que ele me trazia quando ia a casa no Belém? Trazia-me um pacotinho de amendoim, amendoim com casca. E olha, eu fazia a maior festa quando ele vinha com aquilo”. Eu levo bolacha recheada lá, eles nem dão bola. (risos) Aí uma neta minha, um dia brincando desse negócio de amendoim. A mais novinha falou: “Ah, vovô, o senhor pode me dar amendoim que eu quero”. Aí eu peguei um dia e lembrei. Tinha um cara vendendo pipoca e pedi um pacote de amendoim e dei para ela. E ela gostou. Falei: “Isso aqui que era o que meu avô me dava para mim, um pacotinho de amendoim”. Também não tinha muito mais coisa para dar. Além de ser pobre, sei lá. Não é que nem hoje. Vixe, hoje tem coisa de monte para comer.

 

P/1 _ E quantos anos de casados já, Seu Argemiro?

 

R _ Que já faz? Acho que vai fazer quarenta e cinco.

 

P/1 _ E como foi a vida de casado?

 

R _ Foi boa. Foi boa, relativamente boa. Quem é que não briga. Sempre tem as briguinhas. Entendeu? Que nem agora que eu estava escolhendo as fotografias para cá e ela falou: “Mas você até agora não falou de mim”. Porque eu fiz um ensaio lá mais ou menos. “E não falou de mim. E fotografia minha? Você não vai por?” Eu falei fotografia de mulher. “Por quê? Tem outra mulher?” Eu falei: “Você acha que tem?” (risos) Ai caramba. (risos) Falou que estava pondo ela para escanteio.

 

P/1 _ E ela sempre trabalhou?

 

R _ A minha mulher? Não. Minha mulher casou e meu sogro falou assim. Meu sogro estava vivo e falou: “‘Olha, vou te falar uma coisa. Mulher depois que casa não é para trabalhar não, viu? Não é para trabalhar mais”. E ela tinha um emprego razoável. Era encarregada numa fábrica de plásticos. Aí pediu a conta, casou e não trabalhou mais. Cuidar de casa. E eu trabalho até hoje.

 

P/1_ E você sempre trabalhou como autônomo depois. Você falou que como ferramenteiro.

 

R _ Uma parte eu tive uma firminha de plásticos, que a gente chama boca de porco quando a firminha meio mixuruca. Três, quatro anos. Depois, trabalhei como ferramenteiro autônomo uns vinte anos mais ou menos. Depois essa firma onde eu prestava serviço foi vendida e eles não queriam mais ferramenteiro autônomo, queriam os empregados deles. Então um camarada que eu presto serviço, até hoje me telefonou: “Olha, preciso de você aí que ele está pegando o Certificado ISO 9001”. Então ele telefona e eu vou lá. Trabalho dois, três dias. Mas geralmente é quase toda semana, entendeu? Mas só que dentro dessa. Eu não faço aquelas peças pesadona que eu fazia. Sabe? Faço coisas mais selecionadas um pouco. O que é que você tinha me perguntado?

 

P/1 _ Dos trabalhos que o senhor fazia, mas o senhor já me respondeu.

R _ Então, eu trabalhei de autônomo. Aí quando essa fábrica foi vendida. Esse camarada que eu presto serviço para ele até hoje, ele tinha começado uma firminha diferente. Ele fazia negócio de caça e pesca, cabo de revólver. Mas com esse advento de chineses trazerem carretilhas quase de graça e proibir o negócio de arma. Então, cabo de revólver não se fazia tanto, não tinha tanta coisa. Então, ele praticamente quebrou e começou a fazer aparelho de som. Aí um camarada falou de mim. O fulano está assim e assim. Ele entrou em contato comigo e falou se eu não queria ir lá com ele. Tinha quatro funcionários a firma. Inclusive uma família. O pai, duas filhas e outra moça. Aí entrei eu e comecei a fazer moldes de novo, que a minha função de ferramenteiro é fazer ferramenta. Muita gente acha que ferramenteiro faz cabo de fenda, chave de fenda, martelo, mas não é nada disso. No computador não fala ferramenta. Não fala tal ferramenta. Então o ferramental é para fazer um determinado produto. Então tem que fazer o molde. Sou especializado mais em plástico, né. Então faz essa, os moldes. Entendeu? Aí começou fazer de tweeter, alto falante. Hoje a firma tem quase quarenta funcionários. Entendeu? Cresceu e já está pegando ISO 9001, selo de qualidade, produto bem acabado. Entendeu? Então, eu ajudei em boa parte a firma crescer. E ele tem consideração comigo também. Quando eu vou lá ele não quer que eu carregue peso, não. Mas tem hora que eu não resisto. Se você chama um cara para te ajudar. “Espera. Deixa eu acabar isso aqui.” E aí eu passo a mão na coisa e levo para lá. Já é instinto.

