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História

"Entre as pessoas importantes"

História de: José Roberto Marforio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2010

Sinopse

Nascido em São Paulo, José Roberto Marforio passou a infância no bairro da Mooca, com seus pais e amigos da escola. Naquela época, diz ele, a infância era boa, pois “São Paulo permitia isso”.

A educação na escola e a influência do pai fizeram com que José seguisse carreira no setor financeiro. Seu trabalho levou-o para além da vivência na capital paulistana, e José Marforio morou em outras regiões do país, o que possibilitou uma visão mais ampla da diversidade cultural do Brasil.

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História completa

P/1- Bom, vamos começar com o seu nome, local e data de seu nascimento.

 

R – Meu nome é Jose Roberto Marforio. Eu nasci em São Paulo, capital, no bairro do Cambuci, em 17 de junho de 1942.

 

P/1- O nome dos seus pais e dos avós.

 

R- Os meus pais já são falecidos, meu pai Mário Marforio e minha mãe Ana Marforio. Meus avós paternos Salvatori Marforio - e não Salvador - e Ana Sete Marforio. Por parte de mãe, Pedro Sacomani e Rosa Sacomani, já também todos falecidos.

 

P/1- Você estava contando a origem do sobrenome Marforio, conta para a gente.

 

R- A origem do nome Marforio é italiana. Marforio é uma artista circense, segundo alguns, e um palhaço de circo, segundo outros. Era nascido no norte da Itália, na região de Arena, que é quase divisa da Áustria, daí os meus olhos claros. Ele tinha um desafeto circense, que era um concorrente dele de nome Pasquino, e eles se desafiavam. Moravam em cidades diferentes, mas após a morte deles, estes desafios cômicos humorísticos continuaram, a população da cidade de Pasquino desafiava os Marforios e vice-versa. Essa é a origem do nome, e um jornal alternativo que teve no Brasil de nome Pasquim é originário do Pasquino, um palhaço também de lá.

 

P/1- Qual era a atividade profissional dos seus pais?

 

R- O meu pai era bancário, acho que da primeira leva dos bancários no Brasil, e minha mãe era funcionaria da Companhia Telefônica de São Paulo. Meu pai entrou em um banco em 1929, e permaneceu numa mesma instituição durante quarenta e quatro anos, trabalhou 52 anos da vida dele. Minha mãe só quando solteira, depois se casou e ficou só em casa.

 

P/1- E os seus avós?

 

R- Os meus avós por parte de pai, o meu avô veio para o Brasil em 1893. Veio solteiro, com 17 anos. Para o processo migratório tinha que fazer algumas concessões, e a profissão dele - só podia vir quem tinha uma profissão - melhor dizendo, era frentista. O que é o frentista? Pelo menos, naquela época, o frentista era aquele cidadão que fazia desenhos nas fachadas das casas, que ainda a gente vê em alguns locais. Esta era a profissão do meu avô. A minha avó lógico que era só prendas, né? Por parte de mãe, meu avô era barbeiro. Tinha salão na Rua Vitória e até hoje mantenho comigo a autorização da prefeitura que autorizava ele a ter um salão de barbeiro na Rua Vitória. Hoje é uma rua totalmente deteriorada, bairro de São Paulo, é a região da Cracolândia. Naquela época naturalmente não deveria ser assim. Mas essa era a profissão dele e minha avó era prendas.

 

P/1- O senhor tem irmãos?

 

R- Eu tenho três irmãs, todas casadas. Moram em São Paulo.

 

P/1- Bom, vamos fazer um exercício aqui, lembrar um pouco da sua infância. Fala para mim como era a rua e o bairro que o senhor morava.

 

R- Eu morava no alto da Mooca, numa rua chamada Marina Meireles, que hoje o nome é Limonita. Era um bairro, digamos assim, um bairro operário. Foi uma infância boa, porque São Paulo permitia isso. Você tinha as várzeas próximas dali, e como todo garoto não tinha fronteira, andava pela região toda. Hoje onde é aquele bairro do Tatuapé, que é famoso e chamam de Morumbi do Tatuapé, era várzea. Aquilo tinha córrego, a gente ia pescar tudo garoto ainda, tudo moleque. Meu primeiro ensino foi na escola que não existe mais hoje, era o Externato Nossa Senhora de Lourdes, na Avenida Álvaro Ramos, próximo do Cemitério da Quarta Parada. Era uma escola de freiras que não existe mais. Posteriormente, quando eu era muito bom aluno, meu pai resolveu me confinar, então eu fui estudar num colégio que infelizmente não existe mais, mas que foi uma das referências do estudo em São Paulo. Era o Ginásio Stafford, na Alameda Cleveland, próximo da Estação de Sorocabana, onde é a Sala São Paulo. Ficava semi-interno, o ônibus passava de manhã, por volta das sete horas da manhã em casa, e devolvia por volta das sete também. Então lá estudei meu primário, saí de lá e fui estudar no Colégio Nossa Senhora do Carmo, bem no centro de São Paulo, ao lado de onde existe a Secretaria da Fazenda do Estado, vi aquilo ser construído. Estou falando em 1955 ou 54. O colégio também não existe mais, muito embora a Igreja do Carmo ainda tenha. Era uma escola de irmãos Maristas, da mesma irmandade que é o Colégio Arquidiocesano hoje, os Maristas. Essa escola foi também derrubada e hoje é o Poupatempo. Fiz lá também o meu ginásio, depois fiz científico e posteriormente faculdade.

