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História

Empreendedorismo para assegurar o futuro da agricultura familiar

História de: Wagner Rogério Bohn
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2013

Sinopse

Wagner Rogério Bohn é um empreendedor rural. Dirigente da Cooperativa de Alpestre (RS). Parceiro do Instituto Camargo Correia, transformou a vida da comunidade. , Aumentou a rentabilidade das suas pequenas propriedades, e renovou o interesse das novas gerações pela agricultura familiar.

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História completa

P/1 – Wagner, primeiro queria agradecer por você estar tirando um pouquinho do seu tempo para dar essa entrevista para gente. E para deixar registrado, eu queria que você falasse o seu nome completo, a data do seu nascimento e o local onde você nasceu.

R – Meu nome é Wagner Rogério Bohn, nasci no dia 21 de junho de 1979, no município de Planalto, Rio Grande do Sul.

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

R – O nome do meu pai é Valdir Bohn e da minha mãe, Izilda Bohn

P/1 – E dos avós?

R – Bom, dos avós era José Portilho e Mariana Portilho e Reno e Renilda Bohn

P/1 – E você sabe um pouquinho da história da sua família?

R – É, conheço um pouquinho da história. A minha mãe perdeu o pai cedo, ele abandonou elas. Até por isso a família da minha mãe é menor, eles são apenas em três irmãos, hoje em dois porque um faleceu. Já do meu pai não, eram nove. A família da minha mãe é luso-brasileira e com uma mistura de poloneses, com a etnia polonesa; as tias dela eram polonesas, tanto é que o idioma ainda hoje é preservado. E da parte do meu pai eles também eram luso, mas com alemão, tanto que a minha avó, de origem luso mesmo, aprendeu a falar alemão, convivia no espaço. E esse pessoal, a maioria veio do município de Ibirubá, depois migraram para cá, com aquela tendência de que aqui, tudo o que plantava dava, a terra era muito fértil. Hoje, quando a gente vai para região de Ibirubá, de onde o pessoal veio, o pessoal fica meio assim: “Como é que nós saímos de lá para vir aqui?” Porque as terras são bem diferentes.

P/1 – E você sabe um pouquinho da história dessa imigração, dessa origem polonesa, como que eles vieram parar aqui no Brasil? Alemã, portuguesa?

R – Eu conheço um pouquinho da origem alemã. Dos poloneses também. Mas todos eles, a maioria imigrou pro Brasil nessa busca de que aqui tinha emprego, aqui tinha terra. E um pouco também por causa da guerra. Esse pessoal saiu, veio pro Brasil e eles foram se colocando, especialmente aqui no Rio Grande do Sul, em colônias onde mais se identificavam. Nós temos bastante alemães na região de São Leopoldo, onde os primeiros chegaram em 1824. E os poloneses também, em virtude da guerra. E aqui no município de Alpestre, especificamente, nós temos comunidades em que a grande maioria, 80, 90%, o que predomina é o alemão, ou, às vezes, o polonês, ou o italiano. Por que o que ocorria? Muitos anos atrás quando o pessoal imigrava, se buscava estar, por exemplo, não tinha como um polonês estar no meio dos alemães, por causa do idioma, eles ainda tinham isso muito forte, o português era muito pouco, então eles começaram a ir onde tem mais da própria raça, por exemplo. Tanto que nós temos algumas comunidades aí que hoje são típicas, ou conhecidas, lá só tem o polaco, ou só tem o polonês, aqui só tem o italiano, só o alemão. Mas muito em virtude dessa busca de novos horizontes, novas terras e uma expectativa melhor paras famílias.

P/1 – E você sabe um pouquinho como seus pais se conheceram?

R – Em uma comunidade chamada Barra Grande, uma comunidade que é a origem da minha família. E tinha o tradicional 25 de julho que é o Centro Cultural. No 25 de julho é o dia em que se comemora o dia do colono e do motorista, né? Mas também se comemora a imigração alemã. Antigamente as festas eram muito famosas, era um dos locais onde mais se reuniam as pessoas. Hoje se você conversar com alguns, eles se lembram: “Ah, os bailes do 25.” “As festas do 25.” Porque a minha mãe era de um, vamos dizer, um lado do município e o meu pai do outro.

P/1 – E qual a atividade dos seus pais?

R – Bom, o meu pai acabou falecendo em 98, ele teve um infarto e morreu com 42 anos. Mas meu pai trabalhou muito com cerealista, ele fazia compara, essa comercialização. E a minha mãe também sempre foi da área agrícola, a gente sempre foi do meio rural, em algum momento, em algumas fases a gente esteve na cidade em virtude de quando meu pai trabalhava nesse cerealista. Mas a origem mesmo todos são do meio rural. E depois, com o tempo, hoje a gente está no meio rural ainda, a gente tem uma propriedade, que eu iniciei um projeto com morango semi-hidropônico agora, com hortaliças, mas também para subsistência. A gente pretende agora fazer um trabalho de inovação que é um orquidário. Mas assim, hoje minha mãe está aposentada, então as atividades dela são os afazeres em casa, mas não de produção.

P/1 – Conta um pouquinho, Wagner, da tua infância, fala um pouquinho da casa que você cresceu.

R – Até esses dias eu passei no interior do nosso município onde foi a minha primeira escola, ainda naquele tempo em que uma fileira era a primeira, a outra era a segunda, terceira e quarta série. A escola hoje já não existe mais, foi demolida, mas isso era no interior, na comunidade de Dois Marcos. Naquela época a minha mãe fazia as atividades na lavoura e o meu pai vinha até a cidade trabalhar nessa cerealista, na época, e alguns momentos lá na propriedade também. Depois a gente acabou vindo para cidade. Fiz todo o meu ensino fundamental, ensino médio em escola pública aqui no nosso município, Escola Estadual Cristo Redentor e sempre buscando inovação, conhecimento, enfim, dentro da realidade que era do nosso município, né, um município pequeno. E a família também humilde, nunca fomos de ter muito, ter bastantes posses, esse tipo de coisa, mas sempre trabalhando com honestidade.

P/1 – Wagner, você tem irmãos?

R – Eu tenho uma irmã, nós somos só dois, eu e uma irmã minha.

P/1 – E conta um pouquinho, quando vocês eram pequenos, o que vocês gostavam de brincar? Como era a cidade para criança, o que era gostoso de fazer?

R – Olha, nós aqui tínhamos um costume de nos reunirmos nos finais de semana, sábados, domingos. Jogar bola. A gente tinha um grupo, se reunia e ia à casa dos amigos. Mas tudo no interior, a gente ir pro interior, ia jogar bola lá no meio do potreiro, que a gente chama lá onde tem o gado. Nós íamos muito também à comunidade onde meus avós residiam. Hoje a minha avó mora na cidade já. Mas lá também tinha a questão do rio, tem o rio Uruguai para ir pescar junto com o pessoal. E depois andar de bicicleta, andávamos muito nessa estrada aqui que nem tinha asfalto ainda, porque o asfalto só veio para cá em 94. Então fazíamos essas trilhas, vamos dizer, só que a gente nem sabia que era uma trilha, mas a gente fazia isso, o pessoal se reunia. Era o que a maioria fazia: se reunir, jogar bola, brincar de pega-pega, esconde, enfim...

P/1 – E qual era a sua brincadeira preferida?

R – A minha, a maioria que eu gostava mesmo era fazer essas caminhadas que a gente fazia, ou mesmo de bicicleta, nós explorávamos muito as cachoeiras, a gente andava muito no meio do mato buscando explorar uma coisa nova. Era isso que a gente fazia mais.

P/1 – E Wagner, na sua casa você chegou a conviver com seus avós? Como era o contato com a família? Você falou da comunidade dos teus pais. Conta um pouquinho essa questão mais cultural.

R – Sim. Tanto que não é que prevaleceu, mas eu tenho uma ligação um pouco maior com a cultura alemã, né? Mas a gente convivia muito com os avós. Por parte da minha mãe só tinha a nonna, que nós chamávamos, porque o marido dela a abandonou e ela acabou ficando sozinha. Mas daí tinha as outras irmãs dela que eram, vamos dizer, que era um condomínio, e ali se prevalecia muito o idioma polonês. Tanto que muita coisa a gente aprendeu também, alguma pronúncia, algumas palavras, algumas coisas, em virtude de que ali era isso. Tanto que a minha mãe e os irmãos entendem hoje, eles conseguem, às vezes não se expressam tanto porque agora não estão falando muito, mas era um jeito. Já lá com meus avós que eram mais de origem alemã era um pouquinho diferente, era uma outra realidade, a família era bem maior, eles eram em nove irmãos, numa outra comunidade maior, com algumas tradições, mas a gente convivia. Lá na minha avó, por exemplo, na Barra Grande, a casa era enorme, se fazia muitos dos produtos, se pegava muito a questão do polvilho para fazer as roscas típicas alemãs que se sabia fazer na época, que a gente também ajudava em alguns momentos. Então, teve um convívio muito bom.

P/1 – E como eram as festas de família na tua casa? Natal, aniversário eram comemorados?

R – Sim, eram comemorados, se reuniam e na grande maioria das vezes a gente se reunia e paraticamente a cada ano era numa casa diferente. Então, hoje é numa comunidade no tio tal, na tia, todo mundo ia lá, cada um levava alguma coisa e passava o domingo, o sábado. Mas tinha muito isso presente.

P/1 – Você falou um pouquinho da culinária, conta um pouquinho das comidas típicas, do que você mais gostava, o que você não gostava?

