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História

Ensinando o gringo a gritar gol

História de: Daniela Rezende da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Brincadeiras de infância com amigos da rua em que morava. Escolha pelo curso de Direito ainda jovem, por influência do tio. Mudança para Belo Horizonte. Primeiras experiências na carreira profissional. Aprendizado trabalhando no Tribunal Superior. Primeiro contato com a White Martins e entrada na empresa. Utilidade do gás produzido pela empresa no cotidiano das pessoas. Experiência de trabalhar em conjunto com um concorrente. Posição como mulher no meio corporativo. 100 anos de White Martins.

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História completa

 


P/1 – Daniela, primeiramente, obrigada por ter vindo, bom dia. Eu gostaria que você dissesse seu nome completo, o local e a data de nascimento, pra começar.


R – Meu nome é Daniela Rezende da Costa, tem que olhar pra câmera ou pra você?


P/1 – Pra onde você se sentir melhor.


R – É Daniela Rezende da Costa, nasci em Minas Gerais, São João del-Rei em 1973.


P/1 – Você poderia dizer os nomes dos seus pais, pra gente?


R – Rafael José da Costa e Maria Carmem Neves Rezende da Costa.


P/1 – E o nome dos seus avôs?


R – Maria Josina Neves Rezende da Costa, avós maternos; Celso José de Rezende. José Américo da Costa e Celina Fonseca da Costa são os paternos.


P/1 – São todos do Brasil? Nascidos no Brasil?


R – São todos do Brasil, são todos mineiros, nascidos nas bandas de Minas Gerais mesmo.


P/1 – E quais as atividades profissionais da família?


R – A família da minha mãe é uma família com nove irmãos, quer dizer, com ela nove. Então tenho nove tios, o meu pai, desses tios, antes de falar do meu pai e da minha mãe, a larga maioria se formou em engenharia, numa época que era estimulado a fazer engenharia e as mulheres cursavam o curso normal, então minha mãe não foi diferente, ela fez o curso normal e foi professora de primeiro grau de história e meu pai prestou concurso pra fiscal da receita federal, onde ele trabalhou a vida inteira.


P/1 – E você tem irmão?


R – Não, sou filha única.


P/1 – Você é filha única.


R – Isso por parte materna, por parte de pai é uma família mais ligada a letras, meu avô era professor de língua portuguesa, escrevia livros de análise sintática e meus tios, alguns se tornaram bancários, algumas outras tias professoras, nenhum deles é advogado como eu.


P/1 – Vamos falar um pouco da sua infância. Você poderia descrever pra mim como era o bairro, a rua, a casa, seu ambiente onde você foi criada.


R – Até os 17 anos, eu fui criada numa cidade do interior de Minas, São João del-Rei, uma cidade que hoje tem 90 mil habitantes, mas acredito que na minha época ela devia ter bem menos. Fui criada numa adolescência e uma infância numa rua bem pacata, numa casa, a minha casa era a três casas de distância da casa da minha avó, eu fui uma criança muito criada por vó, brinquei muito de pique na rua, tinha muito amigo de rua, uma criança, como qualquer outra cidade de interior, você vive muito na rua, muito solta, brincando de subir em muro, de lanchar na casa do vizinho, fazer dever na casa da avó, tomar lanche e Nescau na casa da avó, isso é muito bom, isso é muito rico, estudei numa escola pública até os 17 anos, que mais?


P/1 – Você lembra de alguma história marcante durante a sua infância? 


R – Infância...


P/1 – Alguma história marcante, alguma coisa que você carrega até hoje, alguma lembrança.


R – Ah, carrego muitas, vamos dizer algumas, né?


P/1 – Algumas histórias da sua avó que ela contava que até hoje você lembra.


R – Eu me lembro muito não das histórias da minha avó, eu tinha uma tia que é inclusive minha madrinha de crisma, ela morava em Oliveira, que é uma cidade bem próxima a São João del-Rei, e ela tinha três filhos da minha idade, então eu ia sempre passar férias lá, e teve umas férias que eu fui passar lá que me deu uma crise de saudades da minha mãe, assim, uma coisa absurda, então foi uma coisa que me marcou muito, porque eu brincava o dia inteiro, brincava, brincava, brincava, mas chegava na hora de dormir e eu caia em prantos. Aí minha tia começou a ficar: “O que a gente vai fazer?” Aí eu acabei sendo deportada de volta pra São João, assim, com quatro dias de férias e era pra eu ficar vinte dias lá, e eu me recordo direitinho da minha mãe no portão me esperando, sabe como um dia feliz? Quando eu vi minha mãe, assim, ai meu Deus. Isso é engraçado, não é uma grande história de um feito da infância, eu devia ter uns sete anos e era a primeira vez que eu saí pra passar as férias longe dos meus pais. Então quando eu cheguei na rua e vi minha mãe no portão, sabe... Ela começou a chorar, eu comecei a chorar, uma abraçou a outra, parecia um final de novela. Que eu pensei: “De volta ao lar. Minha mãe, nunca mais me abandone.” Então isso é uma história que eu lembro assim mais ou menos nos tempos de São João, me lembro de algumas outras, porque a infância numa cidade do interior, você é exposta a muita liberdade. Então foi quando eu fui no meu primeiro show, foi show do 14-Bis, lá em São João, eu devia ter 13 anos de idade, então todos os pais se telefonando pra saber se eles iam deixar as filhas irem no show, se não iam, os filhos que iam, eu lembro que a gente se reuniu e foi uma comitiva de pais levando os filhos no show, são coisas assim, nenhuma história mirabolante, a não ser o fato de um dia eu estar correndo na rua e ter me deparado com uma cozinheira saindo da casa de uma amiga e me queimei inteira com a panela e aí eu lembro que eu saí pela rua gritando: “Socorro, socorro, eu estou toda queimada.” E de fato eu estava, fiquei sem ir pro colégio um tempão porque eu não podia usar roupa, coisas assim mas nada muito...


P/1 – E a cozinheira estava saindo?


R – É porque, lá, na época, costumava-se muito as cozinheiras “trançarem” muito com panelas quentes pelas rampas das casas, e eu tava correndo na rua e ia entrando na casa dessa minha amiga, Marcinha. E ela vinha, a casa era uma casa de grade, ela vinha com a panela na rampa, meio que pegar um pouquinho da calçada pra voltar pra casa, e nisso a gente se trombou. Isso foi um grande trauma que eu tive e, assim, é uma dor que eu trago até hoje, porque doeu muito, saí pela rua, eram cinco casas da minha.


P/1 – Era tudo muito próximo, né?


R – Muito próximo, era tudo muito próximo.


P/1 – A sua educação, você sentiu, você tinha uma educação religiosa?


R – Tive uma educação super religiosa, frequentei catecismo, fiz a primeira comunhão, até depois da primeira comunhão eu continuei um pouco no catecismo que se chamava... Como que chamava? Perseverança, era o curso que vinha depois que você fazia catecismo, pra fazer primeira comunhão, aí depois da primeira comunhão, se você quisesse continuar estudando a bíblia, as histórias e tal, você fazia um curso chamado perseverança, e eu fiz, eu ia à missa todos os domingos com a minha avó, a gente tinha uma rotina, era a missa das onze na igreja de São Gonçalo, a gente ia todo domingo à missa e depois meu tio me levava pra tomar um milkshake, do Kibon, era uma birosca que tinha lá, a missa existe até hoje, o Kibon existe até hoje.


P/1 – E a missa era em latim?


R – Não, a missa era normal, mas era uma missa super longa, o padre fazia aqueles discursos que ficavam meia hora, tinha um grupo que tocava violão na missa, e cidade do interior tem uma coisa muito forte, principalmente São João, que é uma cidade histórica, muito forte com religião, as pessoas são muito ligadas em religião, tem isso na rotina. Em época de natal, tem a novena de natal, na rua onde eu morava, as famílias, cada dia a novena era em uma casa. Então toda... Quando chegava, não só época de natal, mas também de Maria, que é o mês de maio e no natal eram, sei lá, vinte dias indo de casa em casa todos os dias ou pra rezar o terço ou pra ler o livrinho de natal. Aí cada dia Nossa Senhora estava na casa de uma pessoa.


P/1 – E falava-se em política na sua casa?


R – Muito, uma família de políticos, porque a minha avó, que morreu ano passado, ela era irmã do Tancredo. Então ela tinha um, além de ter tido toda essa influência, que a gente chamava, do tio Tancredo, eu tive um irmão da minha avó que foi prefeito da cidade, tio Otávio, então era um família muito politicamente engajada, até hoje é, até hoje é uma família que discute muito política, que tem pessoas filiadas, tem pessoas candidatas, tem pessoas políticas, é uma família que respira esse ambiente desde que eu me entendo por gente.


P/1 – E isso teria influenciado suas escolhas futuras, profissionais?


R – Não, a minha família sempre foi uma família politicamente conservadora e eu me formei uma pessoa muito diferente disso em termos políticos, então hoje, a minha tendência política não é nem a mesma da minha família, o que não impede que a gente converse abertamente todos os pontos de vista. Não, não tive influência política não e nem quis seguir nenhum tipo de carreira política.


P/1 – Conta um pouco da sua história no fundamental, até os 17 anos, como é que era a escola, a relação com a escola e com a comunidade, você com seus colegas.


