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História

Ensinando música para os jovens

História de: Jorge Adalberto Masera da Silva
Autor:
Publicado em: 15/03/2021

Sinopse

Nesta entrevista, Jorge Masera nos conta sobre sua infância e como se tornou instrutor de música no Exército, profissão que mantém até hoje.

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História completa

 

 

P/1 – Seu Jorge, para gente iniciar, eu vou pedir que o senhor se apresente, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Jorge Adalberto Masera da Silva. Sou natural de Santo Ângelo, do dia 24 de setembro de 1956.

 

P/1 – O senhor pode dizer o nome dos seus pais?

 

R – Aparício Valença da Silva e Terezinha de Jesus Masera da Silva.

 

P/1 – O que cada um fazia? Quais eram as atividades que eles exerciam?

 

R – A minha era do lar e o meu pai era ferroviário. Ele trabalhou por muito tempo na rede ferroviária e se aposentou na rede ferroviária federal antiga. 

A gente tem grande parte nessa vida ali com ele, participando de todos os momentos. Foram fatos que marcaram e ficaram na nossa lembrança, mesmo pequenos nós nunca esquecemos os bons momentos que vivenciamos. Eu inclusive queria ir para essa profissão, mas o meu pai achou que não era para mim. Tudo bem. Fui para o Exército Brasileiro, depois fiz concurso para músico, para integrante da banda de música do Exército, e fui para a reserva [com] trinta anos de serviço. Agora continuo esse meu trabalho na área da música, fazendo o que eu gosto.

 

P/1 – Nós vamos passar então por cada um desses momentos que o senhor foi pontuando para podermos nos aprofundar um pouco mais na sua história. Antes disso, eu queria saber se o senhor conhece a origem da sua família, da família da sua mãe, do seu pai, como eles se conheceram...

 

R – Minha avó eu conheci, mãe da minha mãe. Meu avô eu não conheci. Os meus avós, pais dos meus pais, eu conheci. O meu avô era ferroviário também e o meu pai só seguiu a profissão. Ele se aposentou na rede ferroviária também. 

Tem vários trechos, a jornada é muito extensa do trabalho que eles faziam. Meu finado avô faleceu aos 92 anos, ele sempre tinha algo para contar para gente, e não esquecemos nunca. Só nos sentimos determinados, de tão maravilhoso que foi esse trabalho deles [e] que é tão desvalorizado agora. Simplesmente terminou tudo, então é isso.

 

P/1 – Aproveitando essa sua deixa, o senhor se recorda de alguma das histórias que o seu avô paterno contava sobre a profissão, alguma história que tenha sido marcante?

 

R – Ah, ele nos contava quando se reunia com os netos. Parecia que a gente estava vivendo aqueles momentos, aquelas histórias deles, de viagens e tudo. Sempre manobrando os trens também, porque eles faziam isso, e às vezes não faziam certo, às vezes era feito certo e mesmo assim... "Olha, não era assim que era para ser feito o trem, completo o trem"… Isso aí ele estava sempre nos contando. O que mais encantava e preenchia a vida dele era o trabalho dele. 

E com o meu finado pai também era a mesma coisa, ele contava para nós. São lembranças que não se apagam nunca. A gente morava no recinto da estação férrea, próxima ali à Coluna Prestes, e o trem passava até ali. A gente morava e o trem passava a quase três metros da nossa casa. Passavam aqueles trens ali de noite, não tinham hora para chegar, de madrugada. Às vezes o pai estava viajando e chegava também nesses momentos, e daqui a pouco estava em casa com a gente. Graças a Deus ficava tudo bem. Ele viajava muito em cima daqueles vagões, enfrentando calor, frio e tempestade no serviço dele. Depois, ele foi subindo na profissão e foi trabalhando mais interno na estação de trem.

 

P/1 – A sua mãe e o seu pai se conheceram em Santo Ângelo? Como eles se conheceram? Eles vieram de que parte e de que regiões?

R – Eles se conheceram em Giruá e se casaram por lá mesmo. O pai da minha mãe veio da Alemanha e o meu pai é filho de africano, por isso eu saí meio cor de caramelo, como dizem. (risos) Eles se casaram em Giruá e eu já vim nascer aqui em Santo Ângelo. Eles vieram embora para cá depois e eu nasci aqui em Santo Ângelo.

 

P/1 – E Giruá é uma cidade próxima a Santo Ângelo? Eu pergunto porque também não conheço muito a geografia daí.

 

R – Ah, uns 34 quilômetros, bem próximo, sentido de quem vai para Santa Rosa. O trem ia daqui a Santa Rosa e de Santa Rosa voltava. Passava aqui, ia em Cruz Alta, Santa Maria… Fazia esse trecho. Meu pai viajava por todos esses lados. 

 

P/1 – O senhor tem irmãos?

 

R – Sou só eu e duas manas, só eu e duas irmãs.

 

P/1 – O senhor é o primeiro, segundo ou terceiro dos filhos?

 

R – Eu sou o nenê, como se diz.

 

P/1 – O caçula.

 

R – É, eu sou o caçula. Tem minha a mana mais velha, a do meio e eu. Três filhos só que eles tiveram.

 

P/1 – Jorge, você lembra como era a casa onde você passou a sua infância?

 

R – Lembro, lembro perfeitamente. Deve ter até hoje a casa ainda aqui perto, onde eu me criei, praticamente. Eu via o trem chegar, via o pai chegar ali e ia para a estação correndo esperá-lo para ajudar, ver como foi. Fazia aquilo ali, a ocupação que tinha era essa, mas era maravilhoso. A gente não esquece nunca aqueles momentos. 

Ele também era muito carinhoso com a gente. Quando ele não estava e voltava, nossa, parecia que era uma festa, pela ausência dele ficar aqueles dias… Era maravilhoso. 

 

P/1 – Jorge, como era essa casa onde você morou na sua infância?

 

R – Era uma casa simples, de madeira. Uma casa de madeira bem comum. Cada ferroviário tinha a sua casa e morava ali até se aposentar. Depois de se aposentar, tinha que entregar a casa. A gente morava ali ao lado dos trilhos, presenciando todos os acontecimentos que passavam na frente, aqueles trens com carga, tudo. Muito lindo!

 

P/1 – Então você está me descrevendo que era mais ou menos uma vila dos operários que trabalhavam na ferrovia.

 

R – Era tipo uma vila só de casas de ferroviários. Só os ferroviários que moravam ali.

 

P/1 – Qual é a sua lembrança da cidade de Santo Ângelo? A vila tinha suas características, mas enfim, como era o restante da cidade nesse momento?

 

R – Aqui onde é essa Receita Federal de Santo Ângelo tinha um depósito que era empregado na construção das linhas férreas, então os trens vinham até aqui, próximo da Coluna Prestes. Daqui eles voltavam para cruzar Santa Rosa, Ijuí… Isso aqui tudo era um depósito, eu me lembro. Tinha aquele espaço todo ali da rede ferroviária, várias linhas ali, porque os trens ficavam aqui e se preparavam para no outro dia seguir viagem de novo. Aqui eles faziam a volta, aquelas antigas marias-fumaças faziam a volta. Elas só tinham uma frente, não podiam… Essas locomotivas de hoje, as máquinas diesel como dizem, têm duas frentes. Então, a volta não tem problema, o maquinista… Fazia a volta assim com a maria-fumaça, sempre parava o trem e seguia de novo, carregado com esses dormentes para levar para outros lugares. Tinha uma estação de tratamento de dormentes para preparar a madeira para ser ocupada nas linhas férreas. Agora está tudo desativado, praticamente.

P/1 – Como era a vila ferroviária? Qual a lembrança que você tem da vila ferroviária nessa sua fase de infância?

 

R – Eram aquelas casas, uma ao lado da outra e do outro lado da linha também, porque passava a linha no meio. Os amigos, a gente se reunia. Era muito bacana a união que a gente tinha com os demais colegas, porque nós nos criamos juntos. Era muito linda a união da classe ferroviária também, eles eram muito unidos. Ficava sempre marcada alguma coisa entre eles, aqueles encontros. 

