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História

Então valeu a pena a luta!

História de: Girlândia Pires Pereira
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/02/2021

Sinopse

Infância na fazenda, em Belmonte. Lembrança e relação com os pais e irmãos. Colheita de cacau. Mudanças de cidade para estudar. Contato, através da Igreja, com a questão agrária. Tempo no convento, em outros estados. Ida para Guaiú. Trajetória como professora. Participação no projeto Pescando com Redes 3G. Relação com a comunidade.

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História completa

Projeto Santa Cruz Cabrália e Belterra – Memória e Vida de seus Moradores Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Girlândia Pires Pereira Entrevistado por Márcia Trezza e Sarah Faleiros Santa Cruz Cabrália, 31 de Agosto de 2012 Código: SCCB_HV010 Transcrito por Ana Luiza Guedes Ferreira Revisado por Sofia Tapajós P/1 - Girlândia, pra gente começar, qual é o seu nome completo? R - Girlândia Pires Pereira. P/1 - E onde você nasceu? R - Eu nasci em Belmonte. Eu nasci na fazenda Oiteirinho, né? No município de Belmonte, mas sou Belmontês mesmo. P/1 - Em que dia? R - 28 de novembro de 1968. P/1 - E você lembra o nome dos seus pais? R - Lembro! P/1 - Qual que é? R - João Pires Borges e Maria da Ajuda Alves Pereira. P/1 - E o que eles faziam? R - Meu pai era agricultor. Os dois, né? Já era na época do cacau, eles tinham uma pequena rocinha de cacau e trabalhavam com cacau; na agricultura, com cacau. P/1 - Qual lembrança você tem deles? R - Ai, eu tenho boas lembranças de meu pai. A formação, a honestidade, o caráter, então isso me faz lembrar muito ele, né? Ele batia muito nessa tecla: tem que ser sério, tem que ser honesto no que faz. P/1 - Mas você lembra, assim, de como era a sua relação com ele? Algum caso que você possa contar pra gente... R - Lembro... minha mãe era mais de trabalhar, sabe? Ela exigia que a gente estudasse, mas não era de “muito estar junto” não. Ela não sabia ler, ele sabia ler um pouco, então ele... a gente trabalhava o dia no cacau, por exemplo, ajudava de manhã, era um grupo grande de irmãos, uns estudavam de manhã e outros à tarde. No meu caso, eu estudava a tarde, então de manhã eu trabalhava no cacau com eles. Aí a tarde, meio dia, vinha pra ir pra casa, pra ir pra escola e à noite, que eu lembro muito forte, assim, porque era com candeeiro, ele sentava e fazia os “para casa” junto com a gente. P/1 - Ah, o dever? R - É, a lição de casa. Era ele que sentava e fazia junto com a gente. Pegando na mão... naquela época tinha que pegar na mão, ele pegava da gente. Então essa, assim, eu lembro muito forte dele, do meu pai. P/1 - E a sua mãe? R - Minha mãe já era um pouco brava, não era? Mas o que eu lembro dela era a luta que ela tinha pra gente vencer, pra gente não ficar na roça, não tomar caminho errado. Então tinha que estudar. Então tenho muita essa lembrança muito... minha mãe ainda é viva! Minha mãe mora em Belmonte. P/1 - E você falou que tinha muitos irmãos, quantos eram? R - Nós éramos sete. Não, nove! Morreram duas, duas meninas e ficamos em sete hoje. Quatro mulheres e três homens. P/1 - E como é que era a casa, a rotina com os irmãos, na infância? R - Ah, era boa demais! A gente morava na roça. Tanto que tava lembrando com meus filhos: ontem tava até cozinhando uma abóbora, que era o café da manhã nosso. Abóbora, banana cozida com peixe assado, frito, né? E todo mundo trabalhava também. Então eu sou um pouco até dura hoje na questão da malandragem - desculpa o termo, não sei se é esse o termo-, mas é que a gente trabalhava muito. A gente brincava, na hora de brincar, a gente dentro do Jequitinhonha. Jequitinhonha era a nossa casa, era o rio. Então a gente fazia daquele Jequitinhonha... deitava como se ele fosse cama e fazia a nossa brincadeira dentro do Jequitinhonha. Toda a parte da nossa infância foi dentro nesse Jequitinhonha brincando, pescando, a gente montava a cavalo, a gente trabalhava, a gente brincava com os animais, com galinha, com tudo... A gente tinha uma vida muito boa. P/1 - Você brincava mais com os seus irmãos mesmo? R - Com os meus irmãos, a gente só brincava com os irmãos. Porque eram pequenos agricultores, então tinham as fazendas grandes de cacau e meu pai mais minha mãe não permitiam que a gente fosse para as fazendas vizinhas brincar com as crianças. Só quando vinha ou em uma festa é que a gente brincava com as outras crianças, mas era mesmo entre irmãos as brincadeiras. P/2 - Girlândia, quando você ia de manhã trabalhar com seu pai no cacau, o que é que você fazia lá? R - A gente “bandeirava” cacau! P/2 - E como era? R - Ele colhia o cacau e a gente com um saco, com um cesto, ia juntando. Aí fazia aquelas rumas grandes, pra depois quebrar aquele cacau e tirar, que também a gente fazia essa atividade, de tirar o cacau. P/2 - Quebrava lá mesmo? Tinha que trazer pra casa? R - Não, quebrava lá mesmo! Aí passava o dia nisso de quebrar o cacau, a gente passa o dia e ia revezando, né? Quem estuda, fica de manhã... quem estuda a tarde, fica pela manhã, quem estuda de manhã, fica à tarde. Mas sempre a gente estudou! Uma coisa assim, que eu lembro deles, é essa questão: fazia questão de que a gente estudasse. Então lá todo mundo estudou. P/1 - E onde era a escola? R - A escola era numa fazenda vizinha. Acho que até dois anos atrás ainda tinha a escola lá! Era uma escolinha de tábua e os donos derrubaram, fiquei com uma dó que derrubaram lá a nossa escola. Mas ainda tinha essa escola. P/2 - E como é que você ia pra lá? R - A gente ia... era perto, que era uma fazenda bem próxima, né? Acho que um quilômetro, dois quilômetros, pertinho. A gente ia a pé. P/1 - E quais lembranças você tem dessa escola? R - Ah... [risos] boa! A gente brigava, brincava muito com os colegas, né? Os meninos valentes, eu lembro que a gente brigava muito, trocava murro mesmo com os meninos eu, minha irmã... tinha uma Maria de Danga aqui que também ficava com a gente lá na época, que aqui não tinha a dificuldade da escola. Então eles passavam tempo com a gente, temporada com a gente. Então a gente... eu lembro muito bem, era uma infância muito boa, feliz! Ia pra escola, a gente ia pra escola, não perdia aula. Estudava... P/1 - Como era essa escola? Descreve pra gente. R - A escola era... as cadeiras eram um banco comprido, pegava de três, quatro alunos e tinha uma... ele vinha com uma tabuazinha por cima, já grudada naquele banco, que era carteirazinha onde a gente escrevia. Acho que cabia três, quatro alunos e era uma escola de tábua, né? Coberta de telha. Era de uma fazenda de uns fazendeiros. E a gente pegava e estudava lá nessa escola, pegando carona na fazenda. Até porque a gente já vinha de um desentendimento com os vizinhos, mas mesmo assim a gente estudava lá. Mas eles deixavam a gente estudar... P/1 - E como é que era essa história? R - Porque eles tomaram, né? Negócio de terra... pegaram, tomaram terra da minha família e aí meu pai com muita briga conseguiu garantir aquele pedaço ali onde a gente tem até hoje lá, onde a gente mora, uma área pequena de terra aonde a gente sempre trabalhou ali e tiramos o nosso sustento dali, daquele pedacinho de terra. Por isso a gente era meio desentendido com ele, mas a gente estudava assim mesmo lá na fazenda deles. E ele também dizia: “Tem que ser sério, honesto. Não tem que se vender, abaixar a cabeça pra eles.” P/2 - Seu pai... R - Meu pai. “Vai estudar lá, mas sempre firme e não abaixar cabeça pra eles, tem que ser sério”. P/1 - E a sua primeira professora? Você lembra? R - Era um professor. P/1 - Era um professor? R - Era... um senhor de idade, o meu. Teve uma professora também, os meus irmãos estudaram com outras professoras, mas o meu professor e de meus irmãos mais novos, meus quatro irmãos mais novos, era um senhor. Ele já bem de idade, ele era evangélico, tudo muito tranquilo. Mas naquela época ainda batia, a gente ainda apanhava. Era época da ____, da palmatória, deixava preso [risos]! P/2 - Deixava preso? Onde? R - Na sala, quando dava lição. Então se precisasse fazia isso. P/1 - Mas como é que era? Conta! Se não fizesse alguma coisa aí... R - Era, por exemplo, não fazia a lição, brigar, porque os meninos daquela época brigavam muito, as crianças brigavam, trocava murro mesmo na sala. Então ele acabava deixando preso mesmo! P/2 - Acabava a aula... R - Acabava a aula e ficava ali... P/2 - Uns ficavam... R - Uns ficavam ali... por exemplo, quem estudava de manhã, ficava até começar o outro turno! Então era um estudo..., mas a gente aprendia. Era bem tradicional o estudo, eu lembro que estudava o ABC, depois passava pra cartilha, né? E a nossa força, a nossa vontade de aprender era grande, tinha que aprender, né? Sobretudo a matemática porque era o que fazia, a gente que fazia as contas, ajudava o pai e fazia as contas do cacau. Então tinha que aprender, tinha que saber, ele cobrava muito isso. O que a gente fazia na escola, a noite tinha que passar em casa... P/2 - Passar pra ele... R - Pra ele! Então eu lembro muito bem disso, as cartilhas que, o ABC... era pouco material que nós tínhamos, né? Eu lembro que um lápis, eles compravam um lápis e dizia ó: “Não perca! ”. Aquele lápis tinha que usar até ficar pequenininho. Não podia perder, né? A gente não tinha livro... P/2 - A família que comprava? R - A família que comprava! Livro, caderno, né? Então aquilo tudo era muito bem aproveitado. Então ele era rigoroso nesse sentido, meu pai mais minha mãe. Que não podia estragar. P/2 - Quanto tempo você teve com esse professor, Girlândia? R - Nossa... eu estudei a primeira, o ABC, a cartilha... eu estudei acho que dois anos com ele, depois veio uma outra professora. Aí nos anos 1980 a gente mudou pra um povoadozinho maior. P/1 - A sua família inteira? R - Não, só eu, meus irmãos e minha mãe. E tinha minha vó também que morava com a gente, então minha avó ficava na rua com a gente e minha mãe ficava na roça trabalhando com meu pai. P/1 - E por que vocês mudaram? R - Pra estudar. P/1 - Pra estudar? R - Pra estudar... P/1 - Porque nessa escolinha pequena... R - Já não tinha mais a nossa série, já não... aí tinha que mudar pra estudar. P/1 - Aí vocês foram morar aonde? R - Em Barrolândia. P/1 - Em Barrolândia..., mas dentro de Belmonte? R - Dentro de Belmonte! P/1 - E como é que foi a vida lá em Barrolândia? R - Aí eu estudei em Barrolândia nos anos 1980, e em seguida... aí meus irmãos que moravam lá na época, ainda tinha a questão, não era? Que quem tinha condição ou tinha um familiar que terminava os estudos, tinha que ir pra Salvador, pra cidade maior! Itabuna, Ilhéus, né? Porque aqui não tinha muito estudo. Cabrália, meu Deus, Cabrália ainda é mais atrasada que Belmonte ainda! Então o que é que tinha... então minha avó que morava em Salvador, a família da minha mãe era de Salvador, então meus irmãos mais velhos foram pra Salvador. Três irmãos meus, estudar em Salvador. Aí depois voltaram pra cá. Então Barrolândia não tinha o fundamental dois, que era a quinta série. Então tinha que ir pra Belmonte. Aí em seguida eu mudei com meus irmãos pra Belmonte. P/1 - Não, mas em Barrolândia ainda... quantos anos você tinha? R - Barrolândia eu só fiquei um ano em Barrolândia, tinha 10 anos quando eu fiquei e em seguida fui pra Belmonte. P/1 - E como é que foi sair da casa dos pais? R - Difícil! É aí que a gente vê, né? As famílias perdendo os valores, suas tradições. Nessa busca de estudo a gente perdeu um pouco isso. Aí meu pai ficou mais na roça, aí já não podia estar junto dele o tempo todo. P/2 - Sua mãe ficou também... R- Minha mãe ficou também... ficava lá dividida, um pouco na roça, um pouco com a gente. E a gente começa a ver perder alguns valores, né? Mas alguns a gente sempre fez questão de cultivar, não perder mesmo, porque eram fundamentais, que eles passaram pra nós. P/1 - O que você sentia falta nessa época? R - Olha, eu sentia falta do aconchego, porque a gente era muito... ele trabalhava o dia todo na roça. E quando chegava de tarde, ainda lembro que ele levava farofa em uma lata de leite ninho e ele fazia questão de... ele almoçava e ele deixava um pouco da farofa na lata pra quando chegasse à tarde... a casa era alta, de escada, então sentava todo mundo ali, os meninos, na escada e a gente ia dividir aquela farofa. Então eu lembro, sinto uma grande falta desse aconchego que a gente perdeu, né? Da família, de estar todo mundo junto. P/1 - Vou voltar um pouquinho... como era a sua casa lá, essa sua primeira casa? R - Ela era de madeira, era de tábua... era uma casa de tábua, eram duas casas, né? Que lá ainda era uma fazenda mesmo, era uma família de fazendeiros, a nossa família. Só que aí, com essa briga do vizinho, que tomou tudo, então se dividiu. A casa que a gente morava, era a casa do empregado. Meu pai não quis morar na casa que era dos donos, na casa do dono da fazenda... Ele ficou na casa do empregado, a outra casa caiu depois, mas era uma casa alta, né? De assoalho, bem alto, ela tinha escada, uma casa muito antiga. Ainda hoje, a casa do meu irmão lá na roça, ainda é com a madeira dessa casa, né? Tem muitos anos, quase cem anos tem essa casa. Então ele aproveitou ainda hoje toda dessa madeira lá! E a gente era... por exemplo, quando eu nasci, em uma “alagação” muito grande, nasci em 1968, e a água passando embaixo da casa... P/2 - Água que vinha do rio? R - Do rio... P/1 - Porque o rio encheu, aí...? R - Enchia e passava água correndo embaixo do assoalho da casa. P/2 - Mas não chegou a entrar? R - Dessa vez não entrou não! Mas em 1978 entrou. Entrou que a gente teve que sair da casa. P/1 - E sempre acontecia isso? R - Sempre acontecia isso! Era natural pra nós. P/1 - E o que é que vocês faziam quando... R - Pra nós era uma alegria! Pescar, ver a água tomando conta de tudo [risos]! A gente não tinha noção do perigo [risos]! Era uma alegria quando o rio enchia e ia pra beira do rio pescar e mexer nas coisas... então, era festa quando o Jequitinhonha enchia! P/2 - E só vinha peixe, não tinha outra coisa? R - Era... era peixe, tinha as Sucurujuba, as cobras, aquela Sucuri que comia as... Tinha muito brejo lá ao redor. P/2 - Você viu alguma? R - Comi até! Cheguei a comer cobra [risos]! Assada. P/1 - Ah, é? R - É, é que a gente era bem... parecia indígena ainda, né? Então a gente comia muito peixe assado, ova de peixe assado na palha de banana... era uma vida muito natural! Muito mesmo... P/2 - E vocês não tinham medo dessa cobra? R - Não! Porque a gente era criado ali mesmo, ali... P/2 - Ela não era tão grande? R - Tinha cobra... tem até hoje, eu acredito que tenha, né? Porque são brejos que ninguém mexe. Mas elas vinham... então quando o Jequitinhonha enchia, aquela água limpinha, a gente criava muita galinha, ela vinha pegar as galinhas. Cobra de assim... e eles matavam e dava pra assar. Desfia aquilo, fazia moqueca e a gente comia. Então era uma vida bem natural mesmo, não tinha negócio de pão, de biscoito, isso só quando ia no final de semana na rua que a gente trazia. Mas era uma vida muito simples mesmo de agricultura, de agricultor. E aqui o povo também vivia assim, aqui no Guaiú. Porque com a minha ligação aqui com esse povo com lá... porque eu sou do Jequitinhonha, né, do Vale do Jequitinhonha e eles aqui da praia, mas meu pai tinha uma irmã aqui, então a gente vinha pra cá e eles iam pra lá. P/2 - Você vinha sempre pra cá, desde criança? R - A gente vinha! Mas era muito difícil, viu, por causa do acesso. Era aquilo que eles contaram ontem, né? Só tinha um carro de manhã e à tarde, ele vinha de manhã pra Belmonte, que esse carro acho que vinha de Itabuna e à tarde ele voltava... P/2 - Era um ônibus? R - Era um ônibus... pronto, e aí acabou, não tinha mais transporte. P/1 - E quanto tempo demorava? R - Duas horas porque a estrada era muito ruim, de Belmonte a Barrolândia. Muito ruim, e aí pronto. E aqui não tinha carro... P/1 - Não, mas de Barrolândia pra cá? R - Aí não tinha carro, tinha que vir a pé, caminhando. P/1 - E vocês vinham? R - A gente vinha caminhando. P/2 - Demorava quanto tempo? R - Ixi, aí demorava que minha avó andava devagar, e vinha com coisa e para aqui, para ali, para nos córrego pra tomar água, come uma fruta. P/2 - Quanto tempo demorava? R - Aí demorava aí umas duas horas de viagem, duas, três horas caminhando... aquela caminhada devagar. P/1 - Você gostava de vir pra cá? R - Só por causa da caminhada, não. Eu achava um pouco complicada, que era longe, achava longe, cansava... porque a gente não tinha muito costume de sair, né? Apesar que a gente ia da roça pra Barrolândia, sete quilômetros, a gente fazia a pé também, mas a estrada era melhor, às vezes a gente tinha carona, tinha animal, a gente andava muito com cavalo. P/2 - E você lembra? Você vinha desde pequenininha pra cá? R - A gente já vinha de pequena já. Eu tive duas... não, não costumava vir muito não. Quando vinha, ficava muito tempo, era assim, porque a distância, o acesso era complicado, então quando eles iam daqui pra lá ficava dois, três meses lá com a gente. Quando a gente vinha era a mesma coisa. Tanto que a gente só vinha final de ano pra passar as férias. P/2 - E o mar, como é que era pra você? R - A primeira vez, misericórdia [risos]! Com medo, né? Grande, tanta água! Apesar de que com o Jequitinhonha... mas é completamente diferente! Era diferente... P/1 - Mas quantos anos você tinha a primeira vez que você viu o mar? R - Acho que eu tinha uns sete anos, quando eu vim aqui. P/1 - Você lembra? R - Lembro! P/1 - Como é que foi? R - Que aí vou eu com o Vô Mario: “Vamos ver o mar! ”. Meu Deus, quando a gente _____ aquele marzão, aquele tanto de água... foi um susto! Aí entrei devagarinho com medo [risos]... depois acostumei também. Mas a princípio eu tive medo, né? Porque é muita água! Que eu não sou mesmo do mar, né? Sou do Vale do Jequitinhonha. P/1 - E aí você falou que passou um ano nessa cidade, depois você se