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História

Enquanto existir mulher sofrendo, nós continuaremos lutando

História de: Xica da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/08/2021

Sinopse

Infância na roça, ajudando aos pais e irmãos. A mudança para Ipatinga e as primeiras dificuldades na cidade. Experiência como babá e arrumadeira. A vinda para Belo Horizonte e os primeiros trabalhos na cozinha. A volta para Ipatinga. Ciclo de violência doméstica. O rompimento e o reencontro consigo. Abrigo e o acolhimento de outras mulheres. Empreendendo na Economia Solidária e o resgate da autoestima. As primeiras entregas do Buffet. As vantagens da Economia Solidária. A volta aos estudos. Trabalho na prefeitura. Participação em movimentos sociais e no Fórum Social Mundial. Seu trabalho com segurança alimentar e na horta comunitária. A maternidade e a criação dos netos. O sonho da cozinha própria. 

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História completa

P/1 – Vamos lá. Para começar, gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.


R – Eu sou Francisca Maria da Silva, mais conhecida como Xica da Silva, eu nasci em Ipanema, Minas Gerais. 10 de junho de 1964.

P/1 – E quais os nomes dos seus pais, Xica?

R – Meu pai, Gabriel Anselmo da Silva. E minha mãe, Juventina Maria da Silva.

P/1 –  E o que eles faziam?

R – Eles eram lavradores. Hoje o nome mudou, é agricultor. Tanto o meu pai, quanto a minha mãe, eram lavradores. Eles plantavam na roça, café, arroz, feijão, tudo que a gente comia era plantado na fazenda que ele era meeiro.

P/1 –  E como você os descreveria?

R –  Ah, minha mãe… Eu sou o espelho da minha mãe, ela era uma mulher guerreira, trabalhadora. Ela se foi muito cedo, com 49 anos. Mas a minha mãe foi tudo pra gente. Sou irmã de mais onze, éramos doze irmãos. O meu pai foi uma pessoa muito difícil e eu não tenho muita coisa a me espelhar no meu pai, apesar de respeitá-lo e tudo mais, é meu pai, indiferente disso, meu pai. Mas a minha mãe era uma guerreira. Meu pai ficou internado muito tempo, para tratar de uma úlcera. E era minha mãe que carpia, que colhia o café, que colhia o arroz junto com meus irmãos. A gente tinha um terreno muito grande e pegava uns rodos grandões e eu com onze, doze anos, [ajudava] pra juntar o café, que estava secando no terreiro. Carreguei muita gamela de comida na cabeça, pra levar pra roça. Plantei amendoim preto e plantava amendoim preto assobiando, porque não podia comer. Se comesse, o meu pai beliscava a gente, porque a semente era pouca (risos). Mas fui criada na roça, com muita fartura de tudo. Muito diferente do que é aqui hoje, tudo sem veneno. O que a gente não tinha, numa época do ano, era arroz, mas as outras coisas nós tínhamos, muita galinha, muito porco, leite. Tinha muita coisa, mas agora, roupa, sapato, isso a gente praticamente não tinha. Era um chinelo e uma conga. (risos) Que a gente falava que era “precata” rosa, aqueles sapatos de plástico, era um kichute pros meninos e uma conga pra gente. Mas, bom, a vida na roça eu tenho saudade, saí da roça com onze pra doze anos.

P/1 –  E com seus irmãos, como era a sua relação?


R – Muito boa. Nós éramos aqueles irmãos que não tiveram infância. Eu comecei a ir pro engenho de cana-de-açúcar com meu pai por volta dos seis, sete anos já. Eu já ia trabalhar no engenho de cana-de-açúcar. Depois do engenho, a gente ficava na casa da fazenda, ajudando a tomar conta dos filhos do dono da fazenda. Teve um irmão que eu tive um atrito, porque meu pai era muito rígido e eu estava xingando, falando palavrão. E meu pai chegou perguntando quem tinha me ensinado, eu fui e falei que era esse meu irmão, o Jorge. Aí meu pai me deu uma surra e depois deu uma surra nele também. Ele ficou magoado comigo. Eu ainda acho que a gente tem que conversar sobre isso, pra tirar essa mágoa. Hoje ele tem 63 anos e, quando fica nervoso, bravo, ele ainda fala isso pra mim. Assim, é um irmão que hoje é alcoólatra, está tratando o alcoolismo e tal, mas, quando ele fica nervoso, ele fala da surra que meu pai nos deu, que ele não merecia ter [levado] a surra. Mas é uma relação muito tranquila. Minha irmã mais velha, depois que minha mãe faleceu, se tornou a nossa mãe. Hoje, aos 57 anos, quando a gente vai na casa dos irmãos, do meu irmão mais velho, a gente toma benção, para dormir (risos). Então, apesar de sermos bem diferentes e de eu estar longe deles, nós somos muito unidos.

P/1 –  E você sabe um pouquinho da história dos seus avós? Você chegou a conhecê- los?

R –  Eu conheci a minha avó materna, a avó paterna e eu conheci as dos dois casais, que era a minha avó Libânia, mãe da minha mãe, e meu avô Anacleto e minha avó Francisca. Eu sou Francisca por causa da minha avó (risos). Meu avô por parte de pai, não conheci. Mas da parte da minha mãe, diziam que a minha tataravó, que era a avó da minha avó, foi ‘pega no laço’, era descendente de puri. Tanto que minha mãe era negra, negra mesmo, de cabelo bem liso, de unhas roxas, quadradas, que é aquela descendência de índios e de puri. Eu creio também que tenho uma descendência de quilombola, porque o pai do meu pai contava essa história, que ele era – um nome bem feio – o tal do ‘jagunço’, que ficava ‘tocaiando’ pessoas, a mando de não sei quem. Então, eu venho de uma família que, do lado do meu pai, tem essa coisa que a gente chama de “nego aço”. O meu pai era mais claro, de cabelo bem crespo. A minha era negra, de cabelo liso, muito bom. Então, a minha descendência é entre puri e quilombola. Eu acho que tenho um pouco dessa mistura, tenho até muito respeito por isso. Não nasci, não morei no quilombo, mas o meu avô, pai do meu pai, era de uma comunidade assim, então eu tenho essa mistura, eu acho.

P/1 –  Você contou que o seu nome foi em homenagem à sua avó. Você sabe um pouquinho mais como foi essa escolha e de onde vem o seu apelido?

R – Ah, o que acontece: todo Francisco é Chico e todo Chico é Francisco (risos) Mas, enfim, estava uma briga e eu sei que eu fiquei muito doente. Eu nasci de sete meses, minha mãe que fez o meu parto, cortou o meu cordão umbilical, numa casa de pau a pique. Meu nome, na realidade, ia ser Gorete, Margarete, uma coisa assim. A família toda era batizada, com os vizinhos e os amigos todos na porta, eram as comadres. E na hora de colocar o nome, a minha madrinha falou: “Olha, vamos colocar o nome de Francisca, porque é o nome da avó, da Dona Francisca e de São Francisco de Assis”. Porque minha mãe disse que eu estava morrendo e me deu pra São Francisco de Assis. Então, eu tenho respeito por São Francisco de Assis, porque é meu protetor, tá bom? (risos) Eu tenho muito respeito, à época, na data e tudo mais.

P/1 –  E, quando você pensa na sua...

R –  Minha mãe falava que, apesar de eu ter nascido de sete meses, andei com seis pra sete meses, eu falei com sete meses, que eu fui atrevida em tudo. Em tudo (risos). O Xica vem daí. [Minha família] me via e falava: “Ah, a Xiquinha aí, ó, a Xiquinha já está andando, a Xiquinha já está conversando”. E aí veio aquela coisa também, mais tarde, da Xica da Silva, que é de Diamantina. Eu brinco muito que eu sou prima dela, só não tenho o “corpitcho” maravilhoso (risos). Aqui em Minas, nós temos essa grande atriz, essa grande guerreira, que foi a Xica da Silva, tenho um respeito muito grande. Mas o meu Xica foi coisa de família, de quando eu era pequena me chamarem de “Xica”. E eu não coloco Xica com “Ch”, que é o português correto. O meu Xica, inclusive, é com “x”. Eu falo pra todo mundo: “É Xica da Silva, com x”. (risos)

P/1 –  E, Xica, qual é a sua primeira lembrança da sua infância, bem pequenininha?

R – A lembrança que eu tenho é, eu falo que eu fui criada com comida de porco. O que é comida de porco? Lá na roça, a gente tinha um panelão de uns cinquenta litros, um panelão de ferro e os meus irmãos pegavam cacho de banana, abóbora grandona, inhame rosa, que era umas cabeçonas bem grandes e jogavam dentro dessa panela, colocavam no fogo por volta de quatro horas da manhã e aquilo ali, depois de cozido, eles pegavam e jogavam para os porcos.  Mas antes de jogar pros porcos, eu ia lá e pegava uma colher do inhame, uma banana cozida, abóbora cozida, jogava melaço de açúcar e comia. Então, da infância também, o que vem muito na mente são três coisas: isso e, a minha mãe também, no final de semana, começando a fazer as quitandas para guardar, porque a gente tinha um forno de barro. E uma outra coisa: como era roça, o meu pai ia na cidade de três em três meses e trazia aquelas balas, que eram enroladas no papel, aquele papel mesmo, que não era plástico, e ele colocava a gente numa fila e mandava todo mundo abrir a mão, aí na fila, o tanto que coubesse na mão de cada um, era o que cada um recebia. E a nossa casa era casa de assoalho embaixo, aí cada um ia para um canto. A gente pegava uma pedra, quebrava essas balas, enrolava em folha de bananeira e a gente chupava aqueles pedacinhos de bala durante três meses, com aquele gosto de formiga. Nossa, hoje a gente sente, sabe que é o gosto de formiga. Essa é uma das lembranças que eu tenho, que a gente ficava assim: “Quem ainda tem bala?” O irmão mais velho, que tinha um ‘mãozona’, pegava mais balas (risos). A gente, que tinha a mãozinha pequenininha, aí ficava assim: “Ai, eu troco com você um pedaço de bala, porque depois nós vamos fazer ‘cozinhadinha’, vou te dar um pouquinho da minha ‘cozinhadinha’”. Então, são essas coisas e também fazer boneca de espiga de milho, porque a gente não tinha com o que brincar, essas coisas.

P/1 –  Isso que eu ia te perguntar: as brincadeiras favoritas dessa época, o que você gostava de fazer?

R – Ah, até os oito, nove anos, a brincadeira era pular amarelinha. Mas não tinha muito tempo, não. Porque, como eu te falei, a gente plantava milho, plantava café e, na maioria das vezes, a brincadeira era interrompida pela chuva que estava vindo. Era interrompida com a chuva porque a gente tinha que juntar o café, juntar o feijão que ficava no chão… Como não tinha esses maquinários todos, a gente misturava estrume de boi com argila, que é o barro branco, para poder selar o chão e colocava o feijão ali, com palha embaixo. Pegava umas varas grandes e ficava batendo, pra soltar o feijão todo. O café, os meus irmãos traziam pro terreiro e a gente pegava uns rodos grandões, que o meu pai fazia de pau, pra poder espalhar ou puxar o café rápido. Mas a brincadeira era de amarelinha, quando podia. Ou, então, nós sempre brincávamos, os meninos com as meninas, não tinha essa coisa de não brincar os meninos com as meninas. Eram umas brincadeiras, que hoje eu penso assim: “super saudáveis.” Pegava a espiga de milho e fazia boneca. E nossa, é até criminoso isso. A gente fazia realmente ‘cozinhadinha’, fazia comida nos ‘fogõezinhos’. A gente pegava as rolinhas –  tadinha das rolinhas –  matava as rolinhas e fazia carninha pra gente comer. Então, assim, a gente pegava água quente, pegava rolinha, tudo bacaninha e comia. (risos) Coitados dos bichinhos! Se o Ibama souber disso, vai mandar prender a gente. (risos) Mas era muito bom, essa era a brincadeira. Mas, na maioria das vezes, não tinha brincadeira, porque a gente dormia muito cedo. Dormia às dezoito horas hoje, cinco e meia, seis horas a gente já estava dormindo e acordava às quatro e meia da manhã, pra ir pra lida, para trabalhar. Eu fui uma das que trabalhei no engenho de cana-de-açúcar com meu pai. Colocava a cana lá no engenho para moer e a gente fazia, por dia, em torno de dois tachos de rapadura, como se falava, tacho. A gente fazia quarenta individuais e quarenta de duas, pra poder vender. Eu trabalhava no engenho três vezes na semana. E, pra ir pro engenho, a gente andava em torno de uma hora e meia, uma hora e quarenta minutos, que hoje, no meu pensamento, nos meus cálculos, acho que é mais ou menos isso. Agora, estudar foi super difícil. Eu estudei muito pouco na roça. Fiz o primário na roça, até o segundo ano. Depois, quando eu vim pra cidade, com doze anos, eu mal sabia ler e escrever. Eu entrei, na realidade, na escola, com onze anos e meio, doze, eu acho.

P/1 –  Você tem lembrança desse primário, na roça?

R –  Tenho. Era como se o mestre, o professor, fosse como Deus pra gente. E aquela coisa de que eu nunca fiquei de castigo pelo professor ou professora. Pela mestra, que era como a gente chamava. Mas lembro que um dos meus irmãos já tomou muita reguada, já ficou de castigo olhando pra parede, de castigo atrás da porta. Na minha idade, naquela época, o professor podia pegar o menino pela orelha e colocá-lo de joelho, em cima do milho. Então, meus irmãos já chegaram a ficar de joelho em cima de caroço de milho, de caroço de feijão. Eu não cheguei a ficar. Mas eu tenho uma lembrança boa, porque o ensino de antes é quase a faculdade hoje. (risos) A tecnologia mudou, mas, eu tenho uma lembrança muito boa da escola.

