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História de: Luciana Sandroni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/09/2008

Sinopse

Luciana Sandroni gostava de literatura desde a infância, com as histórias que sua mãe contava antes de dormir, além de sua avó Jujuca, que inventava histórias em que envolvia a família toda. Mesmo assim, não imaginava se tornar uma escritora infantojuvenil. Nesta entrevista, ela nos conta como chegou ao primeiro livro e como se dá sua relação com os leitores.  

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História completa

 

P/1 – Bom, Luciana, para começar eu queria que você falasse seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – O meu nome completo é Luciana Sandroni. Eu nasci no Rio de Janeiro, no dia nove de setembro de 1962.

 

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

 

R – O meu pai se chama Cícero Sandroni e a minha mãe, Laura Sandroni.

 

P/1 – Conta um pouquinho qual é a história deles. Como eles se conheceram?

 

R – Meu pai nasceu em São Paulo. O meu avô tinha um emprego, ele teve que sair de São Paulo e morar no Rio um tempo, aí meu pai veio para o Rio com doze anos e conheceu a minha mãe no movimento estudantil, movimento católico; existia um jornal católico no Rio e aí eles se conheceram, nesse tempo de estudante. Meu pai começou a trabalhar com jornal, ele é jornalista, começou a fazer reportagens. E eles se casaram quando tinham uns 22, 23 anos. Se conheceram assim.

 

P/1 – E seus avós?

 

R – Meus avós, os pais do meu pai voltaram pra São Paulo. E aí só o meu pai e o meu tio, Fernando Sandroni, ficaram no Rio. Meus avós maternos... O meu avô é do Ceará e veio para o Rio com dezoito anos, e a minha avó materna é do Rio.  

 

P/1 – Tem irmãos, irmãs?

 

R – Eu tenho quatro irmãos, nós somos cinco. Tenho dois irmãos, o Carlos é o mais velho, o Carlos Sandroni, a Clara depois e depois o Eduardo, eu e a minha irmã mais nova, a Paula.

 

P/1 – Fala pra gente um pouquinho do seu ambiente familiar na infância, como era a sua casa? Onde você morava? As imagens, as lembranças que você tem da rua, da região, a relação com os irmãos...

 

R – Nasci no Leme, do lado de Copacabana, que é um bairro muito movimentado, mas Leme é um cantinho tranquilo; na época, era muito tranquilo. Nasci na praia, foi uma infância em uma rua muito solta; me lembro muito de brincar na rua, porque o Leme é um bairro de ponta, realmente é um cantinho muito tranquilo, até hoje. Lembro de brincar de dia de São Cosme e Damião, procurar doce.

[Era] meio que uma cidadezinha do interior, por incrível que pareça, no Rio. Lembro que o calçadão ainda não tinha sido feito, porque a praia ia mais perto dos prédios, aí fizeram o calçadão, lembro dessa obra. Lembro do ano novo não ser essa multidão. O ano novo era só candomblé na praia, hoje é uma coisa de dois milhões de pessoas.

O Leme foi realmente um bairro muito marcante. Eu morava na Rua General Ribeiro da Costa, então tinha a Igreja e, do lado, o colégio. Eu ia para o colégio muito cedo, sozinha, porque tudo [era] muito pertinho. A gente teve formação católica, então a gente ia à igreja de domingo, mas eu lembro muito mais da pizza depois da Igreja, porque existia uma lanchonete lá chamada Gatão. Nós íamos depois da Igreja comprar pizza, levar a pizza, naquele tempo que a pizza era amarradinha toda num papel, não era nessas caixas de hoje. E tomar coca-cola, a coca cola era só nos fins de semana, então tinha essa festa de pizza com coca-cola. Como na casa eram muitos irmãos, então essa coisa da comida era muito animada. Todo mundo, era um domingão gostoso, com a família.

Lá do Leme o que eu me lembro mais? Lembro-me de ter alguns problemas de colégio, de não gostar muito do colégio e de fugir da aula. Eu me lembro de uma vez não ter ido para o colégio e ter ido pra praia, mas não exatamente para o mar. Eu fiquei andando porque eu estava com a minha malinha - antigamente era a mala que tinha -, e eu lembro de conversar com uma pessoa e contar muitas mentiras ao meu respeito. Eu gostava muito do Bolinha e da Luluzinha, e tinha uma história no Bolinha e na Luluzinha que a Luluzinha conhecia uma amiga que morava num trailer. Então eu contei isso para o moço, que eu morava num trailer, dizia um monte de coisas malucas. Não contei para os meus pais que eu não fui pra aula, mas acho que eu só fiz uma vez só.

No colégio, eu me lembro de ter um negro só na sala. E eu me lembro dele ser pobre, eu me lembro dele. Lembro de uma vez que no colégio, a professora disse pra cada um corrigir o colega. Então, ele escreveu a palavra caju e não botou o ponto no “j”, eu não dei isso como erro e a professora disse que era erro, mas eu fiquei achando que aquilo era preconceito da professora, porque se fosse o branquinho do lado ela não ia falar nada. Lembro dessas coisas.

O que mais? Lembro que meu pai chegava muito tarde, ele trabalhava no jornal. Nessa época, ele trabalhava na Manchete, eu acho, na revista Manchete. Então, eu lembro mais da presença da minha mãe. A minha mãe começou a trabalhar, acho que quando eu fui para o colégio, só. Ela ficava mais com a gente até uns seis anos, só com seis anos que eu fui pra escola.

A gente tinha brincadeiras ótimas. A gente morava num prédio… Não é um condomínio, mas um prédio com dois blocos, então tinha muitos amigos, muitas brincadeiras no prédio. Era um prédio que tinha um corredor imenso e corredores, escadas... A gente brincava na rua, mas também no corredor. Lembro de uma amiga que viajava mais para os Estados Unidos, ela trazia mais brinquedos diferentes, bonecas que falavam, essas coisas assim. A Maura, lembro dela. E de amigo, a gente tinha o Mark, que era um super amigão e que eu gostava dele, só que eu era muito gorda. Essa coisa de dizer que brincava na rua, eu brincava... Via os outros brincando, porque eu era bem gordinha; a minha irmã, a Clara, super magrinha, o meu irmão Dudu, também, e eu e o Carlos, os mais velhos, éramos os mais lentos, tudo era mais difícil. Lembro-me que a gente sofria um pouco mais, tinha certo preconceito com essa coisa de ser gordo, ser mais lento. As crianças não perdoam. Mas eu me lembro muito de aprender a andar de bicicleta no calçadão. Lembro que foi uma emoção muito grande, de tirar a rodinha e de andar livre. A bicicleta era um brinquedo, uma coisa assim… Aprender a andar de bicicleta foi muito legal.

 

P/1 – Você falando que quando faltou à aula, você contou a história, você lembrou do que você lia, então já sugere uma pessoa que gosta de criar, de fantasiar. E me ocorre aqui te perguntar: como as histórias entraram na sua vida? Seus pais contavam histórias pra você? Liam? Como foi o seu contato com a literatura, esse contato inicial?

 

R – Eu lembro da minha mãe contando história pra gente. A gente teve uma infância muito mágica, muito bacana, porque o meu avô tinha uma ilha, quer dizer, tinha um terreno aqui em Itacuruçá, pertinho daqui. E a gente passava as férias de verão nessa ilha. Antigamente eram três meses de férias, de dezembro a março, sei lá... A gente devia ir de janeiro a fevereiro ficar nessa ilha.

