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História

Entre a juventude na ditadura, procedimentos técnicos e conquistas sociais

História de: Enir Severino da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/07/2005

Sinopse

Enir narra a história da sua feliz e saudável infância apesar dos tempos duros da ditadura. Na juventude, após se formar no ensino técnico, migra para São Paulo em busca de trabalho. Durante o programa de estágio passa por vários setores da empresa, entendendo todos os setores da empresa onde irá fazer toda a sua carreira. De estagiário à presidência do sindicato.

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História completa

P - Bom, Enir, nós gostaríamos que primeiro você falasse seu nome e seu local de nascimento.

 

R - Meu nome é Enir Severino da Silva, eu nasci em Sapucaia, bem ali perto, embora seja estado do Rio de Janeiro, mas quase na divisa das Minas Gerais.

 

P - E quando você nasceu? 

 

R - Eu nasci em 11 de julho de 1946. 

 

P - Eu gostaria que você falasse um pouco dos seus pais, o nome deles o local de nascimento...

 

R - Meu pai chama-se Bernardino Severino da Silva, ele nasceu em um vilarejo conhecido como Águas Claras na época, até hoje existente, fica na região de Petrópolis no estado do Rio. Minha mãe, viva, mora em Juiz de Fora e ela nasceu na região de São José do Rio Preto, nessas mesmas imediações, né, e chama-se Alzira Gomes da Silva. E está hoje com seus 73 anos. Meu pai faleceu jovem ainda, aos 43 anos ele faleceu, mas deixou pra gente muitas coisas boas nesse período em que convivemos com ele. Principalmente uma coisa que marcou muito pra nós, que foi o processo de dialogar muito com os filhos, com a família e não era uma coisa que eu considero normal, né, naquela época, não era o cotidiano. Então isso foi muito importante, inclusive pra nossa formação, pro nosso modo de ser e de viver nos dias de hoje. 

 

P - Você tem mais irmãos, Enir? 

 

R - Eu tenho uma irmã, e essa irmã ela mora em Juiz de Fora também, porque... de um modo... apesar de nós termos a nossas origens bem dentro do campo, porque meu pai trabalhava em fazenda, mas... e minha mãe também... mas eu diria pra você que as nossas raízes foram transferidas pra Juiz de Fora muito cedo e acabaram ali se fixando. Então minha mãe, como eu disse, continua morando lá, minha irmã continua lá, essas raízes estão lá. 

 

P - Vamos só...  voltando assim a questão da família, a origem dos seus avós... sua família é da região de Sapucaia, dessa região do Rio ou eles são de Minas?

 

R - Sapucaia também está dentro desse triângulo ali, quer dizer, Águas Claras, São José do Rio Preto, Aparecida, são cidades pequenas, vilarejos. Sapucaia que é, né. E eles estariam dentro desse triângulo, de onde a nossa família onde boa parte ainda se encontra. Primos, tios, eles estão aí nessa região, inclusive até Teresópolis, e em Minas mesmo, em Juiz de Fora hoje eu tenho a minha mãe, e minha irmã, meu cunhado, sobrinhos efetivamente. 

 

P - E você passou a sua infância basicamente em que cidade? 

 

R - Olha, a minha infância foi o seguinte, dentro daquilo... tem o que me lembra, efetivo e tem aquilo da nossa condição do dia-a-dia. Nós saímos de um estado do Rio de Janeiro, mesmo da fazenda Vista Alegre, chamava-se. E essa fazenda meu pai quando minha irmã tinha 5 anos, eu tinha um ano, ele saiu para a cidade de Itaipava. De Itaipava nós mudamos pra Juiz de Fora, e de Juiz de Fora nós fomos pra Sapucaia, de Sapucaia nós viemos pra São Paulo. De São Paulo voltamos então a Juiz de Fora, eu tinha meus 8 anos, e de onde efetivamente ficamos, quer dizer, nós fizemos aí uma família itinerante em alguns municípios em busca de alguma coisa. E o que se buscava? Meu pai tinha como conceito básico que... a família toda havia nascido, permanecido na roça, permanecido dentro, né, de uma formação camponesa ou agrícola, e que ele achava importante de algum modo, que se pudesse fazer com que o estudo começasse a aflorar também dentro da família, uma vez que todos, sem exceção, tinha ali as suas origens e por ali ficavam. E havendo a concordância de minha mãe começou-se essa peregrinação de buscas, né, e até que então nós fixamos em Juiz de Fora e dentro desta filosofia de que "Olha, vamos trabalhar, mas vamos procurar com que nossos filhos possam ter alguma formação e abrirem esses espaços para família. Então dentro disso daí nós fixamos lá.

 

P - E sua infância então, as suas lembranças de infância como que é são?

 

R - As minhas lembranças de infância são muito alegres, são muito saudáveis porque a gente viveu e teve a oportunidade de vivê-las e eu diria pra você basicamente em Juiz de Fora. E em Juiz de Fora ela era uma cidade grande, mas uma cidade que te oferecia os recursos naturais... de você ter espaços, de você ter como se ocupar e nós vivemos uma época privilegiada, nós vivemos uma época de adolescência em que, por exemplo, tóxicos era uma coisa que não fazia parte do nosso dia a dia, né? O que era gostoso pra nós? Era gostoso sair, andar pela cidade, passear, não ter preocupação com hora, jogar futebol, reunir grupos, fazer bailinhos, dançar, quer dizer era uma coisa muito próxima e muito dinâmica, era um carnaval diferente, né, de rua, carnaval de clubes também, mas aquilo que nós envolvia, envolvia de uma forma em que as preocupações outras não existiam. Então nós crescemos, saímos de nossa infância e entramos num processo de adolescência, onde a... digamos os objetivos eram estudar, os objetivos eram aproveitar aqueles momentos de convivência, os namorinhos tradicionais que não podiam deixar de fazer parte ali. Mas então, ter um processo de formação muito tranquilo. Era um negócio gostoso, fazer uma coisa, por exemplo, o que você não tem, 10 horas da noite, 10 e meia, chegávamos das nossas escolas, cada um de seu local e ali já se sabia que era um bate-papo que ia até meia-noite, meia-noite e meia e era só encontrar amigos e conversar, hoje isso é proibitivo. Então hoje essa preocupação que nós temos aqui nessa cidade de São Paulo, que somos prisioneiros de nós mesmos. Era muito diferente daquela infância gostosa que a gente pode viver, crescer e participando das diversas fases que nos oferecia de acordo com a idade que tínhamos na ocasião. 