 

P/1- Está certo! Fala um pouquinho como era sua casa.

 

R- Minha casa era simples. Era uma casa térrea, numa rua modesta. Um conjunto de casas que foi construído em 1948 por um cidadão que eu sempre conheci como Coronel Meireles, deve ser alguém influente em São Paulo, que tinha dinheiro e recursos e construiu aquela vila de casas. Eram três irmãs: Marina, Lourdes e Dulce Meireles, porque estes nomes eram o nome das filhas do Coronel Meireles. Ele batizou - naquela época acho que a prefeitura permitia isto - então foram assim denominadas. Essas ruas ainda existem, as casas foram vendidas várias vezes, foram modificadas - o que é uma pena - mas é o progresso, hoje ainda estão lá.

 

P/1- Fale um pouco das brincadeiras favoritas na infância.

 

R- Era futebol, nunca fui craque. Jogo de moleque: pião, soltar pipa, tudo isso permitia. Tinha espaço, não tinha trânsito, não tinha tanta fiação. Isso tudo, brincadeiras simples, mas que a gente conseguia fazer fácil. Uma bola todo garoto tinha, isso era a brincadeira nossa. Quando muito ia ao cinema, cinema de bairro, que também já não existe mais, né? Era muito bom

 

P/1- Fala um pouco sobre o cotidiano da sua casa.

 

R- Bom, o cotidiano era uma cosia interessante. Meu pai, bancário, lutava com dificuldades, sem dúvida alguma, mas nunca nos faltou nada. Escola para todos e a mesa sempre foi farta. Uma mesa de italiano, podia não ter muita variedade, mas tinha quantidade e qualidade, principalmente porque minha mãe era muito boa cozinheira. Minhas irmãs estudaram num colégio que hoje está para fechar as portas, o Colégio São José, na Rua da Glória, que era mantido - e ainda é - pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. E a Santa Casa, através de seu provedor, me parece que não tem mais verba para mantê-la, então eles estão a ponto de fechar e as freiras de lá deverão ser recolhidas para Itu, no Colégio Patrocínio, que faz parte da irmandade. É uma irmandade de origem francesa, veio ao Brasil pela Madre Teodora, que foi já beatificada. Existe hoje um processo de avaliação e certificação para canonização dela. Isso aí ainda existe.

 

P/1- O senhor comentou do início dos seus estudos, mas vamos retornar um pouquinho, com é o nome da sua primeira escola, que o senhor comentou?

 

R- Era Externato Nossa Senhora de Lourdes, na Avenida Álvaro Ramos, no Bairro da Mooca. A segunda escola foi o Ginásio Stafford. Ginásio Stafford foi uma referência porque era de uma educadora muito famosa em São Paulo, Mariana Lartor. Ela, junto com o marido, doutor Gilberto Lartor, tinham o colégio Ginásio Stafford. E por lá passaram algumas pessoas interessantes, entre elas Boris Casoy, que estudou comigo, o vice-governador de São Paulo, não me lembro dele, mas estudou lá. O José Luiz Cutrale, dono da Cutrale, que deve ser a maior exportadora de suco de laranja do mundo. Paulo Viscardi, campeão de kart, e eu, né? Entre as pessoas importantes.

 

P/1- Fala um pouquinho como é que era a escola.

 

R- Essa escola era... eu a conheci na Alameda Cleveland, era uma casa muito grande. Aquilo lá voltando um pouco, por ser nos Campos Elíseos, no Bairro Campos Elíseos, foi o verdadeiro bairro dos barões do café. Tinha os grandes casarões, tipo o Palácio do Governo, que hoje não é mais, acho que é Secretaria da Cultura. Era uma casa muito grande, muito bonita. Ficava ao lado da casa que morou Santos Dumont, uma casa com estilo. Não sou arquiteto e não sei avaliar o estilo, mas eram umas portas enormes. Era uma casa muito grande, muito bonita, lá estudei parte do meu ginásio. Tinha uma diretora chamada Eudóxia, que veio a ser tia-avó de Eudóxia de Barros, esta pianista que hoje já tem uma certa idade, mas deve ser seguramente a  maior pianista que o Brasil tem hoje, tirando Madalena Tagliaferro e outras. Lá fiz o meu ginásio

 

P/1- Quais outras lembranças o senhor tem desse período da escola?