R – Eu ingressei, então na escola pública, no colégio estadual Maria Tereza e a escola pública é um grande aprendizado, porque é uma mistura de todos os tipos de pessoas e aquilo criava e criou uma convivência muito interessante com pessoas um pouco mais pobres, um pouco mais ricas que eu, iguais a mim e eu fiquei então, de quinta a, não, na época era primeiro ao quarto, que mudou tudo, hoje em dia já não se fala, mas na época era primeiro ano ao quarto ano no Maria Tereza e a interação desse colégio com a comunidade era enorme, porque a gente estava sempre promovendo gincanas que envolviam a cidade toda, havia uma prestação já naquela época de muitos serviços à sociedade embora ninguém apregoasse como hoje que tem que fazer serviço social, você tem que ter hoje as ONGs, na época era uma coisa muito mais natural e não forçada, e as amizades que eu criei ali naquela época de Maria Tereza, eu carrego até hoje comigo, são pessoas muito próximas a mim e que dali, a gente terminou a quarta série, a gente foi pra um outro colégio público, era o colégio Frei Seráfica, onde eu fiquei até a época do vestibular. Então, muita gente que saiu comigo do Maria Tereza foi comigo até o segundo ano científico então são amizades de, sei lá, 15 anos que se formam e que nunca mais vão embora, embora depois do vestibular cada pessoa vá tomando seu rumo, a gente tem São João del-Rei como um porto seguro e é engraçado que essas pessoas, elas sempre se encontram em festas, em semana santa, em natal, em dia das mães, em dia dos pais, a gente sempre está indo de volta ao lar e se encontra. E no segundo grau não foi muito diferente, do primeiro e o segundo grau, era uma escola tão pública quanto a outra e com muito mais diversidade de pessoas porque era muito maior, numa época que o ensino era muito diferente do que ele é hoje, era um ensino muito mais, sei lá, muito mais direcionado a escrita, a teatro, a redação, não tinha toda essa questão tecnológica toda que tem hoje, então era uma coisa muito mais de você fazer, quando você errava, você tinha que ficar repetindo a palavra vinte vezes no caderninho até você acertar, de você ter que ficar depois do colégio por indisciplina, perder o recreio por indisciplina, então era uma coisa, que tinha coordenador, hoje em dia as coisas mudaram bastante, eu vejo pela minha filha.


P/1 – E esse serviço que você fazia que você chama de serviço social, assistência, você pode contar um pouco algum que você tenha feito que tenha te marcado?


R – Posso, posso contar alguns. Isso a gente fazia muito em época de gincana, a gincana ela procurava não só criar uma diversão pros alunos, como também ela criava tarefas que faziam que as equipes disputassem entre si quem conseguia ajudar mais alguém, então a gente percorria as comunidades, e tinha que ir lá, contar e levar o personagem lá na hora pra contar quantas vezes... Então a gente tinha que percorrer as comunidades de São João que já existiam, como qualquer cidade, tinha comunidade carente, e a gente saía colhendo leite, recolhendo fraldas, eu não vou lembrar de uma família, um nome que eu tenha levado, um nome, mas a gente procurava visitar e saía pedindo pra família inteira: “Ah, por favor.” E levava pra casa das pessoas, e esses personagens iam, falavam, relatavam: “ganhei num sei quantas fraldas e num sei quantos leites.” E quem tivesse dado mais ou doado mais ganhava a prova, então era esse estímulo que a gente tinha.


P/1 – Daniela, e havia alguma expectativa para que você seguisse alguma carreira profissional?


R – Minha ou de terceiros?


P/1 - Em relação a você.


R – Os meus pais...


P/1 – Dos pais, o ambiente que você morava.


R – Os meus pais sempre me deixaram muito livre pra eu escolher, eu acho que havia na expectativa de qualquer coisa na área de humanas sempre, nunca fui uma aluna boa em matemática e nunca me interessei muito por nada de corpo humano, biológico, eu tive uma mãe professora de história, então eu pensei muito em fazer história e fui demovida. “Ah o que você vai ser? Historiadora? no Brasil? Talvez como um hobby.” Um pouco mais pra frente e aí me sobraram duas carreiras, sobraram assim, ficaram na mente duas carreiras, direito e alguma coisa relacionada a comunicação, foi uma dúvida que eu tive, assim muito tempo, eu passei muito tempo pensando se eu ia fazer jornalismo, comunicação, relações públicas ou direito, e eu tinha e tenho ainda um tio, tio Luiz Carlos, que ele, na época, ele era juiz do tribunal da alçada de Minas Gerais e depois ele veio a ser desembargador e hoje em dia ele é desembargador aposentado. E na época, ele muito me aconselhou a fazer direito, ele falou: “Em direito você tem muito mais oportunidade de carreira, você pode depender só de você, se você sentar pra estudar, você vai passar num concurso público, você não vai depender de terceiros pra se dar bem numa carreira jurídica.” E muito movida a isso eu acabei me inscrevendo em direito, sem a convicção de que eu tivesse tanto talento para, mas eu acho que eu fiz uma escolha com 17 anos de idade e minha opinião é de que uma pessoa com 17 anos, ela não está pronta ainda pra escolher o que ela quer, tanto que tem muita gente que começa e para, tem muita gente que termina o curso e não consegue se dar bem, talvez por ter feito uma escolha errada e eu me vi com 17 anos tendo que, não só assim, tendo uma pressão pra fazer escolha, entrei pra faculdade de direito e acho que fiz uma escolha certa, embora eu não tenha feito concurso público nenhum igual meu tio falou que era pra fazer e hoje eu tenho, não digo 100%, que eu acho que eu teria feito também uma boa carreira na área de comunicação, mas eu consegui ser muito feliz com a minha profissão.


P/1 – Como era essa conversa sobre profissão com os amigos?


R – Com os amigos? Algumas pessoas, eu me sentia um pouco diferente dos meus amigos, porque os meus amigos, quase todos sabiam o que queriam ser, eles tinham uma vocação muito acentuada, eu tinha muitos amigos que eram muito feras em matemática, física e química, então não podia ser nada muito diferente disso, e uma carreira mais fácil, uma grande amiga: “Ah, eu vou fazer ciência da computação.” Ela nunca teve dúvida. “Vou ser engenheiro civil.” Muito sem dúvida, e eu acho que eu fui uma das únicas que patinei nessa escolha. Então a conversa, ela foi muito nesse sentido de me deixar um pouco mais segura, eu estava muito insegura porque eu via todo mundo com uma vocação tão clara, tão certo do que queria ser e a conversa era assim, e eles falavam assim pra mim: “A gente sabe que você não pode fazer nada que tenha matemática.” Era a única coisa que eles falavam pra mim em termos de conselhos de amigo e a minha escolha de Direito não foi muito contestada por eles também não.


P/1 – Vamos começar um pouco essa trajetória profissional...


R – A gente ainda está nos 17 anos.


P/1 – Eu não perguntei um pouco sobre a juventude nessa época...


R – Então...


P/1 - Os divertimentos, o que era que mais pegava assim?


R – Vamos lá então. Em São João, até os 17, os divertimentos eram festinhas, festinhas americanas, onde os homens levam as bebidas e as mulheres levam as comidas, na casa dos amigos, dançando música lenta, com os meninos tirando as meninas pra dançar, as meninas de um lado, os meninos do outro, parece coisa de vovó mas era assim, festas de 15 anos, não foi o meu caso, a minha festa de 15 anos foi na minha casa, a gente tomava Keep Cooler e...


P/1 – Keep Cooler.


R – Keep Cooler.


P/1 – E tinha festas de 15 anos debutante?


R – Tinha de 15 anos, de debutante no clube da cidade com...


P/1 – Vestida de branco?


R – Com 15 meninas segurando vela, dançando valsa, tinha tudo, imagina, cidade do interior, claro, com pompas e circunstâncias. E nas festinhas era onde rolavam as paqueras, onde aconteceram os primeiros beijos, sempre tinha uma mais pra frentex que sempre inauguravam o beijo na boca, começava a namorar, tinha muita reunião de turma em pracinha, tinha a turma da pracinha, a gente se reunia muito, principalmente em época de férias escolares, os primos vinham de fora, meus primos, os primos das minhas amigas, vinham de Brasília, vinham do Rio, a gente se reunia e a gente tinha muito a turma de ir ao cinema, pessoal gostava muito de cinema, e as novidades demoravam, assim, meses pra chegar lá em São João, e aí, quando chegava, a gente se reunia e ia a turma inteira pro cinema e ocupava três filas de cinema, fazia bagunça no cinema e era expulso do cinema. Então foi tudo muito bem vivido, essa etapa foi muito bem cumprida na minha vida, de tomar o primeiro porre com 14 anos de idade, de ir em baile, de marcar hora pra pai ir buscar, ou marcar hora pra voltar, e se não voltar o pai saía pela rua de pijama pra buscar. Então isso foi bem legal, coisa que eu gostaria que minha filha tivesse a oportunidade de me ver.


P/1 – E aí você entrou na faculdade...


R – E aí eu fui pra faculdade e a faculdade não foi mais em São João del-Rei, São João tinha uma faculdade, uma faculdade que hoje é universidade, mas não tinha Direito. Aí eu fui pra Belo Horizonte, passei pro vestibular na PUC, de Belo Horizonte e fui morar sozinha com outra amiga, e aí inaugurou uma outra etapa da vida. Eu saí de casa com 17 anos, fui pra BH e é uma outra liberdade, aí morávamos eu e a Ana Cristina, que foi meu relacionamento mais longo até hoje que eu morei com ela 10 anos e ela estudou comigo, foi uma das amigas que estudou desde a quinta série até o segundo grau.


P/1 – E você contou aquela sua experiência aos sete anos, da distância com a mãe, houve algum momento que você falou: “Puxa, minha mãe longe daqui.”


R – Não, de jeito nenhum. Não porque aí é diferente, criança com sete anos a mãe é a heroína da vida dela, aos 17 é ao contrário, você já quer dar linha, já sente essa necessidade de ter um pouco mais do seu mundo.


P/1 – Nesse período de estudos, que expectativas você tinha dessa carreira?


R – Da carreira?


P/1 – Você logo percebeu que era isso mesmo que você queria?


