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História

Encontros e conversas

História de: Ricardo Antunes Carneiro Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Ricardo Antunes nos conta a história da sua ascendência cearencese e alemã. Sua adolescência no Rio de Janeiro é lembrada por idas a praia e ao cinema, além das conversas com seus amigos. Ingressou na Companhia Vale do Rio Doce como estagiário e fez sua carreira na empresa. Trabalhou na parte comercial, viajando ao exterior e lidando com as diferenças culturais de cada negociação. Participou de muitos momentos dentro da Companhia, como o projeto Carajás e a implantação do site da Vale.

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História completa

P/1 – Bom dia.


R – Bom dia. 

 

P/1 – Pra começar eu gostaria que o senhor dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Ricardo Antunes, eu nasci no Rio de Janeiro dia 9 de agosto de 1958.

 

P/1 – Hoje é seu aniversário.

 

R – Isso. Meu aniversário.

 

P/1 – Qual o nome de seus pais?

 

R – Meu pai chama-se Osmar ____ Carneiro e minha mãe chama-se Elisabeth Brush Carneiro.

 

P/1 – Eles são de onde?

 

R – Meu pai é natural de Fortaleza, Ceará, e minha mãe é natural de Colônia, na Alemanha. Se encontraram no Rio de Janeiro.

 

P/1 – O senhor sabe um pouco da história de sua família?

 

R – Um pouco sim. A história da minha mãe, ela chegou no Brasil em 1936. Os pais dela, meus avós, meu avô veio abrir uma filial dos negócios dele aqui no Brasil, saíram da região da Westfália na Alemanha e tinha também uma questão que até estava envolvida a família dele. Ele era de origem protestante, minha avó era católica, e não era só na Irlanda do Norte que tinha essa dificuldade e havia uma certa tensão familiar, então, a vinda dele pra o Brasil foi um pouco pra sair fora dessa situação. E mais para o final da década de 1930, em 1939 especificamente com os envolvimentos da Alemanha, e coincidiu também com mudança na família do meu avô. E eles pediram então negociar o retorno da família. Meu avô retornou na frente e minha avó seguiria depois. Venderam tudo, se prepararam pra ir embora, e teve um problema na hora. O governo brasileiro não autorizou a saída das crianças, porque quando eles chegaram haviam registrado elas no Brasil. Então elas passaram a ser consideradas crianças brasileiras, e então não podiam mais voltar. E com isso, eles ficaram. Depois estourou a guerra e aí é que não pode voltar mesmo. Só em 1945, quando acabou a guerra, minha avó descobriu que meu avô tinha morrido. Aliás, morreu parte da família também. E simplesmente não tinha mais porque voltar.Continuaram aqui no Brasil. Essa é a trajetória da minha mãe. A trajetória da minha mãe e de um tio, irmão dela. E a história de meu pai, ele era uma família de Fortaleza, principalmente naquela época, uma família  pequena, com apenas onze filhos, e como toda família da capital do Nordeste naquela época, hoje é ainda um pouco assim, naquela época era mais ainda, depois de completar 18 anos, tem que estudar, tem que fazer faculdade ou fazer outra coisa na vida. Está todo mundo acostumado, e então assim foi feito, e ele veio no final da década de 1940 e praticamente eles se encontraram no Rio. Apesar da relutância da minha avó, mãe da minha mãe, de não gostar muito da história, no final acabou, acabaram se casando e permaneceram casados. 

 

P/1 – Ela não gostava por que razão?

 

R – Eu não sei porquê... A minha avó, acho que ela nunca... Eu não conheci minha avó. Minha avó morreu dois meses depois do meu nascimento. Eu nasci em agosto e ela morreu em novembro de 1958. Então, eu só sei essas histórias que minha mãe conta. Eu conheço mais a história do efeito. Nunca da causa. E então, eu realmente não sei o motivo, porquê não, mas sei que não foi uma coisa assim muito tranquila. Nenhum começo de sogra é muito tranquilo. Mas essa diferença cultural não só da... Apesar da minha mãe, embora tenha nascido na Alemanha era muito mais brasileira que qualquer outra coisa, ela tinha talvez inspirações diferentes, minha mãe.  Minha avó (confundi os nomes) minha avó é que tinha talvez ideias diferentes pra... No caminho que ela vinha seguindo, talvez continuar trabalhando. E o casamento basicamente, fez com que ela abandonasse tudo. Ela tinha uma posição muito boa, trabalhava na época pro Presidente do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. Era secretária executiva do Presidente da IBGE, do Diretor do IBGE. Acho que minha avó, talvez um pouco...Desejando alguma coisa diferente, porque quisesse que na verdade ela continuasse uma carreira, fosse uma mulher independente, e meu pai, de uma família do Nordeste, extremamente conservadora, devia ter planos bem mais modestos em termos de vida familiar, cuidar dos filhos,  então certamente...Aí não é uma questão de racismo, não acredito que existisse, porque meu pai nem é tão assim diferente, quanto ao seu físico, mas acho que foi mesmo uma questão de cultura. Cultural. Uma visão talvez mais conservadora, e a família da minha mãe, a minha avó, querendo uma coisa mais independente. Não feminista, mas independente.

 

P/1 – E qual a profissão de seu pai?

 

R – Meu pai trabalhou no DNER [Departamento Nacional de Estradas de Rodagem] muito tempo, como técnico e depois de engenheiro. Na área de...Principalmente a parte de fiscalização de construção de rodovias, e depois ele enveredou pra outros... Bem mais administrativos. Ele se aposentou no DNER, uns dez anos atrás. Dez, doze anos atrás. Hoje mora em São Paulo. Meu pai é separado. Em 1971, depois de 17 anos de casamento. Depois meu pai voltou a se casar. Minha madrasta é de São Paulo. Ele passou praticamente vinte anos da vida dele trabalhando no Rio, no DNER, e todo fim de semana, quinta-feira, sexta-feira ele ia pra São Paulo. Hoje mora lá, depois que se aposentou. Está lá num sítio, perto de Itapecerica da Serra. Vive lá. Região perto de São Paulo. E está lá. E convive...Depois do processo de separação foi muito mais difícil, mas a gente se encontra, vai lá, fica no sítio. Nós nos damos muito bem com a nossa madrasta. Não teve… Não ficou nenhum… Da parte dos filhos, ficou assim um grande rancor. Só a convivência que ficou mais difícil. De certa forma também, no final da década de 1970, minha irmã mais velha se formou, foi pra Brasília e começou a carreira dela de globetrotter, sair pra  morar em outros lugares; eu também, logo em seguida, em 1980, me formei, fui pra Carajás trabalhar lá no projeto Carajás e também fiquei oito anos em Carajás. Nesse tempo fui pra Londres, depois voltei pro Rio, depois fui pra Bélgica, voltei de novo pro Rio. O ano passado fiquei quase um ano inteiro em São Paulo, fazendo o projeto “.com”. Depois voltei de novo pra cá. Eu diria que… Não sei se herdado de meu pai, porque meu pai vivia também sempre viajando, acho que é genética. A exceção é só da minha irmã mais nova que é assessora, formou em Pedagogia e é diretora. É diretora, mas trabalha na escola do exército, da Fundação ___ como coordenadora. Essa sempre foi, nunca saiu do torrãozinho dela. Nesse ponto, acho que o principal fato de eu nunca ter tido talvez essa vida familiar tão típica, meu pai sempre ausente, minha mãe sempre foi mãe e pai ao mesmo tempo, primeiro porque meu pai era ausente, e depois da separação aí realmente a ausência ficou mais evidente, acabou desenvolvendo esse espírito de independência, e de pouco apego talvez até, ao local, a estar perto da família. Nunca teve muito isso. Sempre manteve contato, mas nunca necessidade. Facilitou depois, quando eu tive oportunidade de fazer esse trabalho de pioneiro lá em Carajás. Nunca eu me preocupei: “Ah, estou deixando o seio da minha família.” Nada disso. E minha irmã a mesma coisa. E acho que a irmã mais nova, eu acho que porque não teve oportunidade, porque por questão de trabalho acabou ficando aqui no Rio. Porque se tivesse alguma coisa pra fazer, alguma coisa fora, também saia. Eu diria que esse talvez foi o principal impacto de...Estou tentando fazer uma ligação entre eu ter morado nos últimos vinte anos, justamente 22 anos, sempre de um lugar pra outro… Se isso era uma coisa que me incomodava? Eu já pensei várias vezes sobre isso, e sinceramente, até hoje eu não tenho nenhuma angústia de parar e pensar: “Preciso encontrar um canto, pra estar ocupado com as plantas, criar um boizinho, fazer qualquer coisa, criar raízes.” Absolutamente. Se precisar daqui a algum tempo ir pra outro lugar, pra outra cidade e começar de novo, não tem a menor dificuldade. 

 

P/1 – E a sua infância? 

 

R – Minha infância?  Passei no Rio. 80% do tempo na praia. 

 

P/1 – Que praia?

 

R - Apesar da minha cor ser mais pra habitante do Pacaembu, em vez de Copacabana. Quando eu nasci, logo em seguida, meus pais mudaram pro Leblon, na Bartolomeu __, pra um prédio que, incrivelmente resistiu a especulação imobiliária. Está lá. Um dia eu passei, nem me lembrava mais, passei nele. Pensei: “Deve ter virado um condomínio.” Mas não, continua lá. Só que o larguinho lá está todo cimentado. O resto é igualzinho. E depois, em 1964, nós mudamos pro Leme, ali na divisa com Copacabana e praticamente morei lá até sair de casa, até ir pra selva… Então, foi uma infância tipicamente urbana, em apartamento, mas com a grande vantagem de ter playground maravilhoso ali, que era o calçadão da Avenida Atlântica. Nem me lembro sinceramente a tragédia ocorrida na política daquela época e mesmo que fosse, não ia fazer a menor  diferença. A gente vivia lá, era o espaço que a gente tinha. Foi uma infância bem típica de Zona Sul, classe média, a única diferença é que nunca fui surfista. Não entrei pra esse lado mais radical. Foi só reunião de turminha de  compartilhar interesses, muito na parte de cultura. A adolescência, não tanto a infância, mas especialmente a adolescência, a turma que eu comecei a andar, vamos dizer assim, a minha não era turma de… Na época tinha seu shopping. Agora a turma é de consumo, a nível de drogas, a nível de praia, surf. Era uma turma que falsificava a carteira pra vir assistir ____ vivenciar espaço, conhecer o Paissandu...

 

P/1 – Que tipo de filme você gostava de assistir?

 

R –Olha, adorava assistir filmes que não dava pra entender direito, mas a gente ficava gastando hora e ficava ali do lado, discutindo o assunto, e se sentindo assim a pessoa mais inteligente do mundo. Muitos filmes da nouvelle vague, do François Truffaut, Godard. Não ser americano era importante. Americano tinha aquela pecha, principalmente depois do golpe, toda inteligência nacional, praticamente definiu: é, tudo que vem da terra do Tio Sam, é ____ cultural. Vamos resistir. Mas, eu não me lembro de ter uma direção específica, coisa esquemada. Mas era, Fellini… Tudo aquilo que era considerado resistência ao governo americano, e tal. Aliás, eu gosto muito de assistir esses filmes de novo hoje, porque eu hoje percebo que quando assisti na época eu não entendi absolutamente nada. 

 

P/1 - E hoje você entende?

 

R - Hoje eu percebo que não são feitos pra você entender. São feitos pra você apreciar. Tem hora pra tudo. Não adianta você botar um garoto de 15, 16 anos pra assistir O Encouraçado Potemkin, e achar que ele tem carga emocional acumulada suficiente, a não ser que seja alguma reencarnação hoje, que está presente na memória ainda, mas você não consegue ter carga suficiente ainda pra poder entender o que está passando. Entender a conotação política, o jogo de cena. Mas, de certa forma eu acho que foi bom por dois motivos: primeiro porque de certa forma criou uma base, sempre alguma coisa fica. Cria uma ansiedade e uma angústia de que a vida é mais complicada do que a sociedade normalmente  faz parecer. Do que a televisão faz parecer. Isso é importante. Essa angústia de que tem alguma coisa a mais por trás, mesmo sem saber o que é, mesmo que você apenas vislumbre isso. Mesmo que você só venha a entender isso daqui a 30 anos. E por outro lado também porque funciona muito como uma forma de você se agregar, se socializar com diversas outras pessoas. Isso eu acho que é importante. Eu diria até, que as pessoas com quem eu guardo até hoje um contato, daquela época são essas pessoas, e não as pessoas que se tem uma maior intimidade, digamos assim, circunstancial, colegas de escola, estudar junto. As pessoas com quem eu tive isso, essa cumplicidade, ela surgiu. Acho que foi… Acho também que não foi predisposição intelectual, acho que foi questão de oportunidade. Surgiu, aconteceu. Eu acho que foi a influência de muita gente, digamos, que eu vim a conhecer e hoje a compartilhar de uma certa amizade, pessoas não que eu conheci na época, mas que passaram por experiência semelhante. Na década de 1960 teve esse negócio. Teve essa vocação de  protesto, e nos centros urbanos (acredito que em São Paulo tenha sido a mesma coisa) surgiu essa classe de pessoas, esse grupo, essa comunidade de pessoas, ________ o lado carente do, mas esse grupo de pessoas que nasceu mesmo com essa característica. Revolução ___ sempre é ruim, vamos protestar. Eu, certamente não tinha idade pra entender o que estava acontecendo, mas toda uma geração de pessoas do meio urbano, foram influenciadas por isso. Tentava reproduzir o mundinho dele a parte. Por isso que às vezes eu tenho nostalgia do que eu não vivi na época, mas as vezes eu me sinto como se tivesse... Às vezes, eu sinto que eu tinha mais idade na época em que aconteceu, do que eu tinha na verdade. Década de 1960, vejo coisa assim como __ Brasil e tal, como se na época eu tivesse 20 e tantos anos, 30 anos, pra entender o que estava acontecendo. A gente estava falando do que mesmo? Me perdi completamente (risos). Realmente vai durar a manhã inteira (risos).

 

P/1 –Você acompanhava esses fatos, era criança ainda, na década de 1970, acompanhava como? Pelo jornal, televisão, noticiário, seus pais?

 

R – Noticiário. Meus pais não. Meus pais certamente não. Meu pai, com uma posição muito conservadora. Nessa época, eu me lembro, quando a gente ia a passeata, protesto no Rio, o comentário que eu me lembro dele é dizendo assim: “Brasileiro é macaco de imitação. Pessoal lá fora começa a protestar lá fora, o pessoal protesta aqui. Não sabe nem o que está fazendo.”  Minha mãe também nunca se manifestou politicamente. Não era o lado que interessava a ela. Foi realmente… Veio completamente das pessoas que eu frequentava. Pessoas que calhavam de conhecer e ter contato, ali no bairro, onde eu morava, no Leme. Essas pessoas que na casa delas, esse assunto era discutido. Uma grande amiga que eu tenho, dessa época, e que até hoje eu guardo contato com ela, o pai dela, era o professor ________ está vivo até hoje, inclusive está trabalhando, ativo. Eu me lembro que, na época, ele era uma pessoa que tinha uma família grande, e moravam naqueles apartamentos que hoje não existem mais, de 300 metros quadrados, muito grande. Era realmente uma casa, e era ponto de encontro. A gente ia pra lá, ficava lá conversando, e eu ficava embevecido olhando, ele contando aquelas histórias toda, de quando ele esteve na Amazônia, onde ele conheceu o Darcy Ribeiro. Eu não sabia quem era Darcy Ribeiro. Hoje todo mundo falava em Darcy Ribeiro dando um suspiro de aprovação. Eu falei: “Esse cara deve ser legal.” Admirava o Darcy Ribeiro e não sabia nem quem era. Só mesmo porque ele admirava. Entrei de penetra, literalmente, nesse mundo. Totalmente diferente do mundo dos meus pais, de boa parte do pessoal da escola. Talvez o que tenha marcado, só pra tentar fechar a infância e a adolescência num capítulo compacto único, se bem que da infância eu não me lembro nada assim excepcional, mas eu acho que a adolescência realmente ficou marcada. Se eu posso destacar um evento, foi esse, foi o fato de eu ter me aproximado desse grupo, que tinha uma visão, que, em tese, eu não devia estar participando,porque não tinha idade pra compreender, não tinha histórico familiar pra compreender, não tinha ninguém que foi preso na ditadura, absolutamente nada. Pais completamente apolíticos. Não tive ambiente em casa, mas fui adotado, fui agregado nesse ambiente, talvez o que tenha mais marcado em minha formação pessoal, por razões totalmente diferentes do que eu achei que era na época, somente entendi mais tarde. Foi excelente. Foi esse grupo de amigos que eu frequentei. 