Meu pai era uma pessoa muito carismática, tinha amizades e relacionamentos que até hoje não me esqueço. Graças a Deus a gente gerou isso de bom, que ficou marcado nele. É isso aí.

 

P/1 – E você lembra de momentos que eram momentos em que a sua família toda se reunia, suas irmãs, suas manas, os seus pais? Em que momento se davam essas reuniões da família?

 

R – A gente era uma família pequena e muito unida. Sempre naquelas datas significativas, aniversário, Natal, Páscoa… Sempre reunidos. Nunca a gente se afastava, estávamos sempre próximos. A gente estava sempre comemorando. Aos poucos aquilo vai se terminando, parece que vai parando tudo. Maravilhoso! 

Eu fiquei sempre perto deles por causa disso, para cuidar deles depois, para quando eles fossem precisar. No Exército, eu poderia ser transferido para onde eu quisesse. Pelo conceito que a gente tinha, era só falar com o chefe lá e estava transferido, mas eu quis ficar perto deles para devolver aquilo que eles fizeram por mim quando eu era pequeno. Eles me criaram muito bem, então eu cuidei deles até as últimas horas. Fiz em vida para depois não ficar...

 

P/1 – Jorge, você se recorda das suas brincadeiras de infância? Quais eram as suas brincadeiras favoritas?

 

R – Futebol jogava pouco, mas sempre quis jogar. Nos trilhos também, a gente brincava, fazia aqueles carrinhos para andar em cima da linha ali. Aquela gurizada se reunia, aqueles colegas ali. Sempre tinha um que pensava um pouco mais, "vamos fazer assim", e daqui a pouco a gente estava em cima daqueles trilhos, andando cem ou duzentos metros com aqueles carrinhos. O pessoal ficava olhando: "Pô, mas que criatividade dessa gurizada fazendo aquilo ali." Daqui a pouco vinha o trem e tinha que sair fora. Era isso aí. 

E futebol também, que a gente gostava demais. Nosso tempo se ocupava bastante, mas eu não fui para esse lado do esporte, porque é muito curta a jornada. Chega uma certa idade e já tem que… Se não ocupar aquele tempo, aí não adianta. Se machuca… Então optei pela farda. Deu certo no Exército e fiquei ali. 

Não gostava de música, isso era a primeira coisa. Depois eu tive que aprender, no início, para poder ficar no Exército. Fiz o curso em Porto Alegre, fui aprovado e fui preencher a vaga na banda de música em Santo Ângelo. Ali fui para a reserva. Fiquei em Santa Maria, Cruz Alta e depois Santo Ângelo. Sempre perto dos meus pais, dando assistência a eles. 

 

P/1 – Jorge, você chegou a sonhar? Pelo que você fala, você visualizou a carreira de jogador de futebol. Você chegou a sonhar em jogar futebol?

 

R – Olha, eu cheguei a mandar uma vez uma carta para a direção do Inter, meu time preferido, pedindo uma camisa, uma meia, um calção do clube, e mandaram eu me dirigir ao cônsul do Colorado aqui em Santo Ângelo - o finado Eloi Pedraza, do Banco Sul Brasileiro, nunca esqueço. Fui com a minha mãe lá e ele me disse assim: "Olha, seu Jorge, eu recebi um comunicado aqui para fazer a sua inscrição para o senhor ir para a escolinha fazer um teste na escolinha do Inter em Porto Alegre."

Poxa, eu tinha doze ou treze anos naquela época, iria vir aqui para Porto Alegre como? Nunca mais apareci lá para falar com ele. Perdi uma oportunidade, quem sabe? Mas não me arrependo, estou bem graças a Deus. Se eu tivesse ido, hoje não estaria fazendo o que eu faço, nem iria me especializar no que estou fazendo, que é o que gosto. 

Gosto de ensinar, tenho paciência com os alunos que trabalho de várias idades da rede escolar. Se eu não tiver paciência, termino meu serviço. O filho vai dizer: "Pai, eu não vou lá. Aquele professor não tem paciência com a gente." É isso então, mas tudo bem, me sinto bem graças a Deus fazendo o que faço. E gosto, o que é o principal.

 

P/1 – Que bom. E uma coisa, eu ouvi algumas histórias que falam muito das brincadeiras na própria linha de trem. Os funcionários falavam alguma coisa? Eles davam bronca nas crianças por brincarem na linha de trem?

 

R – É, eles sempre ficavam vendo o perigo da gente brincando dentro dos vagões, passando em cima dos vagões, entrando nos vagões abertos que estavam ali para serem carregados para o outro dia, a gente correndo… Sempre tinha fiscalização, os guardas, como diziam, e eles sempre iam chamar a atenção da gente, no sentido de que era perigoso, de que a qualquer momento vinha o trem. Mas tudo bem, tudo ficou marcado. Eles falavam sempre na camaradagem. Eles nos conheciam, sabiam quem era filho de quem. [Era] muito bacana.

 

P/1 – E seu Jorge, qual é a sua primeira lembrança de escola?

 

R – De escola… Eu estudei no Colégio Gildo Castelarim. Fiz até o terceiro ano e depois fui estudar no Colégio Onofre Pires, em Santo Ângelo, até a quinta série. Dali, fui para o colégio Getúlio Vargas - Colégio Estadual Presidente Getúlio Vargas. Dali, fui para o Missões e fui para o Exército. 

Não fiz nenhum curso superior. Se eu tivesse feito um curso superior, hoje eu não estaria fazendo o que faço, porque não teria ficado no Exército e iria perder a oportunidade. Eu conversei com meus pais e optei: "Eu vou deixar os estudos e vou seguir a carreira militar, que é o que quero." E foi o que deu certo. Não me arrependo de não ter feito um curso superior, porque hoje têm vários colegas com curso superior que não têm um emprego e só sabem fazer aquilo ali. 

Graças a Deus eu me dediquei à música, porque eu não sabia nada e não gostava. Comecei a gostar. Hoje o que faço… Vou lhe dizer, não tenho faculdade de Música, mas só vendo aqueles meus mestres que tinha de banda, os regentes e tudo… Eu coordeno as bandas. Na frente de uma banda, a gente faz aquilo ali brincando. É maravilhoso, gratificante.

 

P/1 – A gente vai entrar nessa parte da música na sua vida, mas eu queria perguntar sobre essa primeira escola que o senhor estudou entre a primeira e a terceira série. Era uma escola perto da sua casa?

 

R – Era bem perto, [a] uns duzentos metros de casa. Era um colégio de vila, mas maravilhoso. As professoras… Eu era um pouco quieto por causa da idade, então elas falavam: "Você tem que falar mais, tem que conversar mais."  Eu ficava mais observando. Observando a gente aprende. Eu ficava só olhando o que eles faziam,  só observando as coisas boas e ruins, para não fazer coisa errada. 

Eu tinha um pouco de medo dos professores, mas tudo bem. Tinha professores maravilhosos que entendiam o meu lado, viam como a gente era. 

 

P/1 – Falando em professor e professora, teve professores que foram marcantes na sua trajetória em termos de ensinamentos ou mesmo de presença na sua vida? 

 

R – Teve, tive vários professores que até hoje a gente encontra. "Oi, professor, como vai o senhor?" "Como vai a senhora?" E eles com a maior satisfação, porque naquele tempo que passamos ali nós sempre respeitamos, nunca demos um trabalhão para eles, de chamar atenção. Eles guardam a imagem da gente com carinho. Tem professores que até hoje eu encontro e param para conversar conosco. Você não esquece nunca, não tem como esquecer o que aprendemos com eles. 

 

P/1 – Tem algum ou alguma que foi marcante em particular para você, Jorge?

 

R – Tinha um professor, agora ele é professor universitário, professor Álvaro. Não esqueço dele. O pessoal sempre reclamava das notas dele. Minhas notas com ele eram sempre seis ou 6,5. Ele dizia que essa nota na matéria dele era considerada dez porque não era fácil, então eu tinha que agradecer, porque as notas que eu tirava eram maravilhosas. 

Eu sempre gostei também do Pertuguês. Depois eu fiz curso de Português, gostava muito, e me especializei; me marcou muito, então Português domino bem. Apesar que agora muita coisa mudou desde que paramos de estudar, a ortografia mudou toda, a acentuação… Mas as regrinhas que aprendemos a gente não esquece mais. Foi esse professor que me marcou mesmo, professor Álvaro.