 

P - Você tem alguma lembrança mais divertida, mais engraçada de sua infância em Juiz de Fora ou mesmo em Sapucaia?

 

R - Olha, os episódios nossos... tenho sim, eu diria que a gente vários né... momentos assim. Dentro dessa... dessa parte eu vivia jogando futebol, gostava muito de esportes, tínhamos ali um timinho de futebol de salão que foi onde originou realmente a coisa, o clube dos 21, né? E numa ocasião de uma disputa até do Campeonato Brasileiro nós estávamos disputando a final com a Vila Isabel do Rio de Janeiro. E estava um jogo interessante 1 a 1, e num determinado momento o nosso goleiro ele pega uma bola na mão e eu estou correndo no fundo da quadra, ele grita pra mim, gritando pra mim que ia fazer um lançamento ele vai arremessar a bola e por fazer o gesto de arremesso da bola a bola sai da mão e entra [risos] e nós perdemos o título do campeonato brasileiro de 2 a 1 com aquela lamentável azar dele, sabe? Uma pessoa que era um goleiraço e teve naquele momento aquela infelicidade com aquilo que aconteceu. Ainda em Juiz de Fora já dentro deste processo de adolescência, 1962, nós tínhamos aí um clima político bastante tenso, um clima quente no ar e foi programado uma ida em Juiz de Fora do... de pessoas que naquele momento tinha um certo peso político, e que estavam envolvidos com todas essas circunstâncias que tinham... então no Cine Popular foi programado um encontro, programado um encontro, e esse encontro estaria presente o Clodismidt Riani que era o presidente da CGT nacional [Comando Geral dos Trabalhadores], uma potência a nível de organização de trabalhadores naquela ocasião, que ele... ele era de Juiz de Fora e junto com eles faria então um pronunciamento neste cinema, o Leonel Brizola e Miguel Arraes, o resultado daquilo ali é que o grupo nosso de estudantes, eu era diretor da UJES [União Juizforana de Estudantes Secundários] naquela ocasião, União Juizforana de Estudantes Secundários, né, e era ligado à UNE [União Nacional dos Estudantes], esta entidade. Então nós fomos pra lá. Chegamos lá e... polícia pra todo lado, aquilo cercado, né? E no final nós entramos no teatro pra ouvir a fala. E na realidade não passávamos lá de alguns gatos pingados que diante de tanta polícia ousou entrar ali dentro. Então quando o Arraes chegou, o Clodismidt chegou. E o resultado disso é que o Brizola quando estava chegando, informaram a ele da quantidade de polícia, ele voltou, foi embora pro Rio, a polícia resolveu num determinado momento, entrar, invadir, levaram o Riani, levaram o Brizola, mas pedindo que eles saíssem da cidade. E aqueles gatinhos pingados que ali estavam ela levou pra ser preso [riso]. E lá fomos nós então começando aquela... aquela, política, primeira experiência política não muito agradável. E logo eu estava junto lá com as pessoas e passou um sargento, que era vizinho, com o nome de João Carlos, "Enir, o que você está fazendo aí?", falei "Eu não estou fazendo, me trouxeram, eu tenho que estar...", "Você estava naquela manifestação". "Estava", Vem cá vamos embora, vai embora, some, vai pra casa direto hein moleque", e daí saí, fui embora pra casa. Mas eu acho que uma das passagens mais pitorescas que eu tenho na vida, marca a forma como eu conheci a minha esposa, né? Eu estava em Cabo Frio, e ela efetivamente lá também. Quando chegou... eu não a conhecia nunca tinha a visto, né? E a noite, Cabo Frio era uma cidade muito rústica, a ruas não tinham calçamento, a não ser a rua principal de Cabo Frio, o resto não tinha nada, era areia mesmo. E resolvemos a noite com um grupo que nós estávamos sair pra... procurar se tinha algum bailinho, alguma festinha, aquelas coisas, e por alguma razão que não me lembro, um grupo nosso saiu e ficou eu e um amigo, o Amauri, e dali uns dez minutos que o grupo foi, nós fomos também e... eu me lembro bem que eu estava com a camisa vermelha e ele de camisa vermelha, os dois. E numa dessas ruas veio um carro à noite e o farol aceso e bateu o farol com reflexo que teve em cima da gente. E a poucos metros da gente tinha uma vaca. Uma vaca mesmo. E aquela camisa vermelha nossa e aquele reflexo, ah, mais não deu outra, né, ela partiu pra cima da gente e nós corremos [risos], claro, e na esquina tinha um carro parado e nós começamos a dar volta por esse carro, falei "Não vou parar de dar volta aqui, não tem jeito". Até que ela cansou, parou e aí chegaram de um apartamento próximo umas cinco pessoas na janela, vi que estavam fazendo ali uma festinha, e começou o comentário "Ei, vocês estão correndo da vaca?", "Estamos sim", "Então entra, vem" e aí nós entramos e a festinha se fazia exatamente no apartamento da... onde estava minha esposa que hoje é a Raquel, certo? E assim nós acabamos nós conhecendo em função de eu estar fugindo de uma vaca (riso). Eu acho isso extremamente cômico em minha vida. 

 

P - E vocês estavam de férias em Cabo Frio?

 

R – É. Nós estávamos de férias, isso foi no mês de janeiro, né e... aliás a festinha era porque era o aniversário dela. Era aniversário dela, ela fazendo esta festinha junto de amigos, primos, parentes, ali de Juiz de Fora, que estavam lá.

 

P - Mas ela é de Juiz de Fora ou de Cabo Frio?

 

R - Ela é de Juiz de Fora. Naquela época, hoje não de ter mudado muito, mas Cabo Frio era quase que uma colônia, né, de Juiz de Fora, então o pessoal ia muito pra aquela região de Cabo Frio, de Guarapari, e naquele momento eu fazia, digamos assim, a minha... minha aparição em Cabo Frio e ela também e aí essa brincadeira nos leva a estar juntos aí a quase 24 anos casados. 

