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História

Engatou na quinta marcha

História de: Evelina Bölcke
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nasce em São Paulo em 1930. Descendente de imigrantes alemães. Passa a infância no Brasil e uma parte da adolescência na Alemanha. Durante a Segunda Guerra Mundial a família retorna a São Paulo. Evelina começa a trabalhar como secretária em algumas firmas, até entrar na Volkswagen, em 1959. É secretária da Diretoria desde então. É casada, tem três filhos. 

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História completa

P/1 – Vou pedir para a senhora falar seu nome completo.

 

R – Meu nome completo é Evelina Bölcke.

 

P/1 – E o local e data de nascimento da senhora?

 

R – E ano também?

 

P/1 – Ahã!

 

R – 12 de maio de 1930.

 

P/1 – Em que cidade?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai chamava Fritz Bölcke e minha mãe Ritlick Bölcke.

 

P/1 – E eles nasceram onde?

 

R – Em Berlim, na Alemanha.

 

P/1 – A senhora sabe o ano?

 

R – Sei. Ambos em 1896.

 

P/1 – No mesmo ano?

 

R – É.

 

P/1 – E me fala uma coisa, o que eles faziam na Alemanha?

 

R – Bom, meu pai serviu na Primeira Guerra Mundial, depois voltou da Guerra ele tinha uma ferida, ele foi... E não teve assim... A Alemanha passou um tempo muito difícil, de hiperinflação e tudo, e eles vieram aqui para o Brasil. Casaram e vieram para cá.

 

P/1 – E a senhora sabe porque eles escolheram o Brasil?

 

R – Foi um dos países que os acolheu. E eles queriam sair da Alemanha. Meu pai era um anti guerra, falou: “Nunca mais eu quero ver guerra, nunca mais. E nós queremos viver em um país livre.” Mas, eles passaram aqui uns anos difíceis. Sem língua, e logo morreu a mãe da minha... Ah, meu Deus do céu, acho que era até a avó dela, era uma senhora já de idade. E depois meus pais tiveram filhos e morreram, de acidente e tudo mais. Quer dizer, eles tiveram uma vida muito, muito difícil aqui. Hoje eu entendo isso, eu sinto o que eles... a dificuldade. E em 1939 eles voltaram para a Alemanha, comigo e com um irmão que eu tinha.

 

P/1 – Deixa só voltar um pouquinho. Ele trabalhava em quê aqui no Brasil?

 

R – Meu pai foi viajante, ele viajou muito pelo interior do Brasil para firmas. Um tempo, meu pai esteve em Taubaté, ele teve a representação Brahma lá. Inclusive meu irmão nasceu em Taubaté. E lá eles perderam um filho em acidente de carro. E depois ele trabalhou aqui em São Paulo ainda alguns anos, em uma firma de produtos químicos. Até eu sei o nome, a firma chamava John Jürgens e era na Florêncio de Abreu e nós morávamos em Mauá. Aqui, depois de Santo André. Era um lugar que tinha muitos alemães, uma grande colônia alemã. Depois nós fomos morar aqui na Praça da Árvore, em São Paulo.

 

P/1 – Dona Evelina, essa época que a senhora morava em Mauá, na colônia...

 

R – Não era uma colônia. Lá tinha muitos alemães porque lá tinha muito verde e alemão gosta muito de verde e espaço. Então todo mundo tinha terrenos grandes e se desenvolvia lá. 

 

P/1 – Descreve como era a casa da senhora. A senhora lembra?

 

R – Ah, eu não lembro muito, não. Meus pais começaram lá a construir, mas depois foram embora. Fomos aqui para a Vila Mariana mesmo, morando aqui, mas a casa onde nós morávamos era uma casa assim, bem simples, bem simples, eu lembro só. Meus pais estiveram em diversos locais. Sempre aqui por perto. Inclusive no Brooklin, que era tudo mato lá. Eu me lembro de ter uns quatro, cinco anos, sei lá eu, e a gente ia lá embaixo no rio, que deve ser o Pinheiros, e lá vinha alguém que trazia as frutas, verduras e coisas mais, em uns barcos assim compridos. Eu me lembro, era tudo mato lá. Inclusive meus pais tinham porcos, e sei lá eu.

 

P/1 – Dava para criar, tinha quintal grande...

 

R – É tudo grande..

 

P/1 – Que beleza! E me fala uma coisa, o que a senhora acha que ficou mais forte na educação da senhora dessa origem alemã?

 

R – Bom, alemão foi a minha primeira língua. E eu me lembro, ainda em Taubaté – e eu me lembro porque o meu pai mais tarde contou para mim – que um dia tivemos um vizinho que tinha também uma menina pequena e eu passei pela cerca; era uma cerca viva, passei para lá e logo nós fomos amigas. Aí cheguei em casa e plá-plá-plá, já falando português. Aí meu pai falou: “Pára, pára. Lá fora você fala português, mas aqui dentro você fala alemão.” Então foi essa a minha primeira língua e com essa eu cresci, falando português e alemão, sempre. Na escola também. Frequentei a escola alemã aqui, a Benjamin Constant, e tudo. Mas sempre foi com o alemão e o português veio assim, jogado...

 

P/1 – Com os amigos...

 

R – Com os amigos e escola e tudo o mais.

 

P/1 – (risos) E como era assim o cotidiano da sua casa? A mãe trabalhava em casa?

 

R – É, a minha mãe estava sempre em casa e com meus irmãos, quer dizer, um irmão que eu tive.

 

P/1 – Qual era o nome dele?

 

R – Dieter, ele chamava Dieter. Mas ele faleceu em um acidente mais tarde. Ele tinha 21 anos, quando faleceu. Quer dizer, meus pais tiveram dois filhos que morreram em acidente. E era tudo difícil, né? Mas em casa, era sempre uma família, aliás, sempre com música. Meu pai tocava violão, tocava muito bem o violão e violino. Na Alemanha também nós tínhamos um quarteto em casa. Hoje ainda tenho três instrumentos em casa, mas nunca mais nós tocamos. Porque voltando para o Brasil depois, nós só queríamos aqui trabalhar.

 

P/1 – Em 1939 ele volta para a Alemanha?

 

R – É, volta para a Alemanha. E chegamos lá...

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque minha mãe, sempre doente aqui. E sabe também, esse negócio de perder filhos, um filho morreu nenê, também... Muito difícil tudo. E hoje, hoje eu digo, também nunca eu entendi, também nunca indaguei isso, mas não sei se eu devo dizer isso, mas Adolf Hitler pregou uma coisa dizendo que Alemanha era dos alemães e ele queria os alemães de volta. E eu não sei se o meu pai foi por causa disto ou se foi porque minha mãe era sempre doente. Minha mãe era mesmo. Sabe essas doenças tropicais?

 

P/1 – Sei.

 

R – Antigamente, não tinha remédios e não tinha nada mesmo. Eu conheço minha mãe só doente, de moça. Depois ela morreu com 96 anos.

 

P/1 – Benza a Deus.

 

R – Ela passou todo mundo.

 

P/1 – (risos)

 

R – Sempre miudinha, magrinha, mas ela superou tudo. Então nós, em 1939, voltamos para a Alemanha.

 

P/1 – O que a senhora lembra da viagem? Foi de navio? Descreve como foi essa viagem.

 

R – De navio. Ah, foi maravilhosa. Desde aquele tempo eu adoro o mar, sempre quero viajar pelo mar. Se não fossem hoje esses aviões aí. Eu sempre me informo se não tem um meio de ir de navio. Eu adoraria ir de navio. Sempre eu gostei.

 

P/1 – O que vocês faziam durante a viagem?

 

R – Não me lembro. Não me lembro mesmo. Eu tenho algumas fotos, mas não me lembro. Eu só sei lá, depois, que eu entrei logo na escola e foi difícil porque eu falava alemão muito bem, mas escrever alemão já é mais difícil. Mas eu fui sempre muito bem. Mas logo estourou a Guerra e lá ficamos. Em Berlim.

 

P/1 – Ficaram lá durante a Guerra? Em Berlim? A senhora pode descrever um pouco como foi esse período lá?

 

R – Foi assim até..., a gente não pode descrever muito da Guerra. Primeiro, a gente nem sentiu muito. Só que era tudo escasso. Escassez de tudo, de pão... Você recebia 62,5 gramas de carne por semana, coisas desse tipo. Três fatias de pão a cada dois dias. Coisas desse tipo. Mas o resto, não lembro. Eu sei que mesmo tendo esses bombardeios e as sirenes tocando à noite e a gente tendo que ir no porão, e ficando horas lá... E naturalmente criança fica com fome, aliás, todo mundo fica com fome, se ficar acordado e depois, não tinha comida. Eu não sei como minha mãe fez tudo isso para sustentar. E no dia seguinte tinha aula, sempre tinha aula. Nunca eu faltei à aula. Mesmo se tivesse caído uma bomba na escola, como mais tarde aconteceu. Mas aí as escolas já estavam evacuadas, foram todas evacuadas, de Berlim. E nunca faltou aula. Sempre no dia seguinte a gente ia. E mesmo assim brincávamos e tudo, foi um tempo maravilhoso.

