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História

Enfermagem: dedicação e doação

História de: Clarice Della Torre Ferrarini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

Nesta entrevista Clarice Della Torre Ferrarini nos conta sobre como escolheu estudar Enfermagem na Escola Ana Néri e do caminho percorrido até se tornar enfermeira no Hospital das Clínicas. Foi convidada a participar da equipe do Doutor Euryclides Zerbini no InCor e, com ele, auxiliou no primeiro transplante de coração realizado no Brasil. Muito dedicada, Clarice é um dos maiores exemplos que a Enfermagem possui e, com certeza, faz parte da memória do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas.

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História completa

P/1 – Dona Clarice, a senhora poderia começar falando, por favor, seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Eu me chamo Clarice Della Torre Ferrarini, nascida em São José do Rio Pardo, em 20 de novembro de 1921, São Paulo.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – José Ferrarini e Carolina Della Torre Ferrarini.

 

P/1 – Qual era a atividade deles?

 

R – Eles eram agricultores, trabalhavam na administração de fazendas, na área mais de agricultura mesmo.

 

P/1 – Aqui no estado de São Paulo?

 

R – No estado de São Paulo mesmo.

 

P/1 – E seus avós?

 

R – Meus avós? Meus avós vieram da Itália, né Marieta? Meus avós vieram da Itália e moraram em São José, acompanharam a nossa juventude também, porque eles moraram algum tempo conosco, até que eles faleceram.

 

P/1 – Eles eram de que região da Itália?

 

R – De Mantova. E eu também tenho, numa hora qualquer dessas, que eu viajo bastante, eu fui parar em Mantova para conhecer os familiares da minha família lá. Mas, lamentavelmente, eu não encontrei muita gente não, porque durante a Guerra foi uma região que ficou muito prejudicada, então não tinha muita gente para dar informação não, mas encontrei alguns parentes remotos que eu já tinha nome, que eu já tinha correspondência e a gente tem algumas cartas, que a gente se comunicou ainda com... Que eles mandavam para família. Então, ainda tive a oportunidade de ir lá.

 

P/1 – Que parentesco a senhora encontrou lá? Que grau de parentesco?

 

R – Olha, eu acho que eu encontrei mais gente de segunda geração, por aí assim. Primos.

 

P/1 – Como é que era? A senhora morava em casa, sítio, fazenda?

 

R – Eu morava em sítio não, fazenda não. Inicialmente sim, mas depois eu passei a viver, por exemplo, se eu fui para São José do Rio Pardo que é onde eu trabalhei mais, morei mais lá, fiz o ginásio, depois fiz uma escola normal, essa coisa toda, eu ficava na casa dos meus parentes, meus avós, meus tios, ficava na casa dos meus avós. E, assim eu fiz. Depois eu fui para a Faculdade da Ana Néri, fiquei lá quatro anos, depois de quatro anos, três anos e meio, quatro anos, eu voltei para São Paulo, mas aí fiquei já no Hospital das Clínicas propriamente dito.

 

P/1 – Seus avós eram agricultores também?

 

R – Eram. Então, é uma descendência assim, mais de lá mesmo que os dois eram italianos.

 

P/1 – Quantos irmãos a senhora tinha?

 

R – Nós somos em seis irmãos, são cinco mulheres e um homem só. Esse rapaz que é o homem ele é advogado, sei lá, ele tem alguns cargos administrativos por aí.

 

P/1 – Como era essa família italiana numerosa? Como era a convivência?

 

R – A convivência foi a melhor possível. A gente viveu muito bem com o pessoal todo da família. Moramos assim...

 

R/2 – Minha ______ tinha doze filhos.

 

R – Tinha doze filhos? A nona tinha doze. Nós tínhamos seis, mas ela tinha doze. Doze filhos.

 

P/1 – Não era uma família, era uma comunidade. (risos)

 

R – Era uma comunidade. Família muito junta, unida, solidária e sempre cuidando das coisas. E uma característica da nossa família, da minha mãe, do meu pai, é de mandar os filhos para fora para poder ter um pouco de cultura maior e tudo, porque se não, morávamos numa fazenda, era uma coisa grande, boa e tudo, mas a gente precisava já de fazer outras coisas. Então, eu saí da minha casa chorando muito, porque a gente chorava quando saía de casa, mocinha ainda. Aí, fui para casa da minha avó pra fazer o ginásio. Fiz o ginásio todinho lá em São José do Rio Pardo. Depois ______na parte de escola maior e depois eu vim me embora pra São Paulo. Nem sei quando eu vim pra cá.

 

P/1 – Como era essa infância na fazenda?

 

R – Era deliciosa. A vida era de fazenda que a gente tinha lá. Primeiro que a gente tinha tudo, a liberdade total, você podia ir onde queria, não havia nenhuma preocupação de que alguém pudesse fazer alguma coisa com a gente. Então, acho que a gente até extrapolou, porque a gente fez tanta coisa que hoje você não faria, de jeito nenhum!

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque tudo é perigoso, tem só gente bandida pelo caminho, ninguém ia conversar com ninguém porque... Aqui a gente não conversa com ninguém na rua. Mas a gente, na vida da gente de menina, de meninota, eu acho que a gente viveu muito bem.

 

P/1 – Com que idade a senhora saiu da fazenda e foi pra cidade?

 

R – Eu acho que foi com dezesseis anos, dezessete anos, por aí, mais um pouco. Antes ainda.

 

P/1 – E aí foi para casa dos seus avós?

 

R – Eu fui pra casa dos meus avós pra fazer a parte que precisava mesmo, de grupo, aí fiz Grupo Escolar lá mesmo em São José, depois fiz o ginásio.

 

P/1 – Como era São José?

 

R – Era uma cidade pequena, todo mundo conhecia todo mundo. Tinha ainda o coreto, tinha o jardim, tinha o catecismo, tinha o professor de catecismo também. Então, eu acho que é uma vida mais restrita, mas muito completa para a gente que está começando a vida e tudo. As pessoas muito amigas, a gente conhecia todo mundo e tudo. E tinha todos os parentes, que a família sendo grande também tinha muita comunicação.

 

P/1 – Tinha um “fut” [futebol]?

 

R – Ah, tinha. A gente ia também aos domingos, ia dar uma voltinha sim. Punha uma roupinha melhor e ia dar uma voltinha no jardim. Tomar um sorvete lá no Rádio. (risos) É isso aí.

 

P/1 – Sorvete no Rádio?

 

R – É. Tinha uma confeitaria chamada Rádio, então a gente ia lá ao Rádio tomar um sorvete e tudo. A cidade é boa, São José do Rio Pardo, é uma das boas cidades da Mogiana. Ela tem lá um elemento que sempre é comemorado, é Euclides da Cunha.  A cidade de Euclides da Cunha, a irmã dele, todos eles tinham atividades recreativas e culturais.

 

R/3 – As Irmãs que organizavam, não é?

 

R – As Irmãs da Santa Casa. Tinha uma Santa Casa com as Irmãs. Por quê? Você conheceu alguém de lá?

 

R/3 – É porque eu apresentei uma vez um trabalho com o meu orientador, que ele era chamado todos os anos, então, eu fui com ele lá, apresentar um trabalhinho sobre o Euclides.

 

R – Sobre Euclides da Cunha?

 

R/3 – É ______.

 

R – Então, está bom. (risos)

 

R/3 – Só isso.

 

R – É isso aí, mas você também foi lá, viu a cidade, tem um rio que corta bonito, tem a ponte bonita.

 

R/3 – Região bonita.

 

R – É uma região bonita.

 

P/1 – E o Grupo Escolar, como era?

 

R – O Grupo Escolar era muito interessante sim. Era um Grupo Escolar para jovem e tudo. Eu acho que realmente eu não...

 

R/2 – Cândido Rodrigues.

 

P/1 – Cândido Rodrigues o nome do Grupo Escolar, Grupo Escolar [Dr.] Cândido Rodrigues. Foi sempre nome de pessoas de relevância da cidade.

 

R – Como era a estudante Clarice?

 

P/1 – Sempre eu fui a primeira de tudo, acho que era uma sina que eu tinha aí. Eu sempre chegava assim, eu estou aqui, então eu vou ficar aqui; então, essas coisas assim me pesaram muito. Então, eu tive muita responsabilidade naquilo que eu fiz ou que ia fazer porque eu não admitia outro lugar não, acho que até hoje eu fui assim. Agora já estou mais velha, cansada, mas eu não admitia segundo lugar não.

 

P/2 – Foi fácil a mudança depois quando a senhora saiu do Grupo?

 

R – Do Grupo, foi fácil, para o ginásio foi fácil. Eu era muito amiga dos professores inclusive, que eu já conhecia e tudo. Já sabia quem era e tudo. Acho que realmente foi fácil.

 

P/1 – De São José a senhora foi?

 

R – De São José eu vim para São Paulo, né Marieta? Foi ou não?

 

R/2 – Você deu uma passadinha por Mococa.

 

R – Ah, bom. Passei por Mococa poucos dias lá.

 

R/2 – Queria fazer um ______.

 

R – É, eles queriam que eu fosse fazer o normal, porque a profissão de enfermeira naquele tempo era muito mal vista mesmo; quer dizer, pessoas, assim, que conheciam mais as coisas da vida, sempre viam na enfermagem um resquício de pessoas, que era de segunda categoria, que era uma babá, essa coisa toda. Então foi muito difícil quando eu decidi que vinha fazer enfermagem. Eu me lembro, eu morava na casa da minha avó, quando meu irmão Mário, que é o mais velho, ele sempre se portou assim, como uma pessoa que além de ser mais velho sempre tomou conta da gente, sempre muito carinhoso com a gente e sempre orientou nas coisas que a gente precisava, então, eu sentei com ele na sala e ele perguntou enfaticamente: “Você está disposta a enfrentar a Escola Ana Néri?”. Eu digo: “Estou”. Não sabia bem como era, mas digo: “Estou”. Eu tinha uma família conhecida que morava no Rio de Janeiro e eu já tinha conversado um pouquinho com ela, minha família já tinha avisado essa família, então, eu já sabia alguma coisa do Rio e da família. Então, eu falei com ele que eu iria e ele ficou meio temeroso, essa coisa toda, mas não podia negar que eu quisesse ir, porque eu quis mesmo. E, uma hora dessas, já estava sendo programado, eu fui para o Rio de Janeiro. Fui para o Rio de Janeiro com uma família conhecida de lá, fui diretamente para a Escola Ana Néri. Fiquei na Escola Ana Néri porque na Escola Ana Néri tinha internato. E, no internato, eu fiquei lá o curso inteiro, fiz um curso de primeira linha também e de lá eu já me preparei para vir pra São Paulo. E, pra São Paulo eu queria trabalhar num lugar onde eu pudesse naturalmente ter condições de ir pra frente, de fazer as coisas e tudo. Então, eu fui bater lá no hospital da Madame ______, que é o Hospital São Paulo, e conversei lá com ela e conversei com outras pessoas e no fim me decidi ir para o Hospital das Clínicas, contra a ideia da Madame ______ que achava que eu, vinda do interior, deveria ficar lá no Hospital São Paulo, que era de freira, que era mais moderado, que tinha mais cuidado, essa coisa toda. Mas eu não fui não, eu fui lá para o HC [Hospital das Clínicas] mesmo. Fui lá e de lá do HC, fiquei no HC e está acabada a história, lá na residência dos médicos, que a gente morava lá junto também com os médicos, era um pedaço, quartinho fechado. Depois o que eu fiz mais?

