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Entre a Vale e a Petrobrás

História de: Joel Mendes Rennó
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Joel é o único brasileiro brasileiro vivo que foi presidente das duas maiores estatais do Brasil: a Vale do Rio Doce, hoje privatizada, e a Petrobrás. Mas antes disso, quando era ainda um estudante de Engenharia em Itajubá, foi locutor de rádio, apresentando um programa noturno durante anos. Nesta entrevista, ele nos conta sua trajetória pessoal e profissional.   

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História completa

IDENTIFICAÇÃO



Joel Mendes Rennó, Belo Horizonte, Minas Gerais, 23 de fevereiro de 1938.

FAMÍLIA



Pais e irmãs
Meu pai, João Batista Cabral Rennó, por coincidência, ex-engenheiro da Companhia Vale do Rio Doce. Minha mãe, Elza Mendes Rennó. Minha mãe, meu pai, três irmãs, hoje são duas. Essa é basicamente nossa família.

Origem Alemã
Quando vocês virem o sobrenome Rennó podem ter certeza que a origem é a mesma. Então para simplificar muita coisa, quando encontro um Rennó no Estado do Pará, como existe, ou no Rio Grande do Sul também, e me perguntam, eu digo "Sim, é primo de meu pai." Facilita muito porque eu sei que a origem é a mesma, mas eu não sei exatamente em que ponto nos tocamos. É uma família que veio de uma região que se chamava Prússia, no início do século XIX, cerca de 1817, 1820, veio para Curitiba. O primeiro Rennó era um médico, Dr. Johann Rennow, tinha um w no fim. Ele foi para Curitiba e, naturalmente, como médico e profissional europeu, adquiriu uma fama importante. E verificou ele que, naquela época no país, no Estado do Paraná, em Curitiba, a França, como país, tinha um grande prestigio. Então não teve dúvida, adotou o nome de João Rennó de França. Tratava-se já de um homem de marketing. Depois ele eliminou o w do nome e colocou o acento agudo, que até hoje assim é que nós assinamos o nosso nome: Rennó. Da cidade de Curitiba ele foi para o sul de Minas, para a região de Itajubá, em Santa Rita do Sapucaí, onde havia um padre muito progressista chamado Padre Lourenço, que estava muito interessado em desenvolver aquela área, se necessário até distribuir certas terras, ou facilitando a aquisição das terras a um bom preço para que aquele ponto de Minas Gerais se desenvolvesse. Essa foi a oportunidade que o Dr. Johann Rennow verificou que poderia crescer, e assim fez. Aí para frente, nos tempos futuros, nos tempos que se seguiram, os Rennós foram se casando com Pereira, com Cabral e com outras famílias e tornou-se uma família, de fato, numerosa, em vários pontos do nosso país, mas fundamentalmente no sul de Minas Gerais. Cada Rennó que se vê, tem esse parentesco graças à origem, ao pioneirismo do Dr. João Rennó.

Mãe
Minha mãe é de Varginha, do Sul de Minas, na época em que era moça, o grande curso que havia para as moças era o curso de professora, algumas poucas se destacavam em outras atividades. Ela cursou tudo o que dizia respeito de um dia se tornar uma professora, e assim o fez. Ela era de uma família numerosa, a família do meu avô materno eram oito filhos, minha mãe era a primeira desses oito filhos, o bisavô de minha mãe chamava-se Eloi Mendes, pai do meu avô. Há uma cidade pequena, muito bem arrumada, muito bem distribuída. Não é moderna porque é antiga, mas é muito bem preparada, no sul de Minas, próxima à Varginha, que se chama justamente Eloi Mendes, em homenagem a esse nosso parente, pai de meu bisavô. Era português, veio da chamada Santa Terrinha, daí a origem do meu nome Mendes. Meu avô era Mendes dos Reis e minha mãe, quando se casou, botou o Mendes da minha avó e o Rennó do meu pai. Então todos nós Mendes Rennó, por essa razão.

A escolha do nome Joel
O nome Joel é uma pequena curiosidade. Ainda hoje se vê, mas é muito mais incomum. Antigamente procurava se fazer combinações dos nomes do pai com a mãe, para se batizar os filhos. No meu caso foi muito simples, o meu pai chamava-se João e minha mãe Elza e assim para mim sobrou o Joel. Ficou simples. Contava meu pai, que na época em que eu nasci, eu fui o primeiro dos netos do meu avô materno, os meus tios e tias não gostaram muito a primeira vista do nome Joel. Achavam o nome um pouco comum, já era um nome um pouco comum, havia um conjunto, uma dupla cantante chamada Joel e Gaúcho. Diziam que era uma dupla muito popular, equivalente hoje a dupla Chitãozinho e Xororó, Zezé de Camargo e Luciano, e meus parentes, então, não caberia bem para o primeiro neto, exatamente o nome de um dos que faziam parte do conjunto musical.

Catolicismo
Mas enfim assim foi, acho que é um nome que dá sorte, vocês sabem, como religiosos que são, eu sou Católico Apostólico Romano, aprendi isso há muito tempo, Joel é o nome de um profeta menor da nossa religião. Então tem um significado religioso também, eu creio que eles terem me batizado assim, eles eram muito fiéis à doutrina que professavam.

Não me lembro, não tinha nada de especial, era um profeta chamado "Menor", teve o seu significado, certamente, tem citações importantes na Bíblia, eu já vi algumas coisas dele, mas não era uma pessoa, não foi um santo de maior repercussão, daí ser considerado um profeta menor, mas muito importante na escala da Igreja Católica, sem dúvida.

INFÂNCIA



Avós
No caso dos avós paternos, esses que estavam em Itajubá, meu avô João e minha avó Maria. Quando eu era muito pequeno eles faleceram, eu devia ter, no caso de meu avô, pai do meu pai, talvez eu fosse completar dois anos, pouco convívio. Minha avó Maria eu tinha uns quatro ou cinco anos. Convivi muito mais com os meus avós maternos, especialmente o meu avô materno, que eu considerava uma figura muito significativa, por ser inclusive o neto mais velho, ele tinha uma especial atenção comigo, era uma pessoa extremamente atenciosa, muito boa, que faleceu com 87 anos. Viveu um pouquinho demais para a época, com os poucos recursos que havia em termos de medicina, de alimentação, de vitaminas. Hoje a facilidade que se tem para uma pessoa ser mais longeva é incomparável com aquele tempo antigo.

Avô materno
Esse meu avô era fazendeiro, tinha uma fazenda no sul de Minas, nessa região de Eloi Mendes, próximo a Varginha, depois ele veio para o Rio de Janeiro, morou aqui alguns anos, morou num bairro que não sei se ainda existe, chamava-se Água Santa, perto de Piedade, era uma chácara muito bonita onde eu ia às vezes, quando vinha ao Rio de Janeiro. Essa propriedade, além da beleza natural muito intensa, era uma área muito bonita, tinha uma fonte de água mineral. Eu me lembro que a gente tinha uma espécie de galpão onde era engarrafada a água mineral Santa Cruz, dizem que até hoje existe, eu nunca mais vi, tinha um rótulo muito bonito, esverdeado. Tinha um amigo que trabalhou comigo algum tempo atrás, na Petrobras, me dizia que às vezes via caminhões passando com garrafões e engradados da água mineral Santa Cruz, da área onde ele foi muito tempo proprietário. Dali ele saiu e foi para Petrópolis, por qualquer razão da época, eu pequeno, não sabia qual era o interesse comercial desse meu avô, mas em Petrópolis, continuando com o trabalho que ele fazia de certo modo, com bebida, era uma bebida mais pura, a água mineral. Ele passou a ser gerente geral da fábrica de cerveja Boemia, tradicional cervejaria da cidade de Petrópolis que hoje, se não me engano, pertence à Companhia Antárctica. Nessa época eu visitava com mais freqüência, havia por exemplo, a Estrada de Ferro Leopoldina, tinha uma famosa subida do Rio de Janeiro até Petrópolis, com cremalheira. Não é do tempo de vocês, mas era uma viagem extremamente pitoresca, e para a gente que era bem garoto era uma aventura. A gente saia sexta-feira à noite para passar o fim de semana com meu avô em Petrópolis, ele morava na Av. Keller, uma avenida muito boa, em frente à igreja. Umas facilidades que, nós menores, nunca mais nos esquecemos, porque tinha uma condição muito boa, importante, de você se sentir um garoto importante também, por ter toda aquela facilidade. Ele como pessoa, por ter bem mais idade do que eu, ele sempre muito generoso, muito carinhoso. Veja que eu estou a quase cinco minutos falando dele, porque a gente não se esqueceu dessa figura, que era uma figura mais do que patriarcal. José. Vovô Zeca eu o chamava, José Carvalho dos Reis, era o S. Zeca, S. Carvalho, essas pequenas coisas que eu me lembro, de passagem, muito importantes que vão deixando uma marca sobre tudo muito positiva na vida da gente.

O Pai: engenheiro nos anos 30
Agora, em se falando de parente de avô, avó, quem de fato marcou profundamente minha vida, sempre, foi meu pai. Eu sempre o encarei como um verdadeiro exemplo para todos nós, porque a vida da época era muito dura. Eu me lembro que ele me contava, depois de moço, que um dos primeiros salários que ele recebeu como engenheiro, ele tinha o título de engenheiro na década de 1930, ele trabalhava numa cidade chamada Piquete, no Vale do Paraíba, perto de Lorena, fábrica de pólvora do Exército, ou uma coisa semelhante, uma fábrica de explosivos e não tinha na nomenclatura da industria o cargo de engenheiro, imagine, na década de 1930. Ele recebia o seu salário pela rubrica de óleo combustível, óleo diesel. Então a empresa comprava uma quantidade de óleo diesel para suas necessidades, ou pelo combustível e separavam uma parte que era paga ao Engenheiro Rennó, nessa ocasião.

Formação acadêmica do pai em Itajubá
Itajubá, no sul de Minas. É uma escola quase centenária, sempre especializada na área de eletricidade e mecânica, é lógico que com o passar do tempo passou a ter outras cadeiras como eletrônica, engenharia civil, etc. Mas no inicio, no principio do século XX, em 1913, foi como escola especializada na parte eletro-mecânica, era uma escola onde se estudava dentro de um entendimento de que importante não era propriamente você ter um título de engenheiro, ou um título superior, apenas que fosse, mas que você aprendesse fazendo, desde o início. À semelhança do que se via em Minas, em outras cidades importantes, que era Ouro Preto. Ouro Preto formava desde o final de século XIX, até mais tempo que Itajubá, engenheiros metalúrgicos, metalurgistas e geólogos. Dentro desse mesmo entendimento: você vai estudar engenharia, você vai ter conhecimento tecnológico, conhecimento técnico e os professores de uma e de outra, eram quase todos vindos do exterior, para formar aquele núcleo de ensino, mas você vai aprender tudo isso fazendo.

Experiência do pai na Vale
Quando ele estava na Vale, nesse período naturalmente, eu não tinha compreensão maior para poder acompanha-lo ou ouvir as conversas que talvez ele pudesse até gostado de ter tido comigo. Eu era muito garoto, eu era muito pequeno. Mas passado um tempo, eu segui a carreira que ele havia abraçado, a de engenheiro, então nos diversos lugares que trabalhava, ele sempre, cerca de 20, 20 e poucos anos, ele ficou no interior de São Paulo desempenhando seu trabalho nessa região de Ourinhos, Piraju, Ipauçu.

Nessa oportunidade sim, nós começamos a conversar muito, até incluindo o passado de Vale. Ele me dizia que quando ingressou na Companhia, o grande projeto de desenvolvimento da Vale, na época, era para que ela chegasse a exportação de 1,5 milhão de toneladas por ano. Ela tinha um determinado volume já trabalhado no mundo, já exportado. Era o final da década de 1940. O projeto determinado pela diretoria, pela direção era esse. E efetivamente, depois que ele saiu em 1952, a Vale chegou pela primeira vez a exportar 1,5 milhão de toneladas/ano de minério de ferro. Não havia na época, nenhum sonho das pellets ou das pelotas. Em 1952 ela fez essa exportação nesse volume, em 1957 foram três milhões, depois foram seis milhões, e assim por diante. Hoje ela já está chegando, se não me engano, em 2001, talvez 80 milhões por ano. No meu tempo de Presidente nós chegamos a exportar 42 milhões, e cerca de nove milhões no mercado interno. Foi a Vale na época dos 50 milhões em produção do minério de ferro, já incluindo aí uma parte de pellets, de pelotas de minério.

Mudança para o Méier
O projeto que meu pai estava envolvido na ocasião, a gente morando aqui no Rio, a nossa família, na época era só minha irmã e eu, éramos um casal, morávamos no Méier, ao lado de um corpo de bombeiros. Interessante para a gente, que era garoto, toda hora estava confraternizando com "os homens do fogo", foi onde eu comecei a estudar na minha vida, no colégio Dois de Dezembro, com a professora Dirce no primeiro ano primário. Primeiro ano primário, segundo ano primário até o terceiro com a Dona Dirce, nesse colégio Dois de Dezembro, tenho muita recordação dele. Tenho amigos até, que mais tarde eu soube, na própria Petrobras, recentemente, que estiveram no colégio Dois de Dezembro, em outra época. Mas só o fato de lembrar o colégio, o professor ilustre que teve, durante muitos anos, chamado professor Marreca, era uma marca no bairro do Méier, o colégio, o nome do professor Marreca, eu não me lembro, mas diziam que era uma fera, mas uma fera domada, um homem de bem, um professor interessadíssimo no Magistério e rigoroso, isso que deu muita fama, segundo eu soube, ao colégio Dois de Dezembro.