 

P/1 – E de que vocês brincavam? Quais eram as brincadeiras na Alemanha?

 

R – Ah, andávamos muito de patins, andávamos chutando bola, e o meu pai muito atrás. No fim de semana, sempre tocávamos violino, os quatro. Sempre quatro tocando. Tinha ainda um senhor e uma moça que eram dos Estados Unidos, que eram nossos amigos, e eles vinham também e a gente... Meu pai sempre atrás disso, sempre. Nós crescemos com música. Sempre.

 

P/1 – Tem alguma música que a senhora se recorda com mais carinho?

 

R – Ah, a gente tocava sempre música clássica. Adoro Mozart, tocamos muito Mozart. Adoro Beethoven. Ainda hoje eu ouço sempre os programas do Arthur da Távola; tem aos domingos o programa e eu sempre vejo, eu adoro música clássica. Não gosto nada deste barulho de hoje em dia. Para mim não é mais música.

 

P/1 – (risos) E me fala uma coisa, na Alemanha, vocês ficaram até quando?

 

R – Até 1947. Em 1945, nós saímos de Berlim. Meu irmão e eu, nós tínhamos um passaporte brasileiro. E os russos, vendo esse passaporte, eles falaram que nós éramos americanos. Eu acho que estava escrito Brasil, qualquer coisa. Eles achavam, “Brasil fica na América”..., é a mesma coisa. Que nem agora, ainda nos Estados Unidos, quando você... Eles falam: “De onde você é?” “Brasil.” “Ah, capital Buenos Aires.” Ainda hoje é assim. Na época, então, aqueles russos cheios de relógios, aqui e aqui, tudo eles roubavam... E nós saímos de lá com esse passaporte, porque não tinha mais nada. Não tinha mais casa, não tinha mais nada, nós não tínhamos mais nada. E de lá ficamos num acampamento..., assim foram juntando os brasileiros e sul-americanos, até mexicanos. Fomos, fomos, fomos de um acampamento para outro e depois uma hora os russos nos mandaram para o setor, acho que era francês, lá. Que era Alemanha Ocidental, saímos da Oriental, e lá ficamos. Mas em 1947 veio a primeira missão brasileira para lá e viemos com um navio chamado Santarém, a primeira viagem, em 1947. Só minha mãe, meu irmão e eu. Meu pai tinha que ficar lá porque era alemão e não tinha direito. Mas nós como brasileiros menores de idade, minha mãe tinha o direito de vir conosco. Aí nós viemos para cá.

 

P/1 – Vieram para São Paulo?

 

R – Viemos direto para São Paulo. Aqui eu tinha um tio dentista e ele nos acolheu e nós fomos morar na casa dele em Mauá, primeiro, e de lá começamos a trabalhar e fomos em frente.

 

P/1 – E a senhora começou a trabalhar e a sua mãe também?

 

R – É, a minha mãe também.

 

P/1 – No que a sua mãe começou a trabalhar, dona Evelina?

 

R – Ah, em escritório. Inclusive, no tempo de Getúlio Vargas, nos anos 1930, repressão aqui também e tudo mais, e meu pai sempre viajando. Meus pais se correspondiam em taquigrafia. E um dia, essa carta..., até ficou muitos anos, não sei onde ficou parada, ela veio aberta. Quer dizer, alguém controlou e escreveram em cima: “Favor escrever em letra legível, de forma legível.” Porque era tudo em taquigrafia, que eles se correspondiam. Então meus pais eram assim. E ainda hoje acho, às vezes, umas receitas que minha mãe ou meu pai anotaram, é tudo em taquigrafia. E eu não sei ler essa taquigrafia.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Não adianta.

 

P/1 – (risos) E a senhora começou a trabalhar com quantos anos?

 

R – Ah, logo que eu vim para cá, eu tinha 17 anos, eu fui logo trabalhar um pouquinho assim, que ainda era menor, mas com 18 anos trabalhei em uma firma de representação. Comecei logo no escritório.

 

P/1 – Como que a senhora arrumou esse emprego?

 

R – Não me lembro. Sabe que eu não lembro? Porque eu não conhecia. Eram dois senhores, dois irmãos. Era na rua Treze de Maio, era uma casa, eles eram representantes de diversas firmas alemãs, não sei como eu cheguei lá. Mas eu vinha todo dia de Mauá com o trem, até a estação do Brás, tomava o bonde e ia até a praça lá em cima, não sei, andava até a praça, Largo São Francisco,  João Mendes, andava até a praça de São Francisco, e tomava o bonde para ir até a Treze de Maio. Todo dia eu fazia essa...

 

P/1 – Quanto tempo levava?

 

R – Ah, isso daí... Mas eu acho que a gente tomava o trem seis e pouco da manhã para chegar oito horas.

 

P/1 – E aí nessa primeira firma, quem ensinou a senhora assim a trabalhar? Fazer as coisas?

 

R – Ah, aí eu fui lá, eles eram muito simpáticos, os dois senhores. Era só eu trabalhando junto com eles e cuidava do estoque, tinha uma máquina super velha de escrever... E fui aprendendo lá.

 

P/1 – A senhora aprendeu a datilografar lá?

 

R – É, mas eu fiz depois curso de datilografia, taquigrafia em alemão, fui fazendo curso. Comecei a estudar, comecei inglês, fiz quatro anos de inglês. Esses dias eu ficava na casa de uma tia minha que morava em São Paulo.

 

P/1 – Ficava mais perto.

 

R – Ficava mais perto.

 

P/1 – (risos)

 

R – E assim foi indo, depois trabalhei em uma firma que eles eram sul-africanos, mas falavam em inglês, e lá precisei já o inglês. Então estudei quatro anos de inglês. Depois fiz mais conversação em inglês, e foi indo.

 

P/1 – Descreve para a gente como era São Paulo nessa época.

 

R – Ah, São Paulo era bacana. Eu lembro ainda como a gente se vestia bem, até comprava sempre sapato e bolsa combinando. E luva! Na época ainda usava luva. E tinha só uma loja em São Paulo que tinha meu tamanho de sapato, que era 38, eram as Lojas Clark, na rua São Bento. Mas lá você ia e pisava em uma forma, assim, e eles mediam certinho a largura e o comprimento do seu pé: ele ia pegar, você punha no pé e servia. Não tinha esse negócio, “Ai, dói aqui, dói ali, eu não quero essa...” Servia, ia embora. Era a única loja. E então, a gente almoçava sempre, porque inclusive, eu sempre comprava com uma prima minha que ia, que morava em Mauá, então a gente almoçava em restaurante... Achava uma chatice.

 

P/1 – Sempre?

 

R – É, Leão de Ouro, etc. Só no começo do mês a gente almoçava bem, porque no fim do mês, ia lá na praça da Sé e comia uma sopa de macarrão com bastante queijo. E era um pratinho de sopa, só. (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – (risos) Mas sempre a gente estava comprando coisas bonitinhas, assim. São Paulo era bem diferente.

 

P/1 – Que outras lojas vendiam roupas?

 

R – Casa Sloper, Casa Alemã, na rua Direita..., Casa Sloper, que tinha coisas muito bonitas. A gente sempre estava bem vestida, sempre. Desde o começo... Tinha Lojas Ethan que tinha assim um tipo... suíço, eles inclusive tinham uns lencinhos pequenos bordados à mão suíços, com uma organza, um tecido bem fininho, uma coisa! A gente fazia coleção daquilo e sempre se encontrava, minha prima e eu, e a gente ia almoçar junto, e à noite a gente voltava para casa de trem, e pronto.

 

P/1 – E não saía à noite?

 

R – Ah, pouco, sabe? Porque morando em Mauá, você tinha que pegar o trem, porque o último trem praticamente era sete e dez, era o expresso, e ainda nem parava em Mauá, a gente tinha que descer em (risos) Santo André, então era difícil.

 

P/1 – Descia em Santo André? E aí tinha que ir a pé?

 

R – Não, pegava um ônibus. Ônibus tinha de hora em hora ou coisa assim. Era muito difícil tudo. Então a gente tomava um trem antes, era muito difícil.

 

P/1 – E me fala uma coisa: como secretária vocês tinham que se arrumar bem, vestir bem, como era isso?

 

R – Olha, eu sei..., desde o meu primeiro emprego, eu sempre fui de me vestir bem. Hoje eu acho as secretárias, muitas vezes você as vê decotadas, aqui e ali... Depois falam de assédio sexual, qualquer coisa assim, mas como elas andam vestidas? Nós fomos sempre assim, mais sérias. Que nem a Globo, as moças sempre de manga comprida. A gente era uma coisa, sabe? E sempre bem vestidas, combinando uma coisa com a outra.