P/1 –  E como foi essa mudança pra cidade?

R – Olha, foi difícil, porque a gente se mudou para a cidade em 1972. Morávamos no leste, Ipanema é no leste de Minas Gerais.  E nós nos mudamos para o Vale do Aço. A gente tinha uma fazenda de mais de quase um milhão de metros de terra. E aí a gente veio pra cidade, pra Ipatinga. Meu pai colocou um monte de pedaço de pau, porque não tinha móveis, essas coisas a gente não tinha, pau, madeira, muita abóbora e muita galinha. (risos) Ele colocou tudo em um caminhão e a gente veio pra cidade onde minha avó morava, que era Ipatinga. Chegar em Ipatinga foi terrível, porque a gente não tinha casa. Aí vieram os irmãos. Dos doze irmãos, nós éramos nove. Minha mãe tinha perdido quatro, três. E éramos nove irmãos, tinha o meu irmão casado,  a minha mãe e o meu pai e viemos pra casa do meu tio, que tinha três cômodos. Meu tio tinha três filhos e a esposa. Meu pai comprou um pedaço de terra, que se chama lote, de trezentos e sessenta metros. A minha mãe, depois de uma semana, jogou uma lona nessa terra e a gente foi morar debaixo da lona. Nós moramos debaixo da lona, uns três, quatro meses, a família inteira, até minha mãe tomar a iniciativa de fazer um barraco. Ela foi meio que uma pedreira, (risos) junto com um moço que tijolava, ela fazia massa. E pra quem tinha tudo na vida, pegava uma melancia, rachava com uma pedra, comia um pedaço e jogava o resto fora, sacudia o pé de banana e comia um pouquinho, quando viemos pra cidade, com aquelas galinhas, foi difícil. Onde iamos colocar as galinhas? Ele arranjou um lugarzinho pra colocar, a minha mãe começou a trocar abóbora por macarrão. A gente não conhecia aqueles cubinhos de caldos saborizados, caldo de galinha, caldo de carne. Nossa, macarrão com caldo de carne! Ai que maravilha, gente, muito bom! (risos) A gente comia, vinte e quatro horas, macarrão ensopado, era muito bom (risos). Então, a gente trouxe da roça muito feijão, muito café, trouxe o tal do pilão, porque o arroz, pra tirar a casca do arroz, a gente socava no pilão. Era um monte de pilão, nós todos, os filhos todos, trabalhavam dessa forma. O café era torrado no fogão e moído numa maquininha, que minha mãe tinha, que era o moedor de café. Mas tudo era feito por nós. Na cidade foi muito difícil, muito difícil. E foi assim até a minha mãe descobrir uma empresa chamada Usiminas, que tem lá em Ipatinga. Ela foi pra porta, lá, pedir roupa pra lavar para os moços que trabalhavam. Aí minha mãe lavava roupa pra esses moços, lavava e passava. Logo em seguida, depois, os meus irmãos arrumaram trabalho na empreiteira da Usiminas e foi onde a coisa começou a dar uma melhorada. E eu, com quatorze para quinze anos, fui trabalhar de babá, numa casa. Eu acho que essa foi a pior das experiências que eu passei. Meu trabalho como babá.

P/1 –  Pode continuar, Xica.

R – Então, eu fui trabalhar de babá. E, nessa casa que eu fui trabalhar, todas as manhãs, eu acordava pra fazer ovos mexidos para o esposo da moça. Não vou citar nomes, mas pode colocar isso, não tem problema nenhum. E aí, quando eu ia pro fogão, fazer os ovos mexidos desse moço, ele vinha me abraçando por trás e me apertando. E aí eu falei com a minha mãe, disse: “Olha, eu não vou ficar lá, porque esse moço está fazendo isso comigo, já me agarrou outras vezes e eu não quero ficar”. Aí a minha mãe falou: “Olha, na hora que ele fizer isso, coloca bastante gordura na panela e esquente uma concha grande e, na hora que ele te abraçar, você põe a concha na mão dele. E você vem embora, porque aí você dá um motivo pra falar o porquê de você estar saindo”. Aí eu fui e queimei a mão do moço pra ir embora (risos). E a esposa dele falou que era eu quem assediava o marido dela. Então, foi muito ruim, porque eu tentei fugir várias vezes e estava vendo assim: ele não chegou a fazer nada de mais sério, porque eu sempre fui uma pessoa que eu tinha muito receio, inclusive porque, como eu te falei, eu não tenho muita alegria do meu pai. Na roça, as moças dormem no quarto da mãe, dormiam no quarto da mãe. E, assim, as minhas irmãs não gostam muito de falar disso, mas, toda noite a gente via, a gente não entendia o que era fazer amor, fazer sexo ou cruzar. Hoje eu entendo que o que meu pai fazia com a minha mãe era estupro, porque toda noite a gente via o meu pai tendo relação sexual com a minha mãe. E, em vez dela ser feliz, ela chorava. E, depois de um certo tempo, a gente entendeu que a minha mãe era estuprada. Minha mãe era uma pessoa muito triste, não saía de casa. Assim, lá atrás, na minha idade, 1964, vamos dizer, lá, em 1972, as mulheres eram muito inibidas. Hoje parte de nós se abre, a gente conversa, até pra tirar do peito essa angústia, mas as mulheres em si, morriam deprimidas e a gente não sabia por quê. Uma coisa que eu não falei: o meu pai foi pedir a minha tia em casamento, com um corte de pano e meu avô falou: “Não, você vai casar com essa aqui, porque essa aqui é muito regateira, essa menina não vai dar nada que presta, então casa”. Foram trinta e poucos anos de casamento e minha mãe dizia que não sentia nada pelo meu pai, muito pelo contrário, sentia outras coisas. Então, o sentimento de amor, de gratidão, de amizade, companheirismo, nada. Eu já vim desse ciclo de violência e a gente sabe também que tem um irmão, que minha mãe pegou no colo, foi madrinha deste irmão e meu pai teve esse filho fora do casamento. Então, era aquela coisa da roça, da época do coronelismo, apesar de isso ainda não ter acabado, ainda tem um pouquinho, a gente sente que ainda tem essa coisa em certos lugares. Mas em pleno século XXI, a gente tem que acabar com isso. (risos)

P/1 –  E quanto tempo você ficou nessa casa, sendo babá?

R –  Em torno de uns seis meses, oito meses, mais ou menos. Foi bastante tempo, eu acho que foi bastante tempo, em torno de uns oito meses, mais ou menos.

P/1 –  E como foi sair dessa casa?

R –  Foi terrível. Porque, como a menina gostava muito de mim e eu gostava muito dela também, a despedida foi muito ruim, da mãe falar pra filha que estava me mandando embora, porque eu fiz aquilo, que eu estava tentando tirar o pai dela. Então, foi muito ruim, muito ruim mesmo. Mas aí, depois disso, eu arrumei um trabalho de arrumadeira. (risos) E eu não gosto de arrumar casa, então, lavar vasilha e arrumar casa eu faço por obrigação. (risos) Mas trabalhei muito tempo de arrumadeira. [Trecho retirado pela autora] Eu trabalhava pra comer, estudava um pouquinho, estudei até o sexto ano do ensino fundamental e um dia eu falei pra minha mãe: “Eu vou cuidar da minha vida e eu não vou ficar aqui, não”. Aí ela: “Ah, minha filha, eu te abençoo”. E, naquela época, a confiança era muito grande, as pessoas confiavam umas nas outras. Eu vim pra Belo Horizonte com dezoito anos, dezoito para dezenove e minha irmã morava num bairro por aqui. Mas eu falei: “Eu vou pra lá, mas não vou pra casa da minha irmã, não”. Aí eu vim, deixei minhas coisas na rodoviária, peguei um jornal e fui procurar trabalho. No primeiro dia, eu encontrei uma faxina. Fui limpar esses tijolinhos vermelhos, cheio de lodo, fiquei o dia inteiro limpando isso e limpei muito bem limpo, porque eu queria um trabalho. Inclusive, o dia inteiro sem comer, essa senhora me deu, por volta de dezessete horas, um pão, ela me deu um pão duro, com um copo de leite - tenho pavor de leite frio. Eu comi assim mesmo, engoli seco, comi. E aí ela falou: “Gostei de você, você quer trabalhar aqui?” Aí eu respirei fundo, com as minhas coisas na rodoviária, eu tinha ficado no parque municipal, que é um parque que tem aqui em Belo Horizonte, procurando trabalho. E aí eu consegui. Mas aí eu prometi pra mim, que eu ia ter uma profissão, que eu não ia precisar mais, porque eu limpei o chão, lavei os banheiros, foram uns seis banheiros, eu acho. Sei que eu arrumei praticamente tudo dela, porque estava tudo muito sujo. Mas eu trabalhei, pra poder conseguir esse emprego. É num dos bairros nobres aqui de Belo Horizonte. Eu consegui esse emprego nessa casa, nesse apartamento, como arrumadeira e aí eu prometi pra mim que eu ia fazer alguns cursos na área de cozinha, porque eu gostava de cozinhar e eu gosto ainda. E aí comecei a ver aqueles cursinhos gratuitos. Ia comprar pão, ficava na fila do pão, vendo na televisão dos outros. Então, tudo o que eu pude aproveitar gratuitamente, na formação, eu aproveitei.

P/1 –  Essa viagem para Belo Horizonte, você fez sozinha?

R –  Sozinha, sozinha. Peguei um ônibus e vim pra Belo Horizonte sozinha. E aí, antes tinha um jornal chamado Balcão. Tinha muito emprego. E as referências, as patroas pegavam por telefone. E assim, referência eu tinha. Então, pelo menos isso, antes a pessoa só precisava ser honesta pra poder trabalhar. O resto elas ensinavam, até na base do grito, da briga. (risos) Elas ensinavam.

P/1 –  E você ficou quanto tempo trabalhando nessa casa, Xica?