R – Não, eu não logo percebi que era isso mesmo que eu queria não, eu fui pra Belo Horizonte, e aí acontece uma coisa que é o deslumbramento, você mora sozinha, você entra numa faculdade que é aquele ambiente maravilhoso, é um ambiente que, principalmente numa capital, você tem gente da capital, mas tem gente que, como eu, era forasteiro, então veio gente de Nanuque, Teófilo Otoni, Diamantina, Minas é um estado muito grande, então vinha, de Januária, que é lá nas margens de São Francisco. Então eu diria que meus dois primeiros anos de faculdade foi muito mais de curtição de pessoas do que prestar atenção do que eu estava fazendo ali mesmo de curso, até porque, no curso de direito, os dois primeiros anos, ele não te coloca muito frente a frente com ciência jurídica, é filosofia, é introdução do estudo de direito, estuda os problemas brasileiros, é uma coisa assim, que eu custei até a entender o que aquilo tinha haver com o curso que eu estava fazendo, eu pensei: “Ah pô, eu achei que eu fosse estudar códigos, fosse estudar legislação.” E isso vem depois de um ano e meio ou dois de faculdade. Então, esses dois primeiros anos de faculdade, a experiência foi muito mais antropológica do que de direito. Aí foi experiência de alunos de faculdade, DCE, truco, bebedeira, calourada, festa, e tudo sem ter que dar satisfação pra mãe e pai, pense, que espetáculo, podia voltar pra casa a hora que eu quisesse que minha mãe não iria estar na porta me esperando, não existia celular naquela época, então não tinha como a mãe saber onde você estava. Então a melhor coisa que tinha era exercer essa liberdade, de acordar na festa, tomar café da manhã no mercado central, voltar pra casa exausta e dormir o dia inteiro. Mas aí tem uma coisa que é legal, que é um pouco de confiança de pai, mãe e filho, que eu nunca dei trabalho pra minha mãe e meu pai, então eu acho que quando eu saí de casa, minha mãe sempre soube que eu gostei e gosto até hoje de uma farra, então ela sabia que eu ia fazer isso tudo, mas que eu iria dar conta do recado também, ou que eu ia dar conta de fazer o que eu me propus a fazer fora de casa, afinal de contas, ela estava me bancando financeiramente também né. Então assim, eu nunca fui uma criança que deu problema com estudo, nunca perdi média, nunca tomei recuperação, nunca repeti de ano, então não tinha muito que ela se preocupar. E aí, no terceiro ano de faculdade, eu falei: “Não, agora é hora de parar pra pensar o que eu estou fazendo aqui direito.” E aí procurei um estágio, falei: “Não, essa faculdade está muito abstrata pro meu gosto.” Eu não estou entendendo ainda o que é Direito. Então no terceiro ano de faculdade eu fui procurar um estágio, nem que fosse não remunerado pra eu fazer, pra eu ter um pouco mais de contato com a profissão de advogado, por que eu não tinha tido contato com advogado nunca na vida, que não tinha ninguém da minha família, a exceção desse tio, que tivesse me proporcionado um contato com Direito, esse tio, eu nunca tive contato com ele direito porque ele morava longe, era mais um aconselhamento. Aí eu entrei num estágio na prefeitura de Belo Horizonte e foi ótimo, que ali realmente eu entendi, eu comecei a ver primeiro o que o direito tinha a ver comigo e comecei a ver que dentro da prefeitura era um leque de oportunidades de Direito mesmo, eram vários departamentos, várias pessoas lidando com coisas diferentes. Então eu vi que realmente, já ali no terceiro período eu eliminei algumas coisas e eliminei corretamente, dentro da carreira política eu já vi que eu não queria mexer com tributo, com imposto, com nada disso, até hoje é assim, então ali eu comecei a me direcionar. Então ali eu entrei na prefeitura, na prefeitura eu fiquei bem uns dois anos fazendo estágio, e aí fiz outras grandes amizades dentro do estágio. E quando foi no quinto período de faculdade, quinto pro sexto, eu prestei um concurso pra fazer estágio no banco de desenvolvimento de Minas Gerais, BDMG como estagiária da parte de contencioso que é de processo e era um estágio cobiçadíssimo porque na época, o estágio pagava um salário mínimo mais vale transporte por estagiário, e esse estágio pagava dois salários, estagiário fica riquíssimo, nunca tinha sido tão rica igual na época do BDMG.


P/1 – É isso que eu ia te perguntar, nos dois primeiros anos sua mãe te mandava mesada...


R – Sim, mandava, mandava.


P/1 - Você conseguia se relacionar com dinheiro legal?


R – Muito bem. A gente vivia com muito pouco, isso é engraçado. Eu sempre converso com as meninas que moravam comigo, como a gente era feliz com pouco, porque nas festas, a gente comprava um pouquinho nas padarias, levava, o outro comprava um pouquinho e se divertia horrores, a gente ia pros botecos, não tinha essa sofisticação que tem hoje de ficar tomando vinho bom, caipivodka de absolut, a gente tomava, sei lá, o que tivesse, e se divertia do mesmo jeito.


P/1 – E roupa?


R – Roupa? Primeiro, não, aí tem uma experiência ótima, que é a seguinte, eu morei, primeiro eu comecei a morar com uma menina, depois eu comecei a morar com mais uma e depois com mais uma, então no final éramos quatro, então a gente tinha quatro guarda-roupas, então a gente trocava, tínhamos o mesmo corpo, e a roupa também era muito simples, era pouca mas era o suficiente pra gente ficar bonitinha, que a gente era arrumadinha.


P/1 – E nesse segundo estágio precisava ir arrumada?


R – Precisava ir arrumadinha, o Direito tem essa chatice, que te impõe uma vestimenta fantasiosa, que eu digo, hoje em dia eu digo que eu tenho um guarda-roupa A e um B, sem querer, lado A e lado B, um e dois, um do trabalho, que eu só uso para o trabalho, e o pra minha vida normal. Mas era gostoso, hoje em dia eu acho um saco, mas na época, eu me arrumar pra ir pro estágio era uma delícia, e quanto mais arrumadinha eu fosse, melhor. E os meninos viviam a situação também na situação de doidos pra usar terno e gravata entendeu?, então era isso, aquele tanto de estagiário com cara de menino de terno e gravata felizes da vida porque tinham vestido um terno, é como se fosse assim, dando um passo mesmo pra carreira e eu ia toda arrumadinha pro meu estágio. E tinha outra menina e era interessante que a casa era dividida em duas que faziam Direito e duas que faziam Jornalismo, então facilitava ainda mais a troca de vestimentas, a que fazia direito era tão arrumadinha quanto eu, as outras eram mais avacalhadas, podiam ir pra faculdade de chinelo, e na faculdade de Direito, todo mundo de beca.


P/1 – E aí você ficou dois anos? Quantos anos nesse segundo estágio?


R – No segundo estágio. Aí no segundo estágio, que era mais ou menos, do sexto ao oitavo período, mais ou menos, uns dois anos, e aí foi ótimo, dentro do banco eu mudei de área algumas vezes, isso foi na época, foi mais ou menos em 94, que eu lembro que foi a Copa do Mundo que o Brasil foi penta e eu tinha um namorado que morava em Ouro Preto, numa república, onde ele... era uma república de 32 quartos, moravam 32 homens na casa cada um em um quarto, e eu lembro que era essa época do estágio, que eu ia muito a Ouro Preto, que o Brasil foi penta, eu estava em Ouro Preto e foi a época do plano real, da URV de 94 que aí eu lembro que o meu salário, custava a calcular o meu salário quanto que era, o que mudou a URV. E aí, quando eu saí do banco, eu falei: “Não, agora eu preciso fazer um estágio num escritório de advocacia.” Já tinha a prefeitura, que era público, o banco que era meio privado, banco tipo BNDES, aí eu procurei amigos que já estivessem fazendo estágio em escritório de advocacia e aí consegui entrar como estagiária num escritório de advocacia trabalhista que era uma área que eu nunca tinha feito ainda. E eu me encontrei muito nessa área trabalhista, no início da minha carreira, era um Direito muito interessante, tanto que hoje na White sou gerente da parte trabalhista. E aí fiquei nesse escritório trabalhista, fui contratada pelo escritório, então, eu me formei em 95, em dezembro de 95 e já estava empregada nesse escritório. Aí teve festa de formatura, baile de formatura, pompa e circunstância que é tudo bem Belo Horizontino. Aí fiquei nesse escritório um ano, e aí aconteceu uma coisa, um primeiro trauma na minha carreira, eu descobri que meu chefe era um picareta, descobri que ele passava os clientes pra trás, que ele pegava dinheiro de cliente e não repassava e era um cara que me ensinou muito o Direito, essa parte. Então aí eu me vi naquela situação falando: “E agora José?” Tenho que correr daqui, ir embora daqui que daqui a pouco meu nome que está em confusão, metido em confusão, então eu e outro amigo meu saímos do escritório, ele trabalhava na parte tributária e eu trabalhava na parte trabalhista. E aí ele falou pra mim: “Daniela, eu tenho uma sala, lá na Cidade Nova.” Que era um bairro longe pra chuchu. “E tenho contatos, quem sabe a gente, pra não ficar à toa, até a gente arrumar emprego, a gente não vai pra lá e tenta divulgar?” E aí a gente foi, e deu mega certo, deu super certo, a gente começou com um pouquinho de cliente, tinha um cliente que foi chamando o outro, foi chamando outro e chamando outro, e aí foi uma época que eu também não podia fazer muitas escolhas, então eu fazia separação, eu fazia pedido de pensão, fazia direito do trabalho e o Renato, Renato é o nome dele, ficava só na parte tributária e a gente ficou junto um bom tempo e estava crescendo, aí a gente começou a tirar um dinheirinho, não era muito mas já dava pra tirar e aí veio uma outra mudança de carreira, que eu fui convidada por um juiz de tribunal de alçada pra ocupar um cargo em comissão como assessora deles, e isso era irrecusável e é ainda irrecusável pra qualquer pessoa recém formada ou não recém formada, porque, primeiro que o salário é altíssimo e segundo que você fica exposta, ou você tem contato com o que há de melhor e pior dentro da advocacia de tribunal, e a função de assessor é nada mais do que analisar o caso todo, fazer um parecer e submeter pra assinatura do juiz ou do desembargador caso ele concorde, ele assine, ele pede pra mudar e toda a rotina do tribunal superior. Então eu conversei com o Renato, falei: “Olha Renato, qualquer pessoa no meu lugar aceitaria, mas eu vou tentar me manter nos dois.” Eu não sabia ainda a carga de trabalho do tribunal e eu não queria largar o escritório porque eu já tinha criado um amorzinho pelo meu escritório e aí consegui conciliar durante alguns meses, mas realmente não deu, o tribunal exigia e exige até hoje uma dedicação muito integral, é muito trabalho, então acabei largando o escritório, o Renato tocou sozinho, ficou rico, ficou muito rico com o escritório e a gente mantém contato até hoje e eu fui pro tribunal e aí no tribunal eu fiquei cinco anos, fiquei no tribunal até os 27 anos. E aí foi onde eu realmente aprendi, os cinco anos de tribunal me deram muito mais conhecimento do que os cinco anos de faculdade, porque eu vi todos os tipos de caso que um advogado pode ver na área cível, porque não era uma área criminal, e tive contato com os melhores advogados de Minas ou até do país que vinham conversar comigo, vinham defender suas teses comigo, antes de levar pro desembargador, foi uma grande história. E aí o que aconteceu, depois de cinco anos de tribunal, duas coisas me deixaram inquieta, três coisas, primeiro que era um cargo em comissão, ou seja, a hora que ele enchesse o saco de mim, ele querer me mandar embora, eu iria sair com uma mão na frente e a outra atrás sem FGTS, se ele se aposentasse idem, se ele morresse idem, então essa insegurança começou a me deixar inquieta, eu tinha um namorado aqui no Rio de Janeiro, eu tinha arrumado um namoradinho aqui no Rio de Janeiro, e isso eu estava no quinto ano de tribunal, quarto ou quinto ano, eu comecei muito a ir e vir pro Rio de Janeiro e na época, não era ponte aérea igual tem hoje passagem de 39, 69 não, era um absurdo você viajar de avião, era uma época que o vôo da TAM ainda tinha jantar com talher, servia tutu num vôo de 40 minutos, então mudou muito, então pegava muito ônibus, ele também, depois começou a cansar, aí eu falei: “eu tenho que tomar uma decisão na minha vida.” E aí eu já estava de saco cheio de Belo Horizonte, eu não aguentava mais a cidade que era uma cidade muito boa, eu tenho um amor grande por Belo Horizonte, mas que a pessoa tem que ter um perfil mais tranquilo pra viver lá, que não é meu caso, sou uma pessoa muito agitada, gosto de eventos, gosto de estar inserida no mercado de trabalho principalmente, e lá é uma cidade que, ao mesmo tempo que ela te proporciona uma qualidade de vida tremenda, justamente pela tranquilidade, para pessoas da minha personalidade, ela deixa a desejar na... Sei lá, no colorido, na parte cultural e também um pouco no mercado de trabalho, mercado de trabalho muito instável, muito morto, você se dá muito bem, mas se você tiver esse perfil. Aí eu falei: ”O que eu vou fazer?” Vou começar a procurar emprego no Rio de Janeiro. Por quê? Eu não estou gostando de Belo Horizonte, eu tenho um namorado que eu era apaixonada com o qual depois eu me casei, eu preciso ir ou ele vem, aí ele falou: “Não vou, não vou sair do Rio pra ir pra Belo Horizonte.” Eu dei razão pra ele, daí eu fui procurar emprego no Rio. E aí aconteceu uma grande coincidência, essas coisas que realmente tem que acontecer, eu era prima, eu sou prima ainda, ela não trabalha mais na White, da Renata Dorneles que trabalhava no jurídico da White, e a Renata, em maio de 2001, ela se casou aqui no Rio e eu vim para o casamento dela, e no casamento dela estavam todos os advogados da White e o chefe dela que era o Paulo Novaes, e o que aconteceu, o Paulo Novaes neste casamento, eu estava com minha mãe, com a minha família, veio a descobrir, que tinha sido muito amigo da minha mãe na infância lá em São João del-Rei, então, papo vem, papo vai, e a minha mãe, ele, nossa com a minha mãe, então a minha mãe me apresentou ao Paulo: “Esse aqui foi um grande amigo meu da infância lá de São João del-Rei, ele é o chefe da Renata e eu já estava pra lá de bagdá e falei: “Eu quero um emprego na White Martins.” Na festa de casamento, ele me falou: “me manda o seu currículo.” E eu falei assim: “Eu vou mandar mesmo.” Não esqueço dessa frase: “Eu vou mandar mesmo.” E ainda brinquei com ele: “Eu tô bêbada mas eu lembro tudo que eu estou falando.” Aí ele falou pra mandar. Aí não deu outra, na segunda-feira, assim que eu cheguei no tribunal, eu mandei meu currículo pro Paulo, e foi uma época que o departamento jurídico e a White estavam sofrendo uma mudança que o Paulo estava saindo de diretor pra vice presidente, um advogado estava sendo promovido a diretor e tinha uma vaga, aí ele falou assim: “Manda o seu currículo.” Mandei, aí a gente se entrevistou por e-mail, e depois ele falou: “Agora você vai ser entrevistada pelo Conrado.” Que era, então, o diretor. Aí eu vim e fui entrevistada pelo Conrado e consegui a vaga. Aí eu entrei na White em 12 de junho de 2001, dia dos namorados.