Não tinha televisão. É claro que a gente gostava de brincar, de jogar monopólio, jogar baralho e tudo, mas à noite era um ritual: todo mundo ia para o quarto das meninas e a minha mãe contava Monteiro Lobato. Capítulo por capítulo. Tinha uma coisa meio que parecida com o “Sítio do Pica–pau”: a gente estava numa ilha, com a minha avó, com a cozinheira, que contava história também, e a minha mãe contando. Isso é marcante de eu lembrar, dela contar “Viagem ao Céu” e a gente ir pra praia ver as estrelas, então o livro se misturava com a vida real. Ali.

Eu me lembro muito desse livro ter sido assim, não um: “Quero ser escritora!”, nada disso, mas da leitura me mostrar que ir pra lua era possível, que eu poderia ir para lua através daquilo. Claro que eu não pensava assim, mas eu achava que ir pra lua era possível. E [por] muito tempo eu fiquei muito ligada à astronomia, essas coisas. Eu gostava muito de estrela, de lua, de planetas. E isso, ela contava. Eu não pegava o livro e lia, ainda.

Eu gostava muito de história em quadrinhos, porque o meu tio adorava Bolinha e Luluzinha e ele é o irmão mais novo da minha mãe, o Roberto Ataíde. Ele fez a coleção e encadernou as revistas do tempo dele. A gente recebeu de herança; ele está vivo ainda, mas a gente recebeu essas revistas. E a gente já tinha a coleção do Bolinha e da Luluzinha em casa, então a gente era louco por essa dupla. Eu me lembro disso, de gostar muito de ler revista em quadrinhos: Bolinha e Luluzinha, Brotoeja, Riquinho, as coisas da época. E uma revista chamada Recreio, que não é exatamente essa de hoje, é dos anos 1970 ou 1968, 1969. E era um máximo. Eu me lembro de na ilha esperar o meu pai chegar, porque ele vinha só no fim de semana, passar o fim de semana com a gente. Ele trazia a Recreio do mês e eu e o meu irmão Dudu, a gente ficava louco, porque adorávamos essa revista. Mesmo numa ilha, a gente ficava louco pra revista chegar porque ela tinha histórias da Ruth Rocha, da Ana Maria, do Joel Rufino, mas ela tinha coisas de recortar, colar, então isso também eu curtia muito.

E a minha avó Jujuca, ela contava história pra gente, inventadas por ela, só que ela tinha lido na infância. A história do João Felpudo, que é um personagem alemão, ela ouviu a história; era um menino bem mimado, que não queria tomar banho. Então ele ia ficando cada vez mais sujo, não cortava o cabelo, não cortava as unhas e ia virando um monstro. E aí ela adaptou essa história na cabeça dela.

Minha avó era assim, muito criativa. Ela inventava palavras, inventava músicas, enfim, era um poço de criatividade, ela estava toda hora inventando coisas. E ela não era uma avó que ensina, ao contrário, ela falava tudo errado pra gente. Aí ela pegou histórias do João Felpudo e fez com que um dos meus irmãos fosse esse personagem, um menino muito malcriado, que fizesse coisas horríveis, por exemplo, que não tomasse banho ou que não quisesse jantar, coisas de criança pequena. E ela inventava uma história enorme, mas botava cada um de nós dentro da história, então eu e Clara éramos as irmãs do João, nós tínhamos um nome, o Carlos era o João, o Dudu era um outro irmão, com um outro nome. A minha mãe se chama Laura, se chamava Maura na história. Meu pai Cícero Sandroni, Sione Barconne. Ela inventou uma história botando a gente nessa, só que também ela contava muito engraçado, porque ela era uma senhora da alta sociedade. Minha avó era super chique, ela dizia que era uma árvore de natal porque se vestia cheia de colares, pérolas, mas quando ela estava com a gente ela dizia coisas engraçadíssimas. Ela fazia a voz desse João. Esse João não queria tomar banho, então, ela fazia: “Não quero tomar banho!” Ela fazia a voz, era muito engraçado. As histórias do João são também muito fortes, além do Lobato, que a minha mãe contava.

P/1 – Qual é a lembrança que você tem que é a mais antiga?

 

R – Olha, eu tenho uma lembrança de estar em cima da cama e alguém me ajudando a me vestir. Isso seja talvez [com] seis anos, se bem que [com] seis anos já sabe se vestir. Lembro-me dessa coisa do botão, mas eu lembro disso, de uma coisa assim. Lembro de alguém me ajudando e eu meio que em pé na cama. Eu acho que isso é bem antigo.  

 

P/1 – E voltando... E esses seus irmãos todos, como eram esses rituais de contação? E depois, como refletia isso nesse convívio com os seus irmãos?

 

R – Eu acho que era um momento muito bom. Meus irmãos brincam que eu brinco muito, mas eu tenho a lembrança de falar com eles: “Vamos à lua, vamos fazer um foguete. Aqui na ilha tem tanta madeira, dá pra fazer um foguete.” Eu tenho a lembrança deles rindo de mim. Nós somos uma escadinha, então são poucos anos de diferença, mas eu me lembro deles me achando a boba.

 

P/1 – E as lembranças maiores são sempre na ilha, então?

 

R – Tem. Muita ilha, muito Leme. Meus pais ganharam um terreno dos meus avós, no Cosme Velho, pra fazer uma casa, então com onze anos eu saí do Leme. Saí daquela coisinha, todos nós saímos daquela vidinha meio do interior ali do Leme e fomos para o Cosme Velho. Não que o Cosme Velho seja um grande bairro, mas era também uma mudança de colégio. Então, eu fui pra um colégio grande, nós fomos para um colégio enorme. A gente estudava no Jardim da Vovozinha e foi para o Colégio Vicente de Paulo, que era um colégio enorme que é até o segundo grau, vestibular. Mas fomos para uma casa, então foi o máximo; uma casa no Cosme Velho, com dois andares.

Eu tenho uma irmã menor, ela tinha um quarto para os brinquedos, eu e Clara ficamos em um outro, meus irmãos no outro. Foi uma diferença, porque a gente morava num apartamento pequeno, cinco filhos; foi um máximo a saída pra uma casa. A gente tinha mesa de pingue-pongue, basquete, a gente subia o morro pra Santa Teresa, porque a casa é bem encostada no morro, então a gente tinha clube no meio do mato, no meio da floresta. E a gente ver o Corcovado de um lado, o Pão de Açúcar do outro, é realmente uma floresta. A gente morava do lado da floresta. Foi uma diferença, a gente saiu da praia e foi pra uma floresta.

Nessa casa, eu lembro dessa mudança do colégio. O primário foi um pouco estranho, porque os professores eram muito rigorosos. Lembro-me de ter que levantar quando o professor chegava, enquanto o meu irmão, que já estava no segundo grau, não ia de uniforme já e adorava o segundo grau no São Vicente. E eu dizia pra minha mãe que o primário era horrível, que era uma coisa, tanto que ela botou a minha irmã menor em outro colégio ali perto. Mas quando eu fui para o ginásio do São Vicente, mudou tudo. Era um colégio tradicional, católico, mas com uma cabeça muito aberta pra grêmio estudantil, estimulava. Nessa época, ainda era ditadura e o colégio estimulava o jornal, o Cine Clube, o Music Clube, então foi um colégio muito marcante pra mim e para os meus irmãos, porque nós todos curtíamos escrever músicas. Meus irmãos são músicos. Tinha teatro; meus outros dois irmãos são de teatro. Foi um colégio que abriu muito a nossa cabeça, mesmo a gente tendo uma família muito ligada. E os meus pais são de livros, escritores e jornalistas, mas eles adoram música e cantavam. Minha mãe canta, então a música foi muito presente na nossa casa, a gente ouvia muito. Minha mãe tocava violão.