R – Eu acredito que um ano e pouco. Um ano e pouco trabalhando como arrumadeira. Aí, depois, como comecei a fazer esses cursinhos, eu fiquei amiga da cozinheira dela e ela me arrumou um outro trabalho numa casa, para ser babá. Até de um corredor de kart, chamado Fausto Silva. Fui pra essa casa, pra ser babá e a esposa dele gostou de mim, falou: “Não, você vai ficar como cozinheira”. A cozinheira acho que saiu na época, não lembro direito, aí ela me passou como cozinheira. E eu fiquei, mas comecei a pensar comigo: “Não, eu não vou ficar como cozinheira aqui”, ganhando um salário que era praticamente nada. Aí eu saí dessa casa. Depois, eu trabalhei muito tempo como ‘freezeira’. Fui morar com uma moça, eu virei amiga dela e fui trabalhar como ‘freezeira’. O que é ‘freezeira’? É quem abastece os freezers das casas. Cada dia, eu estava numa casa, enchendo o freezer de uma para quinze dias, para um mês e, com isso, eu me identifiquei um pouco mais com outro trabalho: viajar com pessoas. Uma dessas moças que eu abastecia o freezer, me convidou pra viajar. Tanto que eu conheço parte do Brasil quase todo, praias e tudo mais, porque eu ficava quinze dias com uma, quinze dias com outra, eu nem voltava. Nesse meio tempo, eu trabalhei também como cozinheira no Lago Sul, lá em Brasília, com uma secretária de um ministro lá, eu não lembro o nome da moça, nem do ministro também. Tem coisas que, às vezes, eu apago da mente, para não ficar citando também. (risos) Trabalhei lá em Brasília, no Lago Sul, mais um ano e pouquinho. Você vê, na minha andança, dos dezoito anos até os vinte e três para vinte e quatro, eu rodei muito, fiz muita coisa. E mandava dinheiro pra minha mãe, para ajudar a minha família. E aí, quando eu estava trabalhando no Lago Sul, a minha mãe me escreveu uma carta, dizendo que meu pai estava muito ruim, meu pai não estava bem. Eu voltei pra minha casa, voltei, mas eu já não conseguia ficar mais, não dava, não dava pra conviver, o meu pai era muito ríspido, aquela coisa, então não dava mais pra conviver. Voltei para Belo Horizonte e arrumei um outro trabalho. E no meio disso eu esqueci uma coisa… Em 1982, 1983 eu não disse pra você, em pleno Dia das Mães, a minha mãe faleceu. Aí, eu disse: “Caí no mundo”. Com meu pai lá, não dava mesmo pra ficar em casa, mas mesmo assim eu ajudava minha família. É muita lembrança pra contar. (risos) E aí, depois desse tempo todo fui pra Brasília e aí minha irmã –  não foi minha mãe, não –  escreveu que meu pai estava muito ruim, ficando cego, que ele precisava me ver. Aí eu saí de Brasília e voltei para Ipatinga, onde minha família morava, só que eu não conseguia mais ficar. Primeiro porque minha mãe já não estava mais. E, assim, eu vivia em torno das minhas irmãs, do meu pai não era tanto, mas a minha irmã mais velha já estava casada, a minha irmã do meio também. Então, todo mundo meio que cuidava dele, mas ele lá no canto dele, cada um no seu. Os meus irmãos todos casados também. Aí eu falei: “Não, eu não vou voltar”, aí voltei pra Belo Horizonte. Ao voltar para Belo Horizonte, eu arrumei um trabalho de governanta, em um dos bairros nobres também. E nesse prédio, desse bairro nobre, foi onde eu conheci o meu martírio, meu ex-marido, que eu achava que ia ser a paixão da minha vida. Na realidade, no início, era só um namorico e depois eu pensei: “Não, vai ser a razão da minha vida, vou viver enquanto a morte não separa”. Não casei, eu fui morar junto. E, nesse ‘amasiamento’, durante o primeiro ano foi tudo maravilhoso, não tinha filhos, não estava grávida, eu fui morar com ele. Isso foi em 1987, 1986, 1987. Antes de 1989, fiquei grávida da minha filha mais velha e a tive em 1989. A partir daí, meu ex-marido começou a me privar. Eu não pude mais trabalhar, eu não pude mais sair, eu não pude mais ter amigos, eu não fui dona da minha vida mais. E aí, nessa história toda foram três filhas, dois abortos obrigatórios, um natimorto, dez anos de cárcere privado. Fiz _______ no seio esquerdo, tive uma taquicardia, fiquei três dias em coma, tudo devido ao espancamento dele. E, nesse meio tempo, eu consegui denunciar oito vezes e retirava a queixa. Na nona vez, eu denunciei e fui para um abrigo, com as minhas filhas. Aqui tem um abrigo chamado Sempre Viva, endereço ignorado. É um consórcio das Gerais, que abriga mulheres espancadas pelos seus ex-companheiros. Eu consegui ir pra esse abrigo e foi onde eu descobri, nessa vivência com ele – eu tinha carro, eu tinha secretária do lar, eu tinha uma vida estável –  que a última moça que trabalhou na minha casa me dava um Diazepan de manhã, de quinhentas miligramas. Isso tudo vocês podem escrever, tá, não tem problema não, já está escrito em um monte de lugar. Ele me dava um Diazepan de quinhentas miligramas de manhã e quinhentas miligramas à noite. Então, eu não tinha minha vida na mão, eu era depressiva, vivia à base de remédio. Quando fui para esse abrigo, com as minhas três filhas, desintoxiquei dos remédios. Aí, mesmo assim, ele conseguiu me encontrar e conseguiu me convencer a voltar para casa. E aí voltei, mas quando fiz isso, já estava mais autoestima levantada, já tinha psicólogo, já tinha assistente social, porque ninguém sai da violência sozinho. Não consegue sair. A gente precisa de ajuda. E aí, eu já mais ou menos com a autoestima levantada e aí todo mundo, aí minha família já sabia, meus amigos já sabiam. Porque durante esses dez anos, do lado de dentro era um inferno, mas do lado de fora, ele era o melhor homem do mundo, porque eu não deixava transparecer. As meninas também iam pra escola, tudo direitinho, mas não contavam nada. A violência, lógico, indiretamente era com elas, mas  era diretamente comigo. E aí eu saí do abrigo, voltei pra casa e ele queria que eu retirasse essa nona queixa. Falei: “Não, não vou retirar”. E aí, o que ele fez? Não sei se vocês conhecem Belo Horizonte, a Lagoa da Pampulha, é cartão- postal de Belo Horizonte. No primeiro dia do ano de 2000, ele jogou o carro ali na ponte da Lagoa da Pampulha, comigo e com as minhas filhas dentro. Eu cortei o rosto, furei o olho, minha filha do meio levou 36 pontos na cabeça, a mais velha levou 14 pontos no meio do rosto e eu fiquei internada no [Hospital] João XXIII . Fui pro Risoleta e de lá, me levaram pro João XXIII. No João XXIII, quando eu descobri o meu rosto, acho que o Freddy Krueger era mais bonito que eu. Ali eu tive um encontro comigo: “Que homem é esse, que eu amo, que eu não consigo viver sem ele, que me espanca e que, depois dele voltar pra casa com sapato, com óculos Ray-Ban, com a melhor roupa, com agenda no restaurante, com agenda do salão que eu queria, eu esquecia todas as dores?”. E aí eu falei: “Olha, a partir de hoje, se eu não morri, com tudo isso que eu já passei, eu não morri”, então comecei a falar com Deus, que eu acredito muito em Deus. Eu acredito nesse ser superior, que “olha, você tem missão”. Então, se eu vou ficar aqui, é porque eu tenho uma missão. Me espelhei muito na minha mãe, ela era benzedeira, parteira, então, assim, a força de chamar minha mãe, a força de pegar aquela mulher guerreira, que trouxe tantas crianças no mundo. Eu falei: “Olha, eu tenho que ter força, porque eu tenho que ter…”, eu nunca tinha me separado das minhas filhas,  para onde eu ia, eu levava todas. Eu já tinha fugido com roupa no saco de lixo, porque ele queimava todas as malas, escondia meus documentos, tomava os meus dinheiros . Eu já tinha passado tudo e mais um pouco. Eu não morri, então, o que o Senhor quer comigo? Aí, no sétimo andar do João XXII, eu não comecei a perguntar “por que” não, eu comecei a falar: “Pra que, pra que está acontecendo isso comigo?” Aí, eu olhei pra mim, olhei pra dentro. Eu dormi, mais ou menos, quatro dias. Eu achei que tinha dormido quarenta minutos. E eu sem reação, quando fui ao banheiro, no sétimo andar, depois de quatro dias, só com os lençóis enrolados, sem roupa, sem nada.  A assistente social, o psicólogo lá do lado, o clínico, o médico, o neuro, falando assim: “A senhora sabe o que aconteceu?” e eu falei: “Não, é que eu furei o olho” e eu não sabia que eu tinha cortado o rosto. E, nestes lugares, eles colocam um espelho de choque. Então, quando eu vi meu rosto daquela forma, eu dei uma volta pra trás e falei: “Olha, é esse rosto que eu tenho, é esse rosto que eu vou conviver com ele”. E aí, a partir daí, eu não olhei mais no espelho e comecei a viver minha vida. Mas todas as pessoas falavam comigo e o meu rosto não parecia que tinha cortado, parecia que nada tinha acontecido. E foi onde, aí eu comecei a fazer esse trabalho com mulheres. Em 2003, eu conheci o movimento de Economia Solidária e nós montamos um grupo de mulheres para um grupo de convivência. Uma técnica em Ciências Sociais nos apresentou o movimento de economia solidária e falou: “Olha, aqui vocês vão conseguir a reintegração, vão conseguir um trabalho coletivo, voltar à sociedade”. Aí fizemos, montamos esse grupo e nós descobrimos que no movimento também tinha renda. A hora que uma não podia trabalhar, a outra fazia. Então, assim, uma produzia, a outra vendia, a outra comprava, a outra divulgava. Então, a gente montou esse grupo, pra começar a ter uma renda, pra não precisar voltar pro agressor. Porque a maioria de nós fala que volta por causa da autonomia financeira. E eu comecei a ganhar frutas, verduras, legumes de sacolões. E pensei: “Gente, não é que eu sei cozinhar?”. Naquele tempo que eu fiquei em cárcere privado, eu devo uma gratidão muito grande, quem sabe um dia eu vou conhecer essa mulher antes dela morrer e eu: a Ana Maria Braga. Ela gritava: “Acorda, menina!” Eu lá, meia macambúzia, olhava: “Vou fazer aquilo”. Então, naquele meio tempo eu aprendi fazer muita coisa. Muita coisa! E eu lembrei: “Nossa, tem uma caixa de tomate estragando, tem uma caixa de pimentão, tem uma caixa de manga, tem uma caixa de abobrinha! Ah, então, o que eu vou fazer?” Isso depois de sair do hospital. Eu comecei a beneficiar esses legumes e verduras e aí falei: “Ah, nossa, chutney de manga, ó, que trem chique! Abobrinha escabeche. Alichela”. E eu comecei a olhar e falei: “Ta e os vidros, eu não tenho dinheiro pra comprar vidro, como é que eu vou fazer?” Aí eu comecei a andar na rua, catava os vidros, que hoje não encontram mais. Hoje, nas portas, com a reciclagem, (risos) a coleta seletiva, pega tudo. Aí eu peguei, esterilizei os vidros, fiz as conservas e vendi as primeiras conservas. Depois, eu comecei a comprar, eu comecei a comprar até as tampinhas. E essa mesma moça, que apresentou pra gente a economia solidária, aqui tem um espaço chamado “Espaço Cidadania”, e, nesse local lá, tem a coordenadoria das mulheres, a coordenadoria do idoso, egressas, de igualdade racial… Tem vários segmentos e eu era uma que ainda não podia ir sozinha, porque meu ex-marido ainda nos perseguia. E aí comecei a vender nas feiras, as coisas que eu fazia. A coordenadoria colocava segurança pra gente. E aí, nesse tempo, a gente teve uma feira na rodoviária aqui de Belo Horizonte e meu ex-marido foi lá, me pegou pelo cabelo, me arrastou pela escada. Chamei a polícia de novo. Lá nesse Espaço Cidadania, ele ia seguindo a gente, tentava ‘denegrir’ a minha imagem. E eu ia pros lugares dar entrevista, mas ia de rosto coberto, com a voz distorcida. Até que eu falei: “Olha, ele vai me matar, eu não vou mais fugir, eu não vou mais esconder” e aí a coordenadoria de direito da mulher teve um evento na Praça Sete, aqui em Belo Horizonte, é uma praça onde acontece praticamente tudo. É o Centro da cidade. Eu, com um pano coberto, resolvi tirar o pano do rosto e falar: “Olha, eu sou Francisca Maria da Silva, mais conhecida como Xica, eu sofri violência, eu fiz isso, eu blábláblá”, soltei o verbo, né!? E aí, com isso, através do movimento de economia solidária, eu comecei a juntar mulheres. Juntar mulheres. Aí fui dar entrevista na televisão, de rosto aberto. Não distorci mais a voz. O que aconteceu? Ele virou um anjinho. Nunca mais me perseguiu: “Que isso? Ela é louca, eu não fiz isso, ela toma remédio controlado, isso e aquilo outro”. (risos) Mas, aí voltando um pouquinho antes, quando eu saí do hospital, resolvi me separar. “Agora eu vou me separar”. Eu fui até a juíza e falei: “Eu quero que esse homem suma da minha vida. Eu quero ficar com as minhas filhas”, porque o meu medo era ele tomar as minhas filhas. Mesmo sem um casamento formal, eu consegui. E a juíza pediu pra ele sumir da minha vida. Aí ele foi processado por dois anos, tinha que ir lá na delegacia, assinar de dois em dois meses, que não estava me perseguindo. Não tinha lei Maria da Penha ainda. Até hoje, ele andou falando umas coisas aí, um tempo atrás, mas ele é fichado na lei Maria da Penha. Mas não me perturba. Lógico que eu ainda tenho um pouco de receio, porque a pessoa que fez isso nunca vai mudar. E aí hoje, ele vive no canto dele, é casado com outra mulher, eu vivo a minha vida e ele nem resmunga pro meu lado. Está vivo lá no canto dele, mas não me persegue não.

P/1 –   Ô, Xica, como foi se tornar mãe, pra você?

R –  Olha, o meu sonho era ter uma filha. Eu falava com a minha mãe que se, até os 27 anos, eu não tivesse uma filha, eu ia arrumar um ‘mané’ qualquer e ia ter uma filha. Mas Deus me deu três. Era pra ter seis. Mas eu tenho três filhas. A minha filha, com a minha primeira filha, eu não senti dor do parto, porque foi particular e tudo mais, tomei a peridural. A segunda eu descobri que eu estava grávida dela com quatro meses, eu obesa eu pesando 108 quilos, mais ou menos, descobri que estava grávida dela. A terceira amamentando. Amamentando, não… Eu perdi o meu nenê com oito meses e uma semana de gravidez. Às vezes, tem coisa que não dá pra ficar lembrando, você tem que botar de volta pra dentro... Eu ainda com leite, tudo mais, fiquei grávida da minha filha mais nova. Que é minha vida, minhas filhas são maravilhosas. Acho que eu estou viva até hoje mais pela força que elas me dão.. Ser mãe, pra mim, foi tudo (risos).

P/1 –   E, nessa época de ir pro abrigo, quando você ainda morava junto com seu ex-marido, vocês conversavam sobre o que estava acontecendo, ou elas não conseguiam ver, muito? Como era isso?

