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História

Enfrentando a vida e a morte

História de: Edite Silva Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/12/2013

Sinopse

A entrevista de Edite silva costa foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 23 de maio de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Edite veio de família simples com 20 irmãos. Conta que após o falecimento de seu pai, muitas dificuldades surgiram na família. Aos 21 anos de idade Edite veio para São Paulo junto com a sua mãe para encontrar uma irmã que já morava na cidade. Começou a trabalhar como empregada doméstica na cidade, porque precisava de um quarto para dormir e não tinha aonde ficar. Depois de casada largou o emprego doméstico e foi trabalhar como costureira.Depois de separar do marido, hoje Edite ainda mora no mesmo bairro em que construiu sua casa e tem como companheira uma de suas filhas.

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História completa

O meu pai era da mesma fazenda que a minha mãe. Quando ele se casou com a minha mãe ele já era viúvo, pai de cinco filhos. Os meus irmãos por parte de pai se chamavam Laura, Benedito, Otávio, João e Elisabete, do primeiro ao último filho. Do casamento com a minha mãe nasceram 16 crianças, ou seja, ao todo somos em 21 filhos. A nossa casa era uma casa grande, feita de barro com madeiras e coberta por palhas. Eles faziam uns quadrados assim, colocava o barro e construía a casa. Eu tive uma vida muito boa enquanto o meu pai não ficou doente. Quando eu ia completar cinco anos o meu pai faleceu e surgiram muitas dificuldades para a minha mãe. Mudamos muitas vezes de fazenda, procurando viver melhor e fomos passando pela vida. Mas a minha mãe não criou todos os filhos, criou apenas nove. Sete filhos morreram quando ainda criança. Saímos desta fazenda e depois fomos para uma outra chamada Utinga Leão, que era fabricadora de açúcar, também perto de Maceió. Os meus irmãos arranjaram emprego, ficaram moços e a situação melhorou. Foi quando aos 21 anos eu e a minha mãe viemos para São Paulo, coisa que já desejávamos. Nesta época eu tinha uma irmã casada que veio para cá. Eu costurava desde os oito anos. A minha mãe saia para a roça e deixava as costuras cortadas. A primeira calça que eu fiz para o meu irmão mais novo eu fiz perfeita, mas ao invés de colocar virada para o lado de homem, eu coloquei virada para o lado de mulher. Mas a calça saiu perfeita. Depois, quando eu vim para São Paulo, em 1946, eu viajei com o meu irmão mais novo. Fim de navio, fiquei 11 dias no mar, com uma malinha de roupa e um trocado para pagar o taxi quando chegasse na casa da minha irmã. Embarquei em Santos com o meu irmão no dia 25 de agosto de 1941. Na estação da Luz eu peguei um táxi para o Largo do Cruzeiro, na Freguesia do Ó, naquela época da guerra ninguém dava informação de ninguém e esse foi o meu desespero. A minha irmã sabia que eu vinha para cá, mas ninguém dava informação. Quando a minha irmã saiu do norte e viajou para São Paulo, veio com a filhinha de 11 meses. A minha irmã era magra, de cabelo curto. Quando cheguei aqui encontrei a minha irmã gorda, forte, com a trança que batia aqui! Fiquei desesperada porque só tinha dinheiro para pagar o táxi e com muito custo eu a reconheci. Ela me acolheu e fui morar com ela, num quarto e cozinha que ela vivia com os seus três filhos. Aqui eu trabalhava como empregada doméstica porque não tinha aonde ficar, e precisava de um quarto para dormir. Trabalhei na casa de doutor Antônio, advogado. Fui muito bem acolhida e trabalhei sete anos nesta casa. Nessa época, em São Paulo era uma garoa terrível. As roupas não secavam. Hoje em dia nos temos tudo, mas antes nós não tínhamos nada. As roupas ficavam no varal e tomavam sol, chuva, vento. Tinha época que ficava quase um mês garoando direto. Esse advogado para quem eu trabalhei tinha um filho único e a esposa dele gostava muito de mim. Trabalhei mais de oito anos e depois me casei. Aí fui trabalhar por particular e costurar para as lojas da José Paulino. Em 1958, quando eu estava esperando a minha filha, fui trabalhar no quartel como costureira do exército e ainda costurava em casa nas horas vagas. E além do trabalho, ainda dava conta das crianças todinhas! Nessa época as crianças já estavam um pouquinho maior. Eu tive meia dúzia de meninas. A última nasceu em 1964, mas nasceu morta. Em 1958 quando eu estava trabalhando no exército elas ficavam em casa. Eu trazia os fardos de costura na cabeça, desde a Vila Anastácio até a Lapa, onde tomava um ônibus até em casa. Eu levava costura para o mês e depois ia levar. Nisso a minha filha mais velha já tinha dez anos. Eu queria ter uma família. Eu me casei nem tanto pelo amor, mas sim porque eu queria ter uma família. Como eu não tive pai, me casei para não depender de ninguém. Então quando as minhas filhas vinham, eu ficava muito feliz! Nunca bati nem judiei de uma filha, elas são minhas amigas. Em 1964 nasceu a minha última filha. Eu passei muito mal, fiquei 14 dias no hospital entre a vida e a morte. Pedi a Deus que não me levasse porque eu não queria abrir mão delas. Meu marido foi também muito bom, eu não tenho do que reclamar. Só quando elas viraram adolescentes é que as coisas pioraram, ele era muito ignorante com elas por não entender as coisas aqui da cidade. Eu também sou do interior, mas não sou ignorante. Quando as meninas passaram para a faculdade tinham que estudar e trabalhar e então, quem trabalha e estuda não tem hora para chegar em casa, e ele não se conformava. Era daqueles pais carrascos, que queria as filhas perto dele. Ficava nervoso, queria bater, discutir. E eu nunca fui de brigar com ele. Em mim ele nunca relou a mão, mas batia nas filhas. Então teve uma época que eu fui obrigada a me separar dele. Hoje, eu continuo morando com uma das minhas filhas, que não se casou. Moro ainda no mesmo bairro, na Vila Iório. Sou muito independente e lúcida.
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