 

P/1 _ Seu Argemiro. O senhor falou que mudou muita coisa depois que o senhor aposentou. Conta um pouco para mim dessa vida depois de aposentado?

 

R _ Mudou. Depois, nesse ponto aí melhorou um pouco. Sabe por quê? Eu sempre fui meio pé na estrada. Tanto eu como minha mulher. Você sabe o que é gostar de passear. Então, você sabe, passear aqui por perto, você está enjoado. Você quer ir para a Bahia, você vai. Você quer não sei o quê. Então para mim queira coisa mais longe. Então conclusão, aí como eu trabalhava e tinha o salário, e tinha o salário de aposentadoria, então você ganhava em dobro, praticamente. Então, fazendo certa economia, você pode se dar ao luxo como eu no meu caso, fui para os Estados Unidos. Pegamos uma excursão de quinze dias até Nova York, coisa bonita. O duro é tirar o passaporte. Até hoje, você tirar o visto, você precisa levar até a escritura da casa e provar o que você ganha no INPS, levar o teu holerite da firma, sabe? Tudo isso. Para não entrar aventureiro lá. Então conclusão, eu peguei gosto de andar de avião, dez horas de avião. Aí passou. Aí fomos para lá. Passou. Então, já vou contar outra coisa, a consequência desse negócio de você ter um salarinho melhor, de ter dois salários praticamente. Veio essa vontade de conhecer. Ah, quando meu pai estava vivo ainda, ele estava pensando de ir para a Espanha ver se tinha algum primo. Deve ter alguém lá, porque pararam de se escrever. O tio dele que escrevia mais, esse que era sócio na casa que eles compraram junto lá o terreno que tinha mais comunicação. Entendeu? Ele tinha um irmão na França, porque o pessoal da Espanha, naquela época ruim, imigrou. Ou era para a Espanha ou para a França. Então esse tio do meu pai se comunicava com um irmão na França e com os outros lá daquela cidadezinha. Que era meu avô e minha avó. Depois. Morreu e perderam contato. E meu pai falou: “Eu vou lá descobrir se tem alguma coisa, ver se tem alguém. Meu pai já estava aposentado, uma vida tranqüila. Tinha umas casinhas alugadas, então ele começou a se preparar, sabe? Pesquisar preço de passagem, de documentação que precisava. Você precisa quando vai, tratar de documentação, visto e aquilo. Conclusão, deu um problema e ele ficou doente. Deu um problema no estômago dele, no intestino. Fez uma operação. Rejeitou. Fez a segunda. Não sei o quê. Na quinta operação, ele faleceu. Conclusão, eu falei tanto que ele queria ir lá conhecer. Aí passou o tempo, passaram uns trinta e oito, quarentas anos. Trinta e oito mais ou menos que o meu pai tinha falecido. Um primo dele, tem a minha idade. Esse filho temporão. Era primo do meu pai, mas tinha até, dois anos mais novo do que eu. Foi lá na Espanha. Foi, alugou um carro e passeou lá com a mulher dele. Depois foram nessa cidadezinha, foram nesse local que morava, onde nasceu a mãe dele, que era irmã da minha avó, que nasceram lá. Meu avô também era de lá. Todos eram de lá. Então, foi lá. Chegou lá e perguntou às pessoas. “Escuta, aqui não tem nenhum dos Perez?.” A família dos Perez era da minha avó e da mãe dele. Mas ele não perguntou da família dos Navarro, que era da parte do meu pai. Entendeu? Ele não lembrou ou desistiu. Não achou dos Perez e veio embora. E falou para mim: “Eu estive lá, lá na terra do meu avô e da minha mãe e não descobri. Não tem mais ninguém lá. O pessoal que foi para a França, não tem ninguém lá. Eu falei: “Será possível que não tem”. Aí um dia eu falei para minha mulher: “Vamos topar fazer uma viagem. Tem muita gente que fala que a Espanha tem muita coisa bonita. Vamos lá”. “Vamos.” Aí pegamos uma excursão de, parece treze ou quinze dias. Aí comecei a pesquisar. Juntar um pouco de dinheiro. E achei uma excursão lá, Ronda Espanhola, nome bonito. Ia passar numa cidade de Ronda. Aí acertamos o negócio. Vamos passear e vamos para a Espanha. E fomos. Aí eu falei para o cara da agência de viagem: “Escuta, esse tour que nós vamos fazer, essa excursão, não passa em Murcia, assim, mais ou menos”. Ele falou: “Não. Não passa”. O cara estava mais desinformado que eu. Vai passar em tal lugar, em Granada, só cidade mais famosa. Sevilha e não sei o que. Lá não passa. Está bom. Vamos assim mesmo. Granada, Toledo, aquelas cidades principais que estava no roteiro. No meio do caminho, a gente parou num lugar para almoçar. O ônibus parava para almoçar todo mundo. O guia da excursão de acordo com o local mudava o guia. Lá eles têm um acordo, cada estado parece que é um guia de excursão. Parece que um não pode ser guia em outra cidade. É um negócio meio organizado. Então eu cheguei para o guia espanhol. E eu falo modestamente o espanhol. E conversando com ele,, eu falei: “Escuta eu vi uma placa dizendo ‘La Paca – vinte quilômetros’. Essa é a cidade do meu avô. Será que não dá para depois do almoço ir para lá? Ou sei lá, se vocês ficarem, a gente ficar essa noite aqui eu vou, dou uma corrida lá. Vinte quilômetros é pouco, eu pego um táxi. Ele falou: “Não. E depois o resto da viagem você vai perder. Nós vamos passar ainda em Barcelona e falou um par de lugares. Você vai perder essas coisas. Se você chegar e se atrasar nós vamos embora. Então faz uma coisa, vai até o final da viagem conosco, todos esses lugares e depois você se informa a condução que tem para vir aqui. Você prorroga a sua passagem para mais dois dias, três dias. Como você achar e você vai lá tranquilão”. Eu falei: “Pô, uma boa idéia”. Aí com a agência de viagem eu combinei de prorrogar três dias, que era o tempo de ir lá e voltar, porque eu vi que era longe o negócio. Aí então chegamos. Aí acertei. Em vez de voltar hoje, porque a maioria do pessoal ia voltar à noite naquele dia. Aí acertei de prorrogar esses três dias que dá para ir lá. E me informei como pega o trem. Pega o trem na estação de La Tocha. Vocês ouviram falar naquele negócio que teve, aquele bombardeio que morreu tanta gente lá, que soltaram as bombas. Naquela estação de La Tocha?