R – Olha, as comidas típicas daqui da nossa região, por exemplo, da família em si é que nem eu disse, cada um tinha uma cultura, né? Por exemplo, a origem polonesa, ela tem um que eu gosto muito que é o tal de pierogi, que é um pastel de requeijão, vamos dizer, que é muito bom. E hoje também depois a gente foi conhecendo mais, tem uma das sopas mais famosas, uns dizem que aqui que está a melhor sopa do Brasil, que é a czarnina, que é uma sopa de sangue de pato, que é um parato típico polonês. E do alemão, muito que a gente gosta e até hoje se faz são as cucas típicas, que seria um bolo, mas é uma cuca que é baixinha com muito recheio de fruta. Quem já degustou de uma cuca típica alemã sabe do que eu estou falando e com certeza também gosta. E alguns outros paratos de origem, com a carne suína também, que era muito feito o chucrute também, que é um repolho com salsicha e tal. Isso ainda não é tão fora, a rosca de polvilho, que eram feitos aqueles cafés, não era um café colonial, mas era um café para família, então a mesma era farta e com muita coisa desse tipo.

P/1 – E conta um pouquinho, Wagner, o que você queria ser quando crescesse?

R – Olha, depois que nós viemos para cidade, uma das coisas que eu sempre quis foi estudar, concluir os estudos e tal. Eu iniciei no Cristo e em 95 surgiu a oportunidade, através do Poder Público, de oferecer os estágios pelo CIEE. E eu fui um dos selecionados na época para trabalhar na Prefeitura. Então eu iniciei em 95 algumas atividades na Prefeitura através do CIEE. A gente estudava à noite e durante o dia trabalhava. Antes eu sempre estudei de dia, de manhã ou à tarde, mas em virtude de surgir essa oportunidade de ter um emprego e tal. O meu primeiro emprego mesmo foi em uma eletrônica, eu comecei trabalhando numa eletrônica e daí eu vi que poderia evoluir mais e fui para a Prefeitura. Nesse período, eu sempre considerei assim, eu fiquei dez anos na Prefeitura, uma parte como estagiário e depois uma parte como cargo de confiança. Eu sempre considerei dez anos, cinco de avanço e cinco de estagnação. Porque assim, naquele período que eu entrei em 95 você tinha um certo status estar trabalhando na Prefeitura. Só que depois que a gente foi ver que você meio que se estagna na coisa. Eu me formei em 97 no ensino médio e queria fazer faculdade, só que a faculdade quem teria que fazer era eu e me bancar. Então, aí nós fizemos um vestibular, até foi em Chapecó, de 230 inscritos eu fiquei em décimo oitavo numa classificação para fazer Administração. Eu fui fazer a matrícula e o meu salário todo da Prefeitura foi para fazer a matrícula. E depois? Eu acabei indo um dia na aula, em Chapecó, e tranquei porque não ia ter como. Foi em 97 isso, que a gente logo depois iniciou essa busca pela faculdade, tal, acabei desistindo e fiquei um período fora da universidade.
 
Aí, resolvi fazer um desses cursos à distância, iniciei e surgiu depois uma oportunidade, através do município aqui, proporcionado para filhos de agricultores, jovens ou pessoas que tivessem interesse, em fazer um curso voltado para agricultura familiar. Nós iniciamos o curso ali em Frederico Westfalen, na URI [Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões], que na época tinha o nome de curso superior Tecnólogo em Agrozootecnia, Agro de Agronomia e Zootécnica, da Zootecnia, para animais. E aí eu comecei esse trabalho. Foi um período que eu tive que optar por algumas coisas, foi bem difícil porque o curso era de dia, nas quartas, quintas e sextas, ou seja, eu estaria manhã e tarde na universidade, então me sobrava só dois dias para trabalhar. E aí, claro, a gente tinha uma ajuda de custo da Prefeitura, mas não era suficiente ainda, tinhas as outras coisas para você se manter. Mas a gente conseguiu superar isso e deu bem certo. Em 97 eu me formei no ensino médio e dez anos depois eu me formei no ensino superior. E a gente sempre está buscando aperfeiçoamento. Agora recentemente eu terminei uma pós-graduação em cima do Cooperativismo que a gente fez, buscando sempre esse aperfeiçoamento. Agora já estamos buscando, possivelmente vai surgir algo na área de mestrado e doutorado em cima do Cooperativismo, que é a área que a gente vem atuando, e a gente meio que focou nisso agora. Mas a gente sempre teve aquela busca pelo conhecimento, sempre estudar, não tinha específico: “Ah, vou querer ser isso, vou ser aquilo.” Porque a gente sabia das condições e a realidade que a gente vivia, né? Então, claro que depois, quando eu iniciei nesse curso do Agrozootécnica, eu nunca me esqueço que o nosso coordenador na época, o professor Lauro Samavila disse: “Vocês estão vindo aqui.” Porque eu fui para conhecer o curso e acabei ficando: “Vocês estão vindo aqui para ser empreendedores e não empregados. Vocês vão sair daqui como empreendedores, vocês vão estar empreendendo nos negócios de vocês, quem tem propriedade.” Na época eu não tinha propriedade, depois eu acabei adquirindo uma, para desenvolver o meu projeto. E isso me marcou porque fazia um bom tempo que eu estava ali naquele meu mundo, acomodado, na Prefeitura, de: “Ah, está na Prefeitura, está ganhando um valor x’ e tu te mantém ali, né?” Cidade pequena, manutenção também é pouca, mas assim, quando surgiu essa oportunidade, opa, então ali é diferente, algo que a gente vem empregando até hoje.

P/1 – E Wagner, eu vou querer saber um pouquinho mais do teu curso, se é um curso bacana, porque também foi um projeto interessante. Mas eu queria saber um pouco das suas lembranças escolares mais antigas. Você falou que estudou na escola na época que tinha uma linha para cada série, né? Conta um pouquinho o que te marcou nas escolas que você estudou, assim, de professor, de colega, de amigo, o que você traz com você até hoje

R – Bom, nessa escolinha que eu falei que uma fileira era a primeira, segunda, terceira e quarta série, se não me engano, eu fiquei só seis meses porque depois nós tivemos uma mudança, saímos do interior e viemos para cidade em virtude que meu pai, que vinha todos os dias e voltava à noite, a demanda foi maior e acabamos vindo. Ali a gente não tinha transporte escolar, íamos a pé, fazíamos em torno de dois, três quilômetros a pé, com chuva ou sol. Aí passávamos por algumas propriedades que tinham um monte de cachorros, os cachorros não ficavam presos, às vezes, eles corriam atrás, a família tinha que estar meio atenta. Então, eles já sabiam que em tal horário passa a piazada passava para ir para aula, ou estava retornando, então o proprietário ficava cuidando. Eu me lembro que nessa comunidade a gente passava pela família dos Canali, onde era meu ponto de parada para tomar água, daí tinha um colega que também ia junto para aula. E depois a gente veio para cidade e na cidade eu sempre procurei estudar de manhã, até que a gente conseguia estudar de manhã eu estudei. Depois de tarde e acabamos até indo pro noturno. Mas uma das coisas que marcou é que eu sempre procurei, e acabava me envolvendo com a comunidade escolar, né? Por exemplo, no Cristo Redentor, a escola estadual aqui, eu fui o primeiro aluno que fez parte do conselho escolar quando abriram as portas para pais, alunos, funcionários e tal. Eu fui o primeiro. Depois de um período eu também fui presidente do grêmio estudantil, que eu não acho muito bonito esse nome, grêmio estudantil, eu preferia que fosse interestudantil, mas afinal, também fizemos uma série de mudanças. Naquela época também tinha bastante jovem, nós tínhamos muitos, hoje diminuiu bastante, mas algo que sempre marcou, que a gente sempre esteve envolvido, sempre fazendo alguma coisa junto com a comunidade escolar, ou com a própria comunidade em si. E os colegas, muitos colegas marcaram, até hoje a gente lembra, tanto que nós até estamos pensando agora, ou em 2014 ou 2015, fazer um encontro dos ex-formandos de 97. Até esses dias mexendo nas minhas coisas lá, que eu tenho muito material guardado, eu encontrei os boletins dos meus colegas, de quase todos. Porque como nós nos formamos no terceiro ano, ninguém mais ia buscar o boletim porque não precisava. Passou, e eu encontrei, até esses dias eu conversei de uma colega, eu disse: “Olha, acho que vamos fazer um encontro e daí vamos entregar o boletim que o pessoal não tirou há dez, 12 anos atrás”. E os colegas, muitos marcaram. Hoje, a maioria nem está mais aqui, são poucos que ainda residem no nosso município, a maioria saiu, buscou outras oportunidades. Mas foram momentos bem interessantes.

P/1 – Você contou um pouquinho da infância. Como era na juventude aqui na cidade? No Planalto... Conta um pouquinho o que os jovens faziam, como era para os adolescentes morar na região?

R – Bem, eu nasci em Planalto, mas depois cresci aqui em Alpestre, né? Até porque na época acho que não tinha hospital aqui, o único hospital que funcionava era em Planalto. Aqui em Alpestre, no tempo era muito forte - hoje claro que não na intensidade que se tinha na época - o que a gente chama aqui de bailões, os bailes, nas comunidades. Tinha numas comunidades específicas, que eram os bailes tradicionais, as festas. Senão a gente sempre arrumava um motivo, alguém estava fazendo aniversário, então o pessoal se reunia para fazer alguma festa, alguma coisa nesse sentido. Mas aqui nunca teve, por exemplo, cinema ou boate, esse tipo de coisa. Não existia. Depois, de um tempo para cá começou a surgir alguma coisa meio que parecida, mas ainda era algo mais de você ir até as comunidades, então o pessoal se reunia. Numa época nós também tínhamos um grupo de jovens da igreja, então a gente se reunia mais para atividades na igreja.

E depois tinha os momentos de experiência, troca de experiência, conhecer outros municípios. Eu me lembro que a gente fazia muita excursão para Frederico Westfalen, nós saíamos para ir conhecer um outro município, uma outra realidade. Ou mesmo Iraí, que hoje é pertinho, são 30, 50 quilômetros, mas naquela época era tudo novo. Conhecer, a cidade maior que a gente conhecia era Frederico. Então, foi um período que marcou bastante.

P/1 – E teve alguma festa típica tradicional que tenha marcado a sua juventude?