O São Vicente foi marcante pra gente. Não só essas atividades extraclasses, mas como os professores... Os professores eram muito amigos, muito companheiros e participaram do grêmio, liam o que a gente escrevia. Eu lembro de começar a escrever poesia com catorze, quinze anos. E o meu professor de História, não era nem de Português, ler, curtir e comentar, então desde ali eu ouvia que eu era que eu era poetisa... Desde ali aquilo nasceu.

P/1 – Você começou a escrever poesia por volta de catorze anos, é isso?

 

R – É.

 

P/1 – Fala pra gente... Numa etapa anterior você disse que ouvia as histórias lá na infância, que a avó contava, que sua mãe contava, mas você não pegava no livro.

 

R – É.

 

P/1 – Eu queria que você contasse pra gente uma primeira experiência marcante como leitora, já. E depois eu queria que você falasse desse seu começo de escritora, como poeta, escrevendo na escola... Essas experiências.

 

R – Eu tenho essa lembrança de ser uma aluna preguiçosa e de ser uma leitora preguiçosa. E como eu tinha essa mãe que contava, essa avó que contava, eu criança... Não tenho essa lembrança. Porque na minha época, só tinha mesmo Monteiro Lobato. Eu lembro de um livro da Rachel de Queiroz, chamado “O Menino Mágico” e de gostar muito desse livro. Lembro de gostar muito da “A Turma do Pererê”, quadrinho, do Ziraldo. Agora, primeiro livro que eu gostei foi  “As Aventuras do Marco Pólo”, que não foi na minha casa; foi na sala de aula, com a professora de Geografia... Eu adorei aquele livro. Aquela história de um italiano saindo, viajando e descobrindo pólvora, papel, tudo isso. Eu acho que isso deve ter sido já no São Vicente, quarta, quinta série, acho que é… Dez anos, por aí. E eu lembro desse livro, eu lendo e curtindo. Devo ter lido antes Monteiro Lobato, mas eu tenho mais a lembrança da minha mãe contando, a lembrança é muito forte: lampião, todo mundo na cama, ela contando e ela contava bem.

 

P/1 – Como você começou a passar para o outro lado do balcão... Começou a escrever?

 

R – Bom, como meu pai é jornalista e eu me lembro de brincar muito com a minha irmã mais nova, ela desenhava e eu escrevia. Então a gente fazia jornal, jornal da família. Papai trabalhou numa revista, trabalhou na Fatos & Fotos, acho que é isso. E a gente brincava de fazer um jornal chamado Fatos sem Fotos. A gente brincava de fazer algum tipo de jornal de brincadeira e ela desenhando. Lembro do meu irmão, da minha irmã… Do meu irmão mais velho, o Carlos, trazer um jornal que ele fazia - no segundo grau já, ele fazia um jornal -, e dos meus pais ficarem muito animados com aquilo, da minha irmã Clara e do Dudu trazerem também o jornal do ginásio e eu lá no primário, sem jornal. Eu ficava morrendo de inveja. Eles escreviam crônicas, artigos e eu ficava de olho naquilo. Eu ficava com inveja, eu queria também ter jornal. Então, essa coisa de passar para o ginásio foi pra fazer jornal, o jornal do ginásio que se chamava Semente.

Eu me lembro de escrever. Como eu comecei a fazer poesia ou pensar em poesia? Eu me lembro de ter feito a primeira poesia na máquina de escrever. Como papai trabalhava em jornal, cada um tinha a sua máquina de escrever. Não! Eu acho que tinha uma máquina de escrever no meu quarto, no quarto das meninas e uma nos meninos. Como hoje uma família teria dois computadores. Não sei... Uma família com mais grana. Mas a gente tinha uma máquina de escrever em cada quarto, e eu achava isso legal, eu achava que sentar na máquina era bacana. E eu me lembro muito de ter começado a ler poesia e me identificado com aquilo. Lembro-me de na adolescência realmente embarcar na leitura. Eu era muito tímida, então eu descobri a leitura como uma coisa assim, um lugar pra mim, ficar lendo. E aquilo me fazia ter vontade de escrever.

Mas eu não sei quando eu decidi fazer poesia, exatamente. Eu gostava de sentar na máquina e escrever. Eu fui lendo assim… Eu gostava muito dos modernistas. Eu quando comecei a ler o Mário de Andrade eu fiquei muito impressionada, com o “Prefácio Interessantíssimo”, com aquelas poesias sem rima. Eu fiquei impressionada: “Ah! Pode fazer assim.” Eu ficava assim... Manuel Bandeira, Drummond, comecei a ler com uns quatorze, quinze anos e me interessava mesmo por poesia. Aí, o Mário... Começaram a sair as cartas dele... A serem publicadas as cartas dele. Lembro que saiu cartas para o Fernando Sabino, cartas para o Drummond e isso foi pra mim uma fonte maravilhosa, porque ele escreve uma carta pra um jovem poeta e eu me sentia uma jovem poeta, então parecia que ele estava escrevendo pra mim. Aquilo foi muito marcante também.

P/1 – E as relações? Nós estamos falando de meados da década de 1970, mais ou menos isso? Esse período?

 

R – É isso.

 

P/1 – Fala um pouquinho das relações humanas que você tinha no colégio, seja nessa primeira fase do primário ou já nessa segunda fase, um pouco mais adolescente, que eu acho que é esse período que está abordando agora... Amizades que você fez ali, alguma pessoa especial? Influências?

 

R – Eu tinha uma amiga muito grande, a Carmen, no primário. E a gente continua amiga no ginásio, na mesma turma. Ela tocava piano e eu tocava flauta, eu tocava flauta transversa. Então a gente tocava junta, porque além do jornal, eu gostava muito de música. Eu gostava de fazer o sarau do colégio... Eu cantava no coral. Aí eu lembro da Carmen, dessa coisa da música. Lembro da gente... É uma coisa que eu não esqueço, da gente indo para o centro ver um concerto na Sala Cecília Meireles, a gente devia ter uns quatorze, quinze anos, e a gente vendo o concerto e saindo. Naquela época, eu acho que não teria problema, acho que adolescente não tem muito grilo. Mas hoje, você pensar que [aos] quatorze, quinze anos na Lapa, saindo da Sala Cecília Meireles, seria um perigo. Naquela época, a gente estava tranquila, mas, mesmo assim, um casal olhou pra gente e perguntou: “Pra onde vocês vão?” A gente disse: “Ah! A gente está indo para o Cosmo Velho” Ela morava também ali em Laranjeiras, aí deram carona pra gente. E isso me marcou, porque hoje em dia o Rio não é assim; até que pega carona, mas não é tão comum assim.

