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História

Empreendedorismo sustentável com a valorização da Arte Nativa

História de: Luzimeire Damasceno Cavalcante
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/11/2014

Sinopse

Luzimeire Damasceno Cavalcanti, a Meire, nasceu em Lábrea, mas foi registrada em Manaus, em 26 de agosto de 74. Seu pai, Airão Moraes Cavalcanti, era motorista naval e morava em Manaus, e em uma de suas viagens conheceu a mãe, Maria José Damasceno Cavalcanti. Meire estudou turismo, trabalhou na Secretaria Municipal de Turismo de Manaus investigando o potencial das comunidades em volta da cidade, mas sempre teve vontade de ter o próprio negócio. Hoje é dona junto com o marido da Arte Nativa da Amazônia, produzindo bolsas e nécessaires com material reciclável.

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História completa

Eu nasci em Lábrea, mas acabei vindo morar em Manaus. Cheguei com cinco anos. Eu não tenho do que reclamar da minha infância... Sempre morei aqui nesse local, praticamente a minha vida toda. E meu pai, apesar de poucos recursos, sempre tentou dar pra gente o que podia. Aqui era um parque de diversões, porque nós tínhamos balanço, escorregador. Ele mesmo fazia pra gente, éramos em três e tínhamos os coleguinhas ao redor. Ele fazia as panelinhas de latinha, frigideira, porque a gente queria fazer tudo de verdade e não de brincadeira.

De Lábrea só me lembro que a gente ia pro barranco, que é a orla, via os barcos por ali, no rio Purus. Eu tenho ainda essas imagens, apesar de nunca mais ter voltado. Tive vontade em alguma época, mas depois não tive mais. Quem sabe volto novamente...

Minha mãe fala que nós fomos bons filhos, então não foi muito turbulenta a nossa vida de adolescente. Eu sempre ia pra escola, vinha pra casa, ia pra igreja, ia pra casa dos primos, dos familiares, mas não gostava muito de festa, de balada, eu era um pouco mais calma.

Quando saí da escola, não sabia qual curso tomar, que direção ir. Na época eu trabalhava num escritório de advocacia e estava querendo entrar na faculdade. E as pessoas diziam: “O curso de Turismo é um curso novo, nós estamos na região amazônica, tem tudo a ver com o Turismo e é um curso que tende a expandir no mercado”. Foi por essa situação que eu realmente fiz o curso, na Faculdade Nilton Lins.

É um curso apaixonante, porque você descobre um pouco da história da sua cidade, da sua cultura, resgata um pouco isso. Eu me apaixonei pelo ecoturismo, tive uma professora que pra mim é uma referência aqui até hoje, o nome dela é Arminda Mendonça. Eu até fico um pouco emocionada quando falo. E consegui resgatar algumas raízes dessa sementinha pra jogar aqui na Arte Nativa.

Meu primeiro emprego foi na La Baguette, foi um restaurante que eu adorei trabalhar, eu tenho boas recordações de lá. Aí depois eu fui pro escritório jurídico. Era uma lanchonete bem tradicional, você encontrava muitas pessoas importantes de Manaus. Foi lá que eu consegui fazer algumas amizades e, dentre essas amizades, eu encontrei dois trabalhos com pessoas muito legais que me deram oportunidade.

Eu só fiquei seis meses no primeiro escritório jurídico, mas foi fundamental pra minha vida de aprendizado. E depois fui para outro escritório jurídico, que é de uma pessoa bem importante atualmente no nosso estado. De lá, aí eu fiz a faculdade de Turismo e depois essa professora que eu falei entrou na Secretaria de Cultura e me puxou pra lá, me tirando lá do escritório.

Trabalhei como turismóloga, fui técnica de Turismo na Fundação Municipal de Cultura e Turismo. Lá a gente visitava as comunidades e desenvolvia alguns projetos também. Ia muito em comunidades, para ver se tinha potencial turístico nelas. E eu adorava fazer esse trabalho, que tinha tudo a ver com a minha graduação.