 

P/1 – Dona Clarice...

 

R – Pode me perguntar, às vezes eu pulo as coisas, sei lá.

 

P/1 – Por que a senhora tomou essa decisão? O que te motivou a se tornar enfermeira? De onde vem essa vocação?

 

R – Acontece o seguinte, minha mãe e meu pai moravam na fazenda, eles eram pessoas muito adiantadas para a época e com visão boa, eles tinham visão de saúde e de promoção da saúde. Então, eles promoviam sempre assim que uma fazenda chamasse um médico para fazer uma anamnese dos colonos ou que visse as outras coisas, as outras problemáticas pertinentes à saúde e ao bem estar. E, nessa saúde e bem estar, eu conheci uma pessoa que trabalhava no Rio de Janeiro, que eu então, naturalmente, perguntei o que ele conhecia de lá e tudo e ele falou que conhecia a Escola Ana Néri. E, quando eu fui falar com o Mário que eu ia para lá, ele ficou muito preocupado, porque sair de São José do Rio Pardo em 1943, sei lá, 1939, por aí, 1940, era uma loucura. Então, eles acharam: “Não, imagina, deixar uma moça sair daqui e ir lá para o Rio de Janeiro, não!”. Quer dizer, botavam na cabeça tudo o que queriam. Botar de bom não era, agora botar de ruim era, com certeza. Então eu fui embora pra lá sim. Lá sempre eu era visitada. De vez em quando eu era visitada por aquela pessoa que eu me lembro que eu fui com ela, só pra dar um contato qualquer. Mas eu me habituei muito na Escola Ana Néri porque a gente, a (parelha?) nossa era atrás, atrás não, atrás tinha o Hospital Bernardes. Então a gente tinha uma convivência de dentro com o pessoal que vinha mais do Norte. Gente boa, tranquila, essa coisa toda. Nós nunca tivemos problema nenhum de entrar no preliminar, de ficar lá um ano, dois anos, três anos, quatro anos e ir embora, porque o pessoal era muito bom. Não tinha nunca problema nenhum nem nada. Então, quando eu vim pra São Paulo, eu procurei o Hospital das Clínicas para trabalhar.

 

P/1 – Como era o Rio de Janeiro nessa época?

 

R – No Rio de Janeiro não tinha esse movimento que tem hoje não, mas tinha aquela pracinha que a gente chegava lá, essa coisa toda aí. Namorávamos em frente à praia. A Escola Ana Néri era em frente à praia, no Botafogo.

 

P/1 – O que a senhora fazia lá? Fora as atividades na Ana Néri, as atividades de lazer, de convivência, como era?

 

R – Ah, muito pouca. A gente não saía muito não. A gente trabalhava muito, porque eles davam plantão e a gente tinha que fazer tudo. Aprender tudo o que tinha que aprender, tinha aulas, tinha tudo, mas a gente tinha que trabalhar muito mesmo. Então, a gente ficava mais ou menos dentro da casa mesmo. Mas também tinha estágio no São Sebastião, ou então nos ambulatórios. Então, quer dizer, a gente saía pra fazer outras coisas do curso, fizemos Saúde Pública. A gente ficou por lá mais tempo assim, mas só em função do convívio da Escola mesmo, Ana Néri, que era uma Escola muito boa, mas acho que agora está meio mudada também, não sei.

 

P/1 – Aí a senhora voltou pra São Paulo?

 

R – Aí foi quando eu voltei pra São Paulo.

 

P/1 – A senhora não pensou em voltar para São José?

 

R – Nunca. Não.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque não via lugar pra fazer lá. O que eu ia fazer lá? Ia pra Santa Casa? Não ia. Naquele tempo eu já não ia mais. Então, eu acho que não quis voltar.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Tinha uma Santa Casa lá que tinha uma enfermagem, mas a enfermagem de lá era uma enfermagem muito de nível, não digo baixa, mas não tinha conhecimento. E meus irmãos já estavam também em São Paulo. O Mário já estava em São Paulo trabalhando por aqui, ele era coronel da Força Pública de São Paulo. Quer dizer, então, ele já tinha outro convívio, ele naturalmente ofereceu oportunidades pra gente vir pra São Paulo. Foi quando a família inteira veio pra cá e nós moramos primeiramente na Vila Mariana e passamos lá alguns anos.

 

P/1 – E seus pais ficaram lá?

 

R – Meus pais não, meus pais vieram embora também com a gente. Nós não deixamos os pais lá não.

 

P/1 – Então veio todo o núcleo familiar?

 

R – O núcleo familiar veio pra cá.

 

P/1 – E onde que era na Vila Mariana?

 

R – Na Praça Monteiro dos Santos, número um. (risos) Nós ficamos aí. Depois nós mudamos pra... Aí mudamos não sei quantas vezes, mudamos por aí, até chegar onde nós chegamos, na última residência.

 

P/1 – E lá no Hospital das Clínicas, como era o Hospital das Clínicas quando a senhora entrou?

 

R – Quando eu entrei tinha muito pouca enfermeira, então a gente fazia de tudo, plantão noturno de semana inteira, quinze dias, eram as corujas daqui, a gente falava que eram as corujas. E residência também no Pronto Socorro, também trabalhávamos bastante. Eu acho que a minha estada no Hospital das Clínicas foi fantástica porque eu aproveitei tudo; aproveitei todas as clínicas com todo o conhecimento que depois a gente foi passando. Do Pronto Socorro, depois a gente subiu pra Radiologia e assim por diante. Eu acho que, realmente, no Hospital das Clínicas... Eu fiz o trabalho também no Centro Cirúrgico, montamos o Centro Cirúrgico. E tem outra coisa que a gente fez lá: foi atender as instituições, assim, correlatas do Estado, quer dizer Santos, eu trabalhei em Santos, fazendo em algum Hospital lá, não sei se é do Ana Costa, não sei, não me lembro mais, Santa Casa... A gente trabalhava lá, mandava alguma enfermeira, fazia visita, a gente fazia um programa pra poder implantar a área de enfermagem porque a gente só tinha atendentes de enfermagem. E, só pra atendente de enfermagem tem que fazer cursinho próprio, quer dizer, programas de treinamento em serviço pra que elas pudessem fazer, com o mínimo que elas podiam aprender pra poder atender paciente convenientemente. Então, a gente trabalhava mais com pessoal leigo, mas treinado por nós. Depois começou a aparecer algumas escolas de enfermagem e que mandavam os alunos também onde tinham algumas enfermeiras trabalhando pra supervisão. E, assim as coisas foram crescendo, a Escola de Enfermagem de São Paulo começou em quarenta e tantos, 43, 46. A Escola de Enfermagem de São Paulo tinha também essa ramificação para estágio nos diversos locais do... Eu trabalhando no Hospital, trabalhando nas enfermarias onde tinha enfermeira, então a gente era professora das alunas da Escola de Enfermagem.

 

P/1 – A senhora foi professora, então?

 

R – Fui professora das alunas da Escola de Enfermagem. No estágio, que sempre elas estavam assim que a gente estava passando.

 

R/2 – ______ a direção da Escola de Enfermagem de ______.

 

R – Assumi sim. Assumi a Escola de Enfermagem durante um período e, numa outra...

 

P/1 – Que ano foi isso?

 

R – Ah, nem me lembro. Até de data aqui... Não, eu não, está enfiado ali, eu não vou procurar nada não. Eu vou falar o que eu lembro.

 

P/1 – Que data a senhora assumiu a direção da Escola de Enfermagem?

 

R – Da Escola de Enfermagem foi pouco tempo. Acho que realmente o pessoal até gostou porque elas tiveram algum enfoque mais da área de trabalho propriamente dito. As meninas gostaram. Depois eu passei para as diretoras que estavam chegando e tudo, porque as diretoras são muito importantes nas escolas de enfermagem. Agora não sei como é que elas são, mas eram muito importantes. Eram pessoas bastante tituladas de outras carreiras e que faziam enfermagem, acho que só com um ano de enfermagem, elas faziam uma miséria de programa que às vezes a gente ficava assim até preocupadas com o que elas faziam porque tinha mais ______ psicologia básica, sei lá, mas esse curso todinho por aí.

 

P/1 – Mais teoria do que prática?

 

R – Mais teoria do que prática, exatamente. E do HC o que eu faço mais? Eu fiz tanta coisa.

 

P/1 – Quem era o diretor do HC na época que você entrou?

 

R – O Doutor Enéas de Carvalho Aguiar. Ele foi muito tempo lá. Você não chegou a esse nome não, né? Chegou?

 

P/1 – Sim.

 

P/2 – A gente começou com ele, Clarice, ______.

 

R – Ele fez estágio também lá, foi estagiário lá, por isso que ele está sabendo, mas eu estou pedindo para ele ajudar. O Doutor Enéas foi o primeiro superintendente do HC, ele era um entusiasmado pela enfermagem; para ele, só tinha enfermagem no Hospital. Ele gostava demais de enfermagem. Então, eu tinha muito prestígio, trabalhei realmente com muita facilidade, com muito apoio e realmente eu acho que foi muito boa essa passagem do Doutor Enéas lá dentro. Depois vieram outros diretores, outros assistentes, ______ Pedroso que foi professor lá da Faculdade de Higiene e Saúde Pública e a Doutora Lourdes que estava nos Estados Unidos fazendo curso com o Borba; depois eles passaram a cuidar e foram pra Faculdade de Higiene e Saúde Pública, que naquele tempo ainda era só aqueles professores de Saúde Pública mesmo que trabalhavam lá. Aí eles também estavam assumindo a área da enfermagem e da Saúde.

 

P/1 – Foram quantos anos lá no HC até a senhora seguir para o InCor [Instituto do Coração]?