mudou... R - De Belmonte, aí eu fiquei, fiquei... eu cresci em Belmonte, né? P/1 - De Barrolândia você foi pra Belmonte, por que você foi pra lá? R - Por causa dos estudos também. Que é aquela questão que o pai sempre valorizou os estudos, né? Deu prioridade aos estudos. Minha mãe não queria de jeito nenhum que a gente parasse de estudar. Então a gente teve que alugar casa em Belmonte, aí a gente ficou em Belmonte. Até eu terminar... P/1 - Quantos anos você tinha? R - Eu tinha 18 anos, mais ou menos. Sai de Belmonte com 18 anos, 19... P/1 - Ah, mas você ficou lá... R - Fiquei! Fiz todo o fundamental dois, de quinta a oitava. P/1 - Dos onze até. R - Isso... P/1 - E como é que foi esse período lá em Belmonte? R - Muito bom também! Belmonte foi bom e difícil também, ao mesmo tempo. E aí já foi difícil... P/1 - Por quê? R - Porque aí a gente tava saindo da roça, não éramos ricos e sustentar duas famílias era difícil! P/1 - E seu pai que mandava? R - E aí sentimos dificuldade, até necessidade a gente passou pra estudar, mas foi difícil... P/2 - Quem que foi com você pra Belmonte? R - Minha mãe, mas nessa luta, lá e cá... aí eu achei difícil, foi bem difícil, a gente passou muita dificuldade pra terminar os estudos. P/2 - Quem foi pra lá? Você, sua mãe... R - Foi eu e todos os meus irmãos. Os sete. Só um desses sete que voltou pra roça, que não quis ficar. E aí já começando, né, aquela questão de violência, de rua, né? E aí, até por uma questão de medo, minha mãe preferiu que ele ficasse na roça com meu pai. E aí é quem cuida da roça, hoje, é meu irmão. P/1 - E como é que foi? Vocês moravam em uma casa? Qual era a rotina de vocês? R - Na época, Belmonte era difícil de emprego, a gente ficou um tempão, eu mesmo, 15 anos, era casa, cuidando de casa mesmo e estudando. Eu mesmo, chegou uma época que eu fazia dois cursos, fazia Magistério e fazia Administração de Empresa. Porque não tinha nada pra fazer, não arrumava emprego, eu digo: “Então vamos estudar! ”. P/2 - E seus irmãos homens? R - Meus irmãos... aí um logo cedo mudou pra Ituberá, uma cidade vizinha, pra trabalhar também, que não queria ficar parado, né? P/1 - Trabalhava com que? R - Vassoura, com piaçava. Já é uma coisa também daqui, né, dessa nossa região que o pessoal mexe muito com piaçava. Aí mudou com a família e tá lá até hoje, em Ituberá. Ele tem a empresinha dele, né? Ele continuou mexendo com piaçava, fábrica de vassoura... P/1 - E os outros? R - Um tá na roça, né? Que é o que ficou nessa mesma rocinha, que tá lá do mesmo jeito... que sempre eu digo: “É nosso paraíso aqui! ”. Sempre vou lá, o lugar que eu mais gosto é aquele lugar! Aquele cantinho lá... E um outro, mais velho, um que é mais velho que eu, tá em Santa Catarina. Esse mexe com cabana, de piaçava... P/2 - Então levaram, né? Pra lá. R - Ele levou pra lá... e ele tá bem lá também! Teve aqui esse ano, ele tem duas..., casou com uma mulher de lá, né? E tá bem. P/2 - Essa produção de piaça... R - Piaçava! P/2 - Fala o nome um pouco dela, Girlândia... sempre teve muito e agora diminuiu? Como que é? Fala pra gente. R - Ela é nativa aqui dessa região, de praia. A piaçava, é uma palmeira, que, na verdade, ela é nativa. E o que é que acontece... as pessoas pobres não tinham dinheiro, eles tiravam a fibra da piaçava, os donos da fazenda, e a palha dela, que a gente chama aqui de bagaço, era descartada. Então as famílias pobres, por exemplo, os trabalhadores na fazenda, usavam aquela palha pra fazer a cobertura dos seus barracos, das suas casinhas de barro. Que Guaiú até quando cheguei por aqui em 1993 ainda tinha essas casinhas, depois agora não tem mais, né? Hoje são usadas nas grandes cabanas..., mas era o pobre que usava a palha da piaçava, que a gente chama de bagaço, que fazia o pente que piaçava, que chama “pente de piaçava”, não sei se vocês já ouviram falar esse termo... P/1/2 - Sim, sim... R - Viu, então era esse que usava pra cobrir a casa, pra cobrir as casinhas. Fazia casa de barro, levantava ali e cobria de bagaço. Então hoje já se planta piaçava, né? As fazendas já plantam, os donos de terra planta, mas ela é uma planta nativa daqui da região, Belmonte, os campos de Belmonte, aqui o Guaiú, é uma coisa muito forte aqui na região, a piaçava. Muita gente vive da piaçava aqui. P/2 - Ainda se vende? R - Tem! Vende! Ela é muito forte, hoje que ela tá boa, né, gerando renda forte. P/2 - E quem trabalha na piaçava hoje? R - Ah, hoje os donos geralmente eles dão de meia, né? Outros pagam mesmo pra tirar dos seus cortes, né? Que a grande plantação de piaçava, chama de “corte”, que o corte ou a meia, e é assim. E é muito bem vendida, pra São Paulo, pro Rio... P/2 - E mulheres e homens trabalham? R - As mulheres trabalham mais no fazer... limpar o bagaço pra fazer o pente e também separar a piaçava mesmo, que é a fibra, da palha. Mas hoje aqui se vê... antigamente as mulheres trabalhavam mais nessa atividade, hoje eu acho que bem menos. São poucas que trabalham. P/1 - Ô Girlândia, voltando pra sua juventude, lá em Belmonte, você só estudou então? R - Belmonte eu só estudei. Aí depois, já no segundo grau, já quando tava no primeiro ano, eu conheci uns padres, em 1988, eu conheci um padre austríaco, uns padres que vieram... na época um conflito grande de terra, né? Belmonte realmente era os coronéis que mandavam, era uma cidade muito atrasada. Eu sentia assim que o pequeno dali não tinha muita chance, né? Mas como a gente recebeu lá uma boa formação, uma base lá, então a gente é muito cuidado e já abriu, então conhecendo os padres, ele chegou, começou a fazer um trabalho com o pobre, fez pastoral do menor, entrou na CPT [Comissão Pastoral da Terra], que tinha aqueles conflitos de terra, né? E aí junto desses padres eu comecei a trabalhar voluntariamente, com crianças, em uma pastoral, a gente era voluntário ali, passava o dia com eles ali. P/1 - Fazendo o que? R - Cuidando mesmo, dava reforço pros menino, ajudava na leitura, na escrita, era... tinha o artesanato que a gente ajudava a bordar também, a costurar, fazia boneca. Então a gente ajudava essas crianças nesse sentido. Era o que? Umas 20 crianças, aqueles bem mais pobre mesmo, de Belmonte. P/1 - Você falou que tinha luta pela terra, por quê? R - Tinha! P/1 - Explica um pouco melhor. R - Era muita gente sem nada, né? Muita pobreza crescendo demais na região e um pequeno grupo com tudo nas mãos, usufruindo, que a gente chamava de “os coronéis do cacau”, com toda a terra na mão, não plantava, não fazia nada, era só o cacau mesmo. E aí sentiu-se a necessidade, a Igreja sentiu a necessidade de apoiar esse povo. Começaram, começou a apoiar, mas só que naquela época o conflito era muito grande! Eles matavam mesmo. Eles diziam: “Eu vou matar! ”. E matava mesmo! P/1 - Quem? Os coronéis? R - Sim! Os donos de fazenda! Houve um conflito muito grande. P/1 - Você participou direto? Ou só... R - Eu participei direto! P/1 - Conta pra gente um pouco. R - Teve uma época, com esse padre, a gente participou direto. Me lembro que uma vez mesmo a gente saiu pra celebrar uma missa, e quando a gente tava ali concluindo a missa, chega um outro padre e diz: “Termine aí, encerre aí, porque a polícia entrou na área! ”, atirando em todo mundo, gente correndo pro mato, e a gente tinha que entrar. Eu digo: “Ai meu Deus, a gente vai entrar, mas não vai sair! ” [risos]. A gente não tinha muita experiência, né? P/2 - Entrar aonde? R - Na área, que era muitas famílias assentadas lá, que ocuparam mesmo, na força! P/1 - Ah, vocês tinham ocupado uma terra? R - Não, eu não cheguei a ocupar! A gente dava apoio a essas famílias que ocuparam. P/2 - Mas nesse dia... R - Nesse dia a gente tinha que entrar lá, pra ver com o advogado... e aí a Igreja pagava advogado pra essas famílias, tinha que esconder posseiro, pra polícia não matar, né? P/1 - E você tava rezando a missa, a polícia veio e vocês foram apoiar... R - Não, aí a polícia entrou na área, e o padre que veio em Belmonte pra pegar a gente, pra entrar na área, pra ver se tinha matado alguém, pra ver se tinha feito alguma coisa. Tudo isso a gente fez em Belmonte, né? P/2 - E quando você entrou na área, o que é que você viu, a coisa...? R - Quando a gente entrou já tinha saído, né, já tinham saído, mas tinha um governador lá, na época tinha um governador aí que foi, graças a Deus, foi a nossa salvação. Foi esse governador que não apoiou essa represália, essa violência no campo. Foi a nossa salvação mesmo! E depois um juiz também, uma promotora que chegou na cidade, que a gente viu a coisa feia dessa vez também. Digo: “Agora a gente vai apanhar mesmo! Porque o negócio vai complicar, porque a gente vai ter que ir pra rua.”, tinha um bispo também, que era o bispo de Itabuna, nessas horas ele vinha e apoiava o movimento, e a promotora disse: “Não, agora a gente vai dar um basta nessa situação!”. O padre era cheio de processo! Por tudo eles processavam o padre, por causa dessas lutas... e aí eles estavam batendo em gente, por motivo nenhum, certo? Muita violência. Aí a Igreja disse: “Não, nós vamos tomar uma providência!”, e a gente foi junto! A gente ia junto, que a gente era do grupo, e aí nós apoiamos, nós fomos pra rua, né, denunciar a violência. Aí nem digo... P/1 - Como é que vocês apoiavam? R - A gente com panfletozinho, denunciando mesmo! Os crimes impunes, a impunidade que tinha em Belmonte, com filho de prefeito, que usava carro, machucava alguém e ficava por isso mesmo; agora um pobre que fizesse qualquer coisa errada, eles batiam, torturavam... a violência no campo também, né, que foi muito grande. Então a gente foi denunciar tudo isso. E aí eu digo: “A gente vai pagar caro por isso, né?”. Mas aí parece que na época que a gente começou, no dia que a gente fez isso, em seguida chegou uma promotora, de Ilhéus, muito boa, e veio o juiz também e disse: “Não, nós vamos acabar com isso! ”. E aí resolveu os processos do padre... P/1 - Como é que você conheceu esse padre? R - Eu conheci esse padre lá na cidade mesmo, ele veio pra cidade. Era os _____, né, religiosos, padre João Smith, ele tá no Piauí hoje. Dois deles voltaram pra Áustria... inclusive foi até ele que ajudou a gente a fazer essa casa na época, esse padre. P/1 - Ele foi importante na sua vida? R - Foi! Muito importante, né? Assim como meu segundo pai... aquela pessoa que a gente tem muito carinho! Não só eu, várias pessoas aqui na região, tem muito carinho por ele. P/1 - Você convivia muito com ele? R - Convivia com ele! Ele vinha pra aqui direto, ficava aqui comigo aqui. Às vezes ele ainda vem aí, ele costuma vir de férias, vir aqui ligeiro, né? Ele tem umas irmãs que moram em Portugal, ele vai pra lá. Então é alguém da família mesmo. E foi aí que veio a justiça, que a gente começou a sentir, viu a justiça chegar nessa região, através desse padre. Já tinha isso de família, né? Que nossos pais já passavam pra nós, que ele sofreu injustiça, tomaram tudo o que era deles, lá na infância a gente conviveu com aquilo. Eles brigando e não sabia como resolver aquilo e só conseguiu garantir o pedacinho de terra dele lá, onde a gente tem até hoje, o restante eles tomaram tudo. P/2 - Como é que eles tomaram isso? Você lembra de cenas assim? R - Na força! Lembro! Entrava na fazenda! P/2 - Conta uma cena. R - A dona era uma mulher, os irmãos já tinham morrido, eles entraram mesmo, entravam e tomavam, botavam cerca em tudo. Meu pai ia e arrancava, mas sozinho, né? E a justiça era do lado do grande. P/1 - Por que eles falavam que aquela terra era deles? R - Entravam assim, eles tomavam... isso aconteceu muito na nossa região. Diziam: “A gente vai tomar!”. E a gente briga até hoje por isso. Se a gente não tomar cuidado, ainda tem uns que quer... a nossa luta continua aqui por desonestidade, contra a desonestidade. P/1 - E aí você se formou em Magistério? R - Foi... eu não queria me formar em Magistério, eu não gostava, tinha uma raiva! P/1 - Por quê? R - Eu digo: “Nunca eu vou ser...”. Por ver a luta e o sofrimento dos professores lá em Belmonte, largados. P/1 - Como é que era nessa época? R - Salário atrasado, eles não pagavam nem salário, pagavam o que eles bem entendiam, uma miséria que eles pagavam pros professores de Belmonte. E eu digo: “Deus que me livre de estudar e fazer Magistério! Nunca! Eu quero saber disso nada!”. Mas aí como a gente não tinha o que fazer em Belmonte, aí tinha o curso de Magistério, aí: “Ah, eu vou estudar. Só pra passar o tempo, vou fazer Magistério”. E lá estudava, passava, tirava boas notas... aí inventei de ir pro convento [risos]. Aí lá no convento as freiras disse o seguinte: “Não, aqui a prioridade é Magistério. Você pode largar o outro curso e fazer o Magistério.”. Eu digo: “Ih, eu não quero! Eu não gosto! ” Mas fazia com uma raiva! Em São Paulo, mas digo: “Eu vou estudar! “. Aí fiz o segundo ano... P/1 - Aí você resolveu que você ia... R - Pro convento em São Paulo, fiquei um ano em São Paulo, Santa Anastácia. P/2 - E por que você resolveu ir pro convento? Como foi essa decisão? R - Essa luta mesmo, esse grande envolvimento da Igreja, eu acho que foi isso... com os padres, né? A gente tinha muito contato com as religiosas. P/2 - Mas você queria ser freira? R - Aí ia ser freira mesmo. Aí fui, fiquei um ano em São Paulo, em seguida a gente foi transferida pra Belo Horizonte, já ia fazer mesmo os votos. P/1 - E o que é que aconteceu? R - Aí quando mudaram a gente pra Belo Horizonte... São Paulo, muito fechado o convento, que era estrutura de convento. P/2 - Qual ordem era? R - Era Filhas de Maria Missionárias. Então era muito fechado, muito rígida a nossa formadora. Aí quando a gente foi pra Belo Horizonte, lá abriu! Aí a gente teve contato com o frei Carlos Mesters, com os salesianos, muitos jesuítas, com frei Betto, e não perdia esses encontros, participando de tudo... tinha um outro que hoje é bispo, Joaquim Mol, e esse povo nos abriu a mente, né? Quando a gente começou a questionar a própria congregação, elas começaram a apertar a gente. Aí quem não aguentou, saiu. É tanto que acho que no meu grupo só ficaram duas que foram freiras. Saiu todo mundo! P/1 - Vocês questionavam o que? R - A estrutura da Congregação que era muito fechada, uma série de coisa, quando a gente começou a não aceitar e elas sabem a igreja como é que é, né? Muito boa, mas tem hora que é... fechada mesmo, né? Tem que seguir, mas umas coisas ela não abre mão. Então... P/1 - Aí não deu pra você não... R - Não deu! Eu digo: “Não, não tem…”, então vamos lutar fora. E a gente continua até hoje aqui. E foi onde eu vim pro Guaiú. P/1 - Mas o que você guarda desse período que... R - Muito bom! P/1 - O que é que você aprendeu nesse período? R - Minha consciência, minha formação política. Eu... como se diz, eu lapidei. Foi lá que o diamante, que o meu pai me deu, foi lá na igreja, na congregação. Os valores firmes, lutar pelo mais pobre, lutar pela justiça, fazer a justiça acontecer, era nessa congregação. P/1 - Que época era isso? R - Isso foi ó, de 1988 eu fui pra São Paulo, morei em São Paulo. Em 1990, 1991, Belo Horizonte. P/1 - E aí vocês lutavam por que, assim? R - Por terra, era uma congregação muito boa, questão agrária ela já lutava lá, aqueles grandes conflitos, a questão política a gente lutava, certo? Era toda aquela conjuntura errada, perseguidora, dominadora, a gente já..., né? A gente que morou aqui, talvez, a gente que morou aqui. Vocês que são de São Paulo, não sei se vocês passaram por isso, mas a gente que morou aqui, era... na terra dos coronéis, a gente vivia uma vida muito dura, sabe? Porque era um grupo que você via que tinha tudo na vida e a gente, o outro lado, nada. Então as freiras ... foi aí que eu já me identifiquei com elas, elas já vinham nessa linha lutando. Não deu certo, mas eu respeito muito a Congregação. Elas continuam até hoje, lutando com os sem-terra, com as mulheres mais pobres, então elas estão aí na luta! Comigo não deu certo, mas eu respeito muito, admiro muito. P/2 - O que não deu certo, Girlândia? R - Continuar na Congregação, eu vejo elas... eu acho que não foi uma falha nem nossa, porque eu acredito que todas que saíram continuam na mesma linha lutando. Eu acho que foi elas que não se prepararam, fecharam demais em um ano, quando foi no outro ano, abriu demais! Eu senti assim: como se prendesse a gente demais, até mesmo porque a gente tava saindo de uma cultura diferente, foi um choque muito grande cultural, quando eu cheguei, muito frio, comida, tudo diferente... isso já foi uma coisa que deixou a gente um pouco fragilizado, né? Então, aquele jeito, tudo diferente, foi muito fechado, era estrutura de convento mesmo, até na escola... P/1 - Como é que era a rotina? R - Na escola, quando a gente ia pra escola, eles diziam: “Ah, vocês são freiras.”, a gente dizia: “Nós não somos freiras!”. Quando a gente chegava até pra conversar, contar uma piada, não contava, porque “Nós somos freiras.”, já foi um choque já, né? “Vixi, meu Deus, nós não somos freiras não, gente! A gente tá fazendo uma experiência!” Aí quando chegamos em Belo Horizonte, tanto que tinha eu e uma Paraibana, dissemos “Não vamos dizer que somos freiras e nem que está em casa de convento na escola!”, pro pessoal não querer separar a gente. P/1 - Na escola era no Magistério? R - Na escola de segundo grau, fundamental mesmo, escola normal. “Nós não vamos dizer!”