 

P/1 – Sapato, bolsa?

 

R – É.

 

P/1 – (risos) A senhora gostava disso?

 

R – Gostava. Olha, eu posso dizer que eu aprendi bastante. Mas sempre fui bem paga. Já de, por exemplo, sempre falar alemão e, na época dos anos 1950 muitas firmas alemãs vieram para cá e todo mundo queria sempre alguém que soubesse alemão correto e com taquigrafia, para tomar um ditado, para isso, para aquilo. O que a maioria não sabia. Ou sabem falar alemão, mas escrever, é muito difícil.

 

P/2 – É mais difícil.

 

R – E por causa disso eu fui sempre para frente.

 

P/1 – Depois dessa firma dos sul-africanos, a senhora foi para onde?

 

R – Aí eu fui até..., trabalhei seis anos em uma gráfica. Não, não é gráfica, é uma firma que importava máquinas gráficas. E entre os fregueses era justamente essas irmãs Paulinas.

 

P/1 – As irmãs Paulinas?

 

R – Que têm acho, não sei...

 

P/1 – A editora.

 

R – ... a fábrica? Não é fábrica, não sei como chama isso, onde elas imprimem os livros. Acho que é uma dessas BR aqui, que eu já passei por lá, mas não sei se hoje em dia ainda existe. Mas hoje quando eu entrei aqui falei: “ah, eu conheço isso”. E eram suíços, esses eram suíços. E também com alemão. Interessante é uma coisa da minha vida: em todo lugar que eu já trabalhei, no fim eu fico sempre no dinheiro... Ah, meu Deus do céu (risos), é uma coisa. Na primeira firma, primeira, primeira, quando eu vim aqui para o Brasil, eu trabalhei em uma loja de bordados chamada Casa Libela, eu fiquei só um mês vendendo toalhas (risos), aí já... Tinha 17 anos, aí já fui para o caixa. E fazer a contabilidade do dia. Eu não entendia de nada. E assim foi indo. E nessa firma dessas irmãs Paulinas, aqui a firma chamada Artega, um dia meu chefe me chamou: “O contador sumiu com todo o dinheiro.” Na época ainda se faturava as coisas e dava no banco em desconto e recebia o dinheiro já, adiantado. E ficava lá a fatura e depois... E ele pegou esse dinheiro e sumiu. Aí um dia meu chefe me chama e falou: “Você não quer pôr essa contabilidade em ordem?” (risos) Lá estava eu. E fiquei mais ou menos dois anos só fazendo contabilidade com eles. E na Volkswagen trabalhei o tempo todo como secretária, secretária, secretária. E um dia meu chefe falou: “Você não quer fazer o pagamento dos diretores?” Eu falei: “Ah, meu Deus do céu, eu não entendo nada disso.” Ele falou: “A dona Elizabeth vai sair, mas só ano que vem. Você pode ir para a Alemanha agora, quando você volta, você acerta.”

 

P/1 – (risos)

 

R – Eu fui para a Alemanha, quando eu voltei minha colega falou assim: “A dona Elizabeth vai embora daqui a dez dias, você precisa voltar já.” Aí eu fiz seis anos ainda. Antes de me aposentar eu era responsável pelo pagamento dos diretores. Outra vez no dinheiro fiquei eu.

 

P/1 – (risos)

 

R – Assim foi a minha vida.

 

P/1 – Como que a senhora foi parar na Volkswagen?

 

R – Por um anúncio. Eu estava trabalhando em uma firma em São Paulo, pouco tempo só, com dois senhores, eles tinham muitas fazendas e tudo mais. Mas era muito desgastante. Muita gritaria, muita coisa que não me dizia respeito. E eu fiquei doente lá, do estômago. Sempre fui muito magra, então fiquei sofrendo do estômago e tive que parar. E eu fiquei uns meses em casa. Isso foi em fins de 1958, coisa assim, não me lembro direito. E um dia vi um anúncio no jornal: “Datilógrafa, Volkswagen procura datilógrafa”. Falei para a minha mãe: “Vou lá.” Eu não gosto de ser número..., porque a Volkswagen era grande, né? Sempre a gente fala Volkswagen é grande na Alemanha, então aqui também deve ser grande. Eu não conhecia nada da Volkswagen. Então eu falei: “Ah, mas eu vou lá.” Peguei o ônibus e fui lá. De Mauá para São Bernardo. E lá uma moça me atendeu em um escritório que era tudo improvisado ainda. Os canos de gás e sei lá eu, passava assim por cima, a gente tinha que passar assim por cima para chegar. E as mesas, por baixo das mesas passavam uns canos, e coisas assim. A escada, era um mezanino, e a escada era de madeira, era tudo assim improvisado. E a moça me entrevistou, eu fiz uma tradução e ela falou: “Eu acho que tem uma boa coisa para você. Espera aqui.” Foi embora, eu fiquei esperando uma hora. Aí depois ela voltou e falou assim: “Você vai ouvir da gente. Eu acho que tem uma boa coisa para você.” Eu esperei umas três, quatro semanas, umas coisas assim, bastante. Aí um dia ela me chamou, eu fui lá e ela me levou para o Departamento de Importação. No meu currículo consta. Mas lá eu só fiquei dois meses, nem dois meses. Aí já fui passar para a Diretoria e lá fiquei 25 anos. (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – Nunca mais saí daquela sala!

 

P/1 – (risos)

 

R – Porque eu saí em 1964, porque eu casei, depois eu saí porque eu já tinha filho, então queria ficar em casa. E quando eu voltei, primeiro eu estava sentada desse lado, e quando eu voltei... eu só mudei assim de cadeira, sentei desse lado, e continuei mais 20 anos.

 

P/1 – Ô dona Evelina, a senhora já tinha ouvido falar da Volkswagen antes?

 

R – Já, é natural. Porque Volkswagen é um símbolo na Alemanha. Sempre foi, assim, a gente conhecia a Volkswagen, mas aqui... Eu nunca tinha visto nada. Também ainda tinha Volkswagen acho que importados. Aliás, um dia vi um, em frente do antigo Correio, todo mundo em volta. E eu, alta, hoje em dia eu não sou mais alta não, mas antigamente eu era alta em comparação aos outros... Olhei assim por cima, tinha um Fusca lá. Foi a primeira vez que eu vi um Fusca na minha vida. nunca tinha visto.

 

P/1 – Que cor que ele era?

 

R – Não sei. Mas depois, em 1960 eu comprei o meu primeiro. Entrei em 1959, em 1960, quando a fábrica começou a fazer os Fuscas, eu comprei o meu primeiro. Ele chamava Max e era azul-clarinho. E ainda tenho foto dele.

 

P/1 – (risos) A senhora que apelidou?

 

R – É, porque na época era só minha mãe e eu, então, era Max para ter ao menos um homem, um nome de homem em casa. (risos)

 

P/1 – Ótimo. A senhora que escolheu o nome? (risos)

 

R – É.

 

P/1 - E me fala uma coisa, no Departamento de Importação, o que a senhora fazia exatamente?

 

R – Olha, nesse também eu tive assim logo... (risos) O meu chefe, o nome dele era Chris Tronbjerg, ele era dinamarquês de nascimento. Ele trabalhou muitos anos na Ford nos Estados Unidos. Depois ele veio para cá e trabalhou na Firestone e na Brasmotor. Tudo isso ele contou mais tarde para mim. Então ele falava dinamarquês e muito mal o inglês, mal, mas ainda acho melhor, alemão muito mal. Ele misturava tudo assim as coisas. E ele era o chefe desse departamento. E logo ele falou para eu escrever algumas coisas. Falou para mim e eu escrevi em alemão correto. E ele falou, “não”, era para eu escrever assim como ele falou. Aí eu falei: “Não, não vou escrever assim, não posso escrever, ninguém vai entender. Já que eu estou aqui para alemão, eu vou escrever em alemão.” Aí ele falou que ele não assinava assim. Naquele tempo ainda não era… A gente passava o telegrama à noite, tinha que passar para São Paulo para passar... E nós brigamos logo nos primeiros dias, ainda eu falei para ele: “Se o senhor não quiser pode jogar pela janela.” Bom, no fim nós acertamos. Eu não fiquei lá muito tempo, não fiquei nem dois meses com ele. (risos) E nós nos tornamos... Eu tenho uma foto com ele aqui. E nós ficamos tão grandes amigos, o tempo todo. Depois já ele muito doente, aposentado, vinha na Volkswagen, ele sempre vinha me visitar. Nós fomos grandes amigos e ainda depois ajudei a senhora dele, que ela não falava alemão e tinha ainda uma aposentadoria da Alemanha, então tinha esses contatos, ela me chamava para São Paulo para ajudar a ela a fazer esses contatos.

 

P/1 – E o que o Departamento de Importação fazia exatamente?