 

R- Ah, lembrança da escola tem as viagens que se fazia com os demais alunos, e as férias em Campos do Jordão. Campos do Jordão na época que chegar lá era uma aventura. Tinha uma estrada muito ruim para chegar em São José dos Campos, que era a Via Dutra, depois era uma estrada de terra, mal cuidada, aonde dizem que os engenheiros ganharam por curva. Campos do Jordão era uma cidade muito pequena, era dividida por três vilas. A Benassi, Jaguaribe e Capivari, e ela vivia em função da desgraça do povo: a tuberculose. A tuberculose só se curava em locais que tinham aquele tipo de clima, porque Campos do Jordão tinha, até então. Para se ter uma ideia, as grandes figuras todas eram doentes do pulmão, e para lá mudaram para se curar. Você pegava a farmácia do Pedro Paulo, um farmacêutico que ficou doente em São Paulo provavelmente por contágio com alguma pessoa doente e teve que mudar para lá. Continuou na farmácia, só que um farmacêutico doente, além de cuidar da própria saúde, cuidava da saúde dos outros. O prefeito de Campos do Jordão na época, Paulo Cury, um campineiro. O filho dele tá até hoje aí, o Paulinho Cury, mais velho do que eu, já deve ter uns 70 anos. O Paulo Cury era um campineiro que tinha o melhor armazém de secos e molhados e atendia a nata dos paulistanos e paulistas que para lá iam, porque ele era um nobre de Campinas e foi prefeito de lá, também tuberculoso. A padaria do Pinheiro, um baiano - na Bahia não podia curar - veio para cá, montou uma padaria lá. Januário Miraglia, Embaixador Macedo Soares, que era conhecido de meu pai. Campos do Jordão é muito boa cidade. O palácio da Boa Vista, que hoje é um museu e residência de inverno do Governador do Estado de São Paulo, eu brinquei nos alicerces daquilo. A obra foi iniciada pelo governador Ademar de Barros, que depois paralisou e, quando retornou ao governo, terminou o que iniciou. Era uma maravilha. A casa de Madalena Tagliaferro, uma grande pianista. Campos do Jordão hoje melhorou muito, a invasão paulistana e de outros estados, né? Se de um lado trouxe um certo progresso, do outro acabou com a tranquilidade. Era muito bom. Os grandes sanatórios, você tinha sanatório sírio que pertence ao Hospital do Coração aqui, era o mais famoso. O segundo era o Sanatório São Paulo, que era mantido pela Elisa de Moraes Mendes, cunhada do governador Ademar de Barros. Ela era irmã de dona Eleonar. O Sanatório São Cristóvão era mantido pelo Governo do Estado e administrado pela dona Eleonor Mendes de Barros, que vem a ser avó de John Saad, da tevê Bandeirantes. Sanatório de crianças mantido pelo Padre Vita, já falecido há muitos anos. Uma coisa terrível aquilo, a doença. A tuberculose naquela época pode se equiparar a AIDS hoje, não tão mortal, mas era muito grave. Campos do Jordão tinha colônia de férias de algumas escolas, entre elas a mais famosa que era a do... acho que ainda hoje é o hotel Umuarama, aquilo era colônia de férias dos alunos do Mackenzie, fundado por Benjamin Rumicurt. John Rumicurti, que era amigo meu da região, a gente andava por lá, tinha cavalos, andava nos cavalos dele. Depois aquilo virou hotel, mas era colônia de férias dos alunos do Colégio Mackenzie. Tinha a família Matarrazo, que tinha uma casa enorme lá no caminho do Hotel Tulipa. Recapitulando, as férias lá eram maravilhosas, foi uma infância boa, muito boa.

 

P/1- E depois dessa escola o senhor ainda foi para o Colégio do Carmo?

 

R- É, isto foi entremeado entre o Colégio do Carmo e Ginásio Stafford, porque eu comecei no Stafford e terminei no Colégio do Carmo. O Colégio do Carmo era dos irmãos maristas, era também uma construção centenária, as salas de aula com pé direito de cinco ou seis metros. Todos os professores eram os irmãos, eles não são padres. Faziam o voto de sacerdócio, mas eram eles que ministravam as aulas, com exceção das aulas de educação física, que era ministrada por oficiais do Exército, do quartel que existia na várzea do Glicério. Hoje não sei se está fechado, também é um prédio centenário. O colégio do Carmo tinha anexo à Igreja do Carmo, e o padre responsável por ela era Monsenhor Manfredo Leite, amigo de meu pai. Padre muito alto e magro, de fala muito macia. Um homem muito bom.

 

P/1- O senhor acha que os estudos o influenciaram na escolha de sua atividade

profissional?

 

R- Ah, sem dúvida! Até por conta da formação do meu pai, um homem bancário. Eu enveredei por isso também. Para se ter ideia, meu pai entrou em 29 em banco, depois eu me formei, fui trabalhar também e no fim enveredei e acabei no segmento bancário, formação acadêmica e profissional. Trabalhei na General Motors do Brasil, uma grande escola. Trabalhei com o André Beer, que hoje é consultor da Rádio Bandeirantes, mas era controller da GM. Trabalhei no projeto do automóvel Opala que tá aí. Eu vi o Opala nascer, era o projeto 676. Quando não se tinha ideia de se construir carro aqui, a GM, que só montava, passou a construir um automóvel. Me sinto responsável pelo cano de escapamento.

 

P/1- Vamos voltar um pouquinho na época da adolescência, fale um pouco de seus amigos. Quem eram eles?

