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História

Então deixou a gente ser quem a gente é

História de: Gabriela de Miranda Pinheiro
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 22/07/2021

Sinopse

Infância em Botafogo. Prática de esportes por incentivo do pai. Vivências em conjunto com sua família. Vida adulta. Atividades dentro do projeto Luta pela Paz. Ações realizadas pelo projeto. Histórias de superação de participantes do projeto. Trabalhos realizadas em comunidades. Importância de apoio aos jovens da comunidade.

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História completa

Projeto Semana do Esporte pela Mudança Social Cabine PNUD Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Gabriela de Miranda Pinheiro Entrevistada por Breno Castro Alves São Paulo,___ de novembro de 2009 Código: PNUD_CB012 Transcrita por Vanuza Ramos Revisado por Igor Gabriel de Sousa Galindo P/1 – Então, Gabriela, para as formalidades, primeiro, por favor, me diz teu nome, local e data de nascimento. R – Gabriela, eu nasci no Rio de Janeiro e... P/1 – Data? R – 08 de março de 1980. P/1 – O teu nome completo, por favor. R – Gabriela de Miranda Pinheiro. P/1 – No Rio de Janeiro, em que bairro? R – Botafogo. Sou carioca da gema. P/1 – Tu cresceu em Botafogo? R – Eu cresci em Botafogo e aos 11 anos o meu pai, minha família se mudou pra Rezende, no Estado do Rio de Janeiro. Dali a um ano a gente foi pra Niterói. P/1 – Eu quero ficar em Botafogo, então. Me explica como era tua casa, como foi esse lugar que você cresceu? R – Cresci em apartamento. Tinha sempre uma pessoa que cuidava... Meus pais trabalhavam fora e a gente ficava ou com a minha avó ou com essa pessoa que trabalhava lá em casa. Pra todo lugar que a gente fosse, a gente ia com ela: pra escola, para as atividades extracurriculares. Não tinha muito aquela coisa de brincar na rua. Talvez por já ser nos anos 1980 e já ter um pouco de violência aí nos bairros do Rio de Janeiro. P/1 – Você fala “a gente”. São irmãos? R – Eu e o meu irmão. Meu irmão, ele é um ano e meio mais velho que eu. As vezes, sempre tinha todas as crianças do prédio, a gente brincava junto. Tinha um terraço que a gente brincava no terraço ou então ia brincar no prédio de outras pessoas do colégio, essa coisa. P/1 – Me fala um pouco dos seus pais nessa infância ainda. R – Ah, meu pai sempre motivou a gente a fazer muita coisa, muita arte. A gente - eu falo: eu e meu irmão – de que talvez o meu pai ser mais brincalhão com os filhos e a mãe ser mais rigorosa: “Vamos fazer o dever de casa, vamos comer e dormir”. Aí eu brincava com meu irmão: brincava de bola, brincava de Playmobil, brincava de Comandos em Ação e brincava de He-Man [risos]. Quando as minhas amigas do colégio vinham, a gente brincava de Barbie e todas as outras coisas. Mas as outras brincadeiras eram mais legais. O meu pai sempre incentivou muito a gente a fazer esportes, então eu e o meu irmão, a gente fez natação quando crianças. Só que as lembranças que eu tenho é que eu odiava acordar cedo e ir com aquele roupão num dia frio mergulhar naquela piscina. Então não durou muito a natação. Aí eu lembro que o meu pai se matriculou comigo e com o meu irmão pra fazer ginástica olímpica, então nós três fizemos ginástica olímpica no Clube Militar, lá na Tijuca. P/1 – Quantos anos você tinha? R – Eu tinha nove. P/1 – Quanto tempo durou? R – Eu tinha oito, nove. Durou, pra mim durou um ano e pouquinho e pro meu pai e meu irmão durou mais, durou uns três anos. Eu digo que pra mim durou pouco porque as minhas amigas do colégio ficavam falando pra eu fazer jazz com elas, uma atividade que era no colégio, que era mais de menina e era legal. Você fazer jazz no clubinho do jazz dava uma certa... “Ah, você faz jazz?” Então eu comecei a fazer com as meninas e a gente tinha apresentações anuais no colégio, era aquela coisa, um grande evento. Aí eu deixei a ginástica olímpica. P/1 – Mas essa coisa do esporte, da atividade física é algo que te acompanha, que