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História

Encantamento pelo trabalho do ICA

História de: Glayson Cintra de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/12/2014

Sinopse

Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, o educador Glayson recorda a origem dos pais também nascidos na cidade de Mogi Mirim. Descreve as escolas em que estudou, as brincadeiras de infância e fala sobre a perda de um de seus irmãos em um acidente de moto. Recorda como conheceu o trabalho desenvolvido pelo ICA durante um desfile de aniversário da cidade de Mogi Mirim. Lembra que antes de ingressar no ICA teve medo de não se adaptar, mas que como teve boa acolhida, se integrou rapidamente. Fala sobre os cursos que fez no ICA e a criação de um grupo de axé com amigos para apresentação em festas. Conta como virou monitor de cursos e posteriormente aos 18 anos, tornou-se educador na instituição. Como educador, relata casos que o marcaram na instituição. Lembra o incentivo da direção do ICA para que ele se aprimorasse e cursasse Pedagogia. Finaliza seu depoimento falando da importância dos recursos do Projeto Criança Esperança para o desenvolvimento das atividades do ICA. 

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História completa

Meu nome é Glayson Cintra de Souza, nasci aqui mesmo em Mogi Mirim, no dia 5 de abril de 1989. Minha mãe é Elizabete Paulínia de Souza, ela nasceu aqui em Mogi Mirim e o meu pai é José Cláudio Cintra de Souza, também nasceu em Mogi Mirim. Minha mãe atualmente é doméstica, meu pai é aposentado, e eles trabalham aqui mesmo em Mogi Mirim, não trabalham fora. Meu pai era professor. Ele era professor e vendia livro espírita. Ele parou agora um tempo atrás, mas por causa da idade mesmo, e agora ele parou de trabalhar. Na verdade, minha família é católica, todo mundo, mas meu pai é espírita. Minha mãe é aquela mãe protetora, cuidadosa, eu sou o bebê da minha mãe. Somos três irmãos e ela é a que mais cuida de mim. E meu pai trabalhou um bom tempo da vida, mas agora ele está mais tranquilo, ele pega mais pesado mesmo no jeito de falar, ele cobra mais firme. A gente pensa que ele está bravo o tempo todo, mas não, é o jeito dele de falar mesmo. Já acostumei com o carinho dele. Eu sou o caçula, tinha o Cléber, mas ele faleceu faz cinco anos, num acidente de moto, e tem o Patrick. Eu sempre morei aqui perto mesmo do Centro, num bairro logo ali próximo, e minha infância sempre foi muito brincalhona, sempre brinquei muito.

Eu lembro que eu ia pra creche quando eu era menor, depois fui crescendo um pouco, comecei a frequentar escola, mas eu sempre tive muitos amigos na infância. Brincava muito, muito, muito na rua mesmo, o tempo todo. Ia à casa dos meus amigos jogar vídeo game. Foi uma infância muito divertida, muito dinâmica. E eu sempre gostei muito de festa, lembro muito disso, que todos os meus aniversários não passavam em branco.  A minha casa sempre foi um terreno grande, era um quintal batido de terra mesmo, no começo eu dividia com o meu irmão do meio. E a gente sempre se deu super bem, minha casa sempre foi muito tranquila. Tinha alguns probleminhas com o meu pai, tal, mas era tranquilo. Tinha um pé de manga na frente, a gente colocava um balanço lá pra balançar, chamava os amigos também pra balançar no pé de balanço.  Primeira lembrança, eu tenho uma lembrança muito boa da quarta série, que foi a primeira vez que eu arrumei uma briga lá na escola e fui pra diretoria. E a diretora, lembro o nome dela, Leila, ela conversou bastante comigo e me acolheu nesse dia. A gente conversou muito mesmo, ela chamou meu pai lá pra conversar. A escola era na rua de casa, então eu sempre esperava o meu amigo, que morava um pouco mais pra cima, e a gente sempre ia junto pra escola, então se ele atrasava, a escola era do lado de casa, mas a gente chegava junto atrasado, porque a gente ia junto.  Na verdade, o infantil era mais pra baixo, o ensino fundamental e médio foram na escola um pouco mais pra cima, perto de casa.

Quando eu era criança, a gente fazia as festas mais em casa, mas era sempre na minha casa, até pelo tamanho da casa, como eu te falei, casa grande, o pessoal gostava, era bem aconchegante e minha mãe também sempre gostava de festa. Então da infância era isso, eram mais festas. E na adolescência, o que mudou foi que as festas começaram a ser em outros lugares, na casa de outros amigos, de vez em quando surgia alguma festa em alguma casa de evento, pra adolescente mesmo.