 

R – Acho que uns vinte e tantos.

 

R/2 – No InCor foi junto.

 

R – É, mas eu fiquei junto, sabe por quê? Porque o InCor era numa unidade do Hospital das Clínicas. Então, eu passei a trabalhar no InCor só indo pra lá, mais nada. Transferência assim, não tive, papel do próprio Hospital.

 

P/1 – E a senhora foi em que ano para o InCor?

 

R – Não sei.

 

P/1 – Foi logo no começo, não?

 

R – É. Começo do InCor, isso é verdade. Começo do InCor. Acho que é.

 

P/1 – 1965?

 

R – É, por aí, 1967 foi o transplante, né? Então, eu fiquei lá no Instituto do Coração.

 

P/1 – Quem convidou a senhora? Como foi essa ida para o InCor?

 

R – Ah, todo mundo me conhecia, todo mundo me queria, não era muito difícil ir pra lá.

 

P/1 – Mas quem chegou na senhora e falou: “Clarice, vamos para o InCor?”

 

R – Eu nem me lembro mais... O Zerbini sempre me procurou muito, muito, falou muito comigo e ele era muito carinhoso comigo também, viu? Atencioso, educado. Eu acho que...

 

P/1 – O que a senhora encontrou lá?

 

R – No InCor? No InCor eu encontrei uma equipe que queria trabalhar, encontrei aí mais outros assistentes do Zerbini, quer dizer, a equipe dele foi naturalmente aumentada. Ele já tinha lá o Magnus, já tinha o Bittencourt, já tinha o Ruy Gomide, tinha mais gente no InCor lá. O Fulvio também estava lá. O Fulvio que era bravo toda vida, italiano, todo mundo tinha medo dele. O (Giovane?) também, que era muito bom, muito bonzinho esse (Giovane?). O Euclides também trabalhou lá.

 

P/1 – O quê?

 

R – Euclides também trabalhou lá. Como era o sobrenome dele?

 

R/2 – Marques.

 

R – Euclides Marques. Trabalhou também no Coração. O Coração foi um sucesso, viu? O negócio é esse, as ______ do Coração.

 

P/1 – Como era a estrutura quando a senhora chegou? O que tinha lá no prédio?

 

R – Primeiro que não tinha nada, né? (risos) Porque sempre eu pus, a primeira cama, o primeiro doente eu que recebia, eu punha na cama, eu conversava, eu chamava o professor... Primeiro os professores montavam as clínicas, conversaram muito comigo antes. Eu tinha algumas enfermeiras que eram minhas amigas e eu era diretora de enfermagem e, com isso, é mais fácil pra você trabalhar e o professor... Eu só sei que eu nunca tive dificuldade nenhuma em relação com a chefia da área médica e com a área de enfermagem em função de professor ou de relacionamento humano, nada, nunca nós tivemos. Quer dizer, nós sempre tivemos uma convivência pacífica de entendimento mútuo, de respeito e de colaboração. Aí ajudei também, estando no Coração, um pouco na psiquiatria, um pouco só, no primeiro começo da psiquiatria, que foi um dos institutos últimos que foram feitos; eu ajudei só na parte de planejamento. E me lembro de uma situação, sei lá, de cano com um professor lá que queria botar doente na enfermaria, que ele queria botar tudo um perto do outro, eu digo: “Para lá, não é assim não”. Ele começou a olhar pra minha cara, porque eu era muito decidida, então, eu falava assim: “Não, ele queria botar não sei quantos leitos num quarto lá, um professor de psiquiatria mesmo, eu disse que não, não podia não, ainda mais psiquiatria”. E, assim, eu era um pouco de exorbitante, às vezes eu achava.

 

P/2 – O Doutor Max Grinberg falou um pouco disso, que as enfermarias no InCor tinham um padrão de qualidade muito ______, rompeu um pouco com aquele modelo da Santa Casa. É mais ou menos isso?

 

R – Ah, não tinha nada com a Santa Casa não. Foi muito ______, mais quando eu ia trabalhando lá para o HC. Porque quando começou a ortopedia também eu participei da parte inicial da ortopedia: do planejamento, da escolha da enfermagem, do equipamento, da distribuição dos leitos, de conversar com os médicos – naquele tempo era o Batalha, era mais, nem sei mais quem ______ dos médicos lá já. A gente tinha um convívio também respeitoso e amigo, eu nunca encontrei médico do grupo que dissesse: “Não, não vai fazer, não, nem nada”. Nenhuma vez. Eu não sei, acho que eu fui muito feliz na minha vida profissional. Também eu era muito querida por todo mundo, eu não sei se eu era, sei lá, porque eu era desse jeito mesmo. Eu trabalhava bastante, eu era primeira a chegar, a última a sair do Hospital. Quando tinha alguma intervenção eu saía de casa, de madrugada; se tivesse uma cirurgia, por exemplo, nos transplantes cardíacos, a gente passava a noite lá esperando, se tivesse algum paciente que tivesse entrado, que poderia ser operado, se chegava ao Pronto Socorro algum doador. A gente ficava lá esperando alguma decisão ou então eles chamavam e a gente descia, porque nós morávamos naquela residência dos médicos lá em cima. Então a gente participava muito direto e foi muito proveitoso, eu acho, para ambas as áreas, de medicina e de enfermagem também.

 

P/1 – E o Doutor Zerbini, como era o Doutor Zerbini?

 

R – Olha, o Zerbini era muito simpático, muito afável, sorridente e me lembro de uma passagem dele, assim, bastante amiga da gente. Um dia eu estava telefonando, não sei quem ligou da minha casa, da casa da minha avó, sei lá, acho que foi da casa da minha avó, e eu atendi o telefone. Não sei se era da minha avó, do que era. Eu atendi o telefone e comecei a exclamar: “Mas como? Morreu? Como? O que aconteceu?”. Aí o Zerbini levantou – ele pensou que tivesse morrido alguém –, eu desliguei o telefone e ele foi me cumprimentar: “Sinto muito, quem morreu?". Eu digo: “Um gato”. (risos) Eu fiquei muito chateada. Ele achou que era uma coisa assim e eu até fiquei, porque eu fiquei assim... Quando falaram que tinha morrido, eu devo ter feito uma exclamação tal que ele ficou assim, ele levantou, foi lá e me disse: “Olha, meus sentimentos. Quem morreu da tua família?”. Eu digo: “Não, foi o gato”; “Ah, é?!”. Foi uma risada só e pronto. É isso aí que eu tenho uma lembrança do Zerbini. Ele era muito... O que você queria perguntar dele?

 

P/1 – E no trabalho?

 

R – No trabalho ele trabalhava bastante também, viu? Exigente! Muito exigente. Acho que ele castigava bem os residentes. Dava serviço, não dava? Acho que bastante serviço para o pessoal sim. Ele era muito exigente. Aliás, ele era muito competente, por isso que ele tinha o direito de exigir as coisas corretas e tudo.

 

P/1 – Mas e as relações?

 

R – As relações, ele não foi muito aberto com todo mundo não, mas ele não era dos piores não, porque tinha professor que não queria saber nada de funcionário nem nada. Às vezes tem um meio errado assim, mas o Zerbini não tinha isso não. Ele foi um dos primeiros que trabalhou no Pronto Socorro também, ele e o Décourt, e ele era legal.

 

P/1 – E o Professor Décourt?

 

R – Décourt é uma flor. Décourt era competente, era carinhoso, atencioso, bonzinho, quer dizer, o Décourt foi sempre uma pessoa solícita, né Marieta? Você se lembra dele também? Pouco? O Décourt foi sempre uma pessoa assim, ele era tranquilo.

 

P/1 – E no trabalho?

 

R – No trabalho ele era exigente. Ele trabalhava muito, muito competente também.

 

P/1 – Era uma equipe dura?

 

R – Dura, dura.

 

P/1 – Exigente?

 

R – É, turma boa.

 

P/1 – O Doutor Humberto, ele praticamente ministrou...

 

R – O Humberto, ele chegou dos Estados Unidos e ficou um pouco por lá para se ambientar um pouco e depois ele assumiu algumas unidades. Ele trabalhou como diretor. É, de estrutura.

 

P/1 – Como era a sua relação com ele?

 

R – Muito boa, porque o Humberto era muito educado e tudo. Era muito boa.

 

P/2 – O Oscar também ______?

 

R – O Oscar, é, é. Aí tinha outros assistentes lá da administração. Tinha o Doutor Geraldo Silva Ferreira, você conheceu ele também, não? Ele era meu conterrâneo, e muito competente, magrinho, estava sempre muito atento às coisas, muito boa pessoa. Não sei qual é o outro que estava lá na administração com o Geraldo também. Você falou o nome de uma outra aí também.

 

P/2 – O Doutor Oscar.

 

R – Oscar Cesar Leite. A gente chamava ele até de Oscarzinho, de tão bom que ele era. O Oscar foi superintendente também. Quer dizer, passaram alguns lá na diretoria. Eles eram assistentes e atuavam na substituição e nas ordens e tudo. Sempre foram muito meus amigos, Doutor Oscar, Doutor Geraldo, teve mais gente, eu já estou embrulhando as coisas. Já estou esquecida já.

 

P/2 – E como é que você fez o curso de Administração Hospitalar?

 

R – Hospitalar eu fiz na Faculdade de ______ e fiz nos Estados Unidos também. Estados Unidos, quando é que eu fui lá? 1950 e quanto? Eu fiz na Columbia University o curso de Administração de Serviços de Enfermagem.

 

P/2 – E Hospitalar foi na ______?

 

R – ______.

 

P/1 – E a senhora ia com bolsa da Fundação?

 

R – Eu fui com bolsa, eu tive bolsa da Kellogg, duas ou três bolsas. Fiquei lá o primeiro ano bastante, dois anos quase, ou mais, sei lá. Depois eu voltei outra vez e tive, além disso, short course, quer dizer, fui para outros países que tinham um negócio, um tipo de seminário, um curso rápido de alguma coisa que a gente não tinha, a gente era convidado. Com isso eu fui ao Chile, à África do Sul também eu estive lá no transplante do Barnard, também que ele fez no Brasil, numa ocasião, mas ele já tinha feito o primeiro transplante dele lá ______. Então, eu estive lá também.

 

P/1 – Com ele?

 

R – Estive com ele também lá. Naquela ida lá foi o Bittencourt, foi o Magnus, foi mais outro médico também, o Euclides também foi, foi uma equipe inteira para África do Sul para um estágio lá.

 

P/1 – Quanto tempo?

 

R – Acho que nós ficamos lá, sei lá, umas duas semanas só. Não foi muito tempo não.