Volta do pai para Minas Gerais
Depois dessa ocasião, meu pai foi como engenheiro para a Companhia Siderúrgica Nacional, nós moramos em Volta Redonda por um período. De Volta Redonda ele foi em direção ao interior de São Paulo, onde ficou até o final de sua atividade profissional. Lá se aposentou e voltou para as origens, como dizem que certos animais ilustres fazem. Dizem que o elefante, por exemplo, quando está chegando nos últimos dias, ele pressentido que daqui a pouco, talvez, venha morrer, ele vai procurar o lugar de onde ele saiu há muito tempo, antes de andar por todo o trajeto que ele fez. É claro que mal comparando mas, o mineiro tem muitas ligações com suas origens, é da nossa índole, porque Minas Gerais é um estado interior, não tem mar como o Rio de Janeiro, que é uma maravilha, todos nós somos apaixonados pelo Rio, estou aqui há pouco mais de 20 anos, não quero sair do Rio de Janeiro, meus filhos são cariocas, minha mulher é paulista, ninguém é perfeito, mas ela gosta demais do Rio de Janeiro. Mas meu pai voltou para Minas, mas ao invés de voltar à origem, para a terra de origem dele, foi para Poços de Caldas, que é sul de Minas também, mas que tem outro enfoque, é uma cidade mais de turismo, mais agradável para se viver, tem muitas escolas, é uma cidade bem desenvolvida. Ele decidiu se aposentar e ir para Poços de Caldas, ao invés de morar comigo em São Paulo, porque nós trabalhávamos na capital de São Paulo. Nós tínhamos em Poços um irmão de minha mãe, um juiz de Direito muito amigo do meu pai, aqueles cunhados que de vez em quando se dão, como sogra e genro às vezes acontece. Na nossa família aconteceu, tio Nilton, era muito amigo do meu pai, o papai foi levado por essa amizade, aposentado, em Poços de Caldas, e ele sempre gostou de terras. O pai dele foi de certo modo um pequeno fazendeiro. Então ele começou a ter, comprar uma terra e outra, fazer negócio, comprava um pequeno imóvel, negociava, também. Com isso enchia seu tempo e muito bem. Acabou falecendo em Poços há 20 anos e minha mãe também, pouco tempo depois, dois, três anos.

Meu pai foi parar ao sul, trabalhar na cidade do Getúlio Vargas e do João Goulart, São Borja. É uma cidade onde havia uma pequena industria, aliás era uma industria que preparava um produto, uma massa que depois vinha para o Rio de Janeiro, no interior do Estado, numa localidade chamada Santanésia, perto de Barra do Piraí, onde tem a fábrica de papel da Sousa Cruz, papel fino de cigarro. Em São Borja era preparada a massa, a celulose que daria origem à fabricação desse papel especial, aqui no interior do Estado. Ele trabalhou lá uma época, veio depois por algum tempo para Barra do Piraí, para Santanésia, chamava-se Santana na época, agora é Santanésia, às margens do rio Paraíba e vem em seguida para a Vale, aí sim, ele se estabeleceu mais tempo e fez esse trabalho, tomou parte nessa atividade, na época, desse projeto enorme de 1,5 milhão de toneladas/ano de capacidade de exportação.

EDUCAÇÃO



Internato em Botucatu
Quando nós fomos para o interior de São Paulo, ou melhor, quando ele foi para o interior de São Paulo e nós fomos com ele, chegando na localidade, não havia o chamado curso ginasial, a cidade só tinha o chamado grupo escolar, não tinha ginásio. Então eu tive por necessidade, que ficar interno, participar de um internato, em uma outra cidade bem distante; na época bem distante porque a ferrovia era muito lenta, a Estrada de Ferro de Sorocabana, e as rodovias eram todas estradas de terra ainda, não tinha asfalto. Então, era complicado, eram cinco horas de viagem de onde nós morávamos até Botucatu, onde eu estudei quase cinco anos no internato, tive lá o curso de admissão, que era indispensável, e os quatro anos do curso ginasial. Terminado o curso ginasial, ainda sem ter decidido na época o que eu queria ser na vida, era fácil na época: médico, advogado ou engenheiro. Basicamente essas três opções.

Decisão de prestar Engenharia em Itajubá
Nunca usou de influencia forte para isso. É claro, a gente sentia, que ele deveria ter muita alegria, mais satisfação se eu me inclinasse pela carreira de engenheiro, mas fui deixando o internato e morando numa cidade mais próxima de casa, chamada Avaré, também na região da Sorocabana, onde eu fiz o primeiro científico, morando numa pensão, também procurando me defender. Aprendi muito com isso. Diz o Arnold Toynbee, bem comparando ou mal comparando: "Você só avança contra a tempestade." Quando você tem alguma dificuldade, você acha maneiras, se você tiver força de vontade de vencer. A gente mocinho, garoto, 15 anos, e conseguimos sair. Aí sim, veio a decisão que tomei, porque quis, de estudar engenharia. Mas eu tinha certamente duas opções na época, ou a capital de São Paulo, onde nós temos uma relação pessoal com muitas pessoas boas, amigos de meu pai, eu tinha alguns conhecidos, moços, ou Minas Gerais que era a terra de meu pai onde tinha essa escola, bem tradicional. Eu achei que valeria a pena, ao invés de São Paulo, que era um centro muito maior, mais complicado, ir para Itajubá, que na pior das hipóteses, se fosse necessário, e graças a Deus não foi, mas, se fosse necessário, teria até o apoio dos parentes, pessoas de alta confiança no caso de uma necessidade maior. Não foi, mas gostei muito de ter tomado essa decisão e acho que meu pai ficou satisfeito também. Embora eu nunca me lembre de ter ouvido alguma cobrança de algum parente, por exemplo, em nome dele, ou por iniciativa do parente, o que seria natural. Eu moço, com todas aquelas tentações da vida, sozinho, poderia falar: "Mas o Joel está namorando...", nunca, felizmente. É uma coisa que quando vem a lembrança, é uma certa gratidão até com esse pessoal que me acompanhou na época. Nenhum deles ficava preocupado com esses detalhes que eu acho absolutamente medíocres, de querer dar palpite, ou conselho além do que deve, na sua vida. A gente sabia, eu, lógico, muito menos preparado do que hoje, mais inexperiente, absolutamente inexperiente, mas eu sentia uma boa vontade tão grande de atender a satisfação de meu pai, da minha família. Uma família tão pequena, eu já tinha mais duas irmãs, éramos quatro. Porque eu vou fazer uma coisa que, necessariamente, vai repercutir na satisfação dele? Nunca fui santo. Tem um nome de um livro, uma peça com esse nome "Eu nunca fui santo". Mas de qualquer maneira, nessa falta de santidade, eu procurava ser aquilo que queria ser, com alta responsabilidade. Isso eu sempre tive e aprendi a ter cedo, por essas circunstancias que eu acabei confessando para vocês, nem devia ter confessado, é a primeira vez que nos vimos. Mas é isso, aprendi muito cedo a ter essa responsabilidade, sei que foi bom tê-la tido.

FORMAÇÃO EM ENGENHARIA



Formação universitária em Itajubá
Eu me lembro que quando estudava em Itajubá, no meu período de universidade, os laboratórios de eletricidade, os laboratórios de mecânica, os equipamentos, eram equipamentos que eu, de fato, visitando outras escolas de engenharia em São Paulo, e no Rio de Janeiro, é claro que tinham as suas facilidades, mas não ficavam nada a dever para que esse entendimento de aprender fazendo, fosse verdadeiro. Lá você aprendia fazendo. Aqui era um pouco mais teórico, eu senti. Tinha amigos, colegas da mesma idade que estudavam aqui ou em São Paulo, já eram os dois maiores centros do Brasil, contando cada um deles, a sua vantagem. Eu contava minha vantagem dessa maneira. "Você sabe mexer num motor elétrico, por exemplo, no segundo ano de engenharia?" "Eu já fiz ligação tri-fásica, bi-fásica, eu sei o que é fio neutro." Eles ficavam um pouquinho embaraçados mas rebatiam falando de formulas espetaculares, da ciência, mas não sabiam, não tinham aprendido a colocar a mão num equipamento. E tanto isso foi útil e oportuno que ainda quando estudante de engenharia, quando fazia meus famosos estágios obrigatórios durante as férias, para poder cumprir o que eu tinha que apresentar à escola para receber meu título de engenheiro, visitava usinas hidrelétricas em construção, fazia parte de trabalhos em outros lugares, raramente eu deixava de encontrar nesses lugares onde havia o que fazer, estava se fazendo coisa, raramente eu deixava de encontrar algum ex-engenheiro formado em Itajubá.

Sempre em vários pontos, por exemplo, em Três Marias, uma das primeiras usinas importantes que foram feitas no país no tempo da CEMIG, muito jovem, no governo do Presidente Juscelino Kubitschek. Três Marias fica no rio São Francisco, estava em construção e ex-engenheiros formados há muito mais tempo em Itajubá. Depois, estágio em Belo Horizonte, na Cia Força e Luz de Minas Gerais, que era distribuidora de energia elétrica na capital mineira, à semelhança do que faz aqui a Light, a Eletropaulo e a Bandeirante em São Paulo, também, vários engenheiros. Houve uma época que eu fui para o Estado do Pará, havia um projeto da KM, tinha um americano muito famoso Daniel Ludvic. A primeira visita na minha vida, ao projeto Jarí, o principal executivo do projeto era um engenheiro formado nessa Escola de Engenharia de Itajubá, porque tinha muita coisa que fazer com eletricidade, era uma área isolada, eles haviam até importado em certa ocasião, uma verdadeira usina termo elétrica pronta, que veio de longe, passando pelos nossos mares, até chegar e ser ancorada no projeto para começar a dar seus resultados elétricos. O nosso engenheiro Seara, que era o engenheiro chefe de tudo isso, era ex-aluno da Escola. Essa iniciativa de professores da Europa, que foram para Minas, para Itajubá no começo do século XX, trouxe como resultado isso que estou acabando de dizer: "vocês vão ter as suas aulas aqui, vão sair daqui pretensos doutores, mas sobretudo vocês vão aprender colocando a mão na massa, fazendo".

Estudo e vida de república em Itajubá
Isso me faz lembrar muito, você trabalhando no interior, você vivendo numa cidade como Itajubá, hoje é uma cidade com pouco mais de 100 mil habitantes creio, Ouro Preto, um pouquinho maior até. Ouro Preto tem muita escarpa, é muito acidentada. Itajubá tem essa parte acidentada, mas é um pouco mais plana, ela se desenvolveu ao longo do chamado rio Sapucaí, de um lado e de outro, é uma cidade comprida. Por causa desse tipo de vida, muito intenso em termos de estudo, eram trabalhos muito puxados, você vivia para sua escola e para a república, que era chamado de "o lugar que você morava". Aprendia sobretudo, até uma certa humildade na vida, que eu achei muito importante. Achava e acho. Se você leu, por exemplo, Cosmos, de Carl Seagan, você vê, lendo esse livro agora, como a gente é pequenininho em relação às coisas do mundo, mas na verdade você vendo as experiências que Seagan fez, nada de nariz em pé, nada de arrogância, nada de achar que você sabe mais, compenetre-se, caia em si, seja tanto quanto possível aquele humilde honesto e sincero, não custa nada. E em uma cidade como Itajubá você aprendia desenvolver muito, se é que você tinha alguma aptidão para isso, você desenvolvia mais. Porque era estudar, era viver na República e lembrar-se muito de um comentário do Rui Barbosa, onde ele dizia que: "onde os meninos se camparem de doutores, os doutores não passarão de meninos". Você tem sempre que ter presente aquilo que você pode representar na vida, nada de achar que você tem o direito de pretender se arrogar para uma coisa que você, efetivamente, não é e, quando você for, guarde também aquela certa aura de modéstia, mesmo sendo um pouco falsa modéstia. Uma coisa que eu queria aproveitar do meu discurso, eu sei que vocês depois vão fazer uma edição toda caprichada e os meus enganos vão cortar, nesse tempo de Escola de Engenharia, era estudar e levar a vida de república e conviver naquela atmosfera muito boa da cidade, da escola. Eu nunca tive dificuldades, e me lembro dos meus amigos, nunca tinha dificuldades pessoal, gangues contra gangues, tóxicos, crimes, assaltos, roubos, absolutamente! Vivia-se uma vida normal, com dificuldades. O dinheiro sobretudo era muito curto, você conseguia se desenvolver. Exatamente porque eu sentia, embora eu tivesse sido um estudante profissional, eu nunca precisei trabalhar, necessariamente, trabalhar para viver. Meu pai sempre conseguia me subvencionar. Mesmo assim eu gostava de ter um pouco mais, então no tempo de estudante de engenharia, eu fui locutor de rádio, seis anos. Desde o curso científico, eu fui para lá no 2º ano científico, me formei no científico, fiz o vestibular, passei no primeiro, graças a Deus, com cerca de 21 para 22 anos eu era engenheiro.

Locutor de rádio em Itajubá
Trabalhei o tempo todo como locutor de rádio, na rádio local, a Rádio Itajubá ZY5. Era um jornalista. "ZY5, Rádio Itajubá para o Sul de Minas" e todo Vale do Paraíba. Itajubá fica a cerca de uns 800 metros de altitude na Serra da Mantiqueira, um acesso fácil indicado para a cidade: você vai pelo Vale do Paraíba, sai do Rio de Janeiro em direção a São Paulo, à direita na cidade de Lorena, você sobe a Serra da Mantiqueira e você está na cidade de Itajubá. De Lorena até lá eu creio que é cerca de 90-100 km. O que é íngreme é a Serra, muito íngreme. Nós fazíamos os nossos programas de música e de certas curiosidades, era sempre à noite.