 

R – Bom, na época em que trabalhei lá, eles estavam importando a maquinaria para a montagem da Karmann Ghia no Brasil. Conheci o seu Karmann pessoalmente, e tudo, mais tarde também ele foi amigo dos meus chefes... Foi isso que eu fiz, na época. Depois eu não sei mais. Depois eu fui desligada e fui para a Diretoria Financeira, fui trabalhar com o Diretor Financeiro. Aí já estava na diretoria direto.

 

P/1 – Fala uma coisa, que eu não conheço: o Karmann Ghia era o carro que vinha ser montado no Brasil?

 

R – É. Que era primeiro importado. Era um carro mais assim, de duas pessoas, era aquele compridão, bonito, e ele foi depois montado aqui, sempre, um tempão.

 

P/1 – E esse senhor Karmann?

 

R – Ele era o proprietário.

 

P/1 – Ele que desenhou o carro?

 

R – Ah, isso eu não sei.

 

P/1 – Ele veio até aqui?

 

R – É, ele veio. A firma era Karmann mesmo.

 

P/1 – Descreve como que ele era.

 

R – Eu nem sei o primeiro nome dele, me falha agora a memória. Não sei. Isso o Diekers vai saber. Ele foi uma pessoa muito simpática. Aliás, posso contar um segredo? Olha, que ninguém me ouça. Quando as pessoas, não digo do senhor Karmann, que eram todos da altura dos nossos diretores também, eles eram mais ainda porque eles eram proprietários de fábrica, então eles tinham força. Mas, a maioria, quando entrava na nossa porta, deixava seu próprio eu lá pelo capacho. E entrava e era diferente. Eu só conheço as pessoas pelo seu lado simpático, agradável. Às vezes, mais tarde, eu ouvia: “Ai, que chefe horrível!”, que era esse ou aquele. Mas quando ele entrava lá na nossa sala, eles eram sempre simpáticos e muito gentis. Eu não tenho queixa de nenhum, porque nenhum foi desagradável com nós. Ninguém. Isso eu posso dizer. Talvez esse primeiro ainda, que era o Diretor Técnico, que uma vez entrou com o charutão desse assim e falou: “Quem abriu essa carta aqui?” Falei: “Fui eu, porque veio dirigida à Volkswagen do Brasil.” Ele falou: “Mas é para a Diretoria Técnica, eu não quero que a senhora abra.” Só isso. Mas também nunca mais teve... Nunca tive problema com ninguém.

 

P/1 – (risos)

 

R – Mas eu acho que isso é em geral assim. Quando as pessoas vêm em um lugar superior, não era nossa sala só, era para os nossos diretores. As pessoas só mostram o seu lado bom e simpático. Mas isso é assim dos homens mesmo.

 

P/1 – E lá nessa época, dona Evelina, todo mundo falava alemão? Tinha que falar alemão?

 

R – A maioria falava. Os chefes eram muitas pessoas vindas da Alemanha, que eram esses contratados alemães. Muitos deles ficaram por aqui e constituíram família aqui no Brasil. Ficaram aqui. Conheço um que, depois, quis voltar para a Alemanha, mas os filhos não queriam voltar, a família ficou por aqui. Muitos ficaram por aqui. Outros voltaram para lá. Mas, de chefia, em geral era todo mundo só falando alemão.

 

P/1 – Mas no dia-a-dia da fábrica, do trabalho, se falava em alemão?

 

R – Se falava em alemão.

 

P/1 – Só alemão?

 

R – Nós, por exemplo, no restaurante, a gente ia sempre com os mesmos, porque o nosso horário era esse. Se o outro era o horário meio-dia, ele encontrava com essas pessoas. A gente que ia almoçar quinze para a uma, era essa a turma que ia almoçar. E então a gente geralmente falava em alemão lá. E também com essa gente que veio para cá, inclusive esse Sr. Schultz Wenk falava muito mal o português. Na época o Lauro Gomes era prefeito de São Bernardo, e a Servidei Demarchi, hoje que é a estrada que chamam de “Frango Assado”, a Servidei não era asfaltada, então o Lauro Gomes vinha uma vez por semana falar com meu chefe. E eu tinha que interpretar, fazer a tradução para ele. Mas era tão difícil, aquele Lauro Gomes falava, falava e não dizia nada, e era tão difícil traduzir isso!

 

P/1 – (risos)

 

R – Mas ele foi um grande prefeito, um grande. Na época, eu acho que só 25% de todo o terreno podia ser construído, o resto tinha que ser tudo ajardinado. Então uma vez por semana vinha uma pessoa paisagista que vinha falar e meu chefe, o Sr. Schultz Wenk, andava com ele pela fábrica. Mas era tão lindo. Os arbustos todos, as plantas, as palmeiras, e tudo. Era muito bonito.

 

P/1 – Tinha um jardineiro só para cuidar disso?

 

R – Ah, mas quantos jardineiros que tinha! Quantos! Tinha uma equipe de jardineiros. Inclusive teve um tempo que teve pastor alemão, que andava à noite com os guardas. Pastor alemão. Teve de tudo, na Volkswagen teve de tudo.

 

P/1 – (risos) Depois desse período, vamos dizer assim mais, quando a senhora começou estava falando que estava tudo meio em construção...

 

R – É, então, e sempre tudo em construção. Barracos para lá, barracos para cá. Inclusive eu aprendi a dirigir lá no terreno. E o Fusca não tinha ainda, a primeira marcha não era sincronizada. Então os motoristas, eles iam na hora do almoço, ia dirigir o Fusca com eles. Para cá, para lá e eles me levavam no meio e diziam: “Breca, breca, que agora é primeira.” Ah, meu Deus, tinha que pôr a embreagem, voltar para o meio, para o ponto morto e depois primeira. (risos) E eu aprendi a dirigir no terreno da Volks.

 

P/1 – Com os motoristas? (risos)

 

R – Com os motoristas. Era uma grande família, sabe? Era uma família mesmo, coisa formidável.

 

P/1 – Quem que eram as amigas da senhora? A senhora lembra os nomes? Dessa época?

 

R – Ah, eu me lembro de nomes, mas não adianta falar muita coisa. O Sr. Leiding, por exemplo, que era da financeira... Ah, eu conhecia poucas pessoas assim, mas a gente era uma grande família.

 

P/1 – Bom, né?

 

R – Muito bom.

 

P/1 – (risos)

 

R – E trabalhávamos muito, muito mesmo. Num telex só, um aparelho de telex, estava na nossa sala, aquilo. Hoje em dia ninguém fala de telex, na época era coisa tão para frente!

 

P/1 – Descreve para a gente o que era um aparelho de telex.

 

R – Ah, é um aparelho que você, é que nem uma máquina holerite, que você bate a tecla, você bate a tua mensagem, que o pessoal mandava para nós e a gente copiava e mandava assim, e vinha numa fita toda perfuradinha, e depois, para transmitir, você tinha que enfiar a fita, ligar ela, e ela, isso aí, decifrava na Alemanha. Ia para lá, que nem holerite. E às vezes, aquele mundaréu de coisas, a gente enrolava sempre as fitas, para não emaranhar, e às vezes emaranhava, e aí ficavam linhas e linhas onde parou. Encrencou aqui? Ficava no “e”. Ai, meu Deus do céu, três linhas já, tudo “e”. Aí a gente... continuava com aquilo lá...

 

P/1 – (risos)

 

R – E não tinha, às vezes direto para a Alemanha, tinha que mandar daqui para São Paulo e não sei quem, a Vésper e a Radional; ainda um rapaz chamado Peter, depois nós ficamos sabendo que era um japonês, que recebia todas essas mensagens e à noite ele transmitia...

 

P/1 – Nossa!

 

R – Depois nós pusemos esse telex, era tão alto que nós pusemos em um cubículo lá dentro, e uma colega minha, essa com quem eu trabalhei 11 anos, ela disse que quando eu saí, uma noite de Natal, ela ficou até as 11 da noite lá passando aqueles telex todos para... Era o meio mais rápido de transmissão. Que não tinha outra coisa.

 

P/1 – Levava quanto tempo assim se ele era o mais rápido?

 

R – De manhã, quando o pessoal na Alemanha chegava, já estava lá com eles.

 

P/1 – Mas demorava o que, uma mensagem? Duas horas?

 

R – Ah, fica tic-tic, tic-tic, tic-tic e ia embora. Ah, minha filha, é isso aí... Hoje em dia...

 

P/1 – Diferença, né?

 

R – E à noite quando eu chegava minha mãe perguntava: “Conta como foi o dia.” E eu falava: “Mãe, não adianta falar.” Porque ela não entendia nada de telex. Do tempo dela (risos), 1914 ou 24, só até 24, mais ou menos, como era diferente. E hoje em dia...

 

P/1 – Mais ainda...

 

R – Nem ninguém mais não sabe de telex.

 

P/1 – E já tinha telefone?