 

P/1 – Jorge, você falou que você era uma criança mais observadora e que ficava mais quieta. Como era o seu relacionamento com os demais colegas? Essa personalidade se manteve depois, quando você foi crescendo e avançando na escola?

 

R – Sim, eu era sempre o mais reservado. Conversava menos, escutava mais e não queria acompanhar certas brincadeiras, para não chamarem [a minha] atenção. Eu tinha muito medo de chamarem a atenção, principalmente na classe. 

Eu me dava muito bem com todos os alunos, os colegas, me relacionava bem, mas sempre na minha. Não exagerava em nada, sempre com cautela em tudo. Participava sempre, era escolhido o líder da aula às vezes por ser daquela maneira, um exemplo. Mas a gente não podia controlar tudo, a turma era de trinta e poucos, quarenta alunos. Não era fácil de levar do meu jeito. (risos)

 

P/1 – Já entrando na sua juventude e adolescência, o que você gostava de fazer? Quais eram as coisas que você fazia pela cidade?

 

R – Eu era muito limitado a ficar em casa, saía o necessário. Cedo eu comecei a trabalhar, com treze anos. Saí para o Exército e gostava do que fazia também. Eu comecei a trabalhar em uma oficina, na limpeza dos carros. Lavava carro, limpava carro… Trabalhei seis meses e tinha uma profissão. Daí, fui para a pintura de carros, com o que trabalhei por quase quatro anos; saí para o Exército e ali fiquei. 

A gente não era de estar com os colegas na rua. Nossos pais nos levavam de um jeito bem sério, muito mais em casa, porque as companhias, sabe como é. Quando vê, já… E hoje é pior ainda.

 

P/1 – Você falou que começou a trabalhar aos treze anos nessa agência de carros, oficina. Você se recorda do que você fez com o primeiro salário que ganhou?

 

R – Comprei uma bicicleta. (risos) Não sabia andar, mas comprei. Comprei uma bicicleta com o primeiro salário, nunca esqueço. Abri um crediário com o meu nome mesmo, porque eu tinha carteira profissional. Logo me desfiz, porque prefiro andar a pé. Bicicleta para mim não tem jeito, não me acostumo a gostar. Ando a pé e não ando de bicicleta, e de moto menos ainda. 

 

P/1 – Você falou que seu pai trabalhou a vida inteira na ferrovia. Você lembra da primeira vez que você viajou, fez uma viagem de trem?

 

R – Os filhos dos ferroviários, naquela época, tinham passe livre. Meu pai estava com trinta dias de férias e a família tinha passe livre. A gente ia daqui a Porto Alegre naqueles trens passageiros, caminhávamos entre um vagão e outro, voltávamos até cansar e cair no sono. A gente saía em um dia e chegava no outro dia em Porto Alegre - isso quando ia tudo bem, porque quando acontecia um acidente, atrasava e demorava mais para chegar, mas para gente estava bom, porque a gente aproveitava mais o passeio. 

Nós tínhamos passe livre e viajávamos muito. Chegávamos em um dia e saíamos no outro para curtir mesmo - os filhos menores, no caso. Mas era maravilhoso. Aqueles trens de passageiros que tinham aqui...

 

P/1 – Você falou que o trem ia até Porto Alegre. Como era fazer essa viagem saindo de Santo Ângelo em uma viagem de um dia para chegar em Porto Alegre, na capital, uma cidade muito diferente de Santo Ângelo?

 

R – A gente saía daqui de Santo Ângelo cedo para chegar próximo do meio-dia em Cruz Alta, porque ele ia parando, respeitando os horários dos trens também, das estações. Chegava em Cruz Alta e fazia baldeação, pegava o trem que ia de Passo Fundo para Santa Maria. Em Santa Maria fazia outra baldeação, que ia de Santa Maria a Porto Alegre. Tinha outro que era de Passo Fundo, continuava para a fronteira, Cacique, aquela região ali. A gente fazia Cruz Alta e Santa Maria, essas duas baldeações para chegar em Porto Alegre no outro dia. Mas era maravilhoso ficar esperando o outro trem chegar na estação lá. Era como se fosse hoje uma estação rodoviária. Era tão maravilhosa a opção que o pessoal tinha que andar de trem. Era muito procurado, muito requisitado, e o custo também da passagem, para quem iria pagar, era… Então deixavam de ir de ônibus para ir de trem. 

Tinha um vagão especial que servia janta, almoço, lanche. O pai tinha que ir preparado para fazer aqueles lanches. A gente não saía daquele vagão, só queria lanche. O pai dizia: "Dá uma diminuída aí, que tem a volta depois." 

Naquele tempo era tudo maravilhoso, eu e minhas duas manas, e o pai e a mãe. E levávamos de casa também o alimento, porque não dava para gastar muito.

P/1 – Então era uma viagem de toda a família. Chegando em Porto Alegre, vocês passavam um período lá, ficavam?

 

R – Tínhamos os familiares, então eles pegavam a gente na ferroviária. Naquela época, até o bonde existia lá. 

Esses dias estava tendo uma matéria desses bondes de Porto Alegre. Naquela época, era muito lindo ver aqueles bondes. A gente pegava o bonde ali, ia para o bairro que tinha que ir. 

A família da minha mãe era toda de Porto Alegre. A gente aproveitava, passava dias maravilhosos lá, mas com vontade de embarcar de novo para voltar, porque a viagem de trem era maravilhosa. 

 

P/1 – Dessa viagem, desses trechos, tinha algum trecho do qual você se lembre que era um trecho mais marcante por ter uma paisagem mais bonita ou porque tinha ali um percurso que era mais tenso?

 

R – A Serra de Santa Maria. Primeiro, aqui perto, a ponte entre Ijuí e Santo Ângelo, uma ponte ferroviária ali muito linda. Passa o rio Ijuí. E em Santa Maria, a serra. O trem vai costeando toda a serra, a linha férrea, então é muito lindo ver aquelas paisagens e o trem só fazendo o contorno da linha. Era muito lindo de ver. A gente se encantava, não sabia para que lado olhava. Era um lado lindo, o outro também, então… 

Às vezes aconteciam também acidentes nesses lugares e demorava mais para ser liberada a linha. Tendo em vista os locais, o acesso para o socorro chegar, ficava mais difícil, mas passava aquilo ali e ia para outra. O que marcava mais era essa serra, muito linda. 

 

P/1 – Dessas viagens que o senhor teve a oportunidade de fazer em família, teve alguma delas que foi marcante por ter acontecido alguma situação?

 

R – Deixa eu ver. Uma vez teve um acidente que aconteceu perto de Cruz Alta. A gente estava indo de trem e quando viu, a máquina saiu dos trilhos. O trem continuou e o pessoal da manutenção ficou puxando os freios para o trem parar. 

O pessoal falando: "Olha a máquina virada ali." Era a máquina que ia conduzir o trem que nos levava. Isso marcou, porque o pessoal estava todo encantado, olhando a máquina, e era a máquina que estava levando o nosso trem. Isso me marcou bastante, eu conto sempre para o pessoal.

 

P/1 – Qual foi a sua sensação ao ver que a máquina do trem onde o senhor estava, estava fora do trilho? Seu pais em algum momento também, como reagiram?

 

R – A primeira coisa foi meu pai querer ajudar, ele queria fazer alguma coisa para segurar o trem, porque ele entendia. Estava de férias, mas não deixava de ser um profissional que exercia sua função. Foi também socorrer os colegas dele para segurar o trem, mas logo conseguiram fazer parar o trem. Não era muito grande, o peso não era tanto. A carga que às vezes conforme tinha aqueles vagões carregados com soja, os armazéns daqui, aí que pesava mais para segurar. Ficou tudo bem, era pequeno. Como já tinha acontecido também, não adiantava querer...

 

P/1 – Jorge, você trabalhava, estudava e decidiu fazer carreira militar. Como foi essa tomada de decisão? Quando você percebeu que queria seguir a carreira militar?