. Elas faziam questão né, que estudasse em uma escola pública mesmo. P/2 - Girlândia, você chegou a ir em reuniões assim que discutiam essa parte da terra, essa questão... R - Fui, várias! P/2 - Conta um pouco, uma assim, mais marcante. R - Várias, várias... P/2 - Você lembra de alguma marcante assim? Que teve alguma discussão assim, que você participou... R - Assim, na questão agrária, nós participavamos muito em Itabuna, era em Itabuna que a gente ia, era com o bispo, mas esse bispo já morreu, Dom Paulo. Ele... eu lembro que a grande discussão era com um delegado. Foi um posseiro, uma família, eles armaram uma emboscada e mataram alguém na área, só que não foi dos posseiros, dos nossos, que tinham ocupado a terra. Foi emboscada mesmo, colocaram, armaram uma briga lá e aconteceu essa morte lá dentro. Eles aproveitaram essa morte e disseram: “Agora vamos pegar essa família e vamos matar porque era liderança lá dentro.”, aí a gente teve que sentar, com bispo, advogado e chegar a uma discussão, porque com a justiça não ia ter jeito. Eles já tinham deixado bem claro isso, que não queria mais conversa, que ia pegar mesmo, botar a mão naquele povo, e a gente tinha que sentar entre nós e discutir que decisão tomar. E a decisão foi... chegamos, discutimos, procuramos por tudo quanto foi lado, eu lembro que eu tava aqui, né? Eu tinha ido comprar umas verduras até, que a gente tinha restaurante aqui. P/2 - Você já morava aqui? R - Já morava aqui. E eu dizia: “Meu Deus!”, e botava nessa conversa e “O que é que a gente vai fazer?” A conclusão foi: vamos tirar o homem, que senão eles vão matar mesmo. E aí teve que sair minha irmã, dentro de um caminhão, com esse homem enrolado no lençol [risos] e eu entrar em um carro com o advogado e uma outra pessoa, meia noite, pra ir lá numa outra área lá longe, lugar longe, pra pegar esse homem escondido, pra levar pra Itabuna pra botar dentro da casa do bispo [risos]. Chegava três horas da manhã em Itabuna com esse homem, né? E chegar: “Aqui bispo.”, na casa do bispo e entregar pro bispo. Ele ficou três meses com o bispo até que resolvesse a situação dentro da justiça. Esse momento pra mim foi um momento marcante na questão agrária. De ter que sair com esse homem, que formava uma família, pra não morrer. E hoje me alegro que ele tá bem! Ele se livrou de tudo isso, através dessa promotora e desse juiz, e ele bem, tem o carrinho dele, continua na terra dele, que isso é muito importante, a luta era isso, continuar na terra e ele continua na terra dele, vendendo o produto dele, já tem um carrinho, isso é muito bom. Então valeu a pena a luta! P/1 - E aí você saiu de Belo Horizonte, por que é que você veio pra cá? R - Aí eu vim pra cá... digo: “E aí, o que é que eu vou fazer agora?”, porque quando a gente sai da terra da gente, quando retorna, já não é mais a mesma coisa, né? P/1 - Ah, é? Por quê? R - Ah, é, não é não... até os amigos a gente perde, não é mais... é diferente! A gente volta diferente! Aí eu olhava: “Vou fazer o que agora, meu Deus?”. Eu fiquei em Belmonte lá com a minha família, aí eu disse: “Vou pro Guaiú!”, tinha uma prima aqui, Maria, ela tava ontem na reunião, foi quando Guaiú tava já desenvolvendo, “Bora pro Guaiú, a gente vai desenvolver no Guaiú. O Guaiú tá desenvolvendo e a gente precisa de um comércio!”. Aí a gente veio montar um restaurante aqui no Guaiú. Mas continuamos lá com os padres lá lutando! P/2 - Onde? R - Em Belmonte. O que precisava, a gente corria pra lá, ia ajudar, dar apoio, porque lá ainda continuava, nessa época ainda tinha uns conflitos, não tava tudo resolvido. A gente sempre... se precisava, ele ligava, a gente corria pra Belmonte. Se tinha uma passeata, a gente ia ajudar. O que tinha em Belmonte a gente ia. E aí, em seguida, aí me chamaram pra trabalhar aqui na escola. Lá eu trabalhei com os salesianos, com educação, em Belo Horizonte, eu trabalhei dois anos com eles, era um trabalho que eles tinham em um bairro lá, Cabana do Pai Tomás, eu trabalhei dois anos com eles. P/1 - Mas o que é que você fazia nesse trabalho? R - Eu dava apoio, reforço escolar. Eles estudavam, os meninos da favela, e a tarde vinha pra ali, e ali a gente fazia o trabalho com eles. Ajudar no “para casa”, tinha uma bibliotecazinha comunitária, levava eles pra ler, então a gente tinha todo um trabalho acompanhado por um grupo de professores da PUC [Pontifícia Universidade Católica], em Belo Horizonte. Então era um trabalho muito interessante. De lá eu vim “pra aqui”, foi aqui que eu comecei mesmo a trabalhar em sala de aula, foi aqui, em escola mesmo. Que aí eles me contrataram, depois eu fiz o concurso, passei! Aí que eu me envolvi mesmo diretamente com escola. Aí não tinha mais jeito, eu digo: “Pronto!”, aí não tem nem mais como sair. P/1 - Como é que foi virar professora? R - Difícil também, né? Porque lá aquela novidade, construtivismo, de tudo novo, e quando chega aqui que tenta aplicar, não dá certo. Aí você entra em choque, diz: “Meu Deus, e agora?! Faço o que?”. E aí a gente tem que voltar pra realidade, botar os pés no chão... P/2 - Por que é que não dá certo aqui, Girlândia? R- Não deu. Eu digo: “Meu Deus, era diferente! O que é que tá acontecendo? Será que esse povo todo mentiu? Que construtivismo era a melhor ideia, essa novidade...”. Que não dava certo, certo? Entrou em choque com o município, por exemplo, do menino construir seu próprio saber, de trazer, de olhar... hoje a gente já acerta, hoje nós somos construtivistas, eles aceitam bem, já chegou aqui! Mas na época não... P/2 - Qual era a resistência? R - Tinha que ser o tradicional mesmo, voltar pro ABC, voltar pra cartilha, certo? Olha... E aí o menino... E a gente não via, eu, por exemplo, no meu caso, o meu maior choque é que eu não tava vendo o desenvolvimento, as pessoas não tinham um ideal de vida, porque é que estava ali estudando, pra que estudar... ainda acho que a gente precisa avançar nessa questão ainda, aqui hoje ainda, né? P/1 - Os meninos não... R - Sim, muita coisa não avançava, aí a gente começa a entrar em choque, comigo mesmo e com a própria estrutura, a Secretaria de Educação, aí vem a política e eles levaram isso que eu tava de contra política, e aí vem as perseguições, certo? Então foi muito difícil, até chegar onde eu cheguei hoje, né? Eu sofri muitas perseguições políticas aqui por isso... P/1 - Mas por que? R - Por exemplo, na minha visão, por exemplo, a sala de aula...alguém vinha e fazia uma reforma, vinha o dinheiro e não fazia a reforma! E isso era proibido falar em sala de aula. E a gente falava! “Por que é que você não tá aprendendo?”; “Olha o tipo de sala que você tem!”, certo? Então, o costume, a educação, passava por isso tudo! P/2 - Você dava aula pra que série quando você chegou aqui? R - Eu, quando eu cheguei aqui, trabalhava com a segunda série. Primeira e segunda série. P/2 - Agora Girlândia, explica melhor essa parte que você percebeu que tava em choque com o tradicional. Quem é que reclamava? Alguém reclamava? Os pais reclamavam? R - Não, pra mim o choque foi comigo mesmo e com a Secretaria de Educação. E com os colegas, os professores; com a comunidade não. P/1 - Eles gostavam? R - A comunidade gostava... tanto que eu tenho aluno hoje, os melhores alunos, “Ah, oi professora!”, os alunos ainda trata a gente como professora, né? E de ver frutos também disso. P/1 - Qual a diferença entre o que você fazia e o que existia antes? R - Não, porque o seguinte, o que é que acontecia... por exemplo, não é criticar, porque tudo o que tá dando certo, tem que continuar, eu acredito. Se tá bom, tá dando certo, tá melhorando a vida do ser humano, se ele é tradicional ou não, ele tem que continuar. Mas a gente não via um desenvolvimento! As pessoas eram muito submissas, pra elas tudo tava bom, quando na verdade não tava, as coisas não aconteciam aqui. E quando a gente vem pra mexer com isso aqui, a única maneira que a gente tinha era a escola, então tinha que falar disso em escola. Tinha que trabalhar isso na sala de aula. P/2 - E com os pais, você fazia alguma coisa assim? R - Não, ainda não, que era muita... a comunidade era distante, os pais eram distante da escola, e aí já vem reunião com os pais, e a gente chamando pra ir... P/2 - Você chamando... R - Chamando! P/2 - Tinha mais gente pra fazer isso com você ou não? R - Se desse certo, apoiava, se não desse certo: “Eu tô fora! É ideia dela aí”. A gente chegou a ir a juiz, né? Por causa da invasão, que era muito grande. P/2 - Que juiz? P/1 - Por quê? R - Juiz mesmo! A gente teve que procurar, tinha um grupo... a gente aqui, o Cabrália não tinha comarca, tinha que procurar Porto Seguro, lá procurar um juiz, que através disso descobri que... na época não era Conselho Tutelar, era Comissário de Menor. Fui procurar pra poder fazer com que esses pais mantivessem os seus filhos na escola. E aí o juiz fez mesmo, chamou os comissários e perguntou: “Quer chamar os pais aqui? Se quiser eu trago eles aqui! Eles vão comprometer a garantir os filhos na escola!” Mas aí os comissários vieram, eu acho que não precisava também porque pode entrar em choque com a comunidade, o juiz mandou os comissários de menor com um termo e esses pais assinaram esse termo se comprometendo a manter seus filhos na escola. Tanto que hoje a gente não tem evasão aqui dentro da comunidade. P/1 - Não tem? R - Não! P/2 - Girlândia, e você... essa ida ao juiz, quem foi? R - Como era a minha turma que tava com problema, eu tive que ir. P/2 - Você foi sozinha? R - Sozinha. Aí minhas colega disse: “É, não, eu não tenho problema... pra mim tá tudo bem.”. Então eu disse: “Mas eu tenho!” P/2 - Tava? R - Não tava, né [risos]? Bem como, eu digo: “Eu tenho, então eu vou ter que enfrentar essa.” P/2 - E você foi... R - Fui... P/2 - E aí como foi? R - E aí eles vieram, o juiz mandou um grupo de comissário, acho que uns cinco homens, eles vieram com termo, nós convocamos os pais, porque eles já foram intimados, então tinha que vir pra reunião, porque não vinham na reunião e aí eles assinaram o termo e terminou o ano letivo. P/1 - E a reação dos pais? R - Tranquila... Não foi, não... Eles... mas até de um certo medo, né? Porque eles não dominavam os filhos. Os filhos é que não iam pra escola, então não iam. E aí eles tiveram que assumir isso. P/1 - Por que as crianças não iram? R - Ah, até hoje nós ainda enfrentamos isso aqui. “Ah, não vou fazer.”, aí não faz. P/2 - As crianças? R - As crianças. P/1 - Por que você acha que isso acontece? R - Eu acredito, por exemplo, hoje, antes não, mas hoje eu acho e sempre digo pras minhas colegas, eu acho que a gente tem uma parcela de culpa nisso. Porque metade desses pais estudaram com a gente, conosco, e por que é que eles estão assim? Então nós falhamos em alguma coisa. P/2 - Mas lá no começo, né, eles também não tinham interesse pela escola... R - Mas lá no começo, eu acredito o seguinte, porque a questão do trabalho, a distância da escola, tinha que trabalhar, por exemplo, a gente mesmo trabalhava no cacau a manhã toda, e trabalhava mesmo, não enrolava! Você sabe o que é o dia todo ali abaixada, apanhando cacau e outros no cabo da enxada aqui, não era? Então aqui eles chegavam desestimulados. Esse era o motivo, mas hoje nós não temos mais isso. P/1 - Hoje a criança... R - Hoje não tem, não tem essa questão, né? P/2 - As crianças não trabalham. R - Não trabalham. P/2 - E os jovens? R - Os jovens, alguns trabalham. Os jovens aqui eu acho sem perspectiva. Tá largado. P/1 - Por que? R - Largado, largado... eu sinto... ainda ontem mesmo eu fui pra um passeio aqui com um grupo de jovens da comunidade vizinha e os biólogos, eles estão tentando desenvolver um trabalho com eles aqui, com os jovens. E aqui não tem, é difícil, a igreja não consegue atingir os jovens, a escola não consegue, eu não sei, tem alguma coisa errada. E a droga tá tomando conta, e a gente tá preocupada. É a preocupação nossa aqui hoje. P/2 - E o trabalho? R - Alguns estão trabalhando. Aqueles mais primeiros, mais velhos, as mães conseguiram trabalhar. Agora a preocupação é aí hoje, que hoje com a lei, que não pode, que ninguém quer dar emprego pra adolescente, elas não estão mais procurando, porque diz que a lei não permite, então eu tô achando muito largada a juventude. Então de uns cinco anos pra cá essa meninada de 10 anos pra frente, já tô preocupada. P/2 - De idade de 10 anos? R - De idade, isso. Até os 14 aí, estão sem fazer nada. P/1 - Mas eles estudam? R - Estudam, mas no estudo a gente não tá vendo grandes perspectivas não. Fracos... P/2 - Em que sentido, Girlândia? R - No aprendizado mesmo, eu acho muito fraco. Muito fraco, muita aula vaga, eles matam aula e fica por isso mesmo. Tem aluno que se você pega uma escrita, você não diz que é de um menino de segundo grau. Se pedir pra formar um texto, aluno do segundo grau ou até mesmo que já terminou, muito fraco! Não tem como passar em um Enem [Exame Nacional do Ensino Médio], não tem como concorrer em um vestibular, não dá, muito fraco. Então está estudando por estudar mesmo. P/2 - E de 14 pra cima? Você falou de 10 a 14, tá essa situação, e de 14 pra cima? R - Hoje ainda trabalham né? Por exemplo, tem uns jovens, uns casaram, fizeram sua casinha, trabalham de pedreiro, então esses não me preocupam tanto, mesmo que estejam na bebida, ou até nas drogas, mas não tá mexendo com a comunidade. A preocupação é quem tá vindo com essa educação que tá recebendo. E aí o que é que acontece, essa Barrolândia aqui que eu cresci, era todo conhecido, filho de agricultor, hoje é um dos lugares mais violentos que nós temos. P/2 - Quando você diz: “Não tá mexendo na comunidade.”, quer dizer o que, Girlândia? R - Não tá roubando, não tá abordando ninguém, né, nunca agrediu ninguém... mesmo que esteja envolvido pra lá com coisa errada, mas não tá mexendo, não tá atrapalhando a vida da comunidade. Mas nós temos assaltos aqui hoje de meninos daqui. P/1 - Como é que era Guaiú quando você chegou aqui? A comunidade... R - A comunidade ainda era pequena. Era sossegada, lugar diferente, tradicional, o povo era... ainda era família, né, tinha as famílias ainda. P/1 - Descreve mais ou menos como é que era... R - Olha, aqui, quando a gente chegou pra aqui era família de Zé Dias, a família de Seu Arlindo, que são as mais influentes, né, família de Danga, que eles continuavam todos aqui ainda, eles não saiam daqui, mas mesmo assim já tinham umas famílias que já tinham ido embora pra Porto Seguro. Que o sonho do Guaiú, naquela época, era Porto Seguro, ir embora pra Porto Seguro. E lá também era um mal, porque nem sempre deram certo lá, né, alguns voltaram e voltaram com problema. Mas era ainda lugar... não tinha asfalto na comunidade, tinha os pescador, até que vinha de Porto Seguro, às vezes até vinha pra farra, ali mesmo eu lembro que tinha um coqueiro ali, duas pistas assim, duas ruas e uma trilha de coqueiro no meio, quando veio o asfalto eles arrancaram tudo. Então, por exemplo, eles dormiam ali na rua, a gente podia dormir de porta aberta, era um lugar tranquilo. P/1 - E as pessoas eram unidas? R - Eram mais unidas eu acho. Depende daquele conceito de união, eu acho, sabe, hoje a gente... a Adriana colocava ontem que a gente tá unido, mais lutando pelo nosso direito, mas é um lutar pelo nosso direito, de forma diferente, mais individualista, eu acho. P/2 - Agora? R - Antes, era aquela luta... hoje nós estamos no ritmo de cidade grande, eu costumo dizer às meninas, nós estamos em uma comunidade ainda considerada zona rural, mas no ritmo de cidade grande! P/ 2- Aqui, em Guaiú? R - Aqui, Guaiú. P/1 - Por quê? P/2 - Que ritmo? R - A gente não pára em casa! A gente é todo mundo, povo correndo atrás, trabalha, tem mãe que trabalha o dia todo fora, quando chega no verão é... então a gente vive uma vida bem agitada! P/1 - Trabalha fora onde? R - Nos hotéis aqui em Santo André, então vive uma vida... na praia, nas cabanas, então o que é que acontece? Passa o dia fora da família! Aí chega em casa cansada, estressada, já perdeu... antigamente não, era a família, quando a gente chegou por aqui, a mulher ainda lascava sua lenha, a mulher lavava roupa no córrego, pescava siri, pescava seu caranguejo, hoje ninguém faz mais isso. P/2 - Isso era em 1990 mais ou menos? R - Em 1993... tanto que quando a gente chegou por aqui, a gente fazia tudo isso junto com elas. P/1 - Você também fazia isso? R - A gente fazia! P/1 - Como é que... R - A gente, por exemplo, ia pro córrego lavar roupa, ia pro mangue pescar siri, a gente ia pegar caju, na época do caju saia a mulherada com os meninos pra apanhar caju, apanhar mangaba, acabou tudo isso. P/1 - Pra comer? R - Pra comer. P/2 - E você aprendeu esse negócio da pesca, a pegar siri quando? R - Eu aprendi aqui no Guaiú, com Maria, com o pessoal de Danga. P/2 - Quando você chegou aqui? R - Quando eu cheguei aqui, que eu não sabia pegar em caranguejo, mexer. P/1 - E como foi pra você? R - E tudo que eles fazia, a gente fazia, eu e minha irmã. P/2 - “A gente”, quem? R - Eu e minha irmã. Elas iam pro mangue, a gente ia, descascar coco, a gente ia. P/2 - E nas primeiras vezes, como foi? R - Nossa, difícil, né? Com o siri é que o, como é que pescava o siri? Era siri bóia, tipo um “jereré”, um arco assim, com pedaço de rede dentro, aí aquilo ali tem um pau no meio, a gente marca com uma pele de peixe, pedaço de peixe, ou a carne, pele de galinha e aí joga lá dentro do rio. Aí deixa aquele vara, colocava ali, aí quando vê mexer, é o siri, né? Até que você vai puxando, tira o siri e põe no balde. E o bicho é valente! E elas tinham mais experiência e a gente pelejava, na luta lá, até que a gente aprendeu, eu aprendi, né? Hoje eu sei manusear muito bem o siri, o caranguejo, aprendi a tirar o caranguejo do buraco, que ia junto com elas.... P/2 - E a primeira vez que você colocou a mão? R - Não metia não, não conseguia não, tentava e não conseguia. Quando o bicho ia pra morder, puxava [risos]! E eles têm todo um manejo, todo um jeito pra meter a mão no buraco do caranguejo e tirar ele, puxar ele sem morder. P/2 - Você já faz isso? R - Faço, mas não gosto muito ainda de mexer no mangue não. Mas mexo. Eles andavam, também tem o andar do caranguejo, eles iam e vinham, aquela mulher, menino e fundo lá dentro daquele mangue. E o mangue é um lugar difícil de andar. P/1 - E menino também ia? R - Criança, tem criança que sai no mangue arrastando os pés assim dentro do mangue, como se tivesse andando nisso aqui. Assim andando... eu digo: “Menino, você tá no mangue!”, e eles saem correndo, entra aqui, entra ali, tem lugar que a gente entra e eu olho, “Eu entrei aqui? Como é que eu vou sair? E agora?”