 

P/1 _ É lá que pega?

 

R _ É. Tem que ir cedo, porque sete horas da manhã sai um e tal. Deixamos as malas lá no hotel, que eles têm um lugar reservado para essas coisas. Eu não ia com aqueles malão. Só pegamos as coisas necessárias para dormir, pijama e tal e fomos.  Pegamos o trem e vai. Depois desceu em Murcia. Teve que fazer baldeação para ir nessa cidadezinha. Nessa cidade onde pertence, é Lorco, onde teve esse terremoto. E La Paca, que é a cidade do meu avô e da minha avó era vinte quilômetros de lá. É um lugarejo. Mas só tinha um ônibus durante o dia e nós tínhamos perdido o ônibus. Chegamos lá era tarde, eram umas seis horas da tarde. Então, conclusão, dormimos no hotel. E conversando com o dono do hotel. “Escuta e para saber de parentes. E assim, assim. Onde que é. É La Paca”. “É vinte quilômetros daqui. Então faz o seguinte, amanhã levantem e vai ao cartório ou na prefeitura, na delegacia. Pergunta. Vê se tem algum parente.” Então para começar no cartório. Cartório abria às onze horas. Vixe, o pessoal lá dorme tarde e levanta tarde. Bom, aí quando abriu o cartório. Aí eu fui me informar: “Escuta. Assim. Assim. Tem alguma família. Meu avô saiu daqui a noventa anos e eu quero saber se tem alguém com esse sobrenome. E assim. Assim. Aqui nesse lugarejo aqui”. Falou: “Nós só damos informação de vinte anos para cá”. Fazia noventa anos. Imagina. Bom, aí fui à prefeitura. Na prefeitura também não davam a informação exata. “Navarro tem bastante.” Aí fomos à delegacia.  Um falava para ir ao outro lugar. Empurra, empurra. Tipo delegacia de polícia. Destacamento. Aí um dos caras falou assim: “Olha, eu de vez em quando vou para lá de carro, mas me parece que tem uma família com esse sobrenome. Então faz uma coisa…” O ônibus não ia dar, porque ele ia sair de manhã. Que vai para uma faculdade lá que leva estudante, lá em Caravaca de La Cruz, passava lá em La Paca. “Então vocês fazem uma coisa. Se não der certo o ônibus, que vocês vão perder, aluga um carro ou pega um táxi, são vinte quilômetros. E vocês vão à igreja. O melhor lugar para saber das coisas é na igreja.” Aí fizemos isso, contratei um motorista de táxi. Eu ia alugar um carro, mas acontece que o carro só tinha carro grande, os pequenos já tinham alugado, ia pagar um dinheirão. Não. Então, pegamos um táxi, isso era meio dia. O motorista falou: “Vamos, só lá pelas quatro, cinco horas eu tenho que estar aqui para pegar o meu neto na escola”. E não sei o quê. Eu falei: “Não. A gente vai lá e volta”. E levou nós. Fomos lá. Aí, onde é a igreja? Aí começamos a olhar. É um povoado antigo. Sabe? Não progrediu nada. Então, começamos a olhar na igreja assim tudo fechado, a olhar pela janela. E veio uma mulher e falou assim: “Desculpe perguntar, mas o que vocês estão querendo?” Eu falei: “Não, nós somos do Brasil e eu estou querendo saber da minha família”. “Qual é?” “Navarro.” “Parece que tem sim. Faz uma coisa. Vai naquela praça…” Que era horário da sesta. Sabe o que sesta? Depois do almoço, eles ficam do meio dia até três, quatro horas, sei lá. Dormem um pouco e tal. Então a cidade fica morta. E só os velhos que ficam na praça, jogando dominó. “Pergunta para aqueles velhos lá.” Aí eu estava com um negócio na mão. E ela percebeu. “O que, desculpa perguntar, mas vocês são do Brasil. O que vocês vieram fazer aqui?” Os parentes, mas eu já aproveitei e trouxe uns documentos do meu avô. Eu tinha