R –  Minha filha mais velha. Na realidade, todas sentiam, menos a mais novinha. A minha filha mais velha praticamente sofreu quase tudo junto comigo. A minha violência começou quando ela estava com um aninho, foi quando ele já começou a me privar. Mas a minha filha mais velha, era o meu porto seguro. A gente conversava muito pouco, porque eu tentava passar pra elas que não era nada daquilo, que o papai era uma pessoa boa e tudo mais. Assim, eu tenho comigo que existe ex-mulher e ex-marido, mas ex-filho não. Tanto que, com tudo isso, elas não têm mágoa dele, elas não têm ódio dele. Eu, por momentos, fazia com que elas fossem visitá-lo. Inventava história, na época de Natal, Ano Novo. Como eu trabalho com bufê, era fácil mentir, eu falava com elas, fazia uma torta, alguma coisa: “Vai ficar com seu pai, porque mamãe vai trabalhar e tal”, pra elas entenderem o que era ter pai. Assim, a minha filha mais velha viveu mais, até na formatura do nono, oitavo, que antes era a oitava série, ele fugiu da ex-mulher dele, para ir na formatura dela. Foi de roupa velha, rasgada, tudo mais. Então, assim, a gente conversava, mas muito pouco, sobre isso. Algumas vezes elas presenciaram. Uma vez, eu fui assaltada, ele pediu pra eu comprar umas camisas pra ele e eu fui assaltada e ele falou que: “Não, que você estava na rua, gastando o meu dinheiro com homens” e tal, aí ele abriu meu supercílio, com murro e tal, com chutes e o que nos salvou: a bisavó das meninas estava com câncer e ele recebeu uma ligação dizendo que ela estava morrendo e aí, nesse momento, ele parou de me espancar. Quando ele me espancava, as meninas entravam. Quando era presente, as meninas entravam no meio, pra separar. E uma outra vez, que ele também estava me agredindo, ele me agrediu e tudo mais, ele me agredia e passava minutos, queria que eu fosse pro quarto, pra ter relação sexual. E aí eu saía do meu quarto e ia para o quarto das meninas. E nesse dia, eu deitei na cama da minha filha do meio e ela, simplesmente, com mãozinha pequenininha, abriu a mão e deu no meio da cara dele. Aí ele a empurrou na parede, que ela desceu assim, falei: “Nossa, ele a matou.” Então, assim, são lembranças que ela tem, mas é a que mais cuida dele, sabe? Ele a perturba, mais. Hoje ele tem 64 anos, ele é nove anos mais velho que eu. E tem diabetes, é depressivo, sabe? Então, não levou uma vida saudável, não. E vive sozinho, porque muita gente não o atura. Eu, graças a Deus, estou cercada de gente, com minhas filhas, com os netos. (risos)

P/1 –  E essa experiência de ter ido pro abrigo, como foi pra você conhecer outras mulheres, que talvez tenham passado pela mesma experiência, como foi esse momento?

R –  Olha, eu fiz família no abrigo, consegui. E hoje eu até tenho coragem de contar outras histórias. Inclusive, depois eu vou até mandar pra vocês. A Cecília teve coragem de se abrir também, uma negra linda, maravilhosa, fazendo Serviço Social agora. Eu não passei muito tempo no abrigo. No abrigo ficam de um a três meses, até você se reintegrar. Eu fiquei 45 dias. Nesses 45 dias, eu fui pra cozinha e mudei um pouco da realidade, do final de semana da cozinha, porque as moças que trabalhavam deixavam a comida pronta, tudo numa panela só. Aí eu passei a fazer a comida de casa no domingo. O arroz separado, a carne separada, colocar na mesa, a gente sentar na mesa pra comer. Hoje eu tenho uma convivência muito boa e isso eu gostaria que vocês citassem, para agradecer demais, muito mesmo, a Casa Benvinda, porque nós temos a Casa Benvinda e, depois, o Consórcio das Gerais. O primeiro caminho depois que você denuncia na delegacia, é ir para Casa Benvinda e a Casa Benvinda te encaminha pro abrigo, ou fica aqui em Belo Horizonte, ou manda pra outro lugar, quando realmente você está correndo risco de vida. Porque tudo depende da gente. Então, assim, a mulher que está sendo violentada, ela tem que querer. Se ela não quiser, não tem como a gente fazer nada. Então, a ida pro abrigo, pra mim, foi o renascer de novo, foi o renascer de novo. Tenho uma gratidão muito grande com essas pessoas, algumas das coordenadoras já se foram, não estão no nosso meio, mas estão lá em cima, velando por nós. As profissionais do abrigo, nossa, assim, não deveria ter mulher agredida, pra ter um espaço desse. Mas graças a Deus que tem. Eu acho, também, que o abrigo, o povo não divulga muito o que nós temos direito. E fala muito disso. Aqui nós temos a lei do Agosto Lilás, que é a lei contra o feminicídio. A gente tem a Lei Maria da Penha, tem leis nacionais, tem a Casa da Mulher em Brasília. Em outras cidades têm outras casas, mas é muito pouco divulgado. E aí passa aquela coisa na televisão, com artistas e tudo mais, mas não tem uma divulgação hoje, com as próprias mulheres que passaram, ou então, assim, um impresso. Talvez impresso não, porque o povo não gosta muito de ler, também, não. Acho que deveria divulgar muito, como vocês estão fazendo vídeo, tudo. Mas eu acho que isso é bacana, que as pessoas não prestam atenção para ler, ainda mais texto muito grande. Principalmente pra mim, que tem lupa, lê começo, meio e fim, acabou. (risos) Mas a experiência do abrigo foi muito boa. Foi assim, não queria ter ido, mas já que teve essa necessidade, foi o que me despertou, foi o que me trouxe de volta pra vida.

P/1 –  E, logo após do abrigo, vocês se juntaram nesse grupo de economia solidária, é isso?

R –  É, logo depois do abrigo que a gente se juntou, que a gente conheceu a economia solidária. Eu era uma pessoa que não olhava pras pessoas, eu não conversava. Hoje, se não mandar eu calar a boca, (risos) eu vou longe. (risos) Pegar o microfone é igual sorvete, só que o sorvete acaba, o microfone não. (risos) 

 

P/1 –  E como funciona, Xica? É um grupo, é uma casa onde vocês estavam sempre juntas? Como funciona?

R –  É assim: o movimento de economia solidária é tripartite na sua coordenação. Tem os gestores públicos, que pegam as demandas da gente, de leis, incentivo financeiro, essa coisa toda. E as entidades de apoio, que são as ONGs, as organizações sem fins lucrativos. Porque a maioria de nós, trabalhadores e trabalhadoras, não temos Cnpj. E essas ONGs fazem um trabalho, com esses trabalhadores e trabalhadoras, de assessoramento. Então, o que é esse assessoramento? Tanto na fase técnica, ou incentivo de divulgar o nosso trabalho, fazer projeto. Eu conheci uma ONG, que é da coordenação do Fórum - a gente tem Fórum mineiro, Fórum metropolitano - e essa ONG do fórum mineiro juntava esses globos, que a gente chama de empreendimento econômico solidário, e, na maioria desses grupos, 75% são mulheres. Mulheres arrimo de família, mulheres acima de 45 anos, em sua maioria, negra, em sua maioria, antes –  agora até que deu uma melhoradinha –  com ensino fundamental incompleto, ou, às vezes, com o analfabetismo de ler e escrever total. E aí a gente tem um GT, chama-se Grupo de Trabalho de Mulheres da Economia Solidária e aí, então, a gente, hoje, se junta pra montar esse grupo, ele chamava “Trem Bão”. Aí o “Trem Bão” não vendia muito. Aí eu falei: “Ah, gente, vamos colocar ‘Amigos de Xica?’” (risos) Aí colocamos “Amigos de Xica”. Aí, tive várias entrevistas em algumas televisões, a gente começou a divulgar e a descobrir que a gente podia fazer esses eventos e produtos. Mas, no início, era só pra conversar. Aí tinha uma, que fazia uns tapetes maravilhosos. E acredite você, vinte anos e ela ainda não saiu da violência. O homem some, desaparece, depois aparece para perturbá-la. Aí teve uma que o outro apareceu morto no aglomerado e ela conseguiu ter a vida dela. A outra fez Administração, casou de novo e Cecília trabalha, inclusive, no Consórcio das Gerais, fazendo serviço social dessas mulheres, que a gente conviveu. Mas aí hoje o bufê não tem sede, principalmente com a pandemia. Nós temos quase oitenta mil reais de equipamentos, comprados por nós, né e também equipamentos oriundos do projeto. Nós temos parceria com a União Europeia, temos parceria com o GT da Agenda 2030, que é um grupo da sociedade civil, que debate o pacto global, o combate à miséria e à pobreza. E aí, nessa coisa de ter as ONGs, as ONGs que nos ajudam nessa coisa de divulgar, de assessorar.

P/1 –   E, Xica, voltando um pouquinho, você contou de um dia importante, que foi quando você resolveu não esconder mais o rosto, não mudar mais sua voz. Como foi esse dia, pra você? O que representou esse momento?

R –  Olha, foi com muito medo, muito medo, muito medo mesmo, porque eu falei: “Agora eu vou morrer, eu vou morrer, agora ele vai me matar”. E aí, então, eu falei: “Já que eu vou morrer, eu quero dizer quem eu sou eu, porque é ele que vai me matar”. Foi muito, foi a resposta, o resultado que eu tive, eu não imaginava ter tido esse resultado, dele se afastar, me deixar um pouquinho mais assim. Pra mim, foi um dia ímpar.

P/1 –  E como é esse processo, de resgatar a autoestima?

R –  Olha, pra mim, eu só resgatei a autoestima porque… Assim, quando eu cortei o rosto todo e furei o olho, eu não me olhava mais no espelho. Esse meu olho aqui é uma prótese, ó, está vendo? Dá pra passar o dedo, tudo direitinho. Quando eu cortei o rosto todo, eu me intitulava cega. Alguém tinha que me orientar, mostrar os lugares. Eu tinha que me adaptar no lugar, porque realmente eu não estava enxergando praticamente nada. E aí, com esse grupo que nós montamos, a gente conheceu uma outra ONG, que fez um projeto pra gente, isso você pode escrever, tranquilo. A Consul tem um instituto chamando Consulado ao Lado da Mulher, inclusive é em São Paulo. E aí, eu ia escrever um projeto pra minha história sozinha e aí eles convidaram, falaram: “Não, Xica, vamos escrever com mais nove mulheres, outras mulheres também têm história” e é tudo pra gerar renda. E aí escrevemos um projeto, para essas nove mulheres. Quando nós montamos com isso tudo, com a história da Xica, vieram mulheres e mulheres e mulheres, grupos e grupos e eu falei: “Gente, então não dá pra colocar todo mundo no bufê”. Então, nós montamos outros grupos pequenos e aí se chamou de rede de alimentação e colocamos o nome de “Rede de Alimentação Sabor Mineiro Uai”. E quem coordenava era eu, pelo bufê Amigos de Xica. E aí, então tá, vamos fazer, então, um projeto para essas mulheres. Aí fizemos um projeto para Cônsul, Consulado ao Lado da Mulher, o instituto e nós fomos premiadas com geladeira, freezer, forno, máquina de lavar. E aí, com isso, eu fui convidada a ir à São Paulo, para dar uma palestra. E, lá em São Paulo, com um monte de empresário lá, cento e cinquenta, mais ou menos. Aí eu fui. Na minha palestra, a secretária executiva da Consul perguntou pra mim: “Qual que é o seu maior desejo, qual é o seu maior sonho?” Aí eu falei: “Eu tenho dois sonhos: um é fazer a plástica do meu olho, porque meu olho é fundo” –  foi em 2013 –   “e ver uma das minhas filhas, pelo menos uma das minhas filhas se formar na faculdade”. E teve um jantar maravilhoso, pra todo mundo, com esses empresários e tal. Quando terminou o jantar, a secretária falou: “Xica, tem um empresário que não quer se identificar, que falou que eu posso levar você até para o exterior, para fazer a plástica do seu olho”. Aí, aquilo, pra mim, foi tudo na vida. Aí ela me pegou e falou: “Ah, você quer ir pro exterior, você quer ficar no Brasil, pra onde você quer ir?” Falei: “Ó, eu vou pra onde você quiser me levar”. (risos) E aí ela me levou pra Joinville, num hospital chamado sadalla e aí, nesse hospital, eu cheguei lá e vi que não era plástica, era colocar uma prótese. Eu tenho o globo do meu olho aqui direitinho, não é morto, só que eu não enxergo, porque furou, cortou a córnea. Eu, sei lá, se eu tivesse cuidado, uns três anos antes, eu voltava a enxergar. Mas aí, como eu não cuidei, eu não enxergo mais dele. E aí eu coloquei uma prótese, através desse empresário, Deus abençoe a vida dele. Coloquei essa prótese e aí eu lembro que elas brincaram comigo. Cheguei lá, trouxeram uma caixa com um monte de olho, assim. Aí ela começou a escolher os olhos e tal, colocou em mim, aí ela falou: “Vai olhar no espelho”, falei: “Não, não vou olhar e tal”. Eu passava em frente ao espelho de costas, de lado, tal. E aí foi até que ela falou: “Não, você vai olhar”. Aí ela foi e colocou um olho azul (risos). Aí eu: “Nossa, tenho olho azul!” (risos) Aí depois ela pegou um olho igualzinho, que era esse, inclusive, nem precisou mandar fazer. Ela colocou essa prótese, aí só ficou um pouquinho, meio inchado, assim, mas aí só precisou fazer um ‘pick’ de laser. E eu fiquei lá o dia inteiro, andando com essa prótese. Aí depois voltei pra casa, aqui, em Ribeirão das Neves, onde eu moro. E eu fui lá duas vezes fazer esse procedimento e coloquei a prótese. E a partir daí eu cortei aquela coisa daquela tristeza de não olhar no espelho. Aí, então, até 2017, assim, tanto que você percebe, eu não tô maquiada. Eu não tenho muita intimidade com o espelho não. (risos) Mas hoje eu olho no espelho, eu mesma que escovei o cabelo, passo um batom, aquela coisa toda, mas, assim, pra mim, ainda, acho que as pessoas percebem que eu não enxergo, acho que o meu rosto parece que está aberto, mas as coisinhas que, com o tempo, vão passar.

P/1 –   E, Xica, você se lembra do seu primeiro evento com o bufê?