Como eu ficava muito na rua, minha mãe sempre tinha uma preocupação das companhias, desse perigo que a rua oferece. Eu conheci o ICA foi num desfile da cidade que teve, porque o ICA sempre desfilou nos eventos da cidade. No aniversário da cidade, por exemplo, sempre desfilava. E sempre trazendo essa coisa do circo, da magia e tal. Eu sempre ia com os meus amigos para o desfile. Eu nunca me interessei por isso: pelo circo, teatro. Nunca tive contato com isso, era mais vídeo game, essas outras brincadeiras, nunca tive contato com circo, essas outras coisas, com essa questão da arte. E um dia minha mãe, acho que duas semanas depois desse desfile, ela me falou do ICA, se eu teria interesse de entrar. E eu falei que não a princípio, porque eu queria continuar com os meus amigos. Porque ela falava: “Se você entrar no ICA, você vai de manhã pra escola e à tarde você vai para o ICA, e à noite você vem pra casa”. Eu falei: “Mas como eu vou à tarde? E meus amigos? E meu vídeo game? E minhas brincadeiras de rua, como eu vou fazer? Eu não conheço ninguém lá, não quero conhecer pessoa nova”. Tive um pouco de resistência no começo. Através de uma amiga dela que tinha um filho aqui, ela conseguiu vir ao ICA e fazer o cadastro, e eu fui chamado rápido. Cheguei, todo mundo já fez lá uma rodinha pra conversar comigo, contar como foi, como eu tinha entrado. E logo no primeiro dia eu fiz muitos amigos, muitos amigos mesmo. Fui muito bem acolhido. Todos os funcionários que tinha na época, me lembro da Nicolina, que era amiga da minha mãe e eu não sabia, ela falou: “Ah, você é filho da Bete e tal”. Eu falei: “Eu sou” “Nossa, seja bem-vindo. Nossa, sua mãe falou pra mim que queria colocar você aqui, que bom que ela conseguiu”. Então eu já cheguei, achei que ia ser um lugar estranho, todo mundo já me conhecia antes mesmo de eu saber. Então o primeiro dia no ICA foi bem marcante. Eu tinha 12 anos. Já não estava mais na idade permitida, mas acabei conseguindo entrar pela necessidade da minha mãe de trabalhar, meu pai também trabalhava na época, então não tinha com quem eu ficar sem ela ficar preocupada, acabou dando certo de eu entrar. Quando eu entrei, a gente fazia circo, teatro, música e dança. Tinha a expressão corporal, afetivo sexual e apoio escolar. A gente passava por todas, era uma rotina diária, tinha uma grade, a gente passava por tudo aquilo. Eu fazia de tudo, mas eu mais me identifiquei, na época, com o teatro, que era o que eu acabei gostando de fazer. Como eu te falei, nunca fui muito descolado, mas quando começaram os exercícios de teatro, aquelas dinâmicas, foi o que eu mais gostei. Acho que foi o que eu mais me identifiquei no começo. No circo eu encontrei um pouco de dificuldade nos malabares e na acrobacia, que são o que eu sempre achei mais difícil. Identifiquei-me mais com o teatro. Foi mais com o teatro mesmo. No ICA tem um evento que chama Mostra de Talentos, sempre teve. E eu lembro que entrei no começo do ano, acho que foi em janeiro ou fevereiro. Nesse mesmo ano, em junho, teve a Mostra de Talentos. E como eu já tinha feito bastante amigo nessa época, o pessoal queria montar uma apresentação pra apresentar.  Eu fui, acabei entrando nesse grupo lá de dança, a gente começou a apresentar em vários lugares da cidade, eu consegui conciliar um pouco, o ICA, e de final de semana eu ia apresentar com esse grupo de dança. A gente apresentava na escola, nos comícios que tinha depois na cidade. Depois procurei alguns grupos de teatro também por fora, mas acabou não dando certo, porque tem que ter uma dedicação maior e o tempo não dava, então acabou não rolando. Mas foi mais essa questão da dança fora do ICA. O nome do grupo era Explosão do Axé. A gente conseguiu apresentar no canal da cidade, no canal 44 aqui, na MMTV, Mogi Mirim TV. A gente apresentou uma vez lá o grupo de dança, a gente ganhou uma fita. A gente se viu na TV. Foi superlegal. A gente fez uma festa, inclusive, pra comemorar lá.

