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História

Enfrentando as mudanças da vida

História de: Sandra Martins Verboonen
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/10/2021

Sinopse

Sandra Martins Verboonen nasceu em Petrópolis no Rio de Janeiro, no dia 09 de janeiro de 1974. 

Nasceu numa noite tempestuosa em Petrópolis depois de uma gestação tranquila. É a primeira filha do casal, Luci Martins Verboonen e Jorge Luiz Verboonen.

Sua família materna tem origem é uma mistura de italianos, franceses, portugueses e espanhóis.

Seus bisavôs todos vieram da Europa fugindo da Guerra e se estabeleceram como comerciantes e muitos tem veia artística.

A família paterna tem origem belga e inglesa. Seu avô tinha um orquidário que continua na família. 

Seus pais se conheceram em Cabo Frio nas férias. 

Seu pai é engenheiro elétrico e começou a trabalhar em FURNAS em 1972 e sua mãe é dona de casa. 

Por causa do trabalho do pai, que era ligado à área de construção de linhas de transmissão, mudou muitas vezes. Teve a primeira infância em Petrópolis. Depois sua família se mudou para Campinas onde nasceu seu irmão caçula. Em seguida, mudaram para Itapeva. Em 1982 voltaram para o Rio indo morar num condomínio na Barra da Tijuca. 

Em 1989, com 15 anos, fez um intercâmbio de um ano na Alemanha, na casa de uma tia, que foi crucial para vencer sua timidez. Acredita que essa viagem fez diferença no seu sucesso profissional. 

No retorno ao Brasil, em 1990, a família já morava em Petrópolis. 

Desde pequena tinha a referência de que seu pai trabalhava em FURNAS, frequentando os eventos da empresa e morando nas vilas, mas não sabia a função do seu pai nem o que a empresa fazia. 

Pela positividade e criatividade de uma professora de biologia percebeu que poderia ser feliz fazendo o que se gosta.  Na fase do colegial se apaixonou por química e biologia. Fez o teste vocacional no período do vestibular e escolheu fazer graduação em ciências biológicas. 

Prestou vestibular para a FUVEST e foi aprovada para a Universidade Federal de São Carlos. 

Fez toda a graduação morando na república.  Entrou na faculdade pensando em se especializar em engenharia genética, mas não se adaptou à metodologia do laboratório. Nesse período se deu conta que só poderia se especializar numa área que tivesse propósito. Seguiu então a botânica se especializando em recuperação de áreas degradadas. 

Após formada, retornou ao Rio de Janeiro. Por intermédio do pai, em 1998, conseguiu ingressar em FURNAS como contratada no Departamento de Meio Ambiente. 

A área estava se formando na empresa por exigência de uma legislação nova no país. Ingressou na equipe que apoiava as obras de linhas de transmissão.  Encontrou apoio dentro da equipe para realizar trabalhos e apoio para suas questões filosóficas entendendo que sua função era realizar o projeto com o menor impacto possível. 

Pelo seu perfil, assumiu a coordenação de projetos assumindo a redação de muitos relatórios e a interação com órgãos de controles externos. 

Em 2006 ingressou no projeto de licenciamento de Simplício. Foi seu primeiro projeto de usina e o grande desafio da sua carreira. Coordenou a implantação de 38 projetos ambientais no complexo.

Em 2008, ingressou em Furnas como funcionária.

Em 2009, a convite assumiu o cargo de gerente substituto na estação de piscicultura na Usina de Furnas. 

Se mudou para São José da Barra com a filha pequena, a mãe e a avó, para morar na vila. Todas se adaptaram facilmente à nova rotina de morar numa cidade pequena com as quatro gerações morando juntas. 

Em 2010, recebeu a incumbência de licenciar o laboratório nos órgãos ambientais. Foi a forma que encontrou de interagir com a equipe e valorizar e dar visibilidade ao departamento. Começou a interagir muito com a área de operação. 

Em 2013, depois de uma grande reestruturação empresarial, a área ambiental se uniu à área fundiária. Assumiu a gerência da Divisão de Gestão Fundiária das áreas regionais, com uma equipe nova e novos desafios. Foi um grande aprendizado. 

Até 2020 essa estrutura permaneceu, até quando recebeu o convite de retornar ao Rio de Janeiro para assumir o Departamento de Gestão Fundiária. Em maio de 2020, houve uma outra reestruturação em que a área fundiária se uniu à área de gestão patrimonial dentro da Diretoria de Administração. Assumiu esse desafio de gestão no meio da pandemia e começou a fazer a Faculdade de Administração on-line para se preparar para os próximos desafios que virão.