R –  Primeiro evento, foi para o Instituto Marista de Solidariedade. Nossa, fiz tanta coisa, tanta coisa! Tinha um psicólogo chamado Wilson, Wilson Fernandes, já se foi também. Nossa, ele foi um amigo na minha vida, foi uma pessoa que pagou pra ver tudo da nossa vida. Nós fizemos um evento enorme, eu coordenei um evento na conferência de economia solidária e era, mais ou menos, em torno de umas oitocentas pessoas. Café da manhã, almoço e lanche da tarde, jantar. E eu lembro que, nesse evento, juntou todo mundo, nós sentamos, vimos o valor, compramos tudo e dividimos a sobra, um pouquinho. No capitalismo fala lucro. Então, eu sei que cada pessoa, a gente trabalhou em torno de umas 28 pessoas, mais ou menos, cada pessoa recebeu, na época, um dinheirão, tipo mil e poucos reais, mas foi muito dinheiro. E tudo que sobrou: arroz, feijão e tal, nós dividimos tudo igualzinho, pra cada uma. Então, esse foi o evento que marcou a minha vida. E a gente teve, encomenda de salgadinho ali, encomenda de salgadinho aqui. E, inclusive, a gente não tinha cozinha, não tinha panela, a gente não tinha praticamente nada. Aí, o Doutor Wilson tinha um espaço deles, ele falou: “Olha, vou te dar esse espaço lá para você montar o grupo lá”. Aí chegamos lá, tinha um forno todo desmontado e três baldes de mel, uma geladeira sem gás, um fogão todo entupido. Aí ele falou: “Ah, embala o mel e vende o mel, pra vocês começarem a trabalhar”. E tinha esse evento, então, esse evento grande. Mas eu estou aqui lembrando que, na realidade, o primeiro foi com os carroceiros, na UFMG. Nossa, volta essa lembrança lá trás,  mas é bom lembrar (risos). Eu fiz feijão tropeiro, arroz, pernil, couve pros carroceiros. E aí, nós pegamos esse dinheiro, a metade, arrumamos a geladeira e o forno e o mel a gente acabou dando pros outros, a gente não vendeu, dei tudo. Era um mel lá de Paracatu, de abelha de florada de jasmim do campo. Então, foi mais ou menos isso. E o segundo foi esse grande que a gente pegou, que eu coordenei. Aí tem vários outros, aí teve evento que a gente fez para duas mil pessoas, pro ex-presidente Lula. Fizemos evento aí com mil pessoas, com o povo metalúrgico, com o sindicato dos metalúrgicos. Fizemos outro com mais ou menos duas mil pessoas, pra CUT. Fora casamentos e casamentos, festas de quinze anos e muita coisa. (risos) É marmitex lá pra essa coisa de Brumadinho. Três mil marmitex pra o povo lá, a gente foi lá numa manifestação. Então, tem muita coisa. Tem, ao longo desses anos aí, foi muita coisa. É também, Cáritas brasileira, tudo que eles fazem de evento grande, a gente passa pelo crivo. A gente entra no edital, manda a documentação toda. Hoje o bufê tem CNPJ, tem contabilidade, tem tudo. Então, entro lá no site, não é dedo, não.! Não é: “Ah, ela vai fazer”, não é isso, não! A gente passa por todas as etapas e aí, com certeza, a gente arruma preço. Já aconteceu da gente perder alguns também. Mas a gente consegue entrar nos editais, eventos pro estado, muita coisa.

P/1 –  Queria saber como é essa relação com a cozinha, como você se sente cozinhando, estando na cozinha, o que você gosta de cozinhar.

R –  Eu gosto de tudo. Eu gosto de panelão. Eu não gosto de cozinhar para marmita. Não gosto de colocar comida em marmita. Eu gosto de fazer diversidade, colocar aquela diversidade na mesa e, assim, muito enfeitado, acho que até o arroz tem que enfeitar. Porque tudo o que você olha com os olhos, primeiro você come com os olhos, depois você degusta. Eu gosto de desafios, sabe? Eu não gosto muito de ‘gourmetizar’ a comida. Tipo assim: feijão tropeiro é feijão tropeiro, galinhada é galinhada. Mas eu gosto muito de fazer um ora-pro-nóbis com frango, frango com quiabo, um tutu, um torresmo, que é muito bom. Mas também gosto de pegar outros desafios aí, fazer tipo a moqueca lá da Bahia e fazer um frango, pato no tucupi, que é lá de Belém. Então, assim, fazer uma comida alemã, uma comida francesa, apesar de: “Hablo um pouquinho de espanhol e nada no inglês, speak inglês no”. (risos) Mas eu, assim, me ilumino muito nesses grandes chefes, mas, assim, pra cozinhar, se você me der farinha de trigo e água e sal, sai alguma coisa.

P/1 –  E, Xica, pra você, qual que é o diferencial da economia solidária, em relação a esses outros tipos de empreendimentos?

R –  Olha, o diferencial da economia solidária é que a gente trabalha na autogestão, na valorização, principalmente, do ser humano. Porque, às vezes, você pega essa roupinha aqui, você compra aí da China e tal, a gente entende que a maioria das vezes tem trabalho escravo, tem trabalho infantil e na economia solidária, não, você sabe quem fez, de onde vem, quanto tempo a pessoa levou pra fazer. E esse trabalho foi feito no coletivo. A gente sabe que a gente tenta o máximo possível não colocar conservantes nas coisas, a gente tenta o possível e o impossível de plantar algo sem veneno. Então, assim, a primeira coisa: quem limpa o chão, quem cozinha, quem conta o dinheiro, quem vende, quem compra, tem o mesmo valor daquele doutor que fez doutorado lá não sei onde. Porque hoje, você vai fazer uma comida, pra fazer uma comida a panela tem que estar limpa, para trabalhar no espaço, o espaço tem que estar limpo. Se quem cozinha, quem limpa, quem produz, o valor é o mesmo. Então, o diferencial é a valorização do ser humano, da autogestão.

P/1 –  E quais foram e são as maiores dificuldades que você enfrenta?

R –  Olha, eu não discuto igualdade racial, mas, assim, já sofri muita discriminação. E depois que eu saí da violência, eu falo muito. Às vezes, chego em certo lugar e falam: “Aquela louca vai falar”. (risos). Aí, quando você vê uma mulher, você percebe que a mulher está sofrendo violência, que você fala: “Ah lá, a feminista!” E a maioria das vezes já sofri muito, o povo confunde feminismo com orientação sexual. E achava que feminista são as lésbicas, as gays, as trans. Então, todos nós somos feministas, a partir do momento que a gente tem autonomia de si mesma, então nós somos feministas. Por ser mulher, nesse mundo nosso, ainda, em pleno século XXI, a gente ainda recebe menos que os homens. A gente tem uma profissão igualzinha a deles, a nossa jornada de trabalho é bem maior. Porque, principalmente quem tem o seu esposo ou namorado, ela, além de arrumar a casa, lava, ela passa, ela cuida do filho, amamenta. E ainda tem que dar atenção pro marido. Na maioria das vezes, o marido que não ajuda nos seus afazeres de casa. Hoje, graças a Deus, tem muitos aí –  é bom que nós temos um menino escutando a gente –  que falam: “Não, eu vou ajudar minha namorada, eu vou ajudar minha esposa, eu vou ajudar minha mãe, eu vou ajudar minha tia”. Os homens, hoje, estão abrindo um pouco mais a mente, mas ainda está muito aquém. Então, esse desafio de você ter dupla jornada, tripla jornada de trabalho. Essa coisa de ser mulher e ainda por cima eu, aos 57 anos. Pra gente é muito mais difícil, sabe? Você chega na maioria dos lugares, eu não tenho preconceito nenhum, nenhum. Como eu disse, não discuto igualdade racial, que é pra não entrar nesse embate, porque corta aqui, corta no branco, é a mesma coisa, o sangue é o mesmo. Mas a gente vê, fala que a escravidão acabou. Não, não acabou. Tem muitos lugares que ainda tem. Esse desafio da gente se apropriar do espaço onde você está, ainda é muito difícil. É muito complicado.

P/1 –  E os maiores aprendizados, ao longo dessa sua experiência com a rede, com o bufê, com outras mulheres?

R –  Olha, isso pra mim, eu falo assim, desculpa do palavreado. Mas até um chute na bunda me manda pra frente. Quando eu chegava no supermercado e falavam: “Não, coitadinha, lê pra ela aí, que ela não sabe ler, não”. Eu olhava assim. “Ai, coitada, vamos comprar dela, porque ela tem três filhas pra tratar”. Eu chorava, eu falava: “Ah, quer saber, pode ter dó, então compra”. E aí eu falei, nesse longo caminho da economia solidária, eu fiz uma formação, nos princípios do Paulo Freire, da educação popular. Nós temos um grupo, eu sou da rede de formadores estadual e nacional de economia solidária, de empoderamento da mulher, atuo na formação de grupo, montagem de fóruns e tudo mais. E aí, um dia, me convidaram pra dar uma aula, uma aula magna, lá na Ufmg, na federal e eu ia receber um recurso. E quando falaram que ia me pagar, eu não podia receber, porque eu não tinha curso superior. Aí precisou de uma pessoa ficar do meu lado e eu dei a aula que essa pessoa com curso superior recebeu em meu nome, pra mim, mas me deu o dinheiro, tudo direitinho. Aí eu falei: “Quer saber de uma coisa? Eu vou estudar também, uai, por que não.” Aí, com o incentivo também das minhas filhas, eu fiz o Encceja do ensino fundamental, passei, fiz o Encceja do ensino médio, passei também. No primeiro, em Matemática eu não passei e fiz de novo, passei. Matemática, gente, só Jesus. (risos) Na Matemática. A comida tem química, matemática do mesmo jeito. E aí, quando foi agora, em meio à pandemia aí, final de 2020, eu fiz um vestibular de Gastronomia e passei. Então, hoje eu sou graduanda em Gastronomia, mas não porque eu tenho que ter um certificado debaixo do braço. Eu não vou parar de falar aqui, que a Academia veio pra organizar as palavras. Tudo, você escreve tudo bonitinho. A gente fala “Ah, tô cagando e andando pra você”. A academia: “Estou locomovendo e defecando por você”. Assim, essas palavras bonitas. (risos). Mas pra mim, é o aprendizado de encorajamento, de cada desafio, você não levar como uma coisa que vai te jogar pra baixo, mas o desafio te encoraja, pra você fazer outras coisas. E hoje superfeliz. A minha filha mais velha está no último período de Direito, a minha filha do meio fez técnico em Farmácia e está fazendo faculdade de Farmácia, a mais nova fez Secretariado técnico e agora ela começou a fazer Marketing, trancou, por causa dessa pandemia, deu uma reviravolta na nossa vida. Mas esse aprendizado, a gente não para de aprender nunca. Então, a cada momento você aprende uma coisa. Eu ainda pretendo fazer um inglês fluente, não sei quando não, (risos) mas pretendo. É um desafio. E aí, uma das outras coisas também é parar pra escrever também. Quem sabe arranjar um namorado. Eu quero de um metro e setenta, mas se tiver um baixinho também, não tem problema não. Mas que esteja resolvido na vida. (risos) É mais ou menos isso.

P/1 –   E, Xica, como foi voltar aos estudos?

R –  Muito triste, muito triste, porque eu lia dois, três livros por mês. O último livro que eu li completo foi Oswaldo França Júnior, Recordações de Amar em Cuba. E aí, depois que eu sofri o acidente, eu decidi: “eu vou estudar”. Eu lia, eu via as letras e eu não conseguia ver. Eu não conseguia identificar e aí eu sofria muito. Aí, o médico falou que eu não podia usar óculos, porque eu tenho tireoide, eu ia ficar cega. Aí eu falei “tá” e aí eu comecei até a fazer o braile, depois eu falei: “Ah, não vou fazer braile, não”. Aí peguei uma lupinha, peguei uma lupa e eu comecei hoje… Aí tem a horta, que daqui a pouco vou te falar, que também trouxe outra vitalidade pra minha vida. Eu estava tomando vitamina D, pro sol, aí fui pra horta e a minha visão voltou, tipo, sei lá, uns 45%. Só uma pausinha, só um minutinho.

P/1 –  Me conta do seu trabalho na prefeitura, então.