 

R – Eu trabalhava na agência e estava bem ali. Meus patrões queriam impedir que eu seguisse, porque eu era bom funcionário e estava bem na profissão. Eles faziam tudo que era proposta para eu não sair dali, mas eu disse: "Eu quero ir, quero ver como é." 

Fui um ano, fui ficando e gostando. Só que depois, naquela época, para eu ficar no Exército, só através da música ou na área da saúde. Na área da saúde, não, aí eu optei pela música. Consegui com um chefe direto meu em Porto Alegre ficar em Cruz Alta à disposição da banda de música para aprender música lá e fazer o concurso. Consegui, inclusive coloquei o nome de um colega meu e eles autorizaram os dois, porque depois iam formar a banda em Santo Ângelo.

Chegamos em Cruz Alta e um sargento… A banda não estava, tinha ido tocar fora. O sargento perguntou: "O que vocês vieram fazer aqui?". Nós fomos nos apresentar, ele era sargento e nós éramos os cabos na época. "Nós viemos para cá para estudar para prestar o concurso para música." "Você sabe alguma coisa?"  "Não, eu quero aprender." "Se você não sabe, o que quer aqui então?" Eu só não virei as costas e voltei porque eu seria prejudicado. 

Eu não faço isso para um aluno meu nunca. Se ele não sabe, eu vou ensiná-lo. Depois, aquele sargento foi indicado para me preparar para o concurso que eu fui fazer em Porto Alegre. Nunca mais eu o localizei para agradecê-lo, porque o que faço hoje eu devo a ele. Comecei a gostar de música, me interessar, fui para a banda de música, e aquilo ali me completou, me realizou. 

É interessante, a música hoje para mim é… Não sou um mestre, mas alguma coisa a gente faz, chama atenção.  

 

P/1 – Jorge, como foi essa identificação? Quando você foi percebendo esse interesse pela música? Como você foi desenvolvendo também o seu gosto musical? Claro que você foi aprendendo e fazendo as aulas, mas como você por conta própria foi desenvolvendo seu gosto musical?

 

R – A gente chegou lá em Cruz Alta e tinham vários colegas ali estudando. Tinha esse sargento que tomava as lições de nós e sempre dizia assim: "Olha, esse pessoal que chegou de Santo Ângelo” - que éramos eu e meu colega -  “daqui a uns dias estão com as lições a frente de vocês, porque vocês não querem nada com nada." Aquilo ali foi nos incentivando e me despertando aquela vontade, aquele interesse, dando aquele valor à música. 

Hoje o pessoal vê uma partitura de música e diz: "Isso eu não estudo, isso eu não aprendo nunca." Aprende, é só querer, porque eu aprendi e não sabia nada também. Ninguém nasce sabendo, é o que digo aos meus alunos, e eles dizem: "É mesmo, professor, o senhor tem razão." Eu trabalho com eles assim também, com paciência. Não é um caminho, é por outro, e em um dos dois caminhos eles vão me dar um retorno. Quando for ver estão tocando, fazendo o que eu faço. 

Isso também despertou bastante interesse para ir cada vez mais. Depois, eles não queriam me liberar de Cruz Alta para vir para Santo Ângelo para preencher vaga aqui nessa banda, mas o comando daqui me trouxe, então tive que obedecer.

 

P/1 – Qual foi o primeiro instrumento que você aprendeu a tocar? Como é que foi a experiência de fazer parte de uma banda militar?

 

R – Eu comecei a  tocar o instrumento tarol; é barulhento ele, caixa ou tarol. Tudo aquilo ali, o tarol, o bumbo, o prato, tudo é dentro das partituras, tem que trocar lendo; tudo ali tem a partitura para o instrumento ser executado. Eu fiquei: "Poxa, como vou aprender isso aí?" Eu dominava bem, fui daqui quase tocando alguma coisa. 

[Quando] cheguei lá, tinha um sargento muito fera, muito bom instrumentista e a gente passava a tarde ali. "Se chegar lá e fizer isso, você estará aprovado no concurso." Poxa, aquilo fazia a gente crescer, dava moral. 

Depois comecei a clarinete, que não era o instrumento que eu queria; depois comecei no trompete. O trompete eu toco até hoje. Já toquei em alguns musicais,  tenho o instrumento em casa. Tem que ter as letras para tirar as músicas, depois distribuir para os instrumentos para levar para a banda na qual eu trabalho. Toco trompete, dominei mesmo; o mais difícil foi o que mais me chamou atenção para tocar.

 

P/1 – E a banda fazia apresentações, viajava também para cidades para fazer apresentações?

 

R – A banda do quartel que eu participava?

 

P/1 – Isso.

 

R – A gente fazia, cobria várias cidades com apresentações. [Em] aniversário do município, desfile, pediam para a banda participar de um evento e a banda ia lá fazer uma apresentação, abertura dessas feiras… De tudo a gente participava. 

 

P/1 – Como era conciliar uma rotina militar com o aprendizado, a formação de músico?

 

R – Dentro daquela rotina, daqueles trabalhos que a gente fazia, a gente ia aperfeiçoando. A gente ia para fazer apresentação, ia embora e no outro dia estava na banda para estudo, para lições e formatura, apresentações, desfiles militares, tudo. Desse jeito a gente conciliava.

 

P/1 – Quanto tempo você permaneceu em Cruz Alta antes de voltar para Santo Ângelo?

 

R – Eu fui em março para Cruz Alta e em novembro fui fazer as provas para Porto Alegre. Passei e em dezembro me recolheram para Santo Ângelo de novo, porque iriam formar uma banda aqui. 

Em janeiro, eu fui licenciado do Exército, porque venceu o meu tempo. Eu fiquei em janeiro, fevereiro, março e em maio eu fui incluído na banda de música. Aconteceu isso comigo. Eles não podiam ter me licenciado - eu era concursado para músico - enquanto não houvesse o resultado, mas me licenciaram e tudo bem. Veio o resultado, fui aprovado e fui chamado. Prestei os testes de aptidão física e depois fui incluído novamente. 

 

P/1 – E quanto tempo o senhor ficou na banda do quartel de Santo Ângelo?

 

R – Eu fiquei cinco anos na tropa. Depois, eu fui para Cruz Alta e fiquei quase um ano lá. Depois, fiquei dois anos em Santa Maria e voltei para cá. Consegui voltar para cá e não procurei sair mais. Em cada lugar a gente aprendeu um pouco. A música é assim, não tem fim, a gente sempre está aprendendo.

 

P/1 – Quando foi que o senhor começou a fazer o movimento de… Alguém que aprendeu a transmitir o conhecimento e dar aulas de música? Como foi esse processo?

 

R – As prefeituras de Santo Ângelo, Guarani, Sete de Setembro e aqui mesmo pediram um instrutor para montar as bandas escolares e eu sempre era voluntário, sempre queria participar. O mestre da banda avisava que tinha um integrante que queria assumir um compromisso com as bandas. Eu era liberado, fazia o expediente de manhã e tarde e ficava nas escolas, preparando os alunos da rede escolar para desfiles e eventos assim. Em cada lugar, ia descobrindo gente. "Eu quero tal instrutor, o alunos querem que ele venha ensinar a banda aqui." 

A gente às vezes trabalhava em vários lugares, porque pela maneira que a gente conduzia eles… Se não fosse a minha pessoa para ensinar a banda, não tinha banda, porque eles não queriam outro instrutor, porque eu tinha aquele jeito, aquela mania de ensiná-los e de transmitir. Eles aprendiam brincando, comigo aprendem brincando e quando vão ver, estão tocando. 

Tem instrutor que sabe para si, mas não sabe transmitir o que ele sabe. É um profissional para ele. A gente onde vai, deixa essa marca: "Tem que ser esse professor, ou então não tem banda.” Isso é gratificante para gente, para os próprios pais dos alunos que vêm conversando com a gente. “Meu filho mudou completamente depois que foi para a banda", porque eu trabalho na área musical para disciplinar também. Para estar na minha banda, ele tem que ter disciplina, ou então não fica. Eu perco aluno, mas não abro mão da parte disciplinar. Ele tem que ser formado por esses dois lados: musical e disciplinar. "O meu filho mudou em casa", "a minha filha mudou em casa". A gente preza em primeiro lugar o respeito e educação com eles, e isso é o que marca. 

