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História

Entre a praia, a escola e o cinema

História de: Celia de Almeida Sampaio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2016

Sinopse

Neste depoimento, Celia nos traça as linhagens de sua família de colonos quatrocentintas do interior de São Paulo, e fala sobre sua ligação com o café e a cidade de Santos. Nos conta como era a cidade nos anos 40: a praia, os carrinhos de sorvete, os cinemas, as brincadeiras de rua, o ensino religioso, a política e os bailes da juventude, regados a Jovem Guarda e Beatles. Também nos conta sobre sua atuação no CPC de Santos, a entrada na faculdade de jornalismo e o advento da ditadura militar em 1964. Em outro momento, Celia conta a história de sua mudança pra São Paulo, a fim de cursar ciências sociais na USP, onde ocorreu o "acerto de contas" entre alunos da Rua Maria Antônia e o Mackenzie, em 1968. Após este evento, Celia e seu marido, José Otávio, se mudam para Parati e em seguida para Ilhéus, onde Celia dirige uma escola pública por alguns anos. Já de volta a São Paulo, Celia toma conta do Logos, a escola que ela mesma criou nos anos 1970, e tem dois filhos: André e Bel. Por fim, nos fala sobre seus sonhos e de como se aposentou no Mater Dei de São Paulo, após o fechamento do Logos.

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História completa

Meu nome é Celia de Almeida Sampaio. Eu nasci em Santos, em 1943, dois de setembro.

Meu pai chama-se Vicente Pedro de Almeida Sampaio, ele nasceu em Jaú, em 1918, dia 29 de junho. O que o pai dele já fazia e o que ele fez a vida inteira até morrer, ninguém nasceu em Jaú impunemente, todo mundo trabalhava com o café, são os famosos quatrocentões do interior de São Paulo, que começaram com as fazendas em Jaú, Itu, e tal, naquela área e depois, tinham as casas comissárias exportadoras de café em Santos, chamava Sampaio Bueno, em santos, na Rua do Café, em Santos.

Lá eu morava, primeiro, uma cidade absolutamente plana, a três quarteirões da praia, eu fui a praia a vida inteira, porque a minha mãe já gostava de praia, então a gente ia a praia desde que tinha quatro, cinco anos de idade, todo dia, à tarde, porque é quando o sol não queima demais (risos), mas não era de manhã, de manhã você começa a ir quando é adolescente, com 15, 16 que você quer ficar queimada. Então, praia é uma coisa que… é o lugar em que eu me sinto em casa, realmente, é um lugar de praia, já moro há muito tempo em São Paulo, mas eu morei em Ilhéus dez anos e quando eu vim para São Paulo, para fazer a segunda faculdade, daí logo, eu comecei a namorar o Zé Otavio, que é o pai dos meus filhos e a gente tinha casa em Parati, que a gente ia todos os fins de semana do ano, com chuva, sem chuva, não era um problema de tempo, a gente gosta de praia.

Em Santos, eu morei em duas casas, quando eu nasci e até os 14 anos, 13, 14, por aí, eu acho que estava no final do ginásio, que chama F2 hoje, eu morei numa casa que foi onde eu nasci, que era na Oswaldo Cruz, e aí, tem o Stella Maris, que existe até hoje que é uma escola enorme das freiras do Des Oiseaux, são as mesmas freiras, eu tinha uma tia que conseguiu ser diretora… irmã do meu pai, ela foi diretora do Des Oiseaux, e depois, ela foi diretora em Santos também.

E depois daí, eu fui para o Colégio Canadá, que era escola pública de Santos, que tinha o melhor colegial, que aí, eu fiz cientifico. Na época, ainda tinha cientifico e clássico e eu fiz cientifico no Canadá, que é de onde, na realidade, os meus amigos que ficaram para a vida, que tem vários que são amigos meus até hoje, são todos do Canadá.