R –  Bom, por causa dessa coisa de sempre trabalhar com alimento. Inclusive, até de, como eu disse, trabalhar com aproveitamento integral e nutricional dos alimentos, eu fui convidada pela secretária de assistência, a assumir a segurança alimentar de Ribeirão das Neves, que tem o banco de alimentos, que é o foco maior. Tem todo um trabalho, mas o banco de alimentos é o foco maior. E aí, lá eu fiquei durante 2017, 2018, quando chegou em fevereiro de 2019 eu saí, eu pedi exoneração. Falei: “Não, não dá”. Tinha um cargo de confiança, até porque, também, se eu não falei, segurança alimentar, pra mim, é o foco, é tudo. Pra mim, estava muito bom, mas aí, como eu falei, essa coisa da gente não poder fazer mais, o sistema é engessado. Tudo tinha uma morosidade muito grande. E aí, quando foi em fevereiro, talvez a minha saída também tenha culminado por isso, eles me trocaram de setor, me convidaram para assumir uma pasta chamada “Assessoria especial de políticas públicas para as mulheres”. Mas, na realidade, era para fazer o quê? Não tinha nada, não podia fazer nada! Nessa assessoria, eu ficava andando atrás do prefeito, ficava no gabinete. Eu sou de pôr a mão na massa, sabe, eu gosto de algo sólido, essa coisa abstrata, pra mim, não funciona. E aí eu pedi exoneração, assumi de volta mesmo, o bufê. Começamos a trabalhar. E essa passagem pela prefeitura, pra mim, foi uma experiência, assim, que posso considerar boa, mas com muitos desafios, até porque, como eu te disse, com ensino fundamental incompleto, as pessoas acham que a gente não é técnico, que a gente não sabe fazer e a maioria do povo, superintendente, apesar que meu superintendente era uma gracinha, um chefe que não era chefe, era meu amigo mesmo, mas as outras pessoas olhavam pra gente como se a gente não fosse ninguém. Inclusive, já chegou vez de secretário falar assim: “Olha, se fosse a época da escravidão” –  vocês podem escrever. (risos) –  “você estava amarrada no toco lá da minha casa, fazendo comida pra mim”. Falei: “Amarrada eu não estava, estava porque eu ia querer estar, porque eu sou boa, eu sou excelente cozinheira, mas aqui eu não sou cozinheira”. E a maioria das secretarias me via como cozinheira, não me via como técnica de uma política. Então, assim, eu mudei a realidade do banco. Quando eu fui pra lá, a gente recebia em torno de seiscentos quilos de coisas, de produtos, eu saí do banco, deixando recebendo 22 toneladas de arrecadação e a gente tinha em torno de 45, 46 entidades de apoio, a gente fazia reunião com elas e elas pegavam esse produto e doavam pras famílias que precisavam. E isso, sem contar que, eu busquei um recurso em Brasília, de uma política para os agricultores, onde eu comprava dos agricultores tudo que era da agricultura familiar, pra levar pro banco, pra ser doado. Todo o prefeito, ou todo o executivo, se ele pensar bem, ele pode transformar uma cidade que passa fome em uma cidade com qualidade de vida. Porque passando fome não tem saúde. E se não tem saúde, tem desequilíbrio na cidade. E aqui é uma cidade que tem 380 mil habitantes, mais ou menos. Uma cidade onde os políticos vêm morar. Hoje é uma cidade maravilhosa. Mudou a realidade da cidade. Mas, pra mim, certos assessores, emperram a gente de trabalhar. Aí eu falei: “Não, vou ser da sociedade civil, dona do meu nariz, que ninguém manda em mim”. Desde que cortaram, tiraram as ataduras e as correntes, ninguém me segura. (risos) Mas eu contribuo, mesmo sendo da sociedade civil, eu ainda contribuo  com a gestão, são pessoas que eu gosto, saí pela porta da frente.

P/1 –   E, Xica, o que representou, pra você, ter recuperado a sua independência financeira?

R –  Olha, ainda falta um bocadinho ainda, viu? (risos) Falta um bocadinho, por quê? Quando eu me separei, a minha casa, que não era a minha casa, era do meu ex-marido, era comprada pela Caixa, ela foi pra leilão. E aí eu tive essa violência de ser despejada da minha casa. Depois que eu conheci a economia solidária, conheci essas mulheres, o nosso sonho - porque hoje virou o sonho de outras mulheres também - é ter uma cozinha experimental, pra gente conseguir pegar tudo aquilo que não é bom para comercialização, mas sim pro consumo, tornar em outro produto e aproveitar, integral e nutricionalmente, os alimentos. Pra mim, fazer a cozinha, ter essa cozinha, é um desafio muito grande. Então, a minha autonomia financeira ainda não se deu, porque eu moro de aluguel. Você tem que trabalhar pra pagar, aquilo que é pros outros. Então, agora, no início agora do ano, eu consegui adquirir um pedacinho de terra, tô pagando o financiamento e comecei a fazer essa cozinha. A cozinha já está com as paredes levantadas e, quem sabe até o final do ano, chamo vocês pra inauguração. Mas, assim, ter autonomia financeira é tudo, você ter um dinheiro que você chegue numa loja, consumir ordenadamente, não tem que comprar dez sapatos, vinte calças, duzentas blusas. Então, você comprar um sapato, sem preocupar muito com o valor, mas dentro do que você entende que não é consumismo desordenado, mas, pra mim, hoje, é olhar pra minha geladeira e eu querer comer quase tudo aquilo que eu quero comer, olhar pro meu cesto de frutas, ter frutas, apesar que a gente compra no supermercado e está cheio de veneno. Mas, pra mim, foi assim, o boom da minha vida e eu espero que melhore cada dia mais. Como é que fala? Essa autonomia financeira, que a gente tanto fala.

P/1 –  E, Xica, tem algum evento, teve algum momento que, pra você, foi mais marcante e você queira dividir com a gente, ao longo dessa sua história inteira com o bufê?

R –  Teve. Teve vários eventos que a gente fez, assim: uma coisa que marca, pra mim, nos eventos, é o seguinte… nas empresas capitalistas eles fazem conta até da casca da banana, porque a casca da banana a gente pode fazer bolo. Depois que terminam os eventos, a gente leva umas vasilhas de isopor, de marmitex e deixa as pessoas levarem e, no final, quando ninguém quer levar, se o dono do evento não quer, a gente para em aglomerados e a gente doa toda a comida. Então, isso é, pra nós é gratificante, porque as pessoas ficam: “Nossa, é comida novinha, nossa!”, entendeu? Então, assim, não sei, não lembro agora o número da lei, eu fui numa audiência em Brasília, para discutir a lei do desperdício. [Trecho retirado pela autora] Tem uma lei hoje contra o desperdício, porque os grandes restaurantes não podem jogar fora. Com cuidado, com muita higiene, pode doar essa alimentação. Então, assim, pra mim, hoje, todos os eventos, eu falo que cada mergulho é um flash, mas, assim, acho que um dos eventos mesmo que me marcou, que me marcou meeeesmo, foi um evento que não teve retorno financeiro. Foi um evento que eu nunca tinha tido. As minhas filhas tentaram fazer uma surpresa pra mim, de aniversário, chamada “O Arraiá da Xica”, com mais de duzentos convidados. E aí, no final, minha filha falou: “Mãe, dá pra você fazer a comida do seu evento, da sua surpresa?” (risos) Então, esse evento, pra mim, eu chorei muito porque, quando eu sofri o acidente, lá no leito do hospital, eu pedi a Deus pra que eu vivesse até cinquenta anos, pra eu ver minha filha mais nova com dezenove. Eu falo que hoje eu tô fazendo hora extra aqui, eu tô com 57. (risos) Então, cada evento que eu faço, não sou eu que faço, sozinha eu não consigo fazer nada, com as meninas, com as minhas colaboradoras, com as minhas filhas. Porque, de um jeito ou de outro, mesmo com as minhas filhas trabalhando em outros lugares, elas são envolvidas também nos eventos. Minha filha mais velha é minha sócia no bufê, a minha filha do meio decora quando não tem dinheiro pra pagar um decorador. Decora com frutas, faz aqueles bichinhos, faz aquelas coisas todas. Hoje, nessa pandemia, eu trabalho entregando lanche pra população de rua, é um contrato e uma das meninas veio morar na minha casa, porque ela mora muito longe e a gente acorda vinte pras quatro todo dia, pra fazer quinhentos lanches. Tanto que, na hora que eu fiz a mão aqui, o motorista estava chegando pra pegar. (risos) Então, assim, tudo pra gente é gratificante. Teve uma grande feira, que nós fizemos, inclusive, um evento com a Teia. Eu fui na Teia em São Paulo e depois nós fizemos um evento em parceria com a Teia de Minas. E eu estava fazendo a comida de todo mundo, tipo, sei lá, umas quatro mil pessoas. E me chamaram no microfone: “Xica, Xica, alguém quer falar com você”. Tipo assim, né: “Senhora Francisca”, aí eu não escutei. Aí, quando falou “Xica da Silva, estão te chamando!”, aí eu fui ver. (risos) Cheguei, tinha uma fila, tinha umas mulheres, uns homens chiquetésimos, negros, maravilhosos! Eu falei: “Gente!” “Não, a gente veio aqui te conhecer, porque a gente viu você dando entrevista na televisão e aí essa minha amiga, Maria das Graças, tinha perdido o filho, o filho dela foi tombado.” Falar aqui, quando eles matam e tal. Ela encontrou o filho morto, com mais três, no matagal. E desde que ela encontrou o filho morto, ela entrou em depressão, não queria mais sair da cama, aquela coisa toda, tinha uns dois, três anos que ela estava na cama. Quando ela viu minha a entrevista, ela falou: “Eu vou lá conhecer essa mulher, vou perguntar pra ela como é que ela saiu”. Hoje essa mulher faz salgado, faz doce, ela e a mãe dela. Também montou um empreendimento chamado “Menina da Zilda”, porque a Zilda que mandou: “Vai lá, vai ver essa mulher!” Então, da mesma forma que eu me espelhei em Ana Maria, ela se espelhou em mim. Com um diferencial, Ana Maria, tinha posse, era jornalista, trabalhava na televisão. E ela me viu através da telinha, da Rede Minas. Hoje ela também ajuda outras mulheres a sair da depressão, a cuidar de outras mulheres. Cada evento é muito importante pra gente. Não vou falar que “a” ou “b” foi mais importante, mas o meu, do meu aniversário, (risos), foi ‘O’ evento.

P/1 –  E, Xica, como você começou a se envolver, engajar no movimento social?

R –  Foi através dessa moça, essa assistente, ela é técnica, formada em Ciências Sociais. Adriana Silveira, que apresentou pra gente a economia solidária. E, logo que eu fui, depois de uma ou duas reuniões, eu acho, já me convidaram pra entrar na coordenação. Aí eu entrei na coordenação metropolitana. Não, melhor, do fórum mineiro, porque primeiro começou o fórum mineiro, depois voltou pro metropolitano e depois municipal. Entrei no fórum mineiro, que tinha a coordenação nacional. Hoje eu participo da coordenação metropolitana, aqui em torno de Belo Horizonte tem 44 municípios, mas são seis fóruns e Minas nós temos quinze regionais e no Brasil nós temos 27 fóruns, 28 com o do DF. Então, nós temos fórum de economia solidária no Brasil inteiro e também tem na Argentina muito forte, no Canadá. Em Toronto, por exemplo, tem uma avenida, em Toronto, onde as melhores lojas são de economia solidária. No Rio Grande do Sul tem um evento que acontece uma vez por ano, chamado O Maior Evento de Cooperativismo de Economia Solidária, que acontece em julho, nesses dois anos de pandemia não teve. Nesses dois anos não teve, mas a gente pretende voltar agora. Então, engajei quando conheci a economia solidária.

P/1 –  E como foi a experiência de ter participado, de alguma forma, da criação da lei Maria da Penha?

R –  Olha, na realidade não citaram, a entrevistadora não citou. Mas, lá no Rio Grande do Sul, em volta do Rio Guaíba, no Fórum Social Mundial, aquela parte que falam que o policial ou a policial tem que ir com a agredida na casa dela, pra pegar as coisas, aquela fala fui eu que fiz. Eu denunciei oito vezes e, nessas oito vezes, quem trouxe a citação na mão fui eu e não tive coragem de entregar. Então, assim, eu me sinto muito honrada pela lei Maria da Penha, apesar de que ainda há muita deficiência. Hoje ela tem várias emendas, mas a lei Maria da Penha eu acho eficaz, pelo menos tem e eu acho que tem que divulgar mais, não porque fez quinze anos, não porque Maria da Penha ainda está viva, mas é porque tem muitas Marias da Penha, muitas Xicas da Silva aí, sofrendo agressão. Feliz com a lei, mas triste por outro lado, porque não deveria existir, e a lei, às vezes, não é cumprida.

P/1 –  E, Xica, você quer contar um pouquinho dessa horta?

R –  Bom… ah, é! Quando veio pandemia, eu falei: “E agora, como é que nós vamos fazer?” Eu fui contemplada, porque eu falei: “Ah, não ganhei nem um auxílio, não tô ganhando nem abobrinha no final de xepa, da feira”. E aí, um amigo meu, professor Leonardo Cury, falou: “Olha, tem a Lei de Incentivo à Cultura. Você é um patrimônio cultural”. Falei: “Eu, como assim, que patrimônio cultural?” “Você é mestre da cozinha típica mineira”. Porque eu tenho muitas fotos em feiras livres, fazendo feijão tropeiro na frente de todo mundo, galinhada. Muitas coisas, muitas comidas típicas nossas, aqui. Aí ele falou: “Escreve um projeto e traz pra lei Aldir Blanc”. Aí eu fui contemplada com um prêmio da lei Aldir Blanc e eu falei: “Ah, é bom, já que eu não tenho como ajudar minhas amigas e a gente não está tendo dinheiro pra comprar as coisas, tem muitas vivendo de cesta básica, eu vou fazer o complemento da cesta básica”. Aí eu fiz um projetinho chamado “Fortalecimento da alimentação adequada para todo cidadão e cidadã, gente que faz”. E aí, aluguei um terreninho, investi parte desse recurso por seis meses nesse terreno, e estamos lá, plantando horta. Aí, essas moças, são 22, chega até mais, mas aí o número exato é 22, vão lá, me ajudam a capinar, me ajudam a limpar, me ajudam a plantar e levam verdura pra casa. E tem família que chega sem dinheiro também, aquilo que está excedente, que eu vejo que vai perder, antes de perder, eu dou. E abracei também três lares de idosos. De quinze em quinze dias, eles vão lá, a assistente social vai lá buscar as verduras. Tendo excedente ou não, eu dou pra eles, para que eles possam ter uma alimentação balanceada. E fiquei até feliz essa semana, que teve um dos abrigos, do lar do idoso, que a vigilância sanitária tinha notificado, junto com a nutricionista, porque eles estavam comendo só carboidratos e muita pouca vitamina. E aí agora eles foram lá e deram nota dez, porque viram a geladeira cheia de verdura e não tinha só carboidratos. Aí, então, estou contribuindo para alguma coisa. Essa horta é pra gente, hoje, como eu te falei, é o boom. (risos) Então, é uma das últimas coisas. Eu acordo aqui vinte pras quatro, resolvo a questão do lanche, por volta das sete e pouquinho eu vou pra horta, fico na horta até umas cinco e meia, seis horas, depois eu volto pra casa. E a cozinha é do lado desse terreno. A cozinha que nós estamos fazendo.

