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História

Entre a história e a memória: conquistas do neto de dona Genoveva

História de: João Luís Veronezzi Pacheco
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/10/2011

Sinopse

As lembranças de uma infância com carinho de mãe e cuidados de vó, brincadeiras e escola. Memórias corriqueiras - andar sozinho, de trem, menino ainda, para cuidar da avó que cuidava dele; ir a pé para a escola; o cinema com a mãe; “viagens de família”, eis o formato de idas ao litoral. Memórias lúdicas - as histórias que a avó contava. Memórias de pavor - dois acidentes, experiências de quase morte. Memórias afetivas - primeira ida ao museu; a casa da avó, sua casa desde sempre; determinadas professoras; comida de vó, a carne louca que o enlouquecia. Memória eterna - a viagem ao Canadá. No rol das conquistas - precoces, diga-se de passagem - estão a Faculdade de História e a coordenação do Museu de Osasco. Tem sonhos, tem projetos e sabe que tem perspectivas de realizá-los. São das esferas profissional, acadêmica e pessoal. Tem orgulhos justificados - o maior deles, certamente, um projeto de laboratório de conservação e restauro que conseguiu aprovar para o museu, fruto do comprometimento e da doação, que é como define sua atuação no campo da preservação da memória.

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Como em tantos outros lugares, naquele havia uma padaria. Como em tantas outras padarias, naquela havia um português. Como em tantos outros encontros, naquele que se deu entre a mocinha e o homem da padaria, deu namoro. Por cinco anos. Como em tantos outros namoros, deu casamento. Por dois anos. Nesse meio tempo, eu nasci: poucos meses antes do casamento acabar. Ou, mais precisamente, em 3 de agosto de 1989. Fui criado pela minha avó materna, porque minha mãe precisou ir à luta. Tudo isso em Osasco, São Paulo.

Já conheci minha avó idosa e um pouco doente. Desde cedo, peguei ônibus e trem, sozinho, pra comprar remédio e marcar consulta. Ela cuidava de mim e eu cuidava dela.

Mas havia uma contradição: pegar ônibus sozinho eu podia, ir a pé pra escola não. Minha mãe acabou com isso: “Ele precisa ser independente”. E, na escola, eu sempre me dei bem com todos, apesar de ser meio ‘nerd’ - mas lembro que evoluí: a partir da oitava série, virei um ‘nerd’ popular. A propósito, a escola, e particularmente algumas professoras, contribuíram muito para eu amadurecer.

Eu era assim meio bebezão. Mas também, pudera: criado por vó...

Lembro de muita coisa boa na infância: as brincadeiras na rua; os meus aniversários com muita carne louca feita pela minha avó; ir pela primeira vez a um museu, ao cinema, à escola; ouvir as histórias que minha avó contava sobre a infância dela, com um detalhamento incrível. Mas tenho duas más lembranças também: uma, criança ainda, foi uma queda de um muro - cinco metros; a outra, já adolescente, uma queda durante uma trilha que, por milagre, não me custou a vida em um precipício. Outra recordação muito forte é da minha casa, sempre a mesma desde sempre; conheço-lhe cada detalhe, até os cheiros, as reentrâncias, os defeitos - descobri, durante uma obra, que tem paredes feitas de blocos assentados no barro.

Durante o ensino médio, fiz um curso de Informática, dos mais completos. E Inglês eu sempre estudei - primeiro, pago pela outra avó; depois com bolsa integral. Pois bem, essas duas habilidades me levaram a ajudar a Associação dos Diabéticos de Osasco, com patrocínio do Rotary Club. De alguma maneira, meu trabalho chamou a atenção da presidenta do Rotary e ela me ofereceu fazer um curso, depois uma prova e, por fim, um patrocínio. Pronto, lá estava eu a caminho de participar do RYLA - Prêmio Rotary de Liderança Juvenil. Foi uma experiência extraordinária, principalmente porque aconteceu em Montreal, Canadá. Ao retornar, tornei-me monitor dos novos ‘rylenses’, com a incumbência de passar para eles o que aprendi, o que vivi em todo aquele período.

Fiquei lá, acomodado por três dias, e depois passei mais dezenove dias no Canadá, viajando com uns amigos que fiz no curso.

Bom, aí chegou aquele momento crucial de decidir o que seguir, que curso fazer, que carreira abraçar. Sempre gostei do magistério, e pensei na licenciatura. As áreas? Geografia ou História. Aí fui examinar mais a fundo o magistério, escolhi ser bacharel. Fiz Geografia na USP, não passei. História na Unifeo, entrei. Então, é por aqui mesmo. Só que a minha mãe teve que arcar com quase todo o curso, que a questão de estágio não deu muito certo. Tornei-me historiador. Na verdade, tive até proposta para estagiar no Museu Lasar Segall, mas tive que declinar por incompatibilidade de horários. O fato é que passei a frequentar arquivos de História, centros de memória, procurei me infiltrar na área de museus, e nada; descobri que o segmento de museus, por exemplo, é extremamente fechado, os processos de seleção são rigorosos, e todo mundo se conhece, se ajuda, fica difícil entrar alguém de fora. Nisso, atravessou o meu caminho aquele ente caprichoso, imprevisível, chamado acaso.

E eu, surpreendentemente, cheguei ao Museu de Osasco. Agora, pasmem: como coordenador! E, aos 21 anos. Desde então, vivo com esse museu, que cuida do patrimônio material de Osasco e eu vou me esforçar para que, em breve, passe a cuitar, também, do patrimônio imaterial, uma história de entusiasmo, entrega, comprometimento e doação. Coordeno todas as atividades e, se for preciso, executo-as também, como já demonstrei no episódio de uma exposição, em que, literalmente, botei a mão na massa. Lá eu sou conservador, Curador e o mais que houver. Trabalho com a ideia de que os louros devem ser divididos - tenho uma pequena equipe, fantástica - mas os espinhos não, devem ficar com o chefe, digamos assim. Porque se alguém deixou a desejar, muito provavelmente foi porque ele, chefe, não esteve atento. Espero que o Museu de Osasco seja só o início da caminhada e que eu deixe um legado do qual me orgulhe, como por exemplo, o laboratório de restauro e conservação que consegui projetar e fazer aprovar. O maior louro que já colhi - e dividi - até agora.


Editado por Paulo Emilio Rodrigues Ferreira

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