R – Sempre marcou muito nessa comunidade que eu falo, da Barra Grande, que era a comunidade onde a gente participava mais porque tinha os familiares lá e por ser tradicional, muitas coisas a gente sempre ia. Então lá teve muita festa, muita coisa que aconteceu que marcou, que as pessoas lembram até hoje. Claro que mudou muita coisa. Depois as tais evoluções, vamos dizer, nós tínhamos um salão antigo lá; um salão que a gente, na hora da gente decidir se tiraríamos ele ou não para construção de um novo, eu votei para que não derrubassem aquele e fizessem um outro em outro local porque lá teve muita história, muita coisa aconteceu. Mas fomos voto vencido porque uns achavam que o pavilhão estava caindo, porque ele era todo de madeira. Mas a madeira que estava lá era uma madeira que não se acha hoje, então muita coisa mudou. Hoje o pavilhão é diferente, tem uma capacidade maior e tal, mas só que também nesse período diminuiu também o número de pessoas. Antes o salão lotava com facilidade, não que ele era pequeno, então parecia que tinha mais calor humano. As pessoas agora ficam mais dispersas, parece que a festa não é mais tão como antigamente, até porque diminuiu. Mas uma das festas que marcavam muito foi nessa comunidade. E outros depois que surgiram também. Na época nós ajudávamos também um programa de uma rádio aqui, da Rádio Ametista, Sexta Especial, que a gente fazia um evento do ano para colaborar com a Apae; a gente estava sempre ali participando, era um evento que marcava muito, as pessoas vinham bastante participar, o movimento era grande, são coisas que marcam.

P/1 – E você contou que o primeiro trabalho foi começar a trabalhar com eletrônica. Você lembra o que você fez com o seu primeiro salário?

R – Não me lembro mais! Ah, não me lembro, mas foi uma experiência muito boa, né? Tanto que hoje tenho uns colegas que continuaram nesse ramo. Eu tinha pavor de instalar ou consertar rádio de carro. E hoje tenho um outro colega que também iniciou junto, hoje ele tem a eletrônica e trabalha com som de carro. Mas para ver as adversidades, eu que não via, mas também foi uma experiência boa, o que eu aprendi lá na época eu sei, a gente pegou; mas eu me lembro até que nós tínhamos um valor fixo, mas depois mais era porcentagem pelos consertos, então, não tinha um valor lá muito expressivo.

P/1 – Mas o dinheiro do seu salário você usava para ajudar em casa?

R – Ajudava em casa e também para questão na escola porque na época eu estudava, tinha que comparar material. Nós tínhamos que comparar uniforme, depois que a gente foi pro noturno, à noite não tinha uniforme, não era obrigatório, mas durante o dia sim. Então a gente sempre teve que ajudar nas despesas de casa, normal, e ainda se manter.

P/1 – Conta um pouquinho agora para gente da Prefeitura, as funções que você desempenhou, primeiro essa fase de estágio. Fala um pouco da sua trajetória na Prefeitura.

R – Bom, eu comecei a atividade na Prefeitura trabalhando nos primeiros seis meses no Departamento Pessoal, era uma época que alguns estagiários estavam saindo. E também teve um período que houve um concurso público, pois o Tribunal de Contas vinha cobrando que não poderia ser estagiário, nem cargo de confiança, tinha que ser um cargo concursado, seguir carreira ali dentro. Aí foi feito um concurso público, eu saí do Departamento Pessoal e fui para Secretaria da Fazenda no setor de produtores rurais. Lá eu fiquei mais seis meses. Depois um outro colega saiu e eu fui pro Departamento de Compras e Licitações e lá eu fiquei o resto do meu período de Prefeitura, sempre ali nessa parte de licitações, contratos, editais, enfim, de compras. Não era só eu que fazia, eu fazia a parte mais burocrática e aí tinha o diretor do departamento também. Foi uma experiência muito boa, a gente teve períodos ali, a questão de conhecimento, do que hoje a gente consegue fazer, um pouco do que a gente conhece, é em virtude de ter tido essa oportunidade. Tanto que para entrar na Prefeitura, nós fizemos curso de datilografia no Colégio das Irmãs. Pagamos 50 reais para fazer o curso e nós íamos lá todas as tardes aprender datilografia. Até porque na Prefeitura tinha dois computadores, e ainda do tempo que o disquete era um negócio assim, a tela toda verde. Aquilo lá, meu Deus, o computador, então a gente usava muito a máquina de escrever na época. Depois houve a aquisição de 15 computadores, aquilo foi uma revolução, o pessoal ficou acho que 30 dias fazendo curso como liga, como faz. O e-mail, ninguém sabia o que era e-mail, que você podia mandar mensagem. E, às vezes, nós íamos de sábado e domingo lá digitar texto para aprender pegar prática. Eu sei que a Prefeitura tinha o Cidão, que era o Cid, a marca daquele computador, era um só. Tinha um que era na Contabilidade e depois tinha outro na Secretaria de Administração que a gente usava bastante, e o resto era tudo ali. Então assim, para ver que houve muita evolução de quando a gente entrou. A gente aprendeu bastante. O que eu considero um pouco de estagnação é de você se acomodar. Você se acomoda, você está numa condição boa, na época trabalhar na Prefeitura teoricamente era um status bom, você “ah, Prefeitura e tal”. Mas assim, depois a gente começou a perceber que a expectativa financeira também era aquela, né? Então você não iria. Eu estava preocupado, um pouco assim, eu vou chegar e não vou me formar nunca, não vou ter uma profissão, o que eu vou querer? Quando eu pensei, eu vi que não ia dar. E depois a gente tomou algumas atitudes que não me arrependo nem um pouco de ter feito. Não foi fácil não porque o que a gente ganhava ali era pouco, tinha que ir se mantendo, a universidade, a gente tocava o semestre, depois ia lá e renegociava algumas coisas, pagava algumas, outras eram renegociadas, e aí ia indo, isso que a gente tinha uma grande ajuda do município. Mas nesse período dá para dizer que muita coisa a gente aprendeu, do conhecimento que tenho hoje, que   uso até hoje, é em virtude dessas oportunidades. E o estágio também serve para isso; eu saí pro estágio, fui num período que o estagiário podia fazer três anos, hoje são só dois e depois continuei trabalhando a convite dos próprios prefeitos como cargo de confiança, pela experiência, pelo conhecimento que tinha e também pela credibilidade.

P/1 – Como que foi essa entrada na faculdade? Quais foram as expectativas de começar a aprender?

R – É como eu disse, quando eu fui para faculdade, eu comecei a fazer nesses cursos virtuais, a gente tinha um dia na semana Turismo, que é uma área que também me interessava. Hoje também dentro da Cooperativa nós também estamos trabalhando em cima de turismo rural. E surgiu essa oportunidade de fazer esse curso, mas eu entrei um pouco à convite, na época, do Secretário da Agricultura, que disse: “Não, o município paga 50%, vocês têm o transporte”. Porque era uma dificuldade, a Prefeitura botou transporte, e nas outras nós tínhamos que pagar e às vezes dava 100, 150 reais só de transporte porque ou ia a Frederico ou a Chapecó. E bah, é na área agrícola, dá para desenvolver muita coisa. Enfim. E aí eu pensei: “Não, mas eu já estou estudando.” “Não, mas daí lá você não precisa pagar, vai pagar só um pouco.” E acabei indo então. Eu não me esqueço, eu fui no dia 17 de agosto de 2005. Eu fui para conhecer o curso, saber como ele era, como que não era, o que poderia fazer, para depois eu voltar e fazer uma análise se eu iria continuar ou não. O pessoal já tinha iniciado a turma, já estavam começando. E aí que eu vi que o professor falou dessa questão de ser empreendedor e não ser empregado, e eu também comecei a fazer algumas avaliações minhas, internas, sempre vou ficar na Prefeitura ou como é que vai ser e não.

E naquela época começava então na quarta, quinta e sexta, e na quarta-feira nós tínhamos aula manhã, tarde e noite. E acabei indo, acabei ficando na aula, já no outro dia fui de novo porque daí o nosso micro retornava, nós chegávamos aqui em torno de meia-noite e às seis de manhã saía de novo porque começava a rotina de novo. Acabei indo e aí, numa área, vamos dizer, não nova, mas a gente sempre estava no meio rural, mas com aquela, fica no meio rural um pouco, saía, vinha para cidade, então a gente era meio urbano e meio rural. Depois até me preocupou um pouquinho porque eu não tinha uma propriedade para desenvolver o projeto, porque no início já do curso a gente tinha que focar na propriedade, desenvolver o seu projeto de vida profissional, o que você queria. E depois vem a história da Cooperativa, das agroindústrias porque como eu não tinha terra, não tinha um local para fazer isso, eu pensei em desenvolver nas estruturas que tinham ali no município, que foram construídas para agroindústrias e nunca funcionaram, para gente poder desenvolver alguma coisa focada nesse projeto das agroindústrias, de poder viabilizar aquela estrutura. Porque era uma estrutura que o município na época cedeu, dizendo: “Pode desenvolver o projeto e se ele funcionar vocês podem tocar o negócio.” Um pouco disso. Mas claro que no decorrer do tempo eu consegui adquirir também uma propriedade que fica perto da cidade, mas que a gente começa a enxergar umas coisas de negócio que vê como empreendedor.