. Porque o mangue é difícil, né, de difícil acesso. E o povo aqui tem toda essa facilidade e tão esquecendo as suas tradições. P/2 - Por que você acha? R - E é aí que eu acho que é esse desenvolvimento, que eles chamam de desenvolvimento, de... né? Aí eu me pergunto até que ponto é bom. É bom, mas tem que tomar cuidado, pra não perder as tradições, nossa cultura. Meu grande medo é esse de perder, porque um povo sem cultura, sem tradição, eu acho que o que não presta, chega ali mais rápido e toma conta, eu tenho muito medo disso aqui. Então quando eu vejo um projeto desse, ontem mesmo me animaram aqui, fiquei alegre, ouvindo Fabrício dizer que vai dar certo o projeto! Eu digo: “Ai, ainda bem, né?”. A gente fica animado porque sabe que é uma coisa que vai nos... que tá retomando nossas tradições, porque a gente vai pro rio, tanto que tá dividido em dois grupos lá no rio, aí o meu grupo, que eu participo é no sábado, então a gente leva comida, a gente leva café, eu mesmo já comprei minha garrafa, porque tava sem garrafa de café e já disse: “Vou comprar minha garrafa de café.”, que a gente leva, lá a gente partilha tudo isso, né? Outro dia deram a ideia: “Vamos levar nossa panela pra cozinhar nosso feijão lá no rio!”, levar o caldeirão e aí lá a gente põe, quando a gente tá lavando ostra, vai cozinhando o feijão e lá a gente come mesmo, divide, e os engenheiros com a gente, então isso tá levando a gente a resgatar aquilo que a gente tava perdendo. P/1 - Quantas pessoas são? R - Limpar o rio! Nosso grupo parece que tem 12. P/1 - E o outro? R - São 23 pessoas. P/2 - E é na criação só de ostras? R - Só de ostras. Isso aí então a gente tá levando, aí uma mulher já leva vara e pesca um siri, então o próprio cultivo tá levando a voltar as nossas origens, né? Cuidar do rio, valorizar o mangue, então isso é bom. P/1 - Vou voltar um pouquinho antes de chegar no projeto. O que é que vocês faziam com esses siris que vocês pegavam? R - Come. P/1 - Vocês comiam? R - Faz moqueca, era ótimo! P/1 - Mas vendia ou não? R - Aqui o pessoal não tem muito costume de vender o siri não. Aqui era mais pra comer mesmo. O caranguejo também não era muito vendido aqui, era mais pra uso, cada um pegava o seu e comia. Mas no Santo Antônio já é pra vender, Belmonte eles vendem o caranguejo. Aqui agora que tem um grupo que tá pegando e vende assim, mas não é assim de vender, pegar todo dia, né? Final de semana, acho que pra tomar uma pinguinha, eles pegam e vende. P/2 - Aqui o pessoal só cultiva pra comer, por exemplo, e pesca só pra viver ou vende? R - Aqui já tem um grupo que já vende. O Zé de Danga mesmo, ele vende. Mas só vive daquilo né. A função dele é só a pesca. P/2 - Mas quando você chegou... R - Mas só pra aqui também! P/1 - Ah, não vende pra fora! R - Só aqui! Não! P/2 - Quando você chegou tinha algum comércio? R - Tinha, uma vendinha, mas era muito pequenininha, nem tinha de tudo. P/2 - E sobre a pesca, tanto o caranguejo, tudo isso, tinha, naquela época que você chegou, alguém vivia disso? De vender? R - Não, a gente pegava mesmo pra comer. P/2 - Todos? Geral? R - Quem quisesse comer caranguejo, tinha que ir e pegar. Foi por isso que eu tive que aprender [risos]! P/2 - Mas a comunidade sobrevivia do que? R - Ela sobrevivia disso... por exemplo, a piaçava, que alguém, por exemplo, uns tiravam pra piaçava e aí o caranguejo, o siri, é o complemento, é a carne da família, né? Por exemplo, não tem uma carne hoje, vou no mangue e pego um caranguejo. Então faço uma moqueca de caranguejo, de siri... P/1 - O peixe não? R - O peixe também, mas sempre vendia uma parte. P/1 - Vendia pra quem? R - Pra aqui mesmo. Por exemplo, a gente tinha um restaurantezinho aqui, eu mais minha irmã, então a gente comprava os peixes daqui mesmo, dos pescadores. Mas nem sempre eles tinham ou davam conta de fornecer pra comunidade. Aí tem que acabar buscando fora. P/2 - E a piaçava, alguém sobrevivia da ... R - Alguém sobrevivia, até hoje, da piaçava. P/2 - E vende pra quem? R - Então, por exemplo, tem o tirador, que sobrevive da piaçava, de tirar piaçava. Por exemplo, aqui tem um... tem uma mercearinhazinha, Israel, ele pega a piaçava aqui dos pequenos e passa pra um alguém em São Paulo, né? Tem gente que vive só da piaçava, do coco, não tem outra atividade. Tanto que o povo fala assim “Nossa, aqui é terra de gente preguiçoso!”, né, porque o povo... P/2 - E o que é que você acha disso? R - Porque o povo só vive disso, dá pra tirar piaçava aqui, um peixe... não, eu discordo dessa afirmativa, mas eu acho que o povo ainda não sabe valorizar bem a terra. Preguiçosos eles não são não. P/1 - Em que sentido? R - Eles não sabem aproveitar a terra, porque muitos deles têm sua terra e não plantam outras coisas, aí nesse sentido eu acho, não é, eles não são preguiçosos. Eles não sabem valorizar a terra, dar o devido valor à terra, aproveitar a terra um pouco mais. P/1 - Mas como é que eles sobrevivem assim? Como é que eles ganham dinheiro? R - Aí já vende, vende a piaçava pra um, já compra, já paga seu supermercado, já compra uma roupa, né? Por exemplo, a carne, já vai pegar o caranguejo, antigamente... já pegava o caranguejo, não era? Já pescava, porque aqui pescava, todo mundo pescava, tinha sua redinha, armava sua rede aí na praia, pegava seu peixe, né? Outras tinham as canoas, iam e traziam seu peixe, e viviam assim. P/1 - E dava pra sobreviver? R - E dava, e sobrevivia! Agora hoje não, com o desenvolvimento, aí já chega energia, aí todo mundo já tem computador [risos], né, tem celular, tudo isso gera despesa, aí já entra o tal do bolsa família, que muita gente já recebe, né? Então tudo isso já vai entrando, já vai chegando na comunidade, que vai gerando, leva a necessidade de trabalhar em outras coisas. Que já tem gente trabalhando, né? Já tem escola, que aumentou o número de professores aqui, que antes era só uma professora, a Lili. Não tinha cantina, a merendeira cozinhava a merenda na casa dela, ela apanhava lenha fora, levava as vasilhas no córrego, era assim a coisa, as escolas por aqui. P/1 - Como é que foi acontecendo essa mudança? R - Aí o desenvolvimento foi chegando, foi chegando gente de fora, chega um e fica, né? P/2 - O que provocou essa mudança? O que você acha, Girlândia? Em 10 anos mudar assim... R - Por exemplo, eu acho que no que chegou a mudança aqui, chega alguém pra comprar, alguém já vendeu os sítios na praia, né, já montou ali, ali já precisa de mão de obra, e aí aqui mesmo foi chegando, com a chegada das pessoas de fora e isso que já são as pessoas que vêm correndo do desenvolvimento, que já vem procurando tranquilidade... que a maioria das pessoas que estão aqui hoje, veio correndo atrás de tranquilidade, né? P/2 - E quem são essas pessoas? P/1 - Mas são gente de fora? Da onde? R - De fora! Por exemplo, os donos de sítio que compraram sítio aqui hoje, os sítios de praia, são todas pessoas de fora. P/1 - Mas de onde que elas são? R - Olha, tem gente até estrangeiro aí, da França, tem gente de são Paulo... P/2 - Não são daqui das comunidades vizinhas que estão vindo pra cá? R - Na grande maioria não. Os sítios mesmo, tem condomínio, tá cheio de condomínio aí, né? P/2 - Aí que provocou mudanças? R - Aí provoca mudança. Aí já vem gente botando comerciozinho, e aí já vem fazendo as leis, né? P/1 - Como assim? P/2 - Que lei? R - Por exemplo, já vai fazendo as leis, já não pode isso, não pode aquilo, né, tem que tomar cuidado. E aí o povo foi entrando nesse ritmo. É o que eu sempre digo a eles, às vezes eles me interpretam mal aqui, mas: “Abre os olhos, senão vocês vão ser enganados!”. Por exemplo, até a praia quiseram fechar aqui! Um grupo lá, os donos, quiseram fechar, botaram cadeado mesmo! P/1 - E o que é que vocês fizeram? R - E aí, povo ficou sabendo, né, Nelson tem essa associação, a Gadap [Associação dos Pescadores do Guaiú], que era o único grupo organizado e jurídico... e aí eu digo: “E agora? O que é que nós vamos fazer?”, mas Nelson tinha um contato com uma pessoa, acho que era até um rapaz de Belmonte, tava passeando aqui e chegou e disse: “Ó, vão fechar a praia, já estão com cadeado e tudo.” E já estavam mesmo! Com portão de madeira, de noite fechava, trancada. Aí eu digo: “Nelson, vão fechar a praia, vamos avisar a comunidade e vamos derrubar o portão.” P/1 - Conta essa história! R - Aí [risos], e aí eu digo: “A gente faz um abaixo-assinado, pro povo assinar.”. E aí como diz o ditado, a gente apanha, quando a gente ensina, o primeiro espelho é você, né, a primeira vidraça a levar pedrada, quando você ensina o povo, é você mesmo. Eu já aprendi e já levei minhas pedradas. Aí mobilizamos o povo e aí fomos pra lá! Fomos mesmo, saímos avisando, de casa em casa, “Bora! Quem tiver machado, facão, bora pra lá que a gente vai derrubar hoje!”. Aí foi, começou a juntar gente, né, mas sempre tem uns medrosos, nem todo mundo vai. P/1 - Quantas pessoas? R - Tinha quase umas 100 pessoas! A gente conseguiu avisar bastante gente. Aí fomos pra lá, aí apareceu um homem de moto, arranjou lá uma motosserra, aí meteu motosserra nos portões, jogou embaixo, e a gente ficou lá. Daqui a pouco vem a polícia [risos]... P/1 - Ah? R - Aí os colega já queria correr e eu disse: “Não! Porque polícia é pra quem fez coisa errada, nós não matamos, nós não roubamos, então nós não temos motivo nenhum pra correr daqui! Nós vamos esperar!”. Aí quando a polícia chegou, aí conversamos, largamos o entulho na estrada, né, que a dona lá, uma chefona aí que tem da praia, que se acha dona da praia, que chega também humildezinha, aqui... que é o cuidado que a gente tem que ter, que é o que eu digo ao povo: “Toma cuidado, porque às vezes chega de fora humilde e bonzinho...”. Nós estamos enfrentando um problema aqui agora assim, com uma pessoa que chegou de fora, bonzinho e depois passou a rasteira no povo! Na gente, e a gente teve que se dispor, ficar zangado e depois brigar com eles, né? Cria inimizade na comunidade... aí derrubamos, aí a polícia chegou e eu disse: “Não, pra não criar tumulto, tira o entulho da estrada e tá aí, pronto.”. Aí tiramos e acabou. P/1 - E não ergueram o muro mais? R - Não, se botar de novo a gente derruba. Então a gente vive nessas lutas assim, então menina, não é fácil também, né? Muita perseguição, eles começam a boicotar a gente, queimar... e é por isso que eu defendo muito esse prefeito, porque foi uma pessoa que na época era meu... já conheci na igreja também, ele era católico, conheci ele na igreja, não tinha nada nem haver com política, né, e ele já ajudou muita gente aqui na igreja católica e aí foi amizade, uma pessoa da mesma linha, né, que tinha as mesmas... discutindo muitas ideias parecidas. E daí pra cá ele veio, entrou na política, ele sempre vinha me apoiando e ele sempre me dizia: “Não, a gente vai melhorar! ”. Ele gosta muito do Guaiú. E aí começou a perseguição por causa dele, até por ser amigo dele era... porque ele era vereador... P/2 - Quem persegue, Girlândia? R - Por exemplo, o prefeito atual da época, de 2007, 2006... ele foi de 2004 a 2006 parece, dois mandatos. Foi terrível. O homem era um coronel perseguidor, terrível o cara! E ele perseguia até por ser amigo desse aí hoje. E perseguia a gente, a gente numa luta por tudo o que tinha de errado, aqui na escola mesmo, sofri muito na escola... P/2 - Conta um pouco desse sofrimento na escola. R - Eu lembro que em 2008, quando foi? Foi em 2004, foi, 2004. 2004 então o prefeito, antes desse... e esse homem ruim, tem a fazenda aqui do lado, não sei se vocês viram a imagem grande aí, na comunidade vizinha aqui... P/1 - De Santo Antônio? R - Sim... viram uma imagem bem grandona de Santo Antônio? P/1/2 - Não, ainda não... R - Do lado de lá, quando vocês forem pra lá, vocês olham, é a fazenda desse homem, desse prefeito. E ele... e olha, me colocaram pra dar aula, vocês acreditam? Um vereador, tinha um vereador aqui, eleito pelo povo aqui, né? E ele me colocou pra dar aula em um galpão de palha, eles fizeram uma festa... e antes disso, já tinham me tirado, não queria... P/1 - Quando fizeram festa, por quê? R - Fizeram uma festa em um galpão de palha, fizeram uma festa, com os músicos ali... esse galpão, eles pegaram ele mesmo e fizeram uma sala de aula pra mim trabalhar [risos]. P/1 - Ah, virou escola? R - É.. virou a sala de aula minha, eu dando aula. Não tava me prejudicando em nada, né, mas eu achava uma pouca vergonha um vereador botar 16 crianças pra estudar em um lugar desse. Que quando chega chuva, a gente pega cadeira e vai pra porta do banheiro. Aí quando os meninos estavam no banheiro, a gente tinha que ficar [sinal tampando o nariz],porque o outro usava o banheiro, na porta. Aí chamaram esse Jorge Pontes, “Venha ver essa situação!”. Quando faltava merenda: “Vem ver a situação!”. Por isso que eu sempre digo a ele: “Toma cuidado, a gente cobrou tanto, você veio tanto aqui, defendeu tanto, então tem que dar exemplo.”. P/1 - E como é que era a escola? Foi mudando? R - E aí foi mudando... a escola mesmo continuou nesse sofrimento até 2008! P/1 - Que era nesse galpão? R - Nesse galpão! P/2 - Você era a única professora daqui? R - Não! Tinha as outras, as outras estavam em sala, salinha alugada e tudo, mas eu, por pirraça porque... e quando ele entrou, ele não me queria na escola, e aí ele foi e me tirou lá de Santo Antônio, porque eu tava lá em Santo Antônio, na escola vizinha. Eu digo bem: “Eu não matei, não roubei, já conheço os meus direitos, não vou aceitar. Não quero conversa com você.”. Aí fui procurar o promotor, era até um promotor de Minas, também não durou muito tempo aqui. Promotor muito bom! E eu conversando com eles, perguntando porque, se eles acham... acho que por questão política. Eu disse que prova não tinha mas era politicagem pública; “Eu não matei, não roubei, não vou aceitar!”. Aí ele disse: “Tudo bem.”. Aí, ficou tentando negociar e eles não queriam, até que chegou uma hora que eles arrumaram confusão aí, pra não dar o braço a torcer [risos], armaram confusão na escola daqui e me trouxeram pra cá, me tiraram de lá, que ele não me queria lá. Eu digo: “Ah, besteira.”; o promotor: “Você aceita?”; eu digo: “Aceito que eu não sou contra lei, eu conheço meus direitos. A lei é bem clara, tem que ____, pode me mandar pra lá.”. Aí ele ficou com raiva e me botou nesse galpão. Achando que ia me prejudicar, eu digo: “Não tá me prejudicando, porque eu tô ganhando, eu ganho pra dar aula até na rua, se precisar! Eles estão me pagando pra dar aula pros alunos e eu dou até na rua, agora, não tem necessidade disso. Então vocês têm que arrumar um lugar.”. Foi quando eu vi a secretária de educação, um dia, chegou na escola, e eu mostrei pra ela, digo: “Olha aqui onde é que eu tô dando aula.”, aí foi quando eles alugaram uma casinha e me colocaram. P/2 - Você tinha o restaurante e ao mesmo tempo dava aula. R - Dava aula! Aí a minha irmã foi embora e a gente acabou, parou com o restaurante, mas eu comecei tudo aqui foi com o restaurante. A gente chegou aqui sem nada, ó o que é que nós trouxemos de Belmonte: nós trouxemos quatro mesas, que é essas mesinhas com esses banquinhos que tem por aí, por isso que eles estavam espalhados por aí, eu gosto deles, esses banquinhos e a roupa. Aí alugamos uma salinha e montamos esse restaurante, só tinha a gente aqui também, né? E ganhamos dinheiro com isso! P/2 - Vocês cozinhavam? R - Cozinhava! Esse padre ajudou muito a gente, né? P/2 - E quem comia no seu restaurante? R - Vinha gente aqui, passava muita gente! Vinha gente, por exemplo, às vezes tinha gente de São Paulo, do Rio, eu lembro que veio uns médicos de São Paulo, ficaram quinze dias aqui... P/1 - Era turistas assim? R - Turista, a gente fazia amizade! Um povo bom... e um tempo depois ele voltou até, já com uns menininhos, né? Muitos ainda voltam, procuram a gente e tudo. Então era esse povo que a gente atendia. Fazia comida boa! Eu gosto muito de cozinhar também. E ganhamos muito dinheiro, fizemos essa estrutura aqui. P/1 - Ah, era aqui mesmo? R - Não... era alugado. Aí compramos um terreno, e montamos isso aqui. O padre ajudou a gente, que a gente sozinha, a gente não tinha condições, né? Esse padre ajudou muito a gente mesmo, a fazer. E trabalhamos ainda um bom tempo aqui, depois minha irmã foi embora e eu digo: “Agora não dá não, vou ficar só na escola mesmo.”. P/1 - Você casou ou não? R - Casei. Aí cheguei aqui, casei, tive os meus filhos, aí não deu certo, separei... ______ também nesses trabalhos, né? ______ vida dura, aí não deu certo, fiquei e aí continuo aqui até hoje. P/1 - Você teve quantos filhos? R - Eu tenho dois, tenho um com 16 e João, com seis. Mas eu gosto da roça, sabe? Tanto que eu... P/1 - Ainda gosta de lá... R - Eu gosto de lá! P/1 - Girlândia, quando você falou: “Eles não dão valor à terra.”., o que você diz? Como poderia ser diferente? R - De aproveitar mais, de plantar! Por exemplo, aqui a alface tem que vir de fora, o tomate... eu observo aqui nos quintais e quase ninguém planta. Agora mesmo já montei minha hortinha aqui, né? Porque é uma vergonha, tanta terra aqui, dá pra plantar, né? E lá, eu vejo lá meu irmão, se você for lá, se vocês forem lá, tem de tudo! P/1 - Na casa dele? R - Sim, na rocinha dele. Ele cria porco, ele cria galinha, ele tem horta, ontem mesmo ele me ligou e disse: “Tá perdendo couve, perdendo folha!”