Conjunto musical
Eu era boêmio, sempre gostei da noite. E aprendi mais nessa época de jornalista. Eu tinha um programa das dez à meia noite. O último programa da noite, encerrava o programa, chamava-se "Durante algum tempo", fazia um relativo sucesso, estava todo mundo deitado, fazer o que na cidade, então ouvia música. Telefonavam, faziam umas brincadeiras interessantes e te permitia ter algum prestígio com as moças. Naquele tempo você não tinha TV, a TV era precaríssima, o programa era chamado "Para ouvir e gostar". Você fazia uma seleção musical com um contra regra, começaram, naquela época, os long plays grandes, você tinha os de dez polegadas e depois os de 12. CD nunca, DVD muito menos. Você se defendia com o que tinha, ainda havia, também, as gravações em 78 rotações. Grandes sucessos da Ângela Maria, Cauby e outros artistas e importados, então tinha os de 78 rotações, os de 10 polegadas e os de 12 polegadas, a gente fazia uma mistura, ficava muito interessante. Na ocasião, por volta de uns dois ou três anos antes de me formar, nós constituímos com os colegas da escola, éramos oito, depois contratamos mais um de fora, que tocava saxofone, o Márcio, já falecido. Era muito ligado aos companheiros de escola, mas não era estudante de engenharia, mas os outros eram todos estudantes de engenharia: bateria, violão, não era guitarra, era um violão estilizado mas elétrico, violão elétrico chamava-se, contrabaixo, instrumentos de ritmo, piano, um pianista muito bom, o Galvão, nós criamos um conjunto de ritmos chamado "Os universitários". Então nós tocávamos em bailes na cidade e em algumas cidades do Vale do Paraíba, São José dos Campos, Taubaté. Eu era o apresentador e o Crunner do conjunto, ganhava mil cruzeiros, na época, por noite, cada fim de semana quando a gente saía, nós fazíamos tudo, montávamos o conjunto, toda essa parafernália, que aqui é até moderna e simples, mas lá não tinha nada disso, saíamos, botávamos roupa elegante, voltávamos, desempenhávamos nosso trabalho, depois que todo mundo ia embora, a gente ficava até cinco horas da manhã e desmontávamos, para viajar de ônibus de volta para a cidade porque no outro dia tinha aula. Era um tempo interessantíssimo onde eu fazia esse papel de apresentador do conjunto, tocava triângulo, maraca e cantava e ganhava mil cruzeiros por performance. Na época, a república custava, por mês, para dormir e alimentação pouco mais de dois e pouco. Você pagava aluguel, morava em cinco ou seis companheiros, pagava a secretária que cozinhava, a D. Francisca, tinha uma comida razoável, modesta mas decente. Dois e quinhentos, dois e setecentos, por mês, e eu ganhava mil por três performances seguidas e ainda sobrava dinheiro. Então essa época que eu achava extremamente construtiva, que te mostrava esse caminho que eu comentei há pouco: você tem que saber onde você está pisando, onde você pretende chegar, e leve sempre em conta a oportunidade, a necessidade de você guardar a sua humildade. Nunca se esqueça, mesmo você tendo posição, não vejo na vida, ela me levou a tantas posições importantes, pelas circunstâncias. Nessas posições, é claro, você vai ter uma compostura, você vai ter uma postura, uma maneira de desempenhar essa função, esse trabalho. Mas, mesmo aí, se você puder guardar essa distância que existe entre o arrogante e a pessoa integrada, eu acho muito mais oportuno, do que não. Eu te dei exemplo do nosso país, hoje em dia, não via antes, não via ontem, não via tempos passados, é da natureza humana. Cada um é um, é isso.

TRABALHO



Departamento de Água e Energia Elétrica do Estado de São Paulo
Eu vi um anuncio no jornal, para o Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo, precisando de engenheiros elétro-mecânicos para desenvolver um programa de eletrificação no interior, e meu pai morando no interior de São Paulo. Eu achei que valia a pena saber o que era aquilo, para ser sincero, eu não estava feliz com os alemães da EG Telefunken. Alemão é uma raça que eu aprecio muito, é um pessoal muito competente, é um país notável, mas às vezes o estilo não combina muito com o nosso, latinos. Então resolvi achar que aquele anúncio, podia ter alguma capacidade de premonição. Aí fui procurar os responsáveis pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo. Conversamos, me apresentei, peguei os documentos que precisava para fazer um teste. Era uma espécie de seleção, e nessa seleção, para resumir, fui aprovado e fui convidado para trabalhar no Departamento. Se pensava, na época, quando se via uma oferta de um emprego público, que era uma sinecura: "Ah, você vai ser funcionário público, que mamata. Trabalha meio período, toma cafezinho o dia inteiro, deixa o paletó na cadeira e...". Nada disso, era um emprego sério, o dia inteiro, pagava bem. Usava, de fato, o trabalho que você pudesse dar para o Departamento. Gostei muito, fiquei um tempo.

Estágio no Japão
Nessa ocasião é que eu ganhei uma bolsa, também vendo um comentário de jornal, o consulado japonês de São Paulo, estava oferecendo bolsa de estudos, para passar uma temporada no Japão para engenheiros com tais e tais qualificações. Eletricidade Mecânica. No nosso caso, ainda havia o CREA na ocasião, permitia, como eu tinha cadeiras ligadas à engenharia civil, no meu curso de eletricidade e mecânica, eu poderia ser responsável por certas construções até determinado número de andares. Eu tinha, basicamente, eletricidade, mecânica e uma parte de engenharia civil. Eu li o oferecimento do consulado japonês, mas eu não preenchia todos os requisitos, eles eram muito exigentes. Mas procurei o consulado em São Paulo, por iniciativa própria e me candidatei, conversei com o pessoal, inclusive o meu inglês na época era muito mais claudicante do que hoje, felizmente hoje nós podemos sobreviver muito bem e acabei, resumidamente, ganhando essa oportunidade de estar no Japão. Fiquei muito tempo no Japão, visitando basicamente industrias, fábrica de equipamentos, e construções eletro-mecânicas do país, por exemplo, hidrelétricas. Hidrelétrica não é o forte do Japão. O Japão, basicamente, em termos de eletricidade, tem fundamento na energia térmica e na energia nuclear: 40% da capacidade de energia do país hoje são de usinas nucleares, energia térmica, do petróleo, gás natural e hidrelétrica. Mas eu fui destinado a desenvolver a parte de planejamento de Usinas Hidrelétricas. Na verdade eles queriam apresentar a você, o que eles eram capazes de fazer, para quando você voltasse para cá, fizesse a propaganda, auto promoção deles, é claro, inteligente.

A bolsa de estudos no Japão e o retorno ao Brasil
Havia uma agência do governo japonês chamada OTCA - Overses Tecnical Cooperation Agency- , ligada ao Ministério da Industria e Comércio do Japão. Fui para lá, fiquei lá um bom tempo, quando voltei havia ocorrido em São Paulo a mudança do governo estadual, foi na época do Adhemar de Barros. Adhemar foi caçado pela Revolução, e Laudo Natel era o vice dele e passou a ser o governador. Trabalhei um pouquinho nesse período, até o final do ano. Num próximo governo veio uma pessoa, que acabou mais tarde se tornando uma pessoa muito amiga, chamado Roberto Abreu Sodré, no governo de São Paulo. Ele escolheu para Secretário de Obras dele um filho de japonês chamado Eduardo Iassuda, o irmão de Eduardo Iassuda chama-se Fábio Iassuda. O Fábio chegou a ser Ministro de Industria e Comércio do Presidente Médici, numa certa época, 1970, 1972, por aí. Eu estava no meu Departamento quando voltei do Japão, me apresentei, e o secretário novo que era o Eduardo Iassuda tinha pedido aos departamentos de sua secretaria, inclusive da elétrica, uma pessoa para ajudar no gabinete, para ser o técnico. Eu fui indicado, foi quando eu conheci o Eduardo. Resumindo, fiz um trabalho com ele, acho que ele ficou satisfeito. Em seguida, menos de um ano, eu me tornei, com 27, 28 anos, chefe de gabinete do secretário. Aí começou minha atividade meio política, porque eu tinha que lidar com Prefeitos, com Deputados Estaduais, com Governador, aprendi muito nesse tempo sobretudo fazendo relacionamento humano, que é fundamental para sua vida, é ter pessoas que confiem em você, e vice e versa, nas quais você confia. Fiquei esse período com o Secretário Eduardo Iassuda, quando terminou o governo do Sodré ele, por convite da Eletrobras, passou a ser Presidente da Companhia Paulista de Força e Luz, hoje privatizada, do grupo VBC - Votorantim/Bradesco/Camargo Correa - está no mesmo lugar, em todo o interior do estado de São Paulo, grande companhia. Fiquei com ele como Diretor de Planejamento Adjunto. Primeira vez na vida, tinha 30 anos, imagine que sorte, as luzes da bondade divina brilhando para mim.

Ida para Brasília
Nessa ocasião, terminando esse trabalho na Paulista, eu decidi ir para Brasília, a convite de um amigo, eu não conhecia o Ministro que era o Shigeaki Ueki, mas nós tínhamos um amigo comum, em São Paulo, que era jornalista da Folha e da revista Visão, que disse: "Você é o tipo do sujeito que tem um perfil (eu era solteiro ainda, não tinha tempo de casar), você vai para Brasília, ajuda o Ministro que ele está precisando de uma pessoa com sua disposição, com seu conhecimento, para viajar, para fazer trabalho". E eu me apresentei em Brasília. Eu achava que, tendo trabalhado no Estado de São Paulo, que já era o estado líder da federação, tendo passado por empresa particular, governo, companhia de eletricidade importante, tinha que conhecer um pouco o governo federal. Porque eu estava habituado com repercussão estadual.

Professor do Mackenzie
Há um capitulo que eu não comentei ainda, vou comentar agora. Depois de algum tempo de trabalho no Departamento de Águas e Energia Elétrica, eu tinha tempo de manhã bem cedo, de sete e meia, oito horas da manhã até umas dez horas, eu tinha tempo de lecionar. Eu sempre gostei muito de lecionar, para poder aprender, para ser obrigado a estudar. Ainda mais na época em que eu me encontrava, eu estava formado, não tinha dez anos, então não queria perder aquele viso, aquele entusiasmo: "Eu conheço de cor as fórmulas elétricas", com orgulho de moço legítimo. Eu fui dar aula na Universidade Mackenzie, no quinto ano da Escola de Engenharia, eu dava aula numa cadeira chamada Estações Elétricas Geradoras, era exatamente a minha especialidade enquanto universitário e enquanto engenheiro. Dei aula no Mackenzie, em 1967, 1969, por ai.

ENTRADA CVRD



Atuação em Brasília
Eu não tinha compromisso maior em São Paulo, minha vida estava toda feita, toda montada fisicamente e espiritualmente liberada. Fui para Brasília. E veja também como essa coisa das coincidências, acontecem. Se eu não tivesse ido para Brasília nós não estaríamos aqui juntos hoje, por exemplo. Eu fui de Brasília, no final de 1977, e o governo decidiu que eu deveria presidir a Vale, em seguida, na necessidade que o governo sentiu de eu substituir o Fernando, o Diretor. Eu só vim substituir o diretor, fiquei tomando conta dessa área, fiquei com todos os vice-presidentes, diretores, da época. Depois é claro, dentro do meu estilo, fiz uma ou outra mudança que achava necessário, mas três ou quatro meses depois, inicialmente fiquei só convocado para ficar no lugar do Fernando. Por isso que eu fui para Brasília. Outra coincidência importantíssima: estando lá, é claro que o pessoal de onde eu tinha trabalhado aqui em São Paulo, tinha alguma relação. Sabia que havia no Ministério de Minas, no Gabinete do Ministro uma assessoria chamada Assessoria Técnica Especial, tinha um engenheiro de cada companhia ligada ao Ministério: Eletrobras, Vale, Petrobras. O Fausto fazia muita ligação, na época, pela Vale, e tinha um eclético que o Ministro achava que eu podia ficar com ele, ele me nomeou para chefiar esse grupo. Foi pedido, ele achou que eu merecia. A minha tarefa fundamental era cuidar dos assuntos da Vale, assuntos minerais, mineral sólido, Vale, mineral líquido, Petrobras. Então, ficava mais ligado a essas duas companhias porque dizia o Ministro que, sendo eu de formação eletro- mecânica de Eletrobras, era uma covardia eu ficar cuidando só de assunto elétrico, eu tinha que estudar muito para ele, assuntos de outra atividade. Comecei a trabalhar em assuntos muito ligados à Vale do Rio Doce e à Petrobras, mas com meu jeito como sempre foi de me dedicar muito. Eu me dedico muito, modéstia à parte esses resuminhos que eu trouxe para vocês, eu podia chegar aqui de mão abanando, mas como eu soube que vocês tinham pedido algumas fotos pessoais, fotos ligadas à Vale e alguns dados, eu trouxe algumas coisinhas aqui, e em dois dias apenas lendo relatórios antigos, porque eu acho que é importante, no que eu possa dar de contribuição, saber o que estou fazendo.