 

P/2 – Quais eram...Você falou em Darcy Ribeiro e mesmo do cinema, nouvelle vague. Tinha outros ícones que circulavam, muitos nomes? Músicos?

 

R – Tinha música, que era obrigatório você gostar de Chico Buarque. Mesmo que você não gostasse tinha que gostar. Tinha que saber de cor a letra da Construção,  explicar, saber dizer: “Olha que música bacana.” E o lado... Mas nenhum adolescente desconhecia o rock. Todas aquelas bandas: ____,  _____, Yes, Rock ____, complementavam bem essa parte de formação política de uma geração. Se toleravam bem. Não podia gostar de samba, sertanejo (isso nem existia nessa época) era música da roça. Jovem Guarda, Roberto Carlos, isso aí era careta. Eu acho que outro forte foi ali. Eu tinha colegas da década de 1970 ________________. Outro dia, eu estava comentando com um amigo meu, da minha geração e da geração de meus pais, que gostavam de Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, (já existia? Não sei) Orlando Dias, Francisco Alves, o “Rei da Voz”, que morreu num acidente até, na Dutra. A gente ouvia tudo isso. Altemar Dutra, Dircinha Batista. Mas, essa geração de agora, se eu tivesse tido um filho aos 25 anos, ele hoje teria 18 anos, 17 anos, ele estaria gostando das mesmas músicas que eu gostei. A geração de hoje curte ainda as coisas que eu curtia. Eu não sei se na história já aconteceu isso alguma vez. Os pais, e brevemente os avós, compartilharem com seus filhos e netos dos mesmos... Vamos falar em Rolling Stones, que é atual pra um pra outro, pra outro. O rock parece que entrou… E rock vai ser música de jovem, independente da geração. Teve pop, jazz, música de geração de jovens, e parece que o rock entrou agora e não vai sair. Não vai sair nunca mais. A mesma coisa como o jeans. Jeans todo mundo usa, há trinta anos, todo mundo usa, sem problema. Não mudou totalmente, não. Você perguntou de outro ícone, que foi esse aí. Em termos de parte política, boa parte do que se conhecia de política, era muito mais voltada pra as experiências do próprio professor _______ das pessoas que frequentavam ali. Não conhecia ninguém. Ouvia falar no nome do Brizola, se falava o nome do Brizola. Eu sabia o nome dele, mas só isso. E sabia que esse cara devia ser um sujeito bacana, e só isso. Ele era admirado naquele círculo ali. Mas era ícone. 

 

P/1 – E a escola? Em que escola você estudou?

 

R – Eu estudei num colégio de Aplicação da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. O famoso CAP [Colégio de Aplicação]. Um dos meus colegas de classe é o atual Presidente do IBGE, Sérgio Besserman Vianna. Aliás, o IBGE também participou da minha vida. Minha mãe trabalhou no IBGE. O professor (Lando Valverde?) que me propiciou essa juventude engajada politicamente, era do IBGE. Esse meu amigo é Presidente do IBGE. Sempre tem umas coisa com o  IBGE. Vou jogar no (bicho?) (risos). Depois eu fiz o cursinho, e aí entrei na PUC [Pontifícia Universidade Católica] em 1976, e me formei em 1980. 

 

P/2 – Essa escola de aplicação tinha alguma coisa especial? Algum motivo especial? 

 

R – Olha, quando eu fiz o curso, naquela época ainda tinha exame de admissão. Existia o primeiro grau. Fazia o primário, fazia um exame de admissão. Era um vestibular pra você entrar pra escola de ginásio. Na época, eu fiz, passei, a minha mãe ficou feliz na época e eu não tinha a mais vaga ideia, porque ela estava contente. Eu tinha feito exame pra uma escola, Colégio Acadêmico, fiquei em __ lugar, uma coisa assim e entrei no Colégio de Aplicação. Eram 60 vagas e eu tirei o 22º lugar. Achei que ela ia me bater, porque eu estava pior, mas ela ficou super feliz, porque só eu tinha passado no Colégio de Aplicação. Então, foi ela que escolheu, ela que... Eu não tinha a menor vaga ideia do que eu estava… Do colégio. Ela que escolheu. Depois eu vim, a saber, que era um colégio que tinha uma reputação muito boa, se bem que eu, dentro do colégio não tinha a menor ideia, por quê? A gente achava os professores um saco, a turma toda de adolescentes um brigando com o outro. Eu dentro do colégio nunca achei nada assim excepcional. Mas hoje, outro dia, há algum tempo, comecei a ver a galeria de pessoas que tinha passado pelo CAP, e pelo fato de o Colégio de Aplicação ter sido um dos centros, na época do movimento, quando houve a passeata de 1968, ele teve uma base forte nos movimento menos universitários e mais secundarista, alunos secundários, pelo menos no Rio. Não sei como foi em São Paulo. Tinha o Colégio Pedro II e o Aplicação. Ele foi invadido, foi ocupado. Teve aluno de 16, 17 anos que foi levado pra depor, e tudo mais. Isso eu soube mais tarde. Que tinha essa aula também de… Que tinha um local de geração de líderes. Seres pensantes. O mais que eu guardo dele é o primeiro semestre era o João Pessoa e no segundo semestre a gente tinha aula com os chamados licenciandos, que eram estudantes da UFRJ que nos usavam de cobaia pra aprender a ensinar. A diversão que eu tenho, é que em todas as classes tinha a tradição de querer sacanear o máximo possível o licenciando. Isso eu me lembro bem. 

 

P/1 – Que tipo de brincadeiras vocês faziam com eles?

 

R – Primeiro, porque o professor licenciando, ele tinha que dar aula na frente do colégio, da turma e iam uns três ou quatro professores lá atrás pra ficar avaliando. Então, 90% dos licenciandos entrava a beira de um ataque de nervos. Eles entravam suando, gaguejando, e você sabe, quando a fera fareja a presa, sente cheiro de medo, ataca com vontade. Nós tínhamos uma certa liberdade, e como um teste ao licenciando, ele que tinha que nos controlar... E então a gente aproveitava pra tirar toda a forra. Tudo o que a gente queria fazer e com o professor e não fazia, fazia com o licenciando. Guerra de papel... Me lembro de uma, coitada. Fez uma força danada. Aí, teve um dos alunos lá da frente que ficou olhando pra ela, todos olhando pra ela fixamente. A gente já tinha combinado, e ela não aguentava mais. Ia pra um lado, a gente estava olhando fixamente pra ela. Ela sentava, ele ficava olhando. Ele era talhado pra esse papel. Aí, chega uma certa hora ela não aguentou e olhou e falou pra ele: “O que você está me olhando? Eu entrei aqui e só tem problema?” Ele falou assim: “Quando é que você vai tirar essa espinha que você tem na cara?” Tudo combinado. Então, era... Mas isso, era brincadeira de mau gosto, ela projetava slide, alguma coisa assim, fazia comentários, digamos, um tanto quanto pesados, aí um outro responde. Tudo combinado antes. Isso eu me lembro bem que eu ficava temendo pela nova geração de professores que estava vindo, porque nenhum daqueles ali... 90% deve ter levado bomba. Outra coisa que eu me lembro do colégio também, é que quando chegou na época do cursinho, no segundo ano científico, terceiro ano cursinho, todo mundo do cursinho do Rio de Janeiro, vieram oferecer bolsa pra gente. Isso foi a parte boa. Você já estava no Colégio de Aplicação, ganha bolsa de estudos... eles pegavam os alunos do Colégio de Aplicação, porque 90% passava no vestibular. Isso aumentava lá o ranking deles. Eu só entendi que o colégio era bom quando eu fui pro cursinho.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque a primeira prova que fiz no cursinho, eu achei que estavam de gozação. Tão fácil. Aí realmente deu pra ver que o nível de ensino que todo mundo achava que não era bom, mas o resto era muito pior. 

 

P/1 – Você notou muita diferença no cursinho, nos alunos? 

 

R – Eu gostei mais do cursinho no final, porque a gente tem uma turma especial. E o professor de cursinho é aquele que nunca deve ter ido, quer dizer, é aquele que foi como algoz como licenciando, e passou, porque todo mundo tinha que frequentar o cursinho. Eles são os mestres, não precisam chamar a atenção. Estão habituados alunos um tanto quanto específicos. O cara tem toda aquela técnica. E fazia o cara passar no vestibular. Então tinha todas aquelas técnicas didáticas pra gente saber, pelo menos durante a época do vestibular. Depois, você pode esquecer tudo. Mas aqui... Ele tem a técnica empacotadora, o máximo de introduzir informação na cabeça do estudante, ele fazia passar a prova e, passar.   Então, é muito divertido. 

 

P/1 –Algum professor especial?

 

R -  Deixa ver. Tinha um professor que se chamava Manuel Maurício. Era professor de História. Era um professor… Eu não gostava particularmente dele  como professor. Eu achava um péssimo professor. Mas eu gostei e tive uma admiração muito grande pelo seguinte: porque ele era um herói resistente da ditadura. Diziam que ele era comunista, ou tinha sido comunista e tinha sobrevivido às torturas. Então, ele entrava na sala e aquela parte da turma engajada, de que eu me sentia fazendo parte, respirava admiração. Sobrevivente dos porões. Era um péssimo professor dando aula, acho que o diretor do cursinho colocou ele lá em respeito à história dele. Mas aí, aconteceu um negócio interessante. Alguns meses depois que ele passou a dar aula, em vez de dar aula, ele começou a convidar alguns alunos para conversar separadamente. Ia num bar, conversava, marcava encontro na casa de alguém e aí ele não era professor, virava mestre. Ele contava tudo, porque no cursinho ele tinha que ensinar a matéria, e fora ele ensinava História. Ele falava o que estava acontecendo, comentava. Muito da forma de pensar, analisar essa dialética de análise aprendi com ele. Isso não foi no cursinho. Aprendi com ele. 

 

P/1 – Você já sabia o que ia fazer?

 

R – Já sabia. Não sabia o que eu queria fazer, sabia o que eu ia fazer que era Engenharia. Não necessariamente o que eu queria.  A escolha não foi uma escolha de coração. Foi uma escolha pragmática. Tive que ver qual a profissão que estava dando mais oportunidade de ficar com Engenharia. E uma outra opção que eu fiz na época também, é que eu não iria para a Federal, porque eu, depois de oito anos convivendo com a turma, a mesma turma, não aguentava mais a cara deles. Depois de oito anos você desenvolve um certo conflito. Eu nunca tive uma turma de colegas, a minha turma era turma de meus amigos. Ia pra casa deles, ouvir o professor  ____ falar, e até a época de eu entrar na faculdade, minha adolescência foi tudo isso. Não me identificava com ninguém na escola. Um ou dois, três no máximo. Não queria. Queria outro ambiente. Então fiz vestibular pra PUC, única faculdade que eu gostava.

 

P/1 – Você fez vestibular pra… 

 

R -  Na época era unificado. Você escolhia a faculdade que você queria. Eu só coloquei PUC, que me interessavam. 

 

P/2 – Em sua casa havia uma expectativa que você seguisse uma profissão? Algum tipo de pressão no ar, ou não?

 

R – Acho que na época não tinha ______. Mas no dia em que eu nasci e meu pai soube que era um garoto e ele decidiu que eu tinha que ser engenheiro. Eu tinha que fazer Engenharia. Depois de uns dez anos, eu me lembro que ele jogou: “Filho, vai ser engenheiro eletrônico.” Mas a expectativa não foi por causa de meu pai, não. Foi pra organizar, discutir. Eu era muito sonhador, mas depois precisei conciliar pra ter uma carreira, ter uma casa tem algum sucesso profissional. Pra você escolher geógrafo, historiador, arquiteto… Fui fazer Engenharia. Sempre gostei da parte de ciências exatas, então não tive problema. Mas, nunca imaginei, depois de dez anos ser engenheiro em vez de geógrafo...Tanto que eu acabei fazendo... Eu entrei pra PUC pra fazer Engenharia Elétrica. Parte elétrica, eletrônica, física.

 

P/1 –Quais eram as opções da Engenharia?

 

R – Metalurgia, Civil, Elétrica, Eletrônica, e... Que mais que tem? Mecânica. Aí resolvi fazer Metalurgia, porque foi o melhor compromisso que eu encontrei. Queria alguma coisa que não fosse tão bitolada, que tivesse alguma ligação com a parte mais subjetiva, que é parte de mineração, muito a mais subjetiva e menos exata do que engenharia elétrica. 

 

P/1 – Você comemorou quando passou no vestibular?

 

R – Eu sabia que ia passar. Não comemorei não. Eu não tinha a menor dúvida que ia passar. Eu fazia simulado. A única dúvida era que se o pessoal fizesse sacanagem com a gente e na hora do vestibular eles aplicassem outra forma que não a do simulado. Mas depois da primeira prova, eu vi que era a mesma coisa. Nunca tive... Não fiquei emocionado, nada disso. 

 

P/2 – E o tempo de faculdade? Como é que foi? O que você fazia nesse período? O que você projetava enquanto fazia faculdade?

 

R – A faculdade foi um negócio meio… No início meio complicado porque a PUC é uma universidade paga. Eu sempre estudei, tirando o primário, que eu estudava num colégio perto de casa, desde que eu entrei pro Aplicação que era escola federal, era de graça. O cursinho também consegui bolsa de estudos, então não tinha problema. E aí tive que tomar a decisão de falar com meu pai. Era separado, tinha outra família. Fui lá perguntar pro meu pai: “Vou fazer faculdade, e eu quero um extra. O senhor vai pagar? Garante?” “Garanto. Pode ir lá.” Ele garantiu quatro meses, depois por razões… De ter tido dificuldades, ele não conseguiu mais pagar. E eu me vi numa situação complicada, porque eu queria entrar na faculdade, me dedicar, aprender, e depois de quatro meses eu estava atrasando, e no segundo semestre eu não conseguia pagar a faculdade. Foi aí que eu arrumei na ____ não um emprego pago, mas remunerado. Oficialmente, fui monitor na área de Computação. Na verdade, o primeiro mesmo que me dava grana era ser professor particular. Aí eu passei, do segundo semestre da faculdade até a minha formatura dando aula particular. Regularmente, pra pagar a faculdade. E acabei pagando a faculdade e pagando quase tudo lá em casa, porque aí a coisa da família começou a ficar complicada, e acabei pagando até a prestação do apartamento, com esse dinheiro que eu tinha. Isso... Foram cinco anos que a minha vida pessoal… Quatro anos e meio, inclusive, eu acelerei a minha formatura pra economizar dinheiro, entre outras coisas. Comecei a trabalhar mais cedo. Foram quatro anos e meio de muita dificuldade. Praticamente sustentei minha casa, boa parte das despesas de casa e todas as minhas despesas. Eu acordava às seis da manhã, levava marmita, minha mãe preparava omelete. Eu não posso comer omelete até hoje, por causa disso. E voltava pra casa às onze horas da noite. Saía de tarde pra dar aula, ia ser monitor, tinha que preparar aula e hoje me dá um sentimento de orgulho e de alguma coisa conquistada. Praticamente eu não tive a menor vida pessoal, nesse período. Nem uma vida assim de... Muita gente tem recordações da época de faculdade. Passagem que eu lembro é essa: trabalho duro, muito estudo e sempre com sono. Não tenho muito amigo de faculdade, porque meu ritmo era totalmente diferente do deles. O pessoal terminava a aula, ia tomar chopp e eu não ia tomar chopp, não. Não podia pagar o chopp. Ia fazer outra coisa. Trabalhar, dar aula. Dava aula de qualquer coisa. Inglês, Português que eu odiava. Por sorte conseguia Física, Matemática,  ___ naquela. Geografia, ikebana, qualquer coisa (risos). Salgadinho pra festa. Não podia escolher muito, não. E toda a tensão que você fica, porque certamente você começa ter aquela angústia de que não vai conseguir, não vai dar. E principalmente no último ano. No último ano e meio já melhorou bem, porque aí eu comecei a fazer estágio numa empresa da Vale, que era a que cuidava do projeto Carajás, o projeto que hoje é o projeto Carajás. Eu fui lá fazer estágio e consegui um. O pagamento já era bem melhor e aí me deu mais segurança. Então, no último ano e meio já foi bem melhor. Continuei dando aula e a minha vida passou a ser basicamente ir assistir aula, contato quase zero com o pessoal da faculdade, continuei com aquele meus amigos, o mesmo grupo.

