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Ensino crianças a confiar e a ter autocontrole

História de: Taissa Lukjanenko
Autor: Revista Sou mais eu
Publicado em: 09/09/2015

História completa

A vida é cheia de problemas. Numa hora falta dinheiro, na outra estamos brigados com a família ou somos traídos. Lidar com isso de um jeito que seja bom pra gente e para os outros é difícil. Dá vontade de sair quebrando tudo. É que, se crescemos com a violência, aprendemos a nos defender de forma agressiva, o que piora a situação. É por isso que, há cinco anos, coordenoo projeto Inteligência Emocional na Escola. Ensino os alunos a falarem o que sentem, a respeitarem os colegas e professores e a acharem saídas para as dificuldades. É um sucesso!

Nas escolas em que trabalho, muitos alunos vivem situações delicadas em casa e na rua. Alguns têm pais alcoólatras que batem, convivem com drogas, passam necessidade ou são vítimas de abuso sexual. Na maioria dos casos, as crianças acabam se tornando muito agressivas ou muito submissas.

Pensando nisso, resolvi colocar o ensino de inteligência emocional dentro da grade curricular dos alunos. Na época, duas escolas participavam do projeto (hoje são quatro), que existia há 12 anos e era aplicado por uma equipe de psicólogos fora do horário de aula. A direção das escolas topou e o assunto virou uma matéria como qualquer outra.

A inteligência emocional prepara para a vida em sociedade. É a capacidade que temos de entender nossos próprios sentimentos e os dos outros e lidar com eles de um jeito positivo. Numa das dinâmicas, criamos uma situação de estresse controlada: colocamos na mesma equipe de um jogo de palavras um aluno com dificuldade e outro com menos. O que escreve vai devagar, o amigo se irrita, explode e o chama de “burro”. Meu trabalho é mostrar que essa é uma resposta impulsiva que não ajuda a dupla a ganhar o jogo 

Ele deve prestar atenção nessa raiva, segurar a onda e pensarcomo pode ajudar o colega. Assim, todos vencem. Qualquer pessoa pode se beneficiar com a inteligência emocional, mas as crianças são as que aprendem mais rápido. É por isso que o projeto atende alunos de 5 a 14 anos.

Nossa aula trabalha com cinco frentes: autoconhecimento, empatia, automotivação, gestão das emoções e das relações. Autoconhecimento é se conhecer melhor, gestão de relações é ser amigo e empatia é se colocar no lugar do outro, por exemplo. No fim das dinâmicas, eu e outros professores do projeto perguntamos “O que a atividade de hoje trabalhou?”. Com o tempo, os pequenos respondem certo e entendem a importância daquilo.

Uma das formas de desenvolver tanto autoconhecimento como empatia é incentivar os alunos a contarem histórias do que aconteceu na semana. Quando uma criança fala de um problema, sempre pergunto o que ela pensou e como se sentiu para que ela reflita sobre isso. Depois, peço para os colegas dizerem o que fariam se estivessem no lugar dela.

Um dia falamos sobre mentira.“Por que não pode mentir?”, perguntei. “Porque é feio”, disse um. “Não acho. E aí?”, respondi.“Deus não gosta”, falou outro. “Mas e quem não acredita em Deus? Pode?”, retruquei. Depois dessa investigação, concluímos que mentir é ruim porque quem mente perde a confiança do outro. Aí uma menina levantou a mão: “Mas meu pai mente”. Ela contou que o pai sempre dizia que ia parar de bater bater na mãe, mas nunca parava. Nessa hora, outro aluno falou: “Professora, acho que o pai dela não teve aula de inteligência emocional. Ele não aprendeu a controlar a raiva e por isso bate na mãe dela”. Em momentos assim, sei que as crianças estão aprendendo e que isso vai fazer diferença no futuro.

Os pais dos alunos também participam de oficinas em que ensinamos técnicas simples de como conduzir uma conversa com o filho sem brigar. Coisas como sentar na mesma altura da criança, olhar nos olhos dela e perguntar com calma em vez de cobrar dão muito resultado.

Nesses cinco anos educando as crianças para a vida, o dia a dia nas escolas melhorou muito. Claro que ainda existem problemas e alunos que precisam de mais ajuda, mas a maioria está mais feliz e menos agressiva. Fizemos uma pesquisa com professores das escolas e eles relataram estar 100% mais motivados, que a relação dos alunos com eles e entre si melhorou 90% e que a disciplinadas crianças aumentou 90%! A realidade violenta fora da escola não mudou, mas os estudantes se comportam melhor e aprendem com mais facilidade. Eles têm um brilho novo nos olhos. Por isso, a cada dia acredito mais que a educação é que vai mudar esse país.

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