A nomeação para a presidência da Vale
Quando o governo, enfim, tomou a decisão de me convidar para presidir a Vale, eu tinha até aquela altura, como chefe da assessoria do Ministro, oportunidade de ir em solenidades públicas, por exemplo, do desvio de um rio na construção de uma hidrelétrica nós fomos juntos, eu fui no avião com o Presidente Geisel, claro que no avião eu não tinha contato com o Presidente, eu era o 3º ou o 4º escalão, no mínimo, fiquei no meu lugar. Mas chegando no local, tinha um palanque, nós conversamos, ele era uma pessoa absolutamente decente, cordata, às vezes até jovial. Ao contrario da imagem que vendia, uma pessoa seríssima, austera, de todas essas pessoas eu tenho a melhor lembrança, pela dignidade do cargo, como eles exerciam o cargo e pelo tratamento que dispensavam às pessoas que eles sabiam que estavam ajudando o governo. Então quando eu fui ser levado ao Presidente, pelo Ministro, para agradecer e concordar finalmente com a nomeação, sentei na mesa com o Presidente, o Ministro do outro lado. O Ministro falou: "Sr. Presidente, eu estou trazendo aqui então o Sr. Rennó, o senhor concordou, ele vai ser o Presidente da Vale e eu quero dizer para o senhor que o Joel tem dois defeitos, se é que o senhor pode chamar isso de defeito". E o Presidente: "Pois não Ueki, o que é?" "O Joel é muito moço e solteiro." Eu entendi depois que era uma brincadeira construtiva. Ai o Presidente parou, ele estava com um papel na mão, era meu decreto de nomeação, ele assinou na minha presença, eu não sabia, eu tenho até hoje guardado comigo. Ele falou: "Olha Ueki, o fato do Joel ser muito moço pode não ser uma vantagem, é verdade, pode não ter toda a experiência que se esperaria, mas vai depender dele, se ele for um moço dedicado, trabalhador, quem faz política..." disso eu nunca vou me esquecer, uma definição simplória, modesta: "...Quem faz política, sobretudo, procura trabalhar bem, o resto é decorrência. Se ele souber trabalhar bem, vai ser um bom Presidente, um bom político. Agora o fato de você dizer que o defeito dele é ser solteiro, eu acho que não, ele é muito esperto". É uma coisa muito simples, mas simpática, gentil.

CASAMENTO



Encontro com a mulher
Em 1976, 1977, por ai, estando no Ministério, eu recebo numa certa tarde um telefonema da Secretaria de Obras - onde eu trabalhei em São Paulo, no Gabinete do Secretário da época - me dizendo que ia uma moça da Secretaria, uma advogada me procurar, porque ela tinha necessidade, para ajudar o Secretário de então, que eu pudesse dar algumas informações sobre a parte mineral. Esse Secretário tinha assuntos minerais em São Paulo, era calcário, areia. Ela queria ter informações de como funcionava o Departamento Nacional da Produção Mineral. Então disseram: "Você vai ao Ministério em Brasília, tem um engenheiro lá que trabalhou conosco anos atrás, talvez possa ser útil para abrir os caminhos para você". Ela me procurou, essa que é hoje mãe de meu casal de filhos, me procurou com essa finalidade. Magali se apresentou toda formal, como se tratava de uma moça muito bonita, eu fui gentilíssimo, tratei-a bem, nos demos muito bem, a Magali é muito séria, muito compenetrada. Ficamos bem. Depois da segunda ou terceira vez, não sei porque ela voltou tantas vezes ao Ministério, bastava uma. Eu falo isso para ela, ela fica brava. Na verdade fizemos uma relação pessoal muito construtiva, muito boa. Naquele tempo, eu passava, por definição, poucos fins de semana em Brasília. O próprio Ministro viajava às vezes com a família, ele era da capital de São Paulo, ele pedia para eu acompanha-lo, tinha lugar no avião, eu ia junto, conversávamos muito, discutíamos, eram três horas de viajem, era um avião muito lento. Eu me lembro que eu levava um catatau de trabalhos para fazermos juntos, para deixar em dia. Nessa oportunidade aproveitava para contatar minha mulher, e a coisa se desenvolveu. Quando eu fui para a Vale, ainda solteiro, os amigos brincavam muito, lá da Câmara, os deputados, o próprio Paulinho às vezes brincava que, na época, eu era um dos melhores partidos que tinha em Brasília, não era nem a Arena nem o MDB. Solteiro, bem colocado, faziam essa brincadeira. Mas esse fato que aconteceu ainda na minha gestão como Presidente, eu ter me casado no principio de dezembro de 1978.

Casamento e lua de mel
Nos casamos, uma curiosidade antes e logo depois do casamento foi a seguinte: eu tinha um programa de viajar para a China. Um dos aspectos positivos do nosso trabalho era abrir novos mercados para os minérios, para os produtos da Vale. E nesse esforço, a Republica Popular da China já estava despontando, na ocasião, como um mercado espetacular. Na China tudo é grande, hoje tem um bilhão e 200 milhões de pessoas vivendo lá, na época deviam ser 600, 700, não sei quanto. Iam construir uma grande siderúrgica, enquanto os padrões do mundo diziam dois ou três milhões, lá era para 15 milhões de toneladas/ano, de aço, uma coisa assim. Um mercado espetacular para você avançar, para você trabalhar, e tentar vender, ser pioneiro nessa atividade. Porque bem próximo da China, você tem a Austrália, muito mais próximo do que o Brasil, e a Austrália é um grande país mineral, também, no mundo, 15 a 17 % do produto bruto da Austrália ainda hoje é um produto advindo do minério, tem um significado importantíssimo. Então para gente desbancar a Austrália, de maneira construtiva para nós, tínhamos que avançar no mercado chinês. Quase no final de novembro eu tinha um programa de visita à China, com essa finalidade, e fui.

Nosso casamento foi marcado para o dia 12 de dezembro. Eu estava na China até o dia 7 de dezembro, então depois que passou, se dizia na própria família de minha mulher: "Ele não volta, não vai voltar para casar com você". Casamos em São Paulo, no Jardim Morumbi, descobriram uma capela extremamente aconchegante, interessante, uma capela de madeira que faz muito o nosso estilo de vida. Bom, não tem requinte exagerado, mas tem qualidade, até nesse aspecto. Uma capela muito bonita, São Pedro São Paulo, mas relativamente pequena. Tem uns jardins que a circundam onde, tradicionalmente nessas cerimônias, as pessoas que não cabiam na nave principal, ficavam no jardim olhando. Eram 11 horas da manhã, um dia muito bonito. As pessoas ficavam satisfeitas: "Não estou vendo trocar as alianças mas, de qualquer maneira, estou convivendo nesse jardim lindo e sabendo que o casal está fazendo isso porque quer, e está muito feliz". Assim foi. Logo depois do casamento todo mundo fala: "Ah, que beleza! Tem a Lua de Mel, faz parte do ritual". Então marcamos de passarmos uns dias em Santa Catarina, um lugar bonito, em Laguna. Até hoje tem um hotel espetacular, chama-se Laguna Tourist Hotel, era novíssimo, de uns amigos nossos. Sabendo que eu ia me casar, me convidaram para ficar lá. O lugar era espetacular. Eu não podia ir para um lugar mais longe, não podia ficar 15 dias, não podia tirar férias, seria o cúmulo. Passada essa fase, eu sabia que tudo é passageiro na vida, e nessa atividade também, um dia eu deixaria de ser Presidente, aí eu cumpriria o compromisso com a Magali, de ter umas pequenas férias, uma nova Lua de Mel, essa que nunca tivemos. Mas aconteceu nesse intervalo, que eu recebi um convite urgente da Escola de Engenharia de Itajubá, para ser paraninfo da turma de engenheiros, no dia 16 de dezembro. O que aconteceu? Nós fomos para Laguna, passamos 2 dias e meio. Voltamos direto, pegamos um avião e descemos no Rio, um carro já estava nos esperando no aeroporto, fomos para a serra, passamos a formatura, voltamos. Ela fala que até hoje eu estou devendo essa Lua de Mel, e é verdade, 23 anos depois, quase, nunca tivemos oportunidade. Claro, já fomos a vários lugares, graças a Deus, mas com aquele sentido, aquela marca, agora vai ser um tempo para nós, nunca. Mas foi bom porque acabamos nos entendendo bem por causa desses desencontros. O Vinicius tinha razão, os desencontros, as vezes, significam pontos definitivos.

Nós decidimos na ocasião, acho que acertadamente, que o Presidente da Vale se casar, mesmo você querendo guardar sua relativa intimidade ou modéstia, você teria, a bem da verdade, que convidar a República, o Presidente da República, o Vice, os Ministros, as autoridades, com os quais nos dávamos relativamente bem. Eu não direi que conhecia todos, a fundo, mas conhecia bem as principais autoridades da época, com os quais me relacionava muito positivamente. No entanto, decidimos, minha mulher e eu, que como o casamento é uma cerimônia muito intima, na verdade, depende muito do desejo e da vontade de cada um, vamos convidar para o nosso casamento, inclusive para nossa recepção de casamento, apenas um grupo de pessoas que você escolher, da sua relação pessoal, do seu parentesco e eu vou fazer o mesmo. E contei para duas ou três autoridades, inclusive falei com o Presidente Geisel, comuniquei que ia me casar, e que eu me desculpava, perante a ele e a D. Lucy que foram pessoas distintíssimas comigo, nosso relacionamento era profissional, ele era Presidente da República e eu Presidente da Vale. Comuniquei ao Ministro: "Olha, vou me casar, quero que você seja um dos meus padrinhos, agora vamos fazer uma cerimônia, uma solenidade muito restrita", e reunimos cerca de 100, 120 pessoas nesse acontecimento. O máximo que aconteceu em termos de solenidade mais importante, foi que o Ministro de Estado e a senhora dele foram nossos padrinhos no religioso.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO



Quando eleito Presidente da Vale, procurei dar o melhor de mim e dinamizar, a ênfase era que a Vale enquanto empresa comercial, empresa do mundo deveria sobretudo dar uma grande ênfase à comercialização dos seus produtos e a uma diversificação adequada a outros projetos que não fossem, exclusivamente, projetos ligados à minério de ferro, mas com produtos, por exemplo, a bauxita que tínhamos em quantidade no projeto de mineração Rio de Norte em Oriximiná, no Estado do Pará; titânio, manganês, celulose. A Vale tinha empresas florestais bem desenvolvidas como parte bem mais anterior, dos seus projetos de diversificação. Essas florestas, esse reflorestamento, teria condição, por exemplo, de ser matéria prima para uma industria de celulose: foi o que a Vale fez com os sócios japoneses, no projeto chamado Cenibra. Manganês, outras empresas, titânio e assim por diante, procurando dar utilidade, procurando dinamizar a capacidade que a Vale do Rio Doce já àquela altura tinha tido condições de arregimentar, graças ao trabalho dos seus técnicos, dos seus empregados e de seus dirigentes. Um aspecto importante dessa diversificação é o seguinte: nós fizemos, com muito empenho e intensidade, um projeto dessa natureza, o governo e a companhia procurava desenvolver, na sua maior parte com países e com empresas de países compradores do nosso minério de ferro. Daí o fato de nós termos tido, projetos importantes de diversificação, com sócios japoneses. Porque àquela altura, o Japão já era o maior mercado para o minério de ferro da Vale que era o chamado core business. Se a Vale já exportava bem para o Japão, já tinha um relacionamento importante com a Alemanha, com outros países, estava estabelecendo um relacionamento bom, também, com países novos como a República Popular da China, novos mercados. Porque não, tanto quanto for possível nos seus projetos de diversificação, atrair empresas desses países para que vissem como é que nós trabalhávamos melhor ainda e comprassem mais, o nosso minério de ferro? Essa era uma política que eu senti do Ministro Ueki, no Ministério de Minas e Energia, e foi um aprendizado quando eu assumi algum tempo depois a Presidência da Companhia Vale do Rio Doce. Intensificar e dar ênfase à parte comercial, na comercialização. Era essa a Vale criada em 1942, com essa finalidade, também, desenvolver-se, fazendo negócios com o mundo, de interesse do nosso país. Até aquela altura, o maior acionista da Vale do Rio Doce era o Governo Federal, passou a Vale em 1997, se não me engano, a ser uma Empresa Privada, foi privatizada.