Eu sempre fui uma pessoa que conversava muito, explicava muito o que estava acontecendo. Eu falava: “Olha, eu só to te falando isso porque a partir de agora eu também vou ser cobrado por isso, entendeu? Então tenta entender, não é pessoal com você”. Eu sempre tive esse diálogo muito aberto. O pessoal foi começando a entender, isso foi começando a ficar cada vez mais... Foi começando a ficar bom. No começo eu não queria mais ser monitor, eu falei: “Ah, é muito chato ter que chamar atenção dos outros. Não quero isso pra mim”. Mas depois eu acabei gostando, o pessoal acabou entendendo, acabou dando certo. Fiquei dois anos: dos 16 até os 18 anos como monitor. Com 18 anos eu fui contratado pra ser educador. Mas foram dois anos. Na verdade, eu nunca achei que fosse ser professor. Nunca foi uma meta minha, nunca foi um sonho. Depois que eu comecei a virar monitor, eu vi que eu tinha essa paciência, esse jeito pra falar com as pessoas, esse dom de ajudar e de poder ensinar, de saber transmitir algum conhecimento com cuidado pra que o outro entenda. Consegui perceber isso quando eu virei monitor. Mas até então eu não sabia que faculdade eu ia fazer, não sabia que tinha uma faculdade pra ser professor. Inclusive foi o ICA que me incentivou a fazer essa faculdade, a Tarcísia, que é a presidente. Numa reunião a gente fez e ela falou: “Olha, por que vocês não fazem Pedagogia?”. Falou pra mim e pra Dani. Falou: “Acho que é uma área boa pra vocês, vocês já estão atuando como monitores”. Então foi aí que a gente começou junto a fazer essa faculdade. Terminei o ano passado a faculdade, faz quatro anos que eu fiz, de Pedagogia. A gente começou junto, eu e a Dani. No começo foi bem difícil, eu não estava entendendo muito, foi começando a surgir ideias, os professores supercomprometidos, superlegais, a gente começou se interessar pelas pesquisas. E uma coisa que foi bacana, que eu acho que poucos têm oportunidade, é de fazer a faculdade e trabalhar na área ao mesmo tempo. A gente conseguiu fazer isso. A gente dava aula no ICA e fazia a faculdade, muitas dificuldades que a gente tinha em sala de aula, já falava com o professor na faculdade

Eu acho que no ICA, o que acontece com eles é a mesma coisa que aconteceu comigo. Parece meio piegas falar isso mas é que no ICA tem uma essência diferente. Quando você entra aqui, não sei, parece que tem alguma coisa que te move, alguma coisa que faz você não querer mais sair daqui. Talvez seja o tratamento das pessoas, o carinho, o acolhimento que você tem quando você chega é uma coisa muito boa, uma coisa muito diferente. A gente não está acostumado com isso, nem as próprias crianças. Ninguém sai por aí acolhendo, ou abraçando, ou falando uma palavra de carinho. E quando você chega aqui, você tem isso, acho que é um princípio da organização, é esse: o acolhimento, a paciência. A dona Sofia que falava muito isso dessa questão do carinho, do acolher. Então a diferença começa aí, quando a criança chega, ela já se sente acolhida. E depois esse contato direto com a arte. Porque eu acho que a arte proporciona muitas coisas. É como eu te falei, proporciona essa vivência, essa leitura de mundo, essa clareza, essa sensibilidade que a gente tem de lidar com as pessoas, de lidar com o outro, isso traz muito a arte, e a gente vê isso todos os dias aqui. Isso é vivo no ICA, direto.

Na verdade eu via o programa do Criança Esperança na TV, quando eu era pequeno, sempre passava, aquela coisa do final do ano, do Criança Esperança, das doações. Eu conheci através disso. Depois quando eu entrei no ICA, eu fiquei sabendo que o ICA ia ser apoiado por esse projeto. E foi na época que eu fazia parte desse projeto, que eu estava no Carpe Diem, porque foi o Carpe Diem que foi apoiado por esse projeto. E eu fiz parte disso. E eu fiquei muito feliz, fiquei muito lisonjeado de fazer parte desse projeto. Na verdade, conheci quando eu era pequeno, vendo, mas nunca tive uma relação muito próxima. Minha relação mais próxima foi quando eu fiquei sabendo que o ICA tava participando. E eu fiquei sabendo porque foi colocada uma placa lá, teve uma assembleia, todo mundo falou, isso foi falado, teve um pessoal no ICA que foi entrevistar a gente, contar um pouquinho de como era o projeto. Então eu conheci através disso. Eu acho que o recurso que o Criança Esperança mandou para o ICA foi válido pra construir essa nova sede principalmente. Eu acho que esse recurso que foi mandado ajudou a construir essa nova sede e não só o prédio, mas ajudou muito no Carpe Diem em materiais pra gente ter, em materiais pra treino mesmo, enfim, cursos para os professores que tinha na época, passeios que a gente fez vários para museu, pra, enfim, exposições, isso tudo foi com o recurso do Criança Esperança. Inclusive, nessa época foi a primeira vez que eu tinha ido, que eu fui pra São Paulo, no Museu da Língua Portuguesa. Foi a primeira vez que eu tinha ido e foi com esse recurso do Criança Esperança, que mandou para o ICA nessa época, então foi com isso que a gente conseguiu fazer essas viagens. Amplia a visão. Eu não sabia que lá poderia ter esses museus, a Pinacoteca, tem uns parques de diversões, tem muita coisa que acontece em São Paulo, tem exposição. A gente foi ao teatro, fomos assistir A Bela e a Fera, a gente conseguiu ir para o Cirque du Soleil assistir também. Eu não saberia que poderia ter acesso a isso através do ICA, do Criança Esperança que deu apoio.  

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