 

P/1 – O que eles fizeram? Estudaram o que?

 

R  - Uma foi pra Arquitetura, outra fez Geografia, outro fez Engenharia. Outro fez Química, outra fez Direito.

 

P/1 – Você se encontrava com eles?  

 

R – Eu encontrava com eles. O que a gente mesmo falava era sobre faculdade. Continuava falando o que a gente sempre falou. Continuamos assistindo filmes. Já entendia melhor os filmes nessa época. Mas por exemplo, carro. Todo mundo tinha um carrinho. Eu não tinha: “Vamos tirar férias, vamos passar o feriado...” Não ia. As poucas vezes que eu fui, compartilhava com eles. Eles que... Então, minha vida social praticamente foi zero. Muitas férias também, eu não saia viajar nas férias. Sempre tinha aluno que ficava reprovado, ficava em recuperação e eu ficava trabalhando nesse período.

 

P/1 – Como surgiu esse estágio na Vale?__

 

R – O que você falou nessa pergunta, me lembro da entrevista do Millôr Fernandes, que ele dizia que para aqueles que querem atribuir grandes desígnios da humanidade, ele sempre gosta de lembrar que os maiores acontecimentos, normalmente, tem base em encontros totalmente mundanos. Do tipo, dependendo do general que era escolhido, ou do imperador que subia ao trono, o caráter dele, o caráter da pessoa pesava muito mais do que a posição sócio-geográfica-política. Se Napoleão tivesse 1,90, olhos azuis, não tivesse problema, não teria tido a Guerra Napoleônica, porque ele ia fazer guerra com ninguém? Ia fazer outra coisa na vida. Só fez isso, porque tinha 1,60 e tinha complexo. O que isso tem a ver com a resposta? Eu estou na Vale graças a um elevador. Eu soube dessa vaga, porque eu estava tendo uma aula, e tinha um elevador da metalurgia que ficava no quinto andar, eu me lembro que o pessoal estava indo, descer. Eu corri pro elevador pra pegar...Podia não ter corrido. Aí aquela pergunta: “Como é que está o tempo?” “ Eu to indo lá na Vale fazer um exame, fazer um teste . Não quer ir com a gente, não?” Aí, olhei… Eu não tenho aula de tarde. Se eu tivesse aula de tarde eu não teria ido. Foi assim. Eu não soube de nada. Soube no elevador que o pessoal estava indo, e eu fui no oba oba. Fui lá, fiz o teste e a prova ficou lá. Seis meses depois, essa equipe da área de Mineração tinha um… Até hoje meu grande amigo, na época do engenheiro doutor Carlos Rangel, que eu acho que ainda vai ser entrevistado pelo Museu da Pessoa, o Carlos Rangel estava lá e me escolheu, porque, por causa da minha prova de inglês, apesar de eu ter cometido uma série de erros lá. Aí me entrevistou e eu fui trabalhar lá. De lá pra cá minha vida passou a estar estreitamente ligada com a Vale. Nunca mais saí. Estágio, depois emprego em três áreas. Mestrado, isso tudo sempre ligado a Vale. 

 

P/2 – Como é que foi essa entrevista? Você lembra? 

 

R-  Eu lembro sim, eu me lembro. Nesse período eu tinha arrumado ______ eu tinha conseguido um estágio de programador de uma corretora no centro da cidade. Eu me lembro que o dono da corretora queria fazer um programa pra usar o computador pra calcular projeção, de evolução de ação, não sei que lá. E eu lembro que eu estava aprendendo alguns termos de mercado futuro, mercado a termo. E quando marcou a entrevista eu estava na cidade, e eu tinha que ir de terno e gravata. Então, quando eu cheguei pra entrevista de terno e gravata. Terno não, eu não tinha terno. Só tinha a gravata. Não dava pra ter terno. Fui de gravata pra entrevista. Eu acho que aquilo impressionou bem ele, o Rangel. Ele era e é até hoje um aficionado do mercado financeiro. Então, a gente passou metade da conversa falando sobre mercado financeiro.Ele falou o que eu estava fazendo, etc. etc. etc. Então eu acho que, mais uma vez, não sei se foi essa a razão, eu tinha ido dar a entrevista e eu fui muito descontraído pra essa entrevista, porque eu não estava esperando nada e qualquer coisa era lucro. Então, eu estava mais preocupado com o que eles iam pagar a menos do que, eu estava ganhando como programador nessa corretora. Eu me lembro que eu cheguei a falar até a ficar na dúvida se eu vinha pra cá ou não. Eu cheguei a fazer essa entrevista só pra __________. Foi uma entrevista de uma meia hora, uma empatia muito grande com o Rangel, que depois se confirmou com uma amizade sólida. Então hoje eu brinco com ele, que eu acho que ele me contratou só porque eu estava de gravata, e expliquei pra ele o que era mercado futuro. Explicação totalmente errada. Porque eu não sabia o que era mercado futuro. Eu estava ali só pra fazer a entrevista. ____________

 

P/2 – E como é que foi o estágio? Como é que era a Vale? Funcionava há anos? O que acontecia ali?

 

R – Olha, foi a minha introdução no mundo da vida do escritório. Você já viu aquele negócio ____. Era meio parecido. Outro dia vi um filme. Uma secretária... A secretária do futuro, antiga ____ Como matar seu chefe. Você deve ter assistido o filme com o ____ Jane Fonda e a _____. Eu vi e disse: “Ai meu Deus do céu. Eu  trabalhei num lugar igual a esse.” Aquelas mesas de madeira, escura, aqueles arquivos de aço, prancheta. E aí tinha uma sala onde ficava o chefe, o José Raimundo, pessoal todo, tipo salão aberto. Era bem formal. Tinha a sessão do Rangel que eu ficava ali, de frente pra ele, e… Mas era um ambiente… Eu achava bacana. Me sentia plenamente no mundo dos adultos por me encontrar num ambiente de escritório de engenharia. Eu tinha status, de estar ali pela primeira vez. No começo, foi o período de estagiário mesmo. Tirar xerox, fazer colagem, fazer arquivo, todas as coisas que hoje eu tenho ódio de fazer. Eu já não gostava de fazer naquela época, mas como estagiário tinha que fazer, tinha que fazer. Mas rapidamente o Rangel, até por questão de falta de mão de obra começou a me utilizar pra outras atividades. E comecei rapidamente a fazer funções de calcular ________, calcular fluxo de massa, fazer análise de testes metalúrgicos, coisa que na faculdade eu ouvia e nunca tinha prestado atenção. Então, foi muito bom porque finalmente eu... Foi um estágio de engenharia mesmo. Não foi um estágio de tirar xerox não. E o Rangel, depois de algum tempo, comecei a trabalhar com ele como se fosse engenheiro mesmo. Ele ia pras reuniões em Belo Horizonte, da Vale, lá no laboratório da Vale  e ele me levava junto pra participar. Todos os estagiários que eu tive a partir daí, todos com quem eu trabalhei, eu fiz alguma coisa. Realmente tem muitos estagiários que são usados efetivamente como o estagiário, ______ não como estagiário. No caso, eu tive a sorte de trabalhar com o Rangel e ele ter me dado a oportunidade de realmente fazer. E eu acho que por isso eu continuei na Vale. Por causa dele. Esse foi um período realmente enriquecedor e útil e moldou essa parte de como interagir com as pessoas.

 

P/2 – E dava pra se ter uma ideia do que era o projeto Carajás no momento? Percebia um pouco o que era ao projeto? A dimensão dele?

 

R – Olha, no começo não. Mas, mais uma vez eu tive um pouco de… Aqueles eventos extraordinários que acontecem na história de uma pessoa, aí no caso no projeto inteiro. Eu entrei no dia primeiro de fevereiro de 1979. No primeiro dia que eu entrei lá, o ar condicionado pifou e eu tive que conviver com o calor que eu passava. Aquele verão carioca de arrebentar. Um mês depois, aconteceu um evento mais extraordinário, que foi a entrada, a volta do doutor Eliezer Batista que tinha sido Presidente da Vale no passado, e voltou de novo a assumir a Presidência da Vale. E a primeira coisa que ele fez, o projeto Carajás é prioridade   número um dentro da Vale. Quando eu entrei pra ser estagiário lá no projeto, bem que eu percebi que o pessoal estava meio murcho, porque tinha mais ou menos uns oito anos que aquele escritório existia, eles já tinham feito, e pelo menos a cada a três semanas, eles faziam estudos da viabilidade de Carajás. Por oito anos aos americanos criaram o __ técnico no escritório, estavam sentados em cima. Na  verdade não queriam o projeto. Eles queriam era ter a reserva, mas que ninguém desenvolvesse. Dava pra ver na moral da turma. E logo que eu cheguei, com a declaração do Eliezer, tudo mudou. Eu não conheci, passei só um período muito breve desse baixo astral. Rapidamente a coisa decolou. Então, pra mim a Amazônia _____ sempre foi coisa vibrante. Mas pelo que eu entendi, ela só foi vibrante a partir de 15 de março de 1979. Eu não conheci pra trás. Conheci só a história. O Rangel me contou umas histórias. Foi um início espetacular, porque foi exatamente quando entrou. Aí começou teste, começou viagem e aí a gente tinha que receber o pessoal das usinas siderúrgicas, que vinham discutir o trabalho  projeto, e tal. Foi realmente _____

 

P/2 – Chegou a haver mudança de equipe neste momento?

 

R – Só no ano seguinte. No ano seguinte teve mudança de equipe. Quando o pessoal autorizou o início da construção. Coincidiu com a época que eu estava me formando e coincidiu com a época do convite então pra ir pra Carajás. 

 

P/2 – E como é que foi esse convite? Como você recebeu?

 

R – O convite foi, eu me lembro, de uma maneira muito pouco lisonjeira. Só sobrou eu (risos). Eu me lembro que o pessoal procurou ativamente, procurou mesmo. O José Raimundo, na época que era o chefe do Rangel... O Rangel e o José Raimundo sempre entenderam que eu fosse pra lá. Achavam que eu era esperto... Inclusive o pessoal brincava comigo, por causa da minha cara assim meio redonda, aquele tempo me chamavam de “bebê de (turco?).” “Bebê de (turco?)  tem que ir pra lá.” Inclusive o diretor, ele fez depois um trabalho pro Schettino, não sei se vocês entrevistaram ele, ele até hoje quando me encontra na rua, me chama: “Oh, bebê de (turco?).” Mas eu me lembro que na época, durante uns quatro meses, eu me lembro que o pessoal tentou ativamente, foram pra Itabira, fizeram o convite, e tentaram de todo jeito encontrar algum engenheiro de projeto, pra operar, pra ir pra Carajás. O único que se dispôs a ir foi o Mozart Litwinski que hoje é diretor executivo da Vale. Eu me lembro que eu estava na reunião. Eu ia pras reuniões. O pior de tudo é isso. Eu ia pras reuniões que ajudavam a escolher uma alternativa _____. Eu me sentia um Dunga. Eu era o reserva do reserva do reserva. Não ia jogar nunca na seleção. Aí, eu me lembro quando o pessoal fez a apresentação, o José Raimundo é que foi lá. Ele levantava, mostrava as fotos, como é que ia ser o projeto: “Precisamos de gente, etc. etc. etc.” A universidade do cauê. E aí eu me lembro, que o único que levantou foi o Mozart. O Mozart levantou: “Eu quero discutir.” Todo mundo: “Aí Mozart, a onça vai te comer.” Aquelas brincadeiras. Mas aí teve uns outros que estavam lá e colocaram: “Eu vou, mas eu tenho que voltar depois de um ano.” Aí, em novembro, isso foi em julho, ficamos nesse multishow aí uns três, quatro meses. Aí em novembro , o pessoal tinha decidido que a usina ia entrar em produção, tinha que começar a operar, e aí foi comunicado que na falta de um candidato ______. Acabei sendo o primeiro. Como ninguém queria ir, eu humildemente: “Vã bora.” ___

 

P/1 – Você já tinha ido pra Carajás antes?

 

R – Não. Nunca tinha ido. Perdão. Eu fui sim, fui uma vez. O José Raimundo tinha me levado, até pra ter a certeza de que se um dia eu aceitasse, eu saber o lugar onde eu estava me metendo. Foi uma recepção. Descemos em Marabá. Na época, estavam com problema de pouso, e pela mesma razão que o voo coincidia, eu sei que nós fomos e o José Raimundo escolheu um caminho mais _______________. Chegou em Marabá e aí tinha um taxi Corcel II esperando  a gente pra levar pra Carajás, numa estrada que além daquela poeira toda, era bem na época de estiagem. Foram quatro horas de viagem com labaredas e chamas do lado da estrada. Uma poeira danada, não era asfaltado, e aí, teve  uma recompensa ao chegar em Carajás. Quando nós chegamos em Carajás, eu já tinha estado lá, você chega, começa a subir a serra e parece um lago suíço. Aí a temperatura muda… Só tem vento... Mas foi ________ . E aí eu fui pra Carajás, eu cheguei em Carajás no dia oito de dezembro de 1980. Tinha a mala e um rádio gravador Panasonic, que eu comprei especialmente pra me fazer companhia lá em Carajás. Passei o Natal lá ___________. Uma chuva danada, porque lá o tempo de chuva começa em novembro e vai até março. Vocês já leram Cem Anos de Solidão? Em uma tal de Macondo, chove onze anos. Eu me senti um  personagem de García Márquez. Uma chuva ininterrupta o tempo todo, e os únicos que estavam lá era um pessoal da turma que veio implantar o canteiro da empreiteira que ia operar usina pra gente. Ia fazer a pré operação. Eu me lembro que lá era um galpão que era refeitório, cozinha, um pedaço era dormitório, um galpão que tinha lá. E marcamos a nossa festa de Natal ali. Fomos todos preparar aqueles pratos ____:  porco, galinha sob todas as formas: ao molho pardo, etc., etc., aquela festança lá. Cerveja e cachaça. Aliás, os únicos períodos em que eram autorizados, porque não tinha bebida alcoólica lá. E tomando cerveja, e chovendo, frio, primeira vez com gente que a gente não conhecia, ainda por cima peguei uma gripe. Estava chovendo. Eu sei que eu me lembro que na noite de Natal um… Era o supervisor, seu com aqueles nomes que só tem em Minas Gerais, seu Zoroastro, um nome desses assim. Ele começou a beber, começou a ficar emocionado, começou a ficar meio deprimido e aí ele começou a ter convulsões e pranto. Olhava pra mim e lembrava do filho dele, aquele negócio todo. Eu tinha que consolar o cara. Olha, pra piorar, chegou uma hora que acabou a cerveja  Aí esse seu Zoroastro: “Eu vou pegar cerveja.” “Mas não tem cerveja.” “Tem. Eu vou lá no Parauapebas, vou lá no acampamento não sei da onde.” Não é Parauapebas: “Fica uma hora daqui.” “Não, eu vou lá. Fica aqui.” Tá bom, então lá foi o Zoroastro. Deu uma hora, uma hora e meia, duas horas, duas horas e meia. Nessa altura do campeonato… O cara ficou por lá. Tchau, Tchau. Já era quase meia noite a turma foi lá pro acampamento. No dia seguinte, vieram me contar a história. Meia hora depois que eu saí, chegou seu Zoroastro, encharcado. Carregando cerveja. Aí perguntou onde que eu estava. Falaram: “Foi embora. Você acha que ele ia esperar aqui?” Diz que ele entrou numa crise: “O que ele foi fazer comigo. Eu gostava dele como se fosse meu filho.” E aí depois me contaram essa história. Eu fiquei com a consciência culpada. E então esse Zoroastro, no dia seguinte, eu encontrei com ele na obra. Ele estava sóbrio. Ele simplesmente agiu como se nada tivesse acontecido, não me dirigiu a palavra, ficou todo formal. Aí eu: “Olha, você desculpa.” “Não, não aconteceu nada ontem.” Eu não sei se me machucou mais a indiferença dele no dia seguinte ou o episódio. Eu sei que não foi uma experiência... Não foi o Natal mais feliz da minha vida (risos). 

 

P/2 – Você se instalou onde lá? Era um acampamento? Como era a estrutura de recepção? 