alguma coisa do meu avô, quando um tio meu morreu, falou: “Você quer para você, senão vou jogar fora?” E eu fiquei além do atestado de óbito com a certidão de casamento. Um par de documentos dele. Conclusão, uma pasta assim na mão. Ela falou: “Oh, tem uma coisa, eu não sei se vocês vão ser bem sucedidos, porque já teve muita confusão de gente daqui que foram lá para o Brasil. Inclusive eles fizeram uma estátua lá em homenagem ao imigrante. Era um cara sentado com uma mala assim. De chapéu e tal e uma linha do trem. Sabe. Em homenagem ao imigrante. Que foi muita gente para o Brasil. E o que acontece. Com o tempo. Muitos filhos, netos desse pessoal que foram. Porque muitos foram e deixaram terras lá. Inclusive meu avô deixou alguma coisinha lá. Então os netos já foram lá com essa ambição. Não quer saber. Queremos as terras do avô. Então a mulher já falou: “Já teve muita confusão aqui com esse negócio de brasileiro vir atrás de terra”. Então vai lá e pergunta para aqueles velhos. Então eu fui e me apresentei em espanhol: “Eu quero saber, eu sou do Brasil e tenho uns parentes e eu sei que eram daqui de La Paca. Meu avô saiu há noventa anos e eu quero saber se tem alguém aqui. Então alguém da família dos Navarro.” Aí um velho perto de mim falou. Cutucou outro e falou assim: “Você que é da família dos cucharra. Fala aí. E o que significa cucharra. Cucharra em espanhol. Sabe o que é? Colher. E sabe? O meu bisavô nadava muito bem, rápido. Lá tinha os lugares para tomar banho. Então puseram o apelido nele, nada que nem cucharrinha, que nem colherzinha. O peixe, cucharrinha. Cucharrinha, até no Brasil tinha gente que chamava o meu pai. Aqueles conhecidos antigos de cucharrinha, porque vai passando de pai para filho e tal. Quando ele falou cucharrinha, eu nem lembrava esse apelido, aí quando ele falou isso eu falei, já descobri. E o outro velho falou assim: “Não. Cucharra não sou eu, é minha mulher”. Eu falei: “É sua mulher?” “Cucharra é minha mulher. Meu cunhado mora ali, quer ir conversar com ele? Vamos lá.” Era pertinho e fomos até a pé. Conclusão, chega lá. Ele tocou lá, a campainha tocou lá. Não me lembro. Demorou um pouquinho e aparece um cara. Ele fala assim: “Esse aqui é do Brasil e é da família de vocês.  Porque é cucharra também”. “Ah, é?” O cara não fez muita festa. Eu quase chorei de emoção por achar um cara quase parente e ter um descendente lá. Não fez muita festa não. E parece que ele era meio doente também. Estava meio doente, não da cabeça, mas era meio adoentado. A mulher dele era mais simplória, mais simpática e chegou. “Vamos fazer uma coisa, vamos à casa de tia Teresa, que ela é a mais velha da família e conhece toda a história.” Então vamos lá. O motorista de táxi foi junto. “É aqui que mora ela.” Aí eu falei assim: “Oh, tem uma coisa. A senhora vai lá e fala para eles que estamos aqui e tal, mas fala que nós não temos interesse em herança, de dinheiro. Eu vim para conhecer a família”. Para evitar aquele negócio que veio buscar a herança. Aí ele entrou lá dentro e demorou já uns três, quatro minutos nessa. Estava demorando muito. Estava confabulando lá. Aí sai uma velhinha e a outra mulher atrás falando: “Eu sabia que tinha parentes no Brasil. Sabia que não ia morrer sem conhecer alguém”. Chorando, e a filha dela veio atrás. E ela não enxergava muito bem, tinha uns óculos grossos. Tinha problemas de diabetes, que afeta a