 

P/2 – Como funcionou esse contato? Era...

 

R – Sabe o que acontece? Esse contato foi feito em função da vida, do transplante cardíaco que aconteceu. Quando aconteceu o transplante cardíaco na África do Sul o Brasil estava indo, já tinha o trabalho, já estava em estudos na realização dos trabalhos também de transplante de coração. E a equipe então se entendia, a equipe médica. Quando saiu o transplante de coração nosso, a África do Sul já tinha feito o deles. Então, acho que nesse meio tempo, já tinha estado gente aqui no Brasil. O Barnard foi um deles que esteve aqui no Brasil. Então, quando eu fui pra lá, eu fui também acompanhada, o Bittencourt estava junto, nós estávamos lá e ele já estava lá em ______. Quer dizer que eu passei na África do Sul também.

 

P/2 – Na Jamaica?

 

R – Na Jamaica passei, mas só a gente fazia cursos assim... Viagens pequenas de observação e tudo.

 

P/2 – E na França a senhora chegou a ficar mais tempo?

 

R – Não. Na França eu não passei não, fazendo coisa não. Na França eu acho que eu fui pra ver mesmo. Portugal também eu passei pra ver algumas coisas naqueles hospitais lá, mas sem granes compromissos. A gente trabalhou muito mais com a Fundação Kellogg porque ela tinha mais penetração no país.

 

P/1 – E a Fundação de Desenvolvimento de Bioengenharia, a FUNDEBE, a senhora teve alguma...

 

R – A FUNDEBE já foi mais pra cá, mais nova. Eu não tive muita facilidade de... Acho que eu já estava em outra.

 

P/1 – A senhora antecipou a FUNDEBE?

 

R – Acho que sim, acho que sim.

 

P/2 – É porque eles falam que tem quarenta anos, né? Que era uma oficininha.

 

R – Tinha as oficininhas deles lá, mas eu não aproveitei nada, eu já estou trabalhando há mais de quarenta anos.

 

P/2 – Na sua avaliação, como era o InCor? A senhora conheceu outros hospitais no mundo...

 

R – Olha, eu acho que o InCor foi muito bom na época. Eu acho que quando eu trabalhei lá ele acompanhava muito bem o que tinha nos países que a gente viajou, visitou – às vezes ficava só um dia pra ver as coisas e voltava. Mas acho que realmente o InCor trabalhou muito bem. Eu acho que o grupo de lá foi beneficiado primeiro pela planta física, que eles puderam fazer coisas do jeito que queriam. Recursos também, eles tinham muito prestígio, então eles conseguiram, sempre tinha dinheiro para eles. Os governadores se babavam por causa de coração. Todo mundo queria ser bem visto lá dentro, bem visto, de repente chegava a vez dele lá, né? Então, eles eram...

 

P/2 – Foi o que o Doutor Ruy Gomide falou, que eles tiveram sorte.

 

R – Foi é? É isso mesmo, tiveram sorte.

 

R/2 – ______ o Doutor Adib já ficou também, trabalho de pesquisa já ficava o Adib.

 

R – O Adib também ficava, foi um dos pesquisadores sim, sem dúvida. O Adib Jatene sempre foi um dos pupilos do Zerbini, dos melhores, dos melhores. E ele soube manter isso muito bem.

 

P/2 – Entre aqueles discípulos, fora o Adib, quais chamavam...

 

R – Olha, tinha diversos. O que a gente achava que podia dar certo lá? Me lembro do Ruy Gomide, anestesista, mas ele era da equipe, ele que respondia pela equipe do coração. Eu não sei quem estava mais lá. O Sérgio, Sérgio Moraes, o Miguel, espanhol.

 

P/2 – E o (Giovani?) ______?

 

R – O (Giovani?) era muito amigo da gente.

 

P/1 – Quem era equipe do Zerbini quando a senhora entrou lá, a senhora lembra? Quem trabalhava diretamente com ele nas operações? No primeiro transplante? A senhora lembra do primeiro transplante?

 

R – Do primeiro eu lembro.

 

P/1 – Como foi a história?

 

R – Olha, o primeiro transplante foi badalado. Eu me lembro porque eu fiquei na sala de... Sempre que tinha algum problema que podia acontecer eu era a primeira pessoa a ser chamada como enfermeira, porque chamavam a equipe, eu avisava os médicos e tudo. Então, nós tivemos muitos alarmes falsos; às vezes chamava, a gente descia, ia lá ver, tudo e depois não acontecia nada e voltava. Na ocasião em que houve o transplante, que saiu mesmo, a equipe foi chamada, o paciente, foi feita a parte de compatibilidade de sangue e tudo, está certo, aí depois que acharam que o doador estava bom, o receptor então já estava pronto porque estava sendo acompanhado. Então, foi feito o transplante. Eu não sei como é que foi não, eu só sei que fiquei na sala pra lá e pra cá, são duas salas funcionando e eu estava controlando as duas: uma estava tirando o coração, a outra estava já pronta para receber o coração de cá, a outra fechou. Quer dizer, eu fiquei, assim, num vai e vem. Eu achei que... Eu estava bem emocionada nesta ocasião.

 

P/2 – Foi de madrugada, certo?

 

R – É, de madrugada. Eu estava bem, eu estava lépida, porque a gente fica nervosa, fica bem rápida. O transplante saiu bem, esse paciente viveu quase quatro meses, por aí, um deles, outro, sei lá. Então, teve alguns ______ dos transplantes, mas eu acho que o transplante do coração foi um sucesso. Quer dizer, mesmo que tenha tido, eles tiveram um trabalho muito grande, preliminar e levantaram de noite muitas vezes, mas eles ficaram contentes quando eles tiveram a vitória de um transplantado viver bastante tempo até mais de que alguns de outros países também.

 

P/1 – O terceiro, né, que viveu um ano?

 

R – O terceiro, mais de um ano.

 

R/2 – O segundo foi o Orlandi, né?

 

R – É, o segundo foi o Orlandi.

 

R/2 – Eu tenho carta dele ainda.

 

R – A gente tem uma carta dele aí que ele tinha escrito para o Zerbini.

 

P/1 – O que ele fala nessa carta?

 

R – O que ele fala?

 

R/2 – Tem ______ dele, tem retrato, ______.

 

R – Depois você pega né Marieta? Se ele quiser ver alguma coisa velha aí. O que mais vocês querem saber? Agora eu pergunto a você, como é que estão indo os transplantes agora?

 

P/1 – Parece que virou rotina.

 

R – Virou rotina, né? Da mesma maneira que faz uma apendicite se faz o coração. Sem alarde, sem nada, sem problema, sem nada. Naquele tempo era um efeito bombástico mesmo.

 

P/1 – Ficava todo mundo muito excitado, não?

 

R – Muito excitado e muito inseguro também, ninguém sabia o que ia acontecer.

 

P/1 – A senhora tinha muito contato com as famílias?

 

R – Nós tínhamos sim. Sempre nós tivemos a companhia da família, às vezes ficava lá, às vezes com o acompanhante, que a gente chamava uma vez, duas vezes, explicava e tudo, então, a gente conhecia bem o paciente e a família também.

 

R/2 – Teve uma família que mandou o retrato ______ do Orlandi. ______.

 

P/2 – E a família, os familiares, eles aceitavam?

 

R – Acreditavam e às vezes ficavam lá esperando o tempo todo, sentados, mal acomodados, às vezes sem dormir, sem nada, mas eles ficavam muito presentes. Agora, é sempre muito um reconhecimento dos médicos. Os médicos trabalhavam muito bem, davam informação para os doentes e tudo, para a família, os familiares.

 

P/1 – O primeiro foi o João Boiadeiro, certo?

 

R – É, o Boiadeiro foi o primeiro que ficou na história.

 

P/1 – Como é que ele estava na hora do transplante, ele estava muito ansioso, nervoso?

 

R – Acho que ele estava nervoso, mas sabia que ia ser operado e queria ser operado.

 

P/1 – Ele queria?

 

R – Queria. Ele foi duas vezes para a sala de operação. Marieta, você lembra?

 

R/2 – ______ quando não dava certo e voltava.

 

R – Não sei se era ele que voltava não, às vezes as operações iam, assim, pra sair e não saem. A do João saiu. Nós pegamos uma ficha de um... Eu estava mexendo aqui...

 

R/2 – ______ disse. Esse vocês estão cansados de saber, né?

 

P/1 – Da Manchete?

 

R/2 – É, vocês têm?

 

P/1 – Não.

 

P/2 – As fotos ______ da Manchete?

 

P/1 – E o Orlandi, a senhora conviveu com ele?

 

R – Convivi, com o Hugo, com a mulher dele, tudo. Ela sabia de tudo e acompanhou direitinho.

 

P/1 – Do jeito que a senhora fez o acompanhamento pré e pós-operatório?

 

R – Pré e pós-operatório.

 

P/1 – E como é que ele estava antes da operação?

 

R – Sempre ele fica ansioso, mas na hora de ir embora pra casa, a alegria dos familiares, a alegria da equipe inteira, a alegria do paciente, é incontida às vezes. Quando chega em casa, chora de alegria e tudo. Mas ele... Aqui tem uma cartinha que eu não sei se é dele, não.

 

P/2 – E como era o contato com a família do doador?

 

R – Do doador os médicos sempre prezaram os familiares e davam satisfação, não ficavam arrogantes, nem nada, decidindo: “Vai ficar” ou não. Eles atendiam muito bem. Naquele tempo eu não sei se tinha mais tempo ou se a equipe também realmente era boa. Hoje eu não sei como é que é não. Às vezes o pessoal entra lá e sai sem perna, sem braço e não sabe por que aquilo aconteceu. Não é bem assim também.

 

P/1 – Nessas viagens que a senhora fez, a senhora trouxe algum modelo ou alguma inovação que viu lá fora e implantou no InCor?

 

R – Eu acho que não.

 

P/1 – A senhora que planejou tudo?

 

R – O planejamento do InCor foi muito bem feito pela equipe inteirinha do Zerbini e com experiência anterior, eu acho que não tinha muito o que acrescentar não. Sempre a gente vê alguma coisa nova no exterior, mas você vai ver é o método de fazer isso ou método de fazer aquilo que chega naquele espaço que a gente, ou naquele finalmente, que a gente também chega aqui embaixo, no Brasil. Também o pessoal americano tem mais facilidade, porque eles têm enfermagem há mais tempo e tudo. Mas nós não. Nós tínhamos enfermagens muito precárias, não tínhamos nada. Eu fui uma das pioneiras da enfermagem aqui no Brasil porque não tinha ninguém mesmo. Então, andei pelo Brasil inteiro aí, fazendo uma coisa, fazendo outra, fazendo outra. Foi muito bom porque eu conheci o Brasil inteiro e conversei com todo mundo.