. Porque não dá conta de vender, porque a terra lá é muito boa, então produz muito bem! Eles têm de tudo! É banana, é cacau, ele continuou, clonou o cacau, que veio a Vassoura de Bruxa, deixou todo mundo pobre aí na região, né? Acabou com o cacau! P/1 - O que é que é isso? R - Vassoura de Bruxa! Acabou, destruiu o cacau! P/2 - Uma doença, né? R - Os coronéis estão passando fome... hoje, né? Dentro de Belmonte, nessa região de Itabuna aí. P/2 - Faz um tempo já né, Girlândia? R - Faz tempo! P/1 - Quanto tempo? R - Ô, isso tem mais de 10 anos já! Acabou com eles, é vassoura de bruxa mesmo, vem pra varrer o cacau e a ruindade deles também! Que eles estão pobres mesmo, muitos já morreram, depressão, outros caíram na cachaça, porque não tinha coragem de trabalhar, porque cacau era o ano todo, eles tinham dinheiro o tempo todo, né? Então não aproveitaram a terra. Meu irmão, a gente também tinha cacau, vivia do cacau, mas ele, quando acabou o cacau, ele foi plantar outra coisa. Então ele planta banana, ele planta café, nós temos café lá na roça. P/2 - E vende? R - Vende! Nós temos o café, nós temos coco, muito coco que até perde, né? É... eles faz as roça dele de mandioca, de milho, milho ele planta todo ano! Já é assim, já virou mesmo uma tradição lá da região. O milho, os comerciantes de Barrolândia, que eles têm um grande São João lá, ele que fornece o milho. Então eu acho que eles não aproveitam, porque por exemplo, aqui dá muito abacaxi... P/2 - Girlândia, as pessoas da comunidade, elas sabem mexer com a terra? Aqui, da comunidade... de plantar? R - Sabe...eu acredito que sabe. P/1 - Tinha esse costume antes? R - É, sempre... por exemplo, porque vim de fora, eu acho que tinha esse costume, porque a sobrevivência do pequeno aqui era a terra mesmo. Sempre tinha que plantar alguma coisa! Sempre tinha que plantar, porque o pequeno não tinha estudo, não tinha muitos recursos, mesmo o pequeno agricultor, porque eles eram pequeno agricultor, né? Porque cada um tinha a sua terra, não tinha a vilazinha ainda, era o... cada um tinha a sua terra, vinha aqui, subia aqui, cada um tinha, morava na sua terrinha. Então tinha o costume de plantar, não é? Agora, talvez, eu não sei... meu pai dizia sempre assim: “Nossa, mas o povo lá, por ter caranguejo fácil, ganha muito, então eles preferem mais, né, mexer com essa parte e com a piaçava, que era nativa. A piaçava era nativa. Então eu acho que precisa, sempre digo a eles: “Precisa valorizar a terra!”. Aí nós tivemos a experiência de uma senhora, ela tava lá ontem, eles venderam a terrinha deles aqui, mas era de lá que ela vendia o aipim, fazia o bolo de aipim dela, ela fazia um monte de coisa com... tirando da terra, galinha... P/2 - E agora ela vendeu pra quem? R - Aí o marido vendeu a terrinha pra um campeão aí, um chamado campeão, que comprou quase todo aqui o Guaiú, é um... eu não sei nem se, quase, tá quase que grande latifundiário, porque ele tem muita terra aqui dentro, é dono quase de tudo... P/2 - Ele é daqui da Bahia mesmo? R - Não, acho que ele é mais do sertão... não sei se é de Vitória da Conquista... ou é Vitória da Conquista ou é Feira de Santana, ele veio de um lugar desses. Só que ele é casado com uma mulher nos Estados Unidos. Então tem dinheiro pra comprar tudo. P/2 - E esse senhor vendeu a terra dele e aí fez o que? R - Vendeu a terrinha dele, aí comprou um barco quebrado, esse barco já sumiu, depois teve problema... era pescador da associação! Teve um problema aí na família deles, é, o filho dele se envolveu em um crime aí, coitado e ele entrou em uma depressão, e foi um tempo embora pro Rio de Janeiro. E ela que fica, tadinha, se acabando aí, mas já não pode mais vender o bolinho de aipim dela... P/1 - O que ela faz agora? R - Ela vende pastel, e vende produto de revista. Pega nesses carros assim... quer dizer, que tá dando lucro pro..., se ela tivesse na terrinha dela plantando o aipim dela, plantando as coisas dela, ela tava bem melhor. P/1 - E como ela tem outros casos assim? R - Teve... teve mais gente que vendeu. Venderam. Tem uma ali também que tinha terra, vendeu. P/2 - E quando vende assim eles fazem o que? R - Agora eles vivem da aposentadoria, conseguiram aproveitar, pronto, parou. P/2 - E vive onde? R - Vive... tem umas que conseguiram manter, ter uma casinha, comprou uma casinha e vive só da aposentadoria. P/2 - Girlândia, você falou que é muito importante manter as tradições, né, a cultura... ao mesmo tempo, como faz pra sobreviver? Pra ter algum recurso pra comprar as coisas, comprar o que precisa? Por exemplo, se eles vão manter a tradição da pesca, dá pra sobreviver? R - Dá, da forma que tá organizada hoje dá, porque Zé de Danga veio da pesca. E quando eu cheguei por aqui, Zé de Danga era bem pobrezinho, a casa dele só tinha um espaçozinho, assim do tamanho daquela cozinha ali, bem pequenininha a casinha dele. E hoje ele já tem toda a vida dele organizada, agora ele já tem o barquinho dele, já junta o dinheirinho dele, né? Ele já comprou moto. A gente vê hoje aqui que a qualidade de vida já melhorou muito! A gente sabe de toda a questão política, nacional que influenciou muito! A gente não vai negar isso, né? P/2 - Influenciou como assim? R - Na qualidade de vida do povo. As coisas ficaram mais fáceis pra nós aqui. Porque até quando eu cheguei aqui, a gente via as mulheres sentadas na porta o dia todo, quando não tinha um filho pra ir no mangue, porque nem todo mundo entra no mangue, nem todo mundo, porque é difícil mesmo, né, nem todo mundo que gosta de pescar... eu vou, eu sempre digo: “Eu não passo fome!”, não tenho medo de entrar em mangue, não tenho medo de plantar, de nada. Então, graças a Deus, se precisar voltar pra minha terra, eu volto tranquila. Ou pro mangue, pra onde tiver que ir, eu vou. Não tenho medo, né? Mas nem todo mundo tem essa mesma estrutura, essa coragem, né? Tinha mulheres aqui que ficavam a manhã toda na porta. “Meu Deus, por que é que tá na porta?!”. Era porque não tinha nada pra cozinhar. E a gente viu que melhorou de um certo, em partes, melhorou. Mas por que é que não tinha? Não era porque a atividade da terra não dava, era porque não produzia mesmo na terra. Porque quem planta sua galinha, tem o ovo pra comer, tem a galinha pra cozinhar, tem um aipim, tem uma batata, tem quiabo, tem tudo. É porque não planta, é nesse sentido que eu falo de não saber usar, valorizar a terra. Aí diz: “Ah, mas eu tô pobre, não tinha nada, a terra não me ajuda, então eu vou vender.”, e venderam. Pode até ter melhorado, melhorou em partes, mas aí nisso perdeu-se muitas coisas. Hoje o tomate que a gente come aqui vem de fora, vem do Espírito Santo, tudo vem de fora. Então as coisas aqui acabam ficando cara pra nós por isso. P/1 - Você falou que a comunidade, quando você chegou, ela era unida, mas de um jeito diferente. R - Diferente... P/1 - Como é que foi essa mudança? Essa associação, por exemplo, ela já existia? R - Não, não tinha associação aqui ainda não. P/1 - Como é que foi que vocês...? R - Não tinha, essa associação foi... eu lembro que foi o seguinte ó: chegou um professor do Rio de Janeiro aposentado, Nelson não é daqui, eu não sou daqui, por mais que eu queira, eu sou de Belmonte, tenho me entrosado muito bem, tenho minha família aqui dentro, parte de minha família aqui, mas a cultura do Vale do Jequitinhonha, do cacau é outra, completamente diferente, né? E veio chegando. Então aí foi, por exemplo, veio uma mulher de São Paulo, comprou um sítio aqui na praia, aí eles já começaram a... quando a gente chegou por aqui, ainda tinha seu Arlindo, tinha sítio, tinha Antônio e Romana, tinha... ainda tinha muitos sítios aqui, de pessoas daqui. E a minha luta mais era: “Mas não venda o sítio de vocês! Não venda esse sítio!”. Porque foi aí acho que veio o problema, e aí vem chegando gente de fora, né? E foi chegando, veio se instalando, cada um com o seu jeito de ser, cada um querendo impor o jeito de ser, e o povo do Guaiú, os mais antigos, vão entrando no ritmo. E a Associação de Moradores, quem implantou aqui foi um professor aposentado do Rio de Janeiro. P/2 - Era dos moradores? R - Isso. P/2 - Não era da pesca? R - Não! Era dos moradores. Aí ele fundou essa associação, olha, era esse professor, tinha um francês que também tem terra aqui, uma fazenda aqui, acho que Nelson também tava, aí me chamaram, e aí sei que chamou os moradores. Era um grupo grande, bem organizado! Tinha muitos moradores antigos, faziam parte dessa associação. P/1 - Pra que é que era? R - De moradores. Então já tinha algum projeto, era um projeto de trabalhar com artefato de cimento, fazer bloco. O outro era pra mexer com piaçava. Dois projetos que tinha aí, que eles estavam encaminhando via associação. Só que esse rapaz morreu, do nada, de uma hora pra outra morreu. ____, morreu e pronto. E antes dele morrer ele já dizia, já conhecia, já via o desonesto aqui, querendo passar a perna, ele já tinha uma... ela já tinha essa preocupação. Ele disse: “Olha, se eu morrer e vocês não quiserem essa Associação, vocês não deixam ela ir parar na mão de gente desonesta.”, esse senhor, “Não deixa, queima esses documentos, mas não deixa ir pra mão de gente desonesta!”. E aí acho que uma semana antes dele morrer, ele sentou, chegou ali conversando comigo, falando nisso. “Tá bom.”. E esse documento rodou por aí, rodou na mão de gente, digo: “Vai cair na mão de…”, até um padre mesmo que teve aqui, sem vergonha, querendo passar a mão eu digo: “Tô fora, eu não mexo com essas coisas de gente desonesta não, eu não caminho não!”. E eu sei que acabou que não deu certo, e esses caras então ficaram sem documento. P/1 - Esse documento é... os documentos da Associação? R - É, o CNPJ [Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica] e tudo mais, que sem esse documento e o outro aí não consegue registrar. P/1 - Aham. R - Por causa dessa primeira lá... e aí guardamos os documentos e ninguém achou esse documento mais. Ficou bem longe deles. Eles têm aí estatuto registrado, tem umas coisas aí, mas o CNPJ eles não têm. P/2 - Quer dizer que vocês conseguiram...? R - Guardar. Porque pra eles mexer nisso, eles precisam do atestado de óbito de ______, que acho que Nelson tem. E tem esse CNPJ que também esconderam, não deram pra eles não. Aí eles não conseguiram, né? Aí Nelson registrou essa, foi aí que veio essa de pescadores, né? P/2 - Desde quando tem? R - Nossa, eu acredito que ela deve ter uns cinco anos, ela já não é nova não, essa aqui. P/1 - Foi com que objetivo que vocês fizeram ela? R - Aqui, essa aqui eu não participei, mas foi Nelson. Os pescadores que tavam aí largado, né? Lutando, coitados, sem nada! E já se tinha alguns projetos, o Nelson tinha algumas ideias, eu digo: “Ótimo, registra!”. Só que eu não sou, eu não posso fazer parte dela porque eu sou... por causa da minha profissão. P/1/2 - Professora... R - Professora, eu não posso participar de sindicato e tudo mais, não dá. Quando cruza lá, não pode. E uma coisa registrada, legal, eles têm projeto e tudo mais, carteiras, ligado à colônia, então eu não posso fazer parte dela. Ajudo, mas pra mim associar nessa daqui eu não posso. P/2 - Você participou pra organizar alguma coisa? Teve alguma participação sua na organização dela? R - Não, minha conversa era mais é com o Nelson. Aí a gente já foi esperto, Nelson já disse que tem que ser um grupo fechado, pra registrar um grupo aqui, tem que ser um grupo pequeno e fechado, porque se abrir não registra. Aí assim ele fez. P/2 - Não registra, por quê? R - Porque o pessoal leva, tumultua, aquela... o pessoal tá muito visando projeto, dinheiro. A associação hoje aqui virou isso, esse pessoal quer pra isso, né? E a ideia de Nelson não era essa, era trazer mesmo projetos que beneficiem e que abram pra comunidade! Então aí ele conseguiu, pegou um grupo pequeno e conseguiu registrar. E mesmo assim já tem gente já de olho nela, a luta também é pra segurar ela! Aí eu entro junto ajudando, né? Aí eu tô junto! Aí veio o cultivo... quando ele fala assim: “Aí vai vir o cultivo de ostra.”, desse eu digo: “Tô dentro, eu quero.” Já que eu posso, eu tô... demorou, achava que nem vinha mais isso. P/2 - Mas assim, é um grupo pequeno, mas como é que...? R - A diretoria que eles formaram, deve ser uns 20, umas 20 pessoas. É um grupo bem pequeno. P/2 - Mas aí tem outras pessoas que participam, além dessa diretoria? R - Tem! Já associaram mais gente, já fizeram carteira... P/2 - Quem que é associado? P/1 - Aquele pessoal todo que tava ontem? R - Aquele pessoal ali todo, aquele ali a maioria tem carteira de pescador. P/2 - É pescador, e as mulheres? R - As marisqueiras. P/2 - Então agora a diretoria ficou, chamou mais gente...? R - Chamou mais gente! P/2 - Quantas pessoas? Você tem ideia, de associados? R - Não tenho não! Mas eles vão passar pra vocês. Eu não tenho ideia, mas já tá um grupo grande, já associaram bastante gente. Já cresceu. P/1 - É a única associação que tem aqui no Guaiú? R - Não, tem... nós temos essa de moradores. P/1 - Ah, ela ainda existe, mas não funciona? R - Ela existe, ela existe... e é a melhor que nós temos aqui na região. P/1 - Mas funciona? R - Não, ainda não. Aí é que foi que fizeram um grupo, que eles são considerados os empresários, que eles chamam de empresários, né? Esse grupo foi lá e registrou uma outra associação, só que eles não conseguiram registrar ela, pegar o CNPJ dela, eles só registraram a ata e acho que o estatuto no cartório, mais nada eles fizeram. Por que eles não podem abrir uma outra? Porque ela é de moradores e tem uma antiga aqui. P/1 - Hum. R - Certo? Então tem uma antiga. E eles procuraram essa associação e procuraram e remexeram. “Onde é que tá esse CNPJ?”. Lucas deixou uma parte toda aqui, eu entreguei, [risos] olhei e não achei o CNPJ, eu digo: “Ó, tá aí a pasta, pegue! Vá atrás do padre, sei de CNPJ de associação não! Eu não mexo nisso.”. Quiseram esse CNPJ! Mas porque eles querem dinheiro, é um grupo que quer se beneficiar sozinho. Eu acredito o seguinte: se for pra brigar, pra um desenvolvimento comunitário, coletivo, eu concordo, tô dentro. E aí é onde eu acredito no projeto, né? Que abriu... por exemplo, ainda tá um grupo pequeno porque a gente se capacitou, a gente estudou, se preparou pra isso e tudo bem. Mas eu tenho certeza que é um projeto que vem pra comunidade. P/1 - Mas quando vocês se juntam pra impedir que fechem a praia, por exemplo, é só uma mobilização da comunidade mesmo? R - Da comunidade, da comunidade, os ____ ficam injuriado com a gente. P/2 - Tem algum movimento de vocês, de algum grupo pra começar de novo, ativar a associação de moradores? R - Não, ainda não. Não. Nós estamos agora focados nesse projeto. P/2 - Qual é o projeto? R - Da ostra, que aí Nelson tá cuidando tanto que Nelson veio... eu mesma, apesar de não participar... é que ele cuida da Associação de Pescadores. Tem que cuidar dessa, dessa ele tem que cuidar mesmo, tomar cuidado, né? Deixa essa de moradores aí quieta, né? E eles lá enganando quem eles quiserem, mas cuide da de pescador. Apesar de eu não participar, de eu não ser associada... P/2 - Por que você acha importante agora cuidar dessa de pescadores? R - Porque foi a que trouxe bons projetos e que tá dando certo, né? E que a gente, conversando com as pessoas, são pessoas que não tá olhando pro próprio umbigo. P/2 - Quem são essas pessoas? R - Que tem visão coletiva! O Zé de Danga, o próprio Nelson, né? Tem um grupo que a gente sabe que tem aqueles que puxa pro outro lado, mas a gente tá ali, tem um grupo grande que tá cuidando, não deixa, né? Como a gente não pode excluir, tem que ficar... acolhe a todos, mas cuidando. É um grupo que tem uma visão diferente, né, comunitária, tem um compromisso maior com a comunidade. Então foi ela que foi... tanto que aquele negócio da praia mesmo, eu digo: “Bem, de pessoa jurídica aqui tem a sua associação, é em nome dela.”, mas eu vou pra ajudar. Eu tô dentro pra ajudar. P/2 - Na hora do portão lá? R - Na hora do portão. O que precisar a gente faz, a gente mobilizou pra abrir praia, barra aqui, que a barra tapou, ficou tapada um tempão. P/1 - No rio? R - O rio, mobilizamos pra limpar o rio. P/2 - Quem limpou ele? P/1 - O que é que é barra? R - A barra é a entrada do rio. A boca do rio lá, onde sai pro mar. Onde o rio deságua pro mar. P/2 - E quem... R - Aí cria um paredão de areia e tapa, o rio não pode escoar água pro mar. E aí precisa porque senão a água fica doce no rio, morre tudo, caranguejo, morre tudo. P/1 - E como é que vocês fizeram pra limpar isso? R - Primeira vez foi de pá! Eu mesmo estourei as mãos todas, e cavando, aquele barrancão, quando a gente olhava: “Não vai dar conta não. ”, nesse dia a gente não deu conta, perdemos, trabalhamos a manhã toda e todo o trabalho foi perdido. P/1 - Quantas pessoas eram? R - Nesse dia acho que tinham umas seis... aí na segunda vez a gente foi mais perto, aí nessa a gente conseguiu. Aí ficou o verão todinho e não tapou, tapou agora com o vento, mas já destaparam. P/1 - Vocês ficam nessa luta pra destapar? R - É, e fizemos a limpeza do rio, três vezes, que melhorou bastante. P/1 - Como é que foi isso? R - O rio, aí no caso isso sai no cultivo, né, lá no manejo, a gente se articula no manejo. As mulheres, os homens que não precisam, porque realmente mangue é pesado. Eu mesmo não sei andar muito em mangue, eu digo que pra entrar nisso tem que ser de bota e de bota não dá, e eu não consigo pisar, quando piso de um lado, cai do outro! Não tenho muito esse manejo, esse truque de andar em mangue! A gente não, as mulheres ficam e a gente faz a comida, né, e leva pra eles. Aí a gente já junta todo mundo e faz, divide e faz comida, refrigerante, suco e leva pra eles. Café... P/1 - Mas o rio tava sujo? R - Sujo! Quase a terra, tem lugar que tá aterrado mesmo! Que a água não corre... P/2 - E do que é que suja? Suja do que? R - De mato que nasce, a chuva leva terra, leva areia. P/1 - E aí vocês limpam... R - Limpa! Foi feita três limpezas já. A gente mobiliza os homens, alguns não vão, não é todo mundo que vai, não dá importância. P/1 - Quantos vão mais ou menos? R - A última tinha acho que uns dez. Aí já aumentou. P/2 - E você acha bom, Girlândia, ser dos próprios moradores ou teve que chamar o poder público pra... R - Não seria, a gente não chama o poder público, porque a gente não dá conta, a barra mesmo a gente tem que mandar uma máquina. Mas eu acho que tem que haver o envolvimento dos moradores. Porque mesmo que não use o mangue... essa questão, esses dias mesmo chegou um aqui “Ah, mas tapo o cultivo da ostra, o pessoal da ostra tem que ir lá!”