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Ensinar ‘está no sangue’ de Eunice

História de: Eunice Cláudia Sampaio
Autor:
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Eunice Claudia Sampaio conta da relação com o pai e de sua influência cultural desde quando era criança, fala da sua atividade como professora e de seu orgulho de ser uma artesã.

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História completa

Meu nome é Eunice Claudia Sampaio, nasci em Rio Claro, no dia 14 de maio de 1949. Meu pai era pintor de parede, mas ele tinha um grande conhecimento de artes plásticas, ele desenhava muito bem, ele fazia gravuras, pintura em afresco. E acho que herdei essa parte dele, porque eu estava sempre junto, então fui gostando do trabalho à mão, me interessando por isso, até aonde cheguei hoje. Minha mãe era dona de casa, trabalhava muito pra poder criar a gente. Minha infância foi muito boa, a gente tinha a liberdade de brincar na rua.

Eu lembro [a primeira vez que fui ao cinema], foi um filme do Mazzaropi, mas era tão lindo.  A gente nunca tinha ido, aquela sensação de ir ao cinema, no Excelsior, que hoje, infelizmente, terminaram os cinemas daqui, é a Loja Americana, na Rua Quatro. Então tinha um bar muito grande dentro do cinema, eu gostava mais de ir ao cinema pra comer a bala e a pipoca. Eu me entretinha mais com os docinhos ali do que assistindo os filmes. Mas, eu sempre gostei muito de cinema, quando era menor, nós íamos em família, depois [meu pai] foi deixando. O filme que a gente gostasse de ver, tinha liberdade, ele levava até a porta e ia buscar, eu ia com amigas. Então ele sempre deu o maior apoio pra gente ter cultura.

Eu vivi dentro de uma escola acho que mais da metade da minha vida, estudando e trabalhando, como aluna e como profissional.  Então pra mim a escola é tudo na vida. Nossa, eu sou apaixonada pela minha profissão, fui uma professora [de Geografia] muito consciente, procurei levar cultura para qualquer aluno. Eu era muito marechal, eu cobrava mesmo, exigia que aprendessem, porque eu estava lá pra ensinar, então eu queria que pelo menos a minha função fizesse jus ao salário que recebia. Eu nunca gostei de ficar só dentro de um local fechado com 40 pessoas e eu comandando. Às vezes falava: “Gente, vamos lá no jardim”. E a gente tinha aula no coreto, aula mesmo. À noite, na Semana Santa, eu tirava os alunos da sala de aula e ia na procissão com eles, voltava e eles nunca deram balão, nunca fugiram, eles me respeitavam muito. A gente ia mesmo fazer as coisas.

O meu vestibular foi por acaso; uma colega de sala me pediu pra fazer companhia pra ela no vestibular e eu falei: “Pô, mas o que eu vou fazer lá? Eu não quero fazer faculdade”, “Mas vamos comigo”. E ela falou na minha cabeça uma semana. “Tá bom, pra você ficar quieta eu vou”. Me inscrevi, tudo bonitinho,  mas não estudei. Porque como eu não queria passar, eu fui com o que eu sabia só. E foi tão bom o meu ensino de escola pública, que passei no vestibular. E aí ela chegou toda feliz em casa, eu lembro dela subindo a rua de pressa, com um sorriso, eu fiquei: “O que será que houve?”. Ela chegou: “Passamos, passamos”. Eu falei: “Onde?” “Na faculdade”. “Ahn? Você tem certeza? Você passou”, falei pra ela: “Não, nós passamos”. Eu: “Eu também?”, “É”. Eu falei: “Ah, mas eu não quero ir, não”, “Ai, vamos comigo, nem que seja uma semana, pra eu seguir até me ambientar”...

Primeiro nós fizemos opção pra Biologia, chegou em casa, fiquei pensando, porque eu amo animal: “Eu não vou matar o rato. Eu mato o professor, mas o rato não”. Ela tinha medo de bicho, então pensou: “Vou pegar no rato? Ai que horror, não quero!”. Ela veio em casa: “Vamos mudar”. Nós invertemos: primeira [opção] em Geografia e segunda em Biologia, e passamos... Comecei a levar no vai da valsa... mas fazia prova, ia bem. Eu fiquei de DP em uma matéria por dois décimos, queria trucidar o professor.  Aí eu dei um chega pra lá em mim mesma, tive uma conversa comigo: “Escuta aqui, tem muitas pessoas que gostariam de estar no seu lugar e não tá, ou você vai ou você sai”. Eu pensei comigo: “Já fui seis meses. Não vou desistir, agora eu vou”. Fui em frente, peguei o gosto pra estudar, a gente fazia muitas viagens de estudo, e aí eu gostei, fui bem mesmo, engrenei naquilo que era bom pra mim.

Nossa, [o meu primeiro dia em sala de aula] foi pior que o meu primeiro dia na primeira série! Eu tinha um medo que o aluno me fizesse uma pergunta e eu não soubesse dar resposta pra ele. Meu Deus do céu, eu quase comi o livro, de tanto que estudei! Eu estudava muito pra dar aula, eu pesquisava... porque é completamente diferente do que a gente aprende na faculdade... eu só tinha o diploma! Eu estava completamente analfabeta em matéria de ensinar, não sabia nada e era muito, muito perigoso um aluno fazer uma pergunta.

Eu nasci com API, então andava pouco. Até entrei na escola, na primeira série, com nove anos, entrei tarde porque [meus pais] esperaram até que eu tivesse maior firmeza nos ossos pra poder caminhar. Então nesse período o meu pai comprava bordado pra mim, fui fazendo, fazendo, até pegar gosto das coisas.

Atualmente [faço] o crochê e o patchwork, que ensino até as pessoas a fazerem. Às vezes, eu acho que como eu nasci pra ensinar, isso deve estar no sangue, na veia, sei lá aonde, pulsa! Uma pessoa que demonstra interesse em aprender, eu tenho maior interesse em ensinar. Aí a pessoa aprende e vai seguindo por si mesma, pode vender pra gerar um lucrinho pra ela.

Muita gente pensa que artesanato é coisa de quem não tem o que fazer e fica lá no jardim, sabe? Mas não é isso, eu respeito muito o trabalho... procuro criar meus desenhos, então fica diferente de todo mundo... Eu faço um projeto, até à execução eu demoro várias etapas, tem muitas horas gastas naquele projeto pra sair uma coisa, pra uma pessoa ver e gostar ou até criticar. Mas é uma satisfação quando a pessoa fala: “Tá lindo o trabalho”. Paga mais do que o valor que a gente ganha no trabalho que faz. Então, eu gostaria que as pessoas que participam de uma feira ou que vão visitar um trabalho de artesanato, que eles valorizassem mais aquilo. Porque a gente está ali pra mostrar uma arte. Eu já recebi muita pergunta assim: “Quanto custa essa toalha?”, eu falo o valor: “Mas e pra mim, quanto você faz?” “Pelo mesmo valor, senhora”. A gente tem carteirinha de artesão. Se tem carteirinha, tem validade. Então eu acho que tem que respeitar a carteirinha e partir pra frente.

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