TRABALHO



Relação com a Petrobrás
Existia um empenho muito grande com a Petrobras, por exemplo. Quando o Brasil ainda tinha uma produção de petróleo e o consumo aumentando, nos havíamos passado há pouco, pelo chamado "primeiro choque do petróleo", não era choque de petróleo porque não tinha petróleo, havia petróleo! Mas o grande problema para nós, a grande dificuldade, era quanto estava custando esse petróleo. Então não deveria, talvez, essa crise ter se chamado "crise do petróleo", mas crise financeira. Havia um empenho muito grande, através da Petrobras, de dinamizar as ações da empresa para que ela pudesse ter capacidade de investir mais, descobrir petróleo e desenvolve-lo. Daí o fato de que em 1975, pouco antes de eu ir trabalhar em Brasília, o Presidente da República ter decidido, pela primeira vez, a realização dos chamados "contratos de serviços, com clausula de risco", para as Empresas que aqui quisessem vir, junto com a Petrobras ou separadamente, mas sob coordenação do governo brasileiro e da Petrobrás, trabalharem pesquisando, procurando ajudar a empresa no seu esforço exploratório e de desenvolvimento das descobertas que fossem feitas. Essas empresas viriam, como vieram para cá, fizeram bom investimento, a custo zero para o Brasil. Lamentavelmente, tiveram pouco tempo de trabalho. Logo a Constituição de 88 veio a proibir a realização desses contratos de risco. Foi um período muito pequeno para que uma empresa pudesse ter tido todo esse trabalho de pesquisa, para chegar ao sucesso que, felizmente, nós esperamos, mais modernamente, venha a ser alcançado. Havia uma política elétrica, o investimento no setor elétrico brasileiro, coordenado pela Eletrobrás, significava um investimento anual de cerca de cinco bilhões de dólares, para um país como o Brasil que tem tantos recursos, tem um povo extremamente competente, trabalhador, ordeiro e paciente, mas não tem recursos financeiros. Esse era um esforço enorme que o governo fazia dentro do espírito do trabalho, de dotar sempre o nosso país de mais energia do que a demanda estava requisitando. Eu me lembro da diferença que havia entre aquilo que se necessitava, como potência instalada, do consumo que ocorria. Nós sempre estávamos na frente em termos de potencia instalada. Hoje, por outras razões, houve uma dificuldade, nós estamos passando por um racionamento eu diria, tecnológico, de consumo de energia. Traz seus benefícios, também, porque ensina muita gente, inclusive nós, a sermos um pouco mais econômicos, a sermos um pouco mais cuidadosos com o consumo de eletricidade. Mas, talvez, pudéssemos já ter essa preocupação da nossa capacidade instalada e estar, sempre, na frente da demanda efetiva. É um programa difícil de ser realizado, especialmente por causa dos recursos financeiros, os quais a gente tinha que buscar com muito cuidado. Mas foi um trabalho, eu acredito, muito grande e sobretudo muito patriótico, muito sério, com seus defeitos naturais, mas um trabalho feito com muito empenho, com muita garra. E teve êxito, não tenho dúvida nenhuma. Quando meu pai foi engenheiro da Companhia, no final da década de 1940, década de 1950, ele estava envolvido, como profissional, num trabalho na Companhia, que ia cuidar do seu primeiro projeto da expansão, para que ela produzisse 1,5 milhões de toneladas/ano de minério de ferro. Ela veio produzir, de fato essa quantidade em 1952, com um atraso de dois ou três anos. Depois passou a três, a seis milhões. No meu tempo de Presidente, 1978, 1979, nós chegamos a produzir mais de 50 milhões de toneladas anuais de minério de ferro. Foi nessa ocasião também, em 1978, que o Brasil pela primeira vez, atingiu a marca de vender um bilhão de dólares em minério de ferro e pelotas, para consumidores mundiais e a contribuição da Vale foi de 70%, mais outras empresas que aqui havia, porque vocês são testemunhas também, desde que a Vale foi constituída em 1942, ela nunca teve um ambiente exclusivo de trabalho. Ela foi criada, a Itabira Iron foi estatizada, criou-se a Vale, mas ela entrou no mercado, desde o inicio, altamente competitivo e concorrencial, ao contrário do que aconteceu quando foi constituída, dez anos depois, a Petrobras, em 1953, criada exclusivamente pelo governo. Nesse início todo, como única empresa autorizada a desenvolver trabalhos importantes relativos ao setor de petróleo, menos na distribuição, que sempre foi concorrencial. A BR distribuiu, sempre concorreu, competiu mas, nas outras atividades, na verticalização da cadeia do setor de petróleo, ela era exclusiva. Ela tinha, no inicio, durante algumas décadas, esse privilégio, que em 1997, por decisão do governo, seu maior acionista, foi modificado diante das circunstancias do mundo, onde várias e várias empresas estavam passando por modificações importantes, a Petrobras também que era exclusiva, veio a passar por essas modificações. Comparando, de uma maneira muito sintética, a atividade de uma e a atividade de outra, Vale e Petrobras, a diferença fundamental, creio que é essa. E tendo presidido as duas companhias, você pode imaginar como eu me senti numa e na outra. Eu diria até vantagem e oportunidade de presidir nessas duas empresas, uma delas competindo intensamente desde o inicio, na outra com exclusividade mas, em seguida, tendo colaborado muito.

Flexibilização do monopólio do petróleo
Eu digo com toda franqueza, e era o desejo do maior acionista e eu contribui muito com isso, pessoalmente, e por dever de ofício, para que houvesse essa abertura no setor de petróleo brasileiro a partir de agosto de 1997, com a sanção do Presidente Fernando Henrique Cardoso do decreto 9478 que permitiu a flexibilização do monopólio do setor de petróleo do Brasil. Creio que com muitas vantagens. E por ser a Petrobrás uma empresa tão madura, tecnologicamente avançada, com um corpo técnico de empregados tão competentes, ela não tem nada que temer que outras empresas venham para cá e queiram concorrer com ela. Por sinal, enquanto Presidente dessa última companhia, eu me lembro quando outras empresas me procuravam, empresas de fora queriam, sim, ser parceiras da Petrobras. Queriam fazer associações, por quê? "Estou chegando num país chamado Brasil pela primeira vez, por que eu vou deixar de lado um conhecimento, a capacidade tecnológica, a competência do seu corpo de empregados e trabalhar sozinho? Eu quero buscar, sim, a ajuda dessa empresa que conhece tão bem esse país e que está aqui há tantas décadas exclusivamente, para fazer juntos o trabalho. Daqui a pouco elas se separarão, é claro". Mas nesse início eu sempre achei, e os Ministros de Estado com os quais trabalhei, e o próprio Presidente da República, Presidente Itamar, Presidente Fernando Henrique, entenderam perfeitamente: a Petrobrás não tem o que temer com essa abertura, veja o exemplo da Vale, já nasceu absolutamente aberta para o país e para o mundo.

COTIDIANO DE TRABALHO



Nós já comentamos aqui que o homem é resultado do seu estilo e das circunstâncias. Foi uma circunstância, particularmente da minha vida na época, eu ter tido esse privilégio, essa oportunidade e ter contado com a confiança dos principais acionistas da Companhia, pessoas significativas do governo, no caso o Presidente da República, que nomeava e destituía. Na Petrobras era igual, o Presidente e seus Diretores. Contar com a confiança do Presidente e do Ministro do Estado, que havia indicado meu nome para o Presidente, naquela circunstância que o governo havia decidido fazer mudanças na presidência da Companhia. Uma oportunidade única, invulgar e um desafio sobretudo muito grande, a gente naturalmente era menos experiente, menos vivido numa circunstância tão difícil, devia enfrentar essa posição de tamanha responsabilidade numa companhia como a Vale, já naquela altura, era a maior empresa produtora e exportadora de minério de ferro do mundo (essa condição ela conquistou em 1975). Ao assumir a presidência dessa empresa eu sentia que tinha, também, a responsabilidade, depois de ter estudado bastante a Companhia e tê-la ajudado um pouco, quem sabe na minha função anterior no Ministério de Minas e Energia, eu sentia que tinha que manter no mínimo essa condição conquistada pela empresa, com muito trabalho, durante os seus primeiros 30 anos de atividade. Desafio enorme, um privilegio muito grande. Quando eu mudei de Brasília para o Rio de Janeiro, tendo vivido muitos anos na capital do Estado de São Paulo, isso fazia com que eu chegasse toda manhã nos escritórios da Vale, como fiz anos mais tarde na Petrobras, pouco depois das sete horas. É do meu temperamento, do meu estilo, talvez por causa da minha origem mineira, acordar cedo. E sair muito tarde da Companhia. Eu me lembro que me sentia com tanta dificuldade, no final da tarde, em movimentar o meu pescoço. Uma tensão tão grande, hoje se chama stress, uma palavra que todo mundo usa para qualquer dificuldade. A gente aprendeu a ter esse stress e a enfrentar, porque não havia outra condição. Eu nunca coloquei entre as minhas possibilidades de vida, a de não dar certo por falta do meu esforço. Eu sentia essa condição, fiz o maior esforço que pude. É claro, talvez não tenha me desempenhado tanto quanto a Vale merecesse, mas o melhor que eu tinha para dar, a minha melhor condição foi dada, aprendi muito, fiz um relacionamento pessoal além do que eu já mantinha, tendo estado no Ministério e em Brasília, com outras empresas, de outros países, com dirigentes, isso me valeu até hoje, na minha vida, apesar do tempo transcorrido, ainda encontro pessoas que se lembram daquele tempo: "Me lembro daquele tempo em que você era muito moço, você não mudou muito está apenas com cabelo branco". Isso me dá muita satisfação, sinal de que eu não fiz tão feio assim, enquanto presidi, talvez, a segunda maior empresa do nosso país, duas grandes empresas do nosso país: Vale e Petrobras.

EXPECTATIVAS



A escolha para a presidência da Vale
Eu me lembro que, trabalhando no Gabinete do Ministro, algumas semanas antes, lendo reportagens até, o governo estava praticamente decidindo, e depois decidiu fazer essa substituição importante na presidência da CVRD, em seguida eu ouvi um ou outro comentário no Gabinete do Ministro, com muita discrição: "Que tal o Rennó nos ajudar nessa tarefa?" Achei que não fosse o caso, registrei o comentário que eu ouvi, duas ou três vezes, até um pouquinho mais de uma ou outra pessoa de mais intimidade: "Rennó, eu soube que você está sendo cogitado para, no caso verdadeiro e efetivo de ser substituído o Presidente da Vale, você chegar até lá." "Não sei, não ouvi nada a respeito, continuo trabalhando na minha tarefa." Não dei muita atenção. Mas, com toda a sinceridade, comecei a ficar extremamente preocupado diante da eventual perspectiva de ter que ocupar esse cargo de Presidente da CVRD. Preocupado e, talvez, essa preocupação fosse uma maneira de eu retribuir e me fazer entender de que, talvez, não fosse chegado o momento ainda. Mas fui escolhido, assumi com muita satisfação e empenho e com essa responsabilidade ao qual me referi a pouco. Estava nessa posição no gabinete do Ministério, quando o próprio Ministro me chamou, deu-me a notícia que estava contando comigo para essa missão e que, na tarde desse dia, queria que eu o acompanhasse a uma audiência com o Presidente da República, com o Presidente Ernesto Geisel para a formalização.

O encontro com o Presidente Geisel
Muito cordial, muito positivo, o Presidente já estava com o decreto na sua frente para formalizar, para me dar, me fazer essa gentileza. O Primeiro Ministro Ueki, dentro do seu estilo, comentou com o Presidente, que ali estava quem o Presidente Geisel havia concordado em nomear Presidente da Vale do Rio Doce, fez uns comentários a mais dos trabalhos que eu vinha fazendo no Ministério, o Presidente já me conhecia, já sabia daquilo tudo. O Presidente Geisel era muito objetivo também e extremamente cordial. O Ministro disse, acho que eu já falei para vocês, senão eu posso repetir, só podia, talvez, fazer duas restrições a minha pessoa: primeiro, que me achava muito moço para essa nova missão, dura e complexa. E, segundo, que eu tinha outro defeito grave: eu era solteiro. E o Presidente: "Bom, Ueki, com relação ao fato de ser moço, vai depender inteiramente dele trabalhar e fazer uma boa política onde ele for. Se ele souber fazer uma boa política, trabalhando bem, o resto é decorrência. Agora, quanto ao fato de ser solteiro, acho o contrário, acho que o Rennó é muito experto, chegar onde chegou e agora..." Ele não achava que era defeito e confiava. Não foi por essa razão, como eu já tinha compromisso com uma moça - em dezembro de 1978 eu me casei - que esse defeito deixou de ocorrer. Continuei moço, mas já casado.

EVENTOS HISTÓRICOS



Só fazendo um pequeno prólogo, durante a década de 1970, o mundo passou por uma série de transformações importantes na ordem econômica, lembram-se da chamada "primeira crise do petróleo", em 1973, 1974 e da crise seguinte 1979, 1980, que na verdade foi até 1982. Chamava-se de crise de petróleo mas, na verdade, era uma crise financeira. Havia petróleo em abundância no mundo, quem tivesse recurso financeiro no mundo poderia comprá-lo em quantidades negociadas e adequadas ao seu consumo. O que houve é que o preço do petróleo, nessas duas oportunidades, entre 1972 e 1973, entre 1979 e 1980, aumentou significativamente num período relativamente curto. O mundo passou, por essa razão, por dificuldades muito grandes, com preços tão altos de um produto da maior importância na área energética para qualquer país. Houve uma desaceleração em vários segmentos da economia, inclusive no setor siderúrgico. Experimentaram-se em seguida dificuldades muito grandes para a produção de aço, para aumentar e até para manter os volumes já produzidos pelos grandes países, para as necessidades da construção civil e outras.

DIVERSIFICAÇÃO



A gente nunca pode perder de vista, dado já naquela ocasião, o grande desenvolvimento da CVRD. Já em 1975 havia se tornado a maior produtora e exportadora mundial de minério de ferro. E daí se manteve, até hoje, essa liderança incontestável. Já era uma Companhia bastante experimentada em termos de negócios internacionais, em termos de exportação, era uma verdadeira alavanca para o desenvolvimento brasileiro. Havia decidido, e levou adiante, uma serie de projetos de diversificação da sua atividade básica, que era minério de ferro, pelotas, etc. Ela decidiu tomar iniciativas na área de bauxita, alumina, alumínio, celulose, manganês, titânio, e assim por diante. Procurava fazer, procurava celebrar essas parcerias com empresas, sempre a empresa CVRD associada a outras companhias mundiais, nunca tomando essa iniciativa sozinha, apenas pelo fato de pretender se tornar a maior, também, em outros segmentos de atividade econômica industrial. Ela fazia parceria com outras empresas de outros países e procurava-se associar com empresas de outros países, países esses que já eram os nossos compradores de minério de ferro. No sentido de mostrar a esses países, a esses consumidores desses países, que ela tinha capacidade de desenvolver outros projetos e que queria contar com o apoio das suas respectivas empresas, mostrando assim que ela poderia até, com esse bom funcionamento dessa diversificação, ser capaz de oferecer a confiança que se estabelecia, ser capaz de oferecer mais minérios para esses países que já eram seus clientes tradicionais. E assim ela fez, e para garantir uma quantidade de minério de ferro de qualidade e os pellets que vieram em seguida, chamados pelotas, sempre a Companhia estava um pouco à frente das necessidades que previa a demanda mundial, em relação ao que ela podia oferecer, mesmo levando em conta essas dificuldades que aconteceram nesse período, no mundo, em função principalmente do preço do petróleo e dos juros que subiram incrivelmente nesses dois períodos, particularmente nos EUA, agências multinacionais de financiamento, e assim por diante.