Eles tinham aula de catecismo para preparar para primeira comunhão, mas era sempre seguido de um filme, para a gente ir ao catecismo para ir ao cinema (risos). E aí, a gente habituou a ir ao cinema todo domingo, primeiro, depois, eu acho que tinha um dia da semana, dia de semana não tinha, não, talvez fosse sábado. Sábado era dia de casamento, não tinha, acho que era domingo só, mesmo. É verdade, porque até hoje, sábado é dia de casamento, naquela época então, era mesmo! E a gente começou ir ao cinema e era muito divertido e depois, a gente conseguiu começar a ir a matinê, famosa chamada matinê que era um filme de duas às quatro ou de quatro às seis, sei lá, que tinha um preço e à noite, era outro e não entrava gente menor mesmo…

Ah, depois fiz vestibular! Tanto em Santos… porque foi assim, exatamente, a gente tinha começado a namorar, porque ele ia para São Paulo e o meu pai, obvio, imagine dois jovens de 15 anos namorando para São Paulo, nem pensar, tanto é que eu fiquei na casa de uma tia e ele não deixou e eu fiz jornalismo em Santos, eu até me diverti fazendo, mas o critério foi o curso mais rápido que tem em Santos, porque depois eu vou para São Paulo. E eu fiz jornalismo que eram, pelo menos, três anos. Então daí, eu fui para São Paulo… quando eu acabei o segundo ano de jornalismo, eu já fui para São Paulo e já fiz vestibular para Maria Antônia para Ciências Sociais, que era o que eu queria fazer e não tinha USP, graças a Deus, ainda era Maria Antônia…

E aí, quando eu tava passando para o último ano de jornalismo, eu já fui para São Paulo e fiz vestibular, porque eu falei: “Quero ver como é”, bom, aí eu já entrei, eu entrei, fiz matricula, voltei para Santos, acabei a faculdade, aí tranquei a matricula, as tantas, no outro ano eu só fui, não tive que fazer vestibular de novo, mas o segredo não era ter feito vestibular e passado, era ter matriculado (risos), se não matricular, você perde a vaga. Aí, no outro ano, eu já fui. Então, eu fui… do colegial, eu fiz três de jornalismo, daí eu fiz quatro das Sociais… eu até não fiz em quatro, quer dizer, fiz em quatro a Sociais, mas eu fiz as pedagógicas também, porque a essa altura, eu já era professora, já dava aula, tal e depois, quando a gente fez o Logos, que foi uma história importante, tal, só colegial, aí eu fiz Pedagogia.

Ilhéus é muito pequeno perto de São Paulo, imagine, é muito menor que Santos. Eles tinham numa escolona pública que tinha ginásio e colegial e tinha colegial profissionalizante também, tinha colegial só colegial, tinha magistério e tal e tinha no mesmo terreno, mas não grudado, tinha o primário e mais primário em vários outros lugares, aí o primário era menor, essa parte equivalente a ginásio e colegial estava num predião enorme que tem lá até hoje e o primário tinha ali, mas tinha em outros lugares, primário, educação infantil, tal. E aí, a gente morou em Ilhéus quase dez anos, então imagina que eu fui diretora dessa escola uns quatro ou cinco. Aí eu fiz a melhor escola de Ilhéus, que as escolas particulares começaram a perder os alunos para lá, porque eu entendia muito mais de educação que todo mundo, consegui pegar professores bons de escolas variadas do estado, município, da escola particular, tal, fiz um grupo de professores fantástico e ficou a melhor escola de Ilhéus mesmo depois, três, quatro anos depois que eu tinha vindo embora.

Depois que terminou o Logos, eu fiquei um pouco… eu fiquei, acho que um ano sem trabalhar, depois fui convidada para trabalhar no Mater Dei. Aí fiquei no Mater Dei até o ano passado. Aí, aposenta por conta de tempo, porque você já tá velha demais.

Sonhos? Eu não tenho muito… sonhos, dessa forma como se tem antes, quando você tem… não quer dizer que você possa ter sonho com 18 anos e morrer com 20. Então, não é isso. É que nessa época, você tem um tipo de sonho que hoje em dia, eu não tenho. Eu, na realidade, uma das coisas que gostaria muito… morrer, tudo bem, eu não gostaria de ficar aquelas coisas que fica doente dois anos na cama. Então, você já começa a limitar, mas eu gosto muito… eu faço trocentas coisas sozinha. Eu vou ao medico cardiologista, ela fala pra mim: “Seu coração tá médio”, é disso mesmo que eu quero morrer, então não é para ficar tratando que vai durar o resto da vida.

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