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História completa

Um pequeno excerto sobre a vida de Sandra 

(...) eu parei, e me dei conta, nossa, não sosseguei um minuto. Tudo bem, até fiquei 12 anos na área ambiental, nossa, mas já se passaram mais 11 anos. Então assim, em 23 anos de Furnas, eu entrei fazendo uma coisa e mudei completamente. Não necessariamente é assim com todo mundo, e ai eu parei, e falei: meu deus, que história. Porque a pessoa não tem uma trajetória continua, a pessoa tem degraus.



Quando entrei na área de Meio Ambiente de FURNAS, em 1998, se abriu um novo panorama, a empresa trouxe essa questão da objetividade, que eu precisava, eu precisava desse porquê. Por que eu estou fazendo isso? Então isso era sempre muito claro, questão dos empreendimentos. Eu cheguei para trabalhar com linha de transmissão, que era o que ninguém gostava. Então o cara novo que chega, “dá para ele o que ninguém gosta de fazer”. O que ninguém gosta de fazer? Trabalhar com linha de transmissão, o pessoal gostava muito de usina hidrelétrica, era o grande forte, o grande boom para área ambiental. E eu gostei muito, eu brinco, estava no sangue, meu pai passou a vida construindo linhas de transmissão, subestação. E aí eu fui trabalhar também nessa área. Eu gostava, porque os projetos eram mais rápidos, mais objetivos. Você planejava, executava e concluía. Usina ficava aquela coisa de 10 anos, eu falava: gente, esse negócio não vai terminar nunca? Levava muito tempo e muita coisa. Eu sempre gostei das coisas um pouco mais rápidas, mais objetivas. Eu entrei, tudo era novidade, tudo era legal. E aí de repente eu fiz o meu primeiro relatório, para pegar uma autorização de supressão vegetação. E aí eu me vi lá na sala, de novo, tecnologia era algo assim... eu cheguei em Furnas, eu dividia o computador com outra pessoa, não existia o seu computador, era o computador que você ficava dividindo com mais um. Tudo em papel. E aí me deram um mapa, que era feito das Folhas do IBGE, você tirava xerox das Folhas do IBGE, montava lá um mosaico, pessoal dava para a gente, desenhavam ali em cima, a gente já plotava ali em cima. O órgão ambiental tinha pedido, para a gente pegar na faixa de Servidão, e marcar qual era o uso, era a função de estagiário recém-contratado, estagiária, a mesma coisa. Então eu tinha que ficar desenhando com lápis de cor, medindo com a régua daqui até aqui. O engenheiro florestal falava lá o que era, de onde até onde. E eu estava naquela função estagiária, fazendo. De repente eu olhei para aquilo tudo e entrei em crise. E aí eu me lembro, do Sebastião entrar na sala, e ele falava assim: que foi que você está com essa cara? Você não está chorando né? E aí eu falei para ele: não foi para isso que eu estudei! Você tem noção de que eu estou fazendo um mapa, e a gente está fazendo um relatório, para mandar cortar árvores. Sebastião, a gente jurou que ia proteger o meio ambiente. O que a gente está fazendo? Não, não vou fazer, eu vou pedir demissão, eu não vou ficar aqui. Isso aqui é coisa de maluco, como assim, a gente estudou para fazer isso? Tá tudo errado. E aí ele olhou muito sério para mim, falou: menina, presta atenção! Se você não tiver aqui, se eu não estiver aqui, outras pessoas estarão. Primeira coisa, bota uma coisa na sua cabeça, isso vai acontecer. Você está tendo a chance, de brigar como a gente tem brigado, com o pessoal da construção, como a gente tem sido chato de falar, a gente tem a chance de tentar mudar e fazer com que isso ocorra com o menor impacto possível, a gente está começando com os projetos de recuperação de áreas degradadas. Então pensa o seguinte, isso vai ser feito, ele pode ser feito de uma maneira mais destrutiva e pode ser feito de uma maneira mais protetiva, dentro daquilo que vai acontecer, porque assim, a gente precisa de energia, a gente precisa colocar esses empreendimentos, isso não é uma opção. A sua função aqui, que foi que você estudou tanto, é justamente para você ajudar a empresa a fazer da melhor forma possível. Eu parei, olhei para a cara dele, “a gente não tem esse poder”. “A gente vai ter esse poder. Olha, você está aqui, você acabou de chegar, a gente está conquistando espaço, é fato. É fato que quando a gente entra, metade da sala geme, ninguém quer falar com a gente. Bota isso na cabeça, você está aqui e pode fazer a diferença.” E aquela fala dele, me tocou, eu vou dizer que o primeiro relatório eu fiz com o coração assim... 