VIABILIZAÇÃO DE CARAJÁS



A Companhia pensava sempre em desenvolver outros projetos de mineração. Porque em Itabira, onde se concentrava a sua principal atividade, na mina de Cauê, em seguida Conceição, Dois Córregos, via-se que à medida que o minério de ferro era produzido, era vendido no mercado interno ou exportado. É claro, não dá duas safras, nem o minério de ferro, nem o petróleo. Não são bens renováveis. Você tem que dispor sempre de novos projetos para sustentar os contratos que já tinham sido celebrados, os próprios contratos que negociava. O desenvolvimento de uma mina, mesmo considerando uma ferrovia já pronta (como era uma ferrovia muito bem equipada, bem administrada e duplicada na época, em 1978, a Estrada de Ferro Vitória Minas) e o porto de Tubarão, já oferecendo todas as condições para a exportação, você precisava considerar outro segmento importante desse trio mina-ferrovia-porto. No Estado de Minas, ou em outra área da nossa Federação, onde havia pesquisas importantes e descobertas relativamente recentes de minério de ferro de qualidade, que podiam muito bem servir a nossa finalidade. Por essa razão é que em determinado período da década de 1970, começou-se a se pensar seriamente em deslocar um pouco esse pólo de desenvolvimento mineral, minério de ferro, do Estado de Minas Gerais para outra unidade da Federação, no caso, o Estado do Pará, em vista de descobertas da maior importância que foram realizadas por uma Empresa que se chamava Companhia Meridional de Mineração que, na verdade, era a United States Steel, uma grande produtora de aço dos EUA, a maior delas. A United States Steel tinha concessão para lavra do governo federal, dentro das regras estabelecidas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral, DNPM, tinha toda a condição para fazer o trabalho que estava fazendo. As descobertas que estavam fazendo, na Serra do Carajás, próximo à cidade de Marabá, no Estado do Pará, foram tão significativas e tão importantes que, naturalmente, o governo entendeu que só a United States Steel desenvolver todo aquele potencial, aquele volume de minério de ferro, não poderia parecer uma coisa que seria muito oportuna e correta. Por que não juntar ao interesse que a United States Steel tinha na área através da Companhia Meridional Mineração, com a CVRD que já era naquela época uma Companhia extremamente desenvolvida, uma empresa mundial, já desempenhava o papel de uma multinacional brasileira em outras paragens? Esses entendimentos demoraram algum tempo, mas foi celebrado alguns anos depois do inicio da década de 1970, um acordo interessante, um acordo de acionistas entre a Companhia Meridional de Mineração e a CVRD, constituindo o que veio a se chamar AMZA, Amazônia Mineração, com a participação dessas duas companhias. Estabeleceu a AMZA, desde o seu início, uma série de responsabilidades para uma e outra companhia que eram suas sócias. O trabalho correu, a coisa andou, de certo modo, com as dificuldades naturais de qualquer negócio, entre duas empresas de dois países, países soberanos como o Brasil e os EUA, dificuldades técnicas naturais, diferenças técnicas, alguns pequenos conflitos. Nunca houve, de fato, um entendimento muito pleno no âmbito da AMZA com relação ao desenvolvimento do projeto Carajás levando em conta, como disse, essas descobertas tão significativas e tão importantes que anunciavam a existência, na Serra do Carajás, de um volume de minério de ferro superior a 17 bilhões de toneladas de minério com um conteúdo hematitico superior a 65%. Era um minério de altíssima qualidade. Além disso, nos anos seguintes, foram descobertos em Carajás, outros minerais como o cobre. Anos depois, ainda na minha presidência, chegou-se a conclusão de que Carajás detinha, também, a maior reserva brasileira de cobre, de manganês, um ou outro mineral de menos significância em volume, descobertos naquela área. De modo que Carajás era, na verdade, uma grande e importante província mineral do nosso país. Ainda como decorrência dessas dificuldades de ordem econômica que eu comentei, se se decidisse desenvolver, um pouco mais ainda, a capacidade brasileira representada pela Vale para produzir, vender mais minério de ferro, em relação a outros projetos que existiriam em outros países do mundo, havia que tomar uma decisão. Não muito demorada, porque se não se decidisse aumentar a capacidade da Vale nesse sentido, naturalmente outros países, importantes mineradores como a Austrália, que tem companhias da melhor qualidade cuidando desse assunto, poderiam, sentindo a timidez de países importantes em minerais como era o Brasil, partir na frente com um projeto e inibir, com isso, o desenvolvimento do que nós poderíamos estar pensando em fazer no nosso país. Esse foi um aspecto muito importante que o governo brasileiro considerou para decidir dinamizar efetivamente o projeto de aproveitamento do minério de ferro de Carajás. Mas, ao mesmo tempo, como Minas Gerais já estava muito desenvolvida mineralmente e é um Estado importante nesse aspecto no nosso país, havia naturalmente opiniões divergentes sobre se deveríamos desenvolver outras atividades em outras minas no Estado de Minas ou partir-se para outra unidade da Federação, desenvolvendo a Serra do Carajás para aproveitamento do minério de ferro, lá contido. Depois de uma série de discussões, de pontos de vistas avaliados, o governo com muito empenho, decidiu efetivamente desenvolver o projeto de Carajás, não em detrimento de algum outro projeto que pudesse ser desenvolvido em Minas mas para dar uma impressão importante e verdadeira para o nosso país e para o exterior, de que o Brasil era um país mineral e não tinha apenas uma província muito importante e grande somente no Estado de Minas com essa finalidade. Com esse sentido o projeto Carajás começou a ser dinamizado a partir de 1977, 1978, com um entendimento feito em 1977, entendimento formal entre a CVRD e a United States Steel para que, na AMZA, a Vale passasse a deter 100% do seu valor acionário. Assim foi feito, foi combinado um pagamento justo para o caso, foi um pagamento bastante satisfatório para o nosso país. A Vale passou a deter 100% das ações votantes da subsidiária da Companhia Amazônia Mineração, em seguida decidiu (por decisão do governo presidido pelo Presidente Geisel, fortemente empenhado em compreender, entender e dinamizar a ação da CVRD), autorizar a iniciar efetivamente o Projeto Carajás, desenvolvendo a atividade da mina, construindo uma importante ferrovia da serra até a Ponta da Madeira, no estado do Maranhão, próximo à capital, São Luis, com cerca de 880 a 890 km de extensão (pode-se comparar essa extensão com a extensão da Estrada de Ferro Vitória a Minas, que tem 550 km.) Mais importante ainda essa Estrada de Ferro de Carajás e o Porto da Ponta do Madeira. Tudo isso foi autorizado nessa ocasião, e em 1978 iniciou-se a construção de um primeiro trecho importante de cerca de 90 km da infra estrutura da Estrada de Ferro, que foi inaugurada formalmente em 1985. Na Vale (na época presidida por Eliezer Batista e no governo de José Sarney) houve uma continuidade muito importante de todo aquele trabalho iniciado na década de 1970, dinamizado no final da década de 1970, onde nós tínhamos o privilégio de presidir a CVRD. Houve uma continuidade, como exemplo inclusive para o nosso país, de projeto importante, de projeto não fica no vai e volta ou segue devagar. Cumpriu um programa estabelecido pelo governo, com a maior seriedade, dentro dos melhores parâmetros possíveis de orçamento e de custos. Carajás é hoje um verdadeiro êxito em termos de província mineral. Como disse, além do minério de ferro, você tem uma das maiores reservas de cobre do Brasil que estão sendo desenvolvidas ultimamente, pelo que tenho lido, pelas administrações sucessivas da CVRD.

RELAÇÃO COM OS JAPONESES



E o Japão, em todo esse episódio, sempre representou, a partir da década de 1960, um parceiro, um comprador, um importador muito importante para a CVRD, para o seu minério de ferro e, em seguida, para suas pelotas também. Na medida que íamos selando contratos com os consumidores japoneses, com as grandes empresas siderúrgicas japonesas, nós numerávamos esses contratos: primeiro, segundo, terceiro, quarto e, na época que eu estava na Vale, nós concluímos e dinamizamos o chamado "sexto contrato de fornecimento de minério de ferro às siderúrgicas japonesas". Com a finalização desses contratos, os compromissos passaram para a Vale do Rio Doce (o Brasil tinha outras empresas mineradoras que ajudavam muito no mercado interno e na exportação). Com a conclusão e a dinamização desse sexto contrato com as siderúrgicas japonesas, a Vale passou a ter um compromisso por 15 anos, a partir de 1979, de fornecer um bilhão de toneladas de minério de ferro por seus consumidores, no mundo. Acho que é um marco da maior importância, no qual estivemos presentes e carimbamos o compromisso assumido pela Companhia e que, certamente, já foi cumprido a partir de 1979, já foi encerrado, outros contratos certamente devem tê-lo seguido.

OPNIÃO



Mas o importante é registrar mais uma vez que a Vale começou com sua história em 1942 como uma empresa já no mercado competindo, e uma empresa com vistas à exportação, à comercialização, uma empresa que brigava com outras companhias, no bom sentido, para ser cada vez mais pujante. E isso foi conseguido em 1975, que passou a ser a maior companhia produtora e exportadora de minério de ferro do mundo, prosseguiu na sua trajetória, constituiu-se na verdade, nessa mesma ocasião, na primeira chamada "multinacional brasileira", uma companhia feita com muito esforço, com muito sacrifício, natural daqueles que lá estavam, técnicos, dirigentes, empregados. Eu creio que a Vale pode ser dada ao nosso país, em qualquer tempo, como um grande exemplo de iniciativa do Estado que deu certo. Hoje a Vale privatizada também por decisão de seu maior acionista na época, por volta de 1997, continua cumprindo, creio eu, o seu papel importante no setor da economia brasileira, no setor de exportação, mas seu início, como sendo uma companhia de Estado, desmente muitas vezes aquela impressão que se tinha no país, que tudo que é relativo ao Estado não é muito bom. A Vale desmente completamente esse aspecto, uma empresa primorosa, eu posso dizer com muito orgulho, ao lado da Petrobrás, também, que anos mais tarde eu vim a presidir, outra estatal de muito êxito em nosso país, com todas as suas dificuldades, os seus defeitos. Mas o importante é você corrigir, na trajetória das companhias, as coisas que você julga que podem ser melhoradas e melhorá-las e não criticá-las a priori, isso não é justo. Essas duas empresas tem ajudado, creio eu, muito a dinamizar a economia nacional, inclusive a projetar, externamente, o nome, até tecnológico do pessoal que lá trabalha. A Vale, mineral sólido. A Petrobrás, mineral líquido, e assim por diante, todas elas tem tecnologias, em várias etapas do seu processo, tecnologias vitoriosas, muitas delas desenvolvidas inicialmente com apoio externo e depois 100% brasileiro.

CULTURA CVRD



Havia uma convicção muito justa e legítima do pessoal que lá trabalhava, da importância da Companhia. Não se tratava do chamado, pejorativamente, corporativismo; absolutamente. Os técnicos, seus dirigentes, seus empregados, a medida que conheciam mais o que era a empresa, como havia sido formada, quanto custou chegar a esse ponto, tinham que dar valor a tudo aquilo que estava na empresa, porque tudo era feito, na maior parte, por brasileiros. Era uma empresa brasileira, feita por brasileiros para o mundo, se se pudesse estabelecer um slogan, uma marca para a Companhia. O pessoal técnico da casa, seus empregados tinham uma satisfação muito grande de trabalhar na empresa. Eu viajava muito, toda semana eu destacava pelo menos dois dias, quinta e sexta, um dia anterior eu fazia visitas à parte técnica da empresa, suas atividades industriais. Eu não me lembro nunca, de ter encontrado qualquer empregado, por mais modesto que seja ou mais graduado, um superintendente de mina em Itabira, por exemplo, que era o centro de nosso trabalho na época, nunca vi um empregado querendo esconder o seu crachá de identificação como funcionário da Vale, com seu nome de guerra. Ao contrário, ele sempre se apresentava, ou procurava para cumprimentar, exibindo com todo entusiasmo em seu peito, o crachá da CVRD com seu nome. É uma coisa que parece simples, mas mostra a satisfação com que o empregado trabalhava. E é claro que ele procurava defender a Companhia em alguns foros, que criticavam a empresa estatal, ele procurava defender e mostrar as qualidades sem desconhecer os defeitos que tinha. Nunca ela seria perfeita, mas aqueles defeitos que eram apontados, e muitas vezes eram apontados por desconhecimento, por desinformação ou por um pouco de pré-conceito contra a Companhia de Estado, ele procurava mostrar, com muita satisfação, e isso era confundido com corporativismo: "o empregado da Companhia acha que ela é perfeita". Não achava, não. Ele a defendia porque tinha elementos para fazer essa defesa nas coisas que eram ditas equivocadas. Era uma Companhia de valor, continua sendo, e foi constituída com muito empenho e praticamente de um projeto pequeno, que era em 41, 42, o trabalho da Itabira Iron, que antecedeu a Vale. O espírito da casa era um espírito muito construtivo, muito interessado e sobretudo um espírito muito preocupado com as coisas do país. A gente sabe que na própria Vale havia um contato intenso com os americanos, com companhias da Europa, companhias do oriente, Japão. No meu tempo nós dinamizamos bastante a nossa relação e fizemos um contrato importante, o primeiro, com a República Popular da China, Filipinas e outros lugares. Em todos esses contatos, você notava que o que deixava o empregado mais satisfeito é que essas empresas internacionais entendiam muito bem o espírito com que se trabalhava na CVRD, então não havia nenhum tipo de complexo com companhias que poderiam ser consideradas mais desenvolvidas. Não havia, todas poderiam, sem qualquer tipo de dificuldade técnica, comercial e assim por diante. Eu quero registrar, com muita satisfação e por critério de justiça, que a Vale, há muito tempo é uma das empresas mais primorosas do nosso país. Quero crer que continue agora, sendo uma empresa privada.