Lembro também de eu... É como eu via meus irmãos fazendo grêmio estudantil. Eles entravam em chapa, realmente faziam política estudantil. Eu gostava de fazer mais no meu colégio. Os meus irmãos eram do partido comunista MR8 [Movimento Revolucionário 8 de Outubro] e eu era mais ligada ao grêmio estudantil, mas uma ligação mais artística mesmo, de fazer coisas de cultura, porque naquela época, falar em MPB [Música Popular Brasileira], tocar Chico Buarque, era uma subversão... Tudo era subversivo, falar em música brasileira era falar em chorinho, era muito subversivo aquilo. E eu curtia fazer isso no colégio. Eu lembro de fazer o grêmio, de ser secretária, da gente ter ganhado uma vez uma chapa, eu com os meus amigos. Eu era um pouco assim, curtia muito essa coisa do grêmio e não ficava tanto em festa com os amigos. Tinha uma coisa de ser muito... Ir a cineclube, ver filme proibido, eu tinha uma coisa assim. Não que eu fosse muito intelectual, mas eu não tinha essa coisa de festinha, de grupinho, de dançar, eu tinha uma coisa meio problemática com isso. E me lembro que era, acho que era um jeito de fugir das relações um pouco. Apesar de eu ter relações afetivas com pessoas do grêmio, que tinha pessoas que faziam, eu era um pouco... Não sebosa, mas um pouco: “Ah! Eu sou do grêmio!” Passava em salas anunciando coisas, sabe? Mas eu não sinto isso hoje em dia. A gente se encontra de vez em quando, a turma se encontra. E eu sinto carinho dos meus colegas, mas eu tinha uma coisa de ser do grêmio...

 

P/1 – Tinha algum sonho infantil?

 

R – Aquela coisa de criança de querer ser astronauta, achava isso um máximo. As crianças sempre perguntam: “Você queria ser escritora desde que era criança?” “Não, eu queria ser astronauta.” No colégio, eu não sei, aconteceu uma coisa engraçada. Eu acho que queria ser escritora, achava que ia ser poeta. De alguma maneira, eu trabalho com a palavra, então ter começado com a poesia, como muitos autores começaram, é uma coisa muito boa, pra ter uma emoção com a palavra maior. Não sei, mas realmente não sabia, nunca pensei que eu ia escrever pra crianças. Isso foi mais na faculdade, que aconteceu o encontro com Monteiro Lobato de novo, mas no ginásio não me lembro de algum sonho assim. Acho que queria ser poeta.

 

P/1 – Essa sua relação com o grêmio estudantil e dessa forma tão intensa que você está dizendo, sugere uma adolescente com posições políticas ou não?

R – Meus irmãos eram bem políticos. Meu irmão, o Dudu, era de um movimento muito radical, tipo ‘revolução amanhã’, umas coisas assim. Eu não chegava e dizia: “Dudu, isso não vai acontecer”, mas eu ficava assim, não entrava muito. Às vezes, eu entrava, mas porque também queria conhecer outras pessoas, então ia à reunião com ele. Mas política estudantil mesmo foram eles, meus irmãos que fizeram. Eu gostava de política cultural.

Eu lembro que, com quinze, dezesseis anos, trazia o Copinha, um flautista maravilhoso, pra tocar no colégio. A gente fazia umas produções que hoje eu fico boba. A gente trazia um grupo que era ótimo: era o Coisas Nossas... Um grupo que só tocava Noel Rosa. A gente trazia índios para o colégio, capoeira, sabe? A gente fazia uma produção mesmo. A gente era produtor. Era um máximo, era muito bacana. Era uma profissão. A gente estava se profissionalizando como produtor cultural lá, porque a gente tinha um auditório maravilhoso, tinha como passar filmes... As minhas amigas eram mais de cinema, iam ao MAM [Museu de Arte Moderna] pegar filmes. A gente tinha essa possibilidade, meio adolescentes, fazendo coisas que hoje eu não vejo muito.

Eu fui trabalhar em escola depois que me formei e ficava tentando fazer jornal. Hoje é superfácil, no computador se faz o jornal. A gente fazia jornal lá diagramando, fazendo no mimeógrafo... Era aquela coisa complicada.

Tem uma lembrança muito boa dessa época, mas eu não era tão ligada na política. Apesar de ter sido do grêmio, secretária, chapa e tudo, eu não participei. Lembro de ir a passeatas e isso eu me lembro de ter sido muito emocionante. Eu fui com uma amiga a uma passeata contra o Figueiredo, acho que foi a primeira passeata. Aí eu lembro de só correr... A gente só corria porque a polícia jogava aquele jato de água, vinha com um cavalo. Isso foi em 1989, acho que foi após Figueiredo.

 

P/1 – Isso é de 1979?

 

R – 1979, claro. 1979!

Lembro da gente correr e um carro parou. Sempre tem uma carona. E o cara deu uma carona pra gente. Eu me lembro que cheguei em casa e a minha irmã era do partidão... Contei que a gente estava numa passeata, pegou uma carona, e ela deu uma bronca: “Mas como? Podia ser um policial, podiam levar vocês e serem torturadas.” Não era esse clima mais, mas a gente correu da polícia.

Lembro da morte, da bomba na OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] - acho que é 1980, 1981. A secretária da OAB morreu. Ela abriu uma carta e tinha uma bomba. A gente saiu do centro e foi andando pela enseada de Botafogo, Guanabara, foi andando até o [cemitério] São João Batista. Lembro de ser emocionante, das pessoas na janela com bandeiras do Brasil, porque era uma época que já não se aguentava, já estava todo mundo ‘por aqui’, então era emocionante. Lembro dessa participação política, de ir a passeatas, mas não de estar envolvida com algum partido.

 

P/1 – Luciana, conta pra gente o que você lia nessa época, nessa fase da sua vida, adolescência.

 

R – Essa questão do ser brasileiro pra gente, naquela época, era muito importante, porque eu ficava muito intrigada com isso. Meus amigos não ouviam música americana, só rock, e a minha família era muito ligada ao Chico, ao Caetano. A gente cresceu ouvindo Chico, Caetano. Saiu um disco deles, era correr pra comprar e ficar ouvindo o dia todo. Então, a coisa do brasileiro era essencial. Eu me lembro de ter lido o “Fogo Morto” do José Lins do Rego... De ter achado genial. Eu gostava muito do Nordeste, a gente tinha uma coisa ligada ao Nordeste. Antigamente se falava mais da pobreza, da seca, da exploração, do Nordeste... Falava-se pouco da Amazônia; falava um pouquinho, mas a coisa da pobreza, do sertão... Então, de ficar vendo “Vidas Secas”. Eu gostava muito dos nordestinos, do Graciliano Ramos. Mas “Fogo Morto” pra mim... Lembro de ficar muito impressionada. Pra sair um pouquinho de brasileiro, eu lembro de ler o “Diário de Anne Frank”; lembro que foi um professor de Geografia que me deu e eu adorei, fiquei louca. A minha mãe até fala muito, diz que eu fiquei muito impressionada com o nazismo na adolescência, então eu lia tudo. Aquilo me impressionava muito.

Lembro de ler esses autores, os brasileiros, nordestinos. Rachel de Queiroz, “O Quinze”. Lembro da descoberta da Clarice Lispector também, muito impressionante; li o último livro dela - acho que eu comecei com o último livro dela, se não me engano “A Hora da Estrela”, que era uma nordestina. Fiquei louca por aquilo, porque além de ser uma nordestina, é um cara escrevendo sobre a nordestina. Essa coisa do processo de criação sempre me atraiu muito, adorava ler entrevistas de autores, falando sobre processo.