Eu fiquei cinco anos lá, na época saiu o prefeito e, como éramos cargos comissionados, nós saímos e depois eu voltei, na administração do sucessor, mas logo depois saí. Foi aí que eu pensei em montar alguma coisa, algum negócio próprio. Porque eu imaginei assim, eu adorava fazer o meu serviço lá, mas se você não é concursado, você fica à mercê deles e a qualquer momento pode sair. Eu passei por essa situação e me senti muito frustrada, depois o meu esposo saiu junto, a gente ficou meio que a ver navios. Foi então que pensamos em ter um empreendimento próprio.

Ele era restaurador na própria Fundação, foi lá que conheci. Quando nós saímos, imaginamos fazer algo para vender mesmo. Meu marido já pintava, então tudo partiu mais dele. Ele diz que ele é pintor, cantor, restaurador (risos), é um monte de coisa. Então ele que me inspirou essa paixão pelo artesanato, eu não sabia fazer nada com as mãos, não tinha essa habilidade.

Na época, olhamos a questão do mercado, o que estava sendo discutido na televisão. E a gente viu que estava se falando muito na substituição das sacolas plásticas. E aí tivemos a ideia de fazer sacolas ecologicamente corretas, pegando o trabalho da juta e tentando também resgatar um pouco da valorização da cultura.

Nós formalizamos a empresa em 2010, mas começamos a atividade em 2008. A princípio a intenção era fazer sacolas pra supermercados, mercadinhos. Mas vimos que existia uma grande dificuldade, porque os supermercados não conseguem abrir mão das sacolas plásticas, até por motivo do custo mesmo, porque elas são muito mais em conta e muitas vezes vêm de outros países como China, Bangladesh, Vietnã.

Ficamos um período vendendo as sacolas ecológicas na feira do CIGS, que tem parceria com a ADS, Agência de Desenvolvimento Sustentável do Estado, mas não era um número significativo. Alguns acham bonito, mas nem todas as pessoas têm essa consciência. A gente viu que não conseguiria muitos resultados, então partiu pra outra fase de fazer sacolas pra eventos, como seminários, congressos, feiras.

No início eu só tinha vontade de fazer, mas não sabia pregar um botão, então minha sogra é que tinha algumas máquinas de costura e me ensinou os primeiros passos da costura. A gente começou a fazer algumas coisas na casa dela, depois ela me emprestou uma máquina, eu trouxe pra casa e começamos a nossa pequena confecçãozinha nessa sala.

O nosso primeiro cliente foi que fez com que a gente prosseguisse. Acho que se a gente não tivesse esse cliente, teria tomado outro rumo. É a Bemol, uma loja de departamentos bem consolidada aqui em Manaus. Eles sempre compram as sacolinhas, pra colocar CD, DVD, livro.

Nós somos um grupo formado por três pessoas da família, mas quando temos uma demanda de produção, chamamos as vizinhas pra nos ajudar e no final pagamos todo mundo. Eu digo que se a gente não tivesse esses outros parceiros, talvez a gente tivesse fazendo outra coisa porque não é fácil você montar um negócio praticamente do zero, com poucos recursos, se não tiver parceiros. O Sebrae ajudou na formalização, e o Consulado da Mulher, na organização. Nós também temos um parceiro muito importante que é o Banco do Brasil, que eles disponibilizam os banners e também compram os produtos. Com isso fazemos, as bolsas, os nécessaires.

Na verdade, a escolha do nome, a gente queria um nome assim, que remetesse às coisas daqui mesmo, do Amazonas. Então começamos a imaginar vários, fizemos uma listinha e aí a gente viu que soava melhor, que foi Arte Nativa. Da Amazônia foi só complemento. Queria um nome que pegasse, um nome forte que não se prendesse a um segmento, a um produto.

Meu papel está mais na linha de frente, tentar fazer com que a empresa se desenvolva, captar clientes e trazer pro grupo pra conseguir fazer os nossos trabalhos. Não tenho filho, então meu foco todo é pra Arte Nativa, eu durmo e acordo pensando no nosso empreendimento. Então, eu prezo muito essa questão dos pilares, da sustentabilidade, da valorização da cultura e da geração de emprego e renda pra comunidade.

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