 

R- Amigos que hoje se tornaram conhecidos, mas na época eram amigos. Acho que aquele que ficou famoso foi um jogador de futebol, veio até a ser concunhado do Pelé, o Lima. Jogou no Santos e hoje mora na baixada santista. Eu não encontro com ele há alguns anos, mas de qualquer forma, éramos amigos e jogávamos bola juntos. Tem um xará meu, o José Roberto Berlasconi, formado pela Poli, foi o engenheiro calculista do escritório do José Carlos Figueiredo Ferraz. Ele diz que fez o MASP, fez o calculo. Hoje se faz com computador, com programas de computação, ele calculava numa máquina Facit ou num soroban. Trabalho lá e hoje ele é presidente da Balbertec, se não me engano foi presidente do Conselho de Engenharia. Paulo Viscardi, campeão de kart, até hoje primo da amizade dele.

 

P/1- O que vocês faziam para se divertir? Vocês iam ao cinema?

 

R- A diversão era cinema. Cinema ou baile de formatura. Os bailes de formatura eram interessantes, porque toda escola tinha o baile no final [do] ano para àqueles que se formavam. Os bailes mais famosos eram os Clubes Pinheiros e São Paulo, Club Homs, na Avenida Paulista, e ainda na Avenida Paulista, o Fasano, na esquina da Augusta com a Paulista no Conjunto Nacional. Tinha a Casa de Portugal, na Rua da Liberdade, esses eram os mais famosos. E em São Paulo dava para ir a baile de formatura de ônibus, à noite. Nós garotos não tínhamos automóveis, e aqueles que tinham, também, o carro era pequeno e não dava para levar todo mundo. Nós andávamos de ônibus, com smoking.  Todas as moças iam ao baile e voltavam de ônibus de madrugada, pois São Paulo era muito tranquila. Infelizmente isto acabou,né?

 

P/1- O senhor lembra como era a moda da época?

 

R- A moda? Homem ou era smoking ou summer. Summer era aquele paletó branco, gola redobrada, e o smoking era um terno preto com uma gola de cetim e gravata borboleta. As moças todas de longo cabelo arrumado. As grandes orquestras, Silvio Mazurca, Erlon Chaves - que já faleceu - tinha outros, Orlando Ferlo, todos eles não existem mais. Eu acho que era a melhor festa que existia em São Paulo. Vi outro dia na televisão - programa regravação, evidentemente - o Dick Farney entrevistado pelo Edy Costa, que ainda tem um conjunto. Acho que está muito velho. As grandes orquestras... Orquestra Tabajara não tem mais, e se tem, não se ouve falar. Mas os bailes eram bonitos, glamorosos. Os salões eram maravilhosos e até por conta disso, cortaram o pedaço do Clube Pinheiro para construir a Faria Lima. Quando você parava ali, era Rua Iguatemi. Você parava na Rua Iguatemi para chegar ao salão de baile dentro do Pinheiros, andava uns 100 metros. Hoje você anda dez metros e está dentro do salão, porque desapropriaram uma faixa. Isso foi muito ruim, foi por volta de 1965 ou 64, por aí, para a construção da Faria Lima e a abertura dela.  Infelizmente é um mal necessário, vai se destruir alguma coisa.

 

P/1- E os esportes? Continuou com o futebol?

 

R- Ah, o futebol, os bons ficaram, os ruins saíram. Eu me incluo nos que saíram. Mas hoje já não dá mais, pode até chutar uma bola não como esporte, mas como brincadeira. Futebol era muito bom na época, era possível ir a um campo de futebol, porque embora as torcidas se digladiassem, era verbalmente, e briga era muito pouca, não tinha essa violência que tem hoje. Hoje o povo vai ao campo de futebol para matar as pessoas, isso não é esporte e o futebol acabou. Eu me sinto uma pessoa privilegiada, vi os grandes jogadores do mundo. Vi pessoalmente e assisti, acho que isto poucas pessoas ainda restam que viram esses grandes jogadores. Infelizmente eles passaram, acabaram, mas era tranquilo em campo de futebol. Eu era sócio do Corinthians, fiquei sócio em 1951, guardo minha carteirinha até hoje. Meu número é 18581, está lá nos anais da história do Corinthians. Nem reconheço mais o Corinthians. Nessa época fiquei sócio porque inauguraram as piscinas, Alfredo Inácio Trindade era o presidente. Fácil de chegar lá, bom de frequentar. Não era um clube de elite, evidentemente, como não é até hoje, mas era bom, era fácil.

 

P/1- E namoradas?

 

R- Ah! Isso todos tinham em todos os cantos, mas nenhum casou com elas e elas também não casaram com eles. Eram os bailes familiares, namoradas todos tinham, era um negócio engraçado. Era muito mais respeitoso do que hoje. Não se era respeitoso, mas era diferente.

 

P/1- E o senhor é casado, né?

 

R- Sou casado.

 

P/1- Conte como o senhor conheceu a sua esposa.

 

R- Eu conheci na época da faculdade. Conheci, namorei alguns anos e casei em 1973. Tenho uma filha de 32 anos que é engenheira formada. Só tenho uma filha, que não tem filho, mas tem um cachorro que dá muito trabalho. Hoje moramos em Santos e minha filha também, mas trabalha em São Paulo, tanto ela quanto o marido, eles fazem o vai-e-vem todo o dia. Ela trabalha na Método Engenharia e meu genro tem uma empresa de engenharia.

 

P/1- O senhor lembra como foi o noivado?