 

P/1 – A senhora era muito enérgica?

 

R – Sempre fui muito cobra, viu? Mas não era, não era... Mas o pessoal gostava de mim, não sei se é porque... Sei lá. Acho que é meu jeito. A gente às vezes é enérgica, mas tem uma mãozinha depois. Mas trabalho junto. Sempre eu fui reconhecida pelo trabalho que faço mesmo, que fiz. Mesmo os médicos, sempre trabalhei com eles, assim, sem problema, sem nada. E acho que o trabalho sempre foi o meu primeiro problema mesmo. A família às vezes ficava para depois. Casamento? Nem falar! Nada. Sair pra passear? Nada.

 

P/1 – A senhora não tirava férias?

 

R – Não. Acho que eu não tirava não.

 

P/1 – O Zerbini também não gostava muito de dar férias, né?

 

R – Não, ele não dava e a gente também não saía não, a gente não gostava muito de sair não. Mas pode ser que ele talvez tenha saído algumas vezes, porque a família...

 

R/2 – Mas depois você viajou muito?

 

R – Ah, depois eu viajei bastante.

 

P/1 – Depois quando?

 

R – Depois de já mais...

 

R/2 – Quando aposentou como enfermeira. Daí trabalhou no Ministério da Saúde, depois na Superintendência, nesse período ela viajou demais.

 

R – Viajei demais mesmo.

 

P/1 – A senhora aposentou como enfermeira no HC quando? Em que ano foi?

 

R – Eu escrevi em algum lugar aí. Eu escrevi numa pasta aí.

 

R/2 – ______ 45 anos, quanto dá?

 

R – Dá uns setenta anos, sessenta anos. É só eu falar pra eles quantos anos eu tenho, eles fazem a divisão aí. Tira de 78 ou 79 o resto, pronto, faz as contas todas aí. Cinquenta anos aqui, vinte anos ali, essa coisa toda.

 

P/1 – Década de 1970?

 

R – Ah, foi. Acho que foi por aí.

 

P/1 – A senhora foi convidada pra ir para o Ministério da Saúde?

 

R – Ministério da Saúde.

 

P/1 – A senhora foi como o quê? Qual era a sua função?

 

R – Eu fui para montar o serviço de saúde de Brasília. A parte todinha de saúde hospitalar, na área hospitalar.

 

P/1 – Quem era o ministro?

 

R – Paulo de Almeida Machado.

 

P/1 – E a senhora ficou quantos anos?

 

R – Acho que uns quatro, cinco anos. Três anos, quatro anos. Gostei muito de Brasília.

 

P/1 – Quem mais a senhora pegou como ministro da Saúde além do Paulo?

 

R – Peguei um substituto.

 

R/2 – ______. Em 1969, viu? Em 1969 como enfermeira chefe, como diretora de departamento.

 

P/1 – Que ela aposentou?

 

R/2 – Como diretora do departamento de enfermagem em 1969. Depois foi para a Superintendência, inclusive direto para a Superintendência, outro cargo. A ficha acabou, essa acabou. Olha, tem um currículo bonito, não sei onde é que ela enfiou.

 

R – Olha, ele está enfiado... Eu não vou mexer. Está enfiado lá embaixo, eu digo: “Eu vou falar o que eu me lembro e pronto”. Você desculpe, mas eu não ia procurar não porque eu já vivi muito.

 

P/1 – E esse cotidiano lá no Ministério da Saúde, foi boa a experiência?

 

R – Eu achei boa, achei boa.

 

P/1 – O seu trabalho rendeu?

 

R – Meu trabalho rendeu porque pude fazer serviço em todas as áreas de saúde do Nordeste, a parte também do Rio de Janeiro, estive lá. Com isso, conhecendo as enfermeiras e tudo, eu incentivei na área local a enfermagem a se conceituar e montar sua área de serviço. Então, eu acho que realmente eu dei uma contribuição e também conheci o Brasil inteiro, porque estava morando em São Paulo e com isso viajei esse tempo e tudo. Viajei para o exterior também fazendo cursos, assim, short time. Nos Estados Unidos eu voltei algumas vezes, no Sul também um pouco, no Sul dos Estados Unidos, na Flórida.

 

P/1 – Saindo do Ministério da Saúde a senhora voltou para o InCor?

 

R/2 – Para o InCor não.

 

P/1 – Desculpe, para o Hospital das Clínicas?

 

R – Eu voltei para a Superintendência do Hospital das Clínicas e depois eu me perdi por aí, não sei aonde.

 

R/2 – Depois se aposentou.

 

R – Depois me aposentei, é isso aí.

 

R/2 – Depois, questão de três anos, quatro anos, se aposentou.

 

P/1 – A senhora ficou três, quatro anos, na Superintendência, é isso?

 

R/2 – Acho que mais.

 

R – Sei lá.

 

P/1 – Como era o seu trabalho, o que a senhora fazia?

 

R – Nem sei o que eu fazia. (risos) Eu trabalhava o dia inteiro, só isso que eu sabia.

 

P/2 – Como era a rotina de trabalho? Devia ser bem diferente daquela de ______?

 

R/2 – Oh, Clarice, você participava das reuniões, fazia as atas...

 

P/1 – Era mais administrativo?

 

R – Era mais administrativo.

 

R/2 – Mais administrativo.

 

R – Era mais administrativo. Não trabalhei assim...

 

P/1 – A senhora gostava?

 

R – Eu achei que eu estava dando um trabalho razoável e necessário, eu gostava. Se você trabalha contente naquilo que está fazendo, eu acho que já é produtivo.

 

R/2 – Você trabalhou muito tempo com ______ com ele , né Clarice? ______.

 

P/1 – Com o ______ a senhora trabalhou aonde?

 

R – No HC também, na Superintendência. Eu nem sei nada. Ah, Marieta, eu já não...

 

R/2 – Acho que ela já ______ essa parte.

 

R – Ah, tem dó! Depois de tanto tempo assim não dá. Eu não... (risos)

 

R/2 – Ela se aposentou lá na Superintendência, ficou uns dois, três meses em casa e depois foi para Juquehy montar esse hotel. Fez um curso no SENAC [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial], e depois fez os manuais.

 

R – Aí eu virei hoteleira.

 

R/2 – ______ todos os procedimentos lá.

 

R – Aí eu virei hoteleira.

 

P/1 – Saiu da administração hospitalar para a administração hoteleira?

 

R – Sempre eu achava assim, o pessoal encontrava comigo, alguns médicos que vinham no Hotel: “A senhora é Clarice Ferrarine, o que está fazendo aqui?”; “Eu virei hoteleira, ué!”. Quer dizer, teve muitos médicos que iam ao hotel que me encontravam, arregalavam o olho e diziam: “O que você está fazendo aqui?”

 

P/2 – Dona Clarice, uma coisa que eu fiquei curiosa, quando eles instalaram, começaram a trabalhar no InCor, eles usavam uns manuais que vinham dos Estados Unidos, foi uma enfermeira que me contou essa história, disse que era uma manual que não tinha nada a ver com a realidade, mas como funcionavam esses manuais? Como que ______ a metodologia lá dentro?

 

R – Olha, os manuais a gente tem que fazer de acordo com aquele serviço que vai ser executado. Quem falou com você pegou algum manual americano, mas nós fazíamos de acordo, você vê: qualificar a instituição, qual a responsabilidade dela, quais são os elementos que trabalham e o que vai ser feito. Quer dizer, você faz um manual de trabalho para o pessoal, então, eles trabalham na base do manual mesmo, com a rotina certa; um trabalha no horário da manhã: “Qual o serviço?”, outro trabalha à tarde com esse serviço, de noite com outro serviço; no centro cirúrgico a técnica é essa, e pra técnica do centro cirúrgico, então, você tem que saber quantas operações vão ser feitas, que tipo de operação que é, quais instrumentos que usam, quem é que usa, qual é a equipe que tem que botar. Então você vai modificando, aí você entra na parte todinha da metodologia da enfermagem aplicada ao exercício, à técnica que vai ser feita.

 

P/2 – A própria equipe de enfermagem do hospital que escrevia?

 

R – A gente escreve a rotina que deve ser feita e obedecida, porque se você deixar alguém fazer alguma coisa, um faz de um jeito, outro faz de outro, um quer um material, outro quer material, outro não escreve, outro escreve de cabeça pra baixo, não sabe escrever, quer dizer, no fim você fica sem nada. Como você tem um prontuário médico de doente, paciente, então você tem que ter uma parte praticamente adequada na papeleta do paciente, a ordem médica, o que ele prescreve para o paciente, pois você tem que fazer aquilo que ele prescreveu, tem que registrar, quem registrou, por que registrou, se registrou errado, se deu medicação errada, essas coisas todas. Então, tem que ter um prontuário, que é um tipo de um caderno.

 

R/2 – Você coordenou muitos manuais, né Clarice?

 

R – Coordenei bastante manuais. Tinha manual de ______. Eu fiz muito manual por aí, já fiz pra tudo quanto é lugar. Ali também tem uma pasta grande de manual. Aquela ali é do curso de Administração, é do PROASA [Programa Adventista de Saúde], está comigo aí. Aí tem esses manuais. É tanta coisa que está aí.

 

P/2 – A organização dos quartos, dos leitos, a entrada do paciente, tudo era registrado?

 

R – Tudo era registrado.

 

P/2 – Da hora que entra?

 

R – Ele entra você tem que anotar como é que ele entrou, se ele entrou bem, se ele entrou mal, se ele falou, se ele não falou, se ele trouxe roupa, se ele trouxe algum material dele, dinheiro, se ele tem, por exemplo, um colar que ele preza muito a gente tem que tirar, mandar pra contabilidade, aí você atende todas as facilidades da instituição que você está trabalhando e toda a necessidade do paciente que ele traz com ele. Se tiver um brinco e ele vai operar, nós tiramos o brinco, ______. Quer dizer, a enfermeira tem que ser muito atenciosa e responsável e sempre muito verdadeira. Quando a enfermeira fala uma coisa, não está mentindo não, só se estiver uma pessoa que não tem muito caráter.

 

R/2 – Enfermeira geralmente é muito meticulosa, não é?