 

R – A Companhia tinha um acampamento  ______ .Lá em Carajás cada quarenta iam lá medir, numerada de Leste pra Oeste. N1, N2, N3, N4… E a pista. Era um terrenão. O cara era bom, porque ali era meio subida e então quando o avião  descia, ele vinha pelo lado da cabeceira, e precisava frear um pouco. E na hora da partida, ele pegava bem porque a descida ajudava a dar impulso. A vida lá era exatamente... Não era colônia de férias. Você tinha uma casa de pedra, era pedra, porque a base dela era feita de pedra, mas ela era toda de madeira _________. Me lembro que ficávamos duas semanas, três semanas sem receber roupa limpa. Foi lá que eu aprendia lavar roupa. Lavava assim embaixo das axilas pra não chamar a atenção dos urubus. Eu me lembro do pão. O pão da refeição do refeitório era tudo feito ali, porque no meio da selva, tinha que fazer ali. O pão, eu achava que ele tinha uma pedra de canga lá dentro, porque era o pão mais pesado que eu vi na minha vida. Você pegava o pão, eu não sei o que eles punham lá dentro, pão de um metro. Eu me lembro de um pão muito consistente. Eu me lembro da pessoal de lá, chegando a carne e aí tem que passar pela inspeção sanitária. Inspeção sanitária era um cara com a bomba de flit pra matar as moscas. Shii, shii, shii. A gente tinha à noite uma sessão de cinema. Eu me lembro que… Eu falei que eu passei boa parte da década de 1960 e 1970  vendo...

 

P/2 – Nouvelle vague (risos).

 

R – E outras coisas. Então, um cara me ajudou a recuperar o tempo perdido. Então, eu vi todas as reproduções de pornochanchada, Mazzaropi… 

 

P/1 – Era produção nacional.

 

R – Produção nacional. Ninguém sabia falar inglês. E não dava. E botar o que? Legenda? Eles não sabiam ler. Eu me lembro que eu via filme… Eu vi aquele filme com o Nuno Leal Maia, O homem de Itu… Como é que é? Eu sei que… 

 

P/2 – Nelson Rodrigues?

 

R – Nelson Rodrigues, não Era muito ____. Era pornochanchada mesmo. Era… Como é que era? Era Cada um dá o que tem, Agarre sua vizinha e coisas  do gênero. De vez em quando tinha uma sessão mais leve, _____ Mazzaropi. E às dez horas, antecipando, sempre foi um lugar adiante do seu tempo, nós tínhamos o apagão. Antecipando o que aconteceu no país vinte anos depois, desligávamos o gerador e aí todo mundo ia pro dormitório. Eu também não estava esperando nada _________. Sabia que __________. Foi até julho de 1981, inauguraram alojamento novos, departamento N5, que depois veio a ser o núcleo do pessoal da obra. Aí já melhorou. Aí começou a chegar gente, começou a chegar famílias e a ala masculina havia o reforço necessário. Começou a chegar professora, telefonistas, secretárias. Domingo, pelo menos, a paisagem ficou alegrada um pouco mais. Mas esse período dos primeiros seis meses foi... Eu tenho uma certa nostalgia, porque realmente como a gente fala de pioneirismo, realmente foi o único pioneirismo mesmo que eu tive foi nesse três meses. Depois virou Alphaville, Novo Leblon. Condomínio. Tinha casa, música, televisão. Aí, falar que mal de Carajás, era pra fazer charme, porque tinha muita comodidade da vida moderna, não faltava nada. Até noite de queijos e vinhos a gente promovia. Mas esses seis meses foram importantes, porque era época de você ver onça, macaco, na estrada, ter sempre uma história pra contar. Aprender a tirar carro de atoleiro. Até hoje eu, o Mozart brinca comigo. Lá no alojamento, depois que apagavam as luzes, uma vez tinha flashes lá fora. Trovão e relâmpago. Aí eu falei: “Acendeu as luzes lá fora?” “Isso não é nada, não. O cara quer mostrar que é índio.” “Mas índio?” “ É. Índio com lanterna.” (risos). Até hoje ele me sacaneia. Índio com lanterna. Então, foi isso aí. Realmente época boa de perder qualquer  resquício de frescura. Éramos de cidade, urbanos e tudo o mais e vem realmente conhecer um mundo mais inclemente, mais direto. E de contato com pessoas também. E contato com gente de certo background da formação, que gente fez ali. Primeiro, dos outros estados, de onde vinham essas pessoas. Porque formar, forma em tudo quanto é lugar. O que menos vinha era gente com formação parecida com a minha. Tinha gente de Rio Grande do Norte. Tinha gente de Minas Gerais, de outro país, Ubajara. Cultura. Não tem cultura da Vale, mas tem futura de Minas. E Minas tem cultura diferente. E principalmente gente da região ali, com coisas dali. Me lembro da época que a gente chegou teve o Círio de Nazaré. O primeiro Círio de Nazaré que eu passei. Essa era a festa mais importante do Pará. Tem a imagem da santa que sai da basílica, vai não sei aonde e volta, e tem uma corda em volta. E todo mundo faz promessa no dia pra pegar na corda: “Ah, se me curar disso eu prometo que vou ficar segurando a corda.” E também existiu uma campanha muito forte de fazer testes, tinha que preparar o relatório pro banco alemão, pra conseguir financiamento, todo mundo sob pressão, trabalhando 24 horas por dia. Aí quando chegou na semana do Círio veio uma comissão e falou: “Olha, nós estamos indo, e queremos tirar folga pra ir pro Círio.” Aí falava: “Lamento. Não vai dar. Temos que entregar o relatório em novembro. Outubro, cheio de coisas. Não vai dar.” Ali pra você sair tinha ficar uma semana fora: “Mas nós vamos.” “Mas como? Vai funcionar no Círio?” “Claro que vai. Por que? Qual o problema?” “Ah não, não pode.” Aconteceu o seguinte: metade da mão de obra foi embora: “Vocês vão ser demitidos. Não pode.” Não queriam nem saber. Não tinha a menor relação entre trabalho, esse negócio de trabalho, o sujeito perder o  emprego e tudo o mais. A maior parte do pessoal foi pro Círio, depois voltou . Esperava que fosse recomeçar: “Não é assim como volta” E aí, você começa a perceber realmente. E é um choque cultural, esse tipo de ___ ética de trabalho, emprego, de carreira. É um evento relativamente novo, concentrado, no Brasil ______ industrialização do país, que é muito recente, e ficou muito concentrado. A região inteira. Depois eu soube que na Bahia e foi muito parecido. Não existe relação entre trabalho e emprego. Trabalho era assim: tem trabalho, ele vai, trabalha e depois vai embora. Não tem relação. Ele entra e sai que nem ônibus. Ninguém ali estava pensando em fazer carreira. O primeiro choque que eu tive em Carajás foi com a mão de obra. A primeira coisa que eu tive que mudar foi a cabeça dessas pessoas e fazer com que elas entendam que aqui tem uma carreira, aqui é uma empresa, tem a estabilidade e que tem que continuar a relação. Então foi... Depois mais tarde fez passar pelo Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], formação pelo SENAI. Eu me lembro que toda vez que a gente chamava o SENAI, o SENAI dando aula ou ia fazer uma palestra, uma apresentação junto aos alunos, coisa que eu sempre fazia, um ponto que eu sempre tocava era esse. Existe uma carreira. Embuti essa visão de carreira. Como fiz com a empresa. ______________.Polo de Camaçari. O que Carajás fez naquela região Norte foi o equivalente ao que Camaçari fez na Bahia. Esse é o comentário, digamos aí, desse período da minha descoberta.

 

P/2 – Vinha muita gente bater na porta da Vale, pedindo pra trabalhar ali, naquele momento, ou a mão de obra já vinha pronta com as empreiteiras?

 

R – Não. As empreiteiras eram os fiscais empregadores. Eles traziam gente no momento em que... Você tinha pouca mão de obra não qualificada. A maior parte da mão de obra era gente que… Operadores de máquinas, terraplenagem, mecânica. Vinhas muita gente de fora. Pouca gente lá da região. E um dos problemas lá foi esse: a gente começar a criar mão de obra na região. Agora, foi um processo de inchamento não de Carajás, porque a gente tinha um controle muito grande, mas da periferia de Carajás. Foi o surgimento do que hoje é a cidade de Parauapebas. Não sei se vocês conhecem essa cidade. Ela surgiu em 1982, num processo parecido com o crescimento de favela. Alguns barracos no começo, basicamente atendiam os caminhoneiros que vinham trazer mercadoria ao projeto. Aí surgiam os focos de garimpo naquela região. Daqui a pouco, provavelmente já tinha lá um prostibulozinho e tal, por perto, porque não podia beber lá. O pessoal não podia entrar lá, tinha muito controle de bebida, então o pessoal ficava do lado de fora pra beber. Daqui a pouco tinha 20 mil habitantes. Daqui a pouco, tinha 30 mil, daqui a pouco, tinha 40 mil. Então foi um processo assustador nessa região. A Vale até tentou fazer. Criou um núcleo urbano de Parauapebas, pra tentar impedir isso aí, e a cidade desenvolveu em volta dele.  Planejamento, formalismo, não serviu pra nada. Como em Brasília, com todo o plano piloto, Taguatinga e… Em volta formou todo um núcleo de habitação. Hoje eu acredito que deva estar bem melhor. Faz muito tempo que eu não vou pra Parauapebas, então não sei como está hoje, mas era uma região extremamente violenta, e era um contato muito duro com a realidade de pobreza. Isso também foi… Ninguém levava visitante pra conhecer Parauapebas, não. O pessoal ficava ali no bem bom, na serra, no friozinho da serra. Hoje deve estar bem melhor. Também trabalhei na região de Curionópolis, Serra Pelada, o chamado quilômetro 30. Nós brincávamos e chamávamos de 38. Você ouviu essa história já. Basicamente foi isso aí. O principal impacto social não planejado e que não teve como segurar foi essa migração de… As migalhas do que sobrava do movimento criado pelo projeto.

 

P/2 – Vamos fazer um intervalinho de uns cinco minutinhos pra usar o banheiro, um café, um ventilador (risos).

 

P/1 – O senhor participou, o senhor estava em Carajás na época da invasão, da famosa invasão dos garimpeiros. O senhor pode contar um pouquinho dos episódios disso, como foi a mobilização do pessoal?

 

R – Eu vou tomar cuidado e vou contar só aquilo que eu me lembro de verdade. Pra evitar… Porque com o passar do tempo você acaba fantasiando os fatos e daqui a pouco, o sujeito está na sua casa, vê o dragão que entrou, você já vai aumentando. Por conta inclusive desse evento que eu estava descrevendo da criação desse núcleo desordenado na fronteira do projeto, coincidiu com a época de migração muito forte, principalmente da região do Nordeste, da região da Amazônia, e gente buscando… Foi a época da crise brasileira, da dívida, período mais recessivo, eu acho, da nossa história, uma grande massa de gente sem muita alternativa, e certamente o polo, com a história de Serra Pelada, teve uma pressão enorme de gente vindo pra aquela região, em busca do eldorado. Inclusive, tem até uma cidade, famosa pelo episódio ______ edificante, no Eldorado dos Carajás, o nome não é por acaso. Era assim que as pessoas imaginavam, que na verdade tudo estivesse coalhado de serras peladas, esperando pra acontecer. No caso do projeto, uma questão até de viabilização do próprio projeto, a Vale tinha uma área, tem até hoje, um área que ela, digamos, controla, por várias razões, não só do ponto de vista de integridade do projeto, mas principalmente até por razão ambiental. Se você vê uma foto hoje daquela região, a única mancha verde que sobrou, efetivamente compacta, é a região  que está sob os cuidados da Vale diretamente. Então, tinha essa política de demarcação de áreas e a medida que os garimpeiro iam chegando e buscando áreas, eles certamente pensavam: “Se a Vale do Rio Doce, essa empresa grande, que aliás era dona de todo jeito, de Serra Pelada, se eles estão guardando essa área, é porque está cheio de ouro aí dentro.” Então, era uma briga quase que contínua contra... No início a gente conseguia ainda gerenciar, não eram invasões muito grandes, eram basicamente invasões de grupos de garimpeiros que entravam pela mata. A mata é muito difícil de entrar, então eles entravam pela estrada mesmo. Então, era mais fácil de ver, de controlar, de impedir. Nesse meio tempo você tem uma população que cresce. Naquela época, Serra Pelada estava começando a dar sinais de exaustão, e havia toda uma briga que a Vale tinha entrado em juízo pra tentar recuperar a área que era da empresa, e o governo, na época, tinha dado um prazo de alguns anos, foi em 1983,1984, para que a área fosse explorada pelos garimpeiros e depois retornasse à empresa. Naturalmente, qualquer criança, como diz o Nelson Rodrigues, até as pedras da calçada de Copacabana sabiam, que isso ia acontecer. Foi uma época muito turbulenta do ponto de vista político também e toda sorte de… Tudo o que pode dar de errado nessa hora, dá. Você tem todo um movimento e se junta o movimento também do… Uma parte inclusive, envolvido até com os movimentos lá de posse de terra, briga de disputa de posseiros,de papagaio, junta com o governo, ano eleitoreiro, pressão eleitoreira, pressão em cima da Vale, a Vale fazendo pressão também pra não perder, pra não deixar a coisa sair fora de controle, pra também não esculhambar a constituição e a gerência da empresa. Confesso que, como eu estava em Carajás, a coisa vinha de filtragem. Então, certamente o panorama… Espero que alguém algum dia publique algum livro que analise o contexto político da época pra saber o que aconteceu. Mas a verdade é que, principalmente, por massa de manobra nessa brincadeira toda, eu acho que não foi nenhum movimento espontâneo, foi massa de manobra, como a forma de fazer pressão em cima da empresa, primeiro porque a Vale era governo. Ótimo alvo, ótima visibilidade. Era, a Vale em Serra Pelada, então potencialmente uma inimiga potencial por tentar recuperar… Extremamente zelosa e repressiva de todos os que tentassem entrar na área de Carajás mesmo. Então, juntou a fome com a vontade de comer, o apetite, o preço baixo. Foi tudo numa hora só. E ______, ficou fora de controle até que a massa de garimpeiros resolveu então, pra fazer pressão mesmo… Nessa hora, o movimento da turba, ninguém pensa muito e então vem aquela... _____ realmente o movimento e eles vieram destruindo que nem uma nuvem de gafanhotos. Passaram o quilômetro 30, já problema, destruindo, ameaça qualquer carro da empresa, qualquer coisa que tivesse era atacado. Quando chegou em Parauapebas, na fronteira, na divisa, na entrada da Vale, eles atacaram aquilo que eles entendiam como Vale, que era o núcleo urbano, que tinha sido _____. Incendiaram prefeitura, hospital, escola... E se plantaram, se posicionaram pra entrar dentro da área. Do lado de cá, a ideia de uma horda de garimpeiros chegando pra fazer justiça com as próprias mãos, certamente não era um pensamento muito reconfortante. Então, todo tipo de pânico e de reação extrema, também acontece do lado de cá. E aí, não tinha ninguém pra ajudar. Não tinha exército, não tinha polícia e nem que tivesse, ninguém duvidava se realmente a turma ia segurar o estouro da boiada. Só para garantir, deixa uma certa linha. Então, liberou todo o general Rommel, o Montgomery, o Papa, o Caxias que existe dentro de você, nessa hora libera. Então, se formou o comando de guerra lá e… Eu não participei desse comando de guerra. Só contava com… Só ouvi as histórias, mas eu vi os efeitos. Eu me lembro que tinha um portão lá feito lá na estrada, principal via de acesso. Tiraram aquele portão com uma trava, puseram dinamite dentro da ponte. Teve aqueles eventos hilários de como o comandante chegou lá de helicóptero: “Vou resolver a situação.” Atravessou a ponte no meio dos garimpeiros e foi sequestrado pelos garimpeiros. Quem conhece muito em detalhes isso é o Ricardo Dequech. Não sei se vocês chegaram a entrevistar. Ele conta, porque ele fazia parte do alto comando. Ele era então o nosso Rommel junto com o Mozart. Fazia planos: “Vamos botar isso aqui.” A maior parte das histórias do front inclusive eu sei através dele. Do ponto de vista interno, lá dentro da comunidade, que é onde eu estava vivendo, era um… A grande maioria das pessoas… Eu não vou dizer que havia pânico. Havia uma certa… Dava um certo desconforto, mas uma grande curiosidade, um certo excitamento como: “Meu Deus do Céu! Estou fazendo parte da história, a coisa acontecendo.” Que nem o sujeito que não pode ver sangue, mas não consegue resistir e em qualquer atropelamento ele para pra ver: “Ah, que horror!” E para pra ver uma segunda vez. Vai devagarzinho só pra olhar e pra dizer: “Ah, que horror.” E aí tem aquela história do sujeito que andava armado, o outro que começou a fazer provisões dentro de casa, um que se aventurou e montou uma cabana para uma emergência de evacuação. Cabana no meio do mato, como garimpeiro. Tinha muita malária, tinha muito mosquito. Então tem… De uma maneira geral, 90% do pessoal continuou vivendo sua vida normal. Com uma certa apreensão, mas também tinha uma certa confiança de que no final das contas a Vale não ia deixar, no meio do mato. De alguma maneira ia ser. Ninguém estava acreditando que isso fosse acontecer uma tragédia. Acho que no final das contas o que ficou mesmo foram essas histórias patéticas, como aquelas histórias do sujeito que tomou um porre, sai de casa de ___, depois você mostra o filme pra ele e ele diz: “Ah, eu fiz isso? Ah Meu Deus do Céu.” Lá também assim. Realmente eu não… A melhor pessoa… Eu prefiro deixar realmente essas histórias pra serem contadas pelos nossos generais da época.