P/1 – Qual setor?


R – Jurídico, como advogada júnior, e foi uma escolha de vida interessante porque, comparando, não eram esses números, mas eu saí de ganhar, sei lá, cinco mil pra ganhar dois mil, aqui no Rio de Janeiro, tamanha era a minha vontade de mudar de carreira, de dar outro rumo na vida, e aí minha mãe falou: “Mas e aí, como é que vai ser?” Eu falei: “Mãe, vai dar tudo certo, daqui a pouquinho eu vou estar ganhando de novo cinco mil.” Não era cinco mil...


P/1 – É.


R - É uma aposta, aí eu vim, não casei direto, aluguei um quarto e sala em Copacabana e fui morar em Copacabana, aí morei, comecei a advogar na White em 2001 e logo vi que era aquilo mesmo que eu queria pra minha vida, não necessariamente na White, acabou sendo na White, mas era iniciativa privada, era empresa, era negócio, acho que era um talento e é um talento que eu tenho no Direito, trabalhar com negócio, de fazer negócio, de auxiliar negócio em contratos e negociações. E ali dentro, quando eu me vi naquilo eu falei: “Ai, ufa, é isso que eu quero fazer pro resto da minha vida.”


P/1 – As atribuições mesmo, quais eram, logo no primeiro dia já te deram as atribuições do cargo?


R – Não, isso é uma coisa, foi uma coisa legal dentro da White, logo que eu cheguei me deram um contrato da CSN, que é um big contrato lá dentro, e era um contrato que estava dando muito prejuízo pra gente na época, então, logo que eu cheguei o Paulo, o Conrado falou assim: “Analisa esse contrato pra mim.” “Eu?” Aquilo pra mim... Eu estava acostumada a fazer processo, meu Deus do céu, o que era aquilo, não encontrava o que era aquilo. E aí foi o meu primeiro contato com a vida de uma multinacional, e aquele contrato da CSN me abriu portas pra uma carreira muito interessante dentro da White, que é a carreira que eu exerço até hoje também, de trabalhar com grandes contratos.


P/1 – CSN, desculpa interromper, CSN é Companhia Siderúrgica Nacional.


R – Siderúrgica Nacional.


P/1 – Ah tá.


R – A White fornece gás pra ela, e todas essas siderúrgicas e esses contratos e essas empresas maiores, elas tem contratos muito complexos, as negociações são duríssimas e os contratos são grandes, então eu tive a missão de, em conjunto com o pessoal de negócios da White e obviamente com... Tinha gente de assessoria externa advocatícia de restabelecer aquele contrato e colocar num patamar que ele viesse a ser bom pra White e a gente conseguiu. E a partir dali então, meio que naturalmente, alguns contratos, a maioria dos contratos de negociações desse tipo acabaram caindo no meu colo. Mas no início também deram uma atribuição de coordenar a área trabalhista da empresa, coordenar não, que na época não existia essa gerência, mas de assumir de certa maneira a parte do escritório trabalhista, da parte trabalhista, quando eu entrei na empresa, não existia especialização, ou seja, todos os advogados estavam sujeitos a fazer tudo, era uma premissa que o chefe tinha de não criar especialistas dentro de um departamento então eu tinha que estar pronta pra atender uma demanda de licitação, uma demanda de direito econômico, uma demanda de contrato de contencioso, eu e todo mundo, e isso era uma filosofia muito interessante, porque realmente toda hora você era desafiada com alguma necessidade de estudo de coisas diferentes.


P/1 – E até então você não precisava saber exatamente o gás ainda, onde é que entrava?


R – Não, eu demorei a entender de separação de ar, como que pegava isso que se chama oxigênio colocava num cilindro, eu devo ter... Eu acho que eu só assimilei isso depois de um ano e meio, dois anos de White Martins, que é quando você já visitou fábrica, você já viu rótulo, você já entende um pouco do processo produtivo, porque a teoria... É claro que antes de eu entrar na White eu não entendia o que era, o que a empresa fazia e atendia, então não adianta, você só tem noção da dimensão da White Martins quando você está dentro dela e as diversas formas com que a gente vende gás torna esse aprendizado ainda mais complicado, porque quando você acha que já aprendeu tudo, vem uma mistura pra embalagem, que não sei o quê, que é vendido e acondicionado de forma diferente, que tem um rótulo diferente, que tem um risco diferente e um mercado diferente, e aí você tem que entender aquele mercado, tem que entender aquele risco e acaba tendo que entender como que você chegou àquela mistura de óxido nitroso com óxido nítrico e com, enfim, por aí vai, então eu falei que eu nunca pensei que eu fosse ter contato de novo com a tabela periódica.


P/1 – Pois é. Então, mas naquele primeiro contrato da CSN dava pra encarar porque não precisava ter tanto conhecimento?


R – É, porque ali, só caiu a ficha que eu só conseguiria advogar bem pra White se eu entendesse o processo um pouco depois. No início, como a minha formação era de extrema advocacia, eu vim do tribunal, pra mim bastava entender o contrato, os direitos e obrigações daquele contrato que eu iria ser capaz de dar um bom conselho pra minha turma. E aí eu percebi que não, que muito mais do que você saber se o contrato está dentro da lei é você entender se aquele contrato está suportando bem a venda daquele gás, daquela forma, com aquele risco e aí não tem jeito, é só indo pra ver, é só indo na usina, é só indo no hospital, é só visitando CDL que é nosso centro de distribuição, indo em fábricas de cilindros da White Martins, aí você consegue ter uma dimensão do que é. No papel, você consegue ser um bom advogado? Você consegue, agora pra você ser completo, você... É igual médico, você tem que saber do seu paciente, o médico tem que entrevistar o paciente, antes de: “Ah, eu estou com problema de apendicite.” Vai lá, abre e fecha, não é assim: “Não, qual seu histórico familiar?” Ele vai saber se você tem pressão alta, vai saber se você tem diabete, vai saber tudo antes de ir lá e tirar o seu apêndice. Então na White é um pouco isso, antes de você, um advogado dentro da White Martins, antes de você falar pro seu cliente, seu cliente interno, que esse contrato está bom ou ruim para o que ele está querendo, você tem que entender: “Vem cá, me fala direitinho o que é isso aí que você quer vender, como é que isso vai, como é que é feito?” E aí você tem condição de formar um conceito melhor sobre os riscos daquilo.


P/1 – E essa ponte entre o gás e a vida prática das pessoas, você tinha essa noção?