VALEFÉRTIL



A Valefértil, nós concluímos e inauguramos o projeto da Valepi em Itapira, perto de Araxá, aproveitamento de fosfato, fosfatados. Essa empresa fazia parte do grupo da Valefértil. Nós concluímos e levamos alguma sugestão para o governo, de tanto quanto for possível, tratando-se dos projetos industriais da Valefértil, desenvolvidos na parte do triângulo mineiro. Tinha muita semelhança com uma refinaria, então pensamos em transferir esses projetos e aproveitar os recursos possíveis de serem obtidos com essa transferência, para se juntar com os recursos para o desenvolvimento do projeto de Carajás, que não precisava mais de recursos financeiros. Então, negociamos com a Petrobras, que já tinha uma subsidiária específica para a parte de fertilizantes, que era a Petrofértil, que ela assumisse a administração dos projetos da Valefértil. Esse entendimento acabou sendo concluído com muito êxito, foi uma troca entre empresas de governo, da atividade de uma para a outra, com benefício para a CVRD que, tendo entregue a administração dos seus projetos de fertilizantes para a Petrofértil, ficou liberada e pode ocupar-se mais de desenvolver o projeto que passou a ser, praticamente, prioritário na CVRD. A partir de 1979, eu tinha acabado de deixar a presidência da CVRD, o governo do Presidente Figueiredo, foi o último governo do chamado ciclo militar, ele levou, em termos de Vale, o projeto numero um de desenvolvimento de Carajás. Tudo que pudesse ser levado, canalizado em termos de recursos financeiros, inclusive para Carajás, a Vale cuidou de fazer e acho que o fez muito bem.

TECNOLOGIA FERROVIÁRIA



Um projeto bastante interessante, foi bastante dinamizado e inaugurado com muito êxito foi o chamado "transbordo do minério de ferro", entre as composições que traziam o minério de Itabira até um determinado ponto no Estado de Minas Gerais, numa chamada bitola métrica, de um metro. A Estrada de Ferro Vitória a Minas, acabou sendo concluída a sua duplicação, duas estradas, uma do lado da outra praticamente, em alguns trechos se separavam, por causa de aspectos topográficos, mas basicamente eram duas estradas lado a lado, mas com bitola métrica, um metro. E a rede ferroviária federal, a bitola da rede era de 1,60m. Então, em certos pontos, chegava o minério pela Estrada de Ferro Vitória a Minas e para atender alguma siderúrgica de determinada área, era transportado por caminhões, uma perda de tempo, um esforço muito grande exercido sobre as estradas de rodagem, as rodovias e queima de combustível para esse fim. Então fizemos esse projeto, dinamizamos esse projeto, ele foi inaugurado naquele tempo. Chegava uma composição na Estrada de Ferro Vitória a Minas com um metro de bitola, era transbordada para a rede de 1,60 m. sem muita perda de tempo, com uma economia muito grande de combustível e depois, entregava na siderúrgica da área, como a Usiminas, por exemplo. Esse foi um projeto muito interessante.

RELAÇÃO COM OS JAPONESES



Outro projeto foi a Nibrasco, fábrica de pellets, em associação com as siderúrgicas japonesas, com duas unidades grandes, foi concluída naquela época, funcionou tecnicamente sem qualquer dificuldade e, até hoje, na área do Porto de Tubarão, nós temos essas duas unidades da Nibrasco funcionando com outras da Vale, uma da Espanha, a Hispanobrás e outra, que era a Itabrasco.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO



Quando nós fomos designados para presidir a Vale, e pelo fato de termos estado no Ministério por cerca de dois anos trabalhando muitos assuntos da Vale e por coincidência da Petrobras também, nós ficamos conhecendo e mantendo uma intimidade muito construtiva com altos técnicos da CVRD. Quando assumimos a presidência, lembrei-me deles e pedi que eles me auxiliassem na administração. Isso foi feito sem a menor dificuldade, dado esse espírito que eu falei a pouco, espírito da casa, espírito de avançar e construir sabidamente. Então, esses técnicos foram me ajudar na Presidência. O Secretário Geral, uma das pessoas mais importantes, um ou outro diretor que com o tempo precisamos substituir pelos anteriores, dentro de um processo administrativo absolutamente normal, visando o maior desenvolvimento da Companhia. Alguns técnicos que nos eram sugeridos mudaram de posição para que fossem dinamizadas as suas respectivas áreas. Havia, eu creio, o mesmo espírito de corpo importante, mesmo entusiasmo pela casa. Nós procuramos com muito empenho, não deixar que houvesse qualquer solução de continuidade no período que lá estivemos, nós estávamos substituindo um presidente, numa mesma administração federal. Não queríamos dar a impressão que essa mudança de presidente deveria significar uma mudança radical na empresa, uma mudança que pudesse atrapalhar seus programas. Procuramos, naturalmente dentro do que recebemos como missão do Ministério de Minas e Energia, trabalhar na Companhia para que a CVRD continuasse no seu grande empenho de comercializar mais produtos, minério de ferro e pelotas principalmente, e que não se perdesse de forma alguma, todo conhecimento, toda a tecnologia, toda a capacidade de trabalho do seu pessoal. Desenvolvemos alguns projetos de parceria mais ainda, procurando melhores entendimentos com os sócios desses projetos, principalmente os sócios japoneses. Repetindo mais uma vez, o mercado do Japão representava 35 a 40%, não havia como deixar de ter um entendimento e um entrosamento amplo e quase que íntimo com esses compradores, com esses consumidores. Procuramos também abrir novos mercados de venda dos produtos da Vale para, como eu já disse, República Popular da China, Filipinas, México, Argentina, outros mercados do Oriente Médio. Procuramos muita informação para fazer uma propaganda legítima do nosso produto e da nossa capacidade de fornecimento. Um período de realizações importantes para a Companhia, sobretudo nessa linha uma continuidade necessária e possível. Foram feitos ajustes administrativos mais dentro de um processo para que a CVRD não perdesse a sua identidade, grande empresa do nosso país voltada para o mundo comercializando seu produto. Uma grande empresa de exportação e já muito treinada para fazer esse papel para o nosso país.

TRABALHO



Veja bem, nós assumimos a presidência da Companhia no tempo da administração do Presidente Itamar Franco, era um período chamado de transição. O Presidente da República havia sido dispensado da sua atividade, o Congresso Nacional decidiu pelo seu impeachment, e o vice Presidente, que era o Itamar, assumiu a presidência, até o final de 1994, dentro da nossa legislação. Em 1994 haveria, em qualquer circunstância, uma nova eleição presidencial, em 1995 um novo presidente. Assumimos nesse interregno, em 1992, poucos meses depois da assunção do Presidente Itamar Franco, ficamos até o final de 1994, quando já estava eleito o ex-chanceler brasileiro, ex-ministro da fazenda, Fernando Henrique Cardoso, com quem, exatamente em função do nosso trabalho na Petrobras, tanto na chancelaria como no Ministério da Fazenda, fizemos uma relação muito construtiva em termos de entendimento. Eu me recordo em final de 1992, inicio de 1993, o Mercosul estava em atividade importante para se consolidar ou não. E entre o Brasil e a Argentina, o produto de maior importância para ser intercambiado era o petróleo da Argentina, o trigo da Argentina e produtos brasileiros que poderiam ser importados pela Argentina. Mas, na ocasião, em termos de petróleo, sabia o Ministro Fernando Henrique, que nossa importação de petróleo argentino, embora sabendo o país como é, você não muda a geografia nem geologia até o final dos tempos. Geograficamente a Argentina fica do nosso lado e a Companhia, ainda por razões anteriores, continuava comprando petróleo de países mais distantes. Uma indagação que foi feita pelo Chanceler foi de que se nós, na Companhia não poderíamos estudar tecnicamente, um pouco mais de petróleo da Argentina para o Brasil, ajudando de certo modo, desde que essas condições técnicas e econômicas indicassem, ajudando o fortalecimento desse intercâmbio, desse comércio do Mercosul. Para dar uma idéia de números, nessa época que nós conversamos sobre isso, o Brasil importava de quatro a cinco mil barris por dia de petróleo argentino, menos de um ano depois a nossa importação era de 130 mil barris por dia da Argentina. A Petrobras deu uma grande colaboração, na medida em que ela tinha necessidade e os preços foram combinados, não foi para o Mercosul em função do que o Chanceler havia comentado, fez-se esse trabalho todo, viu-se que era possível e a Argentina passou a ser o nosso primeiro fornecedor de petróleo. Dinamizou muito, consolidou a atividade do Mercosul. Em seguida Fernando Henrique passou a ser Ministro da Fazenda e candidato à Presidência e Presidente eleito em outubro de 1994, vamos completar agora sete anos. Continuamos a presidir a Petrobras na administração do Presidente Fernando Henrique no seu primeiro mandato. Quando o primeiro mandato do Presidente estava para ser concluído em 1998, eu já estava como Presidente da casa há seis anos, eu entendia que naturalmente outras pessoas, alguns outros projetos poderiam ser desenvolvidos na Companhia e achei que estava chegando o momento, depois de todo esse período de tanto trabalho de combinar com o meu chefe imediato que era o Ministro de Minas e Energia, antes do Presidente me relacionava sempre com Presidente sempre através do Ministro, embora o relacionamento com o Presidente sempre fosse muito intenso e pessoal, quando necessário. Combinei, achando que deveria pouco a pouco me afastar da casa, cuidar de outros assuntos de meu interesse pessoal, partir de novo para a minha iniciativa privada, onde eu trabalhei anos. E fiz então esse acordo, entendendo que nossa missão na Companhia tinha sido praticamente concluída e que devíamos abrir a oportunidade para que o Presidente decidisse no seu segundo mandato, ele havia sido reeleito em outubro de 1998, ele deveria ficar, pela nossa lei até 2002. Deveria dar oportunidade a que outros técnicos fossem dirigentes da Companhia. E assim fiz, mas aguardei um pouco porque o Ministro pediu para eu aguardar a oportunidade em que eu tomaria essa iniciativa, como tomei em março de 1999, aguardei a inauguração formal e o primeiro enchimento de gás natural do gasoduto Bolívia-Brasil, que era uma obra há muito tempo discutida, comentada, quase chegando ao seu ponto de finalmente, mas não chegava. Em 1993 celebramos o primeiro contrato comercial de compra de gás da Bolívia, em fevereiro de 1993. Com esse acordo, foi o primeiro contrato entre empresas, porque anteriormente havia muito entendimento diplomático e de governo, mas faltava, talvez, a decisão empresarial. Depois dessa decisão empresarial, o assunto tomou forma. O governo nos deu a incumbência de dinamizar esse projeto e concluí-lo e nós, como sempre, levamos a sério as nossas responsabilidades, chegamos a concluir essa primeira etapa do gasoduto até São Paulo. Inauguramos, com todas autoridades, esse primeiro trecho do gasoduto Bolívia-São Paulo, e em seguida o gás começou a transitar por essa obra, e deixamos pronto todo o contrato e continuou a construção até o Rio Grande do Sul, concluída pouco mais de um ano depois. Hoje você tem toda essa alça de gás irrigando assim nossa área industrial, comercial e futuramente residencial, com gás importado da Bolívia. Pelas notícias que eu tenho lido depois de deixar a Companhia em 1999, vê-se que há um grande interesse e até entusiasmo geral dada a necessidade de termoelétricas funcionando à gás natural e que se aumente muito o volume de gás que negociamos na ocasião. Hoje podemos considerar esse projeto do gasoduto da Bolívia, celebrado o contrato comercial em 1993, concluída a primeira etapa em 1999, um vitorioso projeto do setor de energia do Brasil. Uma efetiva integração de povos e de países na América do Sul. Eu me lembro que das primeiras vezes, eu não conhecia pessoalmente o Presidente Fernando Henrique em 1992, eu fui falar com o então Ministro, ele, no comentário que fez de procurarmos aumentar o nosso comércio, a nossa importação de petróleo argentino, e Venezuela também, ele disse que um dos projetos que ele estava dinamizando era a maior integração dos países da América do Sul. Falava-se sempre em termos de entusiasmo oratório, mais faltava a coisa concreta. Ele achava que essa integração poderia ser feito sob o aspecto energético. Essa integração energética que você faz, nunca mais você desarma. Se você compra produto de um e de outro, você fica negociando, você faz essa integração naquele momento, mas quando você constrói um gasoduto, como foi feito, quando você faz uma linha de transmissão de energia elétrica como o Presidente agora a pouco inaugurou, da Venezuela até Roraima com possibilidade de chegar até Manaus. Isso não se desfaz mais. É uma maneira muito mais forte, concreta e objetiva de integrar esses países. Nessa linha é que nós procuramos seguir na empresa e por isso, antes de eu pedir demissão do meu cargo de Presidente da Petrobras, eu aguardei um pouquinho a inauguração para ter a satisfação e a honra como técnico e brasileiro de assistir a inauguração desse grande gasoduto que agora fica para a história da empresa como sendo coisa realizada. Com início do governo do Presidente Itamar Franco e com conclusão na administração do Presidente Fernando Henrique. Eu acho que o setor de energia do nosso país e da América do Sul, fica devendo muito ao Presidente a decisão de incentivar e concluir essa obra pioneira no nosso país. É uma obra que custou cerca de 2.2 bilhões de dólares, financiados pelo Banco Mundial, Banco Inter-Americano de Desenvolvimento, pela Caf Corporación Andina de Fomento, pelo BNDES do nosso país, pela BEI - Banca Europea de Investimentos, uma série de agências de apoio multilateral, ajudaram a construção dessa obra, apoiaram a construção desse projeto. Recebeu o apoio de todas essas entidades sérias, reconhecidas no mundo. Tem 3.500 km de extensão de Santa Cruz de la Sierra até Porto Alegre, passa por Mato Grosso do Sul todo, São Paulo, desce para o Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Deixamos também na empresa pronto o contrato de negociação da obra de ligação para importar gás da Argentina através de Corrientes. Já existe um fornecimento da Argentina com a Central termoelétrica de Uruguaiana lá no Rio Grande do Sul, na fronteira com a própria Argentina. De Uruguaiana até Porto Alegre será construída uma linha de 600-650 km de gasoduto. E essa linha de gasoduto da Argentina, que já é rica em gás e que tem uma ligação de Bolívia, já existe uma ligação do sul da Bolívia até Buenos Aires por um gasoduto, de Salta a Buenos Aires, você já tem essa linha pronta, vai ter essa da Argentina até Porto Alegre que vai se interligar com a que deixamos pronta. Você vai ter nessa região do chamado cone sul da América do Sul, um lup, uma alça importantíssima de gás para atender qualquer necessidade industrial, comercial e assim por diante. É um combustível limpo, que queima na sua totalidade, no bico dos injetores. É o combustível verde, não polui. Nós deixamos tudo isso, felizmente a primeira etapa pronta e a segunda etapa em construção, contratada.