 

P/1 – Você foi me falando muito de encontrar um lugar e um prazer na prática de professor, de educador. Você estava falando agora algo que me chamou muita atenção, que é que uma das suas características é ensinar brincando, e quando vê, já estão aprendendo na brincadeira. Você pode descrever como é um pouco dessa didática de ensinar brincando?

 

R – É sempre mostrar para eles que tudo é fácil. Não coloque palavras difíceis no meio. "Eu não vou conseguir." Consegue, é só querer, só ter um pouquinho de vontade. "Vamos fazer assim e assim que você vai conseguir." O aluno se dedica e ele mesmo fica… Como vou lhe dizer? Fica encantado com ele mesmo, de como ele conseguiu, porque têm professores que falam "você não vai conseguir, isso não é para você". Não, não é assim. Tem alguns que tem facilidade e tem outros que tem dificuldade, mas nenhum tem que ficar nessa de que não vai aprender. Não aprende conforme o instrutor. 

Eu me aperfeiçoei assim, dessa maneira; não tem aluno que não aprende comigo. Inclusive veio uma professora e falou comigo: "Esse aluno aqui é especial, traz ele aqui que vamos trabalhar com ele". Primeiro eu conversei com toda a banda: "Esse aluno é como nós e nós vamos ajudá-lo, porque ele tem tudo que a gente tem. Ele é inteligente. Nada de menosprezar ele." Esse aluno, dali a uns dias, estava surpreendendo. A professora veio falar comigo que no colégio as notas do guri mudaram depois que começou a vir na banda. Isso é maravilhoso da gente ver.

Todos somos iguais. Se um tem mais facilidade, vamos ajudar o outro que tem um pouquinho mais de dificuldade de aprender, mas não aprende quem não quer. É assim que eu trabalho. Nada de chamar a atenção do aluno, só incentivar e estimular, nada de pisar em cima. O aluno vai estar sempre ali comigo. Se não, vai chegar e dizer: "Pai, eu vou lá e o professor quer que eu toque como ele." 

Não tem como. São anos para gente ir se aperfeiçoando, então como vou querer cobrar dele em um dia que ele vai ali aprender? É assim que trabalhamos e onde vamos é muito assim… A administração nos apoia por conta dessa parte que eu trabalho, a parte disciplinar. Não é só a área da música, é a parte disciplinar. Os alunos chegam nas repartições depois, vão na secretaria ou na sala da direção e "com licença", "bom dia", "boa tarde". Não é chegar e sair, e o diretor ou diretora nem ver quem está ali. 

"Seus alunos chegam lá, pedem licença", é isso que passo para eles. Tempo a gente tem para fazer, é só querer. E eu gosto, eu sou assim, então quero que eles sejam assim também, se formem assim. 

Têm alunos que hoje já são… Têm dois da banda militar aqui e eu formei lá. Eu prometi: "Eu vou fazer a ponte, um esforço para te colocar na banda do Exército", e está tocando na banda do Exército já. Prometi e cumpri, agora ele me deu esse retorno, tem que estudar um pouquinho. Agora é com ele, só depende dele.

 

P/1 – Jorge, há quanto tempo você dá aula de música?

 

R – Olha, eu vou lhe dizer, eu me formei em 1980. Fiz concurso, fui aprovado, vim para Santo Ângelo e logo comecei aqui nas escolas. O pessoal do interior foi me descobrindo e foram me chamando. Aqui em Santo Ângelo eu só não trabalhei em um colégio e não sei o porquê, nunca me convidaram para trabalhar naquele colégio. Nos outros colégios, em todos eu trabalhei em Santo Ângelo. Mas lá a formação das alunas é outra, a cultura é outra, a formação é outra; eu posso fazer o trabalho da minha maneira. Aqui os alunos querem da maneira deles, e não tem como. Lá a gente tem um retorno deles em tudo, musical, disciplinar, e tem que ser assim. Aqui não dá para mostrarmos o caminho certo, porque eles dizem: "Não, tem que ser assim."

 

P/1 – Como foi perceber essa transformação dessa criança mais reservada e observadora para esse professor que está ali engajado com os alunos e sempre estimulando? Como foi esse processo de transformação?

 

R – Pois é. Geralmente, aquele quieto e reservado… Tudo aquilo ele vai desenvolver e empregar no futuro. Aquele que hoje agita, não aprende e no futuro não sabe nada para transmitir. Então eu observava, via como era, como não era e ia fazendo assim, seguindo essa conduta. 

Eu fui para o Exército já com uma formação. Cheguei lá e só aperfeiçoei, foi uma extensão da formação que eu tive em casa, que meus pais me deram. Meu pai estava sempre ali com a gente na educação - "sim, senhor", "não, senhor", "obrigado". O Exército só foi essa extensão. Eu não vou deixar isso, porque foram trinta anos que fiquei ali. 

Os alunos vão trabalhar comigo ali [pensando:] "O que esse cara aprendeu no Exército em trinta anos?" Tem que mostrar alguma coisa. O aluno chega no Exército já sabendo marchar, a parte disciplinar, sabendo tudo - "sim, senhor", "não, senhor", "com licença", "obrigado", a chegar ali fazendo isso. E isso me levou a essa maneira de dialogar com eles, conversar. 

Eu era reservado, hoje não tenho mais nada disso. Eu me comunico, converso com eles. Se tiver que agradecer em público, a gente agradece; faço abertura de eventos, às vezes, "a banda está aqui presente". Eu brinco e atraio eles para prendê-los, para assistir a apresentação da banda. Não perde nada de musicalidade com isso. O pessoal diz: "Esse cara aí gosta do que faz."

 

P/1 – Eu ia fazer umas perguntas que são de uma parte mais temática do roteiro, que é para explorar um pouco mais da sua relação, da relação da sua família com a ferrovia. Eu queria que o senhor falasse qual foi a sua relação com a ferrovia e a estação ferroviária de Santo Ângelo. 

 

R – A gente estava sempre ali, na estação de trem. O chefe da estação era uma pessoa muito bem formada, então nos dava atenção. Nós chegávamos ali, ele dava aquela atenção especial para gente, deixava tudo de lado e vinha conversar; o serviço dele não atrapalhava em nada as pessoas que chegavam ali. Era uma pessoa bem formada e maravilhosa que trabalhava naquele serviço; era o agente de estação, que chamavam. Depois, meu pai foi trabalhar mais próximo dele, e cada vez se aproximava mais esse relacionamento que ele tinha com a gente. 

Aqui, a estação de trem era um lugar maravilhoso, de respeito. Pena que hoje a gente não tenha mais, tudo foi terminando e fica a lembrança daqueles que conheceram, que viveram aqueles momentos. Mas era muito lindo, maravilhoso.

 

P/1 – E o senhor falou que a relação da sua família é bem intensa com a ferrovia, que vem desde o seu avô, e seu pai também se aposentou.

 

R – O meu cunhado também era ferroviário. 

 

P/1 – Eu ia perguntar quais foram as ocupações que seu pai e seu avô tiveram na ferrovia.

 

R – O meu avô era o que chamavam de manobrista guarda-chave. Recebia os trens, manobrava e preparava os vagões para continuar a viagem. 

O meu finado pai era… Deixa só eu me lembrar. Guarda-freio, que diziam. Ele viajava nos vagões, às vezes em cima dos vagões, e em qualquer acontecimento ele era o responsável por segurar o freio. O trem começava a disparar às vezes, então existia essa função aí. Não tinha chuva, não tinha sol, estava lá enfrentando frio e tudo em cima dos vagões às vezes. Não tinha carro de vagão aberto para se deslocarem, então eles tinham que ir em cima. 

Depois ele foi ser auxiliar de conferente. Depois, começou a trabalhar no  movimento, como diziam, licenciamento dos trens, se comunicava com outras cidades para licenciar e ver se o trem podia seguir viagem, ou tinha que esperar outro chegar naquele local e liberar outra linha para liberar o trem seguinte. Foi aí que ele terminou a sua função na rede, foi como auxiliar de conferente.