 

P - Depois a gente vai voltar um pouco nesse casamento, deixa eu retornar um pouquinho a questão da infância, adolescência. E a questão da escola em si. Onde você estudou lá em Juiz de Fora, como que é que foi?

 

R - Perfeito. Eu em Juiz de Fora, eu estudei no famoso Grupo Central, na Avenida Rio Branco, então existia ali o Grupo Central, e eu estudei ali. Depois eu saí do Grupo Central e fui para o Colégio São Luís, e o Colégio São Luís ficava na rua Santo Antônio, estudei um ano e, foi um coisa interessante, e isso a gente recorda isso com tristeza, viu, por quê? Porque o ensino público daquela ocasião no colégio em Grupo ele era um ensino superior a das escolas particular. Então naquela ocasião eu vivia um negócio interessante. Eu sai do... de um grupo escolar, como era chamado, conhecido e fui pra uma escola particular, e lá chegando eu acabei tendo um processo de ensino inferior ao que eu tinha na escola pública e no ano seguinte eu retornei então para o Grupo Central onde cada um deles funcionava diferente, né? Tinha uma homenagem, digamos assim, a cada um... ele tinha diversos nomes em cada uma dessas etapas, mas quando... eu... nós saímos do Grupo Central aí nós fomos estudar no bairro do Manoel Honório, que era o Ginásio Monteiro Lobato, à noite. Durante o dia funcionava também o processo de grupo, escolas de primeiro... funcionava do primeiro ao... a oitava série lá no Manoel Honório, mas a oitava série em si, da quinta a oitava que se fazia naquela ocasião era já o ginásio Monteiro Lobato, à noite, então eu estudei ali no Monteiro Lobato, e foram épocas, sem dúvida alguma, muito gostosas essas épocas que marcaram porque você tinha sempre aquelas olimpíadas, você tinha sempre uma forma de envolvimento muito grande, descontraído, quer dizer era.... não sei mas eu sinto muita diferença entre o que hoje ocorre e o que vem ocorrendo dentro de processo com aquilo que a gente teve a oportunidade de participar e viver com uma liberdade fantástica, de estar e ir, quer dizer nós tínhamos, quando sai as 10 horas da noite do... lá do Manoel Honório, nós morávamos no centro e nós vínhamos andando, meia hora a pé, quarenta minutos a pé, mas vínhamos conversando, batendo papo, porque era muito gostoso. Aquele processo descontraído. E depois então que eu terminei o ginásio, aí nós fomos fazer o curso técnico, na época a escola técnica federal de Juiz de Fora, então ficamos até 1966 em Juiz de Fora, e aí em 1967 viemos pra São Paulo.

 

P - E como que é essa vinda, por que você veio pra São Paulo?

 

R - É, eu quando garoto ainda, aquele ano que morei em São Paulo, bem na minha infância... é até gostoso falar disso, eu morei aqui na... perto da Lapa, na Vila Romana, e foi um ano só que nós moramos aqui. Esse ano que nós morávamos meu trabalhou em feira, meu pai vendia bijuterias, depois não deu muito certo, foi vender cereais, aí depois achou que o negócio não era ficar aqui e voltamos, fomos pra Juiz de Fora. Pois bem, aquelas amizades que eu deixei e que nunca mais havia visto, no final de 1966, quando nós estávamos terminando o curso técnico, eu vim a São Paulo pra ver essa questão de estágio, já que havia na ocasião a Light, manifestando interesse, manifestava interesse em receber um bom grupo de alunos que estavam terminando o curso técnico em eletrotécnico e máquinas e motores, porque estava sendo marcada ali na época, a Light em 1966 ela começou a abrir o quadro pra esse técnico de nível médio. Então em 1967 foi, digamos assim, o maior número de técnicos que iriam vir pra São Paulo. E eu vim então pra conhecer, pra fazer... eu fui destacado pela turma, pra fazer o contato, pra saber as condições, como que era o estágio, como que era a ajuda de custo, aquelas coisas tradicionais e dentro dessa vinda eu acabei retornando a essa rua pra procurar ver algumas pessoas, e foi interessante porque depois que eu sai daqui eu não tinha voltado mais pra São Paulo, e nunca mais havíamos mantido contato. E quando eu cheguei, nessa rua, foi num sábado e estava o pessoal batendo um papinho, brincando com a bola, isso aqui, aquilo outro, e eu fui chegando e alguns jogando bola, pararam, olhavam pra mim, nós tínhamos o quê naquela ocasião, 8, 7, anos, ficamos um ano juntos e se estabeleceu assim um certo momento de um olhar pra cá, pra um, pra outro, olha pra outro, até que um virou e falou "Você é o Enir?", eu falei "Eu sou", "Você é o Eduardo? Puxa vida" aí ficou um negócio festivo, um negócio gostoso, sabe. De tantos que a gente não se via, moleques, garotos, crianças, aí conversamos, "Nós estamos aqui vendo um negócio de estágio", "Ah, você vai voltar, você tem que vir pra São Paulo, você vai ter que ficar aqui com a turma", aquele negócio. Então eu acabei sendo um daqueles da turma que vim realmente pra São Paulo, embora na época você estivesse assim na época diferente, lamentavelmente, de hoje, né. Mas se você estivesse uma oferta muito ampla de trabalho, porque era o momento do técnico neste país, ele estava nascendo, era uma figura que tinha uma certa... uma importância grande dentro desse envolvimento. Eu fiz a opção, e fiz a opção e achei que era uma coisa maravilhosa pra mim, porque eu deixei e tinha que deixar aquele grupo, era um outro momento da minha vida e vim pra São Paulo, e quando eu cheguei aqui eu fui recebido, assim de braços abertos, então eu vim, fui morar na Vila Mariana, por facilidades de dividir apartamentos com alguns companheiros, depois eu vim morar ali na galeria do centro, e aí comecei a viver esse... esse, digamos assim esse novo momento que foi recebido de braços abertos por esses amigos. Se eu nos fins de semana não fosse pra lá, não tinha jeito, eu aparecia no sábado durante o dia, sábado à noite eles estavam lá em casa, "O que é que houve? Está tudo bem?", Não vamos embora. Tinha uma senhora que, aliás faleceu a pouco tempo, dona Amália, com quem nós acabamos chamando de segunda mãe, porque ela tinha 12 filhos, e os filhos dela eram muito amigos nossos. E eles, principalmente, "Olha, mamãe mandou buscar, vamos embora lá pra casa". Então eu ia e ficava... os meus fins de semana eu fui uma pessoa integrada a São Paulo, integrada por esses amigos que me receberam de braços abertos, que me ofereceram a casa, me ofereceram tudo, então eu saí, deixei minha família e cheguei e encontrei São Paulo de braços abertos pra me receber. Gostaria que isso pudesse ter acontecido pra tantos outros, mas foi uma exceção maravilhosa que me foi feita e que eu agradeço até hoje.