vista. Achou-me e passou a mão na minha cabeça. “Tu é alto igual a mi padre.” Até o motorista de táxi ficou emocionado. Poxa, a velhinha e tal. E era uma das únicas que sabia sobre esse negócio, porque o tio dela, porque ela falava que o tio dela tinha ido para o Brasil é o meu avô. Entendeu? O pai dela falava que o irmão dele tinha ido para o Brasil e não sei o quê. Como o motorista já falava da hora, querendo dizer o que acontece. A cidade tinha pouca gente. As outras filhas dela, netos e tudo estavam a maioria trabalhando, estavam trabalhando na plantação. Era meio longe de lá. Plantação de tomate, sei lá. Conclusão, aí começamos a tirar fotografia. Falei: “Então vamos embora, porque amanhã tenho que pegar o coiso e ir para Madri e pegar o avião de volta”. Aí tiramos fotografias e deixamos o endereço e não sei o que e tal, telefone. Mandamos revelar fotografia, mandamos para eles. E repercutiu porque veio parente do Brasil todo. Primos e aí começaram a se interessar e telefonar para mim. “Você veio aqui. Porque não esperou?” Aí passou o tempo. Aí passou uns dois anos. O sonho do meu pai era conhecer isso aí. E como não deu certo, eu consegui isso aí. Aí conclusão, passou uns dois anos deu vontade de voltar. Falei para minha mulher: “Estou com uma vontade. Você vê que eles ficam teimando no telefone de vir”. Bom, aí a minha mulher falou assim: “Você quer fazer uma coisa, pra ir nós dois sai muito caro, você quer ir sozinho? Você me reforma o banheiro, faz uma reforma”. Esse banheiro nosso é antigão. Minha casa é bem velha e só faltou reformar o banheiro lá em casa. Azulejão branco. Tá bom. Você quer isso e aquilo. Troca isso e tira isso. Tá bom. Aos poucos fui reformando. Falei: “Está quase pronto aí. Agora vou começar a juntar dinheiro”. Ela não fazia muita questão. Inclusive ela é neta de espanhóis, mas não está nem aí onde nasceram os avôs. Eu que sou mais assim. Então, eu fiz questão de ir. E sozinho é mais fácil de ir. “Mas não quer ir mesmo?” “Não.” Aí comecei a arrumar as coisas e fui. Aí precisaram fazer uma comunicação convidando. Eu não ia entrar de bobeira. Viu quantos brasileiros que voltaram do aeroporto? Vai com a cara e a coragem e volta. Como eu não tinha aqueles voucher de passagem, reserva de hotel. Nada. Eu não era um turista praticamente. Entendeu? Porque quando você vai com isso você entra fácil. Então fizeram essa documentação e eu fui. Aí eu conheci o pessoal. Num domingo fizeram um almoço especial para mim. Ah, antes disso, eu fiz um documentário. Eu tinha comprado uma filmadora nos Estados Unidos e eu já estava me preparando para a segunda vez que eu ia lá. Eu falei que queria fazer uma coisa bonita. Cada casamento que eu ia, no interior fui nuns três casamentos de filho de prima. Aqui em São Paulo também. Aniversários e não sei o que. Faz oitenta anos. E eu levava a filmadora. E filmava e perguntava: “Escuta, estou pensando em levar isso para a Espanha…” e pa-pa-pa. Cheguei a juntar e fazer um documentário meio rústico. E aí eu tive de transformar no sistema deles. O nosso sistema é Pal-M americano. E o sistema deles. Então a fita de vídeo, transformei e deixei duas fitas lá, no lugarejo. Quando eles viram a família do Brasil. “Esse aqui é fulano.” O único irmão do meu pai que está vivo fez uma saudação para o primo lá da Espanha, que ele já sabia que tinha primos lá. Então, e tudo isso aí. Foi um negócio interessante.