. Eu digo: “O pessoal da ostra só não! Que não é só a ostra que utiliza o rio. Vocês também!”. Dei-lhe uma nele! Nessa hora _____ amigo, quem não usa mais o mangue, não utiliza mais, mas já utilizou! A maioria das famílias aqui já juntou os filhos com caranguejo, então tem que um olhar... carinhoso. P/2 - Por que se não tem água salgada, não sobrevive. R - Morre, morre... as ostras morrem todas. P/1 - Como é que foi que você virou diretora? R - A diretora foi nomeada, foi pelo prefeito. P/1 - E aí como é que foi isso, pra você virar diretora? R - Tanto que quando eles se elegeram, eles ligando, se reunindo, eu não fiz muita questão não. Que eu não queria, na verdade eu não... P/1 - Não queria, por quê? R - Eu gosto mesmo é da sala de aula, né? Porque a direção você tem que ter todo um cuidado, você mexe com todo mundo, com todos, e o meu aluno não, dentro do meu conteúdo, eu trabalho até comício [risos], e sala de aula, trabalhando o conteúdo, mostrando o que é política mesmo, pra quem não gosta, tem que mostrar sim! O aluno tem que saber o que é partido político, o que é política, pra que serve, e a gente fazia mesmo dentro do conteúdo! Eu digo: “Se vier questionar, tô dentro do meu conteúdo.”. Então não pode... P/2 - Girlândia, mesmo pros pequenos? R - Com os pequenos, era com os pequenos! P/2 - É? Como é que você fazia pra trabalhar política com eles? R - Uma vez em Coroa Vermelha, eu trabalhei em Coroa Vermelha uma época, a gente fez comício, fez uma eleição mesmo, com pesquisa, com campanha... a gente trabalhou uma semana dentro de História, né, no conteúdo de História, dentro do conteúdo mesmo... P/2 - Que idade? Que série era? R - Primeira série. P/2 - E como é que você fez? R - Aí os menininhos pegam... e era uma turma que já tinha mesmo dificuldade, me deram pra alfabetizar, com dificuldade, né? E a gente fez, na época era eleição de Lula, eu lembro, eles foram pra rua, fizeram campanha, tinha Lula, tinha o outro candidato, acho que era Fernando Henrique. Eles separaram os grupos pra fazer campanha, né, eles fizeram debate entre eles, eles fizeram as urnas depois, fizeram as eleições, computaram os votos e no final fizeram uma festa [risos]! Quem ganhou, o vencedor, né? Então tudo isso a gente trabalha na sala de aula... avaliou, né? E eu trabalhei aqui em Santo Antônio de Ciências também, na época era esse prefeito que tinha raiva de mim, porque a gente fez também, trabalhou conteúdo de Ciências, dá pra trabalhar, dava uma brecha, vamos trabalhar sim! P/2 - O que é que vocês trabalharam em Ciências? R - Na época via a água, o conteúdo da água e a gente tava com problema com a água... aí veio também uma campanha da fraternidade da Igreja. P/1 - Tava com problema do que? R - A questão de água aqui, que esses tempos tinha problema de água aí, água suja... e foi aquela época também que veio uma campanha da fraternidade da igreja sobre a água, cuidar da água. “Vamos aproveitar!”. P/1 - E o que foi que você conversou com os alunos? R - Ah, trabalhei com toda a escola, a questão da água, eles fizeram peça de teatro e protestaram, mostraram os objetivos, que era uma questão política, certo? E isso incomoda! P/2 - E você era professora de uma sala? R - Lá em Santo Antônio era de todas as turmas do ginásio, de quinta a oitava. P/2 - Você? R - Essa foi melhor. Sim. P/2 - Você era de Ciências? R - Ciências, nós trabalhava nas ciências. E em Coroa Vermelha era só uma turma. Mas a gente trabalhava mesmo! Sempre a gente fazia diferença! P/1- E agora, que você é diretora, o que é que você tenta fazer? R - A gente continua, a gente continua apoiando os rios, trabalhando a questão ambiental, tem sempre umas coisas, por isso que a diretora sempre é mais difícil, né? Porque uma diretora nem todo mundo quer abraçar. E você tem que ter todo um jeitinho. O projeto do rio Guaiú mesmo, que foi a época que a gente tava com problema na água, na barra, que a gente ganhou um concurso aqui, “Nós vamos trabalhar que tema?”. Eu digo: “Eu tenho um tema. A questão do rio, a poluição do rio Guaiú, salvar o rio Guaiú! E vamos trabalhar esse tema.”, e não queriam, não adianta, “Adianta sim, se a gente mudar a mentalidade de um já serve!”. E a gente conseguiu, envolver mesmo a comunidade, até hoje mesmo tem cartaz aí, né, os meninos fala muito bem no rio Guaiú, da limpeza, que tem que salvar o rio, então isso tá na cabeça das crianças! P/1 - Você falou no começo que você teve muita dificuldade de sentir diferença. E agora? Sentir diferença do seu trabalho, que tava dando certo. R - Olha, as coisas mudam, né? Tem, por exemplo, se olhar pro Construtivismo, se me perguntar, parte hoje é, do ensino de Cabrália, é construtivista, tem muita coisa boa, hoje. Não vai dizer que não... melhorou e melhorou muito. P/1 - Como? R - O ensino, as condições de trabalho, os próprios temas trabalhados em sala de aula, né? A grade, a gente poder sentar e refazer. Os PPP [Projeto Político Pedagógico] da escola, como nós tentamos aqui, fizemos nosso PPP, nosso Projeto Político Pedagógico, que não tinha! Então a gente tem essa abertura... P/1 - Como é que vocês fizeram o PPP? R - Em 2008, a gente começou com um grupo de professores que não queriam mexer naquilo, aí não tocaram. Quando foi 2009, que eu entrei, eu digo: “Nós vamos fazer!”. Nós temos que fazer, não tem por onde correr. P/1 - Essa história de PPP, né, o Projeto Político Pedagógico, quem trouxe essa ideia? R - Isso já se tornou lei, porque já era lei, né? Por exemplo, só que aqui em Cabrália a gente foi largando, ou então as escolas que fizeram, fizeram por fazer, pra cumprir lei, né, pra cumprir lei. Mas a gente não! A gente precisa fazer pra melhorar! Tanto que quando a gente começa um ano letivo, tem que pegar ele pra ver o que é que tem que melhorar. A gente, por exemplo, já teve que fazer o PPP, porque entrou a construção... A grande dificuldade nossa era espaço físico, hoje não é mais, né? Então a gente tem que pegar pra refazer o PPP, os projetos que nós fizemos, que teve que entrar, né, colocar... então ele tá nas nossas mãos. P/1 - Quando você fala fazer o PPP, como é que é? Vocês se reúnem? R - A gente se reuniu com os professores pra contar toda a história. Desde lá a história da escola, como é que era, não era esse nome, era uma escola na praia, depois ela mudou, era Pedro Álvares Cabral o nome da escola, era uma sala só, né, não tinha merenda. Depois quando veio a merenda, a merendeira fazia a merenda na casa dela, então foi, depois um outro prefeito, construiu um prédio e duas salas. Mas a comunidade cresceu, as duas salas ficaram pequenas, aí teve que alugar mais duas casas. P/2 - Isso no PPP, vocês recordaram a história? R - Tudo isso no PPP a gente relata. O grau de escolaridade dos professores, né, então tudo isso foi muito relatado no PPP. P/2 - Girlândia, como é que chegou, quando você era professora já tinha a proposta de fazer o PPP? R - Já! Na época mesmo, eu queria fazer, eu e uma colega, uma vizinha, ela mora por aqui. P/2 - Como é que chegou pra vocês essa nova lei, que tem que fazer a construir dessa forma? Como é que chega... R - A gente já sabia que tinha, né, que tinha que ser feito! P2 - Mas como é que vocês ficam sabendo? R - Mas como a direção da escola não se mexeu pra isso, a gente também ficou quieta, né? Mas sabíamos que tinha que fazer. P/2 - Então, como vocês ficaram sabendo? R - Aí veio da Secretaria de Educação. Aí quando chegou da Secretaria que ela tinha que fazer, que ela tava falhando, aí eles vieram aqui com o povo da Secretaria e sentou com a gente pra começar ali. P/2 - Da prefeitura? R - Sim, da Secretaria da Educação. Aí começamos esse PPP, fizemos só uma parte do histórico dele, aí umas colegas disse: “Ah, é besteira.”, e eu e mais uma estávamos interessadas em fazer, mas “Ah, já que a maioria não quer fazer, não vamos fazer então não.”, aí largamos. Aí quando eu entrei em 2009... P/2 - Como diretora. R - Como diretora, aí a gente retomou e a gente concluiu o PPP. Esse a gente concluiu, tá prontinho lá. 2009, 2010 a gente revisou ele, é a cada dois anos, então ano passado a gente já fez a revisão dele. P/2 - E você faz com quem essa construção e revisão? R - A gente faz com a escola, pais de alunos... P/1 - Ah, envolve pais de alunos? R - Envolve a comunidade! O certo é envolver toda a comunidade! Mas aí não deu ainda. Agora na próxima revisão, se eu tiver ainda por lá, a gente quer envolver toda a comunidade. P/2 - E como é que você chamou os pais? Como é que eles participaram? R - Os alunos, né? Porque, por exemplo, tem pai de aluno que trabalha na escola e aí a gente foi pegando, ouvindo, né? Os menino também fizeram entrevistas com os pais... até mesmo aproveitando o projeto, eles fizeram entrevistas, a gente incluiu no PPP. Então é uma coisa que, né, melhorou muito, mas ainda tem muito. Eu vejo assim, minha angústia hoje... o ensino melhorou, desenvolveu a educação em Cabrália, graças a Deus, a educação em Cabrália é nova. Quando eu cheguei aqui em 1993 não tinha segundo grau ainda não! P/1 - Aqui em Guaiú ou em Cabrália? R - Em Cabrália! Lá na sede. O pessoal tinha que estudar em Porto Seguro. Então esse prefeito, ele era um dos envolvidos lá, que correu muito atrás, que brigou muito pela educação. Por isso que eu digo a ele: “Você não pode falhar! Você tem que se virar e dar conta, hein?! Não pode faltar merenda, não pode faltar nada.”, então ele, era novo, melhorou tudo isso, mas ainda tá faltando algo. P/1/2 - O quê? R - Eu acredito o seguinte: as pessoas têm que se desenvolver humanamente, economicamente, certo? Tem que ter esse olhar, tem que desenvolver e tá faltando isso! Eu tô observando assim: as pessoas estão estudando, as famílias estão mandando os filhos pra escola sem objetivo, pra cumprir lei, pra não perder bolsa família, com medo de justiça, de conselho tutelar que tá aí nas comunidades, certo? Mas não tem um objetivo como, por exemplo, o meu pai tinha. “Vocês têm que estudar pra não ficar a vida inteira trabalhando na roça.”; “Vocês tem que estudar, ser alguém na vida.” Era esse o termo que ele usava: “Ser alguém na vida.”. Você entendeu? Ter sua consciência, não ser dominado por ninguém, não ser puxa-saco, ele tinha um medo que a gente fosse puxa-saco dos ricos, né? Então a gente estudava pra isso. E tá faltando isso! E aí eu vejo os meninos, não vão pra faculdade, terminam o segundo grau e não estão indo pra faculdade, acho que não estão preparados pra fazer uma prova do Enem, certo? P/2 - E você como diretora? R - E minha preocupação hoje é essa. P/2 - E você como diretora, você vê alguma coisa que poderia ser feita pra isso melhorar, começar a melhorar, Girlândia? Tem alguma coisa que você assim: “Ah, podia ir por aqui, por ali...?”. R - Eu vejo, eu sempre digo, a briga comigo aqui é sempre essa né? Eu digo: “A falha é nossa!”, quando a gente faz a reunião na escola, eu digo: “É nossa! Nós somos culpados, 50% da culpa é nossa.”. Primeiro tinha uma briga com um médico, até por causa daquele Telecentro ali, que eu digo: “A culpa é nossa!”, porque que cidadão nós estamos formando?! P/2 - E falta o que pra escola, pro professor formar diferente? R - Diferente... olha, eu acho, eu não... o que ia ser legal, era que não tinha o Ensino Superior, era a grande discussão. Hoje, Cabrália, inclusive não foi só eu que fiz essa avaliação, eles lá fizeram também, que Cabrália hoje, acho que 90% dos professores tem o curso, o nível superior, fizeram faculdade e não melhorou nada o ensino. P/1 - Nossa, 90% fez Ensino Superior? R - Já! E quem não fez, tá fazendo! P/ 1- Você acha que isso não tem resultado na sala de aula? R - Não tá tendo! Não teve, não sou que tô dizendo só. Não teve. E aqui a gente já melhorou muito, mas é na luta! É, agora eu sinto falta é da equipe, do comprometimento da equipe, dos professores. Aí eu acho que tem que se pensar em uma forma de despertar essa consciência no professor. Eu vejo neles! P/1 - Você disse que no começo era muito difícil, que ganhava muito pouco, agora isso melhorou? R - Não, melhorou! Hoje nós não temos o pior salário. P/2 - Tem formação pra professor aqui assim, não a formação do Magistério, do Ensino Superior, outro tipo de ...? R - Tem! Tem os cursos, nós mesmo estamos recebendo aqui, olha, nós temos aqui o curso de Educação Infantil, que é formado em rede, o pessoal de parceria lá do Santander, Prefeitura, temos parcerias boas. Agora o Governo do Estado também fez uma parceria, que é o Pacto pela Educação, porque tá sentindo problema na alfabetização, né? Então a gente tem formação direta, contínua, tem formação. Eu acho que tem a formação, além do estudo deles, eles têm informação. Agora eu acho que... eu não sei se é só nossa a culpa, se é só nossa da escola como um todo, eu acho que ainda, nesse ponto, as associações também estão pecando, as igrejas, sempre eu digo isso ao padre: “A igreja católica tem que rever sua prática! Tá errada! A igreja já foi grande sinal de exemplo aqui na nossa região, hoje não tá fazendo nada!”. Eu já tive até problema com o bispo [risos], confronto ele sempre, questiono... a gente fez com as comunidades base aqui, a gente fez grito dos excluídos, com pouca gente, mas fizemos. Eu digo: “Nós vamos fazer sim! Grito dos excluídos, vamos gritar pra salvar o rio Guaiú!”. Então a gente tem tentado, né? Eu digo: “A igreja não tá sendo sinal.”, então, eu não sei, tá... precisa se fazer e eu acho que quem tem que dar esse pontapé é a escola. Então acho que essa reflexão nós vamos ter que fazer. Descobrir de que forma nós vamos estimular o ser humano, né? Porque tá... e aí é onde entra a nossa juventude largada. Eu acredito assim, nisso. P/1 - Vamos entrar um pouquinho no projeto. Você conhece o Projeto Pescando com Redes 3G, como é que você conheceu ele? R - Isso. Eu conheci através de Nelson. P/1 - Como é que foi? R - Foi Nelson que disse: “Ó, vai ter um coletivo de ostra.”, aí eu perguntei pra ele como é que era: “Não precisa ser agricultora, marisqueira pra se associar.”, aí ele disse: “Vem.”, e eu disse: “Esse eu tô dentro, esse eu quero. Esse me interessa.”. Até porque eu não vou ficar em escola a vida inteira, né, e eu preciso ter uma atividade. Então esse era meu objetivo. Aí veio a capaci... demorou, “Não vai ter mais não.”, eu digo, e Guaiú que nada dá certo, né? Sempre era comentário do povo: “Nada vai pra frente nesse lugar!”. Aí veio, um dia veio a capacitação. Nelson inscreveu todo mundo e quando veio... P/1 - Inscreveu todo mundo, são quantas pessoas mais ou menos? R - Tinha, era um grupo grande, tinha mais de 50 pessoas. Era muita gente que fez a capacitação. Aí ele... eu digo: “Quero.”. Fui, fiz direitinho. Gostei. E aí de ver plantar o cultivo. E aí eu tô dentro, a gente faz mesmo, participa de tudo. P/1 - O que é que é o Projeto Pescando com 3G pra você? R - Ah, sim, eu tô esquecendo uma coisa! Antes do projeto, quer dizer, veio as contrapartidas, né? Se viu que não tinha telefone aqui, eu comprei o meu celular só pra usar quando saía. Eu compro um celular pra usar fora. Quando saía de Guaiú... P/1 - Aqui não pegava? R - Não pegava porque não tinha sinal, não tinha nada. Já começou daí as coisas boas... P/1 - Como é que vocês se comunicavam antes? R - Tinha um orelhão pra todo mundo, depois a Oi implantou aqui, mas acho que era ruim o sinal, aí a gente tinha telefone fixo. Mas muito caro e não dava não. P/1 - Ah, a Oi era telefone fixo? R - Isso! P/2 - Era caro? R - Era caro, era complicado, não dava não. Eu mesma desisti. Aí quando veio essa torre, eu digo: “Bom, eu já tô encerrando, não quero mais.”, quase ninguém aqui tem telefone fixo hoje, são poucas pessoas. P/2 - E atende a comunidade toda? R - Atende. Ontem mesmo uma mulher de Cabrália disse: “Nossa, tem que reclamar na Vivo porque o sinal tá ruim.”, eu digo: “Engraçado, eu não posso nem reclamar, porque aqui não tem esse problema.” De sinal, né? Aí veio internet, não é isso? O povo começou a comprar computador. Então são coisas boas, né? P/1 - O que é que muda na comunidade quando passa a ter o telefone e o computador? R - Você passa a ter acesso, as coisas ficam mais fáceis pra resolver. Antigamente pra gente buscar uma coisa, ou mandar um recado, você tinha que ir em Belmonte ou teria que ir em Cabrália, hoje usa o telefone. Você tá em um canto, você resolve toda a sua vida por telefone. Isso é ótimo, a gente tá na escola, liga pra secretaria, resolve uma coisa. Eles tinham que vir alguém de lá até aqui, a gente tinha que ir lá na secretaria, às vezes, pra dar um recado. E hoje a gente tem acesso a tudo, liga pros irmãos, eu mesmo falo com a minha família! E sem falar na internet, né, que é um outro instrumento importante! P/2 - Pra quê? R - Pra nossa... pro nosso dia a dia. Os e-mails, que é novidade. E algo novo que os alunos, que a gente tá aprendendo estudando, conhecendo. Eu mesmo vi que já tem, aí eu entrei, fiz curso de informática. P/1 - Você não sabia usar? R - Eu não sabia! Digo: “Eu vou tomar vergonha e vou aprender.” P/1 - E aí? R - Evolui. Fui estudar em Porto Seguro, né? P/2 - E pra escola, o que mudou a internet? R - Os trabalhos, as aulas, né, os encontros. Hoje a gente faz uma palestra, tem todos os recursos. O professor já vai... você pode ir lá na escola, no dia de aula, já tem professor na internet pesquisando. Então isso é bom. P/1 - Você acha que o pessoal usa a internet.... R - Usa, usa! P/1 - Como uma ferramenta mesmo de trabalho? R - Usa, usa. Lá na escola mesmo eu olho, só observando, que tira da internet. Ainda tem professor que não sabe usar, tem umas duas lá que não dominam muito bem. Mas os filhos mexem, pedem, pesquisa. P/1 - Dá um exemplo assim, como eles usam. Você sabe alguma coisa que aconteceu e você pensou: “Nossa, isso foi útil!”