 

P - E como que foi a sua entrada na Light, conta pra gente.

 

R - Pois então, aí nós viemos aqui no mês de dezembro, fizemos os contatos e a empresa... aliás em novembro nós viemos, em dezembro a empresa Light mandou a de Juiz de Fora um diretor, por nome Costa Neto, era o diretor da área de distribuição, e ele chegou e procurou saber quantos alunos estavam se formando e naquela ocasião me parece que era um número de 38. Formavam-se em eletrotécnica, 38 e máquinas e motores que era outra especialidade que não me lembro o nome. Olha, a Light manda então, confirmar a oferta feita de que contrataria todos pra um estágio e aqueles que efetivamente fossem aprovados iriam então permanecer dentro da empresa. Eu diria que nós viemos pra cá uns 35, por aí. Então, do nosso grupo a grande maioria veio, alguns não ficaram, mas daquele grupo pelo menos uns 28 estão aí até hoje, né, nos mais diversos setores da empresa. E aconteceu um fato interessante, porque nós viemos pro estágio e chegamos aqui, nós fomos fazer os exames, naturalmente que todos faziam, e durante um processo de seleção do RH [Recursos Humanos] alguém chegou e falou assim: "Olha, eu quero dizer que vocês aí devem fazer só a entrevista, não adianta querer fazer uma prova prática porque a Escola Técnica de Juiz de Fora e a única escola do Brasil que tem usina e subestação, então esse pessoal é um pessoal já formado, já pratico, inclusive vai estar pronto pra trabalhar e não vamos ficar com muitas formalidades". Nós estávamos fazendo os testes e alguém chegou e falou isso, eu nem sei quem é esse até hoje, mas achei interessante a forma como foi colocada. Então nós acabamos fazendo naquela ocasião um exame de entrevista e as pessoas queriam saber, de fato algumas coisas sobre o processo técnico, sobre o que nós estudamos, o que não estudamos, o que tinha e o que não tinha e fizemos os exames médicos e aí fomos perguntados com uma grande liberdade que existia em função da deficiência de técnicos neste país, "Você quer ir pra que lugar, você quer ir pra onde? Um quis ir para o interior, outro quis ir para Sorocaba, né, outro ficou no Vale do Paraíba e eu lógico, minha opção foi: "Não, quero ficar em São Paulo". E aí ficamos em São Paulo com o compromisso de fazer o estágio de um ano, que era a regra colocada e mesmo no contrato de experiência e no final de fevereiro, nós fomos convidados a não permanecer como estagiário, mas permanecer como funcionário como auxiliar técnico. E até que depois em dezembro, quando aí sim apresentamos o estágio, os relatórios na escola e recebemos a formação, no próprio mês de dezembro nós fomos então classificados como técnicos dentro da empresa e nela fizemos toda a nossa carreira, como técnico passando pelos, diversos setores, pelas diversas escalas de cargos que a empresa mantinha dentro de seu plano.

 

P - E como que era a Light nessa época, sessenta e quanto...

 

R - 1967.

 

P - 1967. Como que era a Light em 1967?

 