 

R – Ah, telefone tinha. Um dia, o Sr. Schultz Wenk, foi de barco, ele era louco por barco, até um dia ele me ditou uma coisa sobre barco, eu não entendia nada. E ele falava, e acho que ele era de Hamburgo, um lugar de lá, ele era nascido. E eu não escrevi quase nada. E aí no dia seguinte ele perguntou (risos) se eu tinha entendido, eu falei: “Não, eu não escrevi nada.” Porque eu não entendia nada. (risos) Eu nem sei mais do que eu estava falando...

 

P/1 – Do telefone.

 

R – Ah, então, e ele saiu com esse barco e desapareceu. Entre Rio e São Paulo o barco desapareceu. E, ai meu Deus do céu, e agora para telefonar, para acionar qualquer coisa? Para telefonar para o Rio, as telefonistas falavam: “Espera de seis horas.”

 

P/1 – Para vir um interurbano?

 

R – É, para vir um interurbano. Só que depois nós acionamos, acho que até foi através de um senhor chamado Paulo Pestana, ele era chefe da polícia em São Paulo, e nós pedimos pelo rádio, qualquer coisa, foi de socorro. E aí as telefonistas começaram a nos atender. E aí depois nós encontramos. Eles ficaram em uma baía qualquer e ficaram festejando. E nós procurando aqui eles.

 

P/1 – (risos)

 

P/2 – Como é que ele era, dona Evelina, assim no dia-a-dia?

 

R – Ah, ele era uma pessoa muito simpática, muito… Ele não era nada de escritório, ele era só... Ele queria ver tudo bonito, sabe? Ele era, não sei, ele foi a pessoa certa no lugar certo. Mas agora, por exemplo, hoje, 20 anos depois, ele já não teria sido nunca mais a pessoa certa. Ele foi de implantar, de ter esse entusiasmo, de trazer a Volkswagen para cá, de comprar o terreno, em um lugar assim, e ele achava que ele podia lá fazer muita coisa... Isso ele era. Mas ele não era de sentar-se à mesa e... Era do tempo dele, vai. Morreu muito moço, acho que ele tinha uns 1953 anos, coisa assim. Parece que foi de um tumor na cabeça. Depois veio o Sr. Leiding, que já era um engenheiro, e que já queria tudo pontos nos “is”.

 

P/1 – (risos)

 

R – Ele não ia a nenhum lugar sem uma secretária a tiracolo, para tomar ditado. Fazia reunião sempre com uma secretária.

 

P/1 – Que era a senhora?

 

R – Discutia, aí eu falava: “Está certo, o ponto certo?” “Está.” Então, tá-tá-tá-tá. Aí, ponto seguinte. Esse a gente sempre sabia como estavam as coisas. Ele era o inverso total do primeiro.

 

P/2 – E quando a senhora entrou em 1959, não existia mais nada no Ipiranga, dona Evelina?

 

R – Não, já tinha sido transferido. Tinha ainda umas coisinhas lá no Ipiranga, mas, olha, eu acho que nem existia mais.

 

P/2– A senhora não chegou a ir lá?

 

R – Não. Nada. A fábrica comprou depois a Vemag... que tinha, acho, que eles montaram lá o Simca, não sei. Mas essa do Ipiranga eu não conheço, acho que foi nos anos de bem antes, 1953, acho, foi isso. Eu entrei em 1959. Mas eu conheço a moça que trabalhou nessa época lá. Mora hoje em um lugar que mostraram esses dias na televisão, onde só tem pessoas de idade, aqui perto de São Paulo.

 

P/2 – E ela não contou nada para a senhora lá do Ipiranga?

 

R – Não, ela não. Mas ela sabe assim muitas coisas. Mas ela trabalhou só um pedaço, também com o Sr. Schultz Wenk, mas ainda na cidade, quando a Volkswagen ainda não tinha fábrica. O escritório em São Paulo, na avenida Ipiranga. Mas esse tempo aí eu não conheço. Ela chama Cláudia. Trabalhou ainda depois muitos anos lá nas compras, na Volkswagen. É perto de Indaiatuba, aqui, um desses lugares...

 

P/1 – Tem várias cidades aí, deve ser uma dessas.

 

R – É, deve ser uma dessas, mas até agora não surgiu o nome.

 

P/1 – E como é que era, a senhora trabalhando para a diretoria, os relacionamentos com a matriz? A senhora sempre acompanhava isso?

 

R – Sempre. Isso era nosso contato diário com eles. Porque vinha tudo de lá. No começo ainda era tudo importado e tínhamos que obedecer a uma certa porcentagem em nacionalização por mês. E então não importava mais aquilo. Mas no começo, tudo era importado. Só o Brasil foi depois nacionalizando tudo, aos poucos, aos poucos. Então o nosso contato vinha tudo via importação. Importação era muita, muita coisa.

 

P/1 – Tudo de navio?

 

R – Tudo de navio. Nesses de madeira, não esses de contêineres grandes. Não existiam esses contêineres ainda. Eram ainda essas caixas de madeira, aliás que muitas dessas favelas foram construídas com as caixas da Volkswagen que você ainda passa e está escrito lá: Volkswagen.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É.

 

P/1 – (risos)

 

R – Eles vinham buscar as madeiras, madeiramentos. Eram caixas boas. E foi assim, a importação foi sempre muito importante.

 

P/1 – A senhora lembra assim de algum momento de crise?

 

R – Ah, tivemos, naturalmente, também crise. Por exemplo, esse Sr. Leiding, a primeira coisa de manhã, ele queria saber quantos carros nós tínhamos vendido a mais do que no dia anterior. Todo dia ele queria ver a lista. Entrava na sala, já queria a lista. E uma vez nós tivemos 26 mil carros no estoque. Ah, foi uma coisa de quase vir abaixo, a fábrica. Porque nunca tiveram tanto estoque. Hoje eu não sei quantos que tem, mas na época ali, 26 mil... Não sei quantos carros que nós fazíamos. Hoje me foge, se eu falo que eram mil, eu não me lembro. Mas isso foi...

 

P/1 – No dia que teve 26 mil...

 

R – É, 26 mil foi uma catástrofe.

 

P/2 – Como que ele reagiu?

 

R – Ah, louco da vida. Ele só queria vender, vender, fazer mais, vender mais. E quando teve 1970, eu acho que 1970, 1971, foi o fogo grande da Volkswagen. Queimou. Um dia de manhã, chegamos, tinha pegado fogo. Aí nós ficamos à noite lá, todo mundo ficou a noite lá, varando noite e tudo. Vimos na televisão como estava queimando. Foi pelo mundo, essas imagens, já na televisão e tudo mais. Foi um fogo muito grande.

 

P/1 – Foi na fábrica de São Bernardo?

 

R – É, em São Bernardo. E queimou o centro de, ai meu Deus do céu, como chama? De computação. Começou aquilo lá com aquelas máquinas grandes, com aqueles rolos enormes e tudo, foi e pegou fogo lá. E o Sr. Leiding, de manhã, quando chegou foi direto para lá. Quando ele voltou, eram nove horas, ele já estava todo queimado, ele não tinha mais as sobrancelhas, estava preto, todo queimado. E ele pôs a pasta dele na minha escrivaninha e quando eu peguei ela, estava queimando, ardendo. Ele já tinha entrado lá. Perdemos lá um bombeiro; morreu lá; uma parede inteira caiu. Depois pegou fogo mais um outro lugar, uma coisa terrível!

 

P/1 – Nossa Senhora!

 

R – Os bombeiros vieram de São Paulo, da Villares... A via Anchieta fechou só por causa dos bombeiros que vieram. Helicópteros, não com água, com sacos de areia por cima e tudo, um negócio terrível.

 

P/1 – Nossa. Fazer o quê, né?

 

R – Tudo foi resolvido, e nós sempre lá trabalhando.

 

P/1 – (risos) O que eu queria retomar, é que a senhora falou no primeiro todos os escritórios meio...

 

R – Ah esses, tudo improvisados.

 

P/1 – Quanto tempo levou para arrumar?

 

R – Ah, isso foi... A Volkswagen foi nos primeiros anos, acho que foi sempre tudo em obras. Sempre estava em obras. Alguma coisa sempre estava em obras. Na época, quando eu entrei ainda tinha as aléias e bicas de água que jorrava, que depois virou tudo escritório, foram erguendo, foram erguendo, foram ampliando aqui e ali, tudo, tudo, foi só...

 

P/2 - Tinha muitas visitas ilustres?

 

R – Muitas, ô, meu Deus, nós recebíamos visitas do mundo todo, de gente super importante.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma personalidade?

 

R – Ah, não lembro, não. Não lembro. Mas isso, muita gente importante veio. Deve ter fotos lá. Esse Sr. Diekers deve ter, esse que vocês vão entrevistar. Ele é a pessoa mais indicada, porque ele acompanhava esse pessoal todo pela fábrica e ia viajar com eles Brasil afora e Volkswagen, naturalmente.