 

R- O gol? Ah! Foi um negócio simples. Ela morava no Paraíso, quando meus pais foram ela já não tinha mais pai. Fiquei noivo e dois anos depois casei. Fui morar no próprio bairro Paraíso, ali na Afonso de Freitas, depois fui morar no Itaim e fiquei até mudar de lá indo trabalhar em outras cidades do Brasil. Então fiquei ali. Retornei depois para o Itaim e de lá saí para morar no litoral, descansar um pouco.

 

P/1- E o senhor lembra como foi o dia do casamento?

 

R- O casamento foi num salão que tem ali na esquina da Maracatins com a Indianópolis, se não me engano o nome é Colonial. Ali a cerimônia religiosa e depois a festa, a recepção foi lá mesmo. Você teria que obter autorização da Cúria Metropolitana, porque não é permitido - na época não era - fazer cerimônia religiosa fora de uma igreja. Teve que contratar um padre que estava disposto para pedir para a Cúria permissão para fazer isso, então foi ali.

 

P/1- E como é que é o cotidiano do seu casamento?

 

R- Meu cotidiano é bom, porque me dou bem com minha mulher. Ela sempre teve a atividade dela, sempre mexeu com administração de imóveis e posteriormente hotelaria, e eu no meu segmento bancário. A única coisa é que atrapalhei a vida dela com as minhas mudanças, ela se viu tolhida do trabalho dela, porque fui morar no Mato Grosso, fui morar no Recife. Ela não podia ficar aqui e eu para lá, isso é impossível. A mudança toda é traumática, você muda de cidade, de costumes, de ambiente. O negócio não é fácil. Sair de São Paulo, uma megalópole onde se tem tudo a qualquer hora do dia ou da noite e morar numa cidade... Cuiabá, quando fui morar, tinha 350 mil habitantes. Difícil, né? Você não tinha shopping, São Paulo já tinha. Não tinha metrô - muito embora não tivesse necessidade - mas São Paulo já tinha, era difícil adaptar a realidade. As coisas que para você aqui são elementares, lá você não consegue. Médico principalmente. O melhor médico que tinha em Mato Grosso era o doutor boing, ou seja, tinha um vôo da Transbrasil que era direto, se ficava doente, muito doente, vinha pela Transbrasil, que não tinha escala. Se fosse mais ou menos, podia pegar outra companhia, mas era difícil. Hoje no Cuiabá, Mato Grosso, tem um esplendor: é o estado produtor de soja do mundo, ainda guardo amigo lá.

 

P/1- O senhor falou que teve uma filha, né?

 

R- Tenho uma filha.

 

P/1- Com foi esta experiência de ser pai?

 

R- Ah, interessantíssima! Menina sempre é mais chegada do que o menino filho, né? Ela teve uma criação boa, procuramos sempre dar o melhor em termos de ensino. Se não demos financeiramente, em bens, pelo menos em termos de ensino. Ela sempre estudou muito, estuda até hoje. Faz pós-graduação e uma série de coisas. É formada em engenheira civil pelo Mackenzie, nunca parou de estudar. Faz seis anos e continua sempre trabalhando e estudando, se aprimorando. Mas não deu trabalho nenhum, foi muito bom, muito bom.

 

P/1- Vamos falar um pouco da sua escolha profissional. O que motivou o senhor a escolher o curso que o senhor fez, o curso superior?

 

R- Ah! É em função de trabalho, de campo de trabalho, principalmente porque o segmento financeiro sempre foi um segmento empregador, muito empregador. Você tinha os grandes bancos evoluindo todos os dias, hoje ficaram dois ou três, mas na época tinha muito banco, muito emprego. Só o Bradesco chegou a empregar mais de 100 mil funcionários, hoje se tiver 60 é muito. Ele cresceu muito, quintuplicou de tamanho e reduziu o número de funcionários, a tecnologia faz tudo isto. Então, se por um lado se arranjava emprego com facilidade,  por outro era a formação de meu pai, meu pai bancário. Tinha facilidade de se relacionar com pessoas que facilitava a abertura de portas para arranjar emprego. Então isto tudo contribuiu para formação acadêmica também.

 

P/1- O senhor acha que teve alguma pressão da parte do seu pai?

 

R- Não, absolutamente nunca. Ele só dizia que “sabedoria e conhecimento não ocupam espaço”, não sei se era dele a frase, mas ele falava.

 

P/1- O senhor já tinha expectativas em relação à profissão, quando estudante na faculdade?

 