P/1 –  E como é essa experiência de horta, você lembra, acaba lembrando da sua infância? Como é esse momento, pra você?

R –  Acabo… acabo sim, porque hoje tem muita tecnologia. Antes a gente capinava na enxada, não tinha trator, não tinha aquelas coisas todas. E, assim, eu tô feliz de estar nesse momento, dessa horta. Primeiro que me trouxe saúde, me trouxe saúde. E a outra coisa é a possibilidade de plantar sem veneno, de você saber o que você está comendo, de você saber o que você está levando pra mesa. Isso, pra mim, é muito importante. Está me fazendo muito bem. Esse momento da horta está, assim, qualidade de vida.

P/1 –  Xica, como é o seu dia a dia?

R –  Ai, o meu dia a dia é um turbilhão (risos). É filhos e filhas. Porque eu falo “filhos e filhas”, eu tenho vários filhos do coração. E aí é conversar com a filha mais velha, a filha mais nova que tem ciúme e aí a filha do coração que fala que eu não tô dando atenção e aí são os netos que querem vir e ficar três dias comigo. Aí eu tenho uma neta de onze anos que quer morar comigo de qualquer jeito e a mãe não deixa. E, assim, eu não tenho, eu ainda não tenho vida social direito. As minhas filhas brigam muito falando que eu devo viajar, que eu devo sair. Eu viajo muito, mas eu viajo pra dar palestra, assim, as prefeituras do interior pagam minha passagem, mandam me buscar de carro, mas é tudo a trabalho. Eu vejo isso como lazer, elas não veem como lazer, mas, assim, eu quero voltar a ter uma vida social. Eu não sei se eu tenho tempo mais de sentar no boteco, tomar uma cerveja. (risos). E tudo o que eu faço eu consigo conciliar essa minha vida social, com a vida de trabalho. É igual sábado, a gente fez um encontro aqui das meninas, desabafaram, choraram, descobri até coisas das minha filhas que eu nem sabia. Então, assim, uma tinha ciúme da outra, eu não sabia também. Mas, assim, o meu dia a dia é muito corrido, ele é muito corrido, mas eu consigo, do meu jeito desorganizado, (risos) organizar alguma coisa. Sou envolvida em muitas coisas. Olha, eu estou conselheira do Conselho de Segurança Alimentar, coordenadora nacional, estadual e metropolitana do movimento de economia solidária, coordenando a horta, coordenando o bufê, palestrante em “n” coisas. Eu estava agora na rede de tratamento à violência contra a mulher e no Conselho da Mulher. Mas aí eu pedi licença desses dois, porque estava virando meio partidário.... Aí sem contar, esqueci de dizer: até 2016 eu fui candidata em todos os pleitos. Candidata em 2008, candidata em 2010, candidata em 2012, candidata em 2014, candidata em 2016. Eu entrei nesse mundo político pra ver o que era isso. 2008 e 2010 eu não sabia, 2012 eu já sabia, 2014 eu deixei me usar, eu fui candidata a deputada federal, tive 2.392 votos, sem sair de casa. Fui votada em 119 cidades. 2016 registrei, dei baixa. A partir de 2016 eu falei: “Não vou ser candidata, mais”, por quê? Nós, mulheres, sofremos muito nesse meio de político. Desculpa, o menino que está aí, mas os homens sobem aqui, ó, eles põem o pezinho deles no nosso ombro, o pé esquerdo e sobem. Aí, na hora que você está conseguindo subir o degrau, ele pega o pé esquerdo e te joga pra trás. Eles ganham a eleição e nem lembram que você existe mais. Então, eu falei: “Não vou mexer com esse mundo partidário, vou mexer com políticas públicas”. E, assim, sou assediada a todo momento. Inclusive, agora eu tô sem partido, pra ninguém falar: “Você tem que sair candidata, porque você tem partido”. Eu sou, tenho ideologia de esquerda. Fui do PT [Partido dos Trabalhadores] dois anos, fui do PSB 40 [Partido Socialista Brasileiro] por catorze anos e agora eu falei: “Olha, tô sem partido, porque o partido que eu quero defender é um partido com mulheres, apesar que aqui é o partido da mulher brasileira, mas ele só tem homem. (risos). Então, não adianta! Eu quero defender viver, quero defender ser feliz. Se amanhã ou depois, eu voltar para esse lado político-partidário, tem que ser com muita consciência, com muita firmeza, porque até então meu coração não pede. E minhas filhas também ficam: “Mãe, não envolve nisso não, é muito sofrimento, é muito abuso, é muito desrespeito.” Então, nesse mundo político-partidário, nós mulheres, a gente sofre muito. E eu preferi: “Ah, vamos deixar isso pra lá”. Tem muita conversa, o povo vem aqui. Até falei que, quem entra na horta, se me desse um real falando de política partidária, eu já tinha terminado de construir minha cozinha, de tanto que entra. Mas a gente sabe que conversa, entra aqui, sai aqui, então, fazer igual lá na roça, fazer ouvido da gente de paiol. (risos). Mas, enfim, minha vida é mais ou menos isso, cada mergulho é um flash. (risos)

P/1 –   Ô, Xica, já são onze e quarenta. Tudo bem a gente ir caminhando pro fim e eu fazer algumas perguntinhas ainda?

R –  Pode, pode. Já estamos em segurança alimentar, mas a gente pode ir até, tipo, meio-dia, meio-dia e dez, eu acho que dá pra ir (risos)

P/1 –  E me conta: hoje, quais são as atividades que você mais gosta de fazer, que te motivam, no dia a dia?

R –  Primeiro, conversar com as minhas filhas, ouvir minhas filhas. Isso, pra mim, é fundamental. Minhas filhas e meus netos, eu tenho duas netas e um neto.  E eu amo cozinhar, amo cozinhar, amo de paixão e cuidar da minha horta e também conversar com meus amigos, ouvir meus amigos. Cada hora chega uma, cada hora chega outra. [Trecho retirado pelo autora] Então, quando você faz essa roda de conversa e as pessoas acreditam em você, veem você como um espelho. Eu até fiz, ontem, foi uma roda de conversa de quatorze mulheres, até esta aqui do meu lado, eu vou te mostrar. Aí, entre elas, eu cheguei e falei assim: “Olha, de vocês todas, eu escolhi uma, que eu vou dar nota dez”. Todas ficaram: “Quem será, quem será?” E aí, então, eu sei que não vai dar pra vocês três verem, mas, por você, eu vou dar nota dez pra uma de vocês. Mas você vai ver os três. Aí eu fiz isso pra elas. Está vendo? Elas: “Sua nota dez” e eu fui passando. Então, todas têm essa importância, de não ser menos ou mais. Então, foi uma coisa que elas se assustaram. Então, o que eu mais gosto de fazer, entre essas coisas, primeiro é falar com minhas filhas, ouvir minhas filhas e, se tiver problema, tentar ajudar a resolver. Mas também esse trabalho de fazer comida e as pessoas comerem, falarem: “Não, está muito bom de sabor”. E conversar com essas mulheres e ver que uma me liga, tem até o áudio de uma: “Minha mãe não sabia fazer nada e hoje minha mãe está fazendo até quibe, ela não saía de casa”. A gente tem muito resultado bom, sabe? Vamos ver se, de dez, um não está bom, mas nove estão excelentes. Então, eu acho que isso me motiva a viver. Se eu parar de fazer isso, eu acho que aí acabou a vida, aí não tem mais nada. (risos)

P/1 –  Xica, quais os nomes das suas filhas?

R –  Paula Gabriela, Paloma Gabriela e Carine Gabriela.

P/1 –  E como foi se tornar avó?

R –  Ah, foi no susto, foi no susto. Porque eu, como eu disse, minha filha mais velha que cuidava das duas e ela, a minha filha mais do meio, que teve filho primeiro, é a única que tem filho. Ela estava passando mal, passando mal e eu tinha uma cozinha cedida, como eu falei. E tinha uma moça que morava com a gente, que foi minha filha do coração. E eu até, aconteceu uma tristeza com essa menina, que eu te conto daqui a pouco. Ela foi levar essa minha filha pro médico e falou: “Olha, ela está passando mal e tudo mais” e minha filha mais velha: “Mãe, Paloma está grávida, Paloma está grávida” e eu falei: “Não”. E ela estava tomando fluoxetina, por causa de dor de cabeça. A médica deu fluoxetina pra ela. E aí, quando elas me alertaram que ela estava era grávida, aí eu falei pra essa minha filha do coração: “Leva a Paloma no posto pra mim, de lá você me liga”. Aí, quando ela me ligou, ela falou: “Você vai ser vovó, você vai ser vovó!” Aí o chão abriu, minha filha tinha dezesseis para dezessete anos. E aí, fazer o quê, saí de lá feito louca e fui levar no médico de novo, fui conversar com a médica, falei: “Você está dando fluoxetina pra minha filha e minha filha está grávida de quatro meses”. E aí, quando eu chego lá no médico especialista que eu levei, era o médico que eu consultava. Aí fomos fazer ultrassom, ele: “Quatro meses, vovó? Quatro meses não, tem menos de um mês e meio pra nascer, vovó”. (risos). Aí a mãe do pai foi na minha casa e falou: “Eu não quero ser avó, não me chama de avó, não quero ver essa criança”, e tal. Falei: “Pode deixar, que eu cuido sozinha”. Aí que a nenê nasceu, eu fui ser mãe, a minha filha mais velha foi ser pai. Porque minha filha mais do meio estava bem assustada por ter filho. E, assim, foi uma coisa, pra gente, a Yasmin na nossa vida foi um presente de Deus. Aí, logo depois, aí minha filha terminou com esse menino, mas, pra fazer raiva nesse pai dessa filha dela, foi ficar com um menino. Ficou com um menino e queria ir pra rua, chegava uma e meia da manhã, aquela coisa toda. Eu falei: “Pode ir, mas leva o menino”. Aí, ela conversou com esse menino: “Ah, vamos morar junto?”. Foi morar junto. Deixei. Aí a liberdade dela, em dois meses foi um outro filho, aí depois, passando mais um tempo, outra liberdade, mais uma filha. Então, ela tem três filhos. Ela tem a Yasmin, o Gabriel e a Renata. E aí, agora: “Mãe, não posso ter mais filho, não, não quero ter mais filho”. Mas aí a gente brinca muito, que ela teve o filho para as três. Ela teve a Yasmin pra mim, a Renata pra Carine e o Gabriel pra Paula. (risos) E cada um toma conta. (risos) Mas é muito bom ser avó, muito bom.

P/1 –  E, Xica, como a pandemia afetou a sua vida, de uma maneira geral?