R – Eu não tinha a menor noção de onde isso entrava na minha vida. E aí a gente começa a prestar atenção, porque ele está aí, como a gente está ocupado, tem outras prioridades, outras vocações, a gente não presta atenção que tem uma embalagem de frango no supermercado ou de algum produto que tem gás lá dentro, nos hospitais, a gente vê esses tanques, etc. Tem um monte de gás lá dentro, e aí você começa a prestar atenção, você começa a ter outro olhar, você vai numa fábrica de automóveis e agora eu sei que em algum momento ali, a gente fornece gás pra fábrica de automóveis, o chopp que a gente bebe tem gás carbônico. E aí, quando a gente incorpora a White Martins, eu já procuro saber quem é o fornecedor, então sempre quando eu chego num boteco, eu sou botequeira, eu gosto de tomar cerveja, será que aqui é gás White, vamos ver se o chopp está bom ou se está ruim. E é isso, e a mesma coisa em hospitais, sempre que eu vou visitar um hospital, ou sempre que eu tenho que me sujeitar alguma coisa em hospitais, eu tenho a curiosidade de saber quem é o fornecedor, eu vou lá olhar o tanque, lá em São João del-Rei eu sou revoltada, que tem um hospital que é da White e tem outro que não é, aí eu falo: “Ó meu Deus do céu, justo a minha terra.”


P/1 – E qual que você diria que foram as maiores dificuldades que você enfrentou no início da carreira, durante a carreira até hoje, desafios, as culturas, as conquistas, vamos falar um pouco sobre isso?


R – Vamos, vamos falar um pouco disso. Então, eu tenho dez anos de White, então assim, na White eu acho, a gente aprende muito... Primeiro, como é que eu vou explicar? Eu aprendi muito sobre o papel da indústria nacional, isso é uma coisa interessante, como desafios dentro desse contexto é você estar antenada ao que está acontecendo na realidade macroeconômica no mundo e pra saber sempre que a White Martins vai estar situada ali. Eu digo isso pra mim que foi um grande desafio porque eu nunca tinha me interessado antes por isso, isso é uma coisa que eu tinha conhecimento porque sou uma pessoa que lê e assiste jornal, mas eu nunca parei pra analisar o impacto disso no Brasil, na nossa economia, no nosso dia a dia e a White me proporcionou muito isso. E a minha carreira dentro da White, ela foi tomando um rumo bacana, que no início eu trabalhava muito com essa parte do direito de trabalho, muito focada nisso, aí veio esse contrato da CSN, e aí eu comecei a construir uma carreira dentro da área de negócios da White que abriu pra mim uma rede de amigos e de colegas de trabalho que me ensinaram muito, mas muito, e trouxeram pro meu conhecimento justamente isso que eu nunca tinha tido, essa visão do que é um bom negócio, de como fazer um bom negócio, do que é ruim pro negócio e o que não é, então durante os meus sete primeiros anos de White Martins, eu tive a chance de trabalhar em diversos negócios interessantíssimos dentro e fora do país, congregando várias culturas, com o desafio de você saber lidar com pessoas que não falam a língua brasileira, com a competitividade que existe dentro do próprio ambiente de trabalho, acho que você construir um relacionamento em qualquer empresa é um desafio enorme, Não sei se é a oportunidade de falar de alguns projetos, de algumas coisas que eu desenvolvi dentro da White, não sozinha, mas em conjunto, mas, a gente fez, numa época, uma Caravana Brasil bastante interessante, e era uma época que a gente resolveu reformular todos os contratos da empresa, isso foi em 2004, então eu tinha lá meus três anos de White, e aí logo que eu fui chamada pra integrar o grupo, a missão do grupo era, você tem que sair de um patamar x e ir pra um 1000x, então construímos um grupo de trabalho, reformulamos todos os contratos. Aí eu fiquei grávida, e eu tinha me programado pra nos próximos nove meses pra viajar o Brasil inteiro dando cursos de contratos, aí eu falei: “E agora, como é que a gente vai fazer?” E fui assim mesmo, foi maravilhoso que eu consegui ter contato de Oiapoque ao Chuí com todas as unidades da White e aí eu viajei até o sétimo mês de gravidez ou sete e meio e o médico falou: “Agora chega senão essa criança vai nascer voando.” Foi muito legal, eu viajei muito e era interessante porque eram aquelas turmas... E as pessoas parando pra te ouvir e você sendo compelida a falar a linguagem, eu acho que a White tem, pra um advogado, ela é um ambiente muito interessante pra você exercer uma linguagem diferente da advocacia, é uma empresa de engenheiros, é uma empresa de engenharia química, de chão de fábrica, e pra você passar o recado pra esse pessoal, se você não fala a língua deles, você vira a doutora Daniela, não existe doutora Daniela, não existe doutor Gustavo, que é meu chefe, quem existe é a Daniela e o Gustavo e a gente só não é engenheiro, mas a gente está ali pra ajudar, a gente só não é formado em economia e administração, mas a gente está aqui pra fazer negócio do mesmo jeito. Então, acho que essa oportunidade me demonstrou muito isso, o quão é importante a gente falar a língua do povo numa empresa de quatro mil, cinco mil funcionários como a White Martins. Então isso foi um momento muito interessante. E eu saí de licença, voltei, quando eu voltei, caiu um projeto no meu colo, um projeto enorme, que é o projeto da Thyssen CSA, o meu então chefe falou: “Eu queria que você acompanhasse o pessoal desde o início nesse projeto, pessoal de negócios.” E eu estava amamentando ainda, aí quando foi em janeiro, minha filha tinha sete meses, entre seis meses e sete meses, surge uma viagem pra Alemanha, pra passar dez dias, minha filha totalmente amamentada ainda, eu falei: “E agora? Paro de amamentar?” Aí sem trauma, já estava na época mesmo, mas assim, um pouquinho né. Aí deixei minha filha aqui, tomei um remedinho pra parar de amamentar e viajei, viajei pra Alemanha e foi meu primeiro grande afastamento dela, ficamos dez dias longe uma da outra. E esse projeto, foi um projeto que, eu diria que foi o mais desafiador, mais importante, mais complexo da minha carreira toda, porque foi um projeto que envolveu uma empresa brasileira, uma empresa francesa e uma empresa alemã. E no curso desse projeto, muitas coisas na minha vida pessoal aconteceram, muitas coisas na minha vida profissional aconteceram, foi um projeto que sugou tempo, sugou energia, que expôs esse grupo de trabalho a uma pressão assim... Algo que eu nunca vi, eu nunca senti essa pressão de resultado, então, crianças nasceram, durante esse projeto, duas crianças nasceram dentro do grupo, a minha filha, a gente começou esse projeto, a minha filha estava com sete meses, a gente veio a assinar o contrato, minha filha estava com três anos já. Então foi uma coisa que consumiu, durante esse projeto, eu me separei, também foi um fato relevante na minha vida pessoal, muitas viagens, tendo que tocar a vida aqui separando, e tendo que ao mesmo tempo não deixar a peteca cair no trabalho, então foi o ano da Copa, foi em 2006, então foi uma época muito difícil e muito rica pra mim. E aí o projeto terminou com louvor, a gente veio a assinar esse projeto em 2007. E aí, no meio do caminho, aconteceu outro projeto muito bacana, também de misturas de raças.


P/1 – Eu queria perguntar, qual era a missão deste projeto, qual era o objetivo desse projeto, eu ia perguntar qual...


R – Pronto?


P/1 – Então você estava no segundo grande projeto...


R – É. Só pra falar só uma ilustração do primeiro grande projeto, eu falei que tinha gente de três países e a gente viajava muito e era uma pressão tão grande, tão grande que a gente uma vez fez duas reuniões em Paris, e aí todo mundo ficava assim pra mim: “Hum... que inveja, está indo pra Paris.” Gente, eu vendia meu lugar ali pra quem quisesse ir, porque a gente ficava num porão de um hotel, sem ver nada, não sabia se estava um grau, dez graus ou vinte graus, e isso é interessante, porque a imagem que uma pessoa faz quando está fazendo uma viagem dessas é você está vendo a torre Eiffel, afinal de contas... Agora, para mim, não fazia a menor diferença estar em Paris, estar no Rio, estar em Xerém, estar... Entendeu? Isso foi também a minha primeira grande visão ou constatação de quanto a gente está vivendo num “mundo mundial” mesmo, globalizado, as fronteiras estão ficando indiferentes, ou muito facilmente superadas: “Ah não, vamos fazer uma reunião no Düsseldorf, vamos, vamos fazer uma negociação em Paris?” Então essas negociações globais, elas cada vez mais estão dentro da White Martins e não poderia deixar de ser diferente, porque é uma empresa inquieta e que está se renovando sempre e está buscando outros mercados, outros parceiros, então a gente cada dia mais vai tendo que se preparar pra esse novo mundo de se fazer negócio, e isso um pouco tem haver com o que eu vou falar desse outro projeto, que era um projeto pra instalação de uma “papeleira” que estava se instalando no Uruguai, num sei se vocês vão lembrar, teve aqui vários protestos que eram pessoas contra a instalação, mulher pelada na rua da Argentina, que era na fronteira com a Argentina. Então era uma indústria de papel que estava se instalando numa região do Uruguai e a White foi selecionada pra fornecer o gás pra essa indústria de papel, mas o fornecimento, essa indústria de papel era uma indústria finlandesa, então todas as negociações eram na Finlândia. Então, um pouco do que eu vinha falando dessa globalização, era de um projeto do Uruguai, o fornecimento através de uma empresa brasileira para uma empresa finlandesa, e isso fez com que o nosso grupo fosse pra Helsinque. E aí foi outra oportunidade muito menos pressionada do que a outra, porque era um projeto menor, as coisas correram mais dentro do script, vamos assim dizer, mas que também trouxe pra mim uma experiência de vida incrível, que foi ter ido pra Helsinque, um lugar longe pra chuchu que talvez se não fosse pela White eu não visitaria e eu fui duas vezes pra Helsinque, até trouxe umas fotos, deixei aí com o pessoal do projeto, e eu viajei com mais três colegas, e um deles hoje, os três continuam na empresa, um deles hoje é presidente da Praxair México, o outro é o gerente geral do Peru e o outro trabalha aqui na engenharia.


P/1 – Daniela, então você fazia uma média de três a quatro viagens a partir de um momento da sua vida profissional, você começou a viajar pelo menos quatro vezes por ano?