 

P/1 – (risos) Desse período que a senhora trabalhou, quais os outros carros que a senhora viu que marcou época?

 

R – Olha, teve o Fusca, depois daí a Brasília. Também tive Brasília. Depois veio o...

 

P/1 – Que cor que era a Brasília?

 

R – Ah, eu tinha todo ano um carro novo. Trocava uma vez por ano. Às vezes, nem completava um ano, saía um novo modelo, eu já comprava o novo modelo. A gente tinha sempre a facilidade de comprar, né? Então sempre tive carro. O maior que tive foi uma Quantum, com ar-condicionado. Mas sempre tivemos carro, e um atrás do outro. Depois teve um que chamava, Pé-de-Boi... ai meu Deus do Céu, não lembro.

 

P/1 – TL.

 

R – TL. Zé do Caixão, chamava aquele lá.

 

P/1 – (risos)

 

R – Aí, um Passat, foi que...

 

P/1 – Marcou época?

 

R – É, gostei.

 

P/1 – A senhora teve Passat?

 

R – É, tive Passat. Eu tinha um sítio em Monte Verde, lá é muito íngreme e os carros… Uma vez nós fomos para lá, nós fomos sempre para lá, mas uma vez em chuva, e os carros todos parados de lado assim e eu com o meu Passat, e os meus filhos... Abri lá atrás, pus meus filhos atrás, sabe, abri o capô atrás e os meus filhos ficaram sentados para fazer força assim, e eu subindo com o meu Passat, fui, fui embora, e os outros falando... Até falaram, meus filhos falaram depois para mim, um disse assim para mim: “blöde ziege!” Isso quer dizer cabra besta.

 

P/1 – (risos)

 

R – (risos) Quando eu subi, acho, de ódio que eles tinham que eu subi. (risos)

 

P/1 – (risos) Mulher, dirigindo...

 

R – É, mulher dirigindo... Mas com correntes, subia com correntes. Sem corrente não ia conseguir. Mas aquele Passat, a gente colocava tudo lá dentro.

 

P/1 – E era um carro de luxo, na época?

 

R – Era, um carro de luxo. Mas foi um carro muito potente, muito gostoso de dirigir. E eu, com três filhos, minha mãe e eu, e toda aquela bagagem, parecia um ônibus, eu dirigindo lá. (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – (risos) Mas era muito bom. Cada coisa na sua época tem...

 

P/1 – Tem alguma história engraçada?

 

R – Não, essas engraçadas eu já ponho aí no meio, essa da “cabra besta”, por exemplo. (risos)

 

P/2 – A senhora chegou a viajar para a Alemanha a trabalho?

 

R – Viajei, viajei também. Fui tratar de assuntos de diretoria. E cheguei a...

 

P/2 – Para onde?

 

R – Fui para Wolfsburg que é a fábrica matriz lá. E voltei para o Brasil, a diretoria inteirinha estava em Congonhas. (risos) Não, em Congonhas, não, na época já era em Guarulhos. A diretoria estava lá para saber que notícias eu estava trazendo. Muito bom.

 

P/1 – A senhora foi com uma missão importante?

 

R – Fui. (risos)

 

P/1 – A senhora pode falar?

 

R – Não, não quero falar. Desse tempo, sabe? Quando eu cuidei dos diretores, aí tem muitos sobes e desces. Muitas coisas assim, prefiro não falar. (risos)

 

P/1 – Não tem problema.

 

R – Essa diretoria que eu falo hoje, que eles estavam todos lá, porque eles queriam saber porque eles iam para Argentina, que a Volkswagen estava montando uma fábrica na Argentina, na época. Mas isso são todos assuntos assim mais cabeludos.

 

P/1 – (risos) Está certo, está certo.

 

R – Mas mesmo assim foi bom, foi bom, aprendi bastante.

 

P/1 – Lá?

 

R – É. Fazendo esse serviço.

 

P/1 – A senhora foi muitas vezes?

 

R – Não, não, eu fui só duas vezes para lá. Mas essa foi assim, mais importante.

 

P/1 – Foi a primeira vez que a senhora viajou de avião?

 

R - Não, não. Eu já tinha ido para a Alemanha, e eu fui uma vez com o voo inaugural da Lufthansa daqui para Buenos Aires. E eu fui uma vez com a Lufthansa com umas secretárias, em viagem à Alemanha. Aliás, foi essa que eu fui que... (risos) quando eu voltei, tive que assumir esse posto aí. E nós viajamos, as secretárias, tudo de umas firmas alemãs. E brasileiras também. Viajamos pela Alemanha.

 

P/2 – A senhora poderia falar um pouco mais sobre os outros diretores que a senhora acompanhou?

 

R – Os outros diretores, como eu digo, eu tive muitos que..., um que falou quando eu me despedi dele, falei: “Eu vou me aposentar agora.” Ele disse: “E eu vou trabalhar ainda uns anos para pagar a sua aposentadoria.” Isso foi uma coisa. O outro, ele era um contratado que veio e falou assim para mim: “Você vai fazer o meu imposto de renda.” Eu falei: “Não, não vou fazer. Porque eu faço o pagamento, mas o imposto de renda é de cada um.” Ele falou: “Você que me paga, você que faz meu imposto de renda.” E ele veio assim em cima de mim. Eu não fiz, mas tivemos que fazer, porque ele não entendia nada aquilo, e eu não sei, ele só tinha confiança em mim. Eu e o meu diretor, o presidente, senhor Sauer, nós, as duas pessoas únicas que sabíamos dos valores, das coisas, dos detalhes de cada diretor. Então ele achava que eu tinha que fazer tudo para ele. E tem essas coisas. E tem coisas também agradáveis. Vinham da Alemanha, voltavam da Alemanha, tinha sempre um chocolate, um perfume, um xale, uma coisa assim.

 

P/1 – Uma lembrança.

 

P/2 – E quando o Sr. Sauer entrou?

 

R – Ele entrou em 1973, ele veio da Bosch. Ele era o maioral da Bosch. E ele veio, e nossa... E aliás, cada vez que vinha um novo, nós as secretárias lá achávamos sempre: “Bom, agora nós vamos...” Certamente (risos) ele vai trazer as novas. Mas sempre a gente continuou lá. Sempre. E também quando o Sr. Sauer chegou, achamos que ele ia trazer para a Volks a secretária dele da Bosch. Mas que nada! Ele ligava para ela, sim, mas nós ficamos aqui. (risos) E desde o começo foi um trabalho muito, muito bom com ele, ele era perfeito. Ele era muito gente, sabe? Ele via sempre a coisa... Meu filho, por exemplo, foi mordido por um cachorro, ninguém sabia, me telefonaram e falaram assim: “Olha, ele foi mordido e...” Aí o seu Sauer: (bate palmas) “Vamos, vamos, vai cuidar do teu filho. Vai, vai, leva o seu filho logo lá no Instituto Pasteur.” Essas coisas, sabe? Ele era sempre… Em primeiro lugar era a pessoa. E isso ele não deixou de ser até hoje. Conhece minha família por dentro e por fora. E não a minha, só, de todo mundo assim, ele sempre estava presente.

 

P/1 – Sempre se preocupou?

 

R – Muito, muito.

 

P/2 – Então, dona Evelina, se a senhora pudesse falar um pouco sobre os presidentes.

 

R – Sobre os presidentes. Bom, primeiro o Sr. Schultz Wenk, que como eu falei era diretor superintendente; e depois veio o Sr. Leiding, até 1971; depois veio o Dr. Schmidt, V. P Schmidt, ele chamava, que nós falávamos que ele era o filósofo, ele era o que mais gostava de ditar. Tinha 1001 recortes de jornal. Ele recortava tudo. E nós tínhamos que recortar e muitas vezes traduzir para o alemão o que ele queria. E ele ditava procurando sempre nos recortes. E ditava onze folhas no caderno. Eram sempre onze folhas, eu acho que ele contava e quando tinha onze folhas taquigrafadas, ele falava assim: “Chama outra.” Aí uma saía, entrava a outra, ele ficava ditando, onze folhas, daqueles cadernos assim. Aí quando tinha, ele falava: “Chama outra.” Aí, meu Deus. A gente escrevia cinco, seis, sete folhas à máquina. Era uma filosofia, mesmo. Ele era o nosso filósofo. E ele ficou de 1971 a 1973 e depois veio o Sr. Sauer, em 1973. E ele ficou 17 anos e saiu em junho de 1989 quando se aposentou. E eu, em setembro. Eu ainda tive que fazer a aposentadoria dele, a saída dele da fábrica, toda a papelada, e por causa disso não pude sair em junho com ele.

 

P/1 – (risos)

 

R – Eu queria sair (risos) e fiquei ainda até setembro. Depois em setembro de 1989, eu também me aposentei.

 

P/2 – E a senhora esse tempo todo trabalhou com algumas colegas, né?