 

P/1 – Nessa função que foi a primeira do seu pai, o que ele falava desse trabalho de guarda-freio, de ter que ficar muitas vezes no alto dos vagões, tendo que se deslocar andando pelos vagões? É isso?

 

R – Sim. Às vezes ele contava que o trem começava a querer disparar, ele tinha que correr e tentar segurar o freio daqueles vagões. Quanto mais próximo da locomotiva, melhor. Tinha que pular de um vagão para o outro, e aí é que estava o perigo à noite; se pisasse mal ali, já viu. Ele contava isso para nós. 

Chuva tinha, mas Deus protegia. A gente só ficava pedindo que trouxesse ele de volta para casa, porque era um serviço bem delicado, tinha que gostar. Depois ele foi crescendo dentro da função, foi fazendo as viagens, e foram mudando já também as viagens. Tinha um vagão especial para esse pessoal, eles estavam no último vagão do trem com essa finalidade de observar o que estava acontecendo, entrar em contato com o pessoal da máquina, os maquinistas, para conduzir o trem.

 

P/1 – Era uma rotina em que se viajava muito?

 

R – Viajava muito. Chegava às vezes de madrugada e no raio do dia já estava saindo, ou no final da tarde. Quando menos esperava, era chamado para ir de novo. Às vezes um colega não comparecia por um motivo de doença qualquer, então descansava tantas horas, já tinha condições e podia ir de novo. 

Ele era visita em casa, às vezes nós o víamos pouco - chegava de noite e saía de noite. A gente acordava e a mãe dizia: "Seu pai já veio e já saiu de novo." Eu era pequeno na época.

 

P/1 – E ele ficou muito tempo nessa função, até começar a fazer os serviços mais internos e administrativos?

 

R – Ele ficou um tempo, porque depois foi mudando. Depois não tinha mais esse pessoal que viajava com essa função nos trens. Só no último vagão tinha uma bandeirinha indicativa vermelha ou amarela de que aquele era o último vagão. Se em um determinado lugar passava um trem e aquela bandeirinha não estava ali, era porque o vagão tinha ficado para trás - alguma coisa tinha acontecido, tinha acontecido um acidente. Se não, eles olhavam: "O trem está completo." Não tinha mais eles nessa função e ele exercia essa função de conferente de movimento de trens. 

Tinha aqueles uniformes, aquele quepe lindo. Isso encantava a gente. Eu queria demais seguir a profissão dele, mas ele achou que não era para mim. Até hoje eu ainda tenho vontade de dirigir uma locomotiva. Isso é o meu sonho ainda, mas a idade vai chegando e tudo vai mudando.

P/1 – E como era esse uniforme que o seu pai usava? O senhor descreveu o quepe, mas o senhor pode descrever...

 

R – Tinha o uniforme azul marinho, tipo uma camiseta, uma calça azul marinho, um botão dourado que fechava assim e aquele quepe. "Viação Férrea Rio Grande do Sul", dizia no quepe dele. 

O agente tinha um quepe vermelho, que era para identificar. Era muito lindo, a pessoa que vestia aquele uniforme se orgulhava. O meu pai, com aquele uniforme, parece que crescia, ele gostava da função, do trabalho dele. Depois foi caindo, o pessoal trabalhava de qualquer jeito e não tinha cobrança, mas tinha aquele uniforme naquela época. Os ferroviários eram identificados por aquele uniforme.

 

P/1 – Por que seu pai não apoiou ou foi contrário à sua vontade de também querer ser ferroviário?

 

R – Isso eu queria saber, porque ele não queria que eu fosse. Eu gostava tanto, queria demais. 

Ele dizia: "Ah, filho, isso não é para ti." Acho que pelo que ele passou, quem sabe? Em cima daqueles trens, pelo passado dele… Acho que deve ser por isso. Nenhum pai quer o pior, quer sempre o melhor para o filho. Quem sabe foi por isso que ele não queria que eu fosse? 

Depois, para o Exército eles não queriam que eu fosse, porque era filho único, mas eu disse: "Não, agora eu quero ir. Agora vai ter que me desculpar, mas quero servir." Depois era a maior alegria para ele, o maior orgulho me ver fardado. Ele não pôde servir, não serviu, então ele queria que eu ficasse lá e deu certo.

 

P/1 – Então ele nunca falou diretamente o motivo, ele só dizia que não aconselhava que você seguisse a carreira? 

 

R – Falava que tinham outras opções que eu podia seguir, só isso que ele me dizia.

 

P/1 – O senhor falou um pouco antes na entrevista que os ferroviários eram uma classe muito unida. O que o senhor se recorda dessa vida e das atividades desenvolvidas pela classe de ferroviários, de associações, de eventos que envolviam também a cidade?

 

R – Eles tinham uma cooperativa em Cruz Alta dos ferroviários. Todo final de mês, aquele ferroviário que tinha interesse entrava em contato com a cooperativa e eles mandavam aquelas bolsas de alimento, arroz, feijão, tudo. Tinha essa cooperativa que era especial para os ferroviários, aquele preço especial era só para eles, e depois era descontado na folha. Tinha essa cooperativa lá, a Associação de Ferroviários de Porto Alegre, que cuidava desse lado dele, e aqui em Santo Ângelo eles eram muito unidos, estavam sempre próximos uns dos outros. Eles sempre faziam eventos e confraternizações entre eles, para contar as histórias do que acontecia nas viagens, no dia a dia. A gente às vezes participava junto e estava lá, sempre escutando.

 

P/1 – Como foi crescer em um reduto? O senhor falou da vila ferroviária. Como foi crescer, passar a infância e a adolescência junto com a sua família na vila ferroviária?

 

R – Foi maravilhoso. A gente ficava restrito às brincadeiras por conta do espaço onde morávamos. Tinha os trilhos, e o campo para nós brincarmos era mais retirado, então ficávamos mais no pátio, com os colegas do lado brincando. Estávamos sempre juntos. 

A nossa infância foi marcante, só que não podia sair para longe, porque os próprios pais não permitiam que a gente se afastasse muito daquele convívio ali.

 

P/1 – Para o senhor que é natural, nasceu e viveu até hoje em Santo Ângelo, o que a ferrovia trouxe para a cidade?

 

R – A ferrovia trouxe muitas lembranças, coisas maravilhosas que tinham que existir até hoje. 

Tudo era transportado pela ferrovia, não tinha custo nenhum. Hoje, para transportar uma carga, uma carreta ou caminhão, olha a despesa que tem. Quantos vagões a ferrovia transportava para a cidade, então não tinha despesa nenhuma, só lucros. Foi terminando, se apagando isso, e a cidade no fim vai parando, porque quanta coisa maravilhosa era transportada. 

O trem passageiro era também uma coisa interessantíssima; a gente chamava de trem minuano, que ia daqui à Porto Alegre também. Ele saía de noite, passava aqui e no outro dia estava em Porto Alegre. Estava sempre cheio de pessoas, que nem ônibus hoje. A passagem tinha um custo bem acessível, as pessoas gostavam. Meu pai trabalhou no Minuano também, ia a Porto Alegre em um dia e voltava no outro. 

Isso tudo foi terminando. Quando foram parando os trens passageiros, o pessoal reclamava muito. Foi inaugurada a nova estação da viação férrea lá no bairro São Pedro, então o pessoal diminuiu um pouco as viagens por conta do deslocamento. Quando era na cidade aqui, como é no centro, o pessoal vinha a pé e embarcava no trem para viajar, e daqui para esse bairro dependia de um táxi. A pessoa gastava com táxi e ficava ruim para pagar a passagem depois para viajar, aí foram optando pelos ônibus.

 

P/1 – Dessa sua relação com as ferrovias, com os trens, e até a relação que o senhor teve com seu pai trabalhando na ferrovia, qual momento ou qual história o senhor considera mais marcante?

 

R – Quando meu pai ia sair para viajar, eu falava: "Poxa, pai, de novo o senhor vai sair para viajar." Eu não via a hora dele chegar. Ele chegava e às vezes eu estava dormindo; acordava depois, o via e ele já estava se preparando para sair de novo.  