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Nos 12 anos que fiquei no Meio Ambiente, a gente conseguiu, rever especificações de construção, brigando com as empreiteiras, colocando questões ambientais, fazendo especificação técnica. Para ter essa redução, esse cuidado. Como eu entrei com muita disponibilidade para viajar, era solteira, não tinha filhos, tinha essa facilidade. Eu viajei muito, eu fazia muita inspeção de campo. Eu brinco, que no começo era até meio estranho, a gente andava em bando, a gente não conseguia andar com meia dúzia de pessoas, como a gente faz hoje. Eu me lembro de fazer vistoria, eram 20 pessoas, 19 homens e eu, a menina do meio ambiente. E a gente fazia inspeção de carro, de novo, não tinha muito como ver, traçado de linha, o pessoal da construção, traçava isso nas cartas do IBGE, iam para 50 mil, depois a gente tinha que ir para o campo, analisar, ia toda área técnica, o projeto, a construção, o pessoal do fundiário e o pessoal do meio ambiente para gente tentar combinar traçados. Olha, tira daqui, aqui tem uma mata perto, transfere para cá. Aí o pessoal do projeto via se era viável, se não era viável, como é que fazia. E a gente fazia o traçado no campo, fazia a proposta do traçado em campo. Eu participei de alguns projetos, naquela época também era mais fácil e começaram a ter alguns projetos com sobrevoo. Então falava assim, o traçado da linha a gente vai olhar, mas a linha é muito comprida, não dá tempo da gente fazer de carro. Então, é o seguinte: vai ter um sobrevoo, vai no helicóptero 1 do meio ambiente, 1 do fundiário, 1 da construção e 1 do projeto. E aí a gente sobrevoava a área. Eu adorava, eu descobri que adorava andar de helicóptero, achava aquilo assim... tinha um pessoal que tinha pavor, “deixa que a Sandra vai, ela vai, e ela faz as inspeções, depois se precisar a gente refine em campo”. Então eu fiquei participando durante muito tempo, nessa questão de ajudar a definição do traçado. E depois fazendo a parte do projeto de área de recuperação das áreas degradadas. 

Desenho de um círculo

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 Comecei a me dar bastante com órgão ambiental, fazer essas vistorias, essas inspeções, para defender os projetos. Então começando aí a reunião, enfim, participando das questões um pouco mais, até burocráticas, mas mais de interação. E aí comecei, comecei, meio que ser treinada, para fazer essas coordenações de empreendimentos, que meio ambiente sempre teve, de ter um responsável por olhar tudo e acompanhar as licenças ambientais. E fiquei nessa de linhas de transmissão de 98 até 2006. Aí em 2006, veio o Simplício. (...) Nossa, eu adorei! Eu acho que Simplício foi um mega desafio. Você fica coordenando lá, 38 programas ambientais, tá certo, que tinha hora que eu já não sabia mais... A gente fica assim, nossa, e agora, o que está acontecendo? Foi também uma outra experiência super desafiadora, saiu bem da zona de conforto.

  No final de 2009 já tinha surgido a proposta de eu ir para Minas, a estação de piscicultura, que antes ficava cooperação, tinha vindo para o meio ambiente. Eu apesar de estar no Rio, estava com filha pequena, para mim a vida estava puxada. De novo, aquela saudade de morar numa coisa mais interior. Ninguém queria ir! Aí de novo, “Sandra, ninguém quer ir morar no interior, agora é muito fim de mundo ainda, você não vai?” A condição para eu ir... Eu já tinha passado para Furnas, nesse meio tempo teve o concurso de 2004, eu tinha feito e entrado em Furnas em 2008. Então fiquei dez anos, de 98 a 2008 como contratada, então já estava ali, final de 2009. “Você já é efetiva, eu vou colocar você como substituta do chefe da divisão, da estação de piscicultura, porque ele deve se aposentar daqui a pouco, e lá não tem mais nenhum efetivo, eu preciso de alguém que possa”. E aí eu pensei, gente, eu não entendo nada de peixe, eu fugi, literalmente, de todas as aulas na faculdade, que tinha que abrir algum animal, eu ficava revoltada, para quê? A gente já conhece, tem um livro aqui ilustrado, melhor do que presencial. Eu achava aquilo horrível. A Faculdade Federal me deu a chance de escapar disso tudo, porque não tinha um animal para cada, então eu ficava mais do que feliz, de ter o estojinho lá, para o pessoal dissecar, e eu ficar só de lado, copiando a distância, não gostava. Falei: eu não sei o que eu vou fazer, mas também é uma chance de ver uma coisa diferente, ficar um pouquinho no interior, também dá para minha filha, já estava ali fazendo 6 anos, dá uma oportunidade dela também morar aí, numa vida mais tranquila. Falei: ah, vamos embora! Aí em 2010 mudei lá para a Usina de Furnas, onde tem a estação de piscicultura. E aí começou, algo completamente diferente, de novo. 