 

P/1 _ Você estava contando da Espanha. Foi levar a fita na segunda viagem. Foi em dois vilarejos.

 

R _ Fui com a minha filmadora. Porque aconteceu uma coisa. A primeira vez que eu fui, a gente estava em Madrid e ia para lá, minha filmadora quebrou. Deu um troço nela e não filmava mais. Eu estive na cidade do meu avô e não consegui, mas como tinha máquina fotográfica ainda tirei umas fotografias. Mas na segunda vez já fui com a máquina, arrumei e tal. Levei essa fita. Levei duas fitas. Uma nessa cidade e para a outra, do pessoal da França. Então conclusão, fizeram um almoço lá no domingo. Chamaram os outros que o primo do Brasil estava. Apesar de que eu fiquei uma semana nessa cidadezinha. E conclusão, eu comecei a filmar. Eu falava: “Saluda os primos do Brasil”. Foi gozado. Cada um dava uma coisa. Aquela velhinha que era prima do meu pai, coitada faleceu. As filhas delas falavam: “Manda um saluda. Um beijo para o meu primo”. Porque sabia que tinha um irmão do meu pai que estava vivo aqui. Foi um negócio interessante para caramba. Aí eu falei que uma coisa que eu gostaria de fazer que minha avó sempre falava, era em Caravaca de La Cruz e como eu faço para ir lá. “Deixa que nós te levamos. Amanhã está bom? Vamos lá amanhã.” Que tinha um lá que estava aposentado. Aí fomos lá para conhecer esse lugar. Caravaca de La Cruz, que lugar bonito. E aí eu comecei a lembrar minha avó. E tinha uns lugares assim. Era tipo de umas pontes. E aí comecei a imaginar que devia ser aqui que minha avó tomava banho, que eles vinham aqui. Então começaram a vir todas essas coisas na cabeça. Bom, então, aconteceu o seguinte, aí chegou a hora de ir embora. Já conhecia a maioria das pessoas e amanhã cedo iam me levar. Uma das moças lá trabalhava em Lorca, que é aquela cidade principal. E ela tem carro, ela ia me levar de manhã até lá para eu pegar o trem para ir para Madrid.  Então naquela noite anterior, que o pessoal foi lá se despedir, um morava numa ruazinha e outro lá, começaram a trazer garrafas de vinho. Quatro garrafas. Porque tem muitos deles que fazem vinho em casa, azeite. Eu já tinha comprado uma mala e começaram a dar presentes. Quando eu fui, eu levei presentes lá para a criançada. Para as mulheres. Esses balangandãs, esse nosso negócio de pedras. Aqui tem lugares que vendem essas pedras semipreciosas do Brasil. Sabe? Que faz pulseirinhas. Levei um monte dessas coisas. Descobri um lugar que vendia barato isso aí. Então levei bastante coisa disso. E em retribuição começaram a dar coisas para minha netinha, que hoje tem cinco anos. Que tinha nascido naqueles dias. “Para a sua neta.” E não sei o quê, tive que comprar uma mala. Estava com a malinha da filmadora e mais duas malas. Tinha comprado mais uma. Falei: “Como eu vou levar essas garrafas de vinho e garrafas de azeite? Garrafa é uma coisa perigosa. Vai quebrar. Eu falei: “Vocês me desculpam, mas não dá”. Se eu tivesse com a minha mulher ou outra pessoa dava né. Mas um lá tinha plantação de amêndoas. Sabe o que é amêndoa? Aquela castanha. E eu falei, amêndoa é um negócio que não quebra. Não vou recusar. É muita indelicadeza. Não quero vinho. Não quero azeite. Entendeu? Aí eu peguei, trouxe uns cinco quilos de amêndoas e de azeitonas, que não quebra na viagem. Entendeu? Lá é interessante esse negócio de azeite. Uns tem plantação de amêndoas e outros têm de azeitonas. Então o que acontece? Como ele não tem a máquina de beneficiamento, de fazer o azeite de oliva, ele a cada cem quilos de azeitonas, ele dava para um cara lá e o cara dava vinte litros de óleo para ele. Você entendeu? Trocava. Cem quilos de azeitonas por vinte litros de azeite. Era mais ou menos isso. Vinte litros de azeite puro. Eu não trouxe. Não dá. Agora azeitona também, um pacote. E ensinaram a fazer aquela amêndoa. Sabe amêndoa descascada? Fazer na frigideira com azeite de oliva. Nossa, aquilo fica um troço. E outra coisa. Lembra que eu falei no começo que a minha avó fazia uma comida típica, a miga. Eu falei num lugar: “Eu quero comer miga”. E ela fez uma miga de farinha. Eu falei: “Mas não é como minha avó fazia. É diferente.” “Por quê? Não gusta mucho?” É diferente. Aí a outra que estava junto da irmã dela falou: “Eu sei. É miga de pão, de pão velho. Miga de pão. “É essa mesmo.” Então ela fez. Fez uma panelada de miga. Tomei um porre. (risos). Aí eu lembrei a minha avó. Aí eu falei: “Passa lá, como a gente fala, a receita. Passa lá a receita pra a minha mulher fazer” Ninguém fez aqui. Tá a receita lá, mas ninguém se atreve a fazer. Eu estou louco para comer essa miga. Qualquer hora vou eu fazer.

 

P/1 _ Aí depois você voltou para o Brasil e continuou a fazer contato? Como foi?

 