Quem mais? O Rubem Fonseca também foi um susto, fiquei muito impressionada com “Feliz Ano Novo”, que ele é muito violento. E falava do Rio. Da questão da violência no Rio, que não era tanta na época. Era bem submundo aquilo. E o Rubem Fonseca foi assim, também totalmente diferente.

Clarice Lispector, Rubem Fonseca, mas eu lia de tudo. Lembro da Adélia Prado, voltando pra poesia. Lembro de ter amado “Bagagem”, essa coisa... Eu gosto muito do cotidiano e a Adélia tem uma coisa da poesia ligada ao cotidiano da mulher: cozinha, tem um marido. Eu curtia muito a Adélia Prado. E o Machado, eu fui ler também na adolescência e também fiquei muito impressionada, porque eu lia coisas um pouco mais contemporâneas. Fiquei impressionada por gostar de um autor tão antigo e ficar impressionada com ele. Não notava ironia, não notava nada disso que eu noto hoje; a gente mais adulto começa a ler outras coisas, a ver de uma outra maneira, mas eu ficava impressionada com o fato dele escrever tão bem que parece que você está nascendo… Parece que você vê Capitu, parece que você vê o Bentinho.

Eu [gostei] assim, de cara. O meu pai comprou na banca de jornal, porque a gente estava indo todo domingo lá no Cosme Velho; a gente comprava massa de macarrão numa loja de massas. O meu pai gostava de andar e a gente ia andando do Cosme Velho até Laranjeiras e comprava. E aí ele passou numa banca, devia ter uns quatorze, quinze, e comprou um “Dom Casmurro”. Uma coleção da Abril, alguma coisa bem simples. E me deu. E eu falei “Ah, pai! Machado de Assis?” Fiz uma cara assim, e eu fiquei impressionada como eu gostava daquilo. Como o escritor do século XIX... Como pode ser tão moderno? Parece que é hoje, parece que ele está escrevendo hoje.

São essas leituras. Drummond também, adorava Drummond, adoro. Drummond e Bandeira foram os meus poetas preferidos.

 

P/1– A passagem dessa adolescência com tanta leitura, num ambiente familiar, também, com muita leitura... Pais que trabalhavam com textos. Foi mais ou menos natural e previsível sua escolha pelas Letras quando já na escolha de faculdade, curso? Como foi essa passagem do colégio pra faculdade? A escolha do curso?

R– Pois é, eu fiquei muito na dúvida. Eu tinha certa ingenuidade de achar que fazendo Letras, eu iria me tornar escritora; eu pensava isso. Estava entre Música, Letras e, às vezes, História, que eu gostava muito; era uma matéria que eu gostava, mas acabei optando por Letras. E eu escrevia muito; eu tenho até hoje pastas e pastas da adolescência.

Quando eu entrei na faculdade, eu parei de escrever totalmente; deu um susto. Na faculdade de Letras você estuda, começa a estudar teoria, começa a estudar grandes autores. Eu acho que na faculdade, a gente não lê normal. Lê com um outro olhar - de análise, análise teórica, então me deu uma censura. Comecei a me censurar, então eu não escrevia tanto.

Não sei, na faculdade eu comecei a me interessar por educação. Porque eu fiz licenciatura, eu já me interessava por educação. No colégio, eu gostava muito de ler livros sobre educação. Não sei o por quê, acho que o São Vicente tinha uma história de ter educação libertadora, que eu não achava nada libertadora porque era cuspe e giz, normal; não tinha nada de diferente, só que os professores eram mais soltos, mas não era uma coisa tão rigorosa assim.

Passagem pra literatura infantil? Foi assim: a minha mãe, na época que eu estava na faculdade… Eu estava fazendo mestrado, ela estava fazendo mestrado sobre a Lígia Bojunga e começou a dar pra gente, a gente mais velho, tanto pra mim, tanto os meus irmãos. A gente começou a ler a Lígia e eu fui achando um máximo, fiquei apaixonada pela Lígia. Lembro de contar pra minha irmã menor os livros da Lígia, da gente ficar muito emocionada. A Lígia, diferente do Lobato, ela tem uma coisa muito psicológica, de trabalhar mais o personagem. O Lobato tem uma coisa do humor, da crítica, de acabar com todo mundo, e a Lígia tem uma coisa do personagem, do crescimento, da morte, de falar de coisas pesadas pra crianças. E aquilo foi uma novidade pra mim.

A minha mãe fundou a Fundação Nacional do Livro Infantil, então a gente tinha uma ligação com a literatura infantil, não só eu como os meus irmãos. Meus irmãos chegaram a trabalhar tipo de boy, fazer serviços na Fundação. Eu me lembro de trabalhar numa atividade que eles faziam, que era o Domingo da Fantasia. Todo o domingo ou uma vez por mês, não sei como é que era, a gente ia pra uma praça e contava história, pintava e fazia recreações. E tinha teatro, tinha teatro dos Lenços e Ventos, que era um grupo super bacana da época. Iam vários autores, Ziraldo e outros.

Eu me lembro de, adolescente, trabalhar, ou contando história ou fazendo algum tipo de brincadeira, ajudando. E lembro da minha mãe falar muito que eu tinha jeito pra cuidar de criança. Eu me lembro de trabalhar um pouco no colégio, ainda na faculdade. E aí, na faculdade, fiz um curso com uma professora, Eliane. Na faculdade tinha monografias e você escolhia um autor; a monografia era sobre o Monteiro Lobato e aí eu fiquei com um livro do Lobato que não tinha lido na infância, que é o “Chave do Tamanho”. Esse livro me emocionou muito, porque ele fala da guerra, da segunda guerra. Fala do homem, da capacidade do homem de destruir; é um livro muito filosófico e, ao mesmo tempo, pessimista, mas com um lado otimista: a Emilia acaba com a guerra mesmo, mas dá uma lição na humanidade, ela faz toda a humanidade ficar desse tamanho; aí, ela acaba com a humanidade.  Esse livro me impressionou muito.

Eu me lembro de gostar muito de jornal, de ler jornal. A gente era muito viciado. Como meu pai era jornalista, então a gente tinha assinatura de vários jornais, revistas. Gostava muito da linguagem de jornal. Eu não sei... Associou alguma coisa de eu ter ficado com esse livro na cabeça.

Na época, o movimento ecológico estava surgindo. Quer dizer, se falava um pouco dos animais em extinção nos anos 1980, mas não se falava do problema urbano, das praias, da poluição; não se falava disso, começou a se falar. Comecei a ter uma idéia de uma menina limpar a Guanabara. Começou-se a falar que a Guanabara estava suja, poluída e que se podia limpar a baía. E eu comecei a ter essa ideia, dessa menina. Essa personagem é muito ligada à Emília e a família toda dessa personagem é totalmente ligada à família do Sítio. Então, os pais da Ludi, que é essa personagem, são inspirados na Dona Benta, no Visconde e a Ludi é inspirada na Emília; e a Margarida, que é a empregada, é superinspirada na tia Anastácia. Então nasceu dessa leitura: pegando o meu primeiro livro, “Ludi Vai à Praia”, tem citações do Lobato o tempo todo. É escancarado o que eu bebia ali. Tanto que tem uma amiga, que já morreu, que é a Marina Cataliria... Falou uma vez que, se a Narizinho caiu no Reino das Águas Claras, a Ludi caiu no Reino das Águas Sujas. Eu fiquei emocionadíssima, porque é realmente um livro que eu bebi totalmente ali, no Reino das Águas Claras, no “Reinações de Narizinho”.