R- Não, isso não. Sempre buscava alguma coisa de melhor, achava que se tivesse uma formação acadêmica, isso iria contribuir para a formação profissional, e hoje mais ainda. Hoje formação acadêmica não é o suficiente, diploma de curso superior não dá emprego para ninguém. Hoje, curso técnico ganha muito mais espaço do que a formação acadêmica, porque infelizmente é uma realidade, o Brasil tem desemprego. Mas ele tem desemprego com um fator contribuinte muito forte, que é a falta de qualificação profissional. Não tem qualificação profissional, infelizmente. Hoje, para se dirigir um caminhão Scania ou Volvo novo, é necessário que a pessoa tenha qualificação profissional, não é qualquer motorista que dirige. Então para ser motorista, tem que ter qualificação profissional. Não que a profissão de motorista seja... mas o que falta é qualificação profissional. No Brasil faltam bons profissionais, infelizmente. Antigamente São Paulo tinha uma escola, no bairro do Brás, uma escola técnica federal, a Getúlio Vargas, na Rua Piratininga. Infelizmente, os desmandos dos governos passados, do atual, e em qualquer outro governo que vier, jamais vai poder reviver o que foi a Getúlio Vargas. Getúlio Vargas era uma escola profissionalizante, onde formava profissionais de qualidade. Hoje a Light, companhia de eletricidade que não existe mais - hoje Eletropaulo, Electro e outras tantas mais - só buscava profissionais lá, porque sabia que o profissional dela tinha qualidade. A indústria automobilística fazia fila na porta da Getúlio Vargas para ir buscar os profissionais lá formados. A indústria automobilística não existia no Brasil, então onde tinha que buscar o profissional? Numa escola profissionalizante. E graças aos desmandos desses governos que por aqui passaram e por aqui estão, acabaram com isto, não existe mais. Escola de SESI (Serviço Social da Indústria) e SENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), não vejo nada parecido, e digo isto de cadeira, porque trabalhei na General Motors do Brasil e vi os profissionais que lá tinha. Noventa por cento da mão-de-obra qualificada veio da Getúlio Vargas, se acabaram é uma pena, isto foi um crime, um lesa-pátria. Isso não é no governo passado, retrasado, isso veio numa deterioração do próprio ensino. Hoje o ensino não tem qualidade.

José Serra, quando ministro ou prefeito - sei lá o que ele era - falou que o povo não sabe tabuada. O povo não sabe tabuada mesmo. Faça uma experiência: vá a uma loja, seja atendida e pergunte quanto é sete vezes sete, não sabem. Sabem ler? Sabem. Peça para interpretar um texto: não sabem. A escola se desqualificou, hoje não temos professores, não temos escolas, não temos alunos. Os alunos não tem o menor interesse em aprender. Eu fiz um trabalho de qualificação profissional para a Prefeitura do Guarujá, mais minha esposa do que eu. Em um centro de convivência da prefeitura na gestão do Mauricinho Mariano. A ideia era boa. Guarujá é uma cidade que vive de turismo, e a gente vê que os hotéis e pousadas - hotéis de pequeno porte começavam a ser construídos lá - têm que ter uma mão-de-obra qualificada para isso, pois até para arrumar uma cama tem uma técnica. E minha mulher trabalhou sempre em hotelaria, aí nós fomos fazer um trabalho para eles, tentar qualificar pessoas. Você convocou duzentas pessoas, recrutou, melhor dizendo, conseguiu selecionar trinta. Das trinta, conseguiu aprovar doze. Mas com muito sacrifício, e depois que todas essas pessoas foram trabalhar, você precisava de apoio dos órgãos governamentais, no caso da prefeitura. Sequer estágio eles arrumaram para esse povo. Eu cheguei a ir a escolas fazer uma apresentação do que nós propúnhamos fazer, tudo de graça. Eu gastava dinheiro do meu bolso, porque o povo de trabalho precisa de qualificação. Fui a escolas onde professora apanha de aluno, tocam violão no meio da aula. Está nisso o ensino no Brasil, infelizmente do jeito que está...

 

(Troca de fita)

 

P/1- Em que universidade você cursou?

R- Eu fiz Mackenzie.

 

P/1- O que levou o senhor escolher o Mackenzie?

 

R- O preço. Foi uma das escolas... é, tem qualificação, mas foi uma escola. Até então era subvencionada pela Câmara Interamericana do Comércio, me parece que agora não é mais. Mas era uma escola muito barata, de boa qualidade de ensino, isso o Mackenzie sempre se rivalizou com outras faculdades ou universidades, aí era uma escola boa.

 

P/1- E quais eram os campos de trabalho na sua profissão na época, além das que o senhor citou? Banco?

 

R- Banco. Era o apogeu dos bancos, o apogeu de crescimento. Os bancos sempre foram um grande empregador para o universitário ou para o recém formado em economia. E você tinha até um certo primitivismo, né? Porque não tinha a sofisticação que tem hoje. Eu fui aprender custo de produção na General Motors do Brasil, outras empresas no Brasil levavam isso meio a solta, mas a percepção do americano com relação aos custos que a rentabilidade do produto não estava no preço de venda, e sim na diminuição de custo. Isto era muito forte, até hoje é muito forte, o empresariado brasileiro aprendeu isto, tanto é que hoje nós temos empresa de primeiro nível aqui, de boa qualidade. Eles têm esta percepção, mas isso era então o mercado de trabalho para o economista, era o mercado financeiro prioritário, depois vinham as indústrias que começaram naquela época a recrutar alunos recém formados, profissionais recém formados na área de economia.

 

P/1- E com quantos anos o senhor começou a trabalhar?

 

R- Eu comecei com 22 anos.

 

P/1- E aonde o senhor começou a trabalhar?

 

R- O meu primeiro emprego registrado foi na Ferenand União do Brasil, uma multinacional subsidiaria da Eron Incorporacion, era uma empresa em São Caetano do Sul, trabalhei na área de custos. Posteriormente mudei para a General Motors do Brasil, onde fiquei cinco anos, na área de custos também. Aí, certo descontentamento com relação à gerência da área, que haviam feito algumas promessas que não foram cumpridas, não financeiras, mas promessas para qualificação profissional, estudo no exterior que não deram - talvez eles saibam dizer a razão.  Então saí e fui para o mercado financeiro, dei uma guinada um pouco maior.