Mas esse período de faculdade não foi muito fácil não porque agora já mudou, já tem um outro ritmo, ele mudou de nome também. Só a nomenclatura, mas os objetivos são todos os mesmos. O curso, quando o MEC veio fazer uma avaliação, os conselheiros que estiveram ali, eles recomendaram o curso pro Brasil, pela qualidade de ensino, pelo objetivo dele, o que ele estava fazendo e o que estava proporcionando. Tanto que hoje o curso também alavancou um pouco porque nós, hoje aqui como Cooperativa do Extremo Norte não deixa de ser um certo fruto, ou um filho da própria universidade junto, em virtude do curso também. Mas foram períodos bem puxados porque a gente conseguia trabalhar de segunda à terça apenas e, às vezes, alguma coisa no sábado. Tinha então essa dificuldade financeira e depois de se deslocar, nós saíamos todas as quartas, quintas e sextas para Frederico Westfalen, todos os dias. Lembrando que quando nós íamos não tinha asfalto, era chão. Na sexta nós retornávamos, daí fazendo o interior do município de Iraí e outros do nosso interior para então entregar os colegas nas suas comunidades porque durante a semana eles iam, uns ficavam em Frederico, outros ficavam aqui na cidade, tal, então foi um período bem puxado. Às vezes, faltava dinheiro para comer, ou tinha que tirar xerox e daí tirava xerox e não comia, ou comia e não tirava xerox, então sentava com o colega. Foi um período assim, mas que com certeza valeu a pena porque hoje a gente está colhendo frutos do conhecimento que se adquiriu lá.

P/1 – E agora eu queria saber como é que começou. Você começou a falar da Cooperativa, fala um pouquinho dessa primeira parte.

R – Então, como eu disse, nós tínhamos que construir nosso projeto de vida, e aí a gente via lá. Um colega tinha lá: “Ah, eu tenho a propriedade, trabalhamos com grãos, leite, fruticultura.” E eu não tinha isso, não tinha estrutura. Como alguma coisa, já tinha algum envolvimento com a questão de agroindústria e tinha conhecimento de algumas coisas, nós acabamos conversando com meu professor, eu perguntei para ele se não poderia ser. Ele disse: “Claro, o projeto pode ser na tua propriedade ou pode ser para comunidade.” Então meu projeto seria um projeto mais amplo. E nesse período a gente veio, conversou com o município, na época prefeito e secretário, para ver se a gente poderia desenvolver um projeto ali nessas estruturas. E até onde eles colocaram que esse era o foco. E aí nós acabamos focando nessas estruturas que já tinham sido construídas há tempo. E nesse período de discussão, de agroindústria, de ver, a gente foi conhecer diversos locais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, experiências, associações. Mas daí a gente começou a ver que sem ter uma Associação ou uma Cooperativa a coisa não ia funcionar. Então a gente começou a conhecer um pouco mais de Cooperativa. E a ideia inicial era criar uma cooperativa das agroindústrias, só das agroindústrias. Até porque nós fomos para Crissiumal, aqui no Rio Grande do Sul, que hoje é um exemplo de agroindústria e organização, aí a gente foi lá e eles tinham uma cooperativa das agroindústrias. É claro que eles têm 40 e poucas agroindústrias. E nós começamos a ver. Mas depois, na pesquisa e troca ideia aqui, conversa, a gente foi ver que uma das demandas que a gente tinha, e em virtude de ter iniciado também o curso, foi que os agricultores começaram a solicitar investimento na agricultura e o prefeito pensou: “Como é que a gente vai fazer?” Então na época do prefeito Valdir Zasso tomou a iniciativa, e isso foi um projeto pioneiro, de investir nos filhos dos agricultores. Porque, por exemplo, hoje você faz um concurso público, ele é público, então pode vir gente aqui de Alpestre, de Planalto, do Pará, de Rondônia, de São Paulo, pode vir fazer concurso público aqui. Mas às vezes a pessoa que faz o concurso, por exemplo, para ser técnico rural, a realidade de alguém que está lá em Rondônia é muito diferente da nossa realidade. Nós já tivemos essa experiência, as pessoas vieram e depois acabou até elas mesmas saindo porque elas diziam: “Essa não é a minha realidade, eu não consigo trabalhar nesse sistema.” Então se investiu em cima desse curso capacitando os filhos dos agricultores, a ideia seria que eles pudessem estar na sua propriedade e também na própria comunidade e município depois colaborando com algumas coisas. E nesse período a gente começou a ver que uma cooperativa só das agroindústrias poderia, mas para uma agroindústria sobreviver é preciso de matéria-prima, ela tem que ter produto. Como é que nós iríamos ter produto paras agroindústrias se nós não iríamos ter os envolvidos que produzissem a matéria? E aí que a gente foi ver.

E aí uma outra necessidade, na questão de assistência, quer dizer, as instituições que estão hoje no nosso município não dão conta do recado, o município nosso é grande, e a demanda e a carência hoje é grande. Como o foco do curso era esse também de profissionalizar e ter pessoas que pudessem ter essas condições, a gente pensou: “Então, por que não ter uma Cooperativa ou uma Associação que pudesse trabalhar orientação técnica, essa assistência técnica, fazer extensão rural nessas famílias, ter envolvido os agricultores na produção de matéria-prima, poder agroindustrializar e ter um outro foco, que era um dos grandes gargalos, a comercialização. Quem é que vai fazer a comercialização desses produtos depois? E aí que a gente pensou na criação de uma Cooperativa Mista, ou seja, faz tudo: presta serviço, orientação técnica, produção da matéria-prima, agroindustrialização, comercialização, que fizesse um pouco desse trabalho. Porque a ideia também sempre foi de uma cooperativa menor, não grande, tanto que nós ficamos 20 associados por praticamente três ou quatro anos, somente com o número mínimo de associados.

Os nossos associados depois começaram a entrar quando eles entendiam o que era o cooperativismo, o que era a Cooperativa do Extremo Norte, para que ela veio, e aí sim: “Oba, então acho que eu posso fazer parte.” E na época, quando nós fundamos a Cooperativa, nós fomos ver a burocracia era muito grande. Muito questão de ata, de estatuto. Para você ter ideia, nós fizemos a nossa ata de fundação oito vezes. O estatuto não, mas a gente fez algumas alterações, algumas mudanças, até conseguir aprovar em virtude de legislação. Só que veja bem, nós pensávamos no início de ter, sei lá, cem associados no início. Mas por exemplo, deu um problema na ata, tinha que consertar, tem que correr, reunir os cem, ou ir em cada casa e coletar de novo a assinatura. E a gente viu que isso ia dar muito problema. Os agricultores também estavam um pouco desacreditados na questão do cooperativismo por alguns maus exemplos na região, a maioria com leite, grãos e tal. Mas aí nós fizemos as contas, quando iniciamos o curso na época, lá na faculdade, éramos em 26. Aí penera aqui, ajeita ali, ficou 20. E esses 20 se formaram. Então, nós discutindo lá até um dia foi lançada a ideia de que estes 20 jovens, que eram agricultores, nós tínhamos, se não me engano, só dois colegas que não tinham vínculo direto com a propriedade, os demais todos tinham, mas nada impediam eles de associarem, estarem fazendo parte. E de nós então, desses 20, fundar a Cooperativa porque se precisasse fazer uma reunião nós estávamos quarta, quinta e sexta dentro do micro e praticamente reunidos nos dias. E foi o que aconteceu; nós fizemos a proposta, mas daí um colega não quis aderir ao projeto, disse: “Não quero.” E aí nós fizemos um convite para um agricultor que já tinha um processo mais avançado, que até hoje é o Presidente da Cooperativa, que tem uma grande usina de derivados de cana-de-açúcar. A gente convidou ele, que era apenas um agricultor que não estava ligado direto com nós, para fechar o número de 20. E foi o que a gente fez, porque aí a gente refez algumas vezes esses documentos, mas o grupo sempre estava ali. E aí que eu digo que a universidade também fez parte em alguns momentos porque em muitas aulas nós, ou seja, o professor cedia o espaço, e a universidade também, o espaço da sua aula e o espaço físico, para fazermos as reuniões, acertar alguns detalhes da Cooperativa, como vai ser, como não vai ser, o que nós estamos pensando, quais são as ações que elas vão fazer. Então, partiu disso.

E aí, nós a fundamos no dia oito de maio de 2007. Nós apresentamos em 25 de novembro, ela já teria dois anos antes que é o processo que a gente começou a construir. Então no dia 25 de novembro de 2005 nós fizemos uma apresentação aqui no nosso município, todos os acadêmicos na época, porque nós tínhamos esse grupo só de Alpestre que ia para lá, e lá nós nos juntávamos com alguns outros de outras regiões. Mas no dia 25 de novembro nós fizemos a apresentação dos nossos projetos, que isso não deu seis meses de aula e nós já tínhamos que apresentar o nosso trabalho de conclusão, do que nós queríamos, então aquilo já mostrou que o curso já era diferente até nisso, você já estava instigado desde o início a buscar aquilo ali. E no dia 25 de novembro foi quando eu apresentei a proposta da criação da Cooperativa, que a gente já tinha discutido algumas coisas e tal, do que seria. Na época também tinha as famílias dos jovens, eles puderam também opinar e dizer se sim, ou para que lado, vamos focar onde. E aí, claro, depois absorvendo a ideia que nós começamos a lapidar mais. Então, por isso que eu digo, oficialmente dia oito de maio de 2007, mas a proposta foi lançada no dia 25 de novembro de 2005, então já tem juridicamente seis anos, senão teríamos mais dois, oito anos para dizer. E aí sim foi focado nessa questão: produção, agroindustrialização, prestação de serviço, a questão de comercialização e de inovação na busca de novas tecnologias, que depois nós fomos absorvendo a Casa Familiar Rural, que nós entendíamos que a Casa faz o trabalho de qualificação, de capacitação dos filhos dos agricultores. O curso de tecnologia na época que nós fizemos, esse superior de Agrozootecnia, a metodologia dele foi baseada na Pedagogia da Alternância que é das casas Famílias Rurais. Tanto que hoje ele teve algumas alterações, não precisava ir de segunda à sexta, nós íamos às quartas, quintas e sextas. Hoje, para tu ter uma ideia, já é diferente, só tem à noite. Por quê? Porque também você vai ter que se adequar a algumas coisas, a mão de obra nas propriedades está muito pouca, hoje tem o pai e a mãe, mais um filho ou dois no máximo. Então a mão de obra está pouca na propriedade e para este jovem estar saindo direto também desfalca lá e a propriedade começa a ter alguns problemas. Então isso o curso também foi se adaptando e mostrando, e trabalhando dentro da realidade que é onde esse grupo de jovens está inserido.