Além de eu ter essa coisa de casa, da minha mãe... A poesia era uma coisa certa, eu gostava de fazer poesia. Eu estreei profissionalmente fazendo letras de música; minha irmã lançou o primeiro CD em 1984, com uma música com uma letra minha. Então eu tinha certeza disso e acabou que eu comecei a fazer literatura pra criança.

P/1– Fala um pouquinho com mais detalhe da produção do seu primeiro livro. Porque, como se diz, o ambiente era muito propício…

R– É.

 

P/1– Pra isso, a sua faculdade, a sua família, a sua relação com o texto, com produção de texto. Mas como foi exatamente a decisão? “Pensei nessa história, nessa personagem, nesse contexto, vou começar a escrever assim.” Você se lembra de como foi?

A sua mãe teve alguma participação? Você consultava a sua mãe? Como foi esse ambiente de criação?

 

R – De criação... É, eu não me lembro. Eu me lembro de ter mostrado pra eles.

A minha mãe teve um trauma, que meu avô publicou um livro escondido dela, de poesias dela com quinze anos. Poesias dela. Eu poderia ter publicado um livro de poesias cedo, mas isso nunca aconteceu. Eu acho que também sempre publiquei. Na faculdade, publiquei em jornais de literatura, publiquei no colégio. Eu não sentia mesmo que eu tinha um volume, que realmente eu tinha um livro de poemas pra publicar, mas isso, enfim, nunca aconteceu.

Quando eu acabei essa primeira história, eles ficaram muito entusiasmados, mais entusiasmados do que qualquer poesia que eu tivesse escrito. Eu me lembro muito dessa coisa do jornal. O [livro] “Ludi”, acho que tem uma coisa assim, da leitura de jornal, da cidade, de ter muito a cidade; ela mora no Flamengo, ela não pode ir a praia no Flamengo; ela vai à praia da Barra, tem uma coisa muito ligada à cidade, uma coisa de lar, de rua, uma coisa meio inspirada no Machado. Clarice Lispector também fazia isso, Rubem Fonseca também, eles botavam o Rio muito como cenário.

Lembro de eu ter visto que ia ter um concurso em Minas Gerais, o João de Barro, que é um concurso que as crianças... Têm dois, os adultos, júris e crianças também. E aí fiquei animada, aquilo me animou. Eu escrevi, me lembro de ter escrito pra esse concurso esse texto. Lembro de estar sozinha no texto, de estar muito envolvida com o Lobato, com a Lígia, dessa descoberta e com essa coisa da linguagem coloquial, do jornal, rápida.

Eu já trabalhava com criança, então eu ficava pensando: “Como é uma criança hoje, no Rio? Como ela vive?” Hoje muito mais, mas nos anos 80 - escrevi em 87, 88 o texto - como é essa questão pra criança da violência, viver no Rio hoje? Lembro-me disso e de eu ter mandado o texto pro concurso. Só que o concurso era em Minas, era um texto da praia do Rio de Janeiro e por isso eu não ganhei o prêmio.

Lembro que eu estava fazendo uma pesquisa pra Luisa Buarque; eu estava na casa da Ana Cristina César, ela já tinha falecido e eu estava com os pais dela fazendo alguma entrevista, não sei. E eu tinha deixado o “Ludi” pro meus pais lerem. Por acaso, eu voltei lá e eles tinham curtido muito e achavam que eu podia publicar. Achei aquilo muito emocionante, porque também, na época, eu não percebi como aquilo era uma coisa delicada. Minha mãe era crítica em teatro infantil, conhecia as editoras; ela era uma pessoa que promovia literatura. E aí a filha faz o texto. Era uma coisa que eu não notava, que era delicado pra ela se ela não gostasse. Ela realmente fala do que gosta, do que ela não gosta, então só depois...

Quando eu entrei, comecei a conhecer os escritores, os ilustradores, os editores, é que eu via a importância dela. Na época, eu sabia que ela era importante,  mas, como ela era querida, como eu tive a cara de pau de fazer um livro infantil? Só depois eu me toquei.

P/1– Mas como é que se dá o livro, a trajetória do livro? Como ele é publicado?

 

R – Aí, eu fui procurar a editora. É claro que ela me sugeriu. Ela tinha um contato grande com a Agir, porque ela era ligada à coleção da Lígia Bojuga, que saía pela Agir. Então ela me levou e eu tinha uma amiga na Agir que também tinha feito Letras junto comigo. Então teve alguma coisa... Que saiu um livro e não ficou pronto de algum outro autor. E eles curtiram a Ludi.

Foi muito rápido que saiu.  É uma coisa realmente ligada a minha história, por ter um conhecimento ligado, os meus pais ligados às editoras; porque eu acho que se não fosse isso, ia ser mais difícil. Bem mais difícil!

Eu me lembro da Márcia falar que achava que “Ludi Vai à Praia” era um título muito infantil pra uma história tão complicada. A menina limpa a praia de Guanabara, tem uma grande aventura na praia de Guanabara. Ela só falou isso. E eu botei um subtítulo, “Ludi Vai à Praia e A Odisseia de uma Marquesa”.

Eu pude escolher o ilustrador. Eu tinha conhecido o Humberto através de um livro da Ana Maria Machado; tinha adorado a ilustração dele e a Márcia topou, foi tudo muito legal.

Foi uma emoção quando o livro ficou pronto. Fiquei muito emocionada, era uma sensação de que aquilo era meu, de que aquilo não podia ser tirado de você, era uma sensação muito boa. Eu fiquei muito, muito feliz. E me lembro de ir pra qualquer lugar, qualquer escola, porque na literatura infantil, a gente vai muito nas escolas. Eu ia pra Penha, eu ia pra qualquer lugar conversar sobre o livro. Foi uma festa, o “Ludi Vai à Praia”, foi muito legal. Na orelha do livro, tinha uma orelha de Raul Machado e ele falava que a Ludi parecia que ia fazer uma nova aventura e eu nunca havia pensado nisso. Foi uma ideia dele, que criou em mim uma vontade e aí a Ludi já tem umas quatro aventuras.

P/1– E depois de publicado esse primeiro livro tão longo… Ele foi publicado... Você já incorporou: “Vou ser escritora? Vou continuar escrevendo?” O segundo livro veio logo na sequência? Foi essa série que deu continuidade à sua produção ou você publicou coisas antes dos outros?

R– Eu publiquei “Memórias da Ilha”. É o segundo livro, [em] que eu falo dessa ilha, dos meus avós. Depois, eu publiquei um texto pequeno, “Gata menina”.

Meus textos são pra oito, nove anos; aliás, eu tenho um ou outro que é pra criança pequena.

E aí, depois, o “Ludi na TV”, que é a segunda aventura.

P/1– Eles foram lançados em que ano?

R– O “Ludi” é 1989, o primeiro. Depois, “Memórias da ilha”, 1991. Depois, “Gata Menina”, 1993 e “Ludi na TV”, 1994.

P/1– E ao longo desses anos, você produzindo cada vez mais, como foi se dando esses contatos seus com o leitor, com a criança nas escolas? Houve experiências significativas ou comentários, retornos de alunos e de leitores que te marcaram? Conta um pouco dessa vivência.