 

P/1 – Você ficou até quando em Carajás?

 

R – Fiquei até 1988, junho de 1988. Foi quando eu fui pra Inglaterra pra fazer mestrado.

 

P/2 – Essa rixa que você comentou, não briga, mas uma espécie de rixa entre a operação e o pessoal da obra, isso permaneceu quanto tempo? 

 

R – Olha, a rixa, na verdade… Depois dessa fixa, eu já vi coisa muito pior. Então, hoje eu não diria rixa _________. Aquela coisa de: “Não vai haver conflito lá…” Na verdade ela continuou até a implantação, em 1985, e muitas das pessoas que estavam na obra foram aproveitadas. Na verdade, o que existia eram algumas pessoas em particular, eu diria que dos dois lados, mas como tinha muito mais gente de obra do que de operação, é natural que tivesse mais esse tipo de indivíduos do lado de lá, até por questão de média estatística, que contestava. Digamos, um misto de postura pessoal e um misto da situação da época, que toda a atenção na obra era quem tinha os bolsos cheios, quem tinha toda a prioridade e tudo o mais. A preocupação era a obra, tinha que acabar a obra , a obra estava no meio do spot light. Tomaram atitude realmente de forma antipática, ____. Eu diria que é muito mais de indivíduo, tanto que muitos deles da obra, dessa época de Carajás trabalha até hoje em vários projetos. É um pessoal fantástico e todo mundo sempre teve excelentes relações com todo mundo. Muitos da obra de Carajás, eu me lembro, estão… Eu mesmo contratei e chamei pra trabalhar no projeto de implantação de ________. De um modo geral, são excelentes engenheiros e são pessoas inclusive que… Eu diria que 90% tinha muito mais identidade, compartilhava inclusive uma identidade cultural comum, e só 10% acabaram levando essa fama dessa rixa. Mas, é mais indivíduo do que, digamos, estrutural.

 

P/2 – E vocês tinham uma dimensão, quer dizer uma noção da dimensão de Carajás? O que significava aquilo, no sentido épico, o que batia em termos unificado do projeto Carajás, Brasil, etc. pra vocês que estavam ali?

 

R – Olha, no meu caso particular, eu sempre sinto, sentia e sinto até hoje. A dimensão de Carajás, quando alguém de fora vai lá comigo. Você fica no negócio do dia a dia… Mesma coisa… Até hoje eu só fui no Pão de Açúcar, aqui no Rio de Janeiro pra levar algum turista, algum amigo que está de passagem. Aprecio mais quando a pessoa aprecia do que eu sozinho. Como você vive no dia a dia, aquilo acaba sendo natural pra você. Carajás pra mim, é onde eu me desenvolvi profissionalmente, onde eu passei boa parte de minha vida pessoal, fiz amigos, tive experiência pessoais muito fortes, mas teve influência muito grande pra mim nessa época, não. Porque eu vivia lá o dia a dia. Agora essa dimensão que você falou, existe sim, mas ela só fica revelada quando você vai com o comprador de minério, alguém como um visitante, ou um familiar simples. Minha mãe falava, minha irmã: “Nossa, você trabalha aqui? Que coisa fantástica.” E o Ivan Lins, uma vez foi pra lá fazer um show. Fui lá acompanhar o Ivan Lins. Ivan Lins é ambíguo, mas o que eu ouvi na época de grandes protestos. Eu me lembro que ele olhou, ficou maravilhado. Eu fiquei maravilhado com Carajás através dele. E disse: “Realmente esse negócio aqui é bacana.” É isso. Nessa época ela não ocupava os nossos sentidos. Era um lugar pra morar e viver como um outro qualquer. 

 

P/1 – E depois desse trabalho em si, com núcleo etc., como era viver em Carajás? Como era o dia a dia, essa troca com as pessoas, essa comunidade em Carajás?

 

R – Era uma vida social muito grande, porque as pessoas… Não é que não tivesse cinema. Até tínhamos. Não era nada… Mas as pessoas viviam reclamando: “Aqui não tem um cinema? Não tem um teatro?” Disse: “Quantas vezes você foi ao teatro, na sua vida, quando você morava no Rio de Janeiro?” “Umas duas vezes.” “Então, você não vai a cinema e teatro ___.” Mas lá as pessoas só sentem falta, porque lá não tem. Então, era uma vida muito parecida, eu acredito, com a vida normal de uma cidade. A grande maioria das pessoas vai de casa pro trabalho, do trabalho pra casa e no fim de semana vai à praia, vai ao clube, ou fica em casa, assistindo, sei lá o Gugu. Tem uma vida bem domesticazinha. Noventa por cento das vidas é assim. E lá tinha tudo isso. Talvez tivesse até mais, porque como você tinha basicamente as casas e as pessoas tinham essa necessidade, como estão isoladas, esse isolamento, elas se aproximam, naturalmente, muito mais umas das outras. Todo dia tinha algum lugar pra eu jantar ou ir na casa de alguém, ou um churrasco, ou jogava, ou assistir um programa junto, jogo de bola, queijos e vinhos, fazer fondue. Tinha isso. Eu podia passar tranquilamente todo dia com uma atividade social. Ir a casa de alguém, ir pro clube, tinha baile, o pessoal trazia conjuntos, até alguns grupos mais conhecidos na época. Então, sinceramente, eu tinha uma vida muito parecida com a vida da maioria dos brasileiros, que não foi em Carajás. Com a diferença que o sujeito trabalhando em São Paulo, você pega o carro e meia hora depois você está em outra cidade, num outro bairro. Lá, você pra Parauapebas. Mas se você considerar quantas vezes por ano alguém sai da sua rotina, você podia considerar que as férias que as pessoas tiravam, no fundo também equivaliam um pouco a isso. Foi longe de ser uma atividade, uma existência difícil, solitária, abandonada, isolada. Muito pelo contrário. Pra mim foi enriquecedor do ponto de vista pessoal. Eu acho que devo ter conhecido mais pessoas em Carajás do que eu tinha conhecido em toda minha vida pra trás. Porque ali tinha a vantagem de ter o canteiro de obra, e toda semana tinha uma empreiteira nova chegando, que tinha engenheiros, os funcionários, os técnicos, e famílias. O sujeito trazia a família. Então, você tinha mil e tantas casas. Era muita gente. Você conhecia em todo lugar de todo país. As pessoas… Tinham uma classe, uma categoria, um pessoal de nível social muito parecido, porque como você dividia lá o pessoal técnico em técnicos e técnicos superior, quer dizer, gente que tem um certo nível social, era muito parecido. Eu acho que pelo contrário. Foi um período de relacionamento pessoal intenso. Não o contrário.

 

P/2 – E como foi a sua ida pra Londres? Em que momento surgiu isso? Foi um convite ou...

 

R – Um convite não. Foi uma oportunidade que surgiu. O Conselho Britânico, o British Council, tem uma bolsa de estudos, e folheando uma revista, em certo momento eu fiquei com um… Principalmente depois que eu me separei… Eu casei quando estava lá e depois me separei e eu fiquei um pouco cansado. Eu tinha ideia de fazer um curso, uma coisa assim, mas nada que eu estivesse trabalhando ativamente para. Até que surgiu, no início de 1988, eu comprei uma revista, que tinha reportagem: “Curso no Exterior.” Então tinha lá: Fundação Krupp, mas a pessoa tinha que saber alemão. Eu já conhecia bem como é que eles eram ____ alemão.Tudo batata. Não me interessou muito. Mas tinha na Universidade de Paris, e tinha esse do Conselho Britânico. Eu escrevi pra três deles. Inclusive pra Krupp também. Mandei pra um outro, pra uma universidade  americana e esse British Council. E aí eu fui chamado pra fazer uma entrevista. Eu me lembro que foi na rua Hermano (ou Germano) Cardin, na Urca. Aí eu fiz a entrevista, expliquei o que eu queria fazer. Já marcaram um teste. Um teste de inglês e de uma maneira extremamente não burocrática, rápida, eficiente, muito britânico e em maio eu recebi a confirmação de minha bolsa de estudos e o curso de Mestrado na Inglaterra, seguido depois de um curso de especialização. Numa universidade em Worcester. Eu nem estava esperando que ia dar certo. Fui lá e conversei com o Mozart e perguntei: “Mozart, você me libera? Pra fazer o curso.” Foi extremamente positivo, eu tive sorte em encontrar essas pessoas _____. Tinha sido o Rangel e o Mozart a mesma coisa. Achou importante, até pela empresa, _____ e defendeu junto à empresa, que não só me liberassem como também me ajudassem também no curso. E aí eu fui fazer o curso. Algo que começou assim meio despretensioso e aí eu estava lá _____. Rápido assim. Mudou do… Natal de 1987 eu tinha um ambiente totalmente diferente. Em julho eu estava ___ na Inglaterra. 

 

P/2 – Foi um curso em dois anos? 

 

R – Um ano e meio mais o período, um curso de dois meses de especialização, adicional. Em convênio com a Universidade de Worcester.

 

P/1 – Você tinha um curso teórico, prático?

 

R – Era curso teórico e prático. Não dá pra praticar muito mineração na Inglaterra, embora...

 

P/1 – Eles têm muito geólogos?

 

R – Não. Isso em tecnologia é muito pesado, porque a Inglaterra ____ bicentenária, é da época que ela foi criada pra explorar as riquezas minerais do “Império onde o sol nunca se põe”. Na África do Sul, Austrália, na África, de uma maneira geral, ilhas ocidentais, as grandes empresas de mineração hoje são, ________, então existe uma base. A Inglaterra não tem pra minerar, mas o Império Britânico tinha. Então, eles tinham uma base muito boa em mineração. Em termos de pesquisa e eles guardam muitos laços com todas as universidades de ensino, agora na Austrália, África do Sul, Chile e no Brasil, coincidentemente com a PUC. Eu nem sabia disso. Soube lá quando eu encontrei um bocado de gente da PUC, soube que também tinha passado por lá.

 

P/1 – _______

 

R – Tive.

 

P/1 – Fazer o que?

 

R – Curiosamente num negócio em que eu estou trabalhando agora, quase dez anos depois, que foi Planejamento de Recursos de Produção, aplicação de tese... Depois eu vou falar isso com… Existe um negócio chamado ERP (Enterprise Resourcing Planning) que em base é o seguinte: em dados problemas de produção, no plano de vendas, você tem que planejar a produção toda para trás. Vou dar um exemplo aqui. O carro. Você vai comprar um carro na concessionária, o carro está pronto. Como é que ele sabe que vai vender o carro? Ele sabe. Ele produz. Produz e coloca lá e vê se dá certo. O que acontece? Muitas vezes o carro chega lá, aquele carro não é o que você quer. O que você faz? O cara vai tentar te convencer. Se ele te convencer vai te dar um desconto. Vai chegar uma hora que: “Mês da promoção Chevrolet.” Você vai lá. Mês da Chevrolet é o seguinte: todos os modelos. Ele não conseguiu entender o porquê ninguém gostou da cor, ninguém gostou do modelo. Eu estou aqui agora pra ver se resolve esse negócio. Certamente é uma maneira muito eficiente. O modelo básico é o seguinte: você quer, por exemplo, um celta. Você vai à loja, desenha o carro que você quer e aí vou produzir o que você pediu. Exatamente o que você pediu. Vou fazer o que você me pediu e tenho carro na loja _______.  A indústria, de uma maneira geral, porque todos fazem isso. E a mineração nunca fez isso. Quando eu estava lá eu cheguei a institucionalizar vários processos industriais e foi interessante, porque aplicados a mineração, porque minha tese foi tentar demonstrar que vale a pena você fazer uma coisa semelhante no minério. Dado o programa de produção de minério… Em vez de você simplesmente sair produzindo o minério estocando no porto e torcer pra que aquilo que você produziu é o que o cara vai levar, fazer alguma coisa pra trás. Será que a gente não consegue, a partir da demanda, planejar a produção pra trás? Essa era a tese. Relativamente simples, mas não era o que estava se aplicando na época. Então, inclusive ganhou até, como é que é? O que eles chamam lá de distinction. Acharam muito bom e publicaram inclusive no jornal da faculdade. Eu hoje vendo essa minha tese, eu acho uma porcaria. Um bocado de coisas que eu escrevi lá, hoje eu mudaria radicalmente. Mas foi uma oportunidade de não só parar pra pensar, como também pela primeira vez estar num ambiente universitário em que os professores efetivamente se empolgam como que você está fazendo. Quando eu estava ainda aqui no Brasil, ainda deve existir, mas não foi o meu caso na PUC, e realmente foram os dois anos, o ano e meio mais proveitoso, mais enriquecedor que eu já passei. Deu quase vontade de não voltar mais e porque também Londres… Você pode não ter vontade de voltar por causa da cidade. Você junta com essa parte aí, com uma universidade excelente, de alto nível e então foi realmente um ano produtivo. Vou voltar nisso agora, porque uma iniciativa da “Vale.com” é um portal que registra o que ele trabalha, fechando mercado e suprimentos que é exatamente uma coisa parecida. Mas não pra  minérios. Pra qualquer coisa. Dado um plano de produção… Em vez de você só produzir e deixar estocado, você realmente se planeja pra só realmente produzir e mexer as peças, quando realmente você tiver certeza que vai vender. 

 

P/2 – Essa aplicabilidade que você conseguiu só meses depois ou você volta pra lá e...

 

R – Quando eu voltei, achei que era possível, mas até o próprio Mozart que é entusiasta… Quando eu voltei, o Mozart já foi promovido a diretor, primeiro na área de Transporte e Licitação, então eu perdi o contato com ele. Mas um ano depois ele foi pro _____ e me levou pra trabalhar na área comercial eu fiquei incumbido desse projeto, de tentar fazer um parecido, mas… Mas não dá pra você… Tem certas coisa que não dá pra empatar. Uma parte da tecnologia na época, em termos de computação, cada vez mais precária, e você precisa, pode parecer que não, mas você precisa muito poder computacional e muita coisa que ela estava um pouco incipiente na época e também que, na verdade você não muda uma empresa que faz o mesmo negócio, que na visão dela dá certo a 50 anos. Você não pode convencer a turma a mudar. Dizer que precisa fazer. Perdi a batalha. Depois eu percebi a minha falha. Aí, parti pra outro sistema, bem mais simplificado. Mas eu estou com vontade de voltar hoje na Vale. Hoje a tecnologia seria o suficiente pra você voltar e tentar convencer que é possível fazer.

 

P/2 – Quando você voltou de Londres, você voltou pra Carajás ou não?

 

R – Fui pra Carajás, fiquei lá um período, quase um ano. Na época, a ideia do ___ era sair dessa área. O superintendente era o (Marconi?) que hoje está no manganês, tinha uma área para o desenvolvimento de não ferrosos. Outros projetos. Portos, e ele pediu pra eu ficar nessa área. Eu fiquei lá esse período, mas já estava, certamente, com a cabeça longe. E aí, logo no início de 1991, o Mozart assim saiu dessa área e foi pra área de minérios, voltou pra área de minérios, ele me convidou pra ir pra área Comercial e eu aceitei. Não pensei duas vezes. 

 

P/1 – Veio pro Rio?

 

R – Vim pro Rio, voltei pro Rio depois de onze anos de ausência. Voltei pro Rio e descobri que não era mais carioca. Eu não conhecia mais nada, não consegui me identificar com mais ninguém.

 

P/2 – Como é que foi essa readaptação?

