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História

Empreendedorismo é empoderamento

História de: Irani Aparecida Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2021

Sinopse

Irani passou a maior parte da sua vida vivendo na periferia da Zona Norte. Narra sua história a partir da infância, quando começou a trabalhar. Seu apreço pelos estudos garantiu-lhe uma bolsa num colégio tradicional. Já adulta, consolidou-se como uma instrumentadora cirúrgica reconhecida. Concilia a carreira profissional com a maternidade e a atuação em movimentos sociais, tornando-se uma referência da luta por moradia na Zona Norte de São Paulo. 

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História completa

Eu sempre gostei de estudar, de todos os meus irmãos a única que tem formação superior fui eu, e fui a que tive menos oportunidades. Se por na balança, quando meus irmãos nasceram já estava mais fácil para estudar, mas na minha época não, era muito difícil, era muito sacrificado, mas eu gostava muito. Meu pai, porque não teve estudo, minha mãe também, incentivavam a gente para estudar, assim, no sentido de “tem que estudar”.

Minha mãe falou: “Precisa estudar, mas precisa trabalhar também”. Aí eu fui morar na casa de uma mulher para poder estudar, só que a ideia dela era que eu ficasse vinte e quatro horas lá, trabalhando. Quando ela viu que a minha mãe não ia deixar eu ficar sem estudar, fomos procurar escola. Ela passou na frente do Colégio São Luís, aí eu falei: “Olha uma escola aqui”, aí ela olhou para mim e falou tipo: “Meu, você acha que você vai estudar aí?!”. Foi muito engraçado, porque ali ela me desafiou. Era assim: levantava às seis da manhã para fazer café, botar as crianças para ir para escola, arrumava o apartamento, era um apartamento gigante, e era eu e uma outra moça, a Divina, a cozinheira. Eu não tinha muito a oportunidade de sair, porque era muito trabalho, a gente ia dormir quase onze horas, meia-noite, todo dia, mas eu aproveitava quando ela saía de casa para dar umas andadas, e nessas tava no final do ano, eu falei: “É a minha oportunidade de procurar escola”, aí eu fui lá no São Luís. Aí eu cheguei e falei: “Moça, como que faz para estudar nessa escola?”, aí ela falou: “Aqui é pago, vai lá na secretaria”, aí eu falei: “Mas não tem como pobre estudar nessa escola?”, eu fiquei debatendo com a mulher da secretaria, aí ela falou: “Vai lá na sala do Padre que ele vai conversar com você”. O Padre Quevedo tava naquela época no São Luís. Aí eu fui lá, falei: “Moço, eu queria estudar”, aí eu contei a minha história. Ele falou: “Faz uma prova que se você for bem, eu vou te dar bolsa”. Consegui ir lá fazer a prova rapidinho, fui bem, aí ganhei a bolsa de quase 100%. Eu não contei nada para ninguém. Fiz a matrícula. No dia que ia começar as aulas, eu falei: “Tia Helenita, minhas aulas começam hoje e eu vou ajudar no jantar cedo para ir para a aula, vou estudar a noite”. Aí ela: “Mas onde você conseguiu?”, eu falei: “Lá no São Luís” (risos). Ela ficou de boca aberta, eu falei: “Eu fui uma das melhores notas, consegui bolsa quase 100%”. Ela ficou feliz, ficava se exibindo para os amigos dela: “Olha, ela entrou no São Luís, quem trabalha comigo se dá bem”.

Quando eu era criança, fui no centro da cidade com a minha mãe e passei em frente ao Banco do Brasil, aquele que tem ali entre a Rua Líbero Badaró e a São Bento. Eu falei para minha mãe que ia trabalhar naquele prédio, aí a minha mãe: “Larga de ser besta, menina”. Falei isso, ficou no ar. Aí depois de muitos anos eu volto e o meu primeiro emprego foi lá. Todos os lugares que eu falei que ia trabalhar, eu trabalhei, e nem foi uma coisa que eu fiquei perseguindo, foi uma coisa que acabou indo para aquele lado.

Eu me lembro que estava descendo a avenida Paulista, quando vi um cartaz sobre o curso de instrumentação cirúrgica. Eu fui fazer esse curso e quando eu comecei, além de gostar de estar numa cirurgia, tinha a questão que era o que eu teria de mais próximo da medicina. Porque eu não tinha condições para fazer a faculdade. Intelectuais até tinha, mas não tinha condições de bancar uma faculdade de medicina mesmo que fosse de graça, porque a faculdade de medicina nunca é de graça, os livros, os recursos são muito caros. Aí eu fui fazer esse curso no Hospital Pérola Byington. Eu me destaquei entre as alunas e passei a ajudar nas aulas. Eu formei mais de quinhentos alunos nessa área, acompanhando os estágios.