? R - Olha, por exemplo, as aulas, os projetos. Festa junina, vou te dar o exemplo da festa junina. Ih, a gente fazia um projeto, era uma dificuldade, tinha que fazer desenho, tinha que buscar, não sabia nem por onde começar. E hoje a gente vê as meninas lá, São João, já tem essa ideia, tem esse aqui. O lixo então, por exemplo, vamos buscar um projeto do lixo. “O que é que nós vamos buscar?”, “Vamos buscar atividades na internet!”, e aí traz muitas atividades e ali vamos escolher o que é melhor, né, vamos escolher o que é melhor. Por exemplo, uma coisa que eu achei que é interessante, a professora levar os meninos, botar o computador na sala, que a Vivo deu um notebook pra nós, então aí hoje é o computador que tá funcionando na escola. Aí a gente... ela levava pra sala pros meninos pesquisar, fazer o trabalho deles, então tem utilidade sim. P/1 - Isso foi contrapartida do projeto? R - Foi, do projeto, que se não fosse do projeto, não tinha a torre aqui. P/2 - E além dessa comunicação, o que mais o projeto trouxe assim? Teve a comunicação e o trabalho, o cultivo de mariscos... R - A limpeza do rio, foi uma grande, foi graças ao projeto! Porque senão esse rio tinha morrido. Ontem mesmo eu tava dizendo lá: “Tinha morrido!”. P/2 - Mas o rio viveu sempre, o que aconteceu que tá morrendo? R - Tapou, tapou tudo, ficou quase um ano! Os caranguejos tudo morto, morrendo tudo. P/2 - O que você acha que provocou isso, Girlândia? R - Olha, uma parte a gente acha que é a sujeira do rio, pode ser ali também à vera céu (?). Mas a limpeza do rio a gente já resolveu uma parte, né? Ele ficou um tempão sem tapar. Então isso... todo mundo diz aqui: “Se não fosse esse projeto, o rio tinha morrido, já não tinha mais um caranguejo aqui!”. P/2 - E como é que eles fizeram, promoveram a limpeza? Porque vocês que foram lá limpar... R - As ostras começaram a morrer, eu digo: “Nós vamo perder o projeto! Nós vamos perder.”, “O que é que nós vamos fazer?”, aí eu digo “Vamos embora limpar o rio!” e a gente fez a campanha, chamou a gente, foi, fez a primeira, a segunda e a terceira. P/2 - E o projeto contribuiu... R - O projeto contribuiu, despertou na comunidade, porque se não fosse o projeto o rio ia ficar lá todo tapado. P/2 - Por causa das ostras? R - Das ostras... P/1 - Mas conta pra gente: o que é que é o projeto pra você? R - Olha, pra mim, primeira coisa foi um dos melhores projetos, uma das melhores coisas que aconteceu aqui dentro do Guaiú. De projeto, foi esse. Por quê? Porque com esse projeto, as famílias estão mais unidas, a gente senta pra estudar, pra discutir as coisas, porque ele teve a capacitação, né? Teve momento de estudo. A gente vê as cartilhinhas mesmo, eu mesmo tenho a minha, sempre de fácil acesso pra, né, se ficar alguma dúvida no estudo, a união que trouxe mais pro grupo. No sentido de Adriano falar mesmo, né, que a gente precisa tá mais unido, mais organizado. Essa questão da questão ambiental, do cuidado com o meio ambiente, a gente viu um grande cuidado! Quando vê um cano: “Será que não tem água aí não?”; “Será que não é esgoto não?”; “Não é fossa que tá indo pro rio?”. Então ele trouxe isso, né? E tenho certeza que nós vamos ter o retorno econômico! Porque muita gente, quando entra em um projeto desse, pensa logo no econômico, visa logo esse. E não é, a gente tem quase dois anos que estamos trabalhando nesse projeto e até agora nós não vimos dinheiro nenhum. No entanto nós estamos animados, a gente acredita! Tem gente que acredita no projeto! Eu acredito, plenamente! Eu sempre disse a Zé de Danga: “Zé de Danga, a gente vai ter que brigar, se precisar brigar, nós vamo brigar, mas esse projeto tem que dar certo!”. P/2 - E o pessoal... você disse que tem um estudo? Foi algum curso? R- Foi o curso pra implantar o projeto, na implantação. P/1 - Como é que foi? R - Com os engenheiros. Vieram Ricardo e Tiago, ficou aqui com a gente, né? Manuseando a cartilha, a gente estudou como é o cultivo, como se dá, como se faz os travesseiro, como fazer as mesas. Tem tudo isso na cartilha, estudou aquilo passo a passo. O uso do aplicativo. E ainda tem outra coisa importante que eu tô esquecendo. Com esse projeto, muita gente voltou pra escola! P/1 - Como assim? R - Viu? Porque eles sentiram a necessidade do uso do aplicativo, quem não tem leitura. Zé de Danga mesmo, você viu ele dizendo que tá estudando? Você viu ele dizer ontem que ia ter aula à noite? Muita gente ali é do cultivo! A gente sentiu a escola, levando ele lá, digo: “Não, o pessoal precisa implantar a educação de jovens e adultos.”. Porque tem o pessoal do cultivo. P/2 - Aí que começou o curso de jovens e adultos? R - Aí a gente começou, implantou, a educação de jovens e adultos. P/1 - Ah, antes não tinha? R - Não tinha! P/1 - Foi de dois anos pra cá? R - Foi, a gente começou o ano passado. Começou esse ano a turma. Mas a gente já no manejo, já sentindo a dificuldade. Muita gente não tem leitura. P/1 - Como é que é o uso desses aplicativos? R - Os aplicativos, por exemplo, medir a salinidade, a quantidade de ostra que já tá lá lançada no sistema lá, a quantidade de ostras que nós temos. Aí, por exemplo, quando a gente faz o manejo, você conta todas as ostras, aí a gente separa as mortas, então aquelas que morreram, tem que jogar no aplicativo. Então lá tem que incluir lá que morreu tantas ostras. Aí ele te dá o resultado de quantas tem. A questão da salinidade da água, que tem que colocar no aplicativo, né, a temperatura. Então tudo isso requer leitura. P/2 - Girlândia, quantos começaram a se envolver? No comecinho do projeto, quantas pessoas? R - Tinha 27. Após a capacitação... a capacitação era um grupo grande. P/2 - Quantos mais ou menos? R - Eu acredito que ali tinha mais de 50 pessoas. Eu não tenho uma lista assim não, mas... P/2 - Homens e mulheres? R - Homens e mulheres! Crianças... P/2 - Esses homens, eles faziam o que antes? Ou eles eram o que? Pescadores? R- Pescadores, tinha gente de todo segmentos, né? P/2 - Sim. R - Tinha interesse de conhecer e fizeram a capacitação. Mas aí, pro cultivo mesmo, lá pro manejo, ficou mesmo 27. P/1 - Por que os outros saíram? R - Ah, de certo não acreditaram, né? Tinha uns que eram da Mata Medonha, aí é longe pra vir... acho que tava pensando que ia ter retorno rápido, né? Acho que muito foi isso. P/2 - Mas logo de início deu pra perceber que... como foi falado esse retorno financeiro? Foi falado disso? R - No estudo mesmo já dá pra ver que ele não é rápido. Até porque nós estamos em um projeto, uma experiência. E a gente teve algumas dificuldades. Por exemplo, morte de ostra, morreram muitas ostras. Os locais, no rio, tiveram pontos que não deram certo, colocou mesa, mas não deu certo, teve que trocar, até achar o espaço, o lugar certo, tudo isso são experiências. Então você não vai ter um retorno imediato, né? A gente foi buscar ostra em canavieiras, teve isso também, né? Quando a gente viu que, não, tem alguma coisa errada aqui, esse projeto não pode acabar. Vamos formar um grupo e fizemos vaquinha no grupo. P/1 - Ah, é? R - É... “Vamos fazer vaquinha no grupo pra buscar ostra em canavieira!”. Fomos buscar ostra... P/1 - Por quê? R - Porque tinha pouca ostra, né? E a gente tava com medo do projeto acabar. Se continuar assim, o projeto não vai querer investir nisso aqui. Vai achar que a gente não tá cuidando direito, né? Então a gente foi buscar ostra no Canavieiros. P/1 - Canavieiros é longe? Onde fica? R - É no outro município! Depois de Belmonte, é longe já... P/2 - Girlândia, e esses 27, permanecem...? R - Saíram alguns, diminuiu. P/2 - Quantos tem? R - Tem menos, foi diminuindo, acho que hoje tem 23, 24. Acho que 24 pessoas têm no grupo. P/2 - Homens e mulheres? R - Homens e mulheres, mas tem mais mulher. P/1 - E por que é que você acha que diminuiu assim? R - Eu acredito que uns estão envolvidos em outras atividades, tem gente que entra pensando que vai ter retorno rápido, né? As vezes acha que é perder tempo e eu vou ganhar dinheiro mais rápido em outra coisa. P/2 - E os que ficaram, você acha que ficaram por quê? R - Porque acreditam e gostam e querem. Porque eu mesmo, quando entrei no projeto, quando Nelson me disse assim: “Gico, o projeto...”. – porque me chamam de Gico aqui, né [risos], algumas pessoas. – ele disse assim: “O projeto não vai impedir de você desenvolver as suas atividades normal.”. Aí eu digo: “Aí esse que é o bom, esse é ótimo.”. Porque a gente pode continuar trabalhando e participar do projeto. Eu mesmo continuo na escola e vou pro meu manejo todo dia, todo sábado. A cada 15 dias a gente vai pro manejo lavar ostra. O dia que não dá, realmente tem os sábados letivos pra pagar, aí a gente avisa, né? Por exemplo, tem duas zeladoras da escola que fazem parte do cultivo, que vai também. Aí teve um dia mesmo que fazer travesseiro e a gente tinha uma atividade na escola, eu disse: “Fica uma na escola e a outra vai fazer travesseiro.”. Dá pra fazer... P/1 - Como é que é isso de fazer travesseiro? R - Os travesseiros, aqueles travesseiros. Ô, João! (Chamando o João) P/1 - Aquele travesseiro de dormir mesmo? R - Não... João! (Chamando o João). Vou pegar um ali depois pra mostrar pra vocês. P/2 - Girlândia, e como se organiza o trabalho de vocês no cultivo da ostra? Conta um pouco como é, no mês. R - Aí tem dois... olha, no nosso grupo tem três homens: Zé de Danga, Noel e Hadison e tem um menino, tem duas crianças no nosso grupo também, viu, que trabalha de igual pra igual com a gente! Que eu acho interessante também a participação daqueles menininho ali... P/1 - Quantos anos? R - Acho que 10, a outra deve ser 13. Trabalha mesmo, de igual pra igual com a gente. O que a gente pega pra fazer, eles fazem também. Tem três homens, então dois desses é que pegam, que entram na água, que eles dizem que vão jogar água na gente ainda, né? Eu digo: “Eu entro!”. Eu acho que é justo, né? Se der conta, a gente entra sim pra amarrar os travesseiros, não tem problema nenhum. P/2 - Eles mergulham? R - Então eles que vão, que tiram... P/2 - Mergulham? R - Não, é raso. Eles que tiram os travesseiro, né, as mesas e trazem. E a gente já forra a lona e a gente que lava. A gente lava, escova elas todas. Tem umas que elas reproduzem muito rápido, aí a gente tem que desgrudar, tirar elas, limpar. Às vezes a gente tira muitos filhotes! P/2 - E põe o que? Esses filhotes, faz o que? R - Os filhotes vai pra um outro travesseiro, vai pra outra mesa. Os que a gente consegue tirar vivo, vai pra outra mesa. A gente limpa tudo, lava aquilo bem lavadinho, separa as que morreram. E aí lava os travesseiros com escova e volta elas pro travesseiro de novo. P/2 - E essas que vocês lavaram, faz o que com elas? R - Aí elas voltam pra água de novo, pro rio. P/2 - Mas então por que é que tira pra lavar? R - Porque é tela e aí junta lodo. E elas é que fazem a limpeza, que elas purificam a água, né? Elas ficam abertinhas ali. Então a água não pode ser suja, não pode ser contaminada, por isso a gente tem todo o cuidado com esse rio! P/1 - Contaminada com o esgoto assim? R - Com nada! Não pode. Então esse rio que é o ponto principal. Então ele tem que ser, todo cuidado é pouco com eles. P/2 - E vocês ainda... e quantas vezes por mês vocês tem que fazer esse processo? R - 15 dias, a gente faz duas vezes no mês. P/2 - Aí o grupo todo vai no mesmo dia? R - Vai no mesmo... aí, como tava muita ostra, dividiu. E a gente começou a perceber, né, tem pessoas que não tavam, sempre tem uns que são meio devagar e o grupo começou a reclamar, aí eu disse: “Então bora dividir!”. E também não tava podendo, aí tava alegando que era no sábado, que só podia na semana. Então a gente dividiu o grupo, aqueles que podem durante a semana, que é na sexta feira, e o outro vai no sábado, que é no caso a gente que trabalha em escola, só pode ir no sábado. Aí dividiu dois grupos. P/2 - E dura quanto tempo esse trabalho de limpar as ostras? R - Olha, a gente começa nove horas e tem dia que a gente sai quase duas horas. É muito trabalho. A gente trabalha muito, porque a gente trabalha mesmo! Tanto que o nosso grupo, a gente não deixa ostra pra outro dia. A gente lava tudo mesmo. Mas a gente não perde tempo. P/1 - E quem é que organiza esse trabalho pra vocês? Que propôs a divisão, que... R - Foi junto com o Ricardo... foi o Ricardo na época? Acho ainda era Ricardo, o engenheiro. Ou foi Rui, acho que foi já foi Rui agora. P/? - E agora atualmente? R - Tem Fabrício aí, Fabrício também tava. Xêpa, e aí achou melhor, foi discutido, apresentamos todas as dificuldades e achou por bem o grupo que dividisse. Porque tinha grupo que não podia que, por exemplo, as pessoas que estavam faltando, tava alegando que era no sábado. Aí formou dois grupos, um na sexta e outro no sábado. Aí não tem problema. P/1 - Como é que faz essas reuniões? Esse grupo, a gestão desse projeto, como é que é isso? R - É ali no Telecentro! P/1 - Pra tomar as decisões, quem toma as decisões? R - Ali, vai todo mundo pro Telecentro. Todo mundo junto. Junto com Ricardo, ou com Rui, agora tem um engenheiro muito bom por sinal! Nós não tinha nada contra o outro, mas esse é muito bem organizado! Tá tudo organizadinho, né? Às vezes o Fabrício tá junto, Xêpa, Nelson, às vezes faz parte, Nelson também participa. P/1 - Mas o grupo todo? P/2 - Quem chama quem? R - Aí quando tem necessidade, no grupo a gente percebe e então a gente pede reunião. Aí a gente pede reunião pra decidir, pensar em alguma coisa aqui que precisa melhorar. P/2 - Girlândia, e no dia a dia, nesses encontros, né, duas vezes por mês, pra fazer esse trabalho, tem alguém que lidera ou não? O grupo, como é que é na hora lá. R - Ficou cada grupo tem uma liderança agora, né? No nosso é José de Danga e o outro é Jorge. O nosso grupo a gente escolheu Zé de Danga, mas foi escolhido o grupo votou. P/2 - E o que é que esse líder faz? R - Esse líder, por exemplo, é quem convoca as reuniões, convoca o manejo... por exemplo, Zé de Danga, pra nós tem que ser ele, porque é ele que sabe horário de maré, horário porque tem que ser só na maré seca. Então todo mundo já liga, tem pessoal que: “Ah, Zé de Danga não liga!”, nós não temos esse negócio não, então nós já avisamos, né? Eu ajudo muito ele porque eu sou mais direta! Às vezes tem coisa que ele não tem coragem de dizer, eu digo e cobro, não tenho medo, se tiver que causar polêmica, causo, a gente resolve, né, então ajudo muito ele nessa parte. Ele executa mais, então por exemplo, eu não entendo de maré, então: “Ah, não liga.”, eu digo: “Todo mundo tem celular.”, não vai esperar Zé de Danga ligar pra ninguém. Já sabe que o manejo é a cada 15 dias, todo mundo já vai ligar pra ele. Aí ele liga, fala o horário da maré, “Que horas é o manejo?”, aí geralmente: “Nove horas!”, aí vai todo mundo nove horas. P/2 - E no grupo também tem que ter um pescador, você acha que precisa? R - No outro grupo a mesmo coisa, no outro grupo tem Jorge... P/2 - Mas precisa de um pescador pra ver essa parte? R - Não, Jorge também entende, ele não é pescador. Ele entende bem. P/1 - Sempre então tem... R - Tem, por isso que ficou ele, porque ele entende bem. P/1 - E teve alguma dificuldade na implantação do projeto, assim, que vocês enfrentaram? R - Ó, a primeira dificuldade foi o lugar, foi achar um local. Eu achei, a gente achou muita dificuldade, porque morreu ostra, né? E aí não deu certo, a gente viu que ali não deu certo e ia ter que mudar, até achar um lugar pra ver a temperatura, onde uma boa temperatura, fundura. E até esse aí, foi a primeira dificuldade que eu achei. P/1 - E depois no uso do aplicativo, por exemplo? R - No uso do aplicativo, eu via a questão de leitura, as pessoas se recusando a usar, mas por causa da leitura. P/2 - Quantos vieram pra vocês de aplicativo? Quantos equipamentos? R - Teve um curso, teve uma capacitação, eles trouxeram vários aplicativos, formou os grupos e todo mundo teve que manusear o aplicativo. P/2 - Aí quando pessoas mais ou menos nesse curso? R - Nesse curso tinha as 27, eu acredito, tava todo mundo do grupo, todo mundo recebeu a capacitação, todos do cultivo. P/1 - Esse aqui aplicativo é mais pras ostras mesmo, não tem pros barcos, ou tem? R - Tem pros barcos, eles têm. P/1 - E eles conseguem usar? R - O Zé de Danga tá usando! P/2 - Você conhece um pescador que tá usando? R - Conheço, Zé de Danga tá usando. Vocês vão entrevistar ele, ele já vai falar disso. P/2 - E no caso de vocês com as ostras, ficou o que? Um equipamento? Quantos equipamentos pra vocês? R - Ficou, ficou acho que foi uns dois. Acho que cada grupo tem um. E mesmo assim, os engenheiros, quando vêm, trazem. P/2 - E quem mexe de vocês no aplicativo? R - Eu mexo, Larissa mexe, todo mundo sabe mexer! Todo mundo recebeu a capacitação pra mexer, né? Mas ultimamente quem tem feito é eles, com essa questão da água, de cuidado com a água. Porque choveu muito, agora a problemática foi com a água doce, que com a água doce ela morre também, agora não pode ser doce demais não, nem salgada demais, nem doce demais. Então tudo isso tem que ser monitorado, até acertar tudo isso, né? P/2 - Tem aplicativos de quantas ostras tem e tudo isso? R - Tem, tudo já tem. P/2 - E tem outro equipamento, além desse? Que vai na água... R - Tem, tem o pra ver... tem um equipamento pra medir as ostras, né, que a gente mede o tamanho delas, elas já estão todas separadinhas por tamanho, né? Tudo isso. O tamanho, aí tem pra ver o oxigênio da água, tem outro aparelho, a salinidade da água. P/2 - E vocês aprenderam sobre isso? R - Aprendemos! Todo mundo usou... P/1 - Foi tudo no curso? R - Tudo no curso! Foi todo mundo, eles foram pra lá, os engenheiros ensinaram a gente lá na prática. P/2 - E agora quem é que pegou essa parte mais pra fazer? R - E agora a gente faz, cada grupo faz um. E normalmente os engenheiros tão lá, Rui tá lá, porque essa questão de monitoramento de água, por exemplo, agora mesmo tem problema de muita chuva, a água ficou doce doce, né? Então é um perigo pra nós, chuva demais é problema, a gente fica em alerta, né? Então nós tivemos um outro problema também, a questão da fossa, que tinha uns carros de fossa passando, a gente tava achando que tava jogando no rio, um dia mesmo meu sobrinho até disse “Eu vou comprar minha moto, porque na hora que passar aqui, a gente vai atrás!”, então a gente seguiu, meu sobrinho um dia foi atrás, mas não encontrou, acho que eles foram mesmo pra lá, pro lado de Barrolândia... P/1 - Um carro que limpa as fossas? R - Que limpa as fossas pra lá e vem jogar pra cá. Tudo isso a gente tem que ter todo um cuidado, então tem que ter mesmo gosto e carinho e acreditar no projeto. P/2 - Girlândia, e todo esse cuidado com o rio, com isso que você acabou de contar, já não acontecia antes desse projeto? R - Não, não... que o rio ficou meses aí tapado, ninguém nem destapou, só quando a natureza foi lá e... então não tinha não, o povo não tinha esse cuidado não. E a gente fez mesmo, foi à escola mesmo e a escola abraçou a causa. Eu digo: “Até tem um cultivo de ostra...”, elas não queria não, as professoras, e eu sensibilizei: “Não, pera aí, tem cultivo de ostra, tem pai de aluno que faz parte, né, tem alunos que já estudaram aqui, a gente tem que abraçar essa causa junto com eles.”