 

R – É, chata até, não é? É cheia de coisinha. (risos) Mas é isso aí, tem que ser assim mesmo, porque se você recebe uma criança, a criança não fala nada, então o que você acha que você vai fazer com ela? Vai ser quase que a mãe da criança naquela hora ali que você a está recebendo. Você pergunta uma informação pra mãe, para o pai, pá, pá, sei lá quem, e você monta toda a parte que eles informaram para que a criança seja convenientemente tratada. Assim você aplica isso em qualquer parte do paciente que você tem. Então, na psiquiatria um louco falando bobagem você deixa ele falar bobagem, mas você já sabe que vai ter que cuidar da cabeça dele mesmo, não é? E assim por diante.

 

P/2 – É difícil?

 

R – Olha, não é difícil para quem gosta da área, eu acho que não é difícil. Por isso que falei pra você no começo quando meu irmão perguntou: “Mas você já pensou que você vai pra lá, trabalhar, em lugar distante, sem ninguém, sem conhecer ninguém, numa função tão difícil? Tratar dos outros. Você pensou bem?”. Quer dizer, ele ponderou muito bem o que é que eu ia fazer, o que é que eu ia procurar.

 

R/2 – A tristeza da minha mãe ______.

 

R – A tristeza da minha mãe que eu ia lá para o Rio de Janeiro, longe, sem ninguém, sozinha. Desci do trem lá em São José do Rio Pardo, assim, com a malinha na mão...

 

R/2 – Minhas tias falavam que minha mãe era louca de deixar a filha ir embora. Naquela época.

 

R – Naquela época era mesmo. Época de guerra. Mas eu me lembro num dia em que eu estava num quarto de um tio, lá no quarto do fundo, na casa da minha avó, que eu morava com minha avó, que eu decidi que ia fazer enfermagem, pronto, acabou. Aí depois que eu sentei lá com meu irmão, que ele fez todo... Meu irmão foi muito cuidadoso, muito cuidadoso. Tudo o que ele falou eu já estava com a resposta na cabeça e já estava obstinada pra isso. Vim embora sozinha, nunca desci em São Paulo, nunca tinha tomado trem, nunca tinha dormido em hotel, dormi num hotel e assim eu fui. O pessoal às vezes pergunta: “Mas você foi corajosa par...”. Eu digo: “Corajosa, fui. Fui obstinada mesmo. Eu queria ir, fui mesmo”.

 

P/2 – E a Ana Néri correspondeu?

 

R – Ah, correspondeu. Uma escola muito boa, o pessoal competente, amigo. Eu acho que a Escola Ana Néri foi uma escola muito boa para nós.

 

P/2 – A turma era grande?

 

R – Minha turma? Vinte e poucas pessoas. Às vezes era dividida em grupos, tinha o grupo A, o grupo B e tudo, porque a quantidade de aluno não era tão grande, não tinha muito assim... A comida era horrível na escola!

 

P/1 – Era bandejão?

 

R – Bandejão e a gente às vezes não tinha o que comer na Escola Ana Néri, às vezes.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque era ruim demais. Então, a gente ia naquele restaurante que estava aberto lá para o fundo assim, que estava aberto pra rua, me lembro sentada lá. A gente olhava para o bandejão assim, comia alguma coisa e ia embora. Quer dizer, era muito ruim mesmo. As condições da escola também sempre foram módicas, porque a escola não era muito rica, mas tinha muito cuidado com a gente, cuidado pessoal, tinha muita vontade de ensinar, de atender. Eu acho que a Escola Ana Néri tinha muito carinho com as alunas, acho que tem até hoje. Acho que foi bom. Eu chorei muito pra ir embora.

 

P/1 – Pra voltar?

 

R – Não, eu não queria ir, eu tinha medo. Na hora de ir embora mesmo, que eu pus o pé na estrada, eu chorei.

 

P/2 – A senhora é emotiva?

 

R – Sou, mas acho que hoje eu estou um pouco menos emotiva.

 

P/2 – Ocorreu em algum caso de paciente da senhora...?

 

R – Não, a gente balança muito, a gente balança muito. Às vezes a gente encontra um paciente que ele afeiçoa a gente, assim, porque ele gosta disso, chega lá, ele pega na mão, ele quer saber se vai sarar. A gente sabe que ele está morrendo, mas tem que falar alguma coisa, uma palavra amiga, uma palavra que leve ele pra outro lugar, ou então rezar com ele, fazer uma oração. A gente tem que fazer isso também, a enfermeira faz isso. Fiz muito disso também com os pacientes. Eu acho que realmente foi bom. A gente fez muita coisa de caridade, caridade mesmo, cristã. Não era favor, nem nada. A gente tinha que fazer mesmo.

 

P/1 – A senhora falou que sua mãe ficou chorando?

 

R – Chorando porque a filha foi embora, porque ela foi embora. Coitada, agora penso na minha mãe agora. Coitada, ela ficava chorando que não via a filha há quanto tempo, fiquei muito tempo sem ir. Chegou uma vez que eu estava no Rio de Janeiro, eu estava saindo pra fazer qualquer coisa, aí desce de um bonde, porque naquela época tinha bonde, eu ia pondo o pé no bonde, lá na praça – não sei nem que praça, nem sei onde que é –, eu estava pondo o pé no bonde e estava vendo o pé do meu irmão descendo pra me visitar. Eu levei até um susto. Eu lembro que o Mário foi...

 

R/2 – Era raro isso, não é?

 

R – Muito raro. Quer dizer, o Mário era muito cuidadoso com a gente, meu irmão. Minha família foi sempre assim. Aí eu voltei com ele. Ele disse assim: “Onde é que você ia?”; “Ia para o São Sebastião”, outro hospital que a gente fazia estágio. E ele estava me visitando. Aí eu fui com ele embora, depois nem fomos pra escola, ele ficou comigo lá, porque ele tinha muito carinho com a gente. Tinha e tem. E com isso eu fiquei, sem problema nenhum, na escola não.

 

P/1 – E seu pai?

 

R – Meu pai? Meu pai sempre foi muito solitário, assim, no sentido de falar. Ele falava pouco, mas muito de apoiar a gente.

 

P/1 – Ele não colocou obstáculo?

 

R – Não, não colocou não. Ele era muito alegre, levantava cantando todos os dias, não é Marieta?

 

R/2 – Trabalhador!

 

R – Trabalhador que era um horror! Era um exemplo. Nunca estava cansado. Isso eu tenho dele, eu também nunca estou cansada. Estou morrendo em pé, mas não estou cansada. Então, meu pai levantava cantando, a gente tinha o ambiente da casa sempre muito bom, muito pra frente.

 

R/2 – ______ muito bonita. Esse aqui acho que você viu também, né? Que ela foi a Mulher do Ano. Mulher do Ano, Enfermeira do Ano, foi feito “Esta é Minha Vida” na televisão.

 

P/1 – A senhora está bonita, hein?

 

R – (risos) Já fui bonita!

 

P/1 – Mulher do Ano em 1976. E quem elegeu a senhora a Mulher do Ano?

 

R – Lê aí que você vê.

 

R/2 – Pode ficar com essa coisa que eu tenho mais um. ______.

 

R – O ______ descobriu quem me elegeu.

 

P/1 – Clube das Mulheres de São Paulo?

 

R/2 – Mas não é esse clube de mulheres não!

 

P/2 – Hoje é outra coisa, né?

 

R/2 – Não é isso não, meu caro! (risos)

 

P/1 – Uma coisa que sempre falam pra gente nas entrevistas, uma característica do InCor, é o multiprofissionalismo, que ele começou como instituição e sempre privilegiou o trabalho de várias categorias profissionais.

 

R – Exatamente!

 

P/1 – Como é que a senhora via isso?

 

R – Muito bom! Porque se você fica com uma função só, você tem que fazer toda ela por pedaço – a gente experimentou isso também, porque já tinha trabalhado sozinha. Você tem que ter as profissões todinhas que dão o perfil daquele tratamento que o médico vai pedir para o paciente. Então, você tem que ter a enfermeira, tem que ter o farmacêutico na farmácia, tem que ter assistente social pra ver o problema dele, você tem que ter o pessoal do almoxarifado que tem que comprar material, você tem que ter a lavanderia pra lavar a roupa do doente, então, você tem um colosso de gente que depende de toda essa unidade de trabalho em função do paciente, de uma pessoa. Basta ter um paciente pra você fazer tudo isso, então você tem que ter um conhecimento das áreas todinhas. Isso que a gente fica enriquecida, porque tem que conhecer pra poder fazer o serviço bem feito do paciente, atender o paciente.

 

P/1 – E no InCor eles funcionavam ______?

 

R – No InCor, todo mundo que entra lá entra com um currículo bom, é selecionado muito bem, faz as coisas muito bem na área dele. E tem que ser de vanguarda, quer dizer, vai pra frente, vai fazer estudos, vai dar aula, vai fazer estágios de aluno, os médicos fazem estágio com a enfermagem, a enfermagem dá estágio para os médicos, assistente social, pra todos os outros profissionais. A mesma coisa que os outros profissionais procuram do outro lado nós procuramos também, quer dizer, há um entrelaçamento de conhecimento.

 

P/1 – Na época da senhora, todos os médicos falam da importância da senhora...

 

R – Eu sou muito importante demais! (risos)

 

P/1 – Na implantação do InCor, nos primeiros anos, ______ do InCor, uma curiosidade, as decisões, elas eram compartilhadas? A senhora participava das decisões importantes?

 

R – Eu sempre participei. Eu acho que eu participei pela minha força de trabalho, meu conhecimento, meu reconhecimento, na minha aceitação, quer dizer, nunca ultrapassei o meu limite, porque quando eu chegava no meu limite eu sabia onde é que é; tem enfermeira que, por exemplo, trabalha muito bem mas chega pra falar com o médico, ______, “É uma chata, não sei o que, não sei o que lá”. Então, isso já cria uma situação difícil. Eu acho que eu realmente tive sorte, ou jeito, ou qualidades, não estou elogiando nem nada, mas eu tive, sei lá, eu trabalhei muito bem com muita gente e com a equipe inteira. Eu sempre trabalhei em equipe. Nunca deixei uma pessoa da equipe deixar que ela não faça parte dela porque eu quis fazer, passei na frente nem nada, sempre reconheci e sempre valorizei. Eu fiz a criação, às vezes, de situações, quer dizer, se eu fui fazer, montar um hospital que me pediram, que eu já fiz bastante isso, _______ tem que botar uma enfermeira, uma assistente social pra fazer isso, a outra pra fazer isso aqui... Então, a gente faz as funções, leva as funções, estuda, faz os manuais todos lá do jeito que vai funcionar. Se vai funcionar oito horas, se vai funcionar vinte horas, se vai ter horário partido, qual o que precisa mais, se vai dar refeição, qual o vencimento, quanto é que ganha a enfermeira, quanto é que ganha o outro, o funcionário que tem menos currículo... Então, a gente tem que ser bastante comedida e honesta pra não prejudicar nem aquele que está sendo inserido e nem deixar na equipe uma pessoa fraca que está trabalhando mal. Às vezes a gente recebe um funcionário que não é bom, dali a pouco eu grito: “Olha, esse aí você não manda pra mim não que eu não quero não. Não serve, não dá, chega tarde todo dia, é enjoado, é muito doente, está sempre amolando que está com doencinha, doencinha, está cheio de filho que não tem o que fazer”. Eu sempre fui muito, muito, eu fui muito dura nas coisas, mas não tive nenhum inquérito contra mim, não. (risos) E sempre o pessoal gostou muito de mim.