E aí então surge a Cooperativa, começa as suas atividades. No início, quando nós fundamos, não tínhamos ambiente para receber, ainda estamos melhorando essa questão de termos uma estrutura e tal, mas quando nós começamos, resolvemos que teríamos um local. Então a Secretaria, na época, cedeu uma sala para gente ir lá. Cederam também um computador para gente digitar algumas coisas e tal. E aí surgiu a oportunidade de irmos pro prédio ali onde estamos hoje, onde tem indústria de suco, classificação de laranja e tal, de nós usarmos uma salinha que tem lá para começar a dar um pouco de visão da Cooperativa, que ela existe, tem um local; por exemplo, eu procuro a Cooperativa, onde é que ela está? Porque até no início muitos perguntaram: “Onde é que vocês vão abrir o supermercado? Vocês vão ter agropecuária?” Porque esta era a visão das Cooperativas da região, se você fundasse uma Cooperativa, ela ia ter um supermercado e uma agropecuária. E desde o início a gente disse que nós não iríamos ter supermercado e não iríamos ter agropecuária. E acho que por um bom tempo ainda não vamos ter porque não é esse o nosso foco. Até porque a gente sempre falou: “Hoje tem empresas que fazem isso, já tem agropecuárias, tem uma demanda muito grande, então nós não precisamos fazer isso que eles já vêm fazendo.”

E aí nós começamos esse trabalho só que assim, assistência técnica, nós firmamos um convênio com a Prefeitura na época; aí, como não deu outra turma, o recurso que o município passava para universidade, em custeio de mensalidades e tal, nós fizemos um outro convênio com a Cooperativa e a Prefeitura passava esse recurso para manter as atividades da Cooperativa que é onde nós usávamos para pagar o pró-labore dos técnicos e tal. Na época eram dez mil reais, esse convênio ficou até abril deste ano, depois agora a gente teve a finalização dele. E esse pessoal, nós prestávamos serviço para os agricultores, nós tínhamos um compromisso de atender até 200 propriedades/ano. Só que assim, a gente teve muita dificuldade porque nós íamos à casa do agricultor prestar assistência técnica, nós íamos lá, falávamos de poda, falávamos de tratamento, mas nós não tínhamos o produto para vender. E aí, o agricultor, às vezes, ia lá na agropecuária e agropecuária, em cada uma que você passar eles têm a solução de todos os problemas. Alguns usam de má fé, outros de boa fé. Mas assim, era uma dificuldade porque nós não tínhamos o que oferecer. Aí quando nós diziamos: “Vamos ver de agroindústria” “Pois é, vamos ver. Será que isso vai acontecer? Será que não vai, como é que é isso? Isso vai funcionar, isso não vai funcionar?” E aí também tivemos muitos colegas, que aí que vem, eu busco a formação, todos têm a mesma formação, mas nem todos têm perfil para serem pessoas que vão para extensão rural ou dar orientação pro agricultor. Eu sempre falei, quando você vai na casa do agricultor, que você fala de poda de laranja para ele, você não pode falar da sombra lá tomando chimarrão ou na área. Tu tem que ir lá e serrar, podar, mostrar para aquele agricultor, convencer ele de que, ou fazer uma proposta: “Olha, vou podar aqui um pé ou dois, vamos marcar, vamos monitorar isso e eu vou lhe provar que a poda é uma coisa que vai ser boa, que fazendo certinho os tratamentos vão dar resultado.” E nós tínhamos muitos colegas que não tiveram esse perfil. Tanto que na região nós tínhamos 19 técnicos a campo, ninguém tinha na região, e olha a nível de Brasil, fora a Emater, lógico, mas assim, de uma instituição que tivesse tanto técnico a campo. Só que os resultados não estavam sendo aquilo que a gente imaginava em virtude de ter um pouco a questão do perfil que depois a gente foi adequando, as pessoas automaticamente foram vendo: “Olha, isso não é para mim, eu acho que vou fazer essa área aqui, eu vou sair.” As pessoas foram se adequando, mas neste início foi bastante difícil, até porque nós não tínhamos recursos, o único recurso que nós tínhamos era do convênio do município porque senão eu acho que muitos colegas teriam saído bem antes.

Nós não vendíamos produtos para merenda escolar, nós não comercializávamos nenhum produto com outra empresa, era exclusivo dali, e pouca coisa a oferecer. Aí depois que foi começando a tomar corpo. Então nesse período de 2007, os dois anos ali da sua fundação foi bem puxado porque não se tinha muita coisa para mostrar. Quer dizer, tinha muita intenção, a gente já sabia o que a gente queria, mas às vezes faltava recurso e aquele suporte da coisa realmente acontecer. E a gente sabe que nas questões do meio rural não é como eu construir um prédio, eu digo, aqui vamos construir um prédio de dez andares, amanhã vem ali e em um ano, dois, está pronta. E na agricultura não, ela tem a questão climática, tem a questão do próprio agricultor também fazer o que ele recebeu de orientação adquirir a confiança e ter a confiança com aquele técnico que está orientando ele. A confiança dentro da própria instituição, ou seja, a Cooperativa, de que realmente a coisa é séria, que não vai acontecer como em outros momentos em que o pessoal se associou e tudo e depois teve que pagar o prejuízo. Porque é esse o objetivo, a Cooperativa, se ela tem sobras a gente reparte, não é lucro, é sobra, a gente reparte. Mas se ela tem prejuízo, ela também reparte entre os associados. Então é isso que as pessoas têm que entender. Então, começamos e aí depois veio essa questão de agroindustrialização. Nós pensamos no início, até então nós nunca tínhamos pensado em descascar mandioca ou macaxeira, hortaliça, nunca. Nós pensávamos em usar uma unidade para trabalhar com mel. E aí, nós tivemos o pessoal da Emater que veio e nos disse: “Ok, mel. Quanto tempo vocês vão funcionar com o mel?” “Ah, aqui, aqui e aqui”. Dentro dos cálculos não daria quatro meses em um ano. Assim, jogando muito alto. Na verdade acho que nem dois. Aí a gente, opa, então não vai funcionar, uma agroindústria não se viabiliza se ela não tiver uma rotina de atividades. E aí que surgiu: “Vocês nunca pensaram em descascar mandioca, já oferecer embalada, pronta?” Porque a gente já tinha uma certa experiência com os agricultores aqui, quem trazia mandioca com casca vendia um pouquinho, quem vendia já descascada e pronta vendia tudo. Então, começamos a pensar um pouco mais nisso e daí, claro, começamos a pensar. Nós temos muita produção de uva, mas essa uva hoje a maioria vai para consumo in natura, alguma coisa para vinho, mas não tinha o suco. E estava surgindo essa demanda do suco, inclusive tem uma lei que diz que o suco de uva integral e puro, ele só perde pro leite materno em propriedade, então ele tem. E estava se focando um pouco nessa questão das escolas e tal, então nós pensamos também a questão do suco e nós temos uma produção. Suco de laranja também porque nós temos uma produção significativa, e aí a gente começou a moldar o que a gente queria. E claro, nesse período, a gente moldou mais ou menos o que nós queríamos, o que nós iríamos focar, e que veio então o projeto junto com a Camargo Côrrea, o Instituto Camargo Corrêa, dessa proposta de um projeto e tal para agregação de valor, proporcionar que o jovem permanecesse nas propriedades, que também houvesse diversificação. Porque nós tivemos muitos agricultores que diversificaram as propriedades, ou têm hoje como atividade principal a mandioca. Claro que eles ainda estão muito focados no tabaco, no fumo, mas muitas hoje têm agregação de valor com a mandioca, com as hortaliças, estão mudando um pouquinho daquele perfil de que sempre vinha se fazendo. Muitos agricultores daqui nunca imaginaram que se iria plantar áreas de terra a nível comercial com mandioca. Até porque sempre se plantou mandioca aqui para fecularias, para produção de farinhas, e ainda muito desorganizado, nada pensando no consumo e tal. Então, aí ela começou a tomar mais corpo e com esse projeto, Tempo de Empreender, que a gente conseguiu avançar mais. Conseguimos na primeira fase estruturar a agroindústria de sucos, a de mandioca, a seleta. Daí a gente começou algumas atividades, começou a rodar, fazer algumas coisas. Aí veio essa parte burocrática de você poder legalizar essas estruturas da Cooperativa. Nesse período também foi se inserindo alguns parceiros do interior como a agroindústria de panificados e outra de derivados de cana-de-açúcar. Enfim e aí, começam as atividades da Cooperativa.

P/1 – E Wagner, me conta um pouquinho como foi esse contato com o Instituto Camargo Côrrea, fala um pouquinho.

R – Bom, a Camargo Côrrea estava construindo a Hidrelétrica Foz do Chapecó e num período da obra eles nos chamaram, as entidades, instituições do município, para uma conversa para um projeto que era o Tempo de Empreender. Eles colocaram o que seria o projeto, o que eles precisavam e tal. Nós participamos, até foi um colega meu que estava nessa reunião e colocou um pouquinho o que a Cooperativa era, como ela já estava estruturada, o que ela já vinha fazendo. Porque nós já fazíamos daí, nós começamos esse projeto em 2009, então desde 2007 já tínhamos um caminho andado e tal. E aí, na época, nessa primeira fase nós tínhamos a parceria junto com o Sebrae, que veio junto com o projeto e o consultor da época disse: “Eu acho que aqui temos já um caminho andado em algumas coisas, nós precisamos acertar mais, ver mais.”

Nós começamos a nos aproximar disso, então foi iniciado. Nessa primeira fase veio cem mil reais de um fundo onde devolvemos 60% dos recursos que a gente pegou para compara de equipamentos do suco, da mandioca e também viabilizamos algumas coisas paras outras agroindústrias do interior. Por exemplo: essa de derivados de cana-de-açúcar não tinha uma moenda grande, era pequenininha, dava muita perda, ruim de trabalhar. Nós conseguimos comparar uma moenda grande que hoje faz de 800 a mil litros/horas; quer dizer, ele facilita, em 30 dias ele moe toda cana que tem na propriedade, pela capacidade que tem o equipamento.