 

R – Ah. Não ____ readaptação. Voltei porque… Ninguém passa impunemente onze anos fora do… Na verdade o ______ que eu passei em Carajás era totalmente diferente. Você deixou de ser urbano. Você pode até ter hábitos urbanos, mas suas referências, o que aconteceu? O verão disso, o verão daquilo. E a cabeça das pessoas evolui com uma coisa muito diferente. Até aquelas pessoas com que eu convivia, minha turminha lá do professor _____, das discussões sobre, já tinha, não estavam muito afim, estavam separados, casado de novo, foi ser funcionário público, ou então foi fazer curso no exterior. Você perde o contato. Aliás, foi o preço que eu paguei a Carajás. Esse é o preço que você paga. Você corta totalmente… Na época, não tinha internet, telefone era uma fortuna, você não conseguia ligar, ninguém tem saco pra estar escrevendo carta. Então, só uma vez por ano, de vez em quando eu vinha ao Rio de férias. Quando eu vinha ao Rio de férias. Às vezes, nem vinha. Perdi o contato totalmente. Aí eu vi que já tinha deixado de ser cidadão de uma cidade só. Mas foi muito bom a volta pro Rio.

 

 (Barulhos de coisa quebrada. Comentários, risos.)

 

R– … A volta pro Rio,  porque eu voltei a ter acesso a outro tipo de informação, informação do lado do business que eu nunca tinha participado, a parte comercial. Só a parte de produção, nunca a parte de venda. Então foi muito bom. Principalmente porque dois anos depois eu tive a oportunidade de ir pra Bruxelas e aí senti o bafo do dragão na cara. Negociar com alemães, italianos, árabes, turcos, e descobri que no fundo o ser humano é exatamente o mesmo. E todo mundo fala: “Porque ele é alemão, porque ele é francês.” Na hora da relação pessoal, especialmente na parte comercial, não tem a menor diferença. Igualzinho. Então, teve aquele negócio, o advento do Collor. A Vale era estatal e aí teve aquele negócio do impeachment, Wilson Brumer era o presidente, em 1992, e aí ele saiu, depois da saída do Collor. Não que ele tivesse alguma coisa a ver, mas enfim, como o Itamar assumiu, uma das coisas que ele fez foi tirar todo mundo que tinha sido colocado na época do antecessor dele. E ele chamou de volta o Schettino, o que eu acho que foi muito bom, porque o nosso grande receio era vir alguém que dissesse que ele que tivesse apontado por razões políticas e usar a Vale pra alguma outra atividade. A Vale tinha tão bravamente resistido esses anos todos, nosso receio era que isso viesse a acontecer. Mas, felizmente, não foi isso que aconteceu e eu acho que o Schettino deu uma tranquilizada. Inclusive, chamou lá, que eu tinha ido pro Bruxelas, ele tinha que autorizar. Eu fui lá falar com ele e ele perguntou mais uma vez com aquela serenidade toda dele: “Olha, aqui (Bebediturco?), você tem certeza que é isso que você quer fazer?”  “Eu quero, Schettino.” “Tá bom. Mas vê se não vai virar belga.” E outras palavras de incentivo. Aí eu fui pra essa nova etapa da carreira que foi em Bruxelas.

 

P/2 – Conta um pouquinho desse aprendizado na área comercial. Como é que foi esse aprendizado, como é que foi aprender a fazer esse tipo de negociação?

 

R – Olha, foi aquele aprendizado brasileiro. Você vai lá e se vira. Não tem ____. O Saldanha que falava assim: “Você vai na Inglaterra e quando chega na escola fala assim: “Quero aprender a jogar futebol. Ele fala: isto é uma bola, isto é um chute. No Brasil chama o garoto lá e : “Vai chutando aí esse negócio.” E ele vai lá, vai driblando, vai aprendendo por imitação, vai se virando. Brasileiro, por definição, não lê manual de instrução. Todo cara que é ajudante de carpinteiro, no próximo emprego já virou eletricista, marceneiro. Depois de três casas não cai e então fica bom. Fui pra lá ajudante de carpinteiro e fui imediatamente  promovido a mestre de obra. O mesmo padrão. Obviamente, todo aquele que inicia comete as primeiras gafes. Volta pra casa e: “O que que eu estou fazendo aqui?” A sensação de que o Natal de Carajás ele cometeu ali: “O que que eu estou fazendo aqui? Isso aqui não é minha praia. Meu negócio é produzir.” Mas passa. Depois que você acerta o primeiro chute, opa, começa a gostar de futebol, até você fazer a primeira embaixada, você acha uma porcaria. E então, pela estrutura lá, não tanto por culpa de meus colegas, porque eles certamente aprenderam nessa base também, e porque era uma turma pequena, não era turma muito grande, tinha que entrar, começar a fazer, chutar e vamos lá. Eu certamente hoje não faria… Se tivesse que mandar alguém na situação que eu fui, eu não faria como foi feito comigo. Acho que você tem que ir lá, ajudar. Aliás, a Vale mudou muito nesse aspecto, ela fez um programa que é o TCJ [?], em que você faz um treinamento de oito meses, portanto quando você chegar pra fazer o curso já tem base pra entender, pra… Então, deslancha muito melhor. Eles estão ficando mais europeus. Começando a ensinar. Vai ver que é por isso que nós estamos perdendo, a seleção (risos). Então, o caso da Vale acho que está funcionando bem e isso aí é uma política bem louvável. Agora, o maior problema que eu tive na área comercial é que você tem uma parte extremamente apaixonante e glamorosa, que é a parte da negociação, da discussão, da venda. E tem uma parte extremamente chata e frustrante, que é a parte da administração do contrato. Tem pessoas que tem o perfil… Depende muito da pessoa. Tem gente que adora só essa parte da negociação, da discussão, de adrenalina, de conseguir _____, e tem outros que parece que foram talhados, não imaginava que existisse, mas existe e eu não conhecia, que o que faz realmente o coração bater mais forte é uma carta de crédito que é redigida por eles. É um contrato com cláusulas alexandrinas mesmo, é o formalismo levado dentro da norma, é aquele sorriso de satisfação de ter conseguido colocar a cláusula dentro do lugar que ele queria. ______ um colega deles, mas eu senti que esse lado mais voltado pra administração acabou… Era muito forte. Era certamente ____. Na área comercial o primeiro choque que eu tive foi esse. Eu achei que ia ser tudo meu amigo, só naquele ambiente da negociação, da estratégia, e quando eu descobri na verdade que ali era um… Mais parecia um Itamaraty, com todo aquele formalismo, com todos aqueles contratos, acordos, isso, isso, isso. Já mandou a carta de crédito, não recebeu… Uma explicação que eu acho, pra essa ____ é também, primeiro porque quando você cuida de um papel, você dificilmente vai ser mandado embora. Vai ser muito bem protegido, principalmente se você for o único que sabe fazer uma carta de crédito bem feita. E segundo, porque a parte glamourosa, ninguém gosta de compartilhar. Naturalmente, ela acabou tendendo a se concentrar em uns indivíduos principalmente no escritório do exterior. E mesmo no escritório do exterior, também eram poucos indivíduos que realmente faziam a negociação. De modo que essa parte glamurosa todo mundo quer. Então, eu só senti isso nas posições que eu tinha. Ou você vai preparado psicologicamente pra trabalhar na linha de frente, negociação, etc. e a primeira coisa que, as primeiras atribuições que eu recebi, eram exatamente o oposto. Era sentar, se você precisa discutir com este cliente aqui, o problema desse navio, porque a rotina do ETA, não sei o que, ta, ta, ta. Eu quase caí duro, porque: “Pra fazer isso?” Quando bateu aquele clima de Natal de Carajás foi numa dessas reuniões. Você tem que ficar discutindo cláusula de contrato,_____: “Fui enganado. Me disseram que esse negócio era bacana. Fui enganado.” Felizmente, hoje a coisa lá deve ter mudado. Se não mudou, a própria Vaale vai fazer mudar rápido, porque a internet, os sistemas e a forma de fazer negócio está mudando radicalmente. Nessa área, felizmente, foi aberta a temporada de caça. Um comparativo pra esse tipo de atividade.

 

P/2 – A maior parte das pessoas que estavam na área comercial elas vinham da profissão, era uma corrente ou não. As pessoas que estavam lá já eram meio formadas nessa área comercial?

 

R – Você está que nem o Jô Soares. Você estudou antes. Você fez o dever de casa antes (risos). De uma maneira geral, as pessoas da área comercial, normalmente elas faziam a carreira… Elas começavam pelos rankings, digamos, mais burocráticos, a parte de programação de navios, nas cartas de crédito e daí elas iam gradativamente galgando os postos. Agamenon Mendes Pedreira, lá do Casseta e Planeta, falando da carreira ele falou assim: “Vim do nada, e fiel às minhas origens lá permaneci.” (risos). Então, muitos da área comercial foram assim. Vieram do nada e fiel às suas origens lá permaneceram. A grande maioria. Vários anos depois estão lá, discutindo. Eram especialistas totais em como arquivar isso aqui, fazer aquela carta consular, porque não, mas sei o que. Então, mais sempre tem _____, por exemplo o Eduardo Faria que hoje é o diretor._______ egresso da área de produção. O Checker, que foi da área operacional, foi também pegado da produção, mais da parte de estudos, mas por grande coincidência da parte de produção, talvez… O meu caso que também foi assim. O meu caso, aliás, mais… A diferença que eu tinha que, ao contrário do (Eduardo Duchequi?), eu tinha começado efetivamente.

Eu diria o seguinte: eu não sei se eu fiz a carreira que eu desenhei pra mim. Eu segui ativamente a carreira que _____, eu segui a carreira comercial que alguém com o meu background deveria ter. E então eu ia a reunião técnica, discutia com técnico. Ia pra matar saudades. 

 

P/1 – E na hora da negociação isso era...

 

R – Na hora da negociação isso era um fator importante. Pelo menos as negociações que eu participei e que eu me concentrei. Não é de uma maneira geral em muitos casos. Esse mesmo conservadorismo existe do lado de lá. As usinas siderúrgicas também são ______. Em algumas empresas, inclusive, os técnicos eram proibidos de participar de qualquer reunião. Proibidos de visitas. Nunca visitaram. Não é questão de orçamento, não. O sujeito até pagava a passagem. Determinação. Só que visita é o comprador. Só quem se relaciona com  aquela empresa é o comprador do momento. Que normalmente não era um técnico. Era só um sujeito. Ficava amarrado numa sala, chupando parafuso até virar prego. O cara negociava até a vírgula. Então, mas tinha assim várias empresas, a holding de empresas colombianas, que nós estávamos afastados dela desde 1982, 1983, foram desafios fazer as empresas colombianas retornar. E consegui. Boa parte foi assim, porque inclusive o vendedor daquela área, o comprador daquela área tinha um background também técnico. Tem uns casos. Na Alemanha, se você não for “herr professor, doktor” você não chega a lugar nenhum. A área técnica na Alemanha tem uma predominância muito grande em cima das demais áreas. Normalmente, nas negociações e discussões, a área técnica falou pra comprar aquilo, compra. Então, basicamente, nesses segmentos é o seguinte: “Nesses segmentos eu usei muito essa _______.” Agora, nem todas elas, se você me dissesse: “Então, o melhor para a área comercial tem que ser vindo da produção?” Não, necessariamente. É bom que seja. É bom que tenha uma passagem, mas não é obrigatório, não. Também não é como alguns dos meus colegas da produção, obviamente, de maneira desinteressada comentavam: “Pra ser da área comercial tem que ser da produção. Como é que eu vou vender um negócio que eu não conheço?” Naturalmente ajuda, mas não é forçosamente necessário. Mas foi um evento interessante. O Eduardo Faria que era o meu chefe lá, assumiu junto comigo e também foi lá substituir o que estava lá, me deu muita liberdade, muita chance. Aprendi a jogar bola do meu jeito. Foi, obviamente, sorte e sorte também de contar com Checker. Eles tinham marcado duas sessões. Uma de manhã pra você desopilar o fígado de tanto rir, onde ele contava suas histórias, e depois a parte séria, menos engraçada, em que ele começava a contar da carreira dele. Coisa mais séria. Ele foi uma pessoa com quem aprendi muito também. Uma pessoa fantástica, como profissional e como ser humano. Então, eu desenharia o perfil diferente de que, como aconteceu comigo, você vai fazer um profissional diferente que está começando, mas eu acho que no final acabou funcionando muito bem. Tanto que a gente conseguiu bom resultado na parte de vendas também.

 

P/1 – Você tem algum caso, alguma negociação que ficou marcada pra você, nesse período? Alguma história que era vivida nessas negociações?

 

R – Eu tive casos, logo no meu início, do formalismo do alemão que se chamava ______. Não me lembro agora dele, mas eu ia numa reunião e o Eduardo Faria ia comigo. Só que, eu fui lá com nosso gerente de mercado que era o _______. Então, nós chegamos pra reunião e o Eduardo não pôde ir. A gente estava lá, a mensagem é essa. Aí, quando eu cheguei na reunião estava tudo marcado. Quando ele soube que o Eduardo não estava, ele simplesmente mandou um recado pela secretária, que ele estava lá pra se reunir com o senhor Faria e não comigo. Eu tinha feito uma viagem do Rio, na véspera, porque pra ir pra (Saulinski?)  você vai pra (Ferranogam?), (Torri?), pega o carro, dirige não sei quantas horas. Aí, um dos amigos do (Depal?) que nos conhecia lá, para quebrar o galho nos convidou pra comer um salsichão ali num boteco da região. Esse foi um caso muito brasileiro, pra dar uma amostra, porque é claro que nem todos são dessa maneira. O que mostra que isso vai acabar. O mercado não tem mais espaço pra esse tipo de atitude. Mas mostrava que ainda essa época, a área do mercado era quase uma dinastia, um hierarquia. Quase uma confraria e o alemão, em particular, com um senso de hierarquia extremamente forte. Outros casos de negociação, uma vez com esse próprio holandês, o nosso amigo da Holanda que a gente estava vendendo material da chamado _________ pra ele, que era fundamental aquele mercado novamente, e em um certo momento a gente tinha o concorrente da venda desse minério. Impressionante como tudo o que a gente oferecia, ele oferecia um pouquinho abaixo. Aí eu descobri, acabei descobrindo, e esse próprio holandês me falou que quem estava vendendo o minério era o nosso  gerente que trabalhava conosco e chamava-se Ross Alexandre, que estava se aposentando, mas ainda trabalhava com a gente, e já tinha, antecipadamente, uma representação de uma outra mina no Brasil. Então, eu mantinha reuniões, negociavam, falavam, ia negociar, e quando chegava lá: “Ah, mas eu tive uma oferta um pouco melhor aqui.” Eu: “Como é que pode?” Forçamos: “Quem é? Quem é?” Aí ele falou: “É um amigo que trabalha com vocês, o Ross Alexandre.”  “Muito obrigado.” Aí, foi uma das reunião mais surrealista que eu tive em minha vida, porque o Ross Alexandre ia sair, ele falou que realmente estava fazendo e ficou por isso mesmo, porque eu não era o chefe dele. O chefe dele era o outro, o ______ que acabou saindo. E eu simplesmente não sabia o que fazer. E ficou por isso mesmo. O outro minério foi vendido, ou vendido ou pra ele negociar. Vendeu o outro minério, ele saiu da empresa, depois foi aposentado, e teve festa. Hoje é amigo, inclusive do pessoal dos antigos da Vale do Rio Doce Internacional, continuou amigo dele e tudo o mais. Dá a impressão nisso tudo, que de uma forma ou de outra, todos os envolvidos naquele episódio, com a minha exceção, não acharam que tinha alguma coisa errada com essa proteção. E até hoje eu paro pra pensar, de vez em quando eu lembro e: “Será que eu sou muito careta? O que foi que faltou que eu não entendi, que ninguém ficou chocado?” O pessoal ficou desconfortável um pouco, achando perfeitamente natural que ele já se aposentando começasse a defender os interesses dele. O que mostra realmente que a verdade que a indústria internacional, pelo menos no meu tempo até depois da vinda do Schettino, ela tinha na verdade, era um organismo totalmente, digamos, com vida própria. Com seu negócio próprio, com sua cultura própria. Isso me lembra muito final feliz. Eu tenho base nas conversações  _____, graças a Deus, mas nada assim… Na verdade, toda negociação, quando você ouve por cima, o aperto de mão, a champanhe que estoura do outro lado, ela acontece  depois normalmente, aquela reunião é muito parecida com… E nada tem de excepcional. O que tem de excepcional é que você gastou, às vezes, um ano, pra chegar naquele ponto. Então, na verdade, isso é nosso aprendizado, não existe  um negociação a la cowboy, como aparece nos filmes de Hollywood. Que você está com tudo perdido e de repente você faz uma frase, ou mostra alguma coisa, ou dá um declaração, ou ____ de gira rodas com você, e não sei o que acontece, que de repente a negociação pluft. Certamente, na Europa não é assim. Ninguém negocia e decide numa reunião. É um trabalho de conquista, de confiança, é um trabalho de vencer todos os pequenos obstáculos do dia a dia, das pedras que você tem, entender bem qual o seu espaço de negociação, entender a dinâmica, como as coisas acontecem. Não dá pra entender. Eu diria que as grandes negociações que me fizeram voltar pra cama, deitar e me sentir bem comigo mesmo, foi essa da _____, que depois desse episódio, seis meses depois nós conseguimos fechar o contrato, e uma com uma venda na Áustria, também outra venda, aquelas bolas perdidas. O bandeirinha de corner, 46 minutos do segundo tempo, o juiz contra, você chuta e faz gol olímpico (risos). Essa venda da Áustria, não chegou a esse ponto, mas era uma venda muito difícil, porque a gente tinha um problema sério de preço, de competitividade, de chegar no meio e nós conseguimos, com soluções extremamente criativas, nesse ponto argúcia brasileira, porque é um pouco improvisada. A gente improvisou, criou mecanismos que depois até acabaram sendo aplicados para outra iniciativa. Conseguimos fechar. Negociação longa, mas foi fechada. Foi tão boa, que vários anos depois, mesmo que eu já saí de lá, todo ano eu recebo um cartão de Natal do negociador, Mr. _____. Porque eles desenvolviam essa relação. Nós chegamos quase que virar amigos pra poder fazer negócio.Com o europeu é  muito difícil. ________ aqui no Brasil continua ______ com as ideias, todo mundo amigo, mas lá na terra dele… O cara chamar você de amigo, você sentir que ele confia em você, ainda mais você sendo “cucaracho”, é uma tarefa difícil. Então, eu diria que particularmente esses dois mercados, da Inglaterra, desculpem, da Áustria e da Holanda são vitórias pessoais e não dá pra dizer qual foi o evento, qual foi a noite, qual foi a estrela, foi o sujeito telefonar, pedir informação, você com uma vontade de omitir ou mentir, e pensar que: “Com esses caras eu não posso.” E falar a verdade. Todo mundo: “Não paga essa multa, não.” “Vamos pagar sim.” “Mas eles nunca pagam, nós não vamos pagar pra esse.” “Ele vai ver que vale, que o contrato não é de mentirinha. Quando a gente precisar cobrar um prêmio, por exemplo, ele vai pagar porque eu paguei a multa.” “Não vai pagar coisa nenhuma.” “Vai sim.” “Não vai pagar o primeiro. A gente vai pagar a segunda multa, aí não vai ter mais cara de negar o prêmio.” Então, era uma briga interna também, porque qual o  time que vai correr atrás da bola, fazendo corner… Não vai mesmo. Então, você começa a correr e o cara: “O cara correndo só porque chegou agora. Daqui a pouco ele vai acalmar.” Você vai, insiste, e mais tarde um vira, uma daquelas pessoas internas e fala: “Poxa, achei que não ia conseguir.” Eu diria que, não tem nenhuma negociação que em dois minutos dá pra contar pra vocês. Tem só esse resultado e as condições em que elas são feitas e vê que aquele ditado, que além de ser ditado passou a ser norma de vida, que: tudo aquilo que você faz com pureza de alma, não tem nada que derrube. Acaba dando certo. Você acredita no que você faz, tem muita coisa que vem derrubando, no final vai aparecer sempre alguém que na hora h vai te ajudar. As circunstâncias da vida. 