R _ Deixa contar outra coisa interessante. Aí peguei o trem. Eu trouxe só as coisas que podia trazer. Vocês desculpem, mas esse azeite. Essas coisas podem quebrar no caminho. Aí no caminho, no trem eu vinha pensando. No trem tinha umas plantações de girassol. Vocês nunca viram plantação de girassol. Já viu? Aquele negócio amarelinho. Aquela plantação. É amarelinho. Parece que pintaram tudo de amarelo. Aí daqui a pouco parreiras de uvas. Tudo verde.  Parreira de uva. Tudo beirando a estrada de ferro. Passou um pouquinho uma fazenda de criação de touro miúra. Você vê a diferença de cor. De amarelo para verde e aí vê aquele monte de touros Miura preto. Até perguntei para um senhor que estava lá: “Porque esse touro negro?” “É para as tourada.” Era fazenda de criação de touro. Entendeu? Porque lá toda cidade tem a praça de touros. Para eles é que nem campo de futebol aqui. Então tinha essa criação. Eu estou falando essa diversidade da mudança de cor. Era um negócio emocionante mesmo. Aí eu comecei lembrar o meu avô e da minha avó. “Puts! Se eles estivessem vivos e saber que eu estive na terra deles.” Não é um troço. Até eu estou emocionado de falar. Não é verdade? Não é emocionante isso? Eles saberem que eles falavam tanto do lugar e eu pisei lá, estive lá. Então, agora acontece o seguinte, eu penso em voltar. Penso, mas é meio difícil. Eu estou tentando pegar nacionalidade espanhola porque os netos têm direito. Antigamente era só filho. Agora neto também pode. Eu estou achando dificuldade. Eu mando coisa para a igreja lá, tem que ser na igreja. E quando eu fui lá eu não me preocupei, porque neto não podia. Senão eu tinha ido aos lugares. O que acontece, nas igrejas, com a Guerra Civil Espanhola destruíram muita documentação. No cartório lá eu penei. Já passei o nome do meu avô e da minha avó. Porque você precisa ter um comprovante que ele nasceu. Eu não sabia as datas exatas e punha os nomes e voltava. As cartas estão todas lá. Não achamos ninguém com esse nome e não sei o que. Da parte da minha mãe a mesma coisa. Só que a da parte da minha mãe, o meu avô e minha avó também eram espanhóis, mas eles se conheceram aqui no Brasil, casaram aqui. Aí uns falam que era de Granada. E escreve para esse onde tem esse negócio dos padres. Como é que chama? Arquidiocese. Acho que é de lá. Escrevo pedindo tudo. Não é isso. È outra coisa. Aí eu desisti, sabe? Eu estou pensando em ir ao consulado e falar que as referências que eu tenho é essa. O único documento que eu tenho é a certidão de casamento do meu avô. Que está comigo. Está tudo em farrapos. A única coisa que eu posso provar é isso. O resto não. Então falar se não dá paciência. Mas eu com a cidadania espanhola, eu posso entrar lá sem ter aquela documentação. Fizeram um documento que era uma escritura. Quando falaram que era uma escritura que nem casa eu achei gozado. Pena que eu não trouxe ela para vocês verem os carimbos de euros, aquelas coisas e autorização. Uma pessoa se responsabilizando por mim. Eu não posso trabalhar. Se eu fizer algum prejuízo com alguma coisa, essa pessoa tem que ser responsabilizar por mim. Entendeu? É um monte de coisa. Não é que nem aqui, os caras entram. Chinesada, coreanos, bolivianos. Entra de qualquer jeito aqui. E falando nisso, mais uma coisinha só. Eu comecei ver muito gente tipo boliviano assim. Gordinhos, sem pescoço. Sabe? Falei: “Esses caras aí ou são paraguaios, bolivianos, peruanos ou alguma coisa…” Então falei para um primo nosso lá: “Olha, eu estou vendo que daqui uns anos vocês vão ter tudo cara de tchino, igual esse pessoal”. De onde é? São equatorianos. Os equatorianos invadiram, toda a cidade que você vai tem equatorianos. Entendeu? Vai lá a troco de... A Espanha estava pedindo muita mão de obra. Em hotel. Eles vivem muito de turismo. Então, só que invadiram demais. É isso aí. Tem mais duas coisinhas. Vocês já devem estar cansados.

 

P/1 _ Que é isso? Pode contar.

 