Viabilizamos uma panificadora lá na compara de um forno. O básico para podermos já trabalhar; tínhamos um pensamento, estávamos focando essa questão da merenda escolar no PNAE. E aí tivemos todo um suporte, cursos com Sebrae dentro desse programa, nessa primeira fase.

Nós fizemos diversos cursos ali como o Empretec, por exemplo, que é um curso que o Sebrae oferece aprovado pela ONU. Não é qualquer um que faz o curso, nós tivemos aí 26 agricultores e pessoas da comunidade que fizeram. Hoje tu pode fazer, mas tem um custo e conseguimos viabilizar de graça para todos. E nós iniciamos e terminamos com os 26, que é um curso que eu sempre dizia que era um Big Brother, só que bem melhor. Nós ficávamos lá na sala estudando e trabalhando dia e noite, de segunda até domingo, muito puxado. E às vezes, tinha atividades, tinha que trabalhar de noite porque no outro dia tinha que apresentar. Mas instigava a questão do empreendedorismo. Então foram feitas várias capacitações.

Nós conseguimos nesse período, juntamente ali, construir a missão, a visão da Cooperativa. Os seus princípios e valores, o que a gente quer, como a gente quer. E enfim, cursos de gerenciamento. A gente conseguiu, fizemos várias missões técnicas, saímos, custeado pelo programa, pelo projeto. Então sair e conhecer outras realidades.

Por exemplo, a máquina que comparamos agora, classificadora de laranja, veio de onde a gente conheceu lá de Montenegro, um município aqui do Rio Grande do Sul. Não é que a máquina veio dali, ela veio de São Paulo, mas é de alguém que já tem uma experiência, caminhos andados lá e diz: “Olha, essa é a melhor máquina, esse é o melhor fornecedor, isso faz isso, vocês vão pensando lá assim.”

Como da questão do próprio turismo que a gente foi conhecer na Serra Gaúcha, ali em Nova Petrópolis e Bento Gonçalves, a questão do Turismo Rural, o que precisa, o que não precisa, como que é esse Turismo Rural? Os nossos agricultores, nossos associados indo lá e conhecendo para saber que um senhor lá fez um museu onde era um estábulo. Então ele organizou, limpou, lavou, pintou e tirou o que a mulher dele dizia que era um lixo dentro de casa e eles montaram um museu e hoje  cobram um valor x para pessoa ir lá e resgatar um pouquinho da cultura e tal. Então, foi assim, nesse período, nessa primeira fase.

Depois, nós tivemos uma segunda fase do projeto em que fomos convidados a ir até Goiânia no seminário do programa Futuro Ideal; fomos lá, colocamos um pouco das nossas experiências e tal. E aí, a gente discutiu, ou lançamos a ideia de termos uma certa continuidade ainda. Porque a obra ainda ia continuar mais um período e nós entendíamos que, de repente, poderíamos avançar; porque pro Sebrae já estava pronto o projeto, o projeto foi cumprido, as metas deram resultados. Teria que se pensar em um outro projeto, novo e tal. E nós achávamos que não seria um projeto novo e sim uma continuidade e aperfeiçoamento do que avançou e não avançou. E aí, até na época a gente sentiu que o Sebrae não estaria junto. Nós ficamos até com medo de que este projeto não fosse andar em virtude do Sebrae não estar.

Eu me lembro de nós estarmos no aeroporto de Goiânia, o seu Flávio Blangis disse: “Se o Sebrae não quiser nós vamos fazer igual, nós vamos fazer acontecer porque é do interesse nosso e a coisa está dando resultado.” E tanto que foi feito. Acho que foi a primeira Cooperativa no Brasil a fazer um convênio direto com a Camargo Côrrea, ou com o Instituto Camargo Côrrea; depois de uma fase, nós conquistamos a segunda fase com eles, o que também foi um “alavanque” maior: a gente adquiriu mais equipamentos, adquirimos essa classificadora de laranja, uma caminhonete. Veio recurso para manutenção de uma empresa que nos dava assessoria na questão de orientações. Veio mais recurso para capacitação. Nós recebemos quase 500 mil reais nessa segunda fase que foi o que deu o “alavanque” para essas ações.

P/1 – E Wagner, fala um pouquinho da Biofábrica, do laboratório.

R – Isso. Então nós fizemos toda essa parte de conquista, de avanço. Depois, em 2012 nós fomos convidados novamente para ir no seminário do programa Futuro Ideal em Belo Horizonte, onde o Instituto Camargo Côrrea criou quatro categorias de premiação com o nome do seu fundador, o Sebastião Camargo, Prêmio Sebastião Camargo de Empreendedorismo, uma categoria de empreendedorismo rural, empreendedorismo urbano, empreendedor e empreendedora. E para nossa satisfação, naquele dia, a gente não sabia de nada, nós ficamos como empreendimento rural, como Cooperativa Extremo Norte e eu fiquei como Empreendedor do Ano.

Aí, e em todos esses resultados que a gente apresentou nos projetos, nós tínhamos a Foz do Chapecó, que é o consórcio que agora administra a usina. O consórcio tinha uma proposta de uma inovação para o entorno do lago onde eles atingiram e tal, de buscar alguma coisa de inovação. Em virtude desses resultados com a Camargo, a Foz do Chapecó nos chamou para uma conversa para ver se nós tínhamos interesse de trabalharmos com a Biofábrica ou conhecer mais esse projeto e tal. E a gente colocou que sim, nós colocamos que nós tínhamos a Casa Familiar Rural, do que nós fazíamos dessa capacitação dos filhos de agricultores, que era também o objetivo da Biofábrica, de você mostrar pro filho de agricultor, ou pro próprio agricultor, que hoje existe uma agricultura tecnificada, não precisa ser aquele trabalho penoso e sofrido.

Claro que nem tudo é um mar de rosas, mas tem algumas possibilidades da gente poder ganhar um retorno financeiro maior com algumas atividades de inovação como produzir, por exemplo, um abacaxi orgânico, uma banana orgânica. E aí, surgiu essa oportunidade, nós abraçamos a ideia, mostramos para Hidrelétrica Foz também que nós quando assumimos um projeto vamos até o fim e fizemos  acontecer. Sempre este foi uma visão nossa, porque isso cada vez mais foi nos dando credibilidade e por isso que nós conquistamos algumas coisas tanto com a Camargo Côrrea, como agora com a Foz, com o laboratório. Então hoje, esse laboratório, a gente não tem outras informações, mas a gente vê assim, dentro desse sistema que nós temos, o laboratório, essa tecnologia, o viveiro, a Casa Familiar Rural que busca essa qualificação, não só dos filhos, mas especialmente dos filhos de agricultores, mas também o próprio agricultor.

A questão de orientação técnica para que eles façam o manejo certo, e depois a Cooperativa, na questão de articulação comercial dessas novas atividades que eles vão ter na propriedade, é a primeira do Brasil. E aqui, hoje, a gente tem focado muito nessa questão de frutíferos e ornamentais, que é uma coisa nova que está entrando nas propriedades. Nós estamos agora trabalhando com experimentos, por exemplo:  temos muita variedade de abacaxi que veio de Rondônia, mas a gente não sabe se aquela variedade vai se adaptar aqui. Aqui nós temos muito problema de geada, então estamos trabalhando bem na encosta do Rio Uruguai perto do lago da usina; é algo novo que está se instalando. O investimento aí, acho que chegou a 600 mil reais entre laboratório, viveiro e estruturação, que vem apresentando. Sem contar que os jovens que frequentam hoje a Casa Familiar Rurais estão aprendendo essa técnica de micro propagação, dessa clonagem de mudas, como é isso, e o que isso pode me beneficiar. E ter, na propriedade, de repente, uma atividade diferente, que seja muito mais rentável do que o que sempre vem fazendo. Mas tudo isso também aconteceu em virtude dos resultados que nós apresentamos nesses projetos com o Instituto Camargo Côrrea, que a Foz também resolveu fazer parte do projeto maior da Cooperativa que é o laboratório.

Nós estamos atuando numa linha onde tem a hidrelétrica, mas este laboratório hoje vai trabalhar a nível tanto regional como estadual. Já tivemos aqui, por exemplo, o presidente da Fepagro do Rio Grande do Sul, que é um centro de pesquisa do Estado que faz essa pesquisa. E o presidente da Fepagro, quando veio para nossa região conhecer aqui, também veio com um conceito de Biofábrica. Mas o conceito de Biofábrica deles é de produzir os bichinhos para manter o equilíbrio ecológico. Quando ele vem aqui e conhece toda a nossa estrutura ele disse: “Meu Deus, vocês têm tudo isso aqui e nós nem sabíamos!” Ou seja, nós podemos estar pensando em ter um outro laboratório dos bichinhos, vocês já estão produzindo a muda e nós mantemos o equilíbrio.

E muita coisa de pesquisa que nós temos aqui, a Fepagro não tem. Muita coisa que a Fepagro tem de pesquisa e não consegue fazer com que vá de encontro ao agricultor, que é o objetivo das pesquisas. Só que às vezes elas ficam dentro do laboratório e não conseguem ir até ele, o que nós estamos conseguindo fazer. Então, eu acredito que nos próximos anos, em dois ou três anos, a região vai se beneficiar, e muito, com essa tecnologia. Para você ter uma ideia, nós aqui temos dificuldade de ampliar os nossos canaviais; não para usineiro, mas para produzir o nosso melado batido, açúcar mascavo e doce de frutas. Nós temos dificuldade porque não tem muda. O agricultor, em vez de moer essa cana e transformá-la em produto, tem que - com muito sacrifício pegar aquela vara -, levar para lavoura, ceder ou vender para alguém, para ele poder ampliar o seu canavial, mas isso acontece muito devagar, e hoje nós aqui no laboratório já conseguimos ter muda de cana.