R – Muito, até mais.


P/1 – Até mais.


R – É por isso que eu digo que foi na minha vida pessoal também um momento muito conturbado e, ao mesmo tempo, eu estava adorando a minha vida profissional, mas assim, eu adorei, foi um período que eu viveria tudo de novo, faria tudo de novo, e o legal de quando você cria um grupo e viaja junto… Gente, não tem como, você fica amigo íntimo daquela pessoa, você passa doze horas no avião com ela, ida e volta, quatro vezes por ano, olha a hora de convivência que você tem com elas, você está no mesmo hotel, sujeito aos mesmos perrengues. Então nessas viagens, muitas coisas aconteceram, eu perdi minha mala, nunca mais ela foi achada, eu fiquei usando roupa de amigo, como eu disse, eu tinha colegas cujas mulheres estavam grávidas e ganharam neném. Então, além de te trazer essa visão global de negócios da White Martins, de como a White Martins está no mundo inteiro, ela te proporciona um estreitamento de laços com as pessoas que nunca vão embora, o projeto terminou e o carinho do grupo que viveu aquilo tudo junto continua o mesmo, e é uma confiança também, uma cumplicidade porque a gente estava junto no mesmo barco pra o que desse e viesse, então foi muito bacana, então essas pessoas, a grande maioria está na empresa até hoje, e a gente tem, é uma coisa que fica pro resto da vida, sabe, é uma amizade mesmo, porque dentro da empresa você tem colegas e amigos, e esse ambiente favorece a amizade, são amizades lindas.


P/1 – O Projeto Thyssen, né? Qual era o objetivo da White com esse projeto?


R – O projeto Thyssen, a Thyssen é uma siderúrgica que se inseriu aqui em Santa Cruz, dos últimos 30 anos, foi o maior projeto privado na área de siderurgia no Brasil, eu não via um projeto desses desde o ano 80 e... E o objetivo da White era ser a fornecedora de gás deste projeto, afinal de contas, a White já é a maior parceira da indústria siderúrgica do Brasil, a gente já atende noventa e tantos por cento da siderurgia e esse era o projeto que não poderia passar longe da White Martins, pela relevância pra economia nacional, pra economia mundial, pela necessidade de a gente criar esse relacionamento com o grupo Thyssen, que é um grupo forte, alemão, então a gente fazia o que a gente sabe fazer, que é vender gás bem vendido pra uma siderúrgica, só que o desafio nesse caso, nesse projeto, além da gente expandir o nosso mercado aqui pra essa região de Santa Cruz, o desafio maior foi o seguinte, o projeto foi desenvolvido, ou seja, o fornecimento do gás, ele foi desenvolvido, ou seja, o fornecimento do gás foi feito com uma concorrente da White Martins, então nós fizemos uma joint venture com uma concorrente, então por isso a pressão, porque você estava dormindo com o inimigo o tempo todo, havia interesses comuns, nós estávamos a maior parte do tempo reunidos com a concorrência em prol de um objetivo comum, mas era um objetivo comum e todos os outros incomuns.


P/1 – Incomuns.


R – Incomuns, era um em comum e todos os outros incomuns, porque a gente ali naquela sala e naquelas reuniões, a gente estava mirando a mesma coisa, mas saía dali, era um querendo a morte do outro, então era aquela pulga atrás da orelha, que era uma negociação que você sempre achava que tinha uma pegadinha, que você sempre achava que tava fazendo uma curva pra te pegar ali na frente, por isso ela foi tão complexa, porque o negócio em si já era grandioso, um investimento de milhões, e milhões, e milhões, não podia ter erro, não podia ter erro no projeto, primeiro a gente tinha que unir os espaços pra ganhar o cliente, conseguimos, e depois, a segunda etapa, desenvolver uma forma de você estar junto com o seu inimigo, mantendo a inimizade e a amizade, mantendo a inimizade porque a gente precisava se manter concorrente dele nesse mercado e a amizade que ao mesmo tempo que a gente tinha que sentar pra falar de coisas que eram boas pras duas empresas.


P/1 – Isso era uma exigência da Thyssen?


R – Era uma... Que a gente fosse junto? Não, foi uma opção nossa estratégica.


P/1 – Uma opção estratégica.


R – Foi uma opção estratégica, porque foi um legado de negócio muito grandioso, muito cobiçado por todas as indústrias de gás do mundo e foi uma decisão que veio da Praxair, a Praxair ponderou que talvez, isso a Daniela falando, houvesse um risco de irmos sós e não ganharmos o negócio, então a melhor opção seria irmos fortalecidos como parceiros e a gente entendeu que essa união seria mais benéfica para que o negócio fosse White Martins, ainda que fosse 50%, então hoje a gente tem essa parceria com eles, tem se revelado boa, foram vários traumas ao longo do percurso, muitos mesmo, brigas, digo entre concorrentes, eu briguei muito com o advogado deles, já saí da sala chorando, batendo porta, mas que hoje está indo bem, o negócio está indo bem, a gente está conseguindo se relacionar bem, o casamento está bom.


P/1 – Isso já tem muito tempo?


R – A gente assinou um contrato em 2007 e a gente começou a fornecer em 2010, que a gente assinou o contrato financeiro, então a gente está fornecendo há um ano já.


P/1 – E foi nesse período que você passou, eu tenho informações que você passou três meses na Praxair, é isso?


R – Foi ano passado.


P/1 – Ah tá.


R – Aí, vamos evoluir. Aí, três anos atrás, eu fui nomeada gerente do departamento, antes eu era advogada, aí eu conquistei a vaga de gerência, aí muda um pouco as suas atribuições, muda seu foco, eu passei a ter uma equipe, o que é muito bacana, muda todo o meu desafio, eu tive que aprender e estou aprendendo a gerir gente, pessoas com todas as suas suscetibilidades e aí, já com dois anos e pouco nessa função gerencial, eu fui convidada então pelo Gustavo, aquele chefe a fazer essa incursão na Praxair, proposta irrecusável, claro que na hora eu disse sim sem pensar em nada, eu falei: “Claro que eu vou.” Não pensei em como seria organizar isso com a minha filha pra ir, mas eu vou, e fui em abril do ano passado, fiquei lá de abril a julho e aí eu voltei de lá entendendo ainda mais essa nossa White Martins, em como a cultura americana é tão distante da nossa, e como é ainda mais desafiador você ser uma empresa brasileira que tem que sobreviver a uma cultura americana, ou se reportar a pessoas que tem uma cultura americana, que eles são, em alguns quesitos, eu posso dizer, o oposto do que nós somos.


P/1 – Você poderia apontar algumas diferenças culturais que você já identificou de cara chegando lá, a linguagem, a metodologia?


R – Várias, mas muitas, assim, são muito engraçadas. Uma vez, uma amiga minha da White, Raquel, que me recebeu de braços abertos, da White que foi transferida pra lá e se estabeleceu lá, eu falei: “Raquel, então, olha só, em tal dia vai ter um show de fulano de tal pra gente ir, vamos?” Aí ela falou assim: “Dani, você não vai acreditar, eu tenho um Play Day marcado pra esse dia.” “O que é um Play Day?” É quando a mãe de um amigo leva um amigo pra brincar na casa, que ela tinha um filho, só que isso tinha trinta dias de antecedência, a mulher já tinha agendado uma visita do filho na casa dela com trinta dias de antecedência, eu falei: “Mas Raquel, espera aí, para tudo. Eu estou falando um negócio de trinta dias que, tudo bem, se você vai comprar um ingresso pro show e tal, de repente é bom você comprar com antecedência, mas uma visita.” Um americano começa o ano com reunião agendada até dezembro e ele cumpre a agenda. Então isso é diferente pra um brasileiro porque a gente é: “Ah, vou passar na sua casa hoje.” Americano não está preparado pra isso, ele não... Não existe esse improviso pra ele, o improviso é uma coisa que quando acontece eles não sabem pra onde correr, eles têm, eles se programam de maneira tal pra que nada dê errado. Então, eu cheguei lá, por exemplo, eu cheguei em abril, eles já marcavam a reunião pra mim pra início de junho, aí falavam: “Nós vamos falar desse assunto dia 2 de junho, ok?” “Ok, nós vamos falar desse assunto no dia 2 de junho.” Imagina então, isso é uma diferença fundamental. O americano, ele gosta da previsibilidade, e ele cria a previsibilidade porque ele não sabe o que é se virar diante de um fato novo que acontece. Então isso foi pra mim muito marcante, e de certa maneira, é uma lição pra gente também, o que eu também percebi de diferente, o americano, quando ele faz uma reunião, além da reunião já estar agendada há trinta dias, a reunião tem um roteiro, entendeu? Não adianta você querer embolar a reunião que ele para: “Espera aí, vamos começar pelo item um.” É igual o brasileiro, o brasileiro senta numa sala de reunião, a gente consegue o mesmo objetivo que o americano, mas a gente vai, para, vai e fala de futebol e depois volta, e faz uma piadinha, eles não tem isso. E outra coisa engraçada, o brasileiro beija, o brasileiro abraça, o brasileiro dá parabéns, no dia de aniversário canta parabéns, o americano é completamente aperto de mão. Então, no primeiro dia que eu fui trabalhar, eu estava lá tensa no hotel, esperando a secretária do chefe, me buscar de carro, ela chegou: “muito prazer.” Eu fui e dei dois beijinhos nela, gente, a mulher ficou vermelha, ficou vermelha, vermelha, eu vi que ela ficou constrangida, eu falei: “Gente, desculpa, vocês não dão dois beijinhos, vocês dão um, três?” Aí ela falou: “Nenhum.” Aí eu falei: “ah, tá bom, desculpa.” E eu entendi, é tudo assim, e nas duas primeiras semanas já aconteceu de ter um aniversário em um departamento, aí eles mandam um e-mail: “Olha, tal hora na sala de reunião, vamos comemorar o aniversário de fulano de tal.” Eles compram lá uma pie, american pie qualquer lá, colocam na mesa, aí as pessoas chegam, fica todo mundo encostado na parede esperando o aniversariante chegar, quando o aniversariante chega, vocês acham que eles cantam Happy Birthday? De jeito nenhum, o aniversariante chega, todo mundo “Hello, happy birthday.” Cortam o bolinho, come e vai embora pra sala, não dá beijo, não dá aperto de mão, não canta parabéns, então, imagina, isso. E eu brincava com isso lá dentro com eles, eu falava: “Gente, vocês tem que ver um aniversário no Brasil.” Eu peguei a época de Copa do Mundo lá, foi outra coisa interessante porque, imagina se eles sabiam o que era Copa do Mundo. Teve um deles que a gente estava almoçando, teve um colega lá que perguntou pra mim assim: “Vai ter jogo da Copa do Mundo aqui nos Estados Unidos?” Deu vontade de falar: “Claro que não.” Porque não é o esporte deles. E tinha dias de jogos do Brasil que eu tinha que explicar que eu não ia trabalhar e que eu ia ver o jogo, claro, o Brasil todo estava parado gente, eu era uma brasileira lá. Aí ele falava: “Então vamos marcar uma conferência com o Brasil em tal data.” Eu falei: “Nem tenta porque a White está fechada nesse horário por causa do jogo do Brasil.” Acho que eles entenderam esse nosso espírito e no final me deram uma vuvuzela, que tinha uma vuvuzela da Copa, aí compraram uma vuvuzela pra mim. E na minha festa de despedida foi legal porque o meu chefe veio e me deu dois beijinhos e um abraço. Então assim, foi uma troca, bem legal e sem contar a experiência profissional e ali eu consegui ver como... Porque lá nos Estados Unidos, a gente tem uma visão muito mais do mundo que aqui, porque lá os advogados suportam, de certa maneira, as operações do mundo inteiro, não só no jurídico, então consegui conhecer pessoas do RH de lá, do jurídico e uma coisa legal foi que eu resolvi levar minha filha comigo pros Estados Unidos, eu falei: “Eu não vou ficar três meses longe dela, não tem a menor chance disso acontecer.” Eu falei: “Das duas uma, ou eu não vou”, o que também não tinha chance, “ou ela vai comigo.” No primeiro mês ela ficou aqui no Brasil com o pai e eu negociei com ele que ela iria comigo pra ficar dois meses lá, aí a avó levou, arrumou aquela papelada toda pra ela embarcar como menor desacompanhado, consegui visto pra ela, aí a avó levou, aí eu coloquei ela numa escolinha lá, então todos os dias ela ia pra escolinha sem falar inglês nem nada, mas ela ia feliz da vida, deixava na escolinha às oito da manhã e no final do dia eu buscava, então foi muito legal, porque no final ela já falava algumas coisinhas de inglês, já tinha uns amiguinhos no colégio e foi minha grande companheira, porque chega um período que você fica só também, porque o americano, ao contrário do brasileiro, ele não é um cara que te chama pra casa dele: “Ah, vamos lá em casa que eu vou oferecer um jantar a você.” É assim, é da cultura deles, pra você obter o direito de ir na casa de um colega nos Estados Unidos, isso requer sangue e muito suor, entendeu? Tanto que o meu convívio lá maior foram com os brasileiros, convívio social foram com os brasileiros que estavam lá e que foram sensacionais comigo, brasileiros da White que estavam trabalhando na Praxair. A gente tinha muitos almoços de trabalho e etc. Mas essa intimidade, que o brasileiro está acostumado, principalmente o mineiro, porque o mineiro é muito mais “minha casa é sua casa” que qualquer outro povo, lá é interessante notar como eles são desapegados nisso.


