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Então eu vou casar também

História de: Andreia Ferreira de Aguiar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/10/2015

Sinopse

Andreia Ferreira de Aguiar nasceu e se criou nas imediações de Brasília e nada seria mais significativo que se casasse na Catedral de Brasília. Mas antes disso ela precisa contar para mãe o motivo da pressa em casar tão rápido.

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História completa

Nasci em 30 de abril de 1977 no Hospital de Sobradinho, próximo a Fercal. Eu aproveitei muito a minha infância [no Queima Lençol], brinquei de boneca até 15 anos, andei de calcinha até 12, apanhei pra colocar roupa, porque veio a mudança no corpo e eu não queria. Com 12 anos eu comecei a trabalhar, ajudava a tomar conta da filha de uma colega minha, mas mesmo assim eu brinquei muito. A gente brincava de roda, de derrubar latinha, futebol, de queimada, de boneca, ia na casa dos vizinhos pedir óleo pra acender fogo de mentira, dizendo que era pra minha mãe, mas era pra gente acender nosso fogão de lenha, pra fazer nosso cozinhadinho, comi muito arroz com gosto de fumaça, mas era feliz, batia muito batizado nas minhas bonecas. A gente mudou pro Engenho Velho quando eu tinha 13 anos, mas continuou estudando no Colégio do Queima Lençol. Eu chorei muito, eu sou apaixonada pelo Queima Lençol até hoje.

  Eu lembro que o meu pai falava que ajudou a construir Brasília... Ele foi aquela pessoa que tudo que ele fez foi buscar pra dentro de casa e para os filhos. Às vezes não tinha presente, mas ele trazia uma goiaba, uma fruta, ele caçava no final de semana, trazia aqueles cachos de coco, quebrava pra nós, descascava cana. Só que meu pai não queria que a gente estudasse, nós tínhamos que crescer, casar, e a partir dos 20 anos não era moça pra casar, já era moça velha. Minha mãe já foi mais dura, de cobrar o estudo, de cobrar uma postura, até mesmo pela experiência de vida dela, por não ter estudado. Nós estudamos graças a Deus e pelo esforço da minha mãe, lavando roupa, fazendo faxina.

  A mãe foi pra São Paulo justamente nessa época... Meu pai não queria que eu trabalhasse, ele já foi contra eu estudar em Sobradinho, que eu terminei a oitava série na Fercal e fui fazer o segundo grau técnico em Contabilidade. Eu fui escondida fazer o cadastro pra Menor Aprendiz em Brasília, na Telebrasília... “Olha, você foi selecionada, porque você tem boas notas no colégio, então você quer mesmo?” “Quero.” Fui fazer a entrevista, fui aprovada, eram oito vagas, eu fiquei em primeiro lugar. Eu comecei a trabalhar em junho de 94, foi muito bom. Com meu primeiro salário eu fiz uma compra de comida pra nós e pra minha irmã, biscoito recheado, iogurte, meu desejo era comer rocambole que tinha nas vitrines na Oito e eu comi. Aí que foi melhorando lá em casa, fui eu que comprei a primeira parabólica lá da rua, dei pra minha mãe. Eu comprei sofá, estante, arrumei a casa, porque quando a gente é moça a gente tem muita preocupação com aparência.

Eu, se deixassem fazer uma coisa, eu fazia, se não deixassem, eu fazia do mesmo jeito. E sempre quis muito cedo mudar de vida. Amo a Fercal, mas eu não queria mais aquela vida da minha irmã, que já era casada, eu não queria a vida das outras meninas que casaram cedo.

  Quando eu estava fazendo quase 21 anos, fui pra São Paulo e eu comecei a fazer vestibular que, como eu tinha o sonho de estudar, meu irmão falou que ia me ajudar. Nós vendíamos cachorro-quente em três turnos. Com um ano e oito meses compramos uma casa em São Paulo, lá no Ipiranga, foi uma graça de Deus... Como eu não tinha amizade, eu sentia muita falta da Fercal, de você conhecer, conversar com todo mundo. Em cidade grande não costuma ter, é Deus por todos e cada um por si, um “bom dia”, um “boa tarde”, mal e mal. Mas logo a família foi pra Igreja católica, a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, e lá eu fiz um grupo de amigos, então a minha diversão era aos domingos na igreja.

  Em 98 a minha avó teve um AVC e minha mãe ficou morando com ela. Todo mundo já adulto, encaminhado e eu não consegui fazer faculdade em São Paulo. Aí quando eu vim, em 99, vi mãe naquela vida, sofrendo com a minha avó em Planaltina, eu pensei: “O que eu estou fazendo em São Paulo?”. Aí voltei, tava com 23 anos. Fui morar em Planaltina e aos domingos eu ia pra feira vender bugiganga. Ia em São Paulo, comprava muamba, brinquedos e vendia na feira de Planaltina, e foi lá que eu conheci meu marido, que era fiscal de feira.

  No dia do meu casamento fiquei podre de chique, maravilhosa, foi um dia muito bom pra mim, eu casei na Catedral de Brasília. Eu muito cedo fiz amizades, trabalhei muito e trabalhei na catedral numa época como voluntária, fui lá lavar os castiçais. Eu acho aquela igreja linda. Eu fiquei muito feliz no dia do meu casamento, porque primeiro eu estava casando e o meu sonho era casar na igreja e dar esse gosto pra minha mãe, que ninguém lá em casa casou na igreja.

  Logo depois do casamento nós viajamos, ficamos uma semana fora e fomos morar na chácara da minha sogra, eu já estava grávida do Matheus. Meu marido queria que eu parasse de trabalhar pra cuidar do meu filho, eu nunca parei... Nós montamos um mercado em Planaltina. Eu não trabalhava só no mercado, eu tinha a lavoura, eu tinha a minha casa... Foram cinco anos de aprendizado. Quando eu separei em 2006, vim morar na Fercal. Eu ocupei cargo comissionado no governo Arruda, aí foi quando eu mais engajei trabalhando aqui na região. Quando eu separei, a primeira coisa que eu pensei: “Eu vou estudar”, e foi quando eu comecei a fazer minha faculdade de Serviço Social, que hoje eu sou assistente social. E comprei meu carro no dia dos namorados, dia 12 de junho de 2008.

  Eu sempre tive o apoio da minha mãe pra trabalhar. E hoje, graças a Deus, participo de um Projeto Rural Sustentável, que o Grupo Votorantim apoia. E faço parte de uma cooperativa de mulheres artesãs do Queima Lençol, a Cooperativa Calliandra. Por que participar dessa cooperativa? Eu participo porque tem que ter alguém que acredite, e muitas mulheres do meu grupo são mulheres que casaram e são donas de casa, elas não fazem mais nada a não ser cuidar dos filhos e do marido, e eu falo pra elas: “Eu gosto da vida de vocês, eu gosto da experiência de vida de vocês e mesmo nessa rotina vocês podem conseguir algo melhor”. 

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