Desenho de um círculo

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E aí, vamos embora. E aí foi uma nova Furnas. O pessoal brinca que tem várias Furnas, dentro de Furnas, e tem mesmo. Saí daquele ritmo do escritório central, para pegar o ritmo de área regional, com outra filosofia, que a gente não tinha reunião. Eu ficava até sem saber o que eu tinha para fazer, porque era assim, não tinha reunião, não tinha viagem com órgão ambiental, não tinha relatório para fazer, carta para fazer, minhas especialidades, muita carta, muito relatório, muita reunião. E eu ficava olhando assim: eu estou aqui sentada, o que eu vou fazer da vida? Enfim, e aí participei de algumas viagens, para entender como que eram as viagens, o que o pessoal fazia. O pessoal era responsável pelas viagens de encanamento da qualidade da água e monitoramento da eco fauna, dos reservatórios do Rio Grande, os 5 de Rio Grande e da Usina de Funil. E tinha lá um laboratório de química, laboratório que fazia análise da água, e tinha laboratório de reprodução de peixe. E eu falava: gente, não estou podendo ir nem para um lado, nem para o outro. Laboratório de química, só entrava químico. O que eu podia entrar como bióloga, de reprodução de peixe, eu olhava aquilo, jamais vocês vão me pegar e me botar aqui dentro. E aí fiquei um tempo tentando  entender o que eu podia fazer ali, exatamente qual era a contribuição que eu podia fazer. E aí a primeira coisa que veio, para me salvar, no final de 2010. Eu mudei para lá em 2010, no final de 2010, meados de 2010, na verdade. Veio uma legislação, que as estações de piscicultura precisavam ser licenciadas. Eles nunca tinham ouvido falar de licenciamento  ambiental. E eu falei: eu sei! E aí foi aquela tábua de salvação. Eu sei o que eu vim fazer aqui, eu vou fazer o licenciamento dessa estação.  (...) E aí eu consegui achar um lugar, era uma forma de levar aquela equipe para um passo à frente, até de valorizar mais o trabalho que era feito, da gente conseguir também dá mais profissionalismo, no sentido de olha, temos uma licença, agora nós temos que trabalhar com regras, com normas, não é muito mais como eu quero que seja feito, mas é como precisa ser feito. 

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Quando foi em 2013, a empresa passou por outra reestruturação. E aí a área da estação de piscicultura, ia a ser devolvida para o meio ambiente, ia voltar para o meio ambiente. Mas naquele momento, entenderam que por questões de organograma, e tudo mais, a área de meio ambiente, não teria como manter essa área regional, vamos falar assim. Essa área regional não tinha previsão no organograma, enfim, entenderam que não era para fazer isso e uniram o meio ambiente da regional com o fundiário. (...) E aí lá fui eu aprender o que era fundiário, o que a gente fazia, como a gente fazia, de que jeito fazia. Entrar aí num mundo completamente diferente, um mundo também dominado, um corpo técnico bem masculinos. O meio ambiente sempre misturou bastante, mas voltou a ser um corpo técnico bem forte, masculino, basicamente de Engenheiros. O fundiário é composto basicamente da engenharia de avaliações, então você tem engenheiro civil, agrônomo e similares. Tem a parte dos cartógrafos, dos engenheiros cartógrafos, pessoal que passa por esse perfil e a parte de advogados, é o que você precisa para fazer análise fundiária. Gente, sai do meu universo. Aí outro grande aprendizado, entrar nesse mundo, era de novo a pessoa de fora. E tentando entender como funcionava, enfim, entender do assunto, aprender olhar uma matrícula, aprender a falar os termos técnicos. Começar de novo essa situação. Essa situação, essa estrutura, ela ficou dessa forma até 2020. Eu fiquei lá na regional até também esse período. Mas quando foi em fevereiro de 2020, eu tive um convite para voltar para o Rio, para ser gerente do departamento de gestão fundiária. E eu sempre pensando, gente, eu fiz biologia, onde eu vim parar? Se alguém me perguntasse quando eu era pequena, nunca em Furnas, jamais no fundiário, não conseguiria nem com bola de cristal fazer essa interpretação. E aí eu falei, tudo bem! 

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