 

P/1 – A senhora nunca foi um caso de polícia?

 

R – Nunca fui caso de polícia. Olha, eu andei muito caso de polícia, mas nunca fui caso de polícia não. Sabe por quê? Porque polícia procura muito a gente também. Sempre pergunta as coisas. Às vezes: “Porque ele falou que foi assim, foi assim”. A polícia às vezes procura. No Pronto Socorro procura muito, porque o Pronto Socorro é um lugar que o pessoal recebe...

 

(PAUSA)

 

R – (...) Ele assinou, ele foi embora e ele assinou que recebeu. Porque às vezes tem gente que se aproveita das coisas, e também tem gente que trabalha mal. Agora eu sempre fui muito feliz na minha profissão. Eu sempre falo: “Eu tenho que agradecer a Deus a essa profissão e àquilo que eu fiz porque eu sempre fui muito feliz”. E sou muito grata à enfermagem. É verdade. Eu acho que quem vai fazer enfermagem tem que pensar que às vezes ela está fazendo para os outros aquilo que ela não faz para ela. Não faz porque você tem que fazer para aquele que está precisando, porque está doente, está indefeso, porque não enxerga, ou que não fala, ou que não sabe, ou que está doente, ou que está gemendo: “Para de gemer!”. Não para de gemer nada, está gemendo por quê? Então vai lá, dá um... Então eu acho que tem um sexto sentido também das coisas. Eu sou brava, viu? A pessoa que trabalha comigo trabalha fininho. Sabe por quê? Porque eu sou muito rápida nas coisas. Isso eu sempre fui mesmo. Eu sou muito rápida nas coisas, enquanto uma pessoa faz uma coisa qualquer, uma tarefa, eu sou capaz de fazer duas, coisas paralelas, assim. Quer dizer, então, eu acho que não é por causa de tempo que a gente não faz coisa bem feita não. Agora eu quero saber só que nota vocês vão me dar. Pode perguntar as coisas, eu devo ter pulado muitas coisas que vocês queriam saber, vocês perguntem, se eu souber eu falo, se não, não.

 

P/1 – O InCor fez os primeiros transplantes, aí teve um tempo, parou por conta da rejeição e, depois, reiniciou com a época que eles já tinham novos medicamentos para evitar a rejeição. E foi uma fase bastante diferente, não é?

 

R – Deve ter sido.

 

P/1 – Porque foi... A senhora não participou dessa fase?

 

R – Acho que não. Deve ter sido sim, porque não fazer transplante por causa de contaminação é um problema de técnica de trabalho, de higiene e de trabalho do pessoal, equipamento, de conduta, de conhecimento, então, quer dizer, a equipe inteira está prejudicada. Agora, na hora você não vai poder dizer: “É a enfermeira, é isso, aquilo”. Você pode, às vezes, chegar ao ponto de quem é que está fazendo a coisa errada pra acontecer alguma contaminação, porque não se admite contaminação não. Não é admissível não. Em hotel – eu estou falando em hotel porque eu estou trabalhando em assessoria de hotel, hotel eu falava hospital. (risos) Eu falava hospital, “Dona Clarice, não é hospital não”. Então, agora, aqui, eu falo hotel, é por aí.

 

P/2 – Mas deve ter havido uma grande evolução nessa área de higiene?

 

R – Sem dúvida, sem dúvida. Mas depende muito de quem está dirigindo pra poder fazer as exigências, fazer as normas, fazer todos os processos à que devem ser submetidas as coisas. Os médicos também têm que lavar a mão direito, não é só passar a mão por cima, uma porção de coisas, não é só funcionário não. Tem muita coisa que corre por conta dos outros, não corre por conta da instituição. E, às vezes, tem muita instituição aí que a gente fica até admirado, como é que faz uma cirurgia num treco desse aí chamado ambulatório, chamado assim, por exemplo, sujo e tudo? Às vezes não acontece nada para o doente, ele tem tanta defesa que não acontece nada.

 

R/2 – Anjo da guarda.

 

R – Tem anjo da guarda, está só com ele. E o contrário também: você trabalha muito bem e acontece um azarão, uma coisa à toa que pode acontecer e criar caso.

 

P/1 – Uma pessoa mais frágil?

 

R – Mais frágil, então, a pessoa mesmo interfere na dinâmica de trabalho, na dinâmica de trabalho do médico, porque se entra lá nevosa, brava, infeliz, sofredora, pensando na morte, “vou morrer”, ela morre, se ela quiser morrer ela caminha para aquilo. Eu acredito muito nisso também. Você tem que entrar com um astral apoiado ou bom para fazer umas coisas maiores. Coisa menor não. Eu dei uma topada nesse dedo aí que doeu pra burro, mas fui eu que topei. Agora estou de dedão de fora aí.

 

P/2 – Está preto, né?

 

R – Está preto inteiro. Fazia tempo que eu não topava, acho que eu tinha qualquer coisa na cabeça hoje.

 

P/2 – Mas de modo geral acho que a enfermeira tem um papel importante pra preparar o paciente, principalmente em casos como esses de transplante, cirurgias.

 

R – Tem sim. Transplante é muito importante. Mas hoje eu acho que a enfermagem está muito boa de maneira geral, porque têm muitas escolas de enfermagem boas, as diretoras são muito conscientes. Agora, tudo depende do profissional mesmo, às vezes você tem uma escola muito boa e sai daqueles que você nem sabe o que é.

 

P/2 – O que os pacientes costumavam dizer ______, houve alguma coisa que marcou? Algum paciente mais desacreditado, mais afoito, ______? Trocar o coração, imagino que...

 

R – Eu acho que eu não tive nenhum fato grotesco de algum paciente que tenha me chocado com relação ao que o paciente diz. Sempre agradecem muito à enfermeira, seguram muito na mão da enfermeira, seguram mesmo, eles gostam de segurar na mão da enfermeira, às vezes reclamam do remédio, reclamam da camareira, da enfermeira que está vindo à noite, que não viu, que não chamou, está molhado. Isso tem queixa mesmo, e tem queixa que tem razão mesmo. Eu acho que...

 

R/2 – Muita gente acha que vai morrer e fica perguntando isso também.

 

R – Muita gente pergunta se vai morrer e a gente sempre não diz que vai morrer não. A gente procura ser verdadeira até o ponto que a gente pode falar: “Olha, o médico é muito bom, o hospital é muito bom...”. Nós fazemos o problema de assim, mostrar que ele está em boas mãos, que ele vai sofrer uma cirurgia, é problema perigoso, mas tem muita gente que está fazendo, você está fazendo porque outros já fizeram, quer dizer, a gente tem que ter espírito, compreensão e maneira de falar pra poder deixar o doente aliviado porque se não, não vai não.

 

P/2 – O Orlandi foi um bom paciente? Porque ele escreveu uma carta bonita.

 

R – Foi bonita. Foi bonita. Ele fez um transplante de coração.

 

R/2 – Ele era bonitão. Seu Hugo, parecia.

 

R – É. Era um paciente bonito. Quem operou foi o Zerbini, você viu, né? Ele foi operado...

 

P/2 – Ele viveu quantos dias, o Orlandi?

 

R – Ele viveu 400 dias. E viveu muito feliz. E a mulher dele também ficou muito feliz porque teve ele em casa com as crianças mais tempo.

 

P/2 – Ele foi um paciente positivo?

 

R – Positivo, claro, sabia de tudo, se preparou bem, foi operado e ele viveu quatro meses parece. Quatro meses. Um ano e pouco, um ano e quatro meses. Ele viveu bastante até. Dependendo daquilo que ele foi operado, né? Porque às vezes eles têm situação tão grave do coração que não justifica muito. Hoje eles estão operando mais cedo, então as coisas são menos graves agora. Então, você faz uma cirurgia de coração numa pessoa que não tem muito problema, não tem outras coisas maiores de saúde e vai muito bem, não tem nada, vai embora pra casa e acabou essa história.

 

P/2 – Nessa fase de projeção do InCor, era difícil pra enfermeira lidar com a imprensa, com os curiosos?

 

R – Não, a imprensa pedia muito à enfermagem pra conhecer as condições do paciente, até chegar na cama, olhar assim rapidinho pra ele ter ideia: “Está bom, eu vi, está tudo bem”. Familiar fica muito, às vezes, ansioso. Mulher, mãe, quer ver. Eu acho que hoje é melhor a compreensão dos médicos com relação ao atendimento do paciente do que era antigamente. Então, eu acho que a situação está melhor.

 

P/2 – Você acha Clarice?

 

R – Eu acho. Agora, em algum hospital o doente está lá no sol, o médico está conversando, tomando lanche, que não volta mais, essa ______ também, Marieta.

 

P/1 – E a imprensa, os jornalistas nessa época, eles pediam muita informação?

 

P/2 – Eles assediavam?

 

R – Muito, muito mesmo.

 

P/1 – Eles incomodavam a senhora? Atrapalhavam o serviço?

 

R – Se atrapalhavam eu cuidava rápido e eles iam embora.

 

P/1 – O que a senhora fazia?

 

R – Não, se eu tivesse que... Eu nunca tive problema com nenhum repórter nem com diretor de outro hospital que quisesse ver alguém, com visitante, eu nunca tive nenhum problema de atrito. Então, eu acho que eu não teria problema nenhum não, como não tive não. Eu falei pra vocês, eu me considero uma enfermeira que viveu feliz na profissão. Agradeço à minha família que me botou nesse caminho, que eu chorei tanto. Mas chorei, acho que agora eu deveria chorar de agradecimento, não é Marieta?

 

P/1 – A senhora tem outros parentes que trabalharam como médico, como enfermeira?

 

R – Olha, tem gente sim que trabalha com enfermagem, não tem?