Quando eu me formei, você vê a dura realidade e que é um curso de status. Você só entra para essa área se tiver quem te indique, e eu não tinha. Eu já não tinha o perfil: pobre, preta, não tinha carro e nem uma boa indicação. Então, eu decidi ir ao Hospital Cachoeirinha, cheguei numa sexta-feira num plantão, procurei o cirurgião principal e falei pra ele: “Doutor, preciso estar no meio para conseguir um emprego e ser indicada. Eu trabalho um ano pro senhor de graça e quem sabe eu consiga me inserir no mercado assim”. Aí ele falou: “Fechado”. Só que eu mal sabia que ele era o demônio do hospital. O cara era o cirurgião top, mas ele era odiado no hospital. Aí logo de primeira entrou um baleado. Eu mal tinha pisado no centro cirúrgico, o médico já entrou com o baleado na maca, tinha aberto o peito do cara no pronto-socorro. Aí ele virou a caixa instrumental em cima da mesa, mais de quinhentas peças: “Agora instrumenta”. Foi terrível, mas eu dei conta. Ele falou: “Passou no teste”. Aí eu passei a instrumentar para ele. Fiquei um ano lá trabalhando de graça. Toda sexta no plantão dele eu ia para o hospital e foi bacana, conheci muita gente lá. Aí conheci uma menina que acabou me chamando para cobrir um dia a equipe dela e caí no mundo da cirurgia. Faz 26 anos já.

Eu soube que tinha uma reunião de moradia para conseguir apartamento do governo e comecei a frequentar essa reunião. Eu passei para titular e fiquei sabendo que o apartamento que eu ia morar chamava Ilhas Gregas. Foi quando entrou a politicagem no meio. A gente acreditava piamente que aquele movimento era sério, que eles iam entregar a moradia para a gente. Aí a cada mês a nossa reunião era num local diferente; nisso, se você faltava uma vez, ficava para trás e não conseguia mais acompanhar o grupo. Eu perdi o contato, fui atrás, os telefones não existiam, aí eu fiquei indignada, tomei raiva, falei: “Esse negócio de movimento social é tudo enganação”. Eu fiquei com uma bronca danada por muitos anos.

A mídia vende uma imagem assim: movimento de moradia é tudo vagabundo, que quer casa de graça. Não é nada disso. Então tem umas estratégias, tem umas coisas que eles fazem para não chocar com a lei: vai ocupar um prédio, qual é a situação desse prédio? Então tinha esse cuidado, que as pessoas não viam. Eram prédios que o proprietário já devia milhões para a prefeitura, que a prefeitura já deveria ter tomado aquele imóvel e não tomou, porque não quer arrumar inimigo político. Então tinham essas questões.

Eu percebi que as famílias da Zona Norte eram chamadas pra luta por moradia, mas quando você ia lá para mesa negociar, eu não via nada sendo negociado em nome da Zona Norte. E o que eu entendia é que as famílias da Zona Norte não querem morar em outro lugar, elas querem morar na Zona Norte. Eu comecei a ficar chateada com isso. Acho que tinha que ter explicado isso para as famílias e não era explicado. Aí chegou um momento quando o Haddad anunciou o Conselho Participativo na televisão, eu já acompanhava o Plano Diretor desde 1990, e eu sempre fiz acompanhamento dessas coisas de governo. Eu queria aprender. Quando anunciou o Conselho Participativo na televisão, eu achei aquilo o máximo, porque falaram assim: “Você vai fiscalizar o governo”.  Aí eu falei: “Sinto que hoje o movimento não me representa, então eu queria sair”. A eleição do Conselho Participativo era em dezembro, a Carmen foi para Brasília e falou: “Irani, vamos fazer uma chapa”. Eu fiquei super feliz, criei todo o material. Só que nesse intervalo de tempo ela ligou na gráfica, mandou tirar o meu nome da chapa e passou essa chapa para todas as ocupações dos movimentos, então ela me boicotou.  Mas a eleição ocorreu. Estou eu lá em casa, aí me liga o subprefeito da Vila Maria: “A senhora entrou para o Conselho Participativo da Vila Maria, seja bem-vinda”. Aí descobri que com os votos do Jardim Vista Alegre eu entrei em primeiro lugar na Vila Maria. Ah, quando eu descobri foi uma sensação que você não tem noção. E aí foi quando eu rompi definitivamente com o movimento.

A gente criou a ALMEM (Associação de Luta Por Moradia Estrela da Manhã), fizemos a carteirinha, tudo bonitinho, e estamos até hoje com essa Associação. A gente foi para todas as audiências públicas de orçamento, de habitação, de educação, de cultura, de saúde, todas. Hoje a gente tem quatro anos de CNPJ e dois projetos indicados no governo.

Na ALMEM a gente tem cinco alugueis que a gente paga, que são os espaços onde a gente faz reunião; a gente tem um projeto que chama Mulher Acolhe, onde eu tiro a mulher vítima de violência da comunidade, usando o meu trabalho de PLP (promotora legal popular). Alugo uma casa para ela com o dinheiro da contribuição da Associação. Eu faço vários projetos, por exemplo, para mulher grávida, a gente compra enxoval, ajuda a comprar as coisas. A gente compra cesta básica e dá para famílias. Família chegou pra mim com fome. Tem dinheiro no caixa, vai ganhar comida. Os projetos sociais que eu faço não são dentro da ALMEM, são nas comunidades do entorno; eu entendo que quando ajudo a comunidade a melhorar, a lutar por algum espaço, estou tirando essa comunidade da minha frente na fila da COHAB. Então eu vou ter o meu retorno de alguma forma. Tem seis comunidades que a gente ajuda às custas dos associados, e aí eu falo pros associados que eles têm que ter um trabalho social, uma participação social, além de irem nas audiências públicas.