Nós o víamos pouco e isso marcava, porque queríamos aquela atenção, aquele agrado, aquele carinho do pai contar histórias. Às vezes ele não podia, não tinha aquele tempo para contar para gente o que aconteceu na viagem. Depois, quando a gente ia conversar, tinha bastante assunto para tratar. 

Ele era muito parceiro, muito camarada se relacionava, se dava muito. Quando dava, ele sempre tinha tempo para contar as histórias. "Olha, teve um acidente, eu vi tudo, quase caí do trem." A gente ficava imaginando aquilo.

 

P/1 – Eram histórias que ele contava para o senhor e para suas irmãs?

 

R – Nós éramos pequenos, mas eu era o mais curioso, sempre falava mais. Ele contava que às vezes os trens tinham trinta ou quarenta vagões, e em uma curva assim, nem se enxergava a máquina. Sempre chegava tal hora, em tal lugar, tinha que esperar aquele trem ser licenciado para passar o outro, atrasava… Começava a refeição e era chamado, porque tinha sido liberado para seguir viagem, parava tudo… Eram as histórias que ele contava. Às vezes nem se alimentava, vinha se alimentar em casa. Histórias da viagem, ele sempre contava.

 

P/1 – E dessas muitas histórias que ele contou para o senhor, tem alguma em especial que o senhor se lembre?

 

R – Uma vez ele disse que estava indo e o trem virou. O vagão que ele estava virou e ele só teve tempo de pular para o outro vagão. A caixa que ele tinha, onde eles carregavam os alimentos… Cada um tinha sua caixa para carregar seu material de higiene e tudo ali. A caixa ele não viu onde foi parar, só ficaram os pedaços. Acho que ela era feita de madeira, bem feitinha, senão ele não sabia o que era dele. Ele disse que quando pulou para o vagão da frente… A caixa, nunca mais. Foi isso que me marcou, porque eu ficava imaginando o que poderia acontecer, o risco que ele estava correndo em cima daqueles vagões. Era isso.

 

P/1 – Falando assim até parece uma cena de filme, não é, seu Jorge? 

 

R – Verdade.

 

P/1 – Forma uma imagem de filme.

 

R – Isso, vem aquelas lembranças de filme. Tinha que ser escrito para ficar para sempre.

 

P/1 – O senhor falou que… Voltando para a parte do seu trabalho, o senhor preferiu ficar e se estabelecer em Santo Ângelo por conta também do cuidado com os seus pais, já no final da vida. Como foi esse processo de acompanhar, de seguir trabalhando e também cuidar dos seus pais no final de vida?

 

R – Minhas irmãs não dirigem, então [era] só eu para carregar meu pai e minha finada mãe também. Médico e tudo, era só eu para levá-los, então não adiantava eu querer ir para tal lugar. Quem é que iria carregá-los quando precisassem? Os estranhos não iam e pedir eles também não iriam. 

Acho que valorizei muito esse lado de fazer isso em vida para eles, para eu depois não ficar pensando: "Poderia ter feito, poderia ter evitado, prolongado a vida deles e não fiz." Foi isso que me aproximou sempre deles. Eu nunca deixei de estar perto deles por conta disso, porque a gente não leva nada da vida. 

Eu podia arrumar uma transferência no Exército para onde quisesse, mas não adiantava. Ganhava aquele dinheiro, mas o mais importante eram meus pais. Foi isso que nunca permitiu que eu saísse de lá. Saí quando necessário, mas nunca deixei de me comunicar, [de] ter aquele contato com eles. 

No momento que pude voltar, voltei e disse: "Agora vou ficar aqui", porque a cada dia a idade vinha chegando e envelhecendo mais. Não me arrependo, faria tudo que fiz por eles de novo se fosse preciso.

 

P/1 – E eles faleceram há muito tempo?

 

R – Meu pai faleceu em 2005 e a minha mãe faleceu em 1993, parece, 1994. Foi aquela perda que a gente tem, pode se dizer... Chegam essas datas de Natal, fim de ano com todas as famílias reunidas e a gente… Eu não vejo a hora que passem as datas de uma vez, porque fica aquela marca para gente, vem todas aquelas lembranças de estarmos sempre juntos em dias especiais assim. Mas ninguém fica.

 

P/1 – Seu Jorge, eu iria perguntar também: quando seu pai se aposentou, como foi a aposentadoria, a sua lembrança desse processo dele se aposentar e de terminar toda uma trajetória de trabalho dedicada à ferrovia?

 

R – Ele se aposentou, ficou poucos dias e foi convidado para trabalhar em uma cooperativa na cidade de Giruá, aqui perto. Ele trabalhou ali por uns três ou quatro anos. Depois, a cooperativa começou a ter uns declínios [e ele disse:] "Vou parar, que é melhor." Parou e veio para casa, ficar em casa conosco. Ele não queria parar, queria estar em atividade. Foi isso que aconteceu. 

 

P/1 – Para irmos nos encaminhando para a parte final da entrevista, eu queria perguntar se o senhor é casado.

R – Eu sou.

 

P/1 – Como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Para dizer a verdade, eu era casado, me divorciei, fiquei sete anos [solteiro] e conheci essa pessoa que está comigo até hoje. 

Eu lembro que vinha descendo do quartel, porque eu sempre ia lá ver os meus pais e depois ia para casa. Daí eu encontrei essa pessoa.

Ela disse: "Oi, tudo bem?" Eu me perguntei quem era, não vinha lembrança. "Ah, está indo para casa?" "É, estou indo para casa descansar um pouco.” E não vinha quem era. Ela falou: "Falo contigo outro dia, outra hora, gostei de você." E foi, ok. Dali a uns dias, eu fui fixar um sete dias em São Luiz Gonzaga a serviço da banda e não pude mais vê-la, mas tudo bem. Depois viemos de São Luiz e fomos direto para Santa Rosa, fiquei mais cinco dias de serviço também. Depois fui falar com ela. 

Ela disse: "Não te vi mais." Eu disse: "Eu estava a serviço." Começamos a conversar. Fomos conversando, nos encontrando, nos conhecendo, e quando vi estávamos envolvidos. Daquele encontro já tinha uma coisa mais forte que estava nos aproximando, que era o amor. (risos) Depois, a gente foi se conhecendo, contei o meu lado para ela, ela contou o lado dela, a gente casou e estamos juntos até hoje. 

 

P/1 – Faz quanto tempo que vocês estão juntos?

 

R – Faz uns 25 anos. Já fizemos bodas de… Acho que 25 anos que fez.

 

P/1 – E o senhor se lembra como foi o casamento de vocês?

 

R – Quem foram os padrinhos… Até foi um senhor da igreja. Nós nos conhecemos, fizemos muita amizade, e ele era muito, muito abençoado. A gente começou a brincar na casa dele que estávamos pensando em algo mais sério e que iríamos convidá-lo para ser nosso padrinho de casamento. Ele não pensou duas vezes: "Está abençoado esse casamento, então", e se realizou. Graças a Deus, estamos até hoje. 

 

P/1 – Qual o nome da sua esposa, seu Jorge?

 

R – Elaine.

 

P/1 – Eu ia perguntar também se teve festa e se o senhor chegou a tocar no seu casamento.

 

R – Não. Toquei em todos os outros casamentos, até hoje se precisar eu toco. No meu eu não toquei e ninguém tocou também (risos), foi bem mais reservado. Minhas primas, para todas elas, eu toquei quando estavam entrando na igreja e quando estavam saindo. No meu, ninguém tocou. Faz parte. 

 

P/1 – O senhor tem filhos?

 

R – Sim, senhor. Tenho filhos.

 

P/1 – Quantos filhos o senhor tem?

 

R – Tenho dois casais e um que criei, a gente criou e agora está com 23 anos. Tenho neto também. Todos estão crescidos, fazendo faculdade já, e eles têm o maior orgulho do avô que têm. Isso a gente pode dizer, graças a Deus, que quando falam em nós, falam com a maior alegria. É o carinho que nós temos. 

Minha filha me manda cada mensagem… No meu aniversário me mandou uma mensagem assim… Isso só nos faz crescer, sendo valorizados por um filho, por uma filha.

 

P/1 – Aproveitando, o que representou a paternidade na sua vida?