 

P/2 – E pra você administrar essa questão de ser de uma empresa brasileira, sul-americana, isso na Europa. Isso é um ponto a menos ou não, nessa negociação?

 

R – É um ponto a menos sim. É um ponto a menos. O europeu nunca faz você esquecer que você é estrangeiro. Na verdade, você acaba tendo que ficar um pouco europeu para poder criar esse vínculo. Você vê isso muito forte, por exemplo, na Inglaterra. A Inglaterra é… Não deve ser mera coincidência que em todos os lugares apenas o acaso o fato de que na Europa como um todo, você ter os principais fornecedores, entre eles o Brasil, como principal fornecedores em todos eles, seguido muitas vezes da Mauritânia, África do Sul... Na Inglaterra, não sei como é agora, que agora eles se juntaram como ___ Gomes. Principal fornecedor:  (DHP?), Austrália. Segundo principal: _____ Austrália. Terceiro: ______, Austrália. Quarto: ____, África do Sul. Quinto: ____, Canadá. Sexto: _____, Canadá. Sétimo: Brasil. Você observa para cima é: Canadá, África do Sul, Austrália, todos países da (Comum Euro?). E então eu tenho certeza que eles não estão comprando por um preço ______. É possível que eles façam um acordo  especial, mas com tanta gente pra eles fazerem acordo especial, por que eles fizeram logo com os ingleses? Se você conhece o pessoal lá, eles dizem logo: “Australiano?” Tudo bem que tem um sotaque diferente, mas é o mesmo inglês. Essa diferença cultural faz diferença até na hora do sujeito fechar um acordo. Eu ficava com a impressão, talvez seja complexo de _______, que eu negociava, negociava, é brasileiro lá. Vou fechar por tanto. Eu quero fazer com você mesmo. Claro que eu estou exagerando um pouco aqui, mas que tem, tem. Tem evidência que vem demonstrar que chega a esse ponto. Não que isso atrapalhe, mas isso limita. Você no papel de… Uma coisa interessante. Porque a gente conseguiu fazer a associação, joint ventures, por exemplo na área de _____. Foi só com “cucarachas”. Ou “cucarachas” honorários, que são os mediterrâneos: italiano, espanhol. Os asiáticos sofrem, são companheiros discriminados como nós somos. Então, tem toda uma cobrança. Então, em todas as _____ é com japonês. A única  joint venture que nós temos com australiano, foi um casamento, digamos acidental, foi a compra, compramos a firma Samarco. E já estavam lá. Só não começamos juntos. Então, tem essa questão cultural, sim. Você não sente no dia a dia, mas sempre fica com a impressão que se ele puder ter a opção de escolher, também isso mudou, na época que eu estava lá também tinha mudado, ______ intensa, a sensação de que como fornecedor de minério ele te aceita, mas como sócio, ou como parte mais séria em outras coisas, você não estudou na escola dele, você não tem o mesmo senso de humor que ele tem... Então, faz diferença. 

 

P/2 – Você ficou na área comercial lá em Bruxelas até quando?

 

R – Até 1997. Aí fui convidado pelo Mozart, que tinha assumido a direção executiva da área de minério da Vale, e fui trabalhar na pelotização e na área de altos negócios. Na verdade, acabei trabalhando muito mais na área de altos negócios. Novos projetos, projetos de ______, tentativa de desenvolvimento de projetos de produção de semi acabados. Pra sair um pouco da área só de minérios para produtos mais elaborados. E placas, ______. Na verdade, com o desenvolvimento da indústria hoje, a siderurgia, ela compra o minério, a matéria prima, produz o aço e do aço depois produz a placa. Só que produzir o aço está cada vez mais caro e em escala pequena não se recomenda. Mas a grande maioria das empresas siderúrgicas não tem mercado muito competitivo. Nos Estados Unidos, a maior parte dos fornos, são fornos antigos, da década de 1940, 1950. Não são econômicos. Então, o custo de produção começa a cair e começa a subir muito. E tem o problema também ambiental. Na década de 1960, 1970, a ______, na Alemanha, a cidade de Düsseldorf, onde fica a usina, era uma cortina de fumaça deste tamanho. Poeira. Hoje, certamente, não há o menor espaço na Europa, onde você tem uma cortina de fumaça perto da cidade. Nem longe da cidade, quem dirá perto. Então, a pressão ambiental é muito grande e a tendência é que as usinas, ao invés de comprarem minério, comecem a comprar o material semi elaborado que já é a placa de aço. É só fazer a laminação e transformar em chapa, que na verdade é o produto _____. Então, o envolvimento, desde que eu voltei e conversei com o Mozart, eu e o Mozart partindo da mesma estratégia, é a gente tentar entrar… A Vale parar um pouco. Começar a migrar uma parte da produção dela de minério e produzir esse semi acabado, que é indústria. A gente produz aqui no Brasil em fornos maiores, com melhor controle, o que compensa você ______ ambientalmente. Isso significa fazer a parte suja do ______, mas você fazer esses projetos em larga escala que sai mais barato, sairia mais barato que comprar o produto semi-acabado do que aquele que ele fabricava antes. Esses são os principais tipos de projeto em que eu trabalhei no retorno. E, em março de 2000, na época o Benjamin, que era o presidente do Conselho, junto com o Mozart e com o ______, começaram a discutir o grande assunto da época: internet. Todo mundo fazendo iniciativas na internet e o caso de um sujeito que mandou um zip pra Portugal, pela Telecom, por 365 milhões de dólares, num negócio em que ele investiu menos de 150 mil reais, histórias de fortunas. Serra Pelada visando o novo século com a internet. Todo mundo com iniciativa, toda empresa que tinha _____ com valorização da bolsa dela quase imediata, quem tem, quem não tem. Tem o caso de um cara lá no Texas que vendia peixe, que era a Fish não sei das quantas, tem o nome de peixe no nome da empresa. E aí botou um “.com”. O valor dela dobrou na bolsa (risos). E o pessoal não tinha…

 

(Pausa)

 

R – Esse cara não entendeu que, ao colocar o “.com”, ele tinha, ele estava em vias de implantar uma estratégia com a internet. E se abre a internet, certamente ia ser _____. Só não disse qual era, mas estava todo mundo monitorando “.com”: “Olha, ‘.com’ aqui.” Pá. Claro que isso não dura pra sempre. Dura algumas semanas a troco de vários otários perderem seu dinheiro e vários espertinhos que ganharam, mas de qualquer forma acendeu o interesse e estava todo mundo se movimentando, se posicionado. Nova economia. Aí o consultor de banco de investimentos, o sócio ___ e o Benjamim farejou o fato e falou: “Vamos fazer a mesma coisa.” E aí, acho que eu entrei na sala pra pedir um sanduíche de presunto, abri a porta e ele: “Você.” (risos). Aí, eu entrei pra dar palpite e saí com a missão de fazer um grupo de trabalho para discutir a área de internet. Em parte também porque eu estava a novos negócios: “Deve ser esse cara aí.” E eu fiz um grupo, eu e mais um, eu junto com o  Flávio ______, que era da área de logísticas, e mais tarde visitamos Ricardo (Carson?), que era um colega nosso da Vale, saiu pra trabalhar no ______, produtos Kibon, na área de tecnologia. E começamos a analisar a internet. Nossa ideia era: “Bom, vamos fazer como o cara da peixaria. Vamos botar um ‘.com’ e ver o que acontece.” Foi quando eu descobri essa história. Então, começamos a ouvir os consultores, ouvir o que eles tinham a dizer e… 

 

P/1 – Ouviu os consultores na área de que?

 

R – Na área de... Bom, consultor, normalmente, é consultor de qualquer coisa. Até de moda se você quiser. Tinha uma empresa lá, Anderson Consult,   __________________, conversamos com __________, conversamos com o banco de investimentos, Bankboston, ______, ______, e começamos a pegar material. Fizemos um retiro espiritual ______, discussão, debates. Quase um ano sabático aí. Então, eu vim pra São Paulo, onde tinha a maior parte da ação acontecendo e também porque ficava longe da corte, e dedicar só à missão. O Benjamin lá e a diretoria deu a missão: até quinze de maio a gente tinha que trazer uma proposta fechada, completa de iniciativa de internet. Era março, final de março, um mês e meio pra fazer. Aí nós fizemos. Viemos pra cá, montamos um aparelho ali no Robocop, ali nas Nações Unidas, e cercado de todo segredo, com uma rejeição cavalar da empresa, porque todo mundo falou : “Como sumiram? Foram pra São Paulo, diz que era um projeto de internet, não sei o que. Diz que vai valer mais do que a Vale do Rio Doce. Esse é um inimigo.” Então, não podia falar. Ordem do próprio Benjamin. Me reportava diretamente a ele e ao Jorge. E aí… 

 

P/1 – Uma pergunta. Esse grupo de estudos, a leitura, a formação de vocês era técnica, era ligada a pensadores dessa nova tecnologia?

 

R – Você está falando da fonte a qual iríamos?

 

P/1 – Exatamente.

 

R – Foi de tudo um pouco. Na verdade, muita teoria, porque hoje já não tem muita coisa e em março do ano passado tinha muito menos. Só tinha história de sucesso, porque não tinha dado tempo de dar o fracasso. Tinha um cara que estava no 20º andar, nós estávamos no 12º. Até aqui, tudo bem. Batia um ventinho na cara, ainda. Então, estávamos começando com o pessoal com o ventinho na cara. É o que eles podiam. Está ótimo. Primeiro porque pula que é legal. A grande diferença, que nos ajudou a fazer um negócio consistente, primeiro porque nós víamos o grande cacoete da indústria no mundo real. Tanto eu como o Flávio somos pessoas com vários anos de profissão, eu sou engenheiro metalúrgico, trabalhei na produção, como eu falei pra vocês, e a gente tinha uma necessidade seguinte: Se a Vale vai entrar nisso, qual a diferença que a Vale tem, o que faz ela realmente diferente de um banco de investimentos? Não posso sair investindo em coisas que qualquer um outro… Eu não sou o mais recomendado para agir. Se você está na área de jornalismo, se você vai fazer alguma iniciativa, você não vai abrir um negócio de culinária. Só pelo que você conhece, você tem ir naquilo que tem a ver com você, como a Abril. Negócio de conteúdo na empresa de comunicação, não sei. Mas não pode entrar no ramo que não tenha a ver. E a gente está vendo muitas empresas montando áreas de investimento para investir em qualquer negócio da internet. Depois dessas leituras e debates, estávamos quase todos antagônicos: vai por aqui, vai por aqui, vai por aqui, nós pegamos um consenso. No final de cada reunião, a gente parava, eu e o Flávio depois de brigar, nós fazíamos um debate interno: O que faz sentido? O que não faz sentido? E o Flávio é bom, porque o Flávio é um cara extremamente crítico. Ele vende azul, você fala que você quer azul, ele vai falar: “Mas azul? Eu não sei se é azul, por que azul?” Aquele cara que vai pega e tal. Então, a gente conseguiu fechar uma ideia. De que se é pra gente se meter a foguete nesse negócio de internet, que seja pelo menos com alguma coisa que sentimos que possa fazer diferença. Então, definimos. Só vamos investir em iniciativas que tenham a ver com mineração, com logística, com coisa em que, o fato da Vale estar presente, faça diferença. Isso eu acho que foi o grande diferencial. A gente conseguiu sair um pouco do “oba oba”. Só pra dar um exemplo de uma empresa que a nosso ver, não por culpa dela porque muita gente entrou nesse caminho, a empresa mexicana chamada Cemex, Cemento de México, que a é a terceira maior cimenteira mundial. Ela criou uma empresa que fazia investimentos em iniciativas de internet em geral. Criou, colocou lá 20 milhões de dólares._______________.