R - Olha, é uma coisa interessante. É eu diria que a experiência que eu tive com a Light, e experiência que eu tive com a Eletropaulo, tem sentido diferentes, no caso da Light existia toda uma grande preocupação que envolvia o processo tecnológico. E esse processo tecnológico existia na seguinte linha: ela buscava o aprimoramento, queria que você fizesse e executasse com segurança e com, e bem, todo o processo de equipamento, de manutenção, de instruções que você tinha que fazer. Então existia uma preocupação muito forte com a formação e de responsabilidade de cada um dentro da empresa. Lamentavelmente isso começou a sofrer uma deterioração, eu diria pra ti em 1973, quando começou aquela onda de que a Light vai ser comprada pelo governo então aí a gente começou a sentir alguns problemas mais sérios que foi uma modificação de padrões de trabalho dentro da empresa, eu não diria de filosofia, mas de padrões, quer dizer já não havia aquela... aquele investimento, a empresa não parou de investir, deixou-se sucatear. Então a empresa começou a não fazer investimentos, por outro lado, começou-se a adaptar situações inseguras que não era o normal dela de trabalho, por exemplo, você pegar o transformador, você ia colocar esse transformador em serviço, havia uma preocupação técnica de fazer as bases de concreto bem feitas e tudo mais. Então o processo levou com que se colocasse transformador em cima de dormentes, porque não, é uma coisa provisória, mas não era, já era um estágio de que se discutia esse processo de venda da empresa então existia um processo de não aplicação, e isso começou a ter interferências com o próprio comportamento técnico também do pessoal. Então você teve uma formação muito forte, uma formação de responsabilidade num determinado momento você tem então, digamos assim, uma queda dessa qualidade em função de que existiu ou passou a existir uma previsão de que a empresa seria comprada pelo governo, e por tanto, não havia interesse, essa é a realidade, de fazer investimento ou de trabalhar com os mesmos princípios embora aparentemente eles acontecem, praticamente eles não aconteciam. Em contrapartida, eu diria que o aspecto social, dentro de um aspecto moral, de firmeza, você falava que trabalhava na Light, você abria qualquer porta em São Paulo, sabe? Então ninguém te pedia um documento para você abrir um crediário, pra você fazer esse... tinha de ser um funcionário da Light, da Light acabou. Muito bem, mas por outro lado os aspectos sociais a empresa não tinha as preocupações, você não tinha um plano de saúde, sabe? Você tinha de se virar nas filas de IAPC [Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários] e IAPETEC [Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Estivadores e Transportes de Cargas] que era o que existia na época depois do INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], efetivamente, quer dizer, hoje, que seria o equivalente a isso. E você também não tinha preocupações com benefícios sociais, não era um processo da empresa, a questão salarial. Era uma questão, ela pagava dentro das questões de mercado, não tinha nenhuma situação excepcional. Existiam sim empresas como a Furnas, empresas como a Eletrobrás que eram empresas do governo e que os salários eram maiores do que da própria Light, certo? Mas existia de qualquer jeito uma segurança profissional, as pessoas... e também não era uma empresa que tinha o hábito de treinar ninguém pra depois ficar despedindo ou mandando embora, quer dizer, ela investia tecnicamente, mas ela não tinha nenhuma preocupação social de te dar uma cobertura médica, de te dar ganhos sociais, então isso sim marca o novo momento da Eletropaulo. Quer dizer, quando a Eletropaulo passou a ser uma empresa do governo federal e primeiro a Light ainda como governo federal. Depois passando ao governo do estado, efetivamente aí sim, você teve conquistas sociais, você teve conquistas, digamos assim, que refletiam a cada momento é um momento. Nós temos passados por nosso país por conturbadas situações políticas, econômicas, sociais. E que tudo que leva a um processo de busca, um processo de luta, está muito ligado ao momento, não é? Quer dizer, hoje se discute outra coisa, se discute a privatização de novo do setor elétrico. E aí a gente coloca, eu que tenho a experiência de ter trabalhado no setor privado e no setor estatal, não tenho nenhum receio e nem acredito que os nossos trabalhadores tenham receio de trabalhar dentro de um processo de empresa privada. O que nós não acreditamos é a forma como as coisas estão sendo levadas atualmente. Quer dizer, se nós fomos privados e o governo entrou, foi porque a iniciativa privada não teve competência e capacidade de gerar aquilo que ela precisava a nível de crescimento do setor energético. Querer hoje, devolver à iniciativa privada o que aí está é um desrespeito total ao investimento da própria sociedade, sabe? Então, pegar essas empresas hoje e privatizá-las, não é resolver o problema. Porque veja bem, um detalhezinho interessante, quando a Light foi privatizada, ela recebia como tarifa, 82 dólares por megawatt/hora. Hoje o megawatt/hora é vendido pelas empresas a 57 dólares. Isso é uma diferença fantástica. Entretanto, mesmo assim, elas alegavam que as tarifas eram insuficientes aquelas coisas todas. E hoje dentro deste processo que nós estamos vivendo, nada mais é do que de fato doar o patrimônio público. E aí eu digo, a gente precisa de investimento, a gente precisa crescer, mas nós precisamos do dinheiro em novas obras. Nós não precisamos do dinheiro pra vir aqui pra comprar a Eletropaulo, pra comprar a Light, pra comprar a Copel, pra comprar a Cemig. Essas estão produzindo, tragam o dinheiro, vamos investir, vamos fazer com que Roraima, Rondônia não tenham energia 2, 3 horas por dia. Vamos lá fazer usina, vamos fazer distribuição, vamos fazer subestação, vamos ser dono de tudo. Agora, se traz esse dinheiro pra cá e compra as empresas que aqui estão, o quê que vai acontecer? Onde vai ter mais dinheiro pra investir? Não vai resolver comprar empresa, nem energia, de distribuição de energia na Paulista, é um negócio gostoso. Então, é preciso que a gente tome cuidado com esse momento. Então são diferenças que nós tivemos da época Light, que ficou com a questão da Eletropaulo, e com a questão, hoje, de um novo momento é, que se discute muito dentro desse processo de privatização. E aí é preciso também que a gente coloque uma opinião nossa, que o grande problema disso é administrativo. O governo do estado, ou governo federal, ele infelizmente, eles usaram as empresas de um modo que elas perderam aquela atividade fim delas. A empresa de energia elétrica, vamos falar de uma Eletropaulo, ela está distribuindo energia, a finalidade fim dela é distribuir energia. Como é que quem dirige uma empresa dessa pode deixar faltar medidor. Então eu ligo 150 mil consumidores e não tenho medidor pra colocar? Isso é um processo irresponsável de quem administra. E por que acontece essa irresponsabilidade? Porque os governos que aí estão, eles tiveram uma preocupação irreal. Eles procuraram lotear as empresas através de acordos políticos, pra poder então, através disso ter composições e essas composições me permitirem defesas de interesses outros que não são aquelas lícitas e que devam ser colocadas pela empresa. Eu tenho dito e como os diretores não me processaram ainda, eu vou continuar sempre falando, até porque eu não tenho como provar. Mas eu digo que, terceirização dentro da Eletropaulo, dentro da Cesp é uma mala preta, porque como é que eu vou saber se tem 10 mil contratados ou se tem 2 mil. Eles falam que pagam por 10, mas eu não tenho como controlar. Como é que eu vou saber, esses contratos subfaturados.... que existem aí, superfaturados mesmo, entendeu? Eu não tenho como provar. Agora, eles também abram... armam suas defesas no Tribunal de Contas. Então quer dizer, o nosso país, infelizmente, não vai resolver um problema dele privatizando nada. Pelo contrário, ele vai criar maiores problemas. Nós criamos a coisa que não existe no mundo, Tarifa Social. Nós damos isenção para o pessoal da favela que tem até 30 Kwhs. Duvido que a iniciativa privada vai querer trabalhar com isso, duvido, que nós vamos manter um processo social de eletrificação por aí à fora. Duvido que nós vamos manter um processo de eletrificação rural, levando energia longe onde tem que levar pra produzir a agricultura e tudo mais. Então, é preciso que a gente tome muito cuidado com esses jogos de interesses que estão existindo nesse momento. E aí nós vamos fazer o seguinte: corremos o risco de devolver a empresa que hoje é filé-mignon e amanhã o governo ter ir lá e falar "Tudo bem, me dá os ossos de volta pra cá." [risos]

 

P - Enir, eu queria só que você falasse um pouco sobre sua carreira dentro da Light-Eletropaulo e como foi esse início de... como foi esse seu início... sua entrada no movimento sindical e tudo.