Quando a gente vê qualquer coisa que beneficie a população a gente insere eles, então eu entrei pra Rede Social da Zona Norte, já tem uns dez anos. Quando saiu a proposta do Mil Mulheres, foi uma proposta da Rede também, numa das reuniões da Rede com o SEBRAE. Teve a ideia da gente trazer as mulheres pro projeto Mil Mulheres, falei assim: “Tem um monte de mulher que precisa se empoderar”. A ALMEM foi uma das madrinhas do projeto. Tem um monte de gente que saiu de lá empoderada, que está com outra visão; muita gente que não conseguiu nada, mas que já sabe o que quer. Esse que é o bacana, alguém foi beneficiado porque você tinha um conhecimento e passou. Isso me faz lutar todos os dias, saber que tudo o que eu sei não é meu, é pra ser compartilhado, então eu tenho que reproduzir isso. Eu não gosto de politicagem, mas gosto de política. Então hoje em dia, quando me apresento, eu falo: “Olha, eu sou articuladora política e mediadora de conflito entre o Estado e a comunidade”.

Eu nunca quis ser mãe, acho que não tenho muito trato. Eu aceito as adversidades da vida com muita naturalidade, e mãe é carinhosa. Aí eu me apaixonei e tudo que eu quis ser foi mãe, apesar que a minha primeira filha foi um acidente, mas o meu segundo já foi planejado. Eu sempre fui uma mãe muito dura, sempre ensinei para eles o que é correto, mas eu sei que eles têm muito orgulho de mim.

Eu tenho um irmão que é perdido nas drogas. Fazia mais de cinco anos que eu não via ele e sabia que ele estava no mundão, e aí foi uma escolha dele, porque ele também é uma pessoa extremamente inteligente, trabalhador, honesto. Até que um dia tocou meu telefone, era a maternidade do Cachoeirinha: “Se a senhora não vier buscar a criança que está aqui, a gente vai mandar ela pro abrigo”. Cheguei no hospital e falei: “Mas como o meu nome foi rolar nessa história?”. A pessoa da maternidade falou: “O seu Roniele”, que é o meu irmão, “foi socorrer a mãe na hora do parto”. Pediram um telefone de contato e o único que ele lembrou foi o meu. Fazia cinco anos que eu não tinha contato nenhum com o meu irmão, mas eu tinha mais ou menos uma noção de onde ele estava. Fui lá, achei ele, levei ele pra casa da minha mãe, dei sabão e shampoo, falei: “Ele vai lá no cartório comigo registrar a menina”. Aí ele assumiu a paternidade - hoje a gente sabe que é filha dele mesmo - e eu pude pegar a menina. Passaram dois anos, me ligam de novo: “A senhora não vai vir buscar a criança?”. Eu falei: “Que palhaçada é essa?”. “Nasceu mais um e a senhora tem que pegar”. Minha família já estava achando tudo isso um absurdo, porque eu já tenho a minha vida corrida. Falei: “Aqui é pobre, onde come um, come dez. Vou pegar mais esse”. A mãe que eles conhecem sou eu.

A maternidade me ensinou muita coisa. O mais importante foi o medo. Eu não tinha medo de nada, eu desafiava bandido. Mas depois que eu fui mãe, eu penso muito antes de fazer uma coisa, penso nos meus filhos. Antes eu não tava nem aí. Não que eu não amasse a minha vida, amo minha vida, mas eu não tinha esse receio, esse freio do medo te parando pra repensar. A maternidade foi fundamental pra minha mudança de personalidade, minha melhora como ser humano, tudo.

Quando eu empreendo em alguma coisa, eu estou apostando em alguma coisa, e aquilo tem um resultado se eu fizer a coisa certa. Quando você fala “empreender” hoje em dia, tá falando de negócio, de dinheiro. Mas pra mim é mais que isso, empreendedorismo pra mim é empoderamento, é você aprender, fazer algo que vai te melhorar como pessoa; te dar algum retorno financeiro, mas que você vá aprender e crescer. Então empreendedorismo pra mim é muito importante.

O meu empreendedorismo hoje é no social. Para mim pode ser só passar informação, mas eu vou transformar a vida de outras pessoas. Então está focado no empreender pro conhecimento da política pública e do seu direito, do que você consegue fazer, o que pode fazer, das oportunidades que tem no mercado, na sua região. Pra além disso, o empreendedorismo me faz ser uma pessoa melhor, me fortalece, me traz algo que pode não ser financeiro, mas empodera, aumenta alguma coisa, seja conhecimento, poder da informação, qualquer coisa. O empreendedorismo, quando chega pra periferia, pra comunidade, é uma saída, uma maneira de você aprender a desenvolver aquilo que quer, aquilo que você nem sabia que queria. O empreendedorismo vem para salvar e empoderar as mulheres.



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