. P/1 - Por que quando você diz abraçar a causa, o que é que é? R - Ir pra rua, divulgar o projeto, que tem que salvar o rio, que tem que cuidar do rio. P/2 - Então conta só um pouco a ordem disso. Quando eles vieram e falaram: “Nós vamos fazer o projeto das ostras.”, você levou pra escola a ideia ou foi depois? R - Não, foi depois. P/2 - E você levou pra escola pra falar sobre o que? R - Eu levei a problemática do rio. Levei pra escola, pra igreja também. P/2 - Pra mobilizar pro pessoal ir lá limpar? R - É, pra limpar o rio... mas ainda tem resistência ainda, a consciência não é assim de um dia pro outro, né? Já que perderam pra... fica mais difícil ainda. P/1 - Mas continua isso? R - Continua. A gente vai ter que marcar de novo outra limpeza. P/2 - Girlândia, a prefeitura não poderia mandar limpar? R - Mas aí é que tá! A gente foi, Nelson junto com Xêpa, a gente encaminhou documento. Nelson mais Xêpa fez um documento, um ofício solicitando, mas aí o que é que acontece, quando foi pra Secretaria do Meio Ambiente, a secretaria disse: “Ah, mas não pode...”, aí mandou uma equipe deles, uma bióloga aí olhar o rio, quando chegou lá: “Ah, não pode mexer, porque não pode cortar árvore, é só o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis]”, eu digo: “Mas o Ibama tá lá não sei aonde! Como é que a gente vai fazer pra achar esse Ibama?”. Mas só que ela deixou uma brechazinha lá, né, que o rio não pode mexer, mas que poderia, que o rio precisava ser limpo. Eu lembro bem dessa frase. P/2 - Precisava ser limpo... R - Precisava ser limpo, então se disse que precisa, Xêpa disse: “Vamos lá, vamos entrando devagarinho, aos poucos, e a gente...”. P/2 - Quer dizer, a prefeitura... P/1 - Limpar é tirar as árvores? O que é que é? R - Tirar árvore, tirar mato de dentro do rio, que fica... areia, porque quando às vezes tira o mato ali de dentro vai juntando areia e cria aquelas ilhazinhas. P/2 - Agora Girlândia, vocês tinham aqui já bastante... pegavam caranguejo, tinha a pesca já... R - Tudo isso, toda a vida... P/2 - O que é que a ostra traz de benefício? E não coisas já que já tinham antes? Por que a ostra, né? Por que cultivar a ostra? Por que é que é bom? R - Primeiro que já tem ela aqui, né? Que o rio é cheio de ostra. P/1/2 - Ah, é? R - É, tinha um rio, pelo menos o que eu ouvi do Nelson era isso, né? O rio... que estava aí favorável, e era uma coisa que a gente já vê que tem aí nos mangues, de fácil acesso. E, segundo e terceiro, que ia gerar uma rendazinha pra comunidade e pra não usar o rio, eu vejo assim, que usando o rio, tá aí um instrumento aí que é o rio, bom! Que até então a gente não tava nem ligada nessa problemática dele, que ele tava sujo, mas ele é um rio bom mesmo! Certo? Era um rio que a gente viu aí! Mas a comunidade foi deixando, foi largando o rio de lado. E a gente via que tava aí pra ser usado, e como já tinha aí... e em terceiro lugar que poderia estar gerando, trazendo recurso pra comunidade, uma rendazinha. P/1 - Você entrou no projeto, por quê? R - Eu entrei, olha, bem pra dizer, eu entrei primeiro que é um projeto bom, vendo, né? Uma atividade que pode envolver toda a comunidade, um grupo grande e eu pensava, eu pensei até no futuro. Na época, eu pensei, tô perto de me aposentar, não vou ficar sem atividade, porque muitos professores não querem aposentar porque depois não sabe o que fazer da vida, né? Ontem mesmo eu vi uma lá do trabalho, pronta pra aposentar, disse: “Eu não vou aposentar não, porque vou ficar parada.’’. E eu digo que um dos motivos é que eu já vou ter uma atividade, inserida no meio do povo, né? Em um grupo, então é uma atividade que eu vou estar lá contribuindo. No momento eu nem pensei nesse primeiro, só no financeiro, a gente sabe que ele vem, também a gente pensa, claro que a gente precisa, mas a gente sabe que não é de imediato, eu tenho essa consciência, que esses projetos não traz resultado financeiro imediato. Ele é sempre a longo prazo, mas que era uma atividade, que eu gosto também, né, de estar mexendo ali. P/2 - As mulheres que participam com você, elas trabalham em outra coisa? R - Trabalham! P/2 - Elas fazem o que? A maioria... R - A maioria, olha... tem gente trabalhando em escola, como merendeira, eu trabalho, tem um grupo que trabalha na escola, tem gente que faz olho de coco, tem gente ali que nas férias trabalham nos restaurantes... P/2 - Tem marisqueiras? R - Tem marisqueiras! P/1 - Aqui tem muita marisqueira ou não? R - Tem marisqueira que, na época do camarão, que cata seu camarão, que vive disso, né? Que limpa peixe aí pros pescadores. Então tem várias atividades. E o bom do projeto é que ele não impede nada, ninguém de desenvolver essas atividade, acho que o melhor desse projeto é esse. De não impedir a gente de... porque tem projeto, né, que eu tive na Associação mesmo, que eles queriam que a gente largasse tudo. Eu digo: “Ah, e se esse trem não der certo?! E eu largar aqui, não dá!”, e esse não. Nelson já dizia assim: “Olha, não precisa, cada um pode ficar na sua atividade e pode entrar no projeto. E pode entrar quem não é marisqueiro.”. Eu digo: “É melhor ainda!”. Eu sei que eu tenho consciência que eu não posso fazer parte de uma equipe de marisqueira, até porque quando cruza dados lá nos ministérios, eu tô lá como professora. P/2 - Sim. R - Né? P/1 - Girlândia, voltando só nos aplicativos, pra que é que eles servem? R - Pra fazer todo esse controle, de crescimento, de desenvolvimento, de produção, de tudo. P/1 - E você acha que eles são úteis? R - E eles tem acesso lá! Então se, por exemplo, se o engenheiro não tá aqui, a gente lança no aplicativo que a água tá doce, então ele tem como monitorar de lá, dizer o que é que a gente tem que fazer. Ou a água tá salgada... P/1 - Você acha que eles são úteis? R - São! Bem usados, são. P/1 - Bem usados... R - Bem usados. Agora o pessoal ainda precisa, o grupo ainda... acho que até por essa questão de leitura mesmo, tá usando. Mas agora Rui organizou ele muito bem organizado. Tá muito bem organizado. P/1 - Aí o pessoal consegue usar? R - Consegue usar! Tá bem organizado. P/1 - Como é que você acha que foi assim inserir essa tecnologia na... R - Na época eu senti medo, viu, medo, isso deu susto no povo [risos]! Na hora de usar, e foi por isso que sentiram necessidade muitos de voltar a escola. Quando viram, não sei mexer nisso, “E agora? Como é que a gente mexe nisso?”, “Ah, meu Deus do céu!”. E aí convocou a capacitação e todo mundo tinha que mexer. E a curiosidade... e a gente vê que tem gente que precisa desenvolver mais no Telecentro, de fazer aula de informática, né? De estudar um pouco mais. P/1 - Esse Telecentro, já existia ou não? R - O Telecentro... ô Nelson, o Telecentro veio junto com o projeto, não foi? Foi primeiro, não foi? [Perguntando pro Nelson] Nelson - O Telecentro veio através do Ministério da Pesca. R - Mas acho que ele foi primeiro, não foi? Foi. Nelson - Ele veio primeiro. R - Veio primeiro. Nelson - Complementou. P/1 - Mas tinha internet já ou não? Só veio com a Vivo? R - Não, o Telecentro... Porque na verdade foi através de tudo isso que teve que vir a Vivo instalar essa torre aqui, porque não tinha, não tinha nem como. P/1 - Mas tinha internet nesse Telecentro já ou não? R - Tinha aquela internet discada, eu acho, que algumas pessoas tinham. Não era todo mundo, não era... P/2 - O Telecentro foi pelo Ministério da... R - Foi. P/2 - Girlândia, você disse que agora tem EJA [Educação de Jovens e Adultos], né? Educação de adultos. Só quem frequenta a EJA quem tá participando do projeto? R - Não, não. Tem outras pessoas também. Mas eu falo, inclusive deixei bem claro pra Secretaria de Educação, quando eu fui reivindicar, abrir a turma, que eles querem números, salas cheias, né? Eles querem salas cheias. Eu digo: “Não tem como abrir sala cheia, mas nós estamos com um projeto lá. As pessoas precisam de voltar a escola.”. Então esse foi um argumento. Quando eu argumentei com a Secretaria de Educação, foi nesse sentido. Eu digo: “Nós não temos sala cheia, infelizmente não dá pra apresentar uma sala de 40 alunos aqui pra vocês. Nós não temos, mas nós temos...”. P/1 - Quantas pessoas são? R - Nós temos 12 e uma outra turma com 25. Nessa de 25 era a que tava a maior parte do pessoal do cultivo. Porque a outra era de quinta e sexta, essa é a turma pequena. Mas eu digo: “A lei é bem clara, seis alunos e a gente pode abrir uma turma.” Então... P/1 - E quantas pessoas do cultivo voltaram pra escola? R - Nossa, tem um bocado, tem Zé de Danga, Maria Inês, Rosa, tem um grupo bom, Edileusa, que é do cultivo, Dona Sônia, tem um grupo bom. Acho que tem mais gente, não tô lembrando assim no momento, mas tem. Muita gente do cultivo voltou. Foi pensando no cultivo, quando a gente argumentou na secretaria, foi por causa do cultivo, porque a gente viu o susto das pessoas ao lidar com o aplicativo. Você não precisa ser doutor, mas tem que entender o mínimo de leitura. P/1 - O que é que você aprendeu de mais importante, participando desse projeto? R - Olha... pra mim o mais interessante foi lidar com a ostra. É o mais interessante e é algo novo, né? Que a gente sempre trabalhou com escola, com aluno, fazendo plano de aula, né? E o mais interessante foi estudar sobre a ostra, o desenvolvimento dela, como é que ela cresce. Por exemplo, eu não sabia que uma ostra que ficava aberta... Esses dias mesmo a gente chegou e Zé de Danga disse: “Ih, morreu tudo!”. Elas tudo abertinha, quando _____, ela fechou tudo. Conhecer esse novo ser, então pra mim foi muito bom! Estudar mesmo! Que a gente viu a cartilha, como é que ela desenvolve, o desenvolvimento dela, que ela cresce rápido. Um dia mesmo eu cheguei no meu grupo mesmo, “Essas mulher tão preguiçosa, viu?! Não tão fazendo o trabalho direito não, meu Deus do céu, tão misturando tudo!”. Só que depois a gente foi medir e não tava misturando nada, era as bichas que tava crescendo mesmo. Depois a gente deu risada [risos]... uma falando da outra... “Não, não é não, a gente aparou direito, é elas que estão crescendo mesmo!”. Então tudo isso são novas descobertas. P/1 - E você tá utilizando esse conhecimento? R - E é bom mesmo! Você ir lá, lavar ela, a gente senta lá, e a gente se envolve mesmo, sem saber... é bom se vocês pudessem ir lá ver como a gente faz! Leva os bancos, e senta, e uma dá risada e outra conta… e a gente passa a manhã ali, envolvida mesmo, lavando, porque acredita, porque gosta! É bom mexer com a danada [risos]. P/1 - Você já utilizou esse conhecimento então? Que você aprendeu? R - Já! A gente fala, parece que a coisa fica impregnada na gente. P/2 - Ah, é? R - [risos] Porque onde a gente vai, a gente fala da ostra. Vou pra roça, ai meu Deus, falo de ostra. A gente vai lá, as ostras, a gente lembra das ostras. Ontem mesmo lembrando no cultivo da ostra, né, e as pessoas sempre acabam querendo saber como é que é, né? P/1 - Aham. R - E a gente tem que falar do... Parece que tá [apontou pra pele]... P/1 - E o que mudou na sua vida depois que o projeto começou? R - Olha, eu acho que a gente vive melhor. Traz essa... sabe? Além de voltar pro grupo maior, de interagir com outras pessoas, pessoas novas, né? Além disso, além da parte da tecnologia, foi graças a ele também que a gente teve acesso a uma série de coisa... pessoa humanamente falando, é muito bom, né? A gente ter a certeza de que a cada 15 dias a gente tá ali na atividade descontraída, você tá ali porque você gosta, porque você quer, porque você acredita, porque te faz bem. Você chega cansada fisicamente, porque é cansativo, quando a gente chega, a gente chega sem ânimo pra nada! Se não limpou a casa, cozinhou, não fez nada disso, fica sem fazer, porque a gente chega cansada. Mas a gente chega realizada. E lhe digo mais, foram dois momentos que eu realmente tenho prazer. É cansativo fisicamente, foi uma experiência em Belo Horizonte, com os meninos de rua, que a gente chegava morta de cansada, mas quando a gente sentava pra parar um pouco, se sentia realizada. E cultivo. Porque são coisas cansativas, mas que traz realização pessoal. P/1 - E na Associação, o que você acha que mudou? Mudou alguma coisa? R - Na Associação? Eu acredito que sim, o cuidado de levar o grupo, estar atento, de cuidar dela mais, zelar por ela... eu acho que sim, né? P/1 - E você acha que isso aconteceu? R- Do valor que tem que dar pra ela, porque tudo isso veio através dela também, né? P/2 - Dela quem? R - Da Associação, né? Já era um projeto dela. Então a gente passa a ver ela com mais cuidado, com carinho. P/1 - E você acha que isso aconteceu com mais pessoas? R - Eu acredito que sim, né? Essa associação ela veio, ela tem um papel importante. Ela tá desenvolvendo coisas boas na comunidade. Ela, não só o projeto, mas a gente vê a questão das marisqueiras, de estar tirando suas carteiras, de ter assegurado esse benefício do futuro, de um futuro garantido, né? Eu observo isso nas mulheres, já estão um grupo grande. Então ela tem um papel muito importante dentro dessa comunidade. Apesar de eu não fazer parte, mas a gente sabe e o bom da associação é isso, né? Eu digo: “Zelar com a vida de um povo, de um grupo. ”. Então ela é importante. P/1- E na comunidade, mudou alguma coisa? Você sente que mudou alguma coisa? R- Ah, sim. Eu acho que mudou sim. Você fala com relação à Associação? P/1/2 - Não! Ao projeto, em relação com o projeto. R - O projeto... mudou sim. Gente que estava aí desanimada, Zé de Danga mesmo, vejo assim o desempenho dele, acreditando, correndo atrás das coisas, divulgando. Não só Zé de Danga, outras pessoas aí, né? Que essa questão ambiental, a luta que é, as parcerias que a gente tenta fazer, às vezes a gente se desentende com um aqui, mas a gente sente que precisa estar junto de novo, né? E muda sim, acho que muda, claro que mudou. P/1 - E os jovens? Você acha que eles se interessaram? R - O jovem ainda não tá bem, não. Eu acho que ela tá mais pros idosos. Mas não é só com relação à Associação. Os jovens, eu acho que não só, a Associação também, mas é todas essas esferas, Associação, Escola, Igreja... vai ter que sentar pra fazer essa discussão, do que é que é que vai fazer com os jovens, porque eu tô sentindo os jovens dispersos de tudo! É na Associação, é na Igreja, é nas escolas... eles estão lá porque estão obrigados, porque tem que tá, porque tem que estudar, mas eu sinto eles dispersos. E acho que talvez até uma ideia, Nelson tá ali me ouvindo, né, sentar pra pensar o que a gente vai fazer com essa juventude. Eu acho ela dispersa ainda. P/1 - O que é que você espera pros seus filhos? Falando de juventude... R - Olha aí, né? Eu acredito que o cultivo, é uma coisa que eu penso assim, né, que eu não vou ficar pra vida inteira, mas quem vai tá assumindo vai ser um deles. E tanto que uma coisa que eu acho interessante: as mães levarem os meninos, né? Que bom que eles tomam gosto. P/1 - E isso acontece? R - Acontece! P/2 - Você acha que as crianças que estão lá, estão porque estão obrigadas ou.... R - Não, porque leva porque tem que levar, né, porque muitas vezes que não tem com quem deixar, tem que levar. P/2 - E como é que você vê essa das crianças? R - Eles não podem mexer muito nas ostras porque ela corta, né? A gente usa luva e tudo. Mas eles estão ali, e cutuca um caranguejo, e vai no rio, e nisso vai tomando gosto pelo meio ambiente, pela natureza, e por ali que a gente tá lutando muito. Eu, pelo menos, penso muito nisso, né? De passar pros meus filhos, despertar neles, tomar gosto por aquilo que eu acredito, que foi meu pai que me ensinou isso. P/2 - Bom, acho que deu, né? P/1 - É, só última pergunta aqui [risos]. Você tem algum sonho ainda? R - Ah, Deus [risos]... eu já sonhei muito, sabe? Tem muita coisa ainda a ser feita no mundo, no país, na nossa região, mas parte dele eu já vi realizar. Eu achava que era uma utopia, que não ia acontecer nunca, e agora aconteceu, né? A gente vê hoje que tudo, toda problemática que a gente enfrenta, melhorou-se a qualidade de vida do povo, o povo acho que vive melhor, né? É, por exemplo, aqui no Guaiú muita Maria tem suas casinhas. Falta coisa? Falta muito. Mas melhorou muito, né? Que era pior. E eu assim, meu sonho é ver meus filhos bem inseridos, ver a juventude, ver, por exemplo, os grupos conseguirem aquilo que lutam, né? Acho que ninguém nasceu pra tomar caminho errado. Ninguém nasceu com má sorte, né? E meu, assim, meu sonho particular é quando eu me aposentar, voltar lá pra aquela roça, né? P/1 - Ah, é? R - É. Aí tem uma estrutura pra voltar pro meu manejo, que é a cada final de semana, tá na comunidade, mas eu ainda tenho aquele sonho de voltar lá, morar lá. P/1 - Legal. P/2 - É isso. Obrigada! P/1 - Muito obrigada. R - De nada. --- Fim da entrevista ---
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