 

P/1- E qual foi a primeira impressão de quando você entrou no mercado financeiro?

 

R- Um negócio muito dinâmico, dinâmico ao extremo. Não tinha a sofisticação que tinha hoje da precificação do dinheiro. Hoje o mercado, o mundo ficou pequeno com o advento da internet, computadores. Hoje você consegue numa fração de segundo saber quanto está custando o dinheiro em qualquer país no mundo, isso não existia. Era muito mais empírico do que é hoje, você buscava dinheiro em captações de recursos de longo prazo, 180 dias era longo prazo na época. Ano nem se fale, era um negócio mais fácil de trabalhar, mas não era técnico, hoje não! Hoje é mais difícil e mais técnico, tem que ter uma qualificação profissional muito forte para trabalhar nesse mercado financeiro, em qualquer segmento dele, em qualquer setor dele. O mercado ficou muito pequeno, e por ser pequeno, requer criatividade, e a concorrência é muito forte. Concorrência exterior e local. Local principalmente, porque o mercado financeiro está reduzido a quatro ou cinco bancos, todos eles de grande porte. Antigamente tinha uma maior quantidade de bancos, mas de menor porte. Os grandes comeram os pequenos e ficaram as grandes corporações, houve uma redução significativa de custos. Hoje você não tem a necessidade de ir a um caixa, sacar dinheiro ou fazer um pagamento, se faz pagamento em sua casa. Saca dinheiro em qualquer supermercado ou naquelas maquinas. Saca ou vai à agência, nem adentra a ela, saca dinheiro ali e emite o seu talão de cheque. Houve um decréscimo da mão-de-obra e uma evolução muito forte de tecnologia. O Brasil detém uma tecnologia bancária, que no mundo deve estar em primeiro ou segundo lugar. Você tem que admitir que você compensa um cheque sacado contra a praça de Mauá em São Paulo, 24 horas. Nos Estados Unidos, um cheque sacado em Nova York contra a praça de São Francisco, na Califórnia, deve demorar uns 15 dias. Por que o Brasil é tão ágil e lá não é? Porque aqui nós tivemos uma inflação que chegou a oitenta por cento ao ano, nós tínhamos que ter velocidade na busca de recurso, e aprendemos tesouraria de banco. O Brasil, se não é a primeira ou segunda no mundo, não tenha dúvida disso, qualquer mesa de tesouraria, em qualquer banco, em qualquer país do mundo, tem um brasileiro que atua, porque o que a inflação nos ensinou, eles nunca souberam aprender, não tiveram a inflação que tivemos, com exceção da Alemanha. O Brasil tem qualificação no segmento financeiro muito forte, daí o resultado dos bancos.

 

P/1- Foi nesta época que você trabalhava em alguma empresa? Fixo ou não?

 

R- Não, eu trabalhei com registro, como se diz, registro em carteira, por 38 anos. Eu passei primeiro pela empresa Ferernando, segunda Genaral Motors e terceira uma companhia financeira que não existe mais, que é a Brascred - foi da família Malsoni Melão, depois fui para outra empresa financeira que também não existe mais, Grupo Financeiro Ipiranga. Voltei a trabalhar com a família Malsoni, saí da família Malsoni e fiquei muitos anos no banco Chase Manhattan. Me aposentei pelo Votorantim.

 

P/1- Ah, é muito.

 

R- É, pelo banco Votorantim me aposentei.

 

P/1- O senhor se lembra do seu primeiro salário? O que o senhor fez com ele?

 

R- Oh, sabe Deus? Deve ter sido uma festa. Mas toda vez que eu ia ficar milionário, o Delfin Neto cortava os três zeros. Eu cheguei à época do bilhão, milhão, era uma moeda. Mudou tanto que a gente perde a noção, mas chegava lá, tinha um número deste tamanho e não se comprava nada, infelizmente.

 

P/1- E quais dificuldades o senhor teve no início da carreira? 

 

R- Ah, dificuldade sempre foi grande, primeiro a adaptação a um emprego, à empresa. Você tem que conhecer a empresa para poder saber certamente qual é o objetivo dela para depois você se adequar. A grande dificuldade era a concorrência entre nós funcionários, as pessoas todas queriam evoluir, só que precisava fazer das tripas o coração. Sempre tive uma facilidade de me comunicar isso ajuda muito, sem dúvida. Eu sempre angariei bons amigos e bons clientes. O meu cliente se torna meu amigo, então isso sempre dá uma facilidade na negociação. Pode até não acontecer, mas o acesso a elas eu sempre tive. E boas empresas, tudo isso contribuiu para a minha evolução. No Chase eu saí como diretor sênior, era um título corporativo, mas era um título que poucos, muito poucos brasileiros alcançaram dentro do Chase. Outros foram muito mais acima, evidente, mas pelo Chase, passaram 5 mil funcionários - nem 10 por cento disso chegou a essa qualificação. Trabalhei no Grupo Votorantim, na financeira. Fui diretor, então tudo isso contribuiu, graças ao meu esforço, ao meu trabalho, minha qualificação. Os resultados que eu adquiri ao longo do meu trabalho certamente influenciaram nos empregos, nos cargos, sem dúvida alguma, entendeu?