R– Ah! É uma experiência muito legal. Acho que encontrar o leitor é uma experiência afetiva. É claro que, às vezes, você tem uma ideia ou outra, mas você tem ideia em qualquer lugar. Às vezes, eles dão ideia também, mas acho que é uma coisa mais do carinho. E as professoras falam que isso aproxima, porque a criança vê que o escritor não é uma pessoa como qualquer outra.

É mais um encontro. A experiência da professora com o aluno é muito mais intensa, do prazer de descobrir a leitura, do que o encontro com o escritor. Mas eu lembro de uma vez que uma criança perguntou pra mim se eu tinha colado as palavras no livro. Eu achei isso lindo, porque às vezes as crianças falam umas coisas... Lembro de maneira que eles elogiam. Lembro de uma criança falar assim pra mim: “Ah! Eu adorei a Ludi. Eu vou comprar o outro, com a minha mesada.” Falou assim. Eu achei isso... Pô! Ela estava falando isso com uma coisa… Ela falou de um jeito assim: “Eu vou comprar com a minha mesada!” Quer dizer que ela estava tirando dinheiro da mochila, o dinheiro de alguma coisa que ela desse valor pro livro. Então isso foi muito legal. Porque o livro quem compra é o pai e não com a mesada.

Eu tenho umas escolas preferidas. Eu noto muito quando a turma é apaixonada por leitura, por livros; a professora é apaixonada, a turma reflete a professora, então a escola reflete esse aluno. Tem algumas escolas que você sai nas nuvens, porque perguntam coisas muito interessantes, que você nunca imaginava. Agora têm outros que perguntam: “Quando você começou a escrever?” Mais datas, coisas assim.

Tem turmas mais bacanas do que outras. Tem crianças mais trabalhadas e a coisa da criança, dessa ideia da criança que é sempre vista como criativa. Com curiosidade, ela é assim: se ela tem um adulto estimulando, quando não tem... Nesse encontro em escolas dá pra notar muito isso; como depende muito do professor, está tudo nas mãos do professor.

P/1– Queria que você contasse um pouquinho, uma trajetória dessa bibliografia. Alguns marcos... Falasse um pouco do que pra você é importante - pessoalmente mesmo.

R– Claro.   

P/1– Nem tanto assim, que gente julga, mas o que você julgue importante como marco.

R– Em relação a livro?

P/1– É. Os seus livros.

 

R – Na “Ludi na Revolta da Vacina”, que é a terceira Ludi, eu consegui um pouco me soltar do Lobato. No começo, eu era muito lobatiana. Comecei a entrar por um lado que é de história, que é de pesquisar antes de escrever, então comecei a me especializar nisso, em estudar antes de escrever. Estou estudando agora mesmo história, a história do Rio e o centro da cidade. Fiquei muito ligada nisso.

“Ludi na Revolta” tem uma diferença. Apesar dos outros serem da imaginação, apesar de serem temas ligados à realidade da criança, o “Ludi na TV” é sobre a televisão. Mas a “Revolta da Vacina”, eu achei uma coisa diferente, de começar um trabalho mais histórico, de trazer a História pra criança. As “Memórias de Lobato” também, porque eu acho que é um retorno do Lobato; eu não quis tentar… Acho que as crianças, os leitores entenderam isso muito bem, que eu não estou querendo enganar dizendo que eu sou o Lobato, nem nada. Elas sabem que aquilo é uma maneira de contar a vida do Lobato pegando os personagens dele. Eu achei bacana.

Eu tive que estudar a história da vida do Lobato, estudar a história do Brasil. Pelo Lobato ser não só um escritor, mas um cara visionário, um cara que pensava o Brasil, queria o Brasil rico. Brasil com petróleo, todas essas coisas, com aço. Estudar também história foi bacana. E também pesquisar linguagem - como a Emília fala e como o Visconde fala, mas também trazer um pouco a minha linguagem, uma linguagem de hoje.

Tanto no “Ludi e a Revolta”, ou no Lobato ou no Mário tem uma coisa que eu discuto muito comigo mesma, que o próprio Lobato fazia: são livros que qualquer um nota, são livros muito direcionados. Fazer livros com um tema, mas que há uma... Eu pelo menos tento fazer uma luta e sinto que o Lobato também faz isso, que é uma luta pra eu esquecer que estou falando de um tema. Assim eu estudo, mas tento depois, através da imaginação, esquecer que eu estou contando a vida do Lobato, a vida do Mário, a Revolta da Vacina.

De alguma maneira, são duas histórias paralelas. Acho que a criança vê bem assim: de um lado é a história real do Lobato e do outro lado é a história que é inventada do Lobato.

P/1– E com esse livro você ganhou o Jabuti.

 

R– É. Esse é do Jabuti.

P/1– E como foi essa experiência? Você consolidava uma carreira?

 

R– Ah! Foi emocionante, foi muito bacana. Eu me lembro que a Bienal era em São Paulo, o ano foi 1998. Fui com os meus pais e meu marido, a gente foi pra São Paulo.

Foi emocionante ali na hora, porque são três. E ali na hora, se dizem o vencedor... Foi muito legal, mas só depois que a gente vê. Não sei, na época a gente não tem a dimensão. Não que seja uma coisa… Só depois que fica “Ah! Prêmio Jabuti!”,  fica uma coisa assim.

 

P/1– Vira uma referência.

 

R –  É, uma referência. Exatamente!

Depois, eu achei que o Mário também, foi o Mário de Andrade… Também eu tento uma coisa diferente, de ir mais na linha da Lígia, de buscar um personagem com uma história psicológica, com uma coisa em relação ao pai, que ele tem que escolher se vai ficar com o pai ou com a mãe - o pai mora na Alemanha. Então, falar disso, dessa questão do menino, foi e bateu com... Foi o Mário de Andrade que me fez pensar assim. E dá essa idéia que é a questão da identidade que ele procura, do brasileiro. E que é a questão da Europa, a questão do Brasil. Fui tendo essa ideia de fazer um menino, tendo esse problema com a família. De não saber se é alemão, se é brasileiro.

Tenho uma linha meio do humor na Ludi e no “Memória de Lobato”, muito forte. No Mário de Andrade, tentei sair um pouco do humor. Ele também foi importante. Eu acho que esses seriam os diferentes.

P/1 – Queria que você contasse um pouquinho do seu processo de criação. Qual é o momento? Como você se dá isso?

R – Eu sinto hoje muita dificuldade. Eu brinco com as crianças, falo se elas acham que quanto mais velho, mais fica difícil. Engraçado porque você sabe que você tem experiência, mas eu sinto muito mais dificuldade de escrever. Sinto muito essa coisa, não sei se é o sofrimento. Tudo mais complicado; antes eu escrevia, não reescrevia tanto. Hoje eu sinto que eu demoro muito mais pra escrever, que é muito mais sofrido hoje.

Eu tenho assim… Eu gosto muito de escrever de manhã. Acho que de manhã a cabeça está muito mais clara, mais fresca. Mas eu comecei a escrever pra TV, então descobri que você não tem hora pra escrever porque na TV tem o prazo. Isso foi torturante. Eu brinco de dizer que roteirista é operário e escritor tem uma vida boa, que não tem o prazo. Escrever pra TV, todo mundo dizia que ia me dar mais rapidez, mas quando não tem ninguém me cobrando, é pior. Quando você não tem… Claro que eu tenho prazos, mas eu nunca entrego no prazo. É uma coisa assim... Terrível, muito angustiante.