Esse ano, agora no final de setembro, início de outubro, nós vamos colocar umas mudas como experimento. Ou seja, por exemplo, o agricultor vem aqui e diz assim: “Eu quero plantar um hectare de cana e quero as mudas.” “Ok, são tantas mil mudas, tal dia vão estar prontas”. Algo que hoje nós não temos, nós não conseguimos, então o laboratório também vai proporcionar isso. Uma outra coisa interessante: a cana foi uma demanda nossa, nós é que sentimos essa necessidade e o pessoal que trabalha ali, que é da Cooperativa também, começou a pesquisar junto com a empresa que nos dá assessoria, além do pessoal da Universidade Federal de Santa Catarina, mais a Orbe, que é uma empresa de Florianópolis e nos dá suporte. Porque a banana, abacaxi, essas coisas já veio assim: “Ah, vamos testar.” E nós sabemos que aqui nós precisamos. Mas depois está começando a surgir algo nosso, que isso é o legal também da coisa, que não vem o pacote pronto, vocês têm que produzir banana e abacaxi. Além disso, tem essa questão da cana.

Agora está surgindo bambu, que é aquele bambu para fazer artesanato, móveis. Está surgindo. A dificuldade que se tem é, onde que eu compro a muda, se eu quiser plantar isso? Não tem? Então nós estamos trabalhando para que haja essa reprodução; temos suporte da Federal de Santa Catarina que tem um pesquisador e um jovem que estão trabalhando há anos em cima desse bambu. Então uma coisa vai ligando à outra. E mostrar que existe essa agricultura mais tecnificada, que existem essas técnicas de inovação nas propriedades, utilizando pequenas áreas e tendo um alto valor agregado de retorno. Nós tivemos exemplos de algumas propriedades que trabalham com abacaxi e moranguinho, claro que certificadas organicamente que é o que a gente quer focar. Nós não podemos produzir o que todo mundo produz, nós temos que produzir algo diferente, temos que ser diferentes para poder agregar valor. Mas nós tivemos exemplos de propriedades que com um hectare de abacaxi e duzentos metros quadrados de moranguinho faturam hoje 74 mil reais. Então é um valor bastante expressivo pelo tamanho de área que ele está usando.

P/1 – E Wagner, conta um pouquinho para gente como é o seu dia a dia de acompanhar todas essas coisas acontecendo.

R – A gente vai perdendo o cabelo. É o que eu disse, num período a gente começou a ver mais o perfil de cada um, onde que você consegue se adaptar mais e tal. Como eu já vinha de uma parte mais de burocracia, de Prefeitura e outras, então eu fiquei com a parte mais administrativa, mais executivo. E a gente tenta acompanhar todas as estruturas.

No início, como nós éramos em mais, nós dividimos a Cooperativa em departamentos, então nós tínhamos o Departamento da Uva, o Departamento que cuidava só da laranja, Departamento de Bovino e Leite, e tinha o seu responsável e essa pessoa ia articulando e pensando em algumas ações pro ano, a cada semestre. No ano passado nós fizemos uma remodelagem da estrutura porque, por exemplo, fruticultura, até um tempo atrás, nós tínhamos uva, laranja e bergamota, a mexerica. Mas com a vinda do laboratório surgiu abacaxi, moranguinho, banana, maracujá; aí você não pode ter um departamento para cada tipo, até porque às vezes um é mais expressivo e outro não. Então a gente fez uma remodelagem, criamos um departamento da fruticultura e daí sim, se tem interesse no abacaxi vai buscar conhecimento ou orientação para o abacaxi.

Criamos o Departamento de Biotecnologia, que cuida dessa parte do laboratório da Biofábrica, de como é a estruturação dele, das ações. Por exemplo, eu conheço a estrutura, como é, o funcionamento, agora, o dia a dia, não sou eu que faço, tem uma equipe que faz ali e está atendendo a demanda, eles sabem que têm metas a cumprir, têm que trabalhar de noite, de dia, de madrugada, o fim de semana ou feriado, eles têm que cumprir e hoje está acontecendo.

Nós temos nossas unidades de experimento no interior. E eu ainda coordeno a parte das agroindústrias todas, e toda parte gerencial administrativa, então é bastante coisa para pouca pessoa. Por exemplo, nós criamos um site da Cooperativa, nós procuramos manter ele sempre atualizado, mas não é fácil porque você não tem uma pessoa específica que faça. Por exemplo, aconteceu alguma coisa ali, tem um evento, recebeu uma visita, a pessoa coleta lá os dados e já vai lá e posta. A gente tenta fazer isso para você sempre manter atualizadas as coisas e mostrar. Então, nós agora, nessa restruturação também de estrutura física da Cooperativa, nós vamos tentar criar um ambiente um pouco melhor de trabalho e vamos ver se a gente consegue agregar mais uma ou duas pessoas para trabalhar ali na parte administrativa porque hoje é muita burocracia, né? É muita complicação, as coisas são difíceis. A gente já com um pouquinho de conhecimento tem um monte de dificuldade, e às vezes acaba até fazendo algumas coisas erradas, com orientação e tudo. Agora você imagine para aquelas Cooperativas que hoje, não têm esse certo suporte ou têm pouco conhecimento. Então não é fácil, até porque hoje a nossa estrutura também não nos permite ter um quadro de colaboradores maior, porque para você ter isso vai ter que dispor de um financeiro maior para remunerá-las e tal, que também é uma coisa que a gente está tentando buscar com os nossos associados, os filhos dos associados. Mas tem que ter o cuidado, porque senão o que eu acabo fazendo? Eu falo em sucessão familiar, prego isso e tiro o filho de um associado e o trago para cidade colaborar ali na Cooperativa. Claro que também a gente pensa que se for fazer uma contratação aqui a gente dá preferência para o filho do associado, ou que tenha algum vínculo para também valorizar esse associado, essa família. Mas a gente também tem que ter esse cuidado, senão a gente prega uma coisa e faz outra.

Mas o dia a dia é corrido, é puxado. Um pouco também porque eu tenho outras atividades a nível de região, eu assumi agora a Secretaria da Arcarfar Sul, que é a Associação das Casas Familiares Rurais do Sul do Brasil, que é do Paraná, Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, que a sede é em Barracão, no Paraná. De vez em quando a gente tem que estar lá também. Um pouco em virtude da nossa Casa aqui, que daí a gente consegue trazer alguns projetos e articular mais coisas.

Recentemente também assumi o Fórum Regional de Cooperativismo, do Médio e Alto Uruguai do Rio da Várzea, que é um fórum que a gente tem que é um ambiente de discussão das Cooperativas. E sem contar que a articulação, digamos, política e de outras reuniões sou eu que faço mais isso, por isso que às vezes a gente não está na Cooperativa, a gente só vem passear ali em alguns momentos porque estamos indo buscar. Uma das coisas que a gente também entendeu é que quem não participa não tem vez e voz, quem não é visto não é lembrado. Então a gente tem procurado ir, participar dos movimentos, de algumas reuniões, para gente mostrar que a gente existe, que a gente está aí e poder fazer. Claro que ainda a gente vai ter que dar uma melhoradinha, na estrutura física, um pessoal aí para poder colaborar. Temos muito projeto que pode estar acontecendo e fazendo, mas precisa saber onde ele está, como está e escrever, né?

P/1 – Wagner, tirando essa rotina de trabalho, o que você gosta de fazer nas horas de lazer?

R – Olha, eu gosto muito de estar lá na minha propriedade. A gente tem alguns afazeres com os morangos, agora com o orquidário estamos estudando como vai ser a estufa, então gosto mais de estar ali na minha propriedade, e claro, quando a gente tem oportunidade se encontra com os amigos aí, faz algumas festas, que é o que a gente também está tentando fazer com os colaboradores da Cooperativa; porque a gente só se reúne para trabalhar e para discutir problema, ver quem vai fazer, como vai fazer. A gente nunca se reúne para: “Hoje vamos fazer um churrasco aqui, vamos cantar, vamos dançar!” Que é um exemplo até que o pessoal acho que teve numa Cooperativa agora, da Ecocitrus, em Montenegro, que faz isso. Eles têm o momento da reunião deles, de discussão, mas a reunião é feita na casa de um associado; como eles não são muitos, mas vai a família. Aí tem um grupo lá que organiza paras crianças brincarem, estarem organizadas com algumas atividades. As mulheres estão discutindo alguma outra coisa, os homens estão ali, ou depende todo mundo tá junto. Então tentar trazer um pouquinho também disso para que haja essa integração porque senão a gente só fica no trabalho, só no trabalho. E algumas festas da nossa comunidade, né?

P/1 – E Wagner, agora eu vou fazer umas perguntinhas mais de avaliação. Eu queria que você falasse para gente o que você acha que são, talvez, os divisores de água na história da Cooperativa que tenham impulsionado o desenvolvimento da região, essa mudança de mentalidade.

R – Desde que a gente começou a conhecer um pouco mais sobre o cooperativismo, sobre essa questão de ajuda mútua, de você estar num grupo, o que vocês faziam não vai a lugar nenhum, tal. A gente tem percebido que nós temos evoluído muito a nível regional, as nossas experiências aqui, serviram de exemplo para muitos, né? Mas a gente sempre deixou muito claro, tem algumas coisas que avançam, que vai, e tem algumas coisas que têm ainda dificuldade, né? Como em qualquer projeto, nenhum projeto nasce pronto, no decorrer, às vezes, vão surgindo alguns outros problemas, alguns entraves.