faz parte da sua personalidade ou não? R – Sim, sempre lá em casa eu, meu pai, minha mãe e o meu irmão. Meu pai sempre gostou de esporte, nunca foi viciado, tanto hoje ele não faz nada: vai pra academia duas vezes na semana com muito custo. Mas sempre incentivou e eu e o meu irmão puxamos a ele. Era sempre “vamos andar de bicicleta, vamos andar no parque, vamos jogar bola, vôlei”, o que fosse. E minha mãe odeia qualquer coisa que faça ela levantar da cadeira. Então ela era aquela pessoa que jogava queimado no colégio e ninguém queria que ela ficasse no grupo porque talvez ela fosse aquela que fizesse assim. E eu e o meu irmão, não. A gente sempre gostou muito e participava dos torneios do colégio. Eu esqueci de falar da minha trajetória de onde moramos. A gente morou um ano em Resende, o colégio lá era enorme e incentivava muito os esportes. E eu participava dos campeonatos, eu era líder no time de vôlei – e achava que era melhor até. Mas é claro que passou essa fase do vôlei também, como as outras. P/1 – E esse gosto pelo movimento se mantém hoje na sua vida adulta? R – Sim, hoje em dia como eu moro em Copacabana e procuro correr à noite, pelo menos 40 minutos. E o que eu adoro hoje em dia é fazer spinning. Então, sempre que dá eu vou pra academia e faço spinning, que apesar de ser uma aula em conjunto, tem música, é uma coisa agitada que para as minhas adrenalinas é muito bom. P/1 – Então agora eu quero fazer o contato entre essa sua vida particular e a sua vida profissional. Como o esporte está contido nessas duas coisas? Fala um pouco do seu trabalho e de como é essa proposta do ‘Luta pela Paz’. R – Hoje eu trabalho no “Luta pela Paz”, não tem muito tempo, mas sempre acompanhei o projeto, como eu estava te falando antes. É um projeto que usa o boxe como uma ferramenta de jovens em risco nas comunidades. No nosso caso a gente trabalha na Comunidade da Maré, no Rio. Lá tem muito problema com o tráfico de drogas, e tem três facções: o Terceiro Comando, o Comando Vermelho e o Amigo dos Amigos. Os três lutam para ter pontos diferentes de venda de droga e os jovens e as crianças estão no meio disso. Então você cresce na pobreza, você cresce sem oportunidade e uma pessoa dali de dentro do tráfico te oferece um salário muito bom e uma arma pra você trabalhar. A gente usa o boxe como uma metodologia de atração. A gente oferece isso, aula de boxe, só que a gente trabalha vários outros aspectos com os jovens, que é o desenvolvimento pessoal, que é a retomada da autoestima e educação no meio, junto. A gente tem aula de educação básica para os analfabetos, para quem não está na escola, para quem está na escola com dificuldade. Isso tem tido muito êxito porque o boxe, apesar de não ser um esporte coletivo, ele trabalha com a superação individual. E é uma coisa da adrenalina também. Esse tipo de jovem que não está na escola, que é a maioria, ele não quer só estar em algum lugar; ele quer fazer parte de um conjunto e ao mesmo tempo ele põe pra fora todas as angústias, todas as frustrações dele no boxe. Tem dado muito resultado. P/1 – Me conta como é o seu trabalho, o dia a dia regular. R – Eu estou responsável pela parte de relações institucionais e captação de recursos. Mas eu poderia estar trabalhando fora da base da ONG [Organização Não Governamental] ou lá. No momento eu estou trabalhando lá, dentro da comunidade. É uma coisa que nem todos fariam: eu cruzo da Avenida Brasil à Linha Vermelha, por dentro da comunidade para estar na sede. Mas é fascinante! Até talvez um antropólogo faria mais uso disso do que eu como uma pessoa que estudou as relações internacionais. Mas eu acho fascinante porque você vê o dia a dia da comunidade, que são pessoas como nós com menos oportunidades. E, como é que eu falo? Um por cento dessa comunidade está envolvida no tráfico, então você ver que você tem um mundo de crianças e jovens para trabalhar ali dentro. P/1 – Você está certa de que é a minoria que está envolvida. Mas infelizmente é essa minoria que tem toda a