No meio do texto vou me acalmando, vou entendendo por que, mesmo tendo trabalhado em roteiro, [em] que a gente pensa o que vai acontecer. Eu desde sempre tenho uma ideia e não penso, não faço. Depois eu comecei a tentar fazer roteiro pra escrever uma história, mas eu sempre mudo. Não sei como vai acabar, não sei o que vai acontecer, vai acontecendo, então isso dá mais angústia ainda. Mas do meio pro final, aí quando [é] a primeira versão, aí está ótima. Que aí é só... Você já vai entendendo os personagens, já vai entendendo o narrador, já vai entendendo tudo. Quando o texto chega ao fim, aí você pode brincar e pentear o texto. Pode ficar lá e é muito boa... Essa hora é muito boa.

 

P/1– Essa experiência na televisão é a da adaptação do “Sítio”.

 

R– É.

 

P/1– Embora você tenha revisitado ou visitado o universo do Monteiro Lobato, ao longo da sua trajetória literária e que, de uma forma ou de outra, ele sempre tenha te influenciado na sua criação, como foi a experiência de realmente tocar e mexer no universo mesmo do Monteiro, que é uma figura tão forte na sua formação de escritora?

 

R– Ah! Foi muito bom. Era o tipo de coisa que eu poderia ter sonhado na faculdade e aconteceu. Adaptar um programa tão querido, que nos anos 70 fez tanto sucesso. Em 2001, quando a gente estreou, a direção queria um programa, uma adaptação fiel, então foi o sonho. A gente podia realmente ser fiel ao Lobato. Mesmo a gente tendo críticas, porque a gente botou Dona Benta com um computador. Teve certas críticas, mas a gente fez tudo de uma maneira delicada porque a gente…

O “Sítio” se passava no ano 2000, então a gente pensou que a Dona Benta… O Lobato diz que a Dona Benta era uma pessoa super antenada, assinava todos os jornais, era uma pessoa ligada, moderna. O Lobato era um cara assim, gostava de cinema, de fotografia, então a gente achou que era claro que a Dona Benta estaria na internet, mas que isso não a faria parar de contar histórias, parar de cuidar da horta. Então a gente fez isso super delicado, mas foi bárbaro. Foi muito bacana.

E o retorno, porque o Lobato é lido nas escolas, mas com o programa, com o boneco, aquilo era Disney pra mim. Você ter a Emília ali, você dá pro seu sobrinho a Emília, o Saci, foi muito legal. Mas foi muito trabalho, porque era uma novelinha,  eram quatro roteiristas só e nenhum era o chefe, então tudo era decidido, era super democrático. Foi uma experiência ao mesmo tempo maravilhosa, mas muito trabalho; eu nunca tinha pensado em trabalhar tanto assim... E em equipe. Foi muito bacana, muito trabalho. E a coisa de trabalhar em equipe... Eu nunca tinha feito assim, trabalho em grupo de redação, de escrever. Como eu sou mais tímida, também foi uma coisa de experiência, de discutir.

Eu era a viúva do Lobato do grupo, brincadeira de dizer, então eu tinha uma coisa assim. O Lobato fala muito a gíria ‘batata’. Eu me lembro disso: “é batata!” Então eu dizia assim: “Ah! Bota ‘batata’, a criança vai entender pelo contexto o que é, porque a Emília fala ‘batatal’, ‘batatissíma’. Vai brincando com a palavra.” Muitas discussões, palavra de vírgula, que deu uma novidade pra mim, discutir o que entrava, o que não entrava. Foi muito legal.   

 

P/1– Queria te fazer uma pergunta, usando a sua experiência profissional. Eu queria que você contasse pra gente como você enxerga a literatura infantojuvenil. A literatura infantojuvenil está muito ligada à formação do leitor, à formação até da pessoa, mesmo. Então tem aqueles perigos dela ser muito moralista ou não. O que a sua experiência profissional veio te ensinando sobre a boa literatura infantojuvenil? O que geralmente ela tem? O que ela precisa ter? Quais os bons caminhos a serem seguidos pela boa literatura infantojuvenil?

 

R– Eu acho que a literatura infantil tem essa tradição de dar a moral da história, mas isso foi uma época, enfim. Os contos de fadas, as fábulas. E eu acho que o Lobato, apesar de a gente pensar bem assim, claro que ele também tinha uma mensagem, que era criativa, “tenha as suas ideias”, ao contrário das mensagens anteriores, de obedecer aos pais, dos anos 40, dos anos 20.

Tento ter cuidado pra não passar essa mensagem, apesar de eu achar que o escritor passa mensagem a todo o momento. Mas eu tento procurar…Por exemplo, na Ludi, eu sinto isso muito, que eu posso dar a voz pros pais e pras crianças; no “Sítio” o Lobato prioriza as crianças. As crianças são os sujeitos da ação, elas que resolvem os problemas, elas que partem pra aventura. Dona Benta e Tia Anastácia só cuidam ali, mas elas não são as criativas. Elas são só a sabedoria.

Eu sinto que na Ludi eu posso dar voz pra todos, todos podem falar, tanto os adultos quanto as crianças, então sinto que tento não fechar com uma mensagem só. Não só a mensagem da Ludi, não só a mensagem da Dona Sandra, da mãe da Ludi. Eu tento dar várias opiniões, dar várias vozes. Mas eu acho que o essencial do escritor é não tentar não fechar o texto, não acabar o texto pro leitor, deixar mais espaço pro leitor, deixar mais possibilidades. Mais abertura no texto. Deixar o texto com mais interpretações, com mais liberdade. Eu tento isso.

“Gata Menina”, eu noto que é um texto… Eu disse aqui que é pra criança pequena, mas na verdade é pra adulto. É a história de uma menina que vira uma gata, que acha que é uma gata, porque não brinca com os pais, não brinca com os irmãos, fica debaixo da mesa e acaba que os pais vão ao médico, porque a menina só mia. E o médico diz que eles têm que brincar com a menina. Então é uma história que é pros pais, é obvio que é uma mensagem pro pais: “Brinquem com os seus filhos”. É um texto que eu vejo mais ligado à mensagem, apesar, é claro, de ter a sua graça. Mas uma das coisas que me atraem muito nos escritores de literatura infantil é a falta de lógica, bem surreal, dessas coisas doidas. Quanto mais doida, melhor; aí o que importa é a linguagem. É o lúdico e não a mensagem mesmo do texto.

 

P/1– Entendi. E quais os planos futuros agora?

 

R – Agora eu estou fazendo... Uma coincidência, é pena que não está pronto. Eu estou fazendo a vida do Machado de Assis, que acho que vai ser pra adolescente. E aí vai ser uma coisa nova, mais pra jovem. Eu já fiz um, mas ainda não saiu, que é a vida do Lampião; aí também achei que é uma novidade, achei que não é pra criança. Mas isso vai ser uma experiência pra mim, porque eu sou uma autora de literatura infantil. Então são esses dois textos, são textos que eu vejo mais um adolescente lendo. Lampião, pelo fato de ser muito violento, a história. E o Machado, por ser uma leitura mais pro adolescente, quer dizer, o Machado... Uma criança, acho que não vai se interessar muito. Isso é uma coisa nova, é estar escrevendo mais pra jovem. É isso: são esses dois, a novidade.

 

P/1 – Última pergunta: O que você achou de contar a história pro Museu da Pessoa?

 

R– Ah! Eu adorei, eu curti muito. Dá uma sensação de viagem no tempo. Muito boa. Espero não ter cansado vocês muito.



 

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