 

R – Para mim foi tudo. É tudo para mim ser pai, ser avô também. O que passei para os meus filhos foi o que aprendi, o que meus pais me passaram. A formação que eu tive passei para eles e eles passam para os filhos deles. Eles nunca se arrependem dos ensinamentos que tiveram, que hoje eles passam para os filhos. É uma experiência maravilhosa, gratificante. 

 

P/1 – Atualmente, o que o senhor faz? Como é a sua rotina?

 

R – Agora, depois dessa parada toda, tenho que me ocupar de alguma coisa em casa. Eu tiro música, escuto uma música maravilhosa [e penso:] "Ah, essa música vou colocar na minha banda." 

Tem um instrumento em casa só para esse fim, para não atrapalhar os vizinhos, [que] chamam de escaleta. Eu tiro ali, passo para os instrumentos e é a ocupação que a gente tem para não ficar totalmente parado. 

Eu me exercito, vou à academia, faço minhas caminhadas. A gente não para, isso para preparar o dia de amanhã. Depois, anos adiante, querer sair para caminhar, se não se preparar hoje…. A gente está sempre em forma. 64 anos, graças a Deus, mas deixe que venha a idade.

 

P/1 – Você falou desse momento de pausa. Como a pandemia impactou a sua vida? Qual foi o impacto da pandemia na sua vida e no entorno, na cidade, enfim, no que o senhor tem visto?

 

R – Olha, com toda a minha idade, eu nunca tinha visto, nunca tinha presenciado um fato que tenha mobilizado tanto assim. Teve greves, esses negócios do colégio, movimento escolar, mas isso parou praticamente todo o país. Foi um fato que marcou a gente. 

Tem pessoas que começam a se abalar por não ter o que fazer, por não ter emprego. Eu não, eu acho uma ocupação e vou me ocupar, vou me exercitar. Não dá para deixarmos essa oportunidade ruim de alguma coisa nos adoecer. Se não estou trabalhando, acho o que fazer em casa, vou fazer o que gosto, pensando que amanhã é outro dia. É assim que levo. 

Claro que nós sempre temos aquela falta do trabalho, dos alunos; aquelas crianças preencheram um espaço na vida da gente, mas o que vamos fazer? Se não tem outra opção, temos que aceitar. Eles ligam para gente, se comunicam. "Professor, estou com saudades." A gente sente deles também. 

 

P/1 – Você falou muito de música ao longo da sua entrevista. A música se tornou algo que é muito importante na sua história, mas acho que você não falou e eu queria aproveitar para perguntar: de que gênero ou gêneros musicais você gosta? Que músicas você gosta de ouvir ou de tocar quando está nesses momentos de prática?

 

R – Qualquer música. Acho que ela preenche a vida de cada um dentro daquele momento. Tem dia que eu tenho que escutar um tipo de música, outros dias tenho que escutar outras; às vezes tem dias que tenho que escutar aquelas marchas militares que a gente tocava com a banda do Exército, só marchas militares. Eu faço assim, mas tudo quanto é música a gente tem que tocar; não é só o que gosto, eu tenho que fazer o que o povo gosta. O povo gosta de sertanejo, é isso aí, tudo a gente tem que ter. Rock, tudo, a gente coloca, porque vai ter aqueles que vão gostar e exigir. Temos que estar preparados para isso. 

Eu não posso fazer a minha vontade, do pessoal dizer, "Ah, professor, essa música aí..." E eu dizer: "Pessoal, essa música nós vamos tocar para o público, não para nós. O pessoal vai gostar", e realmente eles aplaudem. [Depois dizem:] "Ah, professor, o senhor viu que eles gostaram daquela música?" “Viram? Temos que fazer isso aí, prender o público." 

A música, para mim… Qualquer música preenche, sem exceção. 

 

P/1 – Mas você não diria que tem uma música ou gênero favorito, mesmo sendo uma pessoa eclética? Algo que te toque mais?

 

R – Depende do dia. Tem dia que, conforme a música, a gente é tocado. Isso varia, depende do dia. Mas qualquer música faz parte do conteúdo musical que gostamos, então não tem aquilo de "não gosto". Para mim não existe esse negócio de não gostar. Pode não completar muito, mas faz bem igual. Está em nós. Se não faz bem para um, faz bem para outro.

 

P/1 – E Jorge, para você, quais são as coisas mais importantes hoje?

 

R – Viver, viver primeiro. Viva hoje, porque o amanhã a gente não… Amizade… Eu estou sempre dizendo: saúde, amizade e crédito; tendo esses três valores, a gente vive. Saúde é o principal, amizade também, o crédito e a confiança… Tendo a confiança, se tem tudo. A honestidade também, a sinceridade. São deveres que não podemos deixar nunca, apesar dos acontecimentos a gente tem que procurar e ver a maneira que pode e que deve. 

 

P/1 – Hoje, quais são os seus sonhos?

 

R – Que Deus me dê saúde, ver os meus netos crescerem, se formarem dentro de uma formação digna, ter paz… Acho que é o principal. Mas a primeira coisa é ter saúde. Tendo saúde, é tudo para nós. Bens fazem parte, são importantes, são bons, mas a saúde é preciosa. 

 

P/1 – Tem alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito ao longo dessa entrevista, que ainda não teve a oportunidade de dizer e que gostaria de aproveitar esse momento para falar?

 

R – Não entendi.

 

P/1 – Ah, se tem alguma coisa que o senhor gostaria de ter falado na entrevista e que ainda não teve a oportunidade de falar. Sobre a sua história de vida, sobre a sua relação com a cidade e a ferrovia...

 

R – Eu levo minha vida de um jeito que não permito e não gosto da injustiça, da maldade que existe com o ser humano. Maldade com o ser humano, maldade com os animais, isso sim… Eu queria que as pessoas pensassem um pouco mais e que não fizessem aquilo que não gostariam que fizessem para si. É não fazer para o semelhante aquilo que não gostaríamos que fizessem para nós. E tem pessoas que fazem com a maior naturalidade uma maldade, uma ofensa, falar mal das pessoas.

Acho que é cada um cuidar de si, cada um cuidar mais de si. Isso é o importante, mas é difícil de conseguir, porque as pessoas já vêm com o intuito de fazer o mal, de maldade, e às vezes isso machuca bastante, amigos principalmente. 

Eu não sei porque é assim. Se eu vir que uma pessoa está sendo maltratada, desde uma palavra que ela está ouvindo [que seja] direcionada a ela, parece que é para mim, machuca mais a mim. Isso não é bom, mas a gente é assim, fazer o quê? Cada vez só tende a piorar esse nosso mundo, com a falta de amor e de humanidade entre as pessoas. As pessoas não praticam a religião. Acho que é isso.

P/1 – Para terminarmos, eu queria te perguntar, seu Jorge, como foi contar a sua história e ver a sua história fazer parte de um projeto de memórias que trata da história de Santo Ângelo e também da história da ferrovia.

 

R – Para mim vai ficar marcada a significância. É a primeira vez que participo. A gente às vezes não está totalmente preparado, mas acho que tentei me expressar da melhor maneira possível, dentro das lembranças que nós temos guardadas, que são várias. Tentei expor da melhor forma possível e espero ter sido compreendido pelo senhor. Fico muito agradecido por essa lembrança, porque eu nunca iria esperar participar de um projeto como esse. 

 

P/1 – Eu tenho muito a agradecer ao senhor por ter disponibilizado seu tempo. Espero que… Enfim, o que posso dizer é que atendeu todas as expectativas em relação ao que a gente esperava. E o que é mais importante para nós é que tenha sido uma experiência na qual o senhor tenha se sentido confortável de poder relembrar e rever um pouco da sua trajetória de vida, contar da sua trajetória de vida, compartilhar com a gente. Caso o senhor tenha se sentido confortável e tenha gostado desse momento, acho que é o mais importante para nós. Em tudo que diz respeito à história, enfim, foi ótimo. 

Eu agradeço tanto em nome do Museu da Pessoa, que eu represento, e a Rumo, que é uma apoiadora desse projeto. Eu e toda a equipe só temos a agradecer ao senhor.

 

R – Eu que agradeço, e a gente, dentro do possível, está sempre disponível dentro do que puder ajudar.

 

 

 

 

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