 

R/2 – Tem uma sobrinha que ______ o nome dela, mas que depois fez enfermagem, chegou até a trabalhar alguns anos e saiu. Tem uma prima que também foi diretora de escola de enfermagem.

 

R – Sônia, não é?

 

R/2 – É, que fez toda a carreira docente, chegou como ______. A irmã dela também.

 

R – (Wandinha?).

 

R/2 – Enfermeira também, e isso acho que graças à influência da Clarice na verdade. Hoje em dia a gente tem sobrinhos médicos, tudo, mas isso já não tem mais nada a ver.

 

R – Já não tem mais nada, hoje a gente está tão distante destas coisas. Então, mas acho que tem duas na família que ficaram na área mesmo.

 

P/1 – Como é que senhora avalia a sua vida?

 

R – Olha, muito boa eu acho. Eu acho que valeu a pena ter trilhado esse caminho.

 

P/2 – Se a senhora tivesse que hoje falar o que é ______ enfermeira, enfim, avaliar essa profissão?

 

R – Eu acho que a profissão de enfermagem hoje melhorou muito e, realmente, se alguém vai fazer enfermagem, tem que ter vontade firme de fazer, de doação, de fazer as coisas que precisam para os outros, sem esperar nada. Reconhecimento você tem assim: um sorriso de “muito obrigado”, de tudo, mas às vezes também tem umas coisas que você sofre com ele, então você está participando, você é participante do problema. Eu não sei se eu aconselharia muita gente a fazer enfermagem porque é dura essa profissão, viu? No sentido, assim, você tem que trabalhar de noite, tudo bem, o pessoal hoje já não quer trabalhar muito de noite mais, ninguém quer fazer isso, tem que trabalhar, assim, os hospitais exploram às vezes o pessoal com horários pesados. Pagamento não é aquele muito bom. A profissão melhorou de status e de nível, mas também não é tão reconhecida, muito grande. Mas eu acho que está bem. Do tempo que... Eu acho que está razoável. No meu tempo não era assim não, mas hoje já está melhor. Não sei, mas eu acho que, e também não sei como está o mercado de trabalho agora, não sei como é que está não.

 

P/2 – Mas olhando para trás?

 

R – Olhando pra trás eu não tenho arrependimento de nada.

 

P/1 – A senhora mudaria alguma coisa?

 

R – Olha, acho que não, não, acho que não.

 

R/2 – É que você teve uma carreira brilhante, não é Clarice?

 

R – Eu tive mesmo. Fui sempre assim, muito...

 

R/2 – ______ muito trabalho, muito reconhecimento em todos os ______.

 

R – Muito reconhecimento, muitas medalhas, muitos diplomas. Eu fui muito badalada, não sei.

 

R/2 – Só o número de placas aí de tudo quanto é jeito.

 

R – Ali tem uma... Eu estava fazendo uma arrumação nesse negócio aqui pra mudar umas coisas, porque nós não temos lugar pra botar as coisas. Eu estou ficando em casa agora, então estou querendo fazer uma revisão. Aquele monte de placa lá, é placa, placa, placa de um, de outro, de outro, de outro... Eu disse: “Puxa vida, ______ Marieta, tudo isso?

 

P/1 – A senhora pode montar uma sala de troféus e placas.

 

R – Pode.

 

R/2 – É, mas ela nem liga para as coisas.

 

R – ______ não é disso, não é Marieta? Nós trabalhamos, nós temos...

 

R/2 – ______ hospital não, sabe?

 

R – Marieta é educadora, mas ela acompanha. É uma irmã que sempre tem acompanhado a gente. A família é bem unida e tudo. Ela sabe de tudo.

 

R/2 – ______ o fato também da Clarice ser enfermeira, isso ficou ______ por toda a família. Lá em casa é um negócio, parentes, amigos, sobrinhos, sobrinhos neto, tia, primo e amigo do primo, que nem tem médico e todo mundo achava que porque ela trabalhava na enfermagem com certo destaque que ela poderia encaixar isso, aquilo, que ela nunca fez. Mas que achava que por isso poderia abrir as portas pra ser atendido numa emergência, num isso, num aquilo. Isso durante muitos e muitos anos o telefone de casa não parava.

 

P/1 – Mas isso é muito comum, porque às vezes tem médico na família de ele ser muito...

 

R – É, mas eu nunca passei na frente de ninguém em detrimento de qualquer coisa, quer dizer, se eu pudesse: “Olha, o médico é muito bom, eu já passei lá”; “O que você acha?”; “Está bom, pode”. Quer dizer, consulta assim, informação e tudo. E tenho acompanhado mais. Eu acompanhei muita gente, às vezes, da família pra qualquer cirurgia, qualquer coisa, acompanhei. Tenho prazer de acompanhar porque estou lá, fico sentada, vejo, às vezes eu fico tomando conta um pouquinho assim.

 

R/2 – Quer dizer que a Clarice por ser a irmã mais velha das mulheres e por ser da profissão, na verdade ela foi muito onerada pra puxar as duas pra frente e pelo fato de ser muito solicitada.

 

P/1 – Quando a senhora está acompanhando seus parentes, a senhora avalia o serviço de enfermagem do hospital que está?

 

R – Às vezes avalio sim.

 

P/1 – E a senhora vai lá e critica?

 

R – Não. Eu posso até falar com o diretor, eu sou muito ética, eu não vou falando com as pessoas não. Se for uma coisa pequena por aí eu posso até falar, mas se eu tiver de repente alguma sugestão a dar eu vou dar pra pessoa do meu nível, que eu possa conversar e sugerir isso. Mas eu tenho sido solicitada bastante pelos médicos amigos que me conhecem: “A senhora? Ah, do HC”. Às vezes entro num avião assim, alguém chega lá: “Oi, Dona Clarice!”. Aí o pessoal todo olha, parece que estão olhando um bicho ou então uma coisa rara. Então, aí fala qualquer coisa, levanta e vem conversar. No ônibus também, uma vez foi uma “zueira” no ônibus, porque não tinha lugar pra passar, e não sei quem lá, que eu estava no ônibus – que eu estava viajando não sei pra onde, viajei muito, eu gosto muito de viajar – então, não acabava mais a conversa de quem estava conversando comigo. Então, a gente percebe que realmente o pessoal fica olhando, quer dizer, como diz a gíria: “Urubservando”. (risos) Essas coisas. ______.

 

P/1 – A senhora hoje está como consultora de hotel?

 

R – Você vê o que eu fui fazer. Quando eu cheguei no hotel, eu chamava o hotel de hospital, toda hora eu falava hospital, aí eu falava: “Não, não é hospital não”. O pessoal do hotel, o pessoal que gosta de viajar e que gosta de passear vai muito para o litoral, viu? Eu trabalhei três anos num hotel lá, fiquei lá. Então, eles chegavam assim, me olhavam: “A senhora, como é o seu nome?”; “Clarice Ferrarini”; “Aquela do HC?”. Eu digo: “É”; “O que você está fazendo aqui?”. Eu digo assim: “Agora eu não tomo conta de gente doente, eu tomo conta de gente que quer comer bem. O senhor vai passar muito bem aqui”. Então, eu fui sempre uma pessoa que aproveitei a oportunidade de dizer a diferença, de dizer: “Não estou cuidando do hospital, estou cuidando do hotel que vai lhe dar conforto e tudo. Qualquer coisa fale comigo”. Então eu fico assim, numa dessa, e é engraçado isso, porque no hotel... Agora esses dois meses que eu estou em casa um pouco, eu não estou fazendo essas coisas, mas quando eu estava lá eu via sempre todos os hóspedes chegando, eles chegavam...

 

R/2 – Você acredita que nesse tempo que ela estava no hotel, com esse senso de trabalho que ela tem, ela nunca foi à praia? O hotel na praia.

 

R – Eu fiquei três...

 

R/2 – Ela ama sol! Vê o senso de trabalho.

 

R – Burrice!

 

R/2 – Você que disse.

 

R – Agora eu falo, agora eu falo.

 

R/2 – ______ essa beleza! E nosso. Olha que coisa linda.

 

R – Eu fiquei lá três anos.

 

R/2 – Essa criatura não teve coragem de...

 

R – Nunca me dei ao luxo de ficar sem uniforme e ir para a praia, nunca. “Você não vai pra praia?”; “Não, eu estou ocupada, estou trabalhando”. Trabalhava o dia inteiro feito uma tonta. Mas eu gostei também de trabalhar lá.

 

R/2 – O que é de gosto, não é?

 

P/1 – Agora a senhora vai pra passear?

 

R – Agora eu tenho ido pra passear. Até acho estranho. Na última vez que eu fui lá com a Marieta, a Marieta disse assim: “Vê se você não vai ficar trabalhando”. Mas bem que eu trabalhei escondido um pouquinho lá, ela não ficou sabendo. Então, o que acontece? É o seguinte, não sei se é falta de qualquer coisa aí. Mas eu não estou infeliz não, estou sempre feliz.

 

R/2 – Claro, tem uma vida realizada.

 

R – Eu acho.

 

R/2 – Passou em brancas nuvens pela vida, não é?

 

P/2 – Uma história bonita.

 

R – Às vezes eu deito e começo a fazer um roteiro da minha vida e ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui... Passeei bastante nesse mundo, viu Marieta?

 

R/2 – Passeou, foi muito homenageada.

 

R – Muito badalada.

 

R/2 – ______ disso, daquilo. Não passou em brancas nuvens.

 

R – Não passei em brancas nuvens não. As nuvens ficaram todas...

 

R/2 – Você tem, por acaso, interesse de levar alguma coisa para o Museu?

 

P/1 – Temos, temos.

 

R/2 – Eu me ponho à disposição, porque...

 

P/1 – A senhora tem algum desejo pra realizar? Algum sonho, alguma coisa que a senhora quer ver?

 

R – Olha...

 

R/2 – Ela quer lidar com as plantas do jardim. O sonho da Clarice é ter essas casas de plantas pra ela lidar com as plantas. Não para ganhar dinheiro, só pra...

 

R – Eu cuido do jardim, eu olho as plantas todo dia, tiro matinho, tiro tudo, não fica uma coisa velha na planta, nada. Eu gosto de planta. Aqui ou em outro lugar que eu estou eu sempre tomo conta da parte de verde.

 

P/1 – A senhora gostou dessa entrevista?

 

R – Eu gostei, acho que eu falei mais que vocês, mas...

 

R/2 – Lógico! Ela não fala, ela é monossilábica, ela e meu irmão no telefone. São monossilábicos.

 

R – Não falamos não. Eu não falo não. Vocês perguntaram, eu soltei a língua aí.

 

P/1 – A gente fica muito agradecido.

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