 

R – É, sempre tive colegas, nunca fui a única, não era possível trabalhar. Nós éramos em três sempre, e sempre três trabalhando. E duas eram Secretárias Executivas mesmo. De muita responsabilidade. Olha que, de brincadeira, eles falavam às vezes quando viajavam: “O que vocês vão fazer?” Mas era justamente nesta época em que eles não estavam que a nossa responsabilidade crescia o dobro. Inclusive eu, nos pagamentos, eu tinha medo da minha própria responsabilidade, às vezes eu ficava... Porque o negócio tinha que andar, então você tinha que saber para quem, quem respondia, quem fazia e tudo mais. Era muita responsabilidade. E sempre éramos em três. Quer dizer, duas efetivas e uma que nos ajudava para coisas mais do dia-a-dia.

 

P/1 – Cotidianas.

 

R – É. No começo ainda, na nossa mesa, vinha toda a correspondência da Volkswagen. Em 1959, 1960, ainda toda a correspondência que entrava para a Volkswagen parava, vinha. Por hora vinha saco assim de correspondência e passava tudo por nossas mãos. Mais tarde, não. Teve até uma seção inteira que cuidava só de correspondência. Mas...

 

P/1 – Essa correspondência a senhora tinha que abrir, ler tudo e destinar? Como é que era?

 

R – É, e tinha os boys que vinham, que faziam sempre as rondas. É, levava e a gente punha, no envelope que tinha já o nome, que seção, e qualquer coisa, e a gente pegava... Inclusive os carros eram vendidos e o comprador tinha que preencher uma coisa para ter a garantia e esse papel ele tinha que mandar para a Volkswagen. Era um papel assim. E ele vinha tudo na mesa. Então tinha que pôr lá. E os rapazes que passavam, levavam sempre essas pastas de um lugar para outro. Às vezes até sacos. Levavam para, por exemplo, a assistência técnica, iam sempre de sacos para lá. Então era bem começo, mesmo.

 

P/1 – (risos) Mas nessa época já tinha distribuidor, como é que era?

 

R – Era assim, distribuidor. Sempre, sempre de mala, de office-boy. Mas tarde foi diminuindo esse negócio de office-boys também, mas sempre tivemos muitos. Depois teve outros sistemas, porque era muito grande, era longe, a fábrica era enorme. Então, para mandar daqui até lá, tinha sempre... De bicicleta e sei lá eu de que esses meninos se locomoviam.

 

P/1 – E eles eram sempre de São Bernardo? Era um pessoal de São Bernardo?

 

R – Acho que sim. Esses boys aí, geralmente eles ficavam na Volkswagen. Eles depois cresciam lá, porque eles eram menores quando entravam. E depois... Eu encontrei esses dias um senhor de idade, ele foi office-boy do primeiro diretor lá. E foi lá e ficou na Volkswagen mesmo.

 

P/1 – Aposentou pela Volks?

 

R – Aposentou pela Volks.

 

P/1 – Olha só! A Volks estimulava que os funcionários estudassem, fizessem faculdade?

 

R - Ah, sim. Não, no começo até nem muito assim, mas logo surgiu o SENAI lá e sempre teve para os filhos de funcionários. E inclusive eu pus lá dentro um menino que não tinha nada a ver com Volkswagen. Aí eles falaram que não, que era só para os filhos de funcionários. Eu falei: “Mas ele que é tão bom na escola, sempre o primeiro na escola, e ele não vai poder entrar?” E ele foi um menino que entrou e ele prestou o melhor exame que jamais tinha sido feito por um aluno até essa época. E ele se aposentou na Volkswagen. Ele aprendeu, passou o SENAI, se tornou ferramenteiro, eu fui madrinha dele, inclusive. Um dia nós fomos todos convidados, fomos fotografados, tudo o mais. E ele foi ferramenteiro e já se aposentou. Quer dizer, tudo... Inclusive eu fiz diversos cursos de português, de correspondência, sabe? A gente vai aprendendo mas cada um escreve qualquer coisa. E não tem assim modo, um meio, uma coisa mais... Por que quando você tinha escola para se formar secretária? Só minha filha, já a próxima geração. Ela fez secretariado. Então ela já veio com uma... Mas eu aprendi tudo fazendo. Então teve lá diversos cursos assim, todos eles muito proveitosos. E tivemos uma época que apresentar novidades, que tinha prêmio, para melhorar aqui e ali, inclusive o nosso setor também. Quer dizer, sempre foi muito estimulado, essas coisas.

 

P/1 – Como a senhora aprendeu taquigrafia?

 

R – Ah, com uma professora em São Paulo. Só eu e ela. Aliás, minha prima também foi junto, mas ela desistiu depois.

 

P/1 – Era difícil?

 

R – É difícil, é difícil. Mas eu também escrevia em português, mas como eu praticamente só trabalhei, enquanto na presidência lá, praticamente eu era sempre só para o alemão. O mais que eu precisava sempre era o alemão. Português eu fiz muito pouco, porque o meu chefe sempre falava assim: “Escreve para ele assim e assim.” Sabe? Ou: “Faça isso assim e assim.” Então eu mesma escrevia, inclusive em inglês. Ele falava para mim: “Escreve para ele que a minha seguradora...” Sei lá, “eu quero mudar a minha seguradora.” Assim, sabe? Sempre. E a gente tinha que se virar.

 

P/1 – (risos)

 

R – Só o segundo, o Sr. Leiding que ele ditava até os pontos. “Ponto”, ele falava. Ele ditava um ponto. Ditava tudo e a gente tinha que escrever palavra por palavra. Mas geralmente, chefe não sabe ditar. Geralmente.

 

P/1 – Não estão acostumados?

 

R – Não estão acostumados. Então falam de qualquer jeito. E a gente tem que se virar depois.

 

P/1 – (risos) O que a senhora mais gosta, assim, gostava, da época que trabalhava na Volks?

 

R – Ah, não sei. Eu sempre fui muito empenhada... Gostava das minhas férias, que sempre com os meus filhos entrava de férias e viajava, e tudo... Só isso.

 

P/1 – Vocês iam para onde?

 

R – Ah, nós fomos uma vez para o sul, nós fomos para o Rio de Janeiro, para o interior do Rio, estado do Rio. Nós uma vez viajamos por aqui mesmo, estado de São Paulo, sempre viajamos. Sempre catava meus filhos, minha mãe e ia, passeava.

 

P/1 – Quantos são? Dois?

 

R – Não, eu tenho três filhos.

 

P/1 – Três? Qual o nome deles?

 

R – A minha filha chama Annete, também trabalhou na Volkswagen. Trabalhou muitos anos na Volkswagen, foi para a Alemanha, voltou da Alemanha, trabalhou outra vez na Volkswagen, hoje vive na Alemanha. Depois o meu filho que fez o SENAI lá, trabalhou também seis anos na Volkswagen, ainda. Também depois foi para a Alemanha. Trabalhou na Mercedes e depois foi para a Alemanha. E só o terceiro, não. Também nunca quis estudar. Pus ele lá dentro também, mas depois de três meses não gostou. Saiu.

 

P/1 – Ele trabalha com o quê?

 

R – Hoje ele trabalha com reciclagem, porque ele é difícil de conseguir emprego. (risos)

 

P/2 – E quando a senhora saiu já havia a Autolatina?

 

R – Já, porque a Autolatina foi constituída em 1986. Ainda eu permaneci aqui na fábrica em São Bernardo porque eu não dependia de ninguém, eu fazia o meu serviço dos diretores, e ninguém mandava em mim. Então o meu chefe, o Sr. Sauer falou: “Não, não precisa ir a São Paulo.” Porque eu morava já em Santo André e todo dia de manhã pensava assim: “Ah, meu Deus, eu preciso ir para São Paulo?” “Não”, ele falou, “você pode ficar aqui.” Mas aí, toda hora ele me chamava porque ele queria alguma coisa, telefonava às três da tarde e falava assim: “Venha aqui.” Eu falava: “Seu Sauer...” E a Autolatina ficava em São Paulo, na Granja Julieta. Eu falava: “Ah, seu Sauer, agora, para ir para São Paulo?” Ele falava: “Eu te mando o helicóptero.” Aí mandava o helicóptero, eu ia de helicóptero para lá, depois ele tinha que me mandar de volta porque o meu carro estava na fábrica. Quantas vezes me aconteceu isso...

 

P/1 – (risos)

 

P/2 – E quando foi a primeira vez que a senhora ouviu falar na fusão?

 

R – Olha, antes nós já ouvíamos falar, mas nós não queríamos nem acreditar. Inclusive o Sr. Sauer, ainda sempre desmentia. Falava que não, que não, que não, até que um dia aconteceu.

 

P/1 – E aí como é que foi a reação do pessoal?

 

R – Olha, eu não sei a reação em geral, mas a minha reação não era boa, não. (risos)

 

P/1 – A senhora não gostou?