 

R - Perfeito. Olha, eu quando entrei na empresa, eu fui trabalhar na diretoria de operação. É esse processo... primeiro nós passamos por um estágio de conhecer a empresa que foi uma coisa muito importante, na época Light. Então nós entramos na diretoria de operação, mas nós circulamos durante um programa que foi montado, praticamente, durante um ano, a gente não tinha uma responsabilidade específica de trabalho, mas você tinha a responsabilidade de por onde você passasse, você fizesse de seu estágio uma atividade prática e você tinha como responsabilidade complementar o relatório de tudo aquilo que você fez naquele mês, do que você viu, do que você participou, do que você sente que você pode produzir, do que você podia mudar. Enfim, você teve toda essa estrutura. Depois que nós terminamos o estágio, nós tivemos durante algum tempo trabalhando no despacho de carga, depois do despacho, criou-se aquilo que naquela época chamou-se COS [Controle de Operação de Sistema Elétrico], que era o Controle de Operação do Sistema Elétrico, e também dos níveis de reservatório que foi... foram feitos lá na Piratininga. E nós fomos pra lá e trabalhamos um tempo lá. Mas aí existia um processo de trabalhar em rodízio e eu não conseguia, porque o problema de trabalhar em rodízio, embora ele oferecesse folgas muito interessantes, durante às vezes até na semana, folgas maiores. Mas eu à noite trabalhava... durante o dia eu era um zumbi. Então eu não conseguia dormir, não consegui trocar uma coisa pela outra. Na época fui ao diretor, que era o Reinaldo Maffei, eu disse: "Olha, Dr. Maffei, eu agradeço a confiança, mas não adianta, mas não dá pra eu ficar dentro do COS. Eu posso ser um bom profissional, mas não dá pra eu trabalhar nesse sistema de rodízio e aí eu vou ter que... vou prejudicar efetivamente a minha qualidade de profissional." E, apesar da resistência dele, ele acabou concordando e eu saí e fui participar da montagem de um núcleo de treinamento dentro da empresa. Então ali nós montamos o treinamento de operadores, montamos todos os cursos que eram necessários, fizemos também, uma parte de treinamento pras usinas e inclusive também um pouco de... pra manutenção. E ficamos dentro dessa área de treinamento durante, eu diria, 3 anos mais ou menos. Depois disso, aí eu fui convidado já pra assumir, na época eles chamavam-se supervisor, e eu fui convidado pra assumir a supervisão de Operação de Estações, que eram toda... toda a parte de operadores e com as respectivas estações, com suas instruções, né, e organização do processo de treinamento. E a gente assumiu isso então, e mais tarde o interior foi agregado, porque era departamentos separados, mas o interior foi agregado e nós ficamos então com Capital e interior dentro desse processo. Ficamos aí durante muitos anos. Nessa área ficamos... nós ficamos até 1986. Em 86 pela terceira vez nós fomos convidados para participar do sindicato, na época o Magri era o presidente o sindicato e o Magri já nos havia convidado em 1978... nos convidado depois em 1980, uma coisa assim... 1982, e depois em 1986. Nós embora não tivéssemos, digamos, uma participação ativa na vida sindical, nós nunca fomos nenhum alienado. Nós acompanhávamos todo o processo político dentro do sindicato, nós acompanhávamos as questões que envolviam os trabalhadores no seu dia-a-dia, né? E dentro dessa associação, com umas realidades do nosso dia-a-dia. E acabou que em 1986 eu me senti empurrado. Não mais por um convite, mas porque os próprios companheiros... eu sentia que profissionalmente o meu mundo estava um pouco pequeno. Eu achava que eu podia fazer em termos também de operação, eu já tinha feito. Então nós éramos na época, aquilo que se chamava hoje, chefe de seção, né. E... empurrado pelo grupo de técnicos, pelos operadores que convivíamos e tudo, eu acabei ficando meio sem saída, "Não, você tem que ir para o sindicato, a gente quer que você vá." E isso virou um entra e sai de todos os dias chegar alguém, chegar um grupo, em grupos organizados e nós colocaram essa posição. Então, diante disso, nós acabamos aceitando esse desafio de participar desse processo sindical e fizemos parte então dessa chapa de 1986. Iniciamos então um novo momento, um novo desafio, com algumas decepções, com algumas situações. Por quê? Porque eu, eu conhecia o movimento sindical de fora. E aí eu fui conhecer o movimento sindical lá dentro. E muitas barreiras efetivamente existiram e essas barreiras nem sempre estavam de acordo com a nossa forma de ver, com a nossa forma de entender, mas era assim que funcionava, e pra mudar isso, e pra mexer com isso. Como é que tinha... que se fazer. A nossa visão administrativa não era aquela, a nossa visão sindical passava em que o trabalhador tinha o direito de inclusive se organizar no aspecto tão combatível e que hoje os sindicatos estão buscando essa posição social. Quer dizer, eu defendo que o trabalhador tem que organizar o sindicato ele tem que ter dentro dele aquilo que ele quiser ter. Se ele quer ter médico ele tem que ter, se ele quer dentista ele tem que ter, se ele tem que ter farmácia ele tem que ter. E hoje a gente vê que nós estávamos no caminho certo, porque o que os outros sindicatos nos procuram, buscando, né, é "Puxa como é que vocês fizeram isso, ô, como é que você fizeram aquilo, de onde vem o dinheiro?" está aqui, não tem segredo. Que quer dizer, então tudo isso foi um processo muito interessante. E o nosso sindicato hoje, está aí dentro de uma situação que foi de fato, dentro de um processo de remodelação. Porque quando chegou 1989, cumprido os 3 anos, na época então o Magri não mais se candidatou a presidente do sindicato e foi exercer a função de presidente da CGT (Comando Geral dos Trabalhadores). E houve uma divisão dentro do sindicato. Divisão essa que hoje, a gente entende até que ela foi plantada, certo? Plantada pelo o meu companheiro Magri mesmo. E isso levou a que você tivesse 3 chapas. E quando você racha uma chapa da situação para disputar uma eleição, com um grupo organizado, que era o pessoal da CUT {Central Única dos Trabalhadores]. Efetivamente, não era uma coisa muito fácil. Então, tivemos uma eleição que teve que ir para o segundo turno e no segundo turno nós ganhamos essa eleição por uma pequena margem. Ora, você ganha uma eleição por uma pequena margem. Você aí começa a ter seu grande desafio. E qual foi esse grande desafio? Era fazer de fato, uma administração, que você pudesse ter consigo, pessoas que você fazia uma assembléia e você não sabe quem é que está, quem é que não está. Então o quê que aconteceu? Teve uma eleição que nós tivemos 51% dos votos e a oposição teve 48. Então, era um negócio, e foi um negócio realmente extremamente dividido, e nós durante 3 anos procuramos administrar o sindicato, procuramos implantar aquela filosofia que a gente acreditava, né, de participativa, envolvendo a categoria, novos caminhos, novas formas de entender de ver isso. Que seriam então para as próximas eleições aí sim a resposta. E o que nos mostrou que nós estávamos certos. Que nas eleições de 1992 nós tivemos 82% dos votos contra 14 da oposição. Então o que mostrou que a nossa forma de 86, já quando assumindo o sindicato, não concordando com algumas coisas, querendo reformulações, querendo uma nova forma. E que desses anos que nós assumimos o sindicato de 1989 pra cá. Meu Deus, o que nós passamos de problemas políticos, social e econômico que está aí, perseverando cada vez mais lamentavelmente e vamos entrar agora. Eu não tenho dúvida, a partir do próximo acordo coletivo, numa das mais difíceis lutas que nós vamos ter. Em todos os sentidos, por tudo aquilo que nos espera, a gente está com esta visão. Mas isso mostra que foi extremamente importante a nossa ida e a vida ela é feita sempre de desafios. Eu acho que a gente com isso aprendeu que a gente deve reclamar não inclusive de alguns tropeços, de algumas coisas que a gente possa ter feito e que não deveria ser aquela melhor forma, melhor caminho. Mas a gente aprendeu também que a gente deve reclamar sempre por não ter feito, sabe? E daquilo que foi feito, se não foi bem feito, que tiremos as sugestões para nós mesmos adequarmos ao melhor caminho. Então, foi, tem sido, um desafio muito grande a vida sindical e eu só lamento que ela nós roube um pouco de casa e a gente perca um pouco o contato tão maravilhoso que normalmente a gente possa ter dentro da família.