 

P/1- Essa questão do senhor morar em vários estados? Como é que acontecia isto?

 

R- Acontecia pela própria evolução profissional, você buscava sempre crescer dentro da empresa e na medida em que as oportunidades surgiam, elas surgiam sempre num degrau maior do que aquele que você estava. Então eu precisava mudar de ambiente, de local de trabalho para evoluir, e isso eu segui a regra. Ninguém saía de São Paulo para ir trabalhar no Mato Grosso naquela época se não fosse numa condição melhor do que a atual. Condição melhor financeira e profissional. Saía daqui como gerente e chegava lá como gerente sênior. Saía como gerente sênior e ia para outra como vice-diretor, isso era obrigado. Quando você chegava lá, tudo era desconhecido, você tinha um mercado totalmente diferente daquele que você está totalmente ambientado. Você tem certo período de adaptação, sem ver a família. Minha filha saiu daqui estudando no Colégio Arquidiocesano e foi estudar numa escola chamada Escola Dinâmica, em Cuiabá. Tem uma pequena diferença, espero que a Escola Dinâmica hoje tenha tido um dinamismo tão grande que seja superior ao Arqui, mas é duro, né? Foi um sacrifício que eles fizeram junto comigo, para tentar melhorar meu status, minha condição financeira, meu trabalho. Difícil, difícil.

 

P/1- Quais foram os estados?

 

R- Trabalhei no Mato Grosso, morei em Cuiabá. Trabalhei em Recife, Pernambuco, morando em Recife Em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba. Curitiba é boa cidade, era muito frio na época, ainda deve ser, mas estes estados eu trabalhei. O estado onde me dei melhor foi Mato Grosso. Sempre gostei de pescar, a pesca ali era farta, mas qualidade profissional você encontrava lá do outro lado. O cliente falando mais no nível que você foi Curitiba e São Paulo. Sem dúvida nenhuma, aí é bom.

 

P/1-Que tipo de mudança aconteceu durante sua trajetória profissional?

 

R- Cultural, sem dúvida nenhuma. A mudança cultural é muita, você começa a conhecer outras pessoas, outra etnia, outro modo de viver. E na parte profissional você começa a ver que aquele mundo que você vivia em São Paulo, ou tinha um profissionalismo, ou tinha uma regra que lá fora não tinha. Você marcava visita numa empresa, o cara saía para pescar e você ficava ao bel prazer dele. Existia muito pouco profissionalismo nessa época, então isso, se de um lado era muito ruim para você e te deixava muito raivoso, fazia com que você tivesse de se esforçar mais para mostrar para ele que você era um profissional, você tava realizando um trabalho, você dependia dele e ele por ser cliente de banco também tinha certa dependência de você, então isso era uma briga constante. Eu aprendi a viver isso aí, aprendi, você entendeu? Em Recife, quando mudei para lá, tentei alugar um apartamento de um cidadão da Receita Federal, não tinha problema nenhum, só que eu tinha o direito de escolher onde eu queria morar, e evoluí na negociação com ele. Mas no meio do caminho, apareceu outro imóvel e eu optei por esse outro. Quando fui dar uma satisfação para ele, ele ficou muito nervoso. Era um coronelzão que achava que eu tinha que alugar o dele e não o do outro. Isso era um negócio que não existe aqui em São Paulo, não existia, eu acho que nem lá hoje existe mais. Mas de qualquer forma, era uma dificuldade tremenda. A cultura do povo, isso eu aprendi, entendi essa cultura. Estava conversando com o rapaz aí antes da entrevista, mostrando a etnia dos povos dos estados onde eu morei. Um negócio interessantíssimo, poucas pessoas sabem. Não que eu seja, mas fui procurar onde fui morar, procurei saber de onde veio o que ele fazia, como ele vivia. Isso é necessário, isso é bonito e eu gosto, se não enche o bolso, acrescenta no conhecimento, na cultura, né?

 

P/1- E quais as principais lições que o senhor tirou dessa trajetória de vida tão rica?

 

R- Acho que todo mundo tinha que fazer no mínimo o que eu fiz. O mínimo que eles têm que fazer é o que eu fiz, sabe? Nada cai do céu, nada. Tem que brigar, se não brigar, não valeu.

 

P/1- O que o senhor achou de dar esse depoimento?

 

R- Ótimo! Ótimo!

 

P/1- Gostou?

 

R- Sei lá se contribuí, acho que contribuí.

 

P/1- Com certeza.

 

R- Todo cidadão tinha de contribuir com alguma coisa.

 

P/1- O Museu da Pessoa agradece muitíssimo a sua participação. Obrigado.

 

R- Obrigado. Meu nome é José Roberto Marforio., moro atualmente em Santos. Sou aposentado, não sou vagabundo. Tenho atividade ainda no segmento financeiro, não tenho vínculo profissional, tenho vínculo moral e continuo trabalhando. Parar agora? Não sei. Eu não tenho dependência financeira que infelizmente noventa por cento do povo brasileiro tem. Eu não tenho essa dependência, mas preciso trabalhar, é diferente.

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