Por exemplo: a questão de agroindústria, a gente nota que ainda temos muito problema com legislação, tanto fiscal, quanto sanitária, principalmente sanitária, por quê? As estruturas que estamos utilizando foram adaptadas, elas não foram construídas especificamente. Um exemplo que eu cito: nós tivemos alguns filhos de agricultores que durante todo o nosso projeto aqui com a Camargo, com ICC,  tinham ido embora para centros maiores. Depois disso, a família melhorando, o pai e a mãe vendo que tinham mais ânimo, o próprio filho também enxergando isso, retornou para as propriedades. Ou seja, é o processo inverso; antes tinham ido embora, ou iam para Sadia, em Chapecó, ou na Aurora, ou de dia ou de madrugada, trabalhar de noite. Agora alguns largaram essas atividades porque viram que a propriedade precisa de mais mão de obra, tem condições de melhorar, isso faz com que... Isso às vezes é um resultado que parece que não é muito expressivo, um, dois, que número é esse. Agora, quando você vai lá na família, vê que ela se emociona quando vê que o filho deles, a filha, volta para propriedade; que eles estão ali, vão de fato tocar o negócio e serem os sucessores dessa área, isso não tem como você medir, não há preço que pague isso, né? É um resultado bastante positivo que a gente vê aqui nas propriedades do município, principalmente com as famílias. E é claro, algo importante, os projetos só acontecem quando têm as pessoas envolvidas, você precisa ter as pessoas que se envolvam, que queiram, que nem o fundador da Disney, né? De nada adiantaria ele ter tudo aquilo bonito, se não tivessem pessoas querendo ir lá ver, olhar, participar. Então também de nada adianta nós termos uma Cooperativa que tenha um monte de coisa, que faz um monte de ação, mas não tem as pessoas envolvidas, que são os agricultores.

Mas dá para dizer hoje, muito positivamente, que a gente conseguiu avançar bastante. Temos muito a avançar. Nós agora estamos trabalhando no nosso planejamento estratégico de novo, fazendo uma reavaliação porque o fizemos em 2009, depois com o Instituto Hartmann Regueira - que também foi uma das capacitações que fizemos em gestão, beneficiados pelo Instituto Camargo Côrrea lá em Belo Horizonte -  reavaliamos o nosso plano de ação e agora vamos fazer mais uma avaliação, do que conseguimos fazer e o que não conseguimos, para poder ter bem traçado onde nós queremos, o que nós queremos e como nós queremos chegar. Tanto que nós tínhamos pensado em outras agroindústrias, de desidratação de frutas, isso tudo não está descartado, mas também não é prioridade agora, até porque nós temos uma demanda maior, das unidades que já temos hoje. Então fazer essas avaliações, ir estruturando melhor a estrutura física; de pessoal também,  porque hoje a gente precisa de pessoas qualificadas e capacitadas para poder  orientar, ajudar e colaborar no dia a dia. Tanto nas agroindústrias – que a gente fala que tem que ter as boas práticas de fabricação e também tem que ter as boas práticas lá no meio agrícola - a questão de extensão. Então, acho que conseguimos avançar. E vamos avançar muito mais ainda, estamos aí com alguns projetos novos que vai juntar Biofábrica aqui, a própria Cooperativa, a Casa da Família Rural - que é um pouquinho dessa diversificação de ter uma nova oportunidade, parar com a cultura do tabaco e partir para uma produção muito mais agroecológica, orgânica -  e vamos ter profissionais que vão estar nos auxiliando nesse sentido, o que também  vai dar uma boa de uma repercussão de avanço para as ações da Cooperativa.

P/1 – E Wagner, qual é a importância e o papel dos agentes como a Camargo Côrrea, o Sebrae e a própria Prefeitura na questão do desenvolvimento comunitário?

R – Assim, essas entidades são fundamentais para que ocorra de verdade a questão do desenvolvimento. Até porque quando a gente começou a participar mais com a Camargo, a gente via que antigamente eles diziam, bom, não tinha o foco de investir nessa comunidade. Eles tinham as tais de obrigações, fazia obra aqui e podia investir lá em Rondônia, estariam cumprindo com a questão social. Depois eles também fizeram uma avaliação do Instituto e começaram a ver que poderia ser diferente e eu acho que foi onde eles acertaram muito nessa questão das comunidades serem beneficiárias do que está acontecendo. Nós tivemos a participação do Sebrae, que é o que eu falo, o Sebrae ajudou em algumas fases e em algumas não nos ajudou, mas depende do profissional que vem e também do que você espera.

Às vezes, a gente vem com uma expectativa, com uma angústia, e achando que a empresa ou entidade vai vir e resolver o seu problema, e às vezes você sai com mais um pouco de problema, além do que você tinha. Mas a gente conseguiu avançar bastante também, como eu falei, nas capacitações; os próprios agricultores estarem envolvidos, na gestão, no empreendedorismo, em poder construir algumas coisas, missão, visão, que a gente não tinha nada disso definido. Até o planejamento: o que nós queremos, como nós queremos, como se faz, isso é importante, não é?

E o município também, nós tivemos um período que o município foi muito parceiro. Uma grande dificuldade que a gente ainda vê nos municípios pequenos é que as Prefeituras, ainda, num período elas são parceiras, em outros não, depende quando troca a gestão, às vezes aquele não é o foco do prefeito, da administração. Ou às vezes não querem que aquele grupo cresça porque eles podem perturbá-los politicamente, quem sabe, mais para frente. Então há isso ainda, nível de Brasil, na nossa região ainda tem bastante forte, principalmente nos municípios pequenos. Mas de qualquer forma qualquer um, de uma maneira ou de outra, contribuiu e fez com que houvesse essa evolução. O que a gente vê é que quando nós conhecemos a Camargo, que a gente tinha uma estrutura e eles tinham um projeto, juntou as coisas, né? É como muitos falavam: “Não, mas a Camargo tem obrigação de fazer a questão social, eles têm obrigação, compromisso com Ibama, compromisso com não sei quem.” Nós sempre dizíamos: “Se eles têm esse compromisso ok, mas nós temos que aproveitar da melhor maneira esse ‘certo compromisso’ e aproveitarmos melhor.” Que foi o que nós fizemos; poderíamos ter somente uma fase e parado, mas não; a gente buscou conversar, mostrar o que poderia acontecer mais, tal. E por isso também que nós conquistamos uma segunda fase com a própria Camargo. Isso proporcionou, para comunidade aqui hoje, um avanço tremendo. Porque com certeza a Cooperativa não estaria no patamar em que ela está hoje, mesmo com as dificuldades que ela tem hoje, teria muito mais. Nós não teríamos uma classificadora de laranja, os agricultores não estariam ganhando hoje dois, três mil reais a mais na safra de laranja; nós não teríamos uma caminhonete para buscar ou levar o produto; ou as agroindústrias estruturadas com equipamentos, câmaras frias. Nós perdemos muita mandioca porque não tínhamos câmara de congelamento. Nós chegamos a botar até 15 mil quilos de mandioca, toda processadinha, bonitinha, embaladinha, fora porque estragou. E hoje nós temos câmara de congelamento que resolveu o nosso problema. E isso foi proporcionado nessa segunda fase do projeto. Então tem avançado bastante, tem proporcionado, sim, o desenvolvimento tanto local como regional porque em nível de região, temos um certo respeito e um respaldo em virtude dessas ações. E claro, por esses investimentos. Porque, como eu disse, se não tivéssemos isso, nós teríamos avançado em algumas coisas, mas não o tanto quanto nós já avançamos.

P/1 – Wagner, vou só fazer umas perguntinhas finais. Quais são seus maiores sonhos hoje?

R – Bom, um dos meus maiores sonhos é ter toda a minha propriedade estruturada, como eu imagino. Às vezes a gente senta na área e fica olhando, vai imaginando o que vai ter aqui, o que vai ter lá. E eu acho que um dos maiores sonhos meus é -  não sei se a palavra é provar ou mostrar - mas que o que a gente vem defendendo como Cooperativa, e principalmente do Extremo Norte, porque nada impede de nós termos outras Cooperativas na região, ou mesmo no município. Mas dentro daquilo que nós propomos desde o início, daquela ideia que seja uma Cooperativa que realmente esteja preocupada com seus associados e não com estrutura física; que  pense no associado e que possamos agregar valor na agroindustrialização, em termos uma comercialização diferente utilizando esses programas sociais; que ela seja realmente algo que veio e que é bom para nossa região, principalmente no município.

P/1 – E o que você achou de dar a entrevista para gente e voltar para história lá atrás, chegar até hoje?

R – Eu acho que foi bem legal, bem interessante. Faz a gente também, no momento que você começa a falar, começa a imaginar muitos anos depois, ou te imagina lá já, você relembra. É bom. Isso também é uma coisa que veio do projeto que a gente tinha com a Camargo e o Instituto; muita coisa aconteceu para Cooperativa vai ficar na história. Por exemplo, duas premiações pro município de Alpestre, da Camargo Côrrea. Pode ser que isso aconteça em outras, pode ser que não, mas nós somos os primeiros. Outros: revistas, livros, que saíram também que a própria Camargo dizia: “Não, o pessoal lá de Alpestre, da Cooperativa.” Isso também acho que é uma questão de valorização do trabalho que a equipe vem fazendo.

P/1 – E Wagner, o que você acha da Camargo Corrêa resgatar, através do Museu da Pessoa, a história dessas parcerias através da experiência vivida das pessoas?

R – Eu acho que isso é uma coisa inovadora porque começa a valorizar e deixar esse marco dessas pessoas que vão passar porque nós não vamos ficar eternamente, né? Então eu acho que é muito interessante e eu vejo como uma questão de valorização mesmo, dessas pessoas que estão envolvidas porque não é só o Wagner, tem toda uma estrutura, tem toda uma equipe que dá suporte e faz as coisas acontecerem. Mas é algo que eu vejo com bons olhos e que vai ficar marcado, não só paras entidades, mas principalmente acho que para história da própria Camargo Côrrea.

P/1 – Então em nome do Museu da Pessoa e do Instituto Camargo Côrrea a gente agradece por você contar sua história de vida

R – Nós que agradecemos, obrigado.

P/1 – Muito obrigada!

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