 

P - É, só... eu queria te perguntar uma coisa. Essa questão... os cargos que o senhor ocupou em 1986, 1989, e atualmente, só gostaria que o senhor falasse que cargos são esses.

 

R - Perfeito. Veja bem, eu como disse entrei na empresa como técnico...

 

P - Mas não, desculpe, é no sindicato.

 

R - Ah, tá, no sindicato. Bem, no sindicato eu entrei em 1986 como segundo tesoureiro e de 1986 a 1989 então, essa foi a minha posição, segundo tesoureiro. E de 1989 para cá a gente tem ocupado a presidência do sindicato e junto com os companheiros de chapa, né, nos seus diversos cargos, procurando fazer um trabalho bastante dividido. Porque eu não acredito no uno, eu acredito no grupo, sabe? Então, quando você tem um grupo e esse grupo sabe da sua potencialidade e daquilo que ele pode realizar, o trabalho é mais fácil. Se eu quisesse ser... administrar o sindicato, administrar os problemas, administrar a categoria sozinho, eu acho que eu já estava meio doido.

 

P - Aproveitando que você falou da sua família, eu queria que a gente voltasse um pouco agora que você contou como conheceu a esposa e tal. Como é que foi esse namoro, casamento, se você tem filhos...

 

R - Pois é, eu... esse namoro ele durou digamos uns 5 anos, né? Durou 5 anos, de 1967, de janeiro de 1967 até... depois eu vim embora pra São Paulo. E... tivemos uma fase natural de interrupção, eu estava aqui em São Paulo, ela permaneceu lá. Mas em 1972 nós nos casamos. Deste casamento nós temos 2 filhos, Rodrigo que está hoje com 21 anos, está fazendo Economia, está na quarta série de Economia. Temos Rafael com 17, está fazendo segundo grau, adora uma música, adora tocar um piano, um violão é com ele mesmo, né? Enfim, essa... essa situação nós leva hoje, minha esposa tem uma escola junto com mais 4 amigas, Centro de Educação Posto Visconde na Pompéia, e eu diria que foi um processo e tem sido um processo sempre muito importante, de também no âmbito familiar, daquilo que a gente tem procurado e conseguido conquistar, ter sido assim fruto desde processo, dessa união e dessa integração.

 

P - Agora vamos voltar um pouquinho aquela questão da... da Light. E como é que era o lazer? E qual foi assim a sua participação na ADC [Associação Desportiva e Cultural], se você participava, se você participa atualmente.

 