visibilidade de mídia e cobertura. Então eu gostaria que você contasse pra gente algum acontecimento ou alguma passagem que você vivenciou nesse contato próximo que não seja um estereótipo de favela, de guerra de tráfico. Quero que você me conte alguma vivência humana que te surpreendeu, enfim, que seja uma boa história. R – A gente às vezes faz eventos a cada três ou quatro meses. Na verdade não fui eu que vivi isso, mas foi a minha colega de trabalho que me contou e eu fiquei “Nossa, como a gente faz a diferença aqui por uma coisa muito pouca”, porque não era nem o que a gente estava querendo. A gente monta o ringue na comunidade e convida a comunidade inteira para assistir a luta de boxe dos meninos que estão no projeto e a gente tem uma estrutura mínima para estar ali que é um ringue de isopor com um monte de garrafinha de água. Um menininho - eu acho que ele tinha cinco anos - ele cutucou a minha colega e falou: “Tia, tia, isso aí é água?”, ela falou “É”, “Posso pegar uma?”, “claro, pega aqui”. Ele nem estava competindo, teoricamente não seria água pra esse menininho. Aí ele começou a beber e falou assim: “Nossa, parece até água de coco”. Tipo, o menino não tinha acesso a uma estrutura básica de vida. Uma garrafinha d’água, ele achou que aquilo já era um monte de coisa. No nosso projeto os jovens falam “O mais legal disso tudo é que é de graça”. A gente oferece desde o ensino fundamental, complementação escolar, aulas de boxe, capoeira, artes marciais. E às vezes quem tem comprovado participação nessas aulas e tem dado resultado, eles recebem uma cesta mensal, uma cesta básica para incentivar que eles continuem. P/1 – Legal. Me conta, então, uma história de algum jovem ou de alguém que participou do projeto e que isso foi importante na trajetória de vida dessa pessoa. R – A gente tem o Roberto que começou no projeto aos 14 anos apenas como alguma coisa pra ele ocupar o tempo dele. Hoje ele tem 22 anos e está na Federação Brasileira de Boxe. Já ganhou, não sei dizer quais são os títulos certos, mas ele já ganhou alguns títulos aqui no Brasil e continua. A gente está realmente investindo nele para o futuro. E ele serve de inspiração para os jovens que estão entrando no projeto agora e que são da comunidade. Uma vez a gente fez uma dinâmica de grupo com dez desses jovens e pergunta que uma das pessoas fez para esses jovens foi: “Quem é o seu herói? Em quem você se inspira para estar aqui no projeto?”. Aí alguém falou o nome de um lutador de luta livre americano e três outros falaram “Eu me inspiro no Roberto”, que é o menino do nosso projeto. Isso pra mim foi o máximo porque está logo ali do nosso lado, ele é uma pessoa como todas as outras, do mesmo lugar, e é uma inspiração para os meninos. Então se eles acreditarem no Roberto e neles mesmos, eles vão chegar onde o Roberto está hoje, né? P/1 – Bacana. De tudo que você já fez no seu trabalho agora ou anteriores, quais deles você mais se orgulha? O que você já fez na sua vida que você realmente se orgulha de ter participado, de ter feito? R – Eu já trabalhei na comunidade da Rocinha também com jovens e crianças na prevenção do HIV/AIDS. Era um trabalho muito legal, eu me orgulho muito de ter feito esse trabalho. Mas eu estou me orgulhando agora de estar no Luta pela Paz, que é uma realidade um pouco diferente daqueles outros jovens que eu trabalhei. Eu acho que além do orgulho é um desafio levar o Luta pela Paz adiante, assim. Mas eu estou muito empolgada e orgulhosa de estar fazendo isso. P/1 – Então como pergunta final era qual é o seu maior sonho, mas eu vou mudar. Baseado no que você falou eu vou te perguntar quem é o seu herói? R – Quem é o meu herói? Essa é difícil. Acho que eu vou começar com o meu pai. P/1 – Justo. Ele é um modelo? R – Ele é uma pessoa que lutou muito e que deu muita liberdade pra gente. Então deixou a gente ser quem a gente é. P/1 – Obrigado, Gabi. Se quiser falar mais alguma coisa, fique à vontade. R – Não.
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