R _ Uma delas foi o seguinte. Eu fui passear, durante a semana o pessoal trabalhava e então eu ia ao negócio de ônibus e falava que queria ir para tal lugar. Uma praia em Torrevieja. E voltava a noite. Ou outro lugar. Um cara, um espanhol me levava na rodoviária e eu ia. Aí um primo meu aqui tinha falado: “Você vai para Espanha?” “Vou.” “Então vê se você me compra um gorro do Real Madrid. Um gorro  preto com emblema do Real Madrid.” “Tá bom. Se passar em algum lugar que dê certo eu vou.” Aí numa dessas cidades praianas, cidade turística. Tem um calçadão grande e tem as lojas. E na frente das lojas tinha um camarada que tinha o tipo dessas araras exposto com um monte de boné. E tinha aquele computador que fazia o bordado. Vocês já viram? Agora aqui está cheio. Aí eu falei para o cara e comecei a olhar. Preto não vi nenhum. Tinha um azul.  E conversando com o cara em espanhol: “Por favor, eu quero um gorro negro. Com o emblema e não sei o que. Para um primo meu”. “Negro não tem. Azul marinho é quase igual.” “Tá bom.” “É quanto quieres?” Parece que era dez euros, ou uma coisa assim. Então faz. Ficou lá, o computador fica lá. Chichichi. É bonito aquilo trabalhando. O emblema do Real Madrid. Falei, vou levar esse negócio para ele e nem vou cobrar. Aí o que acontece. Eu estava curioso, porque eu vi que o cara tinha um sotaque que não era bem de espanhol. Eu tenho muita convivência com espanhol, argentino. Até sei identificar quando é argentino, uruguaio, cubano. Eles têm uma coisa que dá para saber bem. Eu falei, esse cara aqui não tem jeito de ser. Aí eu falei para ele em espanhol: “Perdón. De que parte tu és?” E o cara me falou: “Eu sou de Brasil”. (risos). Eu falei para ele: “De que lugar você é?” “Sou goiano.” “Nós somos dois tontos falando espanhol e os dois são brasileiros.” Você entendeu? Claro, se eu estou lá e o cara era brasileiro, de Goiás, fazendo aqueles bonés lá. E tinha outra coisa que eu não lembro agora. Também dessas coisas assim gozada que aconteceu. Agora não lembro o que é. Então é assim. Agora vou te contar mais uma coisa. A nossa família descendente desse avô e avó, tudo isso, eu calculo que seja na base de uns cento e cinquenta, mas acho que deve ser mais com aos agregados que entra na família. E várias pessoas dessas foram para a Espanha. Inclusive minha irmã foi. Não é que eu estou fazendo crítica contra eles. Mas ninguém se preocupou, então eu acho que isso daí estava predestinado para mim, descobrir isso aí. Entendeu? Porque de vez em quando alguém vai para Espanha, mas não quer saber de visitar parentes. Mas é isso aí. No fim eu fui lá desenterrar. Como fala meu primo: “Você vai desenterrar defunto”. Falando em defunto, levaram-me no cemitério, foram duas irmãs. Foi gozado: “Vamos lá ver a campa de nuestro abuelo”. O avô delas. E tudo bonito. Eu filmei lá. As campas são bem tratadas. Tem umas que fazem umas capelas bonitas. “Esse deve ser seu tio. Olha, é Navarro.” “Esse também é daquela família de tua avó, dos Perez.” Aí chegou uma hora que as duas começaram a brigar, sabe? Uma queria falar mais que a outra. (risos) E tinha gente, tinha um enterro lá. Falei: “Que vergonha. As duas mulheres brigando aqui. E eu filmando o cemitério”. Filmando as campas. Uma coisa gozada. Mas valeu a pena. Foi gostoso. Realizei o sonho do meu pai.

 

P/1 _ Seu Argemiro. Deixa fazer as duas últimas perguntas. Qual foi a importância do senhor lembrar toda a sua história?

 

R _ Para mim? Isso para mim não tem dinheiro que pague. Eu fiz coisas que muita gente que tem muito dinheiro não fez. Eu sou o que? Um aposentado. Um ferramenteiro aposentado. E sou muito feliz por causa disso. Sem ter muito dinheiro com as minhas economias e sacrifício. E a vontade de ir. Consegui ir. Nunca tinha me despertado disso. Começou a despertar depois. O primo foi, não deu certo, não achou. Aí comecei a encafifar e a lembrar do meu pai que ele queria fazer isso. E fui lá. É isso aí.

 

P/1 _ Porque é tão importante pra você contar essa história aqui para o Museu?

 

R _ Para vocês? Eu vou dar uma de espanhol agora. Em segunda intenção, não é bem isso. Isso aí é para o meu ego. Quero ter esse documento. Não sei se vocês vão me deixar qualquer coisa. Ou vão me dar, sei lá. Ou se eu posso adquirir uma fita dessas. É por uma satisfação minha. Agora, outra coisa. Eu participo do Talento da Maturidade, aquele concurso do banco. E você pode entrar com literatura. Eu só faço esculturas. Só fiz uma coisa de literatura, uma história lá, mas não. Os caras não acreditaram muito. E você pode entrar com caso de contar história com coisa de família, de viagem. Então minha intenção também é se puder. Esse ano eu não tive tempo de fazer nada. Nada. Tive intenção de algumas coisas, mas agora eu tenho que entregar qualquer trabalho em agosto. E as minhas esculturas são muito trabalhosas. Então o que acontece, se der certo eu ponho isso aqui lá. Pode participar nessa parte, até fotografia faz parte agora nesse concurso de talentos da maturidade. É para gente de mais de sessenta anos. Eu participo desde quando começou, doze anos atrás. Não é que a intenção é essa. A intenção é fazer algo, mas se você pode matar dois coelhos com uma bala só, não é melhor? Então é isso aí. Eu não sei se vão convencer eles. Sabe o que vão fazer? Vão dar outro diploma. Eu não tenho mais lugar para colocar diploma. Eu queria ganhar o prêmio. O prêmio é sete mil e quinhentos reais. O prêmio, do primeiro ao quinto.

 

P/1 _ A gente vai encerrar aqui, seu Argemiro e depois a gente faz uma cópia. Eu explico.

 

R _ Vocês gostaram ou se aborreceram?

 

P/1 _ Estava legal.

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