P/1 – Daniela, em questão as minorias, você sentiu diferença nessa de mentalidade, como eles te tratam num ambiente de trabalho, mulheres, as minorias, né?


R – Calhou de eu pegar uma época em que o tema estava e continua nos holofotes, que é a diversidade, a pluralidade. Eu senti, principalmente no nosso departamento jurídico um espaço muito democrático, e aí foram umas características do porque disso, o nosso chefe lá é um chefe negro, que prioriza a contratação de pessoas negras, eu não sei se pode falar negro, afrodescendente.


P/1 – Nunca sabe né?


R – Nunca sabe, enfim, não tenho preconceito nenhum. Então eu senti, primeiro, num ambiente, principalmente no jurídico de lá, muito aberta a isso, talvez fruto desse posicionamento desse chefe.


P/1 – Isso você está falando lá?


R – Lá. Ah, você está querendo saber aqui?


P/1 – Não...


R – No geral?


P/1 – Um pouquinho dos dois, se você puder trazer coisas novas pra cá, de lá. Então lá tinha um chefe negro...


R – Mas, não foi essa a pergunta, talvez eu não tenha entendido.


P/1 – É, nos dois, se você lá sentiu muita diferença, essa é a questão e depois aqui também, no Brasil.


R – Lá, eu senti até o seguinte, eu acho que a Praxair é mais, eu senti ela um pouco mais avançada, nesse quesito que a gente.


P/1 – Lá que era democrático, ambiente democrático.


R – É eu achei.


P/1 – As mulheres.


R – As mulheres, tem muitas mulheres em cargo de chefia ou em ascensão, então eu...


P/1 – Sei, e aqui no Brasil?


R – Fiquei muito feliz em ver isso lá, porque eu imaginava que fosse o contrário, eu imaginava que eu fosse encontrar uma empresa mais tradicional, conservadora, machista e não, eu me surpreendi positivamente com isso lá, pelo menos na Praxair.


P/1 – E você acha que você poderia ter trazido essa sementinha pra cá?


R – Eu acho que, na época, a Praxair tinha recém contratado um diretor de diversidade que ele tem a missão de trazer essa sementinha, e eu conversei muito com ele lá. Dei meu depoimento sobre a realidade brasileira, eu achava que aqui no Brasil, não só na White, mas também na White, acho que nesse ponto a gente tem muito a crescer e eu depositei muita esperança nele, e até falei: “Conte comigo pra qualquer coisa.” E de lá pra cá, eu acho que a White vem amadurecendo muito, nessa direção, eu acho que a gente está com um propósito firme de ampliar a característica do empregado White Martins, de trazer gente, olha só, isso é interessante, porque não é você ter por ter muita mulher em cargo de confiança, muito negro em cargo de gerência, portadores de necessidades. Não, você precisa ter gente competente, então eu acho que é muito mais do que cumprir tabela, porque cumprir tabela é fácil, você nomeia e empacota lá e está cumprido. Então acho que a White está indo numa direção legal que é de você valorizar talentos dentro dessas minorias, dar oportunidades pros talentos que existem nessas minorias e que talvez tenham sido... Não tenham sido percebidos até agora, então a gente vem num movimento forte de cada vez mais mulheres em cargos de chefia, quando eu entrei na empresa era assustador, se você for pegar aí... Eu participo do encontro de negócios que tem em Angra desde 2002, eu acho, no início eram 150 homens e quatro mulheres, depois as mulheres já eram sete, oito, no ano passado falei que eu já estou ficando nervosa, que já éramos, sei lá, 27, aí eu falo: “Olha, daqui a pouquinho a gente perde privilégio.” Tinha fila no banheiro feminino, mas essas brincadeiras, claro que são brincadeiras, mas é pra demonstrar que eu acho que a gente está melhorando, está focando mais nisso, mas tem muito ainda pra crescer.


P/2 – Deixa só eu perguntar, como é esse encontro de negócios em Angra, conta um pouco dele? 


R – Conto. Todo ano no mês de março, a empresa seleciona um pessoal, geralmente os líderes e leva pra um resort, que normalmente tem sido em Angra, pra gente fazer um apanhado do que foi o ano e do que vai ser o ano seguinte, mas muito mais do que isso, é um momento de descontração, é um momento que você vê pessoas, onde você consegue jogar futebol, nadar, ir à praia, beber cerveja, a empresa sempre traz gente de fora pra falar. Então a gente fica... Basicamente como que funciona, a gente fica reunido num salão, cada segmento faz uma apresentação de como foi o seu negócio, conta algum caso de sucesso ou insucesso, o presidente fala das metas pro outro ano, do que a gente tem que fazer, como foram os indicadores financeiros, são dois dias de debates e de apresentações, sempre com a presença em algum dia de alguém de fora que vem trazer a sua experiência, ou algum diretor de empresa, ou algum cliente, já teve oportunidade de a gente ter palestra de atletas, Bernardinho. Palestras motivacionais e ao final desses eventos, geralmente no final do dia eles são encerrados, às quatro da tarde, aí você pode brincar, sempre tem um jantar de abertura ou coquetel e tem uma parte dedicada a premiações, a empresa concede prêmios aos melhores projetos, aos melhores profissionais que estão ali ou os fazem representar e aí é um grande reconhecimento e é legal porque tem a turma do tênis, tem a turma que joga futebol, tem a turma da cerveja, tem as meninas que sempre ficam encabuladas de botar biquíni na frente daquela quantidade enorme de mocinhos, então são três dias bem legais. E aí traz todo mundo da América do Sul dos outros países, da Bolívia, da Colômbia, da Argentina e do Brasil todo, então, assim, é legal, é um momento que eu gosto de rever pessoas.


P/1 – Você está há dez anos, então?


R – Completei esse ano.


P/1 – Completou dez anos.


R – Meu primeiro decanato.


P/1 – Qual seria uma mudança que você viu nesses dez anos em relação ao trabalho que você faz, ou a própria White Martins na verdade, porque o Brasil muda muito, né? O governo...


R – A White tem uma coisa muito legal, é uma empresa inquieta pra caramba. É uma empresa que está toda hora se renovando, então não tem tédio na White Martins, quando você acha: “O negócio é vender oxigênio pro hospital.” Não, não é só isso. Então quando você acha que não tem mais o que inventar, eles inventam uma planta de GML pra colocar lá em Paulínia, que foi um negócio completamente fora da curva que a gente nunca tinha feito, quando você acha que a White, agora sim, que você vai descansar, ela entra no mercado de trabalho de gás natural veicular, então você começa a ter que entender e conviver com postos de abastecimento e combustíveis. Então nesses dez anos eu tive oportunidade de ver a White lavar roupa, fazer negócios em lavanderia, tive oportunidade de ver a White tratar efluentes, a gente pensa muito em gás, mas essa inquietude, ela traz essas coisas diferentes, vi a White tratar efluentes, vi a White no mercado de corte e solda, vi a White no mercado alimentício, sempre também com inovações, e hoje vejo a White sedenta por inovação, muito mais do que nesses dez anos, acho que ela continua com essa marca firme de não se conformar em ter a segurança daquilo que faz só na mão. Acho que essa ambição de novos mercados, novos produtos, novos testes, eu acho que essa consciência que a White tem de que só vai crescer nessa direção da inovação é muito legal pra quem está lá dentro, mesmo pro advogado, que a cada mercado é uma lei nova, é um público novo, é um consumidor diferente, então eu acho que o que eu vejo cada vez mais na White, é esse foco de: “Nós somos isso, mas podemos ser muito mais do que a gente é.” Como eu disse: “Ah, a gente fornece gás pra um hospital, indústria e tal, agora vamos tentar lavar roupa?” Algumas coisas dão certo e algumas coisas dão errado, mas a tentativa é legal.