R –  Nossa, foi terrível. Eu fui a primeira a pegar covid, fui a primeira. A minha casa é grande, assim, meu quarto tem banheiro dentro, tudo o mais. E foi difícil eu ter que falar com as minhas filhas, pra não chegar perto de mim. Eu fiquei em casa. Eu tive covid com um pouco de sintomas, mas mais assintomática. Mas com covid. E aí, então, aqui em casa, onde você vai tem um litro de álcool, onde você vai tem coisa pra lavar a mão. Logo depois, o ex-namorado da minha filha pegou, ficou cinco dias no respirador. Aí a minha filha mais velha também pegou, ela ficou muito ruim, muito ruim, mas não precisou se internar, intubada não, mas ficou muito ruim. Ela ficou um mês e meio, quase dois, sem sentir cheiro e gosto. E aí, assim, ela também teve, não esconde isso, ela ficou com um pouco de pânico e até pra tomar banho, eu tinha que entrar com ela no banheiro, porque ela ficava com medo da água, aquela coisa toda. Acabou que eu acho que nós todos pegamos. Amigos, perdi primos, amigas. E como eu tenho essa vivência a nível internacional. “Ah, fulana na Espanha morreu, sabe fulano de tal? faleceu” Nossa. E aí, com isso, que foi mais forte. Eu tinha uma amiga, ela veio pro bufê. Meu braço direito, minha perna, minha cabeça, ela ajudava a organizar o bufê. Nossa, ela que colocava freio em tudo. Ela ficou com diabetes, começou a fazer hemodiálise. E o marido dela, já com sessenta e poucos anos, foi no enterro de alguém que estava com covid, pegou covid, foi intubado e ela também pegou. Ela faleceu na sexta-feira, ele faleceu na semana seguinte. Então, isso, pra mim, até hoje, assim, não acredito que ela se foi. Fora outros jovens do grupo. Teve gente do bufê que faleceu também. E a gente sem poder ver. Às vezes, a gente nem acredita que morreu mesmo, porque a gente não viu. Foi muito ruim. E também, um pouco antes, começando a pandemia, essa minha filha do coração, que me ajudou muito, me ajudou a criar minhas filhas, foi estuprada pelo pai aos dez anos, foi pra rua e, aos catorze anos, ela foi morar na minha casa. Então, ela cuidou das minhas filhas, praticamente foi mãe da minha filha mais nova. Ela tinha uma orientação sexual, mas queria ter uma filha e ela arrumou um namorico lá e ficou grávida. E a gente cuidando da gravidez dela, tudo direitinho, ela fazendo tudo, na gravidez. Ela, no dia que foi ganhar o nenê, tem menos de um ano, vai fazer um ano agora, ela foi pra Santa Casa e eu, cinco horas da tarde, conversando com ela, perguntando se ela queria que eu fosse pra lá, mas aí ela encontrou uma irmã e passou a viver bem com essa irmã. E ainda bem, que encontrou essa irmã. E a minha outra filha conversou com ela até às onze horas da noite. Quando foi na madrugada, a gente acordou, ela tinha falecido no parto. Aí ela teve a Vitória. E aí, depois se registrou como Maria Rita, mas o nome inicial era Vitória. Então, assim, foram essas perdas que a gente foi tendo, na pandemia, que a gente tem que ter muita força, sabe? É muita força. É a força de Deus, a força dos amigos. E aí, com essa coisa toda, o que afetou demais também foi ver as pessoas sem comida em casa. Gente que tem carro e tem casa, mas sem comida. E a gente conseguiu em torno de 84 cestas básicas, para essas mulheres, através dessas ONGs. Aqui tem uma rede que se chama Rede Viva Sem Fome por meio da Cáritas brasileira, a Cáritas tem um trabalho de trabalhar com pessoas, de acolher pessoas que vêm de outros países. Então, assim, a gente conseguiu com eles essas cestas, para poder ajudar as trabalhadoras e trabalhadores do movimento de economia solidária, a nível dos fóruns. Então, aqui, eu cuidei um pouco de Ribeirão das Neves, junto com uma outra ONG aqui e a gente conseguiu. Então, o alívio que dá é que a gente consegue, minimamente, dar um mínimo de conforto, que essas famílias têm. Você vê, tem uma casa muito boa, tem um carro na garagem, mas você olha na geladeira… tem móveis excelentes, mas não tem comida, não tem trabalho. Perdeu o trabalho. E aí tem gente vendendo os móveis, vendendo o carro, pra colocar comida dentro de casa. E outra coisa que a pandemia trouxe foi para nos igualar também. Hoje eu tô aqui falando com você. Você está em São Paulo e a gente aqui. A tecnologia a gente teve que reinventar, essas coisas.. Só gravar, ver um filme e tal, os artistas. Hoje não, hoje a gente está aí, eu gravo vários vídeos para campanhas. Principalmente violência contra a mulher, vídeo, para movimento de economia solidária. A gente tem essa conversa de reunião online. A gente pode estar em vários lugares ao mesmo tempo. Coisa que já não podia. E o dinheiro sumiu, mas hoje, a maioria das pessoas de classe média, ou mais simples, tem um celular. Então, dá pra poder a gente estar conversando. Mas esse impacto que a pandemia trouxe pra gente, sim, é complicado de falar: “Olha, como é que vai ser amanhã.” Cada hora bate uma pessoa na porta, precisando de ajuda, ajuda de um abraço, comida, de uma palavra amiga, de uma indicação de emprego. A pandemia veio dar uma balançada na gente.

P/1 –  E, Xica, olhando pra trás, assim, após a sua separação, quais foram as principais descobertas e redescobertas ao longo desses anos, pra você?

R –  Olha, pra mim, eu descobri que eu sou gente e que ninguém tira a vida de ninguém e que ninguém espanca ninguém. E que todos nós temos o nosso valor. Por mínimo que seja, você tem que se dar um dez. Se alguém te dá dez, você se dá dez e meio. E também dizer que eu descobri que tenho uma fortaleza dentro de mim, que eu tinha antes. Eu saí de casa, viajei o Brasil inteiro, parte do Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, México, antes de conhecer o meu ex-marido. Hoje eu tenho amigos no Paraguai, amigos no México, amigos em vários lugares, na Espanha, Portugal. Amigos mesmo, amigos da gente conversar e combinar coisas, de virem ao Brasil, de encontrar e de fazer coisas. Então, assim, eu, pra mim, eu acho que me encontrar, foi me encontrar de volta porque, se você não está bem com você, não adianta você querer ficar bem com alguém.

P/1 –   E, pra você, o que representa dar palestras, conversar com outras mulheres, poder trocar informações e experiências, inspirar, de uma certa forma… de certa forma não, inspirar muito. O que representa pra você?

R –  Pra ser sincera, cada vez que eu vou dar uma palestra, eu saio assim, eu saio hilária do lugar. A última que eu fui dar, eu sou madrinha do iogurte. (risos) Uma moça que arrumou um namorado, ela trabalhava na prefeitura, ele falou: “Olha, eu vou casar com você, mas você tem que ir pro sítio comigo”. E ela falou: “Mas eu vou sair da prefeitura e tal, não sei o quê”. Eu fui lá, dei uma palestra, falei de como eu comecei, porque eu não tinha dinheiro. Ela falou: “Olha, gente, eu só tô precisando das embalagens, porque tudo eu tenho, eu tenho vaca, eu tenho cabra, eu tenho as frutas e eu vou fazer algo diferente, eu tenho formação.” E aí ela inventou lá, está fazendo iogurte de fruta, ela deu um testemunho no meio de mais de trezentas pessoas, dizendo que eu era a madrinha do iogurte. Mas eu, pra ser sincera com você, eu saio assim, eu ainda fico me perguntando, sabe? Será que eu tô dando o melhor de mim, será que é isso mesmo, será que eu não falei muita besteira? De vez em quando eu falo, quando eu começo a travar, eu falo uns besteiróis. (risos) Aí sai do foco. Aí, às vezes, eu: “Será que é isso mesmo?” Não sei se eu colaborei, se eu falei besteira, se não. Acho bom, fico feliz das pessoas me convidarem, não cobro por palestra, igual muitos: “Ah, cheia de dinheiro”. Só de eu ir, já está bom, de eu conhecer pessoas. Eles me levam. Se eu falar que eu vou, no interior aí, brigam pra eu dormir na casa de um, comer na casa da outra. Então, pra mim, eu me sinto bem, eu não sei se eu precisava de melhorar um pouco mais, não sei. De verdade, eu ainda não sei te dizer se eu fico grande demais com isso, ou se eu ponho o piano nas costas. Não sei, eu acho que, até então eu acho que está dando resultado. Uma amiga minha até me perguntou assim: “Quando você começa a falar, o que acontece? Parece que entra um leão dentro de você, não sei!” (risos) Eu só vejo, só acho, eu olho assim, que tem trezentas pessoas, falo: “Ah, não, só está eu e uma pessoa”. Porque antes eu tinha muita vergonha, eu não olhava. Hoje não, eu olho bem olhadinho, pra ver quem é. Mas é mais ou menos isso.

P/1 –  E, Xica, o que o bufê e a economia solidária representam, na sua história?

R –  Eu acho Deus. Com bufê, o movimento de economia solidária, eu me tornei gente. Eu me reencontrei dentro do quarto de hospital e a minha autoestima levantou, vamos dizer que, aí, em oitenta por cento, na economia solidária e, os outros vinte por cento, quando eu coloquei meu olho. E, assim, eu acho que o bufê me completa. E eu só acho que vai completar mesmo, eu até falei pras meninas, a hora que eu colocar todos os equipamentos, que a gente tem equipamento aqui, de padaria completa. Tem forno, tem amassadeira, fogão, tem tudo. A hora que a gente vê a cozinha prontinha, tudo bonitinho e colocar lá, eu falei com elas: “Eu posso sentar e cair pra trás, que vocês dão continuidade”. Então, hoje, pra mim, eu quero ver a felicidade das minhas filhas, dos meus netos, dos meus amigos. E eu acho que o sonho mesmo, eu até mandei pra Bruna, escrevi um artigo junto com um professor. Muita coisa, que a gente já escreveu muita coisa por aí. Mas, enquanto eu não ver essa cozinha pronta e a gente tem até uma parede lá, que é um painel das mãos que ajudam. Então, a hora que essa cozinha ficar pronta, todos que foram lá, levaram uma plantinha, levou um negocinho, me levantou, vai ter a mãozinha lá e a sua rubrica. Então, viver em economia solidária, é primeiro Deus na minha vida e me completou. Não tenho nem palavras pra falar.

P/1 –  Acho que você já começou a responder, mas quais são os seus maiores sonhos, hoje?

R – Ah, o meu maior sonho agora era ver as minhas filhas com um pouco de estudo. Eu já vi, inclusive, uma quase terminando a faculdade. Então, hoje o meu maior sonho agora, de verdade, é essa cozinha ficar pronta. Porque, sonho que sonha sozinho, não vira realidade, mas sonho que se sonha junto, aí vai pra frente. Força nós temos, saúde também, coragem e aí falo muito, que eu não vou para o céu porque eu não quero, peito eu tenho e muito! (risos). O sonho também é sair do aluguel, eu estou pra sair. Essa coisa de aluguel, desde 2009, que a gente paga aluguel. Mas já tem um terreninho, só precisa vir os eventos. E eu não concordo com ocupação de terra. O que é seu é seu, o que é meu, é meu. Muita gente já me convidou para ocupar terra, eu falei: “Não, eu não concordo com isso”. É a mesma coisa eu estar aqui na minha casa e alguém chegar aqui e falar: “Essa casa aqui é minha, vai embora”. Eu não concordo. E aí, por isso é que agora eu dei entrada nesse lote, meu pedacinho de terra, fazendo a cozinha, falei: “Eu vou fazer um quarto com uma suíte pra mim e a cozinha vai ser o maior cômodo de todos na casa”. Os quartos pequenos, a sala nem sei se vai ter, vai ter quintal. Então, vou concretizar tudo. Eu acho que está virando realidade. A minha filha do meio está fazendo Farmácia, a mais velha está fazendo Direito, a mais nova começou Marketing, ela trancou, mas deve voltar. Então, parte desse sonho está sendo realizado. E a cozinha! (risos)

P/1 –  Xica, a gente está caminhando pro fim, mas antes eu só queria te fazer duas perguntas. A primeira é se você quer acrescentar mais alguma coisa, contar alguma história que eu não tenha instigado, ou deixar alguma mensagem?

R –  Bom, eu acho que eu contei tudo, mas eu gostaria só de dizer, principalmente, pras mulheres: antes de amar alguém, se ame primeiro. E, eu cuidando de mim, eu cuido do outro, eu cuidando do outro, eu cuido do mundo. Então, gratidão demais de ter conhecido vocês. Achei uma alegria imensa na voz da Bruna, acho que me convenceu a dar essa entrevista pra vocês. A alegria e a vontade, quando eu a atendi, parecia que ela queria explodir. E aí eu fiquei muito feliz, eu falei: “Nossa, eu não posso decepcionar essa menina”. Eu a vi como uma jovem menina, não sei a idade dela, mas ela passa pra gente, como se fosse uma adolescente, fez quinze anos e teve a sua festa de debutante. Então, ela me passou isso, isso é muito importante, quando a gente vê essa pessoa com essa vontade de viver, com essa alegria toda.

P/1 –  E como foi, pra você, ter conversado um pouquinho com a gente, hoje?

R – Olha, é diferente, saber que a sua história vai para um museu. Eu acho isso, sei lá, hilário. (risos) Essa importância toda de estar num lugar que todos vão ver, que todos vão ler sua história. E saber que isso vai poder ajudar pessoas, sabe? Que isso vai poder ajudar pessoas e que outras mulheres podem se espelhar no que a gente está fazendo, eu acho que isso é muito importante.

P/1 –  Xica, eu não tenho palavras suficientes para agradecer por você ter aceitado esse convite, por você ter topado dividir um pouquinho da sua história. E eu acho que é isso: com certeza, você vai inspirar muitas outras mulheres, então, eu só tenho como agradecer por esse dia e quero muito, quando acabar a pandemia, te conhecer pessoalmente, dar abraço, eu adoro dar abraços. E muito obrigada.

R –  Olha, eu que agradeço. Até conversei com Bruna. Porque, na maioria das vezes, quem vai pra esses lugares, espaços importantes são artistas, são pessoas de nome e renome, nos lugares. Bruna está escondidinha aí. (risos) E aí, então, vocês procuraram essas histórias de mulheres periféricas, porque hoje eu moro na periferia da cidade. E ver que são tão importantes quanto essas mulheres que estão aí na telinha da Globo, por exemplo. E eu acho que, se todas as pessoas mostrassem a realidade lá do fundão, do grotão, porque é o que realmente acontece. Eu conheço, não todo o Brasil, mas Minas Gerais eu conheço muita coisa de Minas Gerais. Fui conhecer aquelas mulheres lá do quilombo, de mulheres no Vale do Jequitinhonha, por exemplo, tem mulheres que carpem, fazem farinha de trigo, a goma, fazem o polvilho, o pão de queijo, fazem biscoito com pouco. E essas mulheres, com pouco, elas dão tudo! E vocês, contando essas histórias. É recíproco, é uma via de mão dupla. É gratidão mesmo por isso. Eu vi que não é uma coisa pra se engrandecer, pra aparecer, mas a gente podia escrever que enquanto existir mulher sofrendo, vendo violência, a gente vê na televisão, no jornal, no rádio, nós vamos continuar.

 

[Fim da Entrevista] 





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