R - Olha, quando nós entramos na Light, existia alguns clubes separados. É... eu diria pra você que eu fui um daqueles que fez parte de... que haveria uma necessidade de que essas agremiações existentes, elas se dispusessem, através de seus... das suas diretorias a se encontrarem, a se conversarem e a buscar uma organização única para a empresa como um todo através de uma entidade. Então... isso depois de algum tempo acabou por acontecer, muito embora eu não tenha feito parte da diretoria da ADC, eu diria que a gente sempre acompanhou, a gente sempre esteve de alguma forma ligado, e... se não diretamente, porque até que a ADC quando ela passou a existir, quando houve o consenso possível que levou a existência, ela passou a ter uma diretoria. E essas diretorias vieram então dentro de um processo, realizando digamos assim o seu trabalho. Houve um momento, se não me falhe a memória, na segunda gestão da ADC que a gente ficou um pouco preocupado, porque ela estava se... desvirtuando-se. Ela recebeu uma visão de que ela poderia ser usada politicamente. Então, alguns companheiros da base, integrantes de segmentos partidários, acabaram tendo uma gestão na ADC e isso caracterizava essa vontade do uso dela, não como um instrumento pra organizar a condição de lazer tão importante para os trabalhadores, mas sim como uma coisa que poderia render frutos e dividendos políticos àqueles segmentos, dentro daquele que se buscava. Eu me lembro, não sei te afirmar o ano, que houve uma eleição extremamente disputada. E essa eleição o companheiro, Takeo hoje presidente ainda da ADC, ele era candidato, e se não me falhe a memória ele ganhou por um voto a eleição. Eu estava na Xavier de Toledo, a votação era lá na Brigadeiro, e no finzinho da tarde nós estivemos lá, fomos lá com mais alguns companheiros, houve a votação, depois houve a apuração e tudo e foi um negócio duro, uma eleição por um voto não é um negócio, brincadeira, né. Então houve, o pessoal querer recontagem de votos, depois recontagem, está bom então vamos recontar, mas houve essa vitória do Takeo. Então, nesse momento, eu acho que eu me aproximei mais, eu estive mais junto, eu me integrei mais, isso devia ter sido... não sei se... mas acho que foi por volta de 1984 uma coisa assim, sabe. Mas dali pra frente, embora então a gente continuasse não fazendo parte da ADC, mas a gente tinha um grupo de amigos, voltado a realmente fazer um trabalho, organizar esse trabalho, organizar a ADC e fazer com que ela pudesse de fato atingir os objetivos para qual ela foi criada. Agora, é evidente que a gente tem que ter clareza de uma coisa, criar alguma coisa não é tão simples. Fazer o nada virar algo, não é simples. Então, nós todos, eu diria assim, trabalhadores, funcionários, companheiros, a gente às vezes tem um certo imediatismo de querer ver aquilo acontecer, "O diacho, essa coisa está demorando, aquilo outro está demorando. Mas a gente precisa ter uma realidade de divisão, de uma empresa como a Eletropaulo, que tem na sua base 74 municípios, e que tem uma necessidade de lazer em toda ela. Por qualquer lugar que se comece o empreendimento de atender aquelas condições básicas do lazer, onde não estiver sendo naquele momento priorizado, isso traria alguns problemas. Então eu entendo até, que a ADC tem realizado hoje um grande trabalho, porque ela conseguiu estabelecer desenvolvimentos de obras na capital e no interior, criando alguns lugares, já digamos assim, postos fixos que pertencem a própria ADC e outros, obtendo áreas, obtendo situações pra poder de fato montar. Não é uma coisa simples, é uma coisa que vai... esse trabalho da ADC é um trabalho que eu entendo dos mais importantes a níveis de organização social para o trabalhador. Porque quando eu faço as discussões políticas, por exemplo, da cesta básica, eu coloco na cesta básica, uma cerveja. "Por que quê você coloca uma cerveja?" Porque não tem cabimento o trabalhador trabalhar igual um camelo e chegar no domingo não poder tomar uma cervejinha. Eu coloco no custo da cesta-básica, coisas que não levam em consideração. O ingresso do futebol ou do cinema. Minha esposa não quer ir no futebol, mas ela quer ir no cinema. Então é um direito desse trabalhador, dentro dessa composição poder ter essa forma de ver. Então o que quê eu quero dizer com isso: é que o lazer pra mim ele faz parte de um processo de cesta-básica dentro da vida de cada cidadão. Então, aí é que eu vejo, e digo o seguinte: ela é vida. A ADC é parte integrante, importante e fundamental dessa condição de viver de cada trabalhador e poder ele ter seu lazer no fim de semana. Então, acredito ainda que a missão dela é muito grande e ela sem dúvida alguma, nunca vai conseguir terminar a sua obra. Ela será sempre uma obra interminável e seguramente ela vai ter sempre o que fazer e o que criar para que possa essa família de trabalhadores como um todo, ter como desfrutar.

 

P - E seus filhos, a sua família frequenta a ADC, as piscinas... a piscina?

 

R - Olha, não tem essa oportunidade. Por que isso não existe? Porque eu moro num bairro, na Pompéia e moro pertinho do Palmeiras. Então fiquei... eu fui uma pessoa que fui sócio do Palmeiras e eles se acabaram por se criar ali dentro do clube. Mas isso se deu em função dessa facilidade e tudo mais. Mas... dos eventos que existem, por exemplo dentro da ADC, eles quando menores sempre participaram. Hoje, eu diria pra você que aos 17 anos um, 21 o outro, cada um tem a sua... sua vida praticamente formada e no fundo, no fundo, hoje nós damos peruadas [risos]. Então você perua pra um, perua pra outro. Mas eles conhecem, porque em casa se conversa e entendem perfeitamente essa existência de vida da ADC. Se você falar na minha família, pra minha esposa e para os meus filhos da ADC, eles sabem o que é e saberão te dizer o que ela faz.

 

P - Agora, só pra gente já ir concluindo o depoimento, eu gostaria que o senhor fizesse assim uma avaliação da importância desse projeto, do... seu depoimento para esse projeto, pra memória do lazer e do eletricitário na Eletropaulo.

 

R - Olha, eu sou uma pessoa que defenderei sempre que não pode existir povo sem história. E se não pode existir povo sem história, o mesmo não há como separar do trabalhador, e não há como separar da ADC. Eu insisto em dizer, da importância fundamental que tem a ADC na organização do processo e digamos assim social desses trabalhadores. É preciso dar o lazer, é preciso organizar, é preciso que ele de fato exista. Agora, também, é verdade o seguinte, nós lamentavelmente temos no nosso Brasil o hábito de não escrevermos a nossa história, de não escrevermos o nosso ontem pra ficar para o nosso amanhã. E já tivemos um processo de revolução num passado, onde a história não corresponde às realidades daquilo que nós sempre estamos aí vivendo. Agora, entendo o seguinte, acho que o trabalho que está sendo feito nesse momento é maravilhoso. É um trabalho que me permitam vocês dizer. O sindicato dos eletricitários faz 50 anos no dia 4 de setembro de 1945. Nós também sentimos que estamos sem história, nós também estamos sentindo que estamos sem memória. E nos permitam dizer a vocês o seguinte: vocês podem terminar esse trabalho que depois nós vamos plagiar, no bom sentido, e vamos fazer a memória do nosso sindicato também. Eu acho que com isso, eu coloco o sentido da importância que eu vejo esse trabalho da ADC, porque realmente ele é maravilhoso e vocês estão de parabéns.

 

R - Muito obrigado, Enir.

 

P - Opa, eu é que agradeço essa oportunidade.

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