Então, no caso da Vale, ela nunca quis investir em site de CD, de música. Nosso negócio era investir em site de mineração. Então entramos no (Fabri?), que é uma iniciativa de mineração junto com outras 22 minerações mundiais. Site logística, site agrícola… Por quê? Porque a Vale tem uma grande logística na parte agrícola. Então, essa foi a principal consequência desse nosso período de bunker. O melhor de tudo é que vale até hoje. Mesmo quando você olha pra trás, vê que realmente, que o fato de ter parado pra pensar impediu que nós fizéssemos uma grande emporcalhada. O mais interessante é que quando nós apresentamos isso pro Benjamin, ele disse que não era nada disso que ele queria. Ele queria alguma coisa pra lançar na bolsa. Acabamos convencendo ele, porque nós fizemos um grande show, começamos a conversar com vários representantes das pessoas, e aí ele acabou vendo que a reação que as pessoas tinham era mais positivas: “Pera aí com tanta iniciativa. Tem aí um cara da Zipnet.” Pa, pa, pa. É assim que a gente tem que entrar. Explicava. E, voltando ao multishow, quando a gente apresentava o modelo, o pessoal reagia: “Ah, não. Faz sentido.” Até hoje, está correndo muita coisa no nosso pensamento, já adaptamos muita coisa, mas eu diria que escapamos de uma grande enrascada, porque se não se tivesse feito esse grupo, eu diria que… Aí eu não digo que foi por minha causa ou por causa de tal, se não tivesse parado pra pensar, qualquer que fossem as pessoas, mas que não chegassem a ser esclarecidas, nós teríamos corrido um risco. Existia um movimento muito grande na empresa, de se fazer alguma coisa de qualquer jeito. E justamente ter perdido a oportunidade, teríamos nos queimado com relação a internet, perdido dinheiro e pior do que isso, a empresa teria que meio que descartado a internet como uma coisa que valesse a pena. Sem falar em dinheiro. A nossa visão de mundo como ele é hoje, o modo de fazer negócio vai estar muito diferente daqui a cinco anos por causa da internet. É certamente não. Parece que eu estou fazendo isso que vocês estavam querendo ouvir.

 

(Vozes sobrepostas)

 

P/1  – Curiosidade minha: Por que que vai mudar os negócio daqui a cinco anos? Como a internet vai influir?

 

R – Para os americanos, porque tem dinheiro na mesa. Toda vez que tem dinheiro, a economia se volta para aquele lugar. Algumas razões: hoje as empresas, várias empresas já estão conseguindo trabalhar com o seguinte paradigma: do total da mão de obra que elas têm, menos de 5% dela deve está ocupada em tarefas administrativas. A média hoje deve estar acima de trinta. Um pouquinho mais. Agora está sendo 25. Número dois: quando isso acontece, significa que a empresa como ela é hoje, ela foi montada, a geografia da empresa é definida pela capacidade que ela tem de alcançar. A árvore é parada porque ela não tem pernas. Se tivesse pernas estava obviamente em tudo que é lado. A empresa não é diferente do que ela é, porque ela não pode crescer mais do que os limites de risco que ela tem. Vou dar um exemplo mais concreto. Hoje, por exemplo, uma empresa como a Vale, ela faz uma série de coisas dentro dela, porque não compensa ela fazer em outro lugar. Ela tem uma área de Recursos Humanos, uma folha de pagamento, por exemplo, porque os mecanismos hoje de computação e sistemas de informação, fazem com que a nível de confiabilidade que ela tem que ter ,ela tem que ela mesma fazer a folha de pagamento dela. Vamos supor que amanhã você tenha… Aliás, já existe. Vamos supor que com o tempo o nível de confiabilidade de se fazer uma folha de pagamento que é um negócio de risco para qualquer empresa, fique tão, digamos, bem resolvido, que a empresa decida que não vai fazer mais a folha de pagamento. Vai contratar uma empresa externa para fazer. Isso tem um impacto profundo, porque a folha de pagamento, segue-se a contabilidade, segue-se uma série de coisas. Tem empresas, como a British Petroleum, não tem mais a área administrativa. Terceirizou inteiramente para Price Waterhouse. Não tem mais contador, não tem mais ______, nada disso. Hoje, por exemplo a Vale tem a sua própria área de mineração, a sua própria frota de caminhões, a sua própria frota de escavadeiras.  E se ela pudesse simplesmente contratar no mercado isso? Ela não precisaria ter escavadeira nem caminhão. E tem por ai grandes empreiteiras que também tem caminhão, escavadeiras etc. e também fazem obras barragens ______. Não tem. A mina é obra de terraplenagem. Então, o que diferencia a Vale então? Uma empresa como a Vale? É porque ela faz a folha de pagamento melhor do que outras empresas? Porque a gente opera caminhão melhor que outras empresas? Não. A grande diferença da Vale é em duas coisas: qualidade das reservas, porque isso ninguém mais tem. Só quem tem na verdade somos nós. E segundo é a capacidade de marketing e um nome e uma reputação no mercado. O resto inteirinho, não é competência básica da empresa. E está cheio de empresas que já chegou nesse estágio. Por exemplo, a empresa que fabrica Nike, companhia  de tênis ______ entre nós. De forma que o tênis que a Nike fez, foi desenhado por um cara da Nike ______, provavelmente, foi pelo escritório que ele contratou. E vai chegar na prateleira da loja sem que ninguém da Nike tenha botado a mão nele. Ele vai ser mandado, o desenho, pra fábrica em Hong Kong. Vai ter uma empresa da (VHS?) que vai pegar aquele material, vai mandar não sei pra onde, vai mandar para o cadastro, que é uma terceira empresa. Tudo é feito, anotado e colocado na loja sem que a Nike gaste, invista numa máquina de coser. Nada. Bola aqui no computador. Outra empresa que faz isso: A Dell que faz computadores… É só entrar na internet, monta o seu computador, aperta o “enter” e a partir daí, uma série de ordens são mandadas pra produtores do mundo inteiro, que só tem contrato com a Dell, que monta e manda pra sua casa. A Dell nem sabe, nem viu a cara do seu computador. Ou seja, esse movimento que acontece com Dell, como a Nike, já está acontecendo com a HP [Hewlett-Packard]. A HP, por exemplo, não fabrica mais impressoras.Ela vende impressoras só. Quem fabrica a impressora dela é uma empresa chamada (Setronic?) de Singapura, que fornece pra IBM [International Business Machines Corporation], pra Hypex, HP. Então, na mesma fábrica que produz a HP, ao lado está produzindo para concorrente da IBM, a (Exmmó?). Essas empresas se dedicam a fabricar só equipamento, eles recebem o projeto, qualquer que seja… Se você quiser fazer uma impressora, desenhar os circuitos, ela mesma faz pra você. E também tem uma fábrica com controle de qualidade. Então, essa comunitização, essa padronização de processo, faz com que… A  Internet acaba fazendo. Vai permitir em uma escala muito maior que você consiga fazer isso e de uma forma eficiente. Hoje, só não acontece mais, porque os sistemas de informação são deficientes, não tem confiabilidade. A nossa visão é que a internet vai permitir que essas empresas que fabricam o que produzem possam começar a se comunicar, ao ponto eventualmente de… Por exemplo, hoje as montadoras de automóveis são isso. São montadoras. Elas não fabricam quase nada. Só fabricam algumas coisas  consideradas _____. Daqui a pouco, nem isso. Daqui a pouco, você vai desenhar, qualquer um aqui pode desenhar um carro com a cara dele e vai ter uma empresa que sabe fazer o chassis, outra que sabe fazer aquilo… E vai ter uma outra empresa especializada só em montar pra você. Então, até as montadoras de automóveis no futuro, vão deixar de existir. Então, essa transformação, a Vale vai chegar num momento, isso é tendência da sociedade como um todo, vai permitir que a Vale produza minério, exclusivamente. A reserva de mercado. E no meio aqui, ela vai usar a internet, é um elo, para conectar todo os seus fornecedores, produtores, e produzir como se ela estivesse fazendo isso. No final, o que vai realmente passar a ter valor, são atividades como essas, atividades, como por exemplo expert in, conhecimento. Uma fora ___ não pertence a ____ de vocês. E, no entanto, impede você de fazer um trabalho. Eu estava discutindo ontem com um amigo meu, que é de uma gravadora. Eu falei pra ele: “Olha, gravadora vai acabar. Vai embora desse trabalho.” Por que? Hoje você contrata o estúdio, contrata a fabricação, prensagem, marketing. Não tem nada no mundo da música que você não contrate. A única coisa que você não contrata é o talento pra descobrir o artista e investir na carreira dele. Mas isso não precisa de gravadora pra fazer. Daqui a pouco empresas pequenas e até indivíduos podem começar a fazer. Daqui a pouco o próprio artista pode começar a fazer.

 

P/1 – Já faz no jornal?

 

R – Já faz, mas numa escala muito pequena, principalmente jornal. Sem se associar com alguém que sabe operar efetivamente, ele pode começar a fazer ele mesmo, e começar a pegar de outras pessoas. Até falei pra esse meu amigo, pra ele começar a pensar. É muito pra descobrir talento. Então, se organizar pra  começar a usar essa nova estrutura comercial e industrial a favor dele. Voltando ao que eu estava te falando no começo. Isso é verdade. A Dell… Mas sabe o que acontece? É que em minério de ferro é muito diferente. Nossa indústria é muito diferente. A Vale é muito diferente. Espero que esse trabalho da “Vale.com” que a gente está fazendo nos deixe preparados pra quando o pessoal descobrir que ___________. Calma eu sei que não é. Vem aqui. Está pronto.

 

P/2 – Então, vamos falar da parte pessoal. Como é o seu cotidiano atual hoje? Como é que é o seu dia a dia? Tanto profissional, como também em casa, lá no Leme. Como é o seu dia a dia?

 

R – A volta do Rio. Estou voltando... Eu sou , como eu falei, não tem como negar as minhas raízes, porque eu sou essencialmente urbano. Eu gosto de tudo especialmente urbano. Adoro livraria, principalmente livraria que tem cofee shop, tipo  ______. Expressões ou aquela outra, argumento. Gosto muito de teatro. A minha mulher está me introduzindo no mundo da arquitetura e decoração, e é claro que juntamente com isso está me introduzindo no mundo dos empréstimos e bancarrotas bancárias, que eu estou gostando menos, mas, a gente comprou um apartamento no Leblon, reformamos o apartamento… Ela reformou o apartamento. Então, está sendo bom porque eu estou também aprendendo esse lado de curtir, ter uma casa bonita demais. E a gente está partilhando principalmente interesse da parte da gastronomia, não no sentido executor, no sentido consumidor, então a minha vida é bem típica de… Urbana. O ambiente que eu mais gosto é esse. Continuo gostando. Cinema, ainda mais agora que eu estou conseguindo entender mais os filmes que antigamente. Hábito de leitura está muito difícil, não estou tendo muito tempo pra ler, mas está sendo muito voltado ao trabalho. Eu diria que o lazer é bom, importante pra distrair, mas o meu principal lazer hoje é trabalhar. E é o que eu estou fazendo. Eu vou pra trabalhar, graças a Deus, nem sempre foi assim, hoje está sendo, com vontade de chegar e fazer, já pensando nas coisas que eu tenho que fazer.

 

P/2 – Você entra muito na “net”? 

 

R – Até que não entro muito, não. Eu entro muito, digamos na net, na parte especializada, mas não… Sabe o que é interessante? Durante praticamente a minha vida inteira na Vale, eu fiquei muito concentrado em mineração, mercado, especialmente minério de ferro, minério, minério, minério. E tudo era um pouco meio adjutório, como diria  o _____ Paraguassú. Quando foi a “Vale.com” e a gente passou a abrir todo um espaço novo de oportunidade, por exemplo na área de logística, só a nossa mobilidade logística, praticamente tudo tem a ver com logística. Então, nós começamos a entrar pesado em vários outros segmentos de indústrias, que nunca tinham visto em detalhe. A própria logística não entrava em detalhe. O meu dia praticamente hoje é discutir oportunidades, tem uma porção de iniciativas de investimentos, uma na área de petroquímica, outra na área de logística, compras, agrícola. Outra na parte de informações geográficas e imagens fotográficas de satélites. E o mais interessante disso tudo é a gente ver o muito de oportunidades que essa iniciativa, essa tecnologia abre. Então, a gente está sempre num desafio, porque tem que fazer isso do lado de lá e o desafio de conseguir fazer ganhar dinheiro. De buscar parceiros, de vender projetos ao mesmo tempo em que você está abrindo mais horizontes a medida que você faz isso, não vai dar realmente pra descrever. Mas é algo que eu nunca tinha experimentado antes em termos de trabalho… Trabalhar sem ter que ficar preocupado com o preço do minério de ferro, ou se a mina está produzindo ou não está produzindo, é algo realmente libertador. Não que a parte de minério da Vale me fascine. Não me fascina. Certamente eu continuo muito ligado, ontem eu estava lá participando, a convite do seminário estratégico de minério de ferro, e participei com todo afinco e tudo o mais. Agora, a experiência da “Vale.com”, deu pra notar que a Vale tem um espaço muito maior pra ocupar, do que ela ocupou até hoje. O peso que ela ganhou, e tudo o que ela acumulou até hoje, deu a ela uma musculatura e uma capacidade de alavancagem na indústria brasileira, na economia brasileira, muito pouco utilizada. Não digo que a culpa seja dos executivos da Vale, porque você tem que sair pro lado de cá pra ver isso. Eu penso muito, mesmo no meu lazer, mesmo quando eu estou lá tomando o meu café e meu cappuccino no café Baldo, quando eu estou aí passando numa exposição, vendo alguma peça, diversas vezes eu paro e me vejo pensando… Ou ouço alguma coisa que dá um click e eu já começo a ligar e pensar. Isso é uma coisa que me aconteceu ontem. Estava no maior lazer, dizem pra começar a ficar preocupado quando o trabalho começa dar prazer e o prazer começa a dar trabalho. Por enquanto, os dois só dão prazer (risos). Então, está sendo um período muito bom. Eu estou só esperando, como dizem os americanos, fico só esperando pra ver quando é que o outro sapato vai cair. Mas está sendo muito bom. Se um dia eu fizer um outro depoimento no Museu da Pessoa, daqui a três anos… Eu gostaria de ver esse meu depoimento ____ que eu vou fazer daqui a três anos. Só pra saber se realmente era tudo mentirinha ou eu estava enganado e não sabia.

 

P/2 – Vou fazer uma última pergunta. O que você acha do projeto Vale Memória e o que você achou de ter prestado esse depoimento?

 

R – Eu achei que vocês iam morrer de tédio (risos). Me lembra a história do Checker, que vocês vão entrevistar. Ele contava de uma rádio que tinha lá em Ibatiba. Essa rádio tinha tão pouca audiência, mas tão pouca audiência, que quando o locutor anunciava uma música, falava assim, quando acabava de tocar a música, ele falava assim: “Ouvi agora de Ray Conniff.”, (risos)... “Ouvirei agora.” (risos). Então, eu tenho a impressão que eu e o de Ibatiba estamos aí pra um tour de force. Mas, tirando isso, eu acho que o principal valor desse trabalho é você resgatar o lado humano, e quando resgatar dão um sentido, dependendo da palavra, porque as pessoas ao participar do projeto, elas mesmo passam a se lembrar disso. Eu tinha feito o meu primeiro depoimento, agradecido aqui e agora e a sensação que eu tive nos dois casos foi muito parecida. Falar de si é uma excelente maneira de você parar e pensar também. O testemunho que eu tive de pessoas, volto a dizer, não tenho tido oportunidade de acessar o material por várias razões. Mas essa iniciativa _____ das pessoas, os comentários que as pessoas têm feito sobre o projeto, são realmente os mais elogiosos possíveis. Eu acredito que, a minha imaginação já começa a delirar pra imaginar o que esse material pode se tornar como fonte do futuro. Acho que vai ser muito pouco pra todo saudosismo, talvez até pra alguma pesquisa, algum tipo de estudo mais profundo. Eu diria que, talvez a principal expectativa que eu tenho desse projeto é: número um: fazer muito bem a alma das pessoas da Vale. As pessoas que vem aqui e o fato delas terem sido lembradas pra dar depoimento faz muito bem a elas e certamente dá uma, mais do que qualquer sentimento de cultura da empresa, uma sensação de que… Como aconteceu comigo. E, número dois, eu acho que esse material… Dá a impressão de como é que esse material pode ser efetivamente arranjado. Pra não ser só esse negócio de saudosismo: “Olha lá como era _____. Tinha cabelo ainda.” _____ como é que você… E aí eu devolvo a pergunta pra você: nas empresas que vocês trabalharam e fizeram esse projeto, que tipo de subproduto, além dessa sensação de bem estar, e de congregação, de conhecimento que as pessoas da empresa tem, todo esse material coletado, o que ele consegue gerar de subproduto tradicional? Pra que você possa certamente estar muito melhor personagem pra próxima ____. O que você acha? (risos). No próximo capítulo… Depois dos intervalos… Vamos ver a resposta. Lucas Mendes da rádio ______.

 

P/1 – Muito obrigada, Ricardo.

 

R – Obrigado a vocês.





--- FIM DA ENTREVISTA ---

 

Dúvidas

Lando Valverde

Bicho

Turco

Marconi

Bebediturco

Eduardo Duchequi

Saulinski

Ferranogam

Torri

Depal

DHP

Comum Euro

Carson

Fabri

VHS

Setronic

Exmmó



 

 


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