 

R – Não. Porque o sistema americano é totalmente diferente. De trabalho. E a comunicação entre em cima e embaixo. Olha, se eu falo a verdade, já desde o começo falei: “Esse casamento não dá certo.” Não podia dar certo. 

 

P/1 – Culturas muito diferentes, né?

 

R – Eu nunca me entrosei com eles. Depois eu tive que ir lá na Autolatina. Eu ia quase todos os dias lá na Autolatina porque eles queriam juntar esse setor, fazer um só, para os diretores. E tanto o meu chefe ficou aqui, ele queria os diretores da Volks comigo e os diretores da Ford com um senhor lá. E ninguém queria dar os segredos ou qualquer coisa, ninguém queria dar um passo para cá, para nunca misturar. Foi muito difícil, muito desagradável. E depois eu tive que entregar mesmo, porque eu falei: “Eu vou me aposentar.” Aí eu entreguei para esse senhor, não lembro hoje mais o nome dele, e ele colocou tudo no computador. Eu que tinha fazer tudo porque os meus diretores não aceitavam que eu trabalhasse no computador. Eu trabalhava sempre naquela maquininha, ainda, assim de calcular, porque eles queriam sempre que... era só eu, para ninguém saber nada. Eles achavam que computador não era o segredo suficiente para alguém saber alguma coisa. E eu fiquei sempre nisso. E ele, a primeira coisa, botou tudo no computador. E um dia me contaram, eu não sei, porque eu saí. Diz que todos os descontos, ele aumentou na...

 

P/1 - Na folha?

 

R – Ele não subtraiu, ele adicionou nos pagamentos. E todos os diretores ficaram contentes e receberam. (risos) Depois teve que voltar tudo atrás.

 

P/1 – E aí veio sem desconto? Todo mundo ficou feliz? (risos)

 

R – É, aí depois teve que consertar tudo. E tivemos, inclusive, um desses diretores, esse que falou para mim para eu fazer o imposto de renda dele, ele faleceu depois em um acidente de helicóptero, nosso helicóptero foi moído aí na via Anchieta, um dia... Ele certamente, eu acho que ele deve ter prensado o piloto para ir para São Paulo, para levantar vôo e o piloto não queria porque estava muita neblina, muita neblina mesmo. E eles encostaram aí em uma fábrica e o helicóptero foi moído lá e eles juntos.

 

P/1 – Nossa!

 

R – Ele teve uma morte horrível. Mas o resto...

 

P/1 – Teve alguma grande greve lá que a senhora ficou com medo?

 

R – Ah, teve também greve, sim, teve. E depois a gente entrava por trás.

 

P/1 – Vocês tinham que entrar...

 

R – Nós tínhamos, aí é que tinha mais trabalho ainda!

 

P/1 – (risos) Dobrava o trabalho?

 

R – Dobrava.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Ah, porque tinha sempre reuniões, e o que que nós vamos fazer, e tudo isso... E como a Volkswagen da Alemanha tinha 80% das ações, quer dizer, era… Então nós tínhamos que prestar sempre contas à Alemanha. E tudo que nós fazíamos, inclusive, recebíamos também de lá diretrizes, como agir. Então eu sempre tinha muito trabalho. Nunca fiz greve.

 

P/1 – Não dava?

 

R – Eu me lembro ainda quando o Sr. Leiding estava uma vez em uma reunião, ele falou que não dava para dar férias coletivas, porque as vendas em janeiro estavam indo tão bem, ou era em dezembro, mas janeiro estava previsto muito bem, então eles não queriam dar férias coletivas porque eles queriam o pessoal trabalhando. Em geral, em janeiro eram férias coletivas. Aí quando nós voltamos da reunião, eu falei para ele: “Seu Leiding, se o senhor pensa, esses nordestinos aqui, se eles vão de férias para o norte, eles levam três dias a chegar lá, ou cinco dias. Eles vão ficar o quê? Dois dias lá para voltar cinco dias para cá? Não vai adiantar para eles essas férias.” Ele só queria dar dez dias, ou coisa assim, porque ele queria o pessoal trabalhando. Eu falei: “Não adianta!” E sabe que foi atendido mesmo, foi dado férias coletivas normais para eles depois. Isso é uma coisa que eu fiquei muito gratificada na época. Eu tenho assim umas coisas que eu falei para eles também. É porque ele não sabia. Porque na Alemanha, ninguém vem assim, não é imigrante que vem de longe. Eles vinham, sim, da Itália, tudo, para trabalhar de temporada, mas aí eles ficavam a temporada toda na Alemanha, e inclusive com família. Depois iam embora. Mas aqui o nordestino vinha para cá e, naturalmente, se em janeiro tinha férias, ele voltava lá para a sua terra, se ele não tinha ainda família aqui. Porque na época, quem nos ajudou muito foram esses nordestinos, que vieram para cá. Que sempre foi falado pela diretoria, isso também tenho que dizer, todas as reuniões foi sempre dito como eles eram ótimos trabalhadores. Tão fáceis de aprender e não reclamavam de nada, estavam sempre aí, sempre exaltando eles da melhor forma mesmo, os nordestinos.

 

P/1 – Na época que a senhora entrou, quantos funcionários tinha na fábrica?

 

R – Ah, não lembro. Meu primeiro número era 5.091. Não sei quantos tinha. O meu segundo foi 39.000, e depois já tinha 125.000 de número. (risos)

 

P/1 – (risos) Qual a melhor lembrança que a senhora tem da Volkswagen?

 

R – Nunca pensei em sair, nunca pensei em procurar, não é como em outros empregos que eu queria sempre ir para frente, eu queria mais alguma coisa na vida. Entrei na Volkswagen e me senti em casa, e sempre bem. Eu não passei nada que eu dizia assim: “Eu vou deixar isso para trás, vou procurar outro caminho.” Não, eu sempre tive assistência médica, tudo, tudo foi perfeito aqui. Não posso dizer nada, foi tudo muito agradável. Falei bastante.

 

P/1 – Não, tem mais duas aqui.

 

R – Ah, meu Deus do céu! (risos)

 

P/1 – (risos) Para a gente acabar. Na opinião da senhora, qual é a importância dessa trajetória toda da Volks, que a senhora acompanhou bem de perto, aqui no Brasil? O que a Volks representa no Brasil?

 

R – É a maior fábrica de automóveis do Brasil. E também quando ela veio, já com esse ímpeto de crescer e dar lugar para tanta gente trabalhar. Olha, hoje eu não sei mais. Mas nos meus tempos, quando você ia à cooperativa, você via essa gente nordestina com carrinhos, mas não um só, três carrinhos cheios de compras, o que acho que nunca na vida tiveram. E hoje eu não sei como é. Mas na época nossa, minha, de Volkswagen, eu acho que a satisfação... A Volkswagen trouxe um grande… Para o Brasil inteiro, uma grande evolução para o Brasil inteiro. Uma das melhores mesmo. E trouxe muita coisa boa para cá. E mesmo assim, que quando tem greve, ou qualquer coisa, fala assim: “Ah, essa Volkswagen...” Sempre batia nela, não falava Ford está fazendo isso ou aquilo. Era sempre a Volkswagen. E a Volkswagen é quem melhor tratava o pessoal. O Sr. Schultz Wenk todo dia de manhã passava pela fábrica, lá vinham os carrinhos que tinham os litros de leite, ainda não tinha caixinha. Eram os litros de leite, tinha, acho, 12 garrafas, e os pãezinhos, e vinha assim, cada um recebia um pãozinho e um copo de leite. Todo mundo recebia na linha de produção. E o Sr. Schultz Wenk passava por eles e conversava com eles em português, mas eles se entendiam. Ou ele pegava a secretária assim, quando ele queria...

 

P/1 – Bater um papinho com os funcionários?

 

R – Ou ele chegava lá falava assim: “Tira aquela máquina de lá.” A gente tinha que ver depois qual era a máquina que era lá. (risos) Qualquer coisa assim. Mas eu acho que a Volkswagen foi grande passo para o Brasil e para muita, muita gente, mesmo, que hoje tem casa, tem tudo.

 

P/1 – Agora a última pergunta: o que a senhora achou de ter ficado este tempo com a gente, ter contado a história da vida da senhora dentro da Volkswagen dentro deste projeto dos 50 anos?

 

R – Ah, eu me sinto bem mesmo, porque nunca nem pensei de precisar contar todas essas histórias, tudo o que eu vivi, mesmo. Então eu me senti muito bem.

 

P/1 – E a senhora acha importante a Volks estar resgatando os 50 anos?

 

R – Eu acho sim, eu acho que devíamos fazer muito mais. Infelizmente, no Brasil, não se faz isso. Não tem tradição. Quando eu vejo na Alemanha, toda cidade, todo lugar tem museu, todo mundo resgata uma coisa do que teve. E no Brasil não tem ainda isso. Então, está ótimo, tem que ser, tem que ter.

 

P/1 – Está bom, obrigada pela entrevista.

 

R – De nada. Ai, meu Deus, sobrevivi.

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