P/1 – E na área de fertilizantes como é que está a coisa?


R – Não tenho conhecimentos, sei que a gente fornece gás pra esse mercado, mas a gente, que eu saiba, ainda não está lá dentro.


P/1 – Porque tem a questão da sustentabilidade que está muito forte hoje em dia, do meio ambiente.


R – Do meio ambiente, ah sim, isso é um foco que agora a empresa também vem dando, de você crescer de forma sustentável, a empresa no mundo inteiro, no mundo inteiro, então é um valor, hoje a sustentabilidade é um valor que influencia diretamente na credibilidade da empresa dentro e fora do Brasil que faz a ação descer ou subir, é uma preocupação. Agora a gente tem uma gerência de sustentabilidade, coisa que não existia, imagina, quando eu entrei, quando é que se falava nisso há dez anos? Não se falava, não se falava em preservar e ao mesmo tempo crescer, não se falava em economia de papel, hoje a gente imprime frente e verso, hoje a gente tem medição de quantas árvores você gastou no mês com a impressão de papel. Essa cultura de sustentabilidade, ela cada vez mais vem permeando o crescimento da White também e outra coisa que a gente tem que pontuar também da White Martins, eu acho que cada vez mais ela se preocupa com o social, com projetos, tem muito projeto social e ela trata isso numa agenda muito séria, tem um grupo de trabalho muito focado nisso e acredito piamente que ela não faz isso só pra sair bem na fita, acho que existe realmente uma vontade de ajudar.


P/1 – São duas perguntinhas ou três aqui, o que significa a White Martins completar 100 anos?


R – O que significa a White Martins completar 100 anos... Eu acho que significa pra White Martins? Virar uma página, virar uma página que foi, virar uma página não, enterrar um capítulo, iniciar o tomo dois e de muito sucesso, eu acho que foram 100 anos que a gente colecionou muito sucesso. E eu acho que virar esses 100 anos da White, eles viram no momento em que a empresa vai novamente surpreender. Acho que é isso, fechar um livro, um tomo, inaugurar outro com muita surpresa.


P/1 – Você pode imaginar alguma especificamente?


R – Eu acho que essas surpresas virão de novos negócios, de novos riscos que a empresa vai assumir ou vai optar por assumir nesse ano que entra, de colocar o pé em coisa que ela nunca fez. Então acho que quando a gente completa 100 anos, a gente já pode se dar esse direito de usar.


P/1 – E o legado, o maior legado da White Martins?


R – O maior legado ficou meio difícil.


P/1 – É uma pergunta difícil.


R – Num é? Todo mundo tem facilidade pra responder ou só eu que estou tendo dificuldade?


P/1 – Você e todo mundo tem facilidade pra responder.


R – É, que bom. Porque, eu acho que o legado da White, eu não sei se existe uma palavra, mas a White construiu uma parceria com indústria nacional muito sólida, muito sólida, a grande indústria do Brasil está com a White Martins como fornecedora, como parceira, como inovadora, então eu acho que o legado é esse. É um legado muito rico e na ajuda do crescimento, principalmente se você olhar nessa parte de siderurgia, o Brasil cresce por ali, e eu acho que a White está ajudando nesse crescimento, o legado é uma lição de como fazer a indústria crescer com uma parceria sólida e estamos aí pra o que der e vier, eu acho que a White é isso, um fornecedor pra o que der e vier, acho que é isso, não sei, talvez eu tenha fugido um pouco da resposta.


P/1 – Voltando a sua vida pessoal um pouco então, a gente já está terminando. Eu precisava saber um pouco, saindo da White, como é seu dia a dia, o que você faz nas suas horas de lazer?


R – Agora ficou mais fácil.


P/1 - Quantos filhos você tem e se é casada?


R – Tenho uma filha de seis anos, a Nina, uma flor, o amor da minha vida, deixei foto dela aí, sou separada do pai da Nina, mas sou muito amiga do pai da Nina, foi uma separação, se é que existe separação sem traumas, mas foi o menos traumático possível, a gente tem um relacionamento muito bom, eu sou corredora, adoro correr, então corro três vezes por semana, é o momento que eu trabalho a minha cabeça, que eu resolvo todos os meus fantasmas ali, nos meus oito quilômetros, além de correr, adoro cozinhar e fotografar, então são duas coisas, correr eu não diria que é uma paixão, mas é um vício e a cozinha e a fotografia, elas são paixões, é onde eu extravaso meu lado pisciano.


P/1 – Fotografia, paisagem...


R – É, paisagem também, mas eu gosto muito de objeto.


P/1 – Fotografa objeto?


R – Objetos em ângulos diferentes, as minhas fotografias são, claro que eu também fotografo momentos, mas quando eu paro pra brincar de fotografar é mais objetos.


P/1 – Qual foi o último objeto que você fotografou?


R – Foi um copo, uma taça de vinho que eu fotografei esse final de semana da minha amiga.


P/1 – E você fez a produção?


R – É porque essas coisas acontecem assim, aí eu olho e falo assim: “Nossa, daria uma foto linda.” Aí se eu estou com a máquina eu tiro, se eu não estou, eu vou lá, esses dias eu fui lá e peguei, eu falei: “Ah, isso está lindo.” Porque, sei lá, tinha uma luz bonita, tinha um resto de vinho, tinha não sei o que, aí eu fui lá e cliquei e está lá a foto bonita. E a minha casa é toda decorada por fotos, poucas paredes estão vazias, na cozinha, só na cozinha tem um monte, eu fico fotografando aspargo, fotografo maçã.


P/1 – Natureza morta.


R – É, natureza morta, mas assim eu gosto de fotografar, quando eu fotografo gente de brincadeira, eu gosto de pegar só os olhos, só a boca, é assim um pouco de brincar por aí. E aí é isso, minha rotina é essa, trabalho, corrida, gosto de receber amigos em casa pra cozinhar, e gosto de sair, sair pra show, vou no Rock in Rio amanhã.


P/1 – Vai no Rock in Rio.


R – E gosto de uma boa roda de boteco.


P/1 – Voltando a falar de conquista, estamos no finalzinho já. Quais foram as suas maiores conquistas ao longo desse tempo todo?


R – Na White?


P/1 – Da sua vida...


R – Ah, as minhas maiores conquistas.


P/1 – Conquista em geral, pessoal, com trabalho.


R – Eu acho que eu sou uma pessoa que tem dado certo na vida, vamos chamar assim, eu olho pra traz e eu acho que eu conquistei, primeiro eu conquistei a minha independência quando eu saí de casa com 17 anos e me virei super bem, segundo eu acho que eu conquistei uma outra independência quando eu vim pro Rio de Janeiro trabalhar na White, isso foi uma grande conquista pra mim. Dentro da White, minha grande conquista foi realmente ter conseguido o cargo de gerência, eu acho que foi bacana, foi um reconhecimento legal e a ele veio somado várias conquistas, cada vez que você faz um projeto legal e é reconhecido na White, como eu já fui algumas vezes, eu digo que é uma conquista, esse prêmio de final de ano, eu já ganhei três, sem querer jogar sardinha, mas tudo isso é bacana, é uma conquista, e agora, mais recentemente a conquista de ter ido pros Estados Unidos e de ter dado tudo certo de ter tido a coragem de enfrentar a diversidade lá com a minha filha pequena, isso tudo assim, eu considero conquista, e na minha vida pessoal, a minha grande conquista foi ter conseguido comprar meu apartamento no ano passado depois de muito tempo pagando aluguel eu e a Caixa Econômica Federal compramos um apartamento e aí eu estou ainda colhendo os louros dessa conquista, eu, a Caixa Econômica Federal e a White Martins.


P/1 – Você pretende continuar a estudar?


R – Eu pretendo continuar a estudar, mas eu pretendo continuar a estudar fora da caixa de Direito, eu tenho olhado alguns cursos pra fazer, mas a grande maioria deles não relacionados ao direito, alguns relacionados à atividade empresarial, marketing, um pouco relacionado à economia empresarial, alguma coisa relacionado à White Martins, mas não à carreira de Direito, acho que na carreira de Direito, talvez um dia eu me interesse em fazer alguma coisa, mas no momento não. E eu tenho vontade de estudar coisas que não tem nada haver com a White Martins também.


P/1 – Mas como especialização pra continuar a graduação, você chegou a fazer mestrado?


R – Eu fiz pós-graduação.


P/1 – Ah, você chegou a fazer até o pós-graduação?


R – É, como falei, fiz pós-graduação.


P/1 – Qual foi o título da sua pesquisa?


R – Eu fiz “A defesa no processo civil.”


P/1 – E do mestrado?


R – Não, mestrado eu não fiz.


P/1 – E o TCC?


R – O que é TCC?


P/1 – Trabalho de final de curso da graduação, vocês fazem?


R – Não, não fiz, na graduação não, em Belo Horizonte na época, o que você tinha que provar era só o estágio, nem monografia, você tinha que provar horas de estágio e a pós-graduação eu fiz já quando eu estava no tribunal e o tema era muito relacionado ao que eu fazia no tribunal, que era trabalhar com processo, então eram as formas de defesa de um réu num processo, essa foi a minha monografia que eu defendi e agora, o que eu pretendo aprimorar em termos profissionais são esses em foco empresarial, esse curso de organizações multi racionais e irracionais.


P/1 – Bom, para finalizar e não menos importante o que achou de ter participado?


R – Achei ótimo, achei... Não sabia o que iria esperar, assim, porque as coisas vieram assim: “Não, você vai participar de uma entrevista, eles vão te perguntar algumas coisinhas, não sei o quê.” E foi muito mais tranquilo do que eu imaginava, foi ótimo, espero que o material seja útil.


P/1 – Daniela, muito obrigada.


R – Vocês me deixaram muito à vontade.


P/1 – Valioso o seu depoimento, super importante.


R – Obrigada gente, espero que seja útil e depois vocês me dão um feedback, falou?


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