FAMÍLIA



Filhos
Eu vejo na minha casa, hoje em dia com meu filho, eu tenho um filho, Joel vai fazer 22 anos, está no quarto ano de Direito, absolutamente independente, claro, mora conosco mas leva a vida dele. Trabalha há dois anos, num escritório de advocacia do meu vizinho e amigo Ronaldo Veirano. Um escritório muito bem equipado, trabalha muito com empresas internacionais. O meu filho fez o curso dele em Hight School, o científico dele, em Deverly, nos EUA. Como todo moço hoje em dia, tem muita oportunidade, tem um inglês muito bom. Depois estudou o espanhol, se defende muito bem com a língua espanhola, e resolveu fazer um teste para alguns escritórios e conseguiu há dois anos. Trabalha com o Veirano, ele trabalha o dia todo e estuda à noite, porque não tem outro jeito. Vai indo muito bem. Mas eu percebo, no nosso convívio quase que diário, que o enfoque dos moços de hoje em dia é bem diferente daquele do meu tempo. Eu sou mais velho, bem mais velho do que ele. Mas eu sentia um outro tipo de preocupação do que eles têm hoje, eu não sei se é porque eles sabem que nós somos pau para toda obra, qualquer necessidade nós comparecemos, mas no meu tempo também, embora sempre longe dos meus pais, eu tinha sempre a convicção. E quando você é moço você acha que é eterno, não vai te acontecer nada. Eu sabia, que se tivesse qualquer premência, qualquer necessidade, urgência, meu pai, mesmo longe estaria a postos para me ajudar. Mas a compreensão, no caso é diferente hoje em dia.

A minha filha não há o que falar porque é outro caso, é moça. Eu sempre gostei muito na minha vida de moças, então gosto muito da minha filha. Juliana tem 19 para 20. É uma moça formidável, está no segundo ano de Direito. É uma moça muito séria. É um temperamento, acho até um pouco mais parecido com o meu, de acordo com minha mulher, que é uma pessoa formidável, grande moça além de muito bonita e atuante. Ela acha Juliana parecida com meu estilo, e o Joel parecido com o que ela foi. Acho que nós nos completamos, na verdade, tudo que eu tenho passado, nessas posições e pela minha carreira eu tive oportunidade de exercer, muito moço ainda, antes dos 40 anos de idade, ser Presidente da Vale e depois, recentemente, quase sete anos Presidente da Petrobrás, o único brasileiro hoje vivo, que foi Presidente das duas Companhias.

Orgulho
Mas eu acho que o grande orgulho de minha vida, nunca deixo de confessar, eu fiz há dois anos e meio, quando recebi o título de Engenheiro do Ano, em Minas Gerais, é a minha família. O grande orgulho é minha família, eu tenho um grande orgulho de minha mulher e meus dois filhos. Veja bem, até hoje, ninguém é obrigado a casar, não tem mais sentido, já foi aquele tempo do moço, filho de uma determinada família e a moça de outra família. As duas famílias se entendendo bem: "Ah, está ótimo para meu filho e ótimo para minha filha". Então, quando você toma essa decisão, que foi o que eu fiz na minha época, é porque você quer mesmo fazer aquilo. E fiz, e felizmente deu certo e eu tenho de fato um grande orgulho, minha mulher e os meus dois filhos. Daí para frente, como diz um companheiro meu, lá do interior de Minas, uma pessoa muito modesta: "Doutor, daí para frente tudo é lucro." Tendo saúde e uma família unida, o que pode te acontecer na vida, é resultado positivo.

AVALIAÇÃO



Eu me lembro que, no caso da Vale, o finado Juracy Magalhães foi Presidente da Vale por um certo período e foi o primeiro Presidente da Petrobras quando o Presidente Getúlio sancionou a lei 2004 que criou em outubro de 1953, vai fazer agora 48 anos de criação, 3 de outubro de 1953. A Vale é de junho de 1942. Homenagearam o Juracy Magalhães pela importância que tinha na época, pela sua competência é claro, foi Presidente das duas empresas. E o segundo brasileiro que teve o privilégio de ocupar essas duas presidências, está conversando com vocês, e hoje em dia, com o falecimento do General Juracy passo a ser o único brasileiro que com muito orgulho e humildade, pelo fato de ter presidido as duas maiores empresas do país (não significa de forma alguma que eu seja o maior engenheiro que existe no Brasil, absolutamente). Como já disse, como o homem é resultado do seu estilo e circunstâncias, foram as circunstâncias que me levaram a essa condição, mas eu quero dizer que exerci esses cargos, com maior empenho, maior entusiasmo, um desafio muito grande na minha vida profissional, na minha carreira, onde posso dizer que tive muita sorte, mas essa sorte é antecedida de muito trabalho, de muita humildade para entender as coisas, para compreende-las e procurar dinamizá-las no que me cabia. Tudo isso me faz entender que esse nosso país é um grande país, você imagina a oportunidade que dá para quem como eu, que nasci no Estado de Minas Gerais, embora filho de engenheiro e felizmente em toda minha vida, sem ter passado por nenhum tipo de dificuldade maior de ordem financeira, era uma família normal, chamada classe média brasileira, meu pai trabalhava, minha mãe exercia suas atividades também, fui estudar engenharia em Minas Gerais onde concluí meu curso em Itajubá, fui um estudante profissional. Não tinha necessidade de trabalhar para poder ter condições de estudar. Eu era pago para isso, modestamente pago porque as coisas não eram tão fartas. Se eu trabalhei, e trabalhei sempre é porque eu sentia necessidade de ter uma atividade para me ocupar e também para aprender cedo a ganhar o que era meu, trabalhando. Se você não faz isso cedo, dificilmente você aprende mais tarde. Daí para frente, galgando posições nas empresas onde trabalhei em São Paulo inicialmente, e depois decidindo conhecer como era o governo federal, e daí para frente houve essa guinada importantíssima na minha vida funcional, quando vim para CVRD, quando ingressei em seguida pela primeira vez no sistema Petrobras, através da subsidiária internacional que é a Braspetro, saí do Sistema Petrobras, fiquei ausente por cinco anos, de 1987 a 1992, trabalhando em empresas particulares num grupo de distribuidores de aço, em Minas, um aqui do Rio e dois de São Paulo, que estudavam o que poderia ser feito em termos de privatização do setor siderúrgico brasileiro. A essa altura, com alguma experiência administrativa, algum conhecimento técnico como engenheiro pensei em poder ser útil para esse grupo e aprendendo, fazendo parte dessa atividade que era nova no Brasil, no começo da década de 1990. Foi nessa época que se pensou seriamente em privatizar todas as siderúrgicas nacionais. Em 1992 passei então a presidir a Petrobras, e de lá para cá, depois que decidi sair cuido mais uma vez da minha atividade privada, trabalhando na área de gestão empresarial, na área de administração, ajudando algumas empresas que precisam e pedem a nossa colaboração, apenas nessa parte, usando meu conhecimento e alguma experiência que eu tenha amealhado na vida que é uma relação pessoal intensa que eu estabeleci em todas essas minhas funções, em todas essas minhas atividades. Mas, para concluir, por esse breve comentário da vida pessoal vejam vocês as oportunidades que se pode ter em nosso país para você trabalhar, para você evoluir. É claro que você não tem hoje algumas facilidades que você tinha em épocas passadas em termos de variedade de empregos, em fazer propriamente aquilo que você gostaria. As coisas mudaram muito em nosso país, e mudaram no mundo, especialmente nesses últimos 15, 20 dias por causa dos últimos acontecimentos inacreditáveis, nos Estados Unidos. O mundo passa por transformações incríveis de uma hora para outra. Mas, como resumo, como síntese, esse é um grande país, grande país onde a gente confia muito e sobretudo admira o povo. O povo é de uma paciência e de uma crença nas coisas nacionais, comoventes. Eu não tenho dúvida, apesar do apoio que muita gente de fora dá ao Brasil, quem será efetivamente responsável pelo desenvolvimento do Brasil, de sair de emergente e passar a país do primeiro mundo, seremos nós brasileiros. Tudo vai depender de cada um de nós, cidadão, trabalhando com seriedade, aqueles que trabalharem bem estarão fazendo uma grande política que é trabalhar bem, o resto é decorrência. Quem será responsável sempre pelo nosso país chegar, se Deus quiser, o mais breve possível a grande potência, sonhada potência, seremos nós brasileiros. No que eu pude, de maneira modesta, sempre procurei trabalhar dessa forma, aprendendo, entendendo, ouvindo, procurando fazer, com muita responsabilidade, as tarefas que me davam e as coisas, graças a Deus, andaram muito positivamente.

SONHO



Eu creio que em termos de sonho, eu posso dizer, eu tenho um grande orgulho do que eu procurei fazer, dos amigos que eu fiz, das minhas dificuldades. E dificuldades você tem, até o fim dos tempos de cada um. Essa passagem pela vida é muito breve, mas vivendo o tempo que for você vai ter dificuldades. Mas o importante é o resumo daquilo que você pode fazer, separando essas dificuldades, construindo e fazendo coisas boas. Hoje eu tenho um grande orgulho, desde que resolvi constituir família, tenho um grande orgulho de minha mulher e do meu casal de filhos. Então se eu tenho algum sonho, aí já na casa dos 60 anos de idade, é procurar ter oportunidade de concluir, vendo, sentindo, convivendo, o êxito de meu filho e da minha filha. O que eu puder deixar para eles em termos de algum exemplo que eu possa dar na vida, eu fiz muita força para dar esses exemplo, como eu tive do meu pai. Meu sonho será ver meu filho e minha filha trabalhando bem, como cidadãos corretos, contribuindo para o desenvolvimento desse nosso país. E o meu sonho maior, se eu puder viver até lá, é ver o Brasil em muito melhores condições do que hoje nós vemos. Tem dificuldades, tem mazelas, impropriedades, mas se tivermos um pouco de paciência e não fomos tão críticos, a gente vai ver que esse país tem muitas qualidades e tem tudo para chegar a essa potência importante da qual eu sonho.

DEPOIMENTO



Eu achei, e estava me preparando agora a pouco para ter essa conversa franca com vocês, que cometi até talvez, alguma inconfidências que não deveria e não faria em condições normais. Aquelas brincadeiras de diletantismo, quando era estudante de engenharia, isso a gente guarda mais para a intimidade da família ou para algum amigo de muitos e muito anos. Vocês já se tornaram meus amigos, embora conheço a pouco, mas não tínhamos o tempo de conhecimento anterior para eu ter a franqueza que eu tive durante todo esse depoimento. E se fui franco, com o coração aberto é porque eu confiei que o trabalho que vocês estão fazendo aqui, no meu entender, é da maior importância, inclusive para resgatar muitos aspectos que são esquecidos de grandes empresas do nosso país. Eu li, para vir aqui e conversar com vocês, da história da Vale, eu tenho dois livros, um quando a Vale fez 40 anos e outro quando a Vale fez 50 anos. O de 50 anos com um pouco mais de substância, foi editado em 1992, o outro editado em 1982. O de 1992 já se vão oito a nove anos. Então agora vocês serão os responsáveis por resgatar tudo aquilo que deixou de ser dito ou escrito nesses últimos nove anos, no mínimo. Mas vocês, ouvindo tantas pessoas, se puderem colher depoimentos que eu dei em confiança, em alta confiança, essa franqueza que eu procurei transmitir a vocês, acho que vocês terão feito um grande trabalho não só para a CVRD, para a história do nosso pais, da economia de nosso país. Veja bem, uma empresa que tem 50, 60 anos, se você olhar o sinal dos tempos, é muito pouco, não é nada. A Shell, empresa de petróleo, a Eckson são empresas seculares, têm mais de cem anos. O Brasil é um país moço, uma grande empresa que tem 50, 60 anos não é muito, não, tem que fazer muito mais, tem que trabalhar muito mais. O papel de vocês resgatando todos esses aspectos, lembrando essa história, colhendo informações de quem pode ser útil àquilo que vocês estão dispostos e foram contratados para fazer. A responsabilidade de vocês é muito grande. Por isso que eu fiz esse depoimento com muita franqueza, com muita abertura, sobretudo confiando na capacidade de todos vocês. Vai ser um trabalho muito bom. Lembrem-se disso, vocês são mais jovens do que eu, essa história de praticamente 60 anos da Vale tem muita coisa a mais que podem ser ditas e muito a se mostrar, para essas novas gerações brasileiras que, às vezes, ficam um pouquinho desanimadas, mas que não devem desanimar. Tem muito Brasil, e o exemplo de uma Vale e uma Petrobras, acho que são